• Nenhum resultado encontrado

– PósGraduação em Letras Neolatinas

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2018

Share "– PósGraduação em Letras Neolatinas"

Copied!
166
0
0

Texto

(1)

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS NEOLATINAS UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA

MESTRADO INTERINSTITUCIONAL EM LETRAS NEOLATINAS

Línguas em contato, preconceitos e ensino, um estudo de caso:

representação de línguas estrangeiras e indígenas na formação do

profissional de secretariado executivo em Roraima

Luzileide Correia Lima

(2)

Línguas em contato, preconceitos e ensino, um estudo de caso:

representação de línguas estrangeiras e indígenas na formação do

profissional de secretariado executivo em Roraima

Luzileide Correia Lima

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos, opção: Língua Espanhola).

Orientador: Prof. Dr. Pierre François Georges Guisan

Coorientador: Prof. Dr. Elder José Lanes

(3)

TERMO DE APROVAÇÃO

Línguas em contato, preconceitos e ensino, um estudo de caso:

representação de línguas estrangeiras e indígenas na formação do

profissional de secretariado executivo em Roraima

LUZILEIDE CORREIA LIMA

Dissertação de Mestrado submetida ao Corpo Docente do Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários para obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas.

Aprovado por:

___________________________________________________ Prof. Dr. Pierre François Georges Guisan – Orientador

___________________________________________________ Profª. Dra. Ângela Maria da Silva Corrêa

___________________________________________________ Prof. Dr. Manuel Rivas Zancarrón

(4)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Biblioteca Central da Universidade Federal de Roraima)

L 732l Lima, Luzileide Correia.

Línguas em contato, preconceitos e ensino, um estudo de caso: representação de línguas estrangeiras e indígenas na formação do profissional de secretariado executivo em Roraima / Luzileide Correia Lima. – Rio de Janeiro: UFRJ-CLA, 2011. 166 f.: Il.

Orientador: Prof. Dr. Pierre François Georges Guisan. Coorientador: Prof. Dr. Elder José Lanes.

Dissertação (Mestrado em Letras Neolatinas) –

Universidade Federal do Rio de Janeiro. Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, Rio de Janeiro, BR-RJ, 2011.

1 – Representação. 2 – Identidade. 3 – Fronteira Linguística. 4 – Boa Vista, RR. I - Título. II – Guisan, Pierre François Georges. (orientador).

(5)

RESUMO

Línguas em contato, preconceitos e ensino, um estudo de caso:

representação de línguas estrangeiras e indígenas na formação do profissional de secretariado executivo em Roraima

Luzileide Correia Lima

Orientador: Prof. Dr. Pierre François Georges Guisan

Coorientador: Prof. Dr. Elder José Lanes

Resumo da Dissertação de Mestrado submetido ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos, opção: Língua Espanhola).

No Estado de Roraima é possível ter contato com falantes de inglês, de espanhol e de pelo menos onze línguas indígenas oriundas das famílias linguísticas Aruaque, Caribe e Ianomâmi. Para este estudo, optou-se por público-alvo os alunos de secretariado executivo, num curso de nível superior, considerando a necessidade de ter conhecimento de língua estrangeira, requerido por lei, por parte dos profissionais de secretariado executivo e considerando também a diversidade linguística encontrada no estado. Objetiva-se responder à indagação de qual é a representação que os alunos de secretariado executivo têm a respeito às línguas com as quais têm contato em Roraima. Contextualiza-se o Estado de Roraima e os países fronteiriços do estado, a Venezuela e a Guiana, bem como são trazidas as características de suas línguas. Menciona-se ainda nessa contextualização as línguas indígenas encontradas no estado. São abordados os conceitos que melhor explicam as características das línguas aqui mencionadas. O método dialético qualitativo é o escolhido para esse trabalho. Tecnicamente, usa-se a pesquisa bibliográfica assim como entrevistas, verificando-se o perfil dos alunos e escolhendo assim a amostra que melhor represente esse público-alvo. Observou-se ser imprescindível o estudo teórico da representação, identidade e fronteira linguística, que apóiam e explicam o resultado da entrevista realizada.

Palavras-chave: Representação. Identidade. Fronteira Linguística.

(6)

RESUMEN

Lenguas en contacto, los prejuicios y la enseñanza, un estudio de caso:

representación de las lenguas extranjeras e indígenas en la formación de profesionales de secretariado ejecutivo en Roraima

Luzileide Correia Lima

Orientador: Prof. Dr. Pierre François Georges Guisan

Coorientador: Prof. Dr. Elder José Lanes

Resumen da Dissertação de Mestrado submetido ao Programa de

Pós-Graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos, opção: Língua Espanhola).

En el estado de Roraima es posible tener contacto con personas que hablan inglés, español y al menos once lenguas indígenas oriundas de las familias lingüísticas Arawak, Caribe y Yanomami. Para este estudio, se escogió por el público clave a los estudiantes del curso de secretariado ejecutivo, un curso de nivel superior, teniendo en cuenta la necesidad de tener conocimiento de la lengua extranjera, exigido por ley para los profesionales de secretariado ejecutivo, considerando la diversidad lingüística encontrada en el estado. El objetivo es responder a la pregunta de cuál es la representación que tienen los estudiantes del secretario ejecutivo a las lenguas con las que tienen contacto en Roraima. Se contextualiza el estado de Roraima y los países fronterizos del estado, Venezuela y Guyana, y se exponen las características de sus lenguas. Se menciona también en este contexto de lenguas indígenas las encontradas en el estado, así como se discuten los conceptos que explican mejor las características de las lenguas mencionadas aquí. El método dialéctico elegido para este trabajo es el cualitativo. Técnicamente, se utiliza la investigación bibliográfica y entrevistas, verificándose el perfil de los estudiantes y por lo tanto la elección de la muestra que mejor represente este público clave. Se observó que es fundamental el estudio teórico de la representación, la identidad y la frontera lingüística que apoyan y explican el resultado de la entrevista.

Palabras-clave: Representación. Identidad. Frontera Lingüística.

(7)

ABSTRACT

Languages in contact, prejudices and teaching, a case study:

representation of foreign and indigenous languages in the formation of professional executive secretaryship in Roraima

Luzileide Correia Lima

Orientador: Prof. Dr. Pierre François Georges Guisan

Coorientador: Prof. Dr. Elder José Lanes

Abstract da Dissertação de Mestrado submetido ao Programa de

Pós-Graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos, opção: Língua Espanhola).

In the State of Roraima it is possible to get in contact with speakers of English, Spanish and at least eleven indigenous languages from distinct linguistic families such as Aruak, Cariban and Yanomami. For this study, undergraduate students of executive secretaryship were chosen as public target, considering not only the need required by law of a thorough knowledge in a foreign language, but also a wide linguistic diversity found in the state. The aim is to answer the following question: what is the representation of the executive secretaryship students regarding to languages in contact in Roraima? Thus, it contextualizes the state of Roraima and the countries bordering the state, Venezuela and Guyana, and are brought to the characteristics of their languages. Indigenous languages found in the state are also mentioned in this context. Concepts are discussed that better explain the characteristics of the languages mentioned here. The quality dialectical method was chosen for this work. Technically, it uses the literature search and personal interviews, checking the students' profile and thus choosing the sample that best represents this target public. It was considered as essential the theoretical study of representation, identity and linguistic border that support and explain the outcome of the interview.

Keywords: Representation. Identity. Frontier Linguistics.

(8)

Dedicatória

A minha mãe querida, guerreira e que em tudo me ajudou, incentivou, apoiou e me permitiu chegar onde estou... Aos meus irmãos pela alegria proporcionada...

(9)

Agradecimentos

Ao Deus soberano, Jeová, pela vida e por tudo que nos tem proporcionado. A minha família pelo prestimoso apoio, em especial a minha amada mãe. Ao meu orientador, Prof. Dr. Pierre François Georges Guisan, estimado professor que conseguia, mesmo em pouco tempo, instruir tanto e me ajudou a colocar em palavras o que eu realmente queria pesquisar.

Ao meu co-orientador, Prof. Dr. Elder José Lanes, pela disposição, pelas observações criteriosas e valiosas, que me ajudou a organizar as ideias e dispô-las de modo mais claro.

Aos meus colegas de trabalho da Universidade Federal de Roraima pelo incentivo, e, em especial, aos professores que com suas valiosas palavras me instruíram e colaboraram com esta dissertação, em especial aos professores Elder José Lanes, Tatiana Saldanha de Oliveira, Romanul de Souza Bispo, Cleber Batalha Franklin, Francilene dos Santos Rodrigues e Maria das Graças Santos Dias Magalhães, e os professores visitantes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Paulo Gilberto Fagundes Visentini e Luis Gustavo Mello Grohmann.

Aos meus professores no Mestrado, Pierre François Georges Guisan, Thomas Daniel Finbow, Letícia Rebollo Couto, Maria Mercedes Riveiro Quintanas Sebold, Angela Maria da Silva Corrêa, Sônia Kapps Reis, Pedro Paulo Garcia Ferreira Catharina, Tânia Reis Cunha, Maria Aurora Consuelo Alfaro Lagorio e João Antonio de Moraes, pelo ensinamento e aprendizado usufruídos, que representaram para mim um aprendizado há muito desejado, sanando dúvidas que tinha, e por isso, agradeço cordialmente.

Aos meus colegas de curso pela ajuda, paciência, companheirismo, amizade, incentivo, motivação, ensinamento e tudo que por mim fizeram, que direta ou indiretamente colaboraram para eu estar aqui, em especial aos amigos que compartilharam seu dia a dia comigo na estada no Rio de Janeiro, e que de lá, resultou amizades verdadeiras que quero preservar por muitos e muitos anos.

Às Universidades Federais do Rio de Janeiro e de Roraima que, por meio do Mestrado Interinstitucional em Letras Neolatinas, possibilitaram a realização de um sonho, não só de obtenção de título, mas de conhecimento.

(10)

Há duas formas de viver a vida: Uma é acreditar que não existe milagre. A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.

(11)

Lista de Figuras

Figura 01 Fronteira Brasil-Venezuela-Guiana... 19 Figura 02 Classificação das línguas indígenas brasileiras em troncos e

(12)

Lista de Tabelas

Tabela 1 Motivação para cursar Secretariado Executivo... 98

Tabela 2 Por que escolheu a instituição do curso... 99

Tabela 3 Conhecimento de que cursar LE no curso... 100

Tabela 4 Com qual língua se identifica mais: inglês ou espanhol? Por quê? 101 Tabela 5 Com qual língua se identifica mais: inglês ou espanhol?... 102

Tabela 6 Acha importante estudar LE? Por quê? ... 102

Tabela 7 Sabe diferenciar variantes faladas no inglês e no espanhol?... 103

Tabela 8 Se sabe diferenciar, tem preferência por alguma variante?... 105

Tabela 9 Já visitou algum dos países vizinhos ao Estado de Roraima? Qual? 106 Tabela 10 O que acha da variante do espanhol falada na Venezuela?... 107

Tabela 11 O que acha da variante do inglês falado na Guiana? ... 108

Tabela 12 Faria um intercâmbio na Venezuela e na Guiana para aprimorar a língua? Por quê? ... 110

Tabela 13 Tem contato com alguma língua indígena de RR? Qual?... 111

Tabela 14 Tem contato com alguma língua indígena de RR? ... 112

Tabela 15 Gostaria de aprender a falar alguma língua indígena? Qual? Por quê? ... 112

Tabela 16 Língua indígena que gostaria de aprender... 113

Tabela 17 Língua indígena que gostaria de aprender... 115

Tabela 18 Tem alguma língua mais importante em Secretariado? Qual? Por quê? ... 116

Tabela 19 Tem alguma língua mais importante em Secretariado? Qual?... 117

Tabela 20 Você acha os materiais para ensino de inglês e de espanhol adequados às necessidades do curso de Secretariado? Por quê?... 118

Tabela 21 Você acha os materiais para ensino de inglês e de espanhol adequados às necessidades do curso de Secretariado? Por quê?... 119

Tabela 22 O que representa o inglês e o espanhol para você? ... 120

Tabela 23 O que representa o inglês para você? ... 121

Tabela 24 O que representa o espanhol para você? ... 121

Tabela 25 O que representa a língua indígena para você? ... 122

(13)

Lista de Gráficos

Gráfico 1 Motivação para cursar Secretariado Executivo... 98

Gráfico 2 Por que escolheu a instituição do curso... 99

Gráfico 3 Conhecimento de que cursar LE no curso... 100

Gráfico 4 Com qual língua se identifica mais: inglês ou espanhol? Por quê? 101 Gráfico 5 Com qual língua se identifica mais: inglês ou espanhol?... 102

Gráfico 6 Acha importante estudar LE? Por quê? ... 103

Gráfico 7 Sabe diferenciar variantes faladas no inglês e no espanhol?... 104

Gráfico 8 Se sabe diferenciar, tem preferência por alguma variante?... 105

Gráfico 9 Já visitou algum dos países vizinhos ao Estado de Roraima? Qual? 106 Gráfico 10 O que acha da variante do espanhol falada na Venezuela?... 107

Gráfico 11 O que acha da variante do inglês falado na Guiana? ... 108

Gráfico 12 Faria um intercâmbio na Venezuela e na Guiana para aprimorar a língua? Por quê? ... 110

Gráfico 13 Tem contato com alguma língua indígena de RR? Qual?... 111

Gráfico 14 Tem contato com alguma língua indígena de RR? ... 112

Gráfico 15 Gostaria de aprender a falar alguma língua indígena? Qual? Por quê? ... 113

Gráfico 16 Língua indígena que gostaria de aprender... 114

Gráfico 17 Língua indígena que gostaria de aprender... 115

Gráfico 18 Tem alguma língua mais importante em Secretariado? Qual? Por quê? ... 116

Gráfico 19 Tem alguma língua mais importante em Secretariado? Qual?... 117

Gráfico 20 Você acha os materiais para ensino de inglês e de espanhol adequados às necessidades do curso de Secretariado? Por quê?... 118

Gráfico 21 Você acha os materiais para ensino de inglês e de espanhol adequados às necessidades do curso de Secretariado? Por quê?... 119

Gráfico 22 O que representa o inglês e o espanhol para você? ... 120

Gráfico 23 O que representa o inglês para você? ... 121

Gráfico 24 O que representa o espanhol para você? ... 122

Gráfico 25 O que representa a língua indígena para você? ... 122

(14)

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO... 14 1 RORAIMA: DIVERSIDADE LINGUÍSTICA... 1.1 República Bolivariana da Venezuela e língua espanhola...

1.1.1 Variação da Língua Espanhola da Venezuela...

1.2 República Cooperativa da Guiana...

1.2.1 Continuum crioulo guianense...

1.3 Roraima e as línguas indígenas das famílias linguísticas Aruaque, Caribe e Ianomâmi... 16 17 21 26 27 33

2 IDENTIDADE, REPRESENTAÇÃO E FRONTEIRA LINGUÍSTICA... 2.1 Língua e sua definição...

2.1.1 Língua nacional...

2.2 Identidade...

2.2.1 Identidade Individual, Coletiva e Nacional... 2.2.2 Identidade Social... 2.2.3 Identidade e língua...

2.3 Representação...

2.3.1 Representação linguística... 2.3.2 Representação Social...

2.4 Fronteira Linguística... 39 39 44 46 48 52 60 64 64 66 73 3 MÉTODOS E PROCEDIMENTOS... 3.1 A definição da população e da amostra... 3.2 Amostra da entrevista... 3.3 Descrição da organização dos dados... 3.4 Roteiro de entrevista... 3.5 Perfil da Profissão de Secretariado... 3.6 Histórico da Universidade Federal de Roraima...

79 83 84 85 85 87 89 4 ANALISANDO A REPRESENTAÇÃO DE LÍNGUAS ESTRANGEIRAS E INDÍGENAS DE ACADÊMICOS DE SECRETARIADO EXECUTIVO EM RORAIMA 4.1 Análise dos dados...

4.1.1 Representação Social... 4.1.2 Representação linguística... 4.1.3 Identidade linguística...

CONSIDERAÇÕES FINAIS... 96 97 124 125 130 132 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 137 ANEXO... Anexo I – Matriz Curricular de um Curso de Secretariado Executivo, nível superior...

146

146 APÊNDICES... Apêndice A – Roteiro de Entrevista... Apêndice B Transcrição das entrevistas...

(15)

INTRODUÇÃO

Na América do Sul, continente onde predomina a língua espanhola, é possível encontrar também países de língua oficial inglesa, francesa e holandesa. A fronteira norte da República Federativa do Brasil é marcada pelo contato com esses países e suas línguas, e o Estado de Roraima faz fronteira com dois países, a República Cooperativa da Guiana e a República Bolivariana da Venezuela, o que propicia assim contato com inglês e espanhol aos profissionais que em seu dia a dia fazem uso de língua estrangeira, como, por exemplo, os profissionais de Secretariado Executivo.

Em seu cotidiano, o profissional de Secretariado usa como ferramenta de trabalho as línguas que conhece. Considerando o atual mercado de trabalho globalizado em que esse profissional encontra-se inserido, além da vernácula, é importante conhecer pelo menos uma língua estrangeira. Justificando a necessidade de conhecer língua estrangeira, o profissional encontra embasamento legal, por ser regido pela Lei nº. 7.377, de 30 de setembro de 1985, que regulamenta a profissão, e pela Lei nº. 9.261, de 10 de janeiro de 1996, que complementou a Lei nº. 7.377. Como atribuição do profissional de Secretariado Executivo, a Lei nº. 7.377 em seu artigo 4º, inciso IV, menciona “redação de textos profissionais especializados, inclusive em idioma estrangeiro”, e para o Técnico em Secretariado, a mesma lei no artigo 5º, inciso III, diz “redação e datilografia de correspondência ou documentos de rotina, inclusive em idioma estrangeiro”, ressaltando assim a importância do profissional de Secretariado de dominar não só a língua materna mas também pelo menos uma língua estrangeira1.

Para este trabalho optou-se por escolher um curso que contemplasse pelo menos uma língua estrangeira, além da língua vernácula brasileira, oferecendo assim uma qualificação mais próxima da requerida pela legislação2. Neste caso, optou-se pelo curso de nível superior de Secretariado Executivo, que abrange um

1 Língua materna (LM) é definida como a primeira língua do indivíduo e língua estrangeira (LE) é o

termo que designa um idioma aprendido fora do contexto de uso da mesma, quer dizer, fora do país onde é utilizado como língua materna. (YOKOTA, 2005).

2 Em 1945 começou a se chamar a língua nacional brasileira de português. O termo língua nacional

(16)

período de quatro anos de curso, onde é possível encontrar em sua matriz curricular as línguas portuguesa, inglesa e espanhola3.

Diante da exposição a duas línguas estrangeiras no curso acadêmico e a fronteira com dois países de línguas distintas, indaga-se qual a representação que os alunos no mencionado curso têm em relação às línguas estrangeiras com as quais têm contato por conta da proximidade das fronteiras.

Objetiva-se com este trabalho identificar a formação da representação das línguas estrangeiras e indígenas pelos alunos do Curso de Secretariado Executivo da Universidade Federal de Roraima (UFRR). A fim de alcançar o objetivo traçado, realizou-se entrevista com uma amostra de alunos de um Curso de Secretariado Executivo, constituindo-se no corpus do presente trabalho, e após entrevista,

conjuga-se a entrevista, com a revisão bibliográfica, podendo assim analisar, por meio de metodologia empírica, qual a representação demonstrada pelos alunos da amostra.

Para tanto, o primeiro capítulo aborda a diversidade linguística do Estado de Roraima, contextualizando os países que fazem fronteira com o estado. O segundo capítulo traz a revisão bibliográfica, seguido da metodologia e da análise. Apresenta-se, por fim, as considerações finais, as referências bibliográficas, o anexo e os apêndices.

3 O Anexo I desta dissertação traz a Matriz Curricular do Curso de Secretariado Executivo escolhido

(17)

1 RORAIMA: DIVERSIDADELINGUÍSTICA

O Estado de Roraima se localiza no noroeste da Região Norte da República Federativa do Brasil, faz fronteira com a República Bolivariana de Venezuela em seu norte e noroeste, e a seu leste com a República Cooperativa da Guiana, e com dois estados brasileiros, ao oeste e sul o Estado do Amazonas e ao sudeste o Estado do Pará. O nome do Estado de Roraima origina-se das palavras roro ou rora, que

significa “verde”, e ímã, que quer dizer “serra, monte” na língua indígena Macuxi,

formando “serra ou monte verde”, que reflete o tipo de paisagem natural encontrada na região. Na língua dos índios Pemón e Taurepang, Roraima significa “Mãe dos Ventos”. Em sua área de 225.116,1 km² habitam 395 mil habitantes atualmente, dentre brasileiros e estrangeiros. (SEPLAN-RR, 2009)

Roraima mede 22,4 milhões de hectares, e desses 10,3 milhões são reservados exclusivamente para os indígenas, sendo proporcionalmente o estado brasileiro com maior área de terras destinadas aos indígenas. Do território de Roraima, 52,4% são ocupados com Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Em sua população, a maioria dos imigrantes é composta de gaúchos, cearenses, maranhenses e pernambucanos. Hoje, são considerados onze povos indígenas em Roraima e onze línguas indígenas pertencentes às famílias linguísticas: Aruaque, Caribe e Ianomâmi4. Dentre os emigrantes, é possível encontrar em maior número venezuelanos, peruanos, colombianos, cubanos, guianenses, alemães, árabes, italianos e japoneses no meio de outros estrangeiros. Dentre as línguas estrangeiras, predomina o uso do espanhol e do inglês. (idem)

Diante desse cenário, observa-se a diversidade linguística encontrada em Roraima. Neste capítulo, os países com os quais Roraima faz fronteira serão contextualizados. A diversidade linguística no Estado de Roraima é notória, constituindo-se num campo linguístico que merece consideração, e para tanto, será abordada a questão da fronteira linguística encontrada no Estado de Roraima, e os países com os quais Roraima faz fronteira serão contextualizados. Quando se fala em fronteira, logo se pensa na linha de fronteira, no entanto, fronteira pode não se limitar apenas ao espaço físico. A história mostra que as línguas costumavam conviver, se influenciar e se sobrepor em vastas áreas, mas que, com o passar do

4 É possível ver as formas Aruak (ou Arawak), Karib e Yanomami. No entanto, para esta dissertação

(18)

tempo, foram delimitadas em linhas de fronteiras, com a constituição dos Estados-Nações, passando pela construção de uma identidade coletiva. Assim sendo, havia a necessidade de eliminar a ideia de continuidade cultural e linguística entre estados diferentes e, erguendo assim limites, fronteiras. A língua, doravante qualificada de “nacional”, terá função essencial nessa edificação. Sem essa revolução que atribui função ideológica à língua, teria sido praticamente impossível desenhar um mapa limpo e cartesiano da distribuição dos idiomas, segundo Guisan (2010)5. O mesmo autor menciona que mais do que uma linha, fronteira pode ser uma faixa de transição e de mescla de pessoas, de línguas.

1.1 República Bolivariana da Venezuela

A Venezuela, oficialmente República Bolivariana da Venezuela, é um país tropical, na costa norte da América do Sul. Américo Vespucci, em 1499, chamou o país de “Pequena Veneza”, quando primeiro reconheceu indígenas locais em suas taperas de palha, junto ao lago Maracaibo. A república é uma antiga colônia espanhola que conquistou a sua independência em 1821 (FREITAS; 2003).

Tendo como capital a cidade de Caracas, a Venezuela faz fronteiras com a Guiana a leste, com o Brasil ao sul, com a Colômbia ao oeste e, ao largo da sua costa, ao norte, encontram-se os países Trinidad e Tobago, Granada, Santa Lucia, Barbados, Curaçao, Bonaire, Aruba e São Vicente e Granadinas. O país possui várias ilhas fora de seu território continental situadas em sua costa no Mar do Caribe e ao Oceano Atlântico. Sua área territorial é de 916.445 km2, com uma população estimada em 26.414.816 habitantes (GUIMARÃES, CARDIM; 2003).

Vale mencionar aqui a disputa territorial da Venezuela com a Guiana (ex-colônia do Reino Unido), principalmente sobre a área de Essequibo. A região da bacia de Essequibo é reivindicada pela Venezuela, mostra-se rica em minérios, com 159.000 km2, é parte da circunscrição administrativa espanhola que lhe era afeta na época colonial, cedida, porém, à Grã-Bretanha por um tribunal arbitral internacional estabelecido em Paris, cujo laudo veio ao público em 1899. A Guiana obteve o território pelos tribunais internacionais, depois de repetidas tentativas.

5

(19)

No entanto, a decisão foi contestada e reivindicada pela Venezuela, mas sem sucesso. Por conta disso, é possível encontrar nos mapas editados na Venezuela, destacado em sua fronteira leste, com a Guiana, uma área de litígio antigo com a Inglaterra que remonta ao período de 1890-1899. A fronteira com a Colômbia continua sujeita a constantes conflitos relacionados com o tráfico de drogas (CERVO, 2003; FREITAS, 2003).

A Venezuela está entre os países mais urbanizados da América Latina; a grande maioria dos venezuelanos vivem nas cidades do norte, especialmente na capital Caracas, que é também a maior cidade do país. Outras cidades importantes são Maracaibo, Valência, Maracay, Barquisimeto, Mérida, Barcelona, Puerto La Cruz e Ciudad Guayana (GUIMARÃES, CARDIM; 2003).

No censo de 1996, a Venezuela contava 22 milhões de habitantes, dos quais três quartos vivendo abaixo dos níveis de pobreza da ONU com taxas de desemprego oscilando entre 12% e 15%, mostrou ainda que cerca de um quinto da população total residia no distrito federal de Caracas. No ano de 2000, a população já era de 24,5 milhões crescendo a uma razão de 1,82% por ano distribuída por seus 22 estados e ilhas em uma densidade média de 23 pessoas/km2 (EIU, 2000). Cerca de 86% de venezuelanos vivem nas cidades e Caracas em sua área metropolitana abriga 15% da população do país (CANO, 2000).

A população da Venezuela é mesclada, cujas origens são europeia, indígena e africana. Quando chegaram os espanhóis, estima-se que a Venezuela teria em torno de 500 mil habitantes, distribuídos em três grupos étnicos de famílias linguísticas diferentes, Caribe, Aruaque e Chibcha. Os Caribe vivendo de pesca e agricultura junto ao litoral, os Aruaque com caça e recolhimento de alimentos na região dos llanos, e os Chibcha, eram os mais avançados das sociedades

pré-hispânicas da Venezuela e habitando as áreas altas dos Andes (FREITAS, 2003). Por meio do braço de Casiquiare6, o rio Negro, no Brasil, se comunica com o rio Orinoco, na Venezuela, e descendo pelo rio Alto Uaupés, os grupos indígenas da Colômbia alcançavam São Gabriel no alto rio Negro, todas estas culturas se miscigenaram ao longo de séculos de disputas econômicas entre locais e colonizadores e também de definição de fronteiras entre estes três países (HEMMING, 1987). O rio Negro se constituiu numa das províncias de mais antiga

(20)

ocupação europeia na Amazônia. Pela descrição de Curt Nimuendaju (1950 apud

RIBEIRO, 1996), quatro conglomerados indígenas aí podiam ser percebidos nos cruzamentos de europeus com índias; os remanescentes de tribos de língua Aruaque; as tribos de língua tucano7 e o quarto grupo de povos de línguas alófilas, isto é, não se revela semelhante à outra conhecida, dominado culturalmente pelos Aruaque e Tucano (RIBEIRO, 1996).

No Pico da Neblina, o mais alto ponto em altitude da Amazônia brasileira, a cerca de 3 mil metros de altura, se encontram os Ianomâmi que ocupam parte dos territórios venezuelano e brasileiro espraiando-se ainda até as serras do Parima, na Venezuela, e Pacaraima, no Brasil. (FREITAS, 2003). Por exemplo, o povo indígena Ianomâmi reside em ambos os lados da fronteira Brasil-Venezuela na região do interflúvio Orinoco - Amazonas (afluentes da margem direita do rio Branco e esquerda do rio Negro), sendo sua população, no Brasil e na Venezuela, estimada hoje em 26.000 pessoas. (ALBERT, 2011). Para fins de localização, a figura 01 mostra os rios Negro e Orinoco a oeste, e a fronteira Brasil-Venzuela-Guiana a norte.

Figura 01: Fronteira Brasil-Venezuela-Guiana8

7 Pode ser escrita também como tukano.

(21)

Atualmente, os povos indígenas na Venezuela estão distribuídos em cerca de 31 etnias, segundo dados do Governo da Venezuela, e totalizam cerca de 500 mil pessoas, incluindo os grupos não recenseados ainda, representando 2% da população venezuelana de 26.127.351 habitantes9. Segundo Borja Meirelles, apenas 17% das 31 etnias habitam em Terras Indígenas, e ocupam cerca 1,5% do território do país distribuído em áreas periféricas e distantes de dez estados que cobrem 76,8% do país. Suas reservas se encontram em grande parte a noroeste no estado de Zulia, parte nos estados sulinos da Amazonia e Bolívar, parte no llanos centrais e

parte no delta do Orinoco, no estado Delta Amacuro (FREITAS, 2003). No Brasil, segundo o Censo IBGE 201010, a população indígena11 é de 817.963 pessoas, sendo que 315.180 vivem em cidades e 502.783 em áreas rurais, correspondendo a 0,42% da população total do país. No total, são 230 povos indígenas e 672 Terras Indígenas. Para efeito de comparação, estima-se que no mundo existam hoje pelo menos 5 mil povos indígenas, somando mais de 350 milhões de pessoas.12

Segundo a explicação de Freitas (2003), a esta população na Venezuela se somaram ainda etnias negras procedentes da África e mais recentemente cerca de 2.000 colombianos e comunidades do Oriente Médio, principalmente libaneses. A este conjunto se acrescentam cerca de 600 mil estrangeiros residentes fazendo da capital Caracas uma cidade bastante cosmopolita, e do povo venezuelano um conjunto rico de matizes geográficos que incluem ao mesmo tempo sua condição sul-americana, caribenha, amazônica, andina, atlântica e de planície. A Venezuela é um país rico de oportunidades potenciais proporcionadas por um povo multicultural, com uma natureza muito diversa, vivendo um período rico em mudanças estruturais no âmbito político, econômico e, sobretudo, social (BID, 2001).

9Venezuela. Disponível em: www.gobiernoenlinea.ve. Acesso em 24/08/2011.

10 Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no Censo 2010 os entrevistados

se declaravam como branco, negro, pardo, amarelo ou indígena em relação à raça. Disponível em: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/listas/curiosidades-do-censo-sobre-raca-no-brasil.jhtm. Acesso em: 28/11/2011.

11 A legislação traz de forma clara o que é ser índio no Brasil, cuja definição consta do atual Estatuto

do Índio disposto pela Lei Federal nº. 6.001/73, em seu artigo terceiro, inciso I: “É todo indivíduo de

origem e ascendência pré-colombiana que se identifica e é identificado como pertencente a um grupo

étnico cujas características culturais o distinguem da sociedade nacional”. Já povo ou comunidade indígena é definido no inciso II do mesmo artigo: “É um conjunto de famílias ou comunidades índias, quer vivendo em estado de completo isolamento em relação aos outros setores da comunhão

nacional, quer em contatos intermitentes ou permanentes, sem contudo estarem neles integrados”.

12População indígena no Brasil. Disponível em:

(22)

Brasil e Venezuela mantêm relações bilaterais não conflitantes desde a Independência. Essas relações foram, ademais, consideradas pelos analistas como relações benéficas, nos dois últimos séculos. Dois marcos recentes permitem qualificar estas relações, primeiramente de cooperativas, desde o final da década de setenta, e convergentes, desde a ascensão do presidente Chávez, em 1999. Cooperações são realizadas entre os países, como, por exemplo, na área energética, com a interligação elétrica Guri - Boa Vista, chamado Linhão de Guri, possibilitando energia elétrica disponível a baixo custo, capaz de compensar a transmissão em longa distância, gerando a alternativa ao atendimento do Estado de Roraima. (CERVO, 2003) Para Rosa (2003, p. 18) “é muito importante a constatação do crescimento das relações Venezuela-Brasil”.

É primordial a cooperação Brasil-Venezuela, considerando a sua zona de fronteira. Os limites entre Brasil e Venezuela foram traçados pelo Tratado de 1859. A demarcação da fronteira comum de 2.199 quilômetros, iniciada em 1879, ainda não se concluiu, apesar de haverem as comissões mistas cravado nada menos de 2.061 marcos até o ano 2000. Embora sendo muito menos intensa a presença humana na zona de fronteira Venezuela-Brasil, requer de ambos os Estados uma coordenação de ações para fazer face aos problemas da mineração ilegal, do povoamento e do desenvolvimento. O vínculo rodoviário que conecta o Brasil com a Venezuela, por meio da rodovia BR-174, partindo de Manaus, é um fator indutor do investimento empresarial e do comércio regionais, sendo assim um incremento à cooperação fronteiriça entre os dois países (CERVO, 2003).

1.1.1 Variação da língua espanhola da Venezuela

No site oficial do governo da República Bolivariana da Venezuela se

menciona que a língua13 oficial é o espanhol e que as outras línguas existentes no país são as línguas indígenas.

Para Moreno Fernández (2010), o espanhol falado nas Américas não é uma variedade da língua espanhola, mas sim um conjunto de variedades diferentes entre si e com uma caracterização bem marcada. Essa diversidade integra as principais

13 Segundo Houaiss (2009), língua é definida como: 5 LING sistema de representação constituído por

(23)

zonas dialetais americanas: o Caribe, México e América Central, a área andina (Colômbia, Equador, Peru e Bolívia), a área austral (Argentina, Paraguai e Uruguai) e o Chile. Para os linguistas em geral, o conceito de variedade linguística inclui línguas, dialetos, socioletos, registros, estilos e outros tipos de variedades específicas. (CORDER, 1973).

O espanhol chegou à Venezuela com a conquista espanhola desde os primeiros anos do século XVI. A maioria dos espanhóis eram originários das regiões de Andaluzia e de Extremadura trazendo consigo o seu sotaque e suas modalidades. Outro grupo oriundo das Ilhas Canárias chegou à Venezuela e se caracterizava por diferenças dialetais. A base do espanhol falado na Venezuela é constituída pela fala dessas regiões. (idem).

A diversidade de línguas ameríndias, algumas extintas e outras moribundas em uso, tem sido fator de relativa diferença no espanhol americano. Os itens lexicais de origem indígenas documentados no espanhol são numerosos, embora as línguas de onde procedem tenham desaparecido. Esta situação é atualmente estudada por pesquisadores linguistas. O linguista González Ñáñez (2008), da Universidad de los Andes, tem estudado as características linguísticas do espanhol em contato com as

línguas ameríndias da Venezuela, no campo fonético e fonológico, morfossintático e lexical, além de contextualizar sociolinguisticamente essas influências.

Serão destacados aqui os traços comuns com o espanhol caribenho, que inclui o espanhol da Venezuela, que se encontra em todos os níveis linguísticos. O espanhol caribenho mostra algumas características compartilhadas com o conjunto da América hispânica, como o seseo, o yeísmo, o rotacismo, o lamdacismo, entre

outros, informados na sequência.

O seseo é em sua maior parte realizado mediante o “s” pré-dorsal, onde o

ápice da língua aponta até os incisivos inferiores (MORENO FERNÁNDEZ, 2010). A Real Academia Espanhola (RAE) menciona que sesear é pronunciar o “z” ou “c”

antes de “e” e “i”, como se fosse um “s”. Menciona ainda que é usada geralmente na Andaluzia, Canárias e em outras regiões espanholas e na América14.

Já o yeísmo apresenta uma pronúncia palatal média, a mais generalizada

por todo o mundo hispânico, de acordo com Moreno Fernández (2010). Para

14 REAL Academia Española. Diccionario de la lengua española. Vigésima segunda edición.

(24)

Quesada Pacheco (2011)15, o fenômeno conhecido como yeísmo é produto da fusão dos fonemas: fricativo palatal /j/ e o lateral palatal /¥/. O mesmo autor menciona que o yeísmo é caracterizado pela perda da oposição fonológica entre os fonemas

mencionados, e que ainda está presente em toda a América, exceto no Paraguai. A RAE16 explica que é a pronunciação da “elle” pela “ye”, fornecendo como exemplos: [gayina] „gallina‟17, [poyo] polllo18.

Encontram-se também outros traços característicos, mas não exclusivos, do Caribe: a aspiração faríngea de jota ([´ka.ha] „caja‟)19, a tendência de pronunciar

como velares as nasais finais, como em [´pãŋ] „pan‟20, ou o enfraquecimento de /d/ entre vogais ([níu] „nido‟21; [deo]„dedo‟22; [lo] „lodo‟23; [maúro] „maduro‟24). (MORENO

FERNÁNDEZ, 2010).

Por outro lado, umas das características melhor percebidas das falas caribenhas é o enfraquecimento das consoantes que aparecem em posição final de sílaba, depois do núcleo vocálico, e assim, essa característica alcança resultados fônicos que não se encontram em outras variedades do espanhol americano25. O enfraquecimento final ou pós-nuclear alcança a todas as consoantes, com resultados de trocas de articulação, assimilação e perdas. Por isso, fala-se de forma generalizada em aspirações de “s” ou perdas consonantais absolutas, predominantes, como em Santo Domingo e Santiago de los Caballeros (República Dominicana) ou em Mérida (Venezuela) e no Panamá (idem).

Nota-se também a ocorrência de rotacismo e lamdacismo. Rotacismo é a transformação de um som em [ɾ] (FINBOW, 2010)26. Consiste na realização de /l/

15 QUESADA PACHECO, Miguel Ángel. La fonética del español americano en pugna: dialectos

radicales y conservadores en lucha por la supremacía. Congreso de Valladolid > Paneles y ponencias >El español en América. Disponível em: http://congresosdelalengua.es/valladolid/ponencias/ unidad_diversidad_del_espanol/2_el_espanol_de_america/quesada_m.htm. Acesso em: 12/11/2011.

16 REAL Academia Española. Diccionario de la lengua española. Vigésima segunda edición.

Disponível em: www.rae.es. Acesso em: 12/11/2011.

17

Em português significa “galinha”.

18Em português significa “frango”. 19

Em português significa “caixa”. As traduções feitas nesta dissertação de espanhol para português,

e vice-versa, foram feitas com base no dicionário Señas (2008).

20 Em português significa “pão”. 21Em português significa “ninho”. 22

Em português significa “dedo”.

23

Em português significa “lama”.

24Em português significa “maduro”.

25 Esses traços, assim como os regiontes, em compensação, também se encontram no português do

Brasil.

26

(25)

como uma líquida vibrante sonora [r]: ['ku\pa] culpa27, [delan'ta\] delantal28, ['ka\ma] calma29. Além da Venezuela, também ocorre nas Antilhas, costas da Colômbia, do

Equador e do Peru; no Paraguai (zonas rurais) e no Chile (DE GRANDA, 1992, p. 686; QUESADA PACHECO, 1990, pp. 46-49; 1996, p. 106; FONTANELLA DE WEINBERG, 1992, pp. 60, 139).

Lamdacismo é a conversão de outro som em [l] (FINBOW, 2010)30. Este fenômeno refere-se à pronunciação de [l] como /ɾ/: [ko'mel] comer31, ['palte] „parte‟32,

[hablal] „hablar‟33. O fenômeno ocorre como contrapartida ao rotacismo e, portanto,

se dá nas mesmas regiões onde ocorre o rotacismo (QUESADA PACHECO, 2011)34.

No caso do lamdacismo, existem três possíveis soluções: a assimilação ou geminação ([kob.´ba.ta] „corbata‟35), a vocalização de /ɾ/ em /i/ ([veide] „verde‟36; [pueita] „puerta‟37; [cueipo] „cuerpo‟38) ou a retroflexão que consiste em dobrar a coroa da língua até atrás da boca, produzindo um som que não é nem /r/ nem /l/, que fica na metade do caminho entre os dois e que produz som parecido a uma /d/, mas articulada nos alvéolos superiores. Por outro lado, encontra-se predomínio de algumas destas soluções em áreas geográficas distintas. Em todo o Caribe, insular e costeiro, é possível encontrar os fenômenos da aspiração e da assimilação, inclusive nos usos cultos, como é o caso da Venezuela (MORENO FERNÁNDEZ, 2010).

No plano gramatical é característica do espanhol caribenho a tendência de manter a ordem de palavras SVO (sujeito-verbo-objeto) em todo tipo de construções, padrões funcionais em uso atualmente predominante Assim, nasce a antecipação do sujeito na estrutura interrogativa (¿qué tu dices?; ¿cómo tú llegaste?; ¿a quién tú

27Em português significa “culpa”. 28 Em port

uguês significa “avental”.

29

Em português significa “calma”.

30

Prof. Dr. Thomas Daniel Finbow ministrando a disciplina “História do Pensamento Linguístico e Gramatical”, na cidade de Boa Vista-RR, no Mestrado Interinstitucional em Letras Neolatinas (UFRJ/UFRR), em abril de 2010.

31

Em português significa “comer”.

32Em português significa “parte”. 33Em português significa “falar”.

34 QUESADA PACHECO, Miguel Ángel. La fonética del español americano en pugna: dialectos

radicales y conservadores en lucha por la supremacía. Congreso de Valladolid > Paneles y ponencias >El español en América. Disponível em: http://congresosdelalengua.es/valladolid/ponencias/ unidad_diversidad_del_espanol/2_el_espanol_de_america/quesada_m.htm. Acesso em: 12/11/2011.

35

Em português significa “gravata”.

36

Em português significa “verde”.

37

Em português significa “porta”.

(26)

viste?39) ou a antecipação do sujeito ao infinitivo, inclusive quando o sujeito do

infinitivo não coincide com o do verbo principal: yo lo entendí al tú decirme eso; él trabajó para yo poder descansar40. No Caribe existe alta porcentagem de uso

expresso do pronome pessoal sujeito, que poderiam ser explicadas também por essa tendência de manter a ordem SVO (idem).

Vaquero (1996) fala da frequência do queísmo, que consiste no uso

excessivo do pronome relativo "que", mas sem utilizar a preposição exigida pela norma na construção de orações de relativo, como em “me di cuenta que no tenía

amigos”41, ao invés de “me di cuenta de que...”42, a tendência de elidir a preposição

a” antes do complemento direto de pessoa, o uso do perfeito composto associado a valores semânticos de ambiguidade e imprecisão assim como a imperfeitos e o uso generalizado do tuteo e do sistema de tratamento com ustedes para a segunda

pessoa do plural43, sistema compartilhado também com o espanhol andaluz e canário. Expressa também tendência ao uso do pronome pessoal sujeito: ¿tú te quedas o tú te vas?44 (MORENO FERNÁNDEZ, 2010). Essa derivação também é

comum ao português, quando se diz, por exemplo, “tu sabe” ao invés de “tu sabes”. Com respeito aos vocábulos característicos da região, habitualmente têm duas procedências: uma indígena caribenha e outra africana. As línguas do Caribe que têm contribuído para o léxico espanhol são fundamentalmente o arahuaco e o tapino (variedades aparentadas), bem como o caribe e o cumanagoto (línguas também do mesmo tronco). Existem indigenismos de difusão regional, que não estão longe da área caribenha e que soam familiares para os caribenhos. Do arahuaco procedem [guanajo] „pavão‟, [comején] „cupim, termita‟, [nigua] „pulga‟ ou

[cayo] „ilha rasa‟; do taíno vêm [ají] „pimenta malagueta‟, [bohío] „choça, cabana‟ ou

[maguey] „agave‟; do caribe, [curare] „veneno de planta‟ e do cumanagoto, [mapire]

„cesto‟, [guayuco] „tapa-sexo‟ ou [catire]„loiro‟. E os africanismos se explicam porque

o Caribe foi um receptor principal de escravos, por ser porto de chegada da população escravizada; daí a difusão de palavras como [bemba] „lábios grossos,

espessos‟, [chango] „espécie de macaco‟, [chiringa] „cometa de luz‟, [gongolí]

39

Em português significa “O que dizς; Como chegouς;A quem viuς”.

40

Em português significa “Eu entendi quando me disse isso; ele trabalhou para eu poder descansar”.

41Em português significa “dei-me conta que não tinha amigos”. 42

Em português significa “dei-me conta de que...”.

43

Em espanhol, o plural do singular “” é “vosotros”, significando em português “tu” e “vós”, sendo

estes os termos formais. O plural de “usted” é “ustedes”, significando em português “você” e “vocês”, usados de forma informal.

(27)

„minhoca‟ ou [guineo] „banana comprida, banana‟. As culturas africanas levadas ao

Caribe também deixaram sua marca lexical: [babalao] „adivinho‟, [orisch] „deidade

afro-cubana‟ ou [fufú]„comida feita de banana comprida‟.

A Venezuela possui características multiétnicas e plurilíngues, que merecem mais pesquisas para estudar as variantes do espanhol que contribuem para essa ampla diversidade, conforme ressalta González Ñáñez (2008).

1.2 República Cooperativa da Guiana

A República Cooperativa da Guiana, comumente Guiana, é uma ex-colônia britânica que, juntamente com o Suriname (ex-Guiana Holandesa) e Guiana Francesa (que é parte integrante da França e da União Europeia), formam uma região geopolítica própria, chamada Guianas. Constituem-se em países pouco

conhecidos dentre os sul-americanos, considerando as suas especificidades histórico-culturais, suas recentes independências e inserção voltada ao Caribe, conforme acena Visentini (2008). Apesar de coberta pela floresta amazônica, a região encontra-se separada da bacia amazônica pelo planalto das Guianas, que chega a atingir três mil metros de altitude. A superfície da Guiana é de 215 mil km2, e uma população de 800 mil habitantes, sendo que mais de 90% da população se concentra na faixa litorânea, tendo o interior pouca densidade demográfica.

Os primeiros habitantes da Guiana foram os Aruaque, que a denominaram de Guiana, significando “Terra de Água”, por ter terrenos úmidos e costas com mangues e pântanos. Os Aruaque foram desalojados pelos Caribe, que dominaram grande parte da região e logo foram para as ilhas do mar que hoje tem seu nome. (GUIA, 2007). Visentini (2008) mostra que a história da colonização torna possível entender o porquê dessa distribuição. Os navegadores espanhóis e portugueses, que exploraram as costas, não se preocuparam em colonizá-las, o que foi feito pelos holandeses, que estabeleceram assentamentos agrícolas na embocadura dos rios, como o Essequibo em 1616.

(28)

habitantes autóctones. Em 1796, durante a Revolução Francesa, os ingleses ocuparam as colônias ocidentais, situação que foi reconhecida pela Holanda em 1814, a qual manteve apenas o litoral do atual Suriname (VISENTINI, 2008).

Na Guiana, foram sendo formadas sociedades multiétnicas e multiculturais, com uma ampla variedade étnica, linguística e religiosa, e em geral, cada grupo mantém forte identidade, havendo pouca mestiçagem. Posteriormente, a constituição dos movimentos e partidos políticos foi fortemente assentada em linhas étnicas. Em relação à metrópole inglesa, a autonomia da Guiana ocorreu nos anos 1950. Num movimento marcado por fortes tendências nacionalistas, o país ficou independente do Reino Unido em 26 de maio de 1966. Em 1970, Forbes Burnham declarou a criação da República Cooperativa da Guiana (GUIA, 2007; VISENTINI, 2008). Seu idioma oficial é o inglês possuindo também vários idiomas indígenas, sobretudo dos grupos linguísticos Caribe e Aruaque. Em cultos religiosos também são usados híndi e urdu. (GUIA, 2007).

1.2.1 Continuum crioulo guianense

A língua inglesa é uma língua germânica ocidental que se desenvolveu na Inglaterra durante a era anglo-saxã e a partir da ocupação normanda. Sua história mostra que se originou de vários dialetos, agora denominados coletivamente de inglês arcaico ou antigo, que foram trazidos para a Grã-Bretanha pelos anglo-saxões no começo do século V, com influências da língua nórdica antiga trazida pelos invasores vikings. Na época da conquista normanda, o inglês arcaico se desenvolveu para o inglês medieval, tomando muito do vocabulário e das convenções de ortografia da língua normanda (francês do Norte da França e da Inglaterra). A etimologia da palavra "English" é uma derivação da palavra Englisc ou Engle do inglês arcaico do século XII, forma plural Angles ("dos, relativos a, ou

característico da Inglaterra") (ETHNOLOGUE, 2001).

(29)

David Crystal calcula que os falantes não-nativos de inglês já superam o número de falantes nativos em uma proporção de 3-1 (CRYSTAL, 2005).

A partir de 44 A.D. a principal ilha britânica é anexada ao Império Romano e o latim começa a influenciar a cultura celta-bretã. Durante três séculos e meio de presença das legiões romanas e seus mercadores, as palavras latinas passaram a ser usadas para muitos dos novos conceitos, influenciando a estrutura econômica, política e social das tribos celtas que habitavam a Grã-Bretanha. Após não dispor de meios para defender suas terras conquistadas, as tribos germânicas invadem a região do sudeste da Grã-Bretanha com violência e descaso, e como resultado, é que quase não se encontram traços da língua celta no inglês. A partir daí o inglês é dividido em antigo, médio e moderno. O inglês antigo foi a forma do idioma utilizada durante a fase compreendida entre 450 d.C. e o final do século XI. Neste período, os franco-normandos invadiram a Inglaterra, fazendo com que a língua da corte e da administração passasse a ser a língua francesa. O inglês antigo era composto por quatro dialetos: o nortúmbrio, o saxão ocidental, o kentiano e o mércio (AMMON, 2006;SCHNEIDER, 2007).

O ramo germânico ocidental da família indo-europeia, ao qual o inglês pertence, também inclui o baixo alemão (Plattdeutsch), o neerlandês45 e o frisão46. O

inglês deriva de três dialetos baixo alemães falados pelos anglos, saxões e jutos, que emigraram da Dinamarca e do norte da Alemanha para se estabelecer na Inglaterra a partir da metade do século V em diante. Estes dialetos estavam

45 O Consulado Geral do Reino dos Países Baixos divulga que a língua dos Países Baixos, o

neerlandês, é o idioma materno de mais de 21 milhões de neerlandeses e flamengos. O neerlandês é uma língua indo-europeia do ramo ocidental da família germânica. Nos lugares que fazem parte do Reino dos Países Baixos, o neerlandês também é falado. No noroeste da França usa-se um dialeto neerlandês. Nas Antilhas Neerlandesas e Aruba e na antiga colônia neerlandesa do Suriname, o neerlandês é utilizado frequentemente pela Administração Pública e no ensino. O afrikaans, uma das línguas faladas na África do Sul, deriva do neerlandês do século XVII. O neerlandês tem tido influências em outras línguas, como, por exemplo, na terminologia da navegação, obras hidráulicas e na agricultura. Atualmente, o neerlandês é ensinado em aproximadamente 250 universidades no mundo e muitas vezes é escolhido como segunda língua nas escolas da região francófona da Bélgica, no norte da França e na Alemanha. Com o objetivo de estimular o neerlandês a nível mundial e formular normas para a ortografia e a gramática, foi fundado em 1980 pelos Países Baixos e pela Flandres a organização União da Língua Neerlandesa (Nederlandse Taalunie. O neerlandês é a língua oficial do ensino nos Países Baixos. Disponível em: http://riodejaneiro.nlconsulado.org/voce-e-os-paises-baixos/breve-perfil-dos-paises-baixos/o-idioma-neerlandes.html. Acesso em: 15/11/2011.

46 Na província da Frísia, no norte dos Países Baixos, além do neerlandês é falada também uma

(30)

caracterizados pela retenção das oclusivas surdas /p, t, k/ transformadas nas

fricativas correspondentes em alto alemão /f, th, x/ e das oclusivas sonoras /b, d, g/

transformadas em /p, t, k/. Essas transformações podem ser vistas no seguinte

exemplo: 1) Baixo alemão – dör, pad, skip, heit; 2) Inglês – door, path, ship, hot; 3)

Alto alemão –Tur, Pfad, Schiff, heiss (SCHNEIDER, 2007).

O inglês médio ocorre no período do início do século XII até o fim do século XV, existe o reinado da Dinastia Tudor, que foi quando o inglês perdeu muitas de suas flexões nominais e verbais, e muitas palavras francesas incorporaram-se ao léxico. A partir da invasão normanda em 1066, observa-se a afluência das palavras de origem francesa. Há, em inglês, por exemplo, uma palavra para designar o animal vivo (em geral de origem anglo-saxã) e uma para a carne dele (em geral de origem francesa). Como exemplos: para designar o “boi”, a palavra ox (do

anglo-saxão oxa), e beef (do francês boef ou buef) para a “carne de boi”. Outro exemplo é

a palavra para a festa de casamento, que é wedding, mas se for se referir à

instituição do casamento usa-se a palavra marriage, que vem do francês mariage.

(idem). Ressalte-se que existem mais exemplos nesse sentido.

Do ano de 1475 d.C. até os dias atuais caracteriza-se pelo inglês moderno. Para essa fase do inglês, houve a unificação da língua com base no dialeto da região londrina. Entre os séculos XV e XVI, ocorreu a transição do inglês médio ao moderno sendo marcada por uma rigorosa evolução fonética na pronúncia das vogais, mudança esta denominada de Grande Mudança Vocálica, pelo linguista dinamarquês Otto Jespersen, que consistiu em alterar a articulação das vogais em relação às posições dos lábios e da língua. O inglês médio possuía 20 vogais e após essa mudança, ficou com 18 vogais (ALGEO et. al., 1982).

A escrita permaneceu inalterada como consequência da aparição da imprensa. Até então o inglês médio possuía uma escrita mais fonética; todas as consoantes se pronunciavam, enquanto que hoje algumas são mudas como o „l’ em

walking (andando, andar). Desde a Grande Mudança Vocálica, o inglês moderno se

desenvolveu com o que começou na Inglaterra do século XV e continua a adotar palavras estrangeiras a partir de uma variedade de línguas, bem como inventar novas palavras (idem).

(31)

número significativo de palavras em inglês, especialmente palavras técnicas, como da área médica, foram construídos a partir de raízes do latim e do grego antigo. Por suas características oriundas do latim, o inglês é tido como a língua germânica mais neolatina (idem).

Após uma breve explanação da língua inglesa, cabe destacar o inglês que é falado na Guiana. Encontra-se no país o continuum47 crioulo de base de língua

inglesa. O conceito de língua crioula nasce no final do século XIX. Seu uso antecede a sua definição (HALL JR, 1966). Os conceitos de pidgin e crioulo foram ignorados pelos linguistas no passado, pois havia um mal entendido sobre a identidade de cada conceito e também pelo questionamento se valia ou não a pena estudá-los. O motivo de se estudar os idiomas escritos era bastante prático: o acesso à aprendizagem armazenada em sua literatura.

A visão mais social da linguagem começou com o filólogo Hugo Schuchardt, do século XIX, que percebeu que algumas línguas da Europa Ocidental não só tinha antepassados, mas também descendentes na forma de crioulos (HOLM, 1988, p. 2). Schuchardt veio a perceber que os indivíduos desempenham um importante papel no processo social levando a mistura de língua: "Velhas e novas formas são distribuídas ... dentro de um dialeto único, de acordo com o temperamento de sexo, educação, em suma, da forma mais diversa" (1885 , p. 18, citado por FOUGHT, 1982, p. 425).

Desde o estabelecimento dos estudos do pidgin e do crioulo como disciplina acadêmica no final da década de 1950 e início dos anos 1960, tornou-se claro que as forças linguísticas na forma de pidgins e crioulos são excepcionais em que essas forças são realmente "muito rápidas e pronunciadas". Além disso, a pesquisa sobre os processos de crioulização e pidginização originou importantes avanços em várias áreas da linguística aplicada e teórica. Estudos de continuum crioulo deixam ao

desenvolvimento da escala implicacional em linguística. O trabalho de Labov sobre a variação no inglês negro americano lançou as bases para sociolinguística moderna, que, por sua vez, lançou luz nova sobre a mudança de linguagem como sendo socialmente motivada. A pidginização e a crioulização se tornaram importantes para linguística histórica como exemplos extremos de mudança linguística induzida por contato (HOLM, 1988, p. 2).

(32)

Para Holm (1988, p. 4), um pidgin é uma língua reduzida, que resulta do contato prolongado entre grupos de pessoas com nenhuma língua em comum, que evolui quando eles precisam de alguns meios de comunicação verbal, talvez para o comércio, mas nenhum grupo aprende a língua nativa de qualquer outro grupo, por razões sociais que podem incluir falta de confiança ou de contato próximo. Por definição, o pidgin resultante é restrito a um domínio muito limitado como o comércio, e é língua nativa de ninguém (HALL JR, 1962; HYMES, 1971, p. 43). Hall Jr. (1966) corrobora essa definição por dizer que pidgin é uma língua de contato,

que surge quando povos falantes de línguas mutuamente ininteligíveis entram em contato estreito, ou seja, quando tem necessidade de se comunicarem uns com os outros, como ocorreu durante a colonização do mundo pelos europeus. Esta descrição distingue pidgins do discurso imperfeito de estrangeiros em outras situações sociais, quando falantes nativos da língua-alvo não tentar seguir versão dos estrangeiros imperfeita dela, e isso não se estabelecer ou estabilizado (HOLM, 1988, p. 4).

Se o contato do grupo misto formado por colonizadores e colonizados começa a se consolidar e o pidgin passa a ser língua materna das crianças da nova

comunidade, tem-se o crioulo. Logo, a língua crioula é um pidgin que foi adquirido

como língua nativa da comunidade. O crioulo, por sua vez, tem um jargão ou pidgin em sua ancestralidade, que é falado nativamente por uma comunidade cujos ancestrais foram deslocadas geograficamente de modo que os laços com sua língua de origem e identidade sociocultural foram parcialmente quebrados. Os falantes de crioulo precisam de um vocabulário para cobrir todos os aspectos da sua vida, e não apenas um domínio como o comércio, onde as palavras estavam em falta, que foram fornecidos por vários meios, tais como combinações inovadoras. Por atender todas as necessidades comunicativas e expressivas de seus usuários, e não apenas as do contato interétnico como faz o pidgin, o crioulo apresenta uma expansão da

gramática pidgin bem como aumento do léxico (HOLM, 1988, p. 6,7).

A língua crioula é criada ao lado de uma língua base. Como o estudo de caso desse trabalho, o crioulo guianense vem de base inglesa, chamado de

continuum crioulo. O continuum crioulo vai desde o basileto (que mais se afasta do

(33)

encontrar nas salas de aula o ensino do inglês acroleto, o inglês standard (padrão),

e já o crioulo guianense é amplamente falado pela população guianense. Observa-se assim que a população guianenObserva-se convive com diversidade linguística, perceptível no contato com eles. Como exemplo do continuum crioulo guianense,

segue a seguir a sentença I gave him one (Eu dei a ele um) (DAMOISEAU, 2003).

Frase “I gave him one” no continuum

crioulo guianense 1 aɪ

geɪv hɪm

wᴧn 2

Wan 3

a

ɪm

4 i:

5

gɪv hɪm

6 ɪm

7

i: 8 dɪd gɪv

9 dɪ gɪ

10 dɪd 11 dɪ gi: 12 gɪ 13 mɪ hi: 14 i. 15

bɪn 16

gi:

17 æm

18

A título de exemplo de crioulo guianense segue algumas palavras e expressões: Meh nah no (eu não sei), Gyaff (conversar, bater papo), Feg (gomo [de

laranja, de limão, etc.], Yuh eyes pass me (Você está me desrespeitando, está me

tirando), Antiman (homem homossexual), Sugardaddy (homem velho com mulher

jovem), Sweetman (amante [homem], “Ricardão”), Sweetwoman (amante mulher, “a

outra”), Fine wine (bom rebolado [dançando socca ou chutney]), Wash the wares

(lavar louça), Fine man (homem magro) e Buck (gente do mato - termo ofensivo,

geralmente usado para ameríndios)48.

Por fim, crioulização não é uma categoria linguística, mas sim um fenômeno histórico. Pode ser de natureza etnográfica, cultural. Para Guisan (2011)49, todas as línguas são crioulas, pois crioulização ocorre de mudanças rápidas em situação

48

Exemplos extraídos da apresentação “As línguas no contexto local: Crioulo da Guiana”, exposta

pelo acadêmico Geocarlos L. Alves, na IX Semana de Letras da Universidade Federal de Roraima, com o tema Outras letras, outras vozes: a caminho da transdisciplinaridade”, em 10 de novembro de

2011.

(34)

especial, que a escrita não consegue conter; conforme ratificam os linguistas, deve-se valorizar a língua falada, deve-seja ela falada em casa, na vizinhança, no cotidiano, considerando o multilinguismo das pessoas, onde as pessoas podem não falar outras línguas, mas já ouviram palavras em outras línguas e entendem seu significado50, ou ainda podem até mesmo usar essas palavras estrangeiras em algum momento do seu dia a dia. O crioulo ocorre de modo rápido, nasce entre duas línguas muito diferentes. No entanto, apresentam estruturas semelhantes mesmo sendo de origens-bases diferentes.

1.3 Roraima e as línguas indígenas das famílias linguísticas Aruaque, Caribe e Ianomâmi

A migração indígena começou na década de 1940. Em 1943, o pesquisador Ernesto Migliazza avaliou a população total da região de 19.709 habitantes – sendo 15.700 indígenas. Estima-se que em 1885 nas margens do rio Branco “havia mil civilizados, incluindo brancos, mestiços e índios vestidos”. Dentro da mestiçagem de raças, os índios exercem um papel fundamental na composição do povo roraimense. O estado tem 14% da sua população constituída por grupos indígenas que totalizam 40.000 índios. Em termos de ocupação territorial, as reservas em que os indígenas vivem ocupam 54% da área total de Roraima, grande parte delas concentradas em regiões fronteiriças (SEPLAN, 2009).

Atualmente, o Estado de Roraima possui povos indígenas que preservam, em maior ou menor grau, sua cultura e língua, denominadas com o mesmo nome do seu povo, a saber: Macuxi51, Ye‟kuana ou Maiongong52, Taurepang53 ou Pemón, Patamona54, Sapará, Wai-Wai55, Waimiri-Atroari56, Ingaricó57 – todos da família

50 Esse fenômeno é denominado etimologia popular. Ocorre quando as palavras cuja forma e cujo

sentido são poucos familiares são deformadas. Essas inovações são tentativas de explicar aproximadamente uma palavra embaraçante relacionando-a com algo conhecido. Essas palavras maltratadas pela etimologia popular têm o caráter de serem interpretações puras e simples de formas incompreendidas por formas conhecidas. A etimologia popular ocorre em condições particulares, e não atinge mais que as palavras raras, técnicas ou estrangeiras, que as pessoas assimilam imperfeitamente (SAUSSURE, 1970, pp. 202, 204).

51 Outro nome ou grafia possível: Makuxi, Macushi, Pemon. 52 Outro nome ou grafia possível: Yecuana, Mayongong, So'to.

53 Outro nome ou grafia possível: Taulipang, Taurepangue, Taulipangue, Pemon. 54 Outro nome ou grafia possível: Ingaricó, Kapon.

55 Outro nome ou grafia possível: Hixkariana, Hixkaryana, Mawayana, Karapayana, Katuena, Xerew. 56 Outro nome ou grafia possível: Kinja, Kiña, Uaimiry, Crichaná.

(35)

linguística Caribe 58; Ianomâmi família Ianomâmi; Wapixana59 família Aruaque (SEPLAN, 2009). No campo da variação linguística, o método comparativo tem sido aplicado às línguas indígenas brasileiras, permitindo classificá-las em famílias e troncos, de acordo com Maia (2006). Considera-se que cada língua indígena apresenta seus dialetos. A língua ianomâmi inclui quatro subgrupos, cada um dividido em alguns dialetos e subdialetos, cujas autodenominações são: 1) sanumá, sanima ou tsanima; 2) yanomae, yanomama, yanomam, yanomami ou yanonami; 3) yanam ou ninam; 4) yanomamy ou yanomamo (MIGLIAZZA, 1972, p. 2). Ferreira (2009, p. 17) aponta ainda para a existência de uma quinta língua ianomâmi no extremo sudeste da Terra Indígena Yanomami, em Roraima.

A figura 02 a seguir apresenta a classificação das línguas indígenas brasileiras em troncos e famílias feita pelo professor Rodrigues (2002), onde se observa as línguas indígenas faladas em Roraima das famílias linguísticas Caribe, Ianomâmi e Aruaque.

Figura 02: Classificação das línguas indígenas brasileiras em troncos e famílias

Fonte: Autoria do professor Aryon Rodrigues, In: Maia, 2006, p. 171.

Imagem

Figura 01: Fronteira Brasil-Venezuela-Guiana 8
Figura 02: Classificação das línguas indígenas brasileiras em troncos e famílias
Tabela 1: Motivação para cursar Secretariado
Tabela 2: Por que escolheu a instituição do curso  Alunos  É a única que tem o curso em nível superior em RR  2
+7

Referências

Documentos relacionados

O processo de instalação instala todas as Ferramentas de Produtividade WebEx disponíveis; no entanto, a qualquer momento, você pode alterar suas preferências sobre quais

A persuasão comportamental foi exercida através do ensaísmo e do tratadismo de seus adeptos; temas como a relação entre ciências naturais e sociais, o papel da Tradição

Um dos principais pontos da pesquisa foi observado na avaliação dos trabalhos voluntários, onde a pontuação se demonstrou bem satisfatória, indicando que as organizações

A partir das narrativas publicitárias pode-se, também, depreender alguns aspectos da visão de família da classe média brasileira e de seus ideais: a divisão de responsabilidades entre

Na coluna da esquerda (coluna em branco) informar o código do exame, pode-se utilizar do F8 para exibir o browser de consulta dos exames conforme figura 1 abaixo..

Aqui não cabe discursar sobre os motivos dos agressores, que na maioria das vezes violentam como forma de exercer poder e controle sobre a mulher, mas afirmar que

Costa (2001) aduz que o Balanced Scorecard pode ser sumariado como um relatório único, contendo medidas de desempenho financeiro e não- financeiro nas quatro perspectivas de

DEMAIS UF's INSCRITAS E CIDADE SEDE GRUPO B AP SE AL TERCEIRA DIVISÃO FEMININO FEMININO MASCULINO SEGUNDA DIVISÃO FEMININO MASCULINO PRIMEIRA