2. VOLUNTARIADO, COMUNICAÇÃO E CIDADANIA NAS EMPRESAS
4.3. Análise dos dados
4.3.2. Interações comunicativas a partir do programa de voluntariado
Conforme descrito no capítulo III (Metodologia), entre todas as interações comunicativas que se desenvolvem a partir do programa de voluntariado, as de interesse para esta pesquisa são aquelas que ocorrem entre os agentes voluntários, independentemente de serem do mesmo subcomitê de voluntariado, e entre estes e a empresa, representada por suas políticas, normas de conduta, rotinas e hábitos associados ao processo de trabalho, discursos e práticas de seus agentes institucionais (no caso, o líder do Comitê Central, os líderes dos oito subcomitês de voluntariado, o responsável pela comunicação da empresa, o gerente de Recursos Humanos e o responsável pelo Pró-Voluntário na Fundação Belgo). Portanto, neste
estudo não houve a preocupação de analisar, por exemplo, as interações comunicativas dos agentes voluntários com a comunidade beneficiada por suas ações ou com os fornecedores que participam do programa.
Com base nas discussões de Deetz (1998) e de Reis (2000) sobre os modelos de interações comunicativas presentes nas práticas organizacionais, e apresentadas no capítulo II deste estudo, e na interpretação dos dados reunidos na pesquisa de campo, foram definidas algumas categorias de análise. O desafio imposto pelos propósitos deste estudo foi o de requerer que fossem eleitos, entre os processos comunicativos identificados, aqueles que conduziriam a respostas às questões centrais da pesquisa, isto é, que permitissem identificar como o voluntariado se configura na empresa e qual é o modelo de interação comunicativa dominante no programa de voluntariado. Com essa preocupação em mente, cheguei a três categorias de análise: 1) “Abertura para a participação”; 2) “As marcas institucionais no programa”; 3) “Identidade”.
A primeira delas compreende quatro processos que se constroem a partir de uma questão central para a caracterização de uma prática comunicativa, que é a maior ou menor abertura para a participação. Foram analisados: a decisão dos agentes voluntários de fazer parte do programa; o processo de escolha dos coordenadores dos subcomitês; como os voluntários definem suas ações e, finalmente, a forma de lidarem com conflitos e diferenças de opinião que surgem, às vezes, dentro de um mesmo grupo.
A segunda categoria reúne as evidências da presença da Belgo - suas políticas, normas, procedimentos e estrutura - na condução do programa, dando visibilidade às interações comunicativas que organizam o trabalho voluntário na empresa. Foram analisados os seguintes aspectos: as relações hierárquicas dentro dos grupos de voluntariado; a oscilação entre a relativa independência dos voluntários para tomar decisões e os mecanismos da empresa para não perder as rédeas do programa; o papel dos agentes institucionais no
Pró-Voluntário e como a marca Belgo, tradicionalmente associada a trabalhos sociais voltados para a comunidade, influencia as atividades dos agentes voluntários.
A terceira categoria trata da identidade, entendida como fonte de experiência e significado por meio da qual os atores criam identificações simbólicas para justificarem suas ações (CASTELLS, 1999b). Aqui a preocupação foi mais a de reconhecer essas marcas no discurso dos agentes voluntários do que a de analisar essas construções simbólicas, seus significados e procedência, visto que tal procedimento conduziria esta pesquisa para um outro enfoque. Portanto, essa categoria limita-se a apontar uma possível relação entre a disposição para a prática do voluntariado e a história de vida dos agentes voluntários e como um determinado traço cultural da empresa parece influenciar o programa de voluntariado.
Por fim, é importante lembrar que, na prática, os processos não se fecham nos limites estabelecidos pelas categorias forjadas aqui como recurso para possibilitar a análise de dados. Na dinâmica das interações comunicativas, os processos se cruzam, formam pontos de interseção, coincidem, interpenetram-se, encaixando-se, muitas vezes, em mais de uma categoria.
Para cada aspecto analisado, são apresentados trechos de depoimentos colhidos nas entrevistas individuais ou em grupo, em que se procurou preservar a força expressiva e a riqueza das falas dos entrevistados, para confirmar as impressões da pesquisadora. Em alguns momentos, esses depoimentos são acompanhados de comentários que revelam a posição de seus autores na estrutura do voluntariado, informam sobre o comportamento do entrevistado ou sobre elementos do contexto em que os depoimentos foram colhidos. Tal prática foi adotada onde contribui para a compreensão do que estava sendo dito, conforme pode ser conferido a seguir.
• ABERTURA PARA A PARTICIPAÇÃO Decisão de participar do Pró-Voluntário
Ao que parece, os agentes voluntários da Usina de Monlevade não se sentem pressionados a participar do Pró-Voluntário por se tratar de um programa da empresa. Como contou um dos agentes voluntários, o trabalho foi iniciado “com as reuniões, com a participação de quem queria participar”. O fato de haver pessoas em cargos de chefia na liderança do Comitê Central ou na coordenação de um dos subcomitês, também parece não ser determinante da adesão ao programa. Ao contrário, outros fatores, como um passado ligado ao voluntariado, um hábito herdado da família, convicções religiosas, a influência do colega, a sensibilidade para os problemas sociais ou simplesmente a vontade de ajudar, parecem ser muito mais importantes para determinar a participação no programa, como demonstram os depoimentos dos agentes voluntários44.
Existe uma série de questões que você tem que responder, mas a principal é você ter disponibilidade para exercer isso e fazer aquilo de coração mesmo, não adianta só fazer um trabalho só porque é bom ou alguém falou, às vezes acontece isto, mas não dá certo porque você não fica lá.
Eu sou voluntário porque gosto, gosto de fazer e não porque alguém me colocou aqui nesta função. Então, você já tem isto no seu dia-a-dia, como método de vida.
Esta é a minha expectativa [...] quero contribuir para alguma coisa, porque se cada um fizer um pouquinho, a gente consegue coisas relevantes, mesmo que a nossa contribuição não seja tão grande.
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Em todos os subcomitês, os entrevistados afirmaram existir pessoas que se inscreveram no programa, mas que não têm atuação constante ou que só participaram no começo. É possível que esses empregados tenham sido levados a se inscreverem no programa por motivos diferentes dos apontados pelos participantes assíduos. No entanto, essa possibilidade não foi checada já que o grupo em questão não fez parte do universo deste estudo.
A pessoa quando é voluntária faz esse trabalho e já tem isso dentro de si mesma, não dá para ser voluntário se você não gosta de ajudar e de ser voluntário. Não adianta você falar: ‘Eu vou ser voluntário porque meu tio quer que eu vá´[...] Para ser deste grupo, tem que gostar, é da alma [...] Não é o chefe que vai te colocar neste negócio.
Antes de existir o Pró-Voluntário, as pessoas que formam este grupo já desempenhavam papel de voluntário e vão continuar fazendo.
À medida que vinha aqui fazer reunião, o pessoal levava a gente lá [na creche]. Saímos daqui com quatro pessoas e chegamos lá com nove, um foi falando para o outro. Foi feita a divulgação e quem quis foi lá conhecer, tem gente que foi lá várias vezes. Tanto quem está na empresa há cinco meses quanto quem está há vinte anos se sensibiliza com o projeto.
Tem gente que gosta e é voluntário. Se você lança uma idéia ele vai e a abraça, está no sangue dele. Mas tem que ter perseverança e a gente liga para o pessoal avisando da reunião e ficamos em cima. Então, dentro do grupo, tem a turma que quer e a outra que vai empurrada, mas vão (sic). Não vão na frente, mas vão acompanhando e a outra vai puxando.
O desejo de integração à empresa e à comunidade parece ser um motivo a mais para aderir ao programa, principalmente entre os jovens com menos tempo de casa.
As áreas de produção são como se fossem empresas independentes. Uma pessoa que trabalha na Laminação nem me conhece e eu não a conheço. Cada um tem o seu trabalho aqui, como se fosse uma outra empresa [...] Com o voluntariado, você conhece várias pessoas de outras áreas [...] (Depoimento de um voluntário, com três anos de casa)
Os agentes voluntários também não temem que a decisão de abandonar o programa possa surtir efeitos em seu relacionamento com a Belgo, conforme declarou um participante de uma das entrevistas grupais.
Não muda nada, só não vou encontrar a turma daqui, nem vou me sentir bem fazendo o que faço hoje, mas em relação à Belgo, não vai mudar nada. Ninguém me cobra nada de Pró-Voluntário [...] Hoje dentro da empresa temos uma transparência no relacionamento a nível (sic) operacional e administrativo.
A escolha dos coordenadores
Os coordenadores dos subcomitês foram eleitos pelos participantes da reunião de lançamento do Pró-Voluntário. A votação aconteceu depois que os empregados apresentaram quais seriam as áreas de trabalho em que teriam interesse de atuar. Dois dos grupos (Primeiros Socorros e Idosos) já estavam formados antes mesmo do lançamento do Pró-Voluntário e não passaram pelo mesmo processo. Nos grupos maiores, observa-se uma forma de coordenação itinerante: o coordenador “oficial” entrega a outro agente voluntário a responsabilidade de coordenar determinado projeto do grupo.
O [cita o nome do voluntário] sempre teve um sonho de fazer uma campanha dos brinquedos para as crianças filhas dos funcionários das empresas terceirizadas. Então, ele é o coordenador [...] É muito democrático [...] Cada um tem sua especialidade. Se ele [o voluntário] tiver mais afinidade [com o projeto] [...] ele já traça as diretrizes e [...] fica sendo o coordenador do projeto.
Estava interessado em trabalhar alguma coisa nessa área, mas não como líder [...] Apresentei sugestões e o pessoal lá resolveu me colocar provisoriamente como líder. Acabou que fiquei líder, a intenção é trocar de liderança depois de um tempo, mas foi mais por isso, porque eu dei algumas sugestões e o pessoal achou legal, e como você sabe, se você dá uma opinião já é um provável candidato [...] e eu concordei em ajudar a engrenar isso aí.
As pessoas presentes que foram convocadas a participarem do grupo fizeram uma votação rápida. O grupo escolheu o coordenador e uma pessoa tipo subcoordenador.
Dessa reunião já comecei como coordenador. Acho que no ano que vem eles deveriam trocar e dar oportunidade para outras pessoas.
Como definem as ações de voluntariado
A realização de reuniões para a definição das ações dos voluntários é uma prática seguida por todos os grupos. Cada subcomitê tem um calendário próprio de reuniões e autonomia para decidir sobre suas ações, embora todos mantenham o Comitê Central informado sobre o que foi definido. Os repasses ao Comitê Central são feitos por meio de reuniões formais (a cada dois meses, em média), pelo repasse das atas (todos os assuntos discutidos são registrados), ou ainda, em encontros informais com o coordenador do Comitê. Para que uma decisão seja implantada, o grupo busca o consenso.
Existe uma exposição, aí se mostra o projeto, mostramos os resultados esperados, o que há de inovador, havendo maioria de votos a favor, é aprovado, ou então, ele é redesenhado. Cada um pode levar sua proposta e a ela serão colocadas outras coisas. Nada pode ser aprovado sem ser analisado.
[...] tudo é discutido lá [...] a decisão é tomada na reunião, é conjunta [...] é colocado e discutido o programa, nós procuramos fazer um programa para o ano. A decisão é bem à vontade, [...] a decisão é tomada ali [...], feito isso, faz-se uma ata.
É democrático.
A gente não pode ter muito freio e tem que ter a rédea, mas não pode podar ninguém [...] A gente reúne e o grupo define, num consenso, o que vamos fazer [...] Fizemos uma palestra, no início da formação do grupo, para falar que o que o grupo decidir é o grupo, e não é cada um pessoalmente, e vamos trabalhar para fortalecer essa idéia de grupo. Deixamos isso bem claro.
As datas e horários dos encontros são anunciados nos quadros de avisos; quem é mais freqüente no grupo geralmente também recebe um e-mail e/ou um telefonema para confirmar presença. Um agente voluntário conta: “Temos cuidado de tomar decisões na reunião. Se tiver duas pessoas na reunião, não interessa, porque eu coloco no quadro de avisos [...] Às vezes
você conversa com o pessoal mais fora do que na reunião”. As reuniões geralmente acontecem durante o horário administrativo (de segunda a sexta-feira, entre 7h e 17 horas), para favorecer a participação, e em local de fácil acesso dos empregados, inclusive daqueles que possam estar de folga ou trabalhando em outro turno. Mesmo assim, os entrevistados apontam dificuldades para reunir os agentes voluntários na hora de tomar decisões. O ritmo apertado do trabalho na empresa e o fato de várias pessoas trabalharem em escalas de turnos (em horários diferentes ao longo da semana) parecem ser os maiores empecilhos.
Na verdade, a gente tenta [fazer reuniões], mas o tempo é curto e é muito difícil. Normalmente, damos andamento no projeto, mas nem sempre reunimos com todos do grupo. Então, realmente, troco idéia com [cita o nome do chefe] [...] Não tem muita organização nisso não, eu não consigo ser correta o tempo todo [...] Sabemos que o nosso trabalho é responsabilidade nossa e acho importante a Belgo dar para a gente carta branca para resolver estas coisas.
Mandei chamar todo o grupo para a reunião e aí fui recebendo notícias dizendo que as pessoas não poderiam vir. Aí, vem o negócio da motivação. Pensei: vou chegar lá e será que terá alguém lá? [...] Tinha treze pessoas que eu nem esperava que fossem comparecer.
O que é decidido na reunião costuma ser respeitado, independentemente do número de participantes e ainda que o coordenador não esteja presente ao encontro. O depoimento do coordenador de um dos subcomitês confirma esse fato:
Cheguei na Usina (sic) e como tinha viajado, perguntei se tinham escrito as idéias e o pessoal disse que já tinha mudado tudo. Aí, o [cita o nome do empregado] me passou a idéia e já tinha até plano de ação pronto. Então é assim, falei com ele que gostei deste negócio e a reunião é para amanhã.
É interessante notar ainda que, o fato de o agente voluntário não tomar parte nas reuniões, não significa que ele não esteja disposto para a ação voluntária, conforme mostra o depoimento seguinte:
Poucas pessoas comparecem [às reuniões], umas dez pessoas normalmente. A pessoa quer participar, mas não quer se desgastar com a organização [...], mas eu convido e quem quiser ir vai, mas sempre tem um probleminha ou outro, e depois o povo liga perguntando como foi e pedindo para passar o resultado e o que foi resolvido [...] As definições principais o grupo pequeno é que toma, é muito difícil ter muita gente resolvendo, são várias opiniões. Então, num grupo menor, dá para discutir e chegar num consenso do que vamos fazer e aí a gente repassa para os outros.
Como lidam com conflitos
Se nos subcomitês surgem dúvidas sobre a pertinência ou a viabilidade de um projeto, o Comitê Central é consultado para ajudar a resolver o impasse. Um exemplo ocorreu no planejamento da festa das crianças (campanha do subcomitê de Ação Social) em 2003. A princípio, a realização da festa para filhos de empregados terceirizados não era consenso no subcomitê de Assistência Social. Além do público do evento, a proposta de não realizar a tradicional campanha de arrecadação de brinquedos que precede a festa não eram pontos pacíficos entre os agentes voluntários. O acerto final sobre como seria a festa só aconteceu depois de consulta ao Comitê Central.
Além das questões objetivas e expostas claramente com argumentos prós e contras, como a do exemplo acima, parece existir em alguns grupos uma outra dimensão de conflito difícil de ser identificada com clareza porque as pessoas não falam diretamente sobre ela e geralmente nem admitem a sua existência. Foi possível notar, no entanto, o que parece ser uma disputa pela liderança dentro dos grupos – quem dá as melhores idéias de projetos, quem participa mais, quem tem mais tradição de voluntariado. Pode-se dizer que a existência de pontos de vista diferentes dentro do grupo, no mínimo, causa desconforto entre os agentes voluntários.
É o que pode ser inferido dos depoimentos de dois voluntários do mesmo subcomitê e que participaram de uma das entrevistas grupais. Para facilitar o entendimento, eles serão chamados de agente voluntário 1 e agente voluntário 2.
Vale lembrar que esta campanha do brinquedo foi feita lá fora e eu pegava as doações de quem não precisava e passava para quem precisava. Eu vim com esta idéia para cá [...] Eu não fazia questão de entrar para o grupo devido a diferenças de pensamento que cada um possui [...] Mas o projeto [a campanha dos brinquedos] ficou preso na arrecadação somente, esse trabalho foi maçante demais. Por isso, esse ano, não está mais se cogitando fazer a arrecadação de brinquedos. Fugiu um pouco do projeto. (Depoimento do agente voluntário 1, que há anos realizava a campanha dos brinquedos na véspera do dia das crianças, mostrando, polidamente, o seu ressentimento pelo fato de a campanha não ter sido realizada pelo grupo em 2003)
Só completando o que o [cita o nome do agente voluntário 1] falou [...] esse ano o projeto é mais audacioso, pois envolve as empresas terceirizadas. Não poderíamos fazer essa arrecadação para reverter esses brinquedos para os filhos desses funcionários, [...] pois são crianças com uma criação diferente, elas têm mais acesso a brinquedos do que as crianças mais carentes [...] Isso pode ser considerado até discriminatório por parte das pessoas já que vai dar (sic) uma coisa usada para eles. (depoimento do agente voluntário 2, justificando o porquê de a campanha de brinquedos não ter sido feita em 2003, sem se dirigir diretamente ao agente voluntário 1, mas apenas à pesquisadora)
Eu, nos vinte anos que trabalho com isso, ajudo quem realmente precisa. Eu não faço isso por achar que devo favor a ninguém, eu vou e faço. A minha alegria é de estar ali, junto deles [de quem precisa]. Quando fiz a campanha, eu fiz com esse objetivo de entregar os brinquedos e ver a alegria dessas crianças. Essa minha proposta de trabalho está voltada para esse espírito. (réplica do agente voluntário 1, sem se dirigir diretamente ao colega)
Na seqüência da conversa, o agente voluntário 1 comenta que dentro dos grupos algumas pessoas “andam na frente, outras no meio e outras lá atrás”, ao que o agente voluntário 2 responde:
Esse “anda na frente” é ponto de vista, porque é o andar na frente para resolver uma situação, pois muitas vezes o que está atrás está resolvendo muito melhor do que aquele que vem antes. Às vezes há aquele desabafo de alguma coisa que aconteceu que você comenta com quem está perto de você e acaba que volta o espírito de ajudar os outros. Em qualquer tipo de grupo existem diferenças e às vezes pode surgir isso [...] o coordenador [...] possui outras funções que não permitem que ele esteja presente a todo instante [...] Eu via meu trabalho e pensava: eu estou fazendo a minha parte [...] Pois é o que eu faço, tanto é que tenho até outra turma lá fora.
Tanto a decisão de participar do Pró-Voluntário quanto a forma de escolha dos coordenadores dos subcomitês de voluntariado da Belgo parecem preservar a espontaneidade e a vontade própria do trabalhador, requeridas pelas práticas de voluntariado, como descrito neste trabalho. Elas apontam na direção do que afirma Garay (2001), conforme também já foi apresentado no capítulo II, quando diz que diferentemente do trabalho sob controle, com fins lucrativos, o trabalho voluntário ocorre sem coação, por compromissos com uma mudança maior.
Os vários aspectos dos processos analisados referentes à abertura para a participação indicam, ainda, que as dinâmicas internas do Pró-Voluntário aproximam-se, na maior parte do tempo, de um modelo de comunicação que tende mais para a coordenação de esforços, para a negociação e o entendimento, embora nem sempre essas práticas tenham, no grupo, o alcance que seria esperado - casos dos agentes voluntários que, mesmo convocados, não têm o hábito de participar das reuniões para a tomada de decisões. A dificuldade de lidar com pontos de vista divergentes e de debater (e mesmo de admitir) conflitos nos grupos mostram que a abertura para a participação tem espaço para ser ampliada.
De qualquer forma, trata-se de um modelo pouco comum nas práticas comunicativas que se estabelecem na empresa, fora do espaço do voluntariado. Exemplo disso foi a situação verificada no anúncio da adoção de um novo sistema de planejamento de carreira profissional dos empregados e que acarretou mudanças no organograma e na nomenclatura de cargos na
Belgo. A divulgação do novo sistema coincidiu com o período da pesquisa de campo deste estudo. Durante as entrevistas, alguns agentes voluntários demonstraram ter sido pegos de surpresa com a mudança, embora esta os afetasse diretamente, influenciando seus planos de ascensão na empresa e de perspectivas salariais. Eles tinham dúvidas sobre quem seria seu novo chefe e mesmo sobre sua própria posição no organograma da Companhia. Trata-se portanto de um caso em que o processo interativo se aproxima muito mais do modelo