DANRLEI PATEL FAVARO
PROJETO ARQUITETÔNICO DE EDIFICAÇÃO MULTIFAMILIAR VISANDO A CERTIFICAÇÃO DO SELO CASA AZUL DA CAIXA
Tubarão 2020
DANRLEI PATEL FAVARO
PROJETO ARQUITETÔNICO DE EDIFICAÇÃO MULTIFAMILIAR VISANDO A CERTIFICAÇÃO DO SELO CASA AZUL DA CAIXA
Projeto de Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Engenharia Civil da Universidade do Sul de Santa Catarina como requisito parcial à obtenção do título de Engenheiro Civil.
Orientadora: Prof. Vivian Mendes da Silva Martins, Msc.
Tubarão 2020
DANRLEI PATEL FAVARO
PROJETO ARQUITETÔNICO DE EDIFICAÇÃO MULTIFAMILIAR VISANDO A CERTIFICAÇÃO DO SELO CASA AZUL DA CAIXA
Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de Engenheiro Civil e aprovado em sua forma final pelo Curso de Engenharia Civil da Universidade do Sul de Santa Catarina.
Tubarão, 16 de novembro de 2020.
______________________________________________________ Prof. Vivian Mendes da Silva Martins, Msc.
Universidade do Sul de Santa Catarina
______________________________________________________ Prof. Gil Felix Madalena, Esp.
Universidade do Sul de Santa Catarina
______________________________________________________ Prof. Paulo Gilberto Pereira Schneider, Esp.
Dedico esse trabalho primeiramente à Deus, que sempre me deu força e coragem para superar as dificuldades. A minha orientadora, que sempre foi muito paciente, conselheira e acessível. A toda minha família, especialmente aos meus pais, que sempre me apoiaram nos estudos e lutaram ao meu lado por essa conquista. E ao meu namorado, que sempre foi um grande companheiro e parceiro de todas as horas.
AGRADECIMENTOS
Primeiramente a Deus, que em nenhum momento me deixou fraquejar ou desistir dos meus sonhos.
Aos meus pais, pois é graças ao seu esforço que hoje posso concluir o meu curso, e a minha família pela compreensão das ausências.
Agradeço a minha coordenadora, e Professora Vivian Mendes da Silva por ter aceitado acompanhar-me neste projeto, e por todo apoio e paciência ao longo de sua elaboração, sem o qual não teria conseguido concluir esta difícil tarefa.
Agradeço as minhas irmãs, grandes incentivadoras dos meus estudos.
A meu namorado, que sempre me apoiou e me deu força para vencer as dificuldades durante a graduação.
Agradeço a todos os professores do curso que me forneceram todas as bases necessárias para a realização deste trabalho, agradeço com profunda admiração pelo vosso profissionalismo.
A todos que participaram direta e indiretamente sobre minha formação, muito obrigado.
“Aprendemos quando resolvemos nossas dúvidas, superamos nossas incertezas, satisfazemos nossa curiosidade” (Maria Teresa Mantoan).
RESUMO
O setor da construção civil se caracteriza como uma atividade de grande importância econômica, no entanto, também uma das mais impactantes do ponto de vista ambiental. Neste contexto, a incorporação de estratégias as quais proporcionem o desenvolvimento de empreendimentos mais sustentáveis é essencial para a minimização destes impactos e para que se propicie uma maior qualidade de vida às comunidades envolvidas. O presente trabalho foi realizado com o intuito de projetar um edifício residencial multifamiliar, agregando a ela elementos que possuem caráter mais sustentável. Para tanto, realizou-se a análise do Selo de Construção Sustentável - Casa Azul da Caixa, primeiro sistema de classificação para projetos habitacionais sustentáveis oferecido no país, visando à obtenção do mesmo para a edificação. Foi realizado o projeto de um edifício residencial multifamiliar no município de Tubarão/SC, acrescentando ao mesmo, práticas sustentáveis e de acordo com a legislação vigente. Durante a análise do Selo e adequação do projeto ao mesmo, foram encontrados alguns impasses, que ao longo do desenvolvimento do projeto foram solucionados com instruções dadas pela própria certificação. Tal situação aponta a necessidade de se realizar uma nova revisão no manual Selo Casa Azul CAIXA, visando analisar os critérios obrigatórios, tornando-os mais flexíveis perante as dificuldades encontradas na submissão de projetos provindos de diferentes regiões do país, cada qual com suas peculiaridades. Conclui-se que apesar dos impasses encontrados o projeto atingiu a graduação em nível ouro atendendo 40 critérios, conseguindo assim obtenção do selo. Por fim, o projeto comprova a importância de sua aplicação para qualquer tipo de edificação, visto os benefícios que o mesmo proporciona não apenas em incentivar o uso racional de recursos naturais e reduzir os impactos ambientais, mas também, proporcionar conforto a seus usuários.
Palavras chave: Selo Casa Azul CAIXA. Impactos ambientais. Construção Civil. Edifício Residencial Multifamiliar. Projeto Arquitetônico.
ABSTRACT
The civil construction sector is characterized as an activity of great economic importance, however, also one of the most impactful from the environmental point of view. In this context, the incorporation of strategies that provide the development of more sustainable enterprises is essential to minimize these impacts and to provide a better quality of life for the communities involved. The present work was carried out in order to design a multifamily residential building, adding elements that have a more sustainable character. To this end, the Sustainable Construction Seal - Casa Azul da Caixa was analyzed, the first classification system for sustainable housing projects offered in the country, with a view to obtaining it for the building. The project for a multifamily residential building in the municipality of Tubarão / SC was carried out, adding to it, sustainable practices and in accordance with current legislation. During the analysis of the Seal and adequacy of the project to it, some impasses were found, which throughout the development of the project were solved with instructions given by the certification itself. This situation points to the need to carry out a new revision of the Casa Azul CAIXA Seal manual, aiming at analyzing the mandatory criteria, making them more flexible in view of the difficulties encountered in submitting projects from different regions of the country, each with its own peculiarities. It is concluded that despite the impasses found the project reached the graduation in gold level meeting 40 criteria, thus obtaining the seal. Finally, the project proves the importance of its application for any type of building, given the benefits it provides not only in encouraging the rational use of natural resources and reducing environmental impacts, but also providing comfort to its users.
Key words: Casa Azul CAIXA seal. Environmental impacts. Construction. Multifamily Residential Building. Architectural project.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 - Impactos Ambientais da Cadeia da Construção Civil. ... 21
Figura 2 - Logomarcas do Selo Casa Azul níveis Ouro, Prata e Bronze ... 27
Figura 3 - Mapa de localização do Residencial Bonelli, Joinville/SC. ... 36
Figura 4 - Fachada Residencial Bonelli. ... 38
Figura 5 - Área de lazer infantil... 38
Figura 6 - Espaço gourmet... 39
Figura 7 - Planta Baixa Residencial Bonelli. ... 39
Figura 8 - Fachadas Residencial Bonelli. ... 39
Figura 9 - Localização do município de Tubarão/SC. ... 43
Figura 10 - Localização do terreno no Município de Tubarão. ... 45
Figura 11 - Imagem do terreno. ... 45
Figura 12 - Mapa de edificações multifamiliares na região. ... 46
Figura 13 - Mapa de uso do solo. ... 47
Figura 14 - Mapa de cheios e vazios. ... 48
Figura 15 - Mapa de gabarito das edificações. ... 48
Figura 16 - Residenciais finalizados e em construção na região. ... 49
Figura 17 - Mapa do Sistema Viário em Tubarão. ... 51
Figura 18 - Principais vias de acesso da cidade. ... 51
Figura 19 - Paradas de ônibus ao longo da rua Prudente de Moraes. ... 52
Figura 20 - Passeios públicos do terreno. ... 53
Figura 21 - Mapa de esquema bioclimático... 55
Figura 22 - Mapa de altitude e relevo. ... 56
Figura 23 - Vegetação localizada no terreno. ... 56
Figura 24 - Localização do terreno em relação ao zoneamento urbano. ... 58
Figura 25 - Projeção da edificação com recuos e pavimento térreo colado em duas extremas – 1º caso. ... 63
Figura 26 - Projeção da edificação com recuos e o pavimento térreo colado em uma extrema – 2º caso. ... 65
Figura 27 - Qualidade do entorno - infraestrutura. ... 71
Figura 28 - Qualidade do entorno – impactos. ... 72
Figura 29 - Mapa de altitude... 73
Figura 31 - Planta baixa subsolo – Ventos predominantes. ... 75
Figura 32 - Planta baixa terreo – Ventos predominantes... 76
Figura 33 - Planta pavimento tipo – Ventos predominantes. ... 76
Figura 34 - Planta 10º pavimento– Ventos predominantes. ... 77
Figura 35 - Brise móvel modelo asa de avião. ... 78
Figura 36 - Exemplo diferentes modelos de brises... 79
Figura 37 - Exemplos de cobogós. ... 80
Figura 38 - Lâmpada de LED e Selo PROCEL. ... 81
Figura 39 - Selo Conpet e Etiqueta do PBE Inmetro para equipamentos consumidores de gás. ... 82
Figura 40 - Esquema Vertical de GLP... 82
Figura 41 - Eletrodomésticos com selo Procel ou Ence Nível A ... 83
Figura 42 - Telhas Solares Fotovoltaicas Eternit... 84
Figura 43 - Formas plásticas metro modular ... 86
Figura 44 - Esquema vertical de água fria. ... 88
Figura 45 - Modelos dos dispositivos economizadores. ... 89
Figura 46 - Corte e detalhamento da montagem dos módulos. ... 90
Figura 47 - Esquema vertical de coleta e reuso de água da chuva. ... 91
Figura 48 - Jardim de chuva. ... 92
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Resumo das Categorias, Critérios e Classificação do SCA. ... 25
Quadro 2 - Empreendimentos certificados pelo Selo Casa Azul... 35
Quadro 3 - Uso do solo para o terreno... 58
Quadro 4 - Parâmetros urbanísticos para o terreno. ... 59
LISTA DE EQUAÇÕES
Equação 1 - Área de Projeção... 62
Equação 2 - Área Edificável ... 62
Equação 3 - Número Máximo de Pavimentos Permitidos ... 62
Equação 4 - Recuos Frontais/Fundos a partir do 4º Pavimento ... 63
Equação 5 - Área Permitida para Construção Conforme Recuos ... 63
Equação 6 - Área de Projeção... 64
Equação 7 - Área Edificável ... 64
Equação 8 - Número Máximo de Pavimentos Permitidos ... 64
Equação 9 - Recuos Frontais/Fundos a partir do 4º Pavimento ... 65
Equação 10 - Área Permitida para Construção Conforme Recuos ... 65
LISTA DE ABREVEATURAS E SIGLAS
ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas
AMUREL - Associação de Municípios da Região de Laguna AQUA - Alta Qualidade Ambiental
CA - Coeficiente de Aproveitamento Básico
CELESC - Central Elétrica de Energia de Santa Catarina CERFLOR - Programa Nacional de Certificação Florestal CSN - Companhia Siderúrgica Nacional
FESSC - Fundação Educacional do Sul de Santa Catarina FTC - Ferrovia Tereza Cristina
HIS - Habitação de Interesse Social
HQE - Haule Qualité Environmental e dês Bâtiments IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IPTU - Imposto Predial e Territorial Urbano
LEED - Leadership in Energy and Environmental Design MPE - Micro e Pequenas Empresas
PGRCC - Projeto de Gerenciamento de Resíduos da Construção Civil PMT - Prefeitura Municipal de Tubarão
PNE - Pessoas com Necessidades Especiais
POLI-USP - Escola Politécnica da Universidade de São Paulo PROCEL - Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica RCD - Resíduos da Construção e Demolição
SC - Santa Catarina
SCA - Selo Casa Azul Caixa
SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
TO - Taxa de Ocupação
UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas UNISUL - Universidade do Sul de Santa Catarina ZC2 - Zona Comercial 2
SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO... 17 1.1 JUSTIFICATIVA ... 18 1.2 OBJETIVO ... 19 1.2.1 Objetivo geral ... 19 1.2.2 Objetivos específicos ... 19 2 REVISÃO DE LITERATURA ... 20
2.1 IMPACTOS AMBIENTAIS NA CONSTRUÇÃO CIVIL ... 20
2.2 SUSTENTABILIDADE NA CONSTRUÇÃO CIVIL ... 22
2.3 SELO CASA AZUL ... 24
2.3.1 Categoria 1 – Qualidade Urbana ... 28
2.3.2 Categoria 2 – Projeto e Conforto ... 29
2.3.3 Categoria 3 – Eficiência Energética ... 29
2.3.4 Categoria 4 – Conservação de Recursos e Materiais ... 30
2.3.5 Categoria 5 – Gestão de Água ... 31
2.3.6 Categoria 6 – Práticas Sociais ... 31
3 MATERIAIS E MÉTODOS ... 33
4 REFERENCIAL PROJETUAL SELO CASA AZUL ... 35
4.1 RESIDENCIAL BONELLI – JOINVILLE/SC ... 36
4.1.1 Ficha Técnica ... 36
4.1.2 Projeto ... 37
4.1.3 Atendimento ao Selo... 40
4.2 CONSIDERAÇÕES SOBRE O PROJETO REFERENCIAL ... 41
5 DIAGNOSTICO DA ÁREA ... 43 5.1 HISTÓRIA DE TUBARÃO ... 43 5.2 LOCALIZAÇÃO DO TERRENO ... 44 5.3 USOS DO SOLO ... 46 5.4 DENSIDADE ... 47 5.5 SISTEMA VIÁRIO ... 50 5.6 TRANSPORTE PÚBLICO ... 52 5.7 INFRAESTRUTURA ... 52 5.8 CONDICIONANTES FÍSICOS ... 54 5.8.1 Clima ... 54
5.8.2 Ventos ... 54
5.8.3 Topografia e Vegetação ... 55
5.9 LEGISLAÇÃO ... 57
5.9.1 Parâmetros Urbanísticos do Terreno ... 57
5.9.2 Estudo Prévio de Viabilidade/Massa ... 60
5.9.2.1 Primeiro Caso ... 62 5.9.2.2 Segundo Caso ... 64 6 RESULTADOS ESPERADOS ... 67 7 RESULTADOS E DISCUSSÕES ... 68 7.1 PROGRAMA DE NECESSIDADES ... 68 7.2 PROJETO ARQUITETÔNICO ... 69
7.3 GRADUAÇÃO DO EDIFICIO NO SELO CASA AZUL DA CAIXA ... 70
7.3.1 Categoria 1 – Qualidade Urbana ... 71
7.3.2 Categoria 2 – Projeto e Conforto ... 74
7.3.3 Categoria 3 – Eficiência Energética ... 81
7.3.4 Categoria 4 – Conservação de Recursos Materiais ... 85
7.3.5 Categoria 5 – Gestão da Água ... 87
7.3.6 Categoria 6 – Práticas Sociais ... 93
7.3.7 Graduação do Edifício Residencial Multifamiliar ... 94
8 CONCLUSÃO ... 97
REFERÊNCIAS ... 99
ANEXOS ... 106
ANEXO A – QUADRO DE CRITÉRIOS SELO AZUL DA CAIXA/RESIDENCIAL BONELLI ... 107
ANEXO B – IMAGENS EDIFÍCIO RESIDENCIAL MULTIFAMILIAR ... 109
APÊNDICES ... 113
1 INTRODUÇÃO
A construção civil representa um importante e significativo setor para a economia mundial, proporcionando infraestrutura e geração de empregos. Ainda que possua grande importância, esse setor representa um dos maiores consumidores de recursos naturais e causador de impactos ambientais ao longo de todo seu processo, desde a extração de matérias-primas à sua operação. Os impactos de suas atividades potencializam alterações significativas no ambiente, como a geração de resíduos, a deterioração do meio ambiente e a piora da condição de vida, seja humana ou animal (FORTUNATO, 2014).
Perante o atual cenário desafiador com as preocupações e legislações ambientais e seus respectivos impactos, o setor da construção civil carece de um reposicionamento mais intransigente no que diz respeito às questões ambientais relacionadas às suas atividades (MOTA, 2011).
A implantação de um modelo com diretrizes que envolvam aspectos econômicos, socioculturais, ambientais e políticos se institui na área da construção civil e promove benefícios além das questões ambientais. Desse modo, as concepções de sustentabilidade implicam no surgimento de novos princípios básicos de projeto (VERAS, 2013).
A grande preocupação pela produção habitacional sustentável, levou a Caixa Econômica Federal, a criar no ano de 2010, o Selo Casa Azul (SCA). Trata-se de um sistema de classificação da sustentabilidade de projetos, desenvolvido para a realidade da construção habitacional do Brasil.
Observando a construção civil na região da Associação de Municípios da Região de Laguna (AMUREL), nota-se que não há edificações que utilizem a certificação do SCA. A produção habitacional sustentável comprova a importância da sua aplicação em qualquer tipo de edificação, visto que os seus benefícios não são exclusivos apenas para o conforto do usuário, mas principalmente na minimização dos impactos ambientais.
Nesse contexto, esta pesquisa pretende elaborar um projeto arquitetônico residencial multifamiliar no Município de Tubarão, Santa Catarina (SC), visando a possibilidade de conseguir a certificação do SCA.
1.1 JUSTIFICATIVA
Grande parte das atividades humanas que impactam no meio ambiente tem ligações com a indústria da construção civil, repercutindo significativamente em aspectos econômicos, sociais e ambientais. Com a preocupação cada vez maior com as questões ambientais, torna-se necessário a busca de novas alternativas ecologicamente corretas empregadas na construção civil.
Para se adequar a esta demanda, vários países passaram a receber investimentos a partir da década de 90 para o desenvolvimento de construções sustentáveis, estimulada por agências governamentais, instituições de pesquisa e pelo setor privado.
Consequentemente, nesta mesma década surgiram na Europa, nos Estados Unidos e no Canadá as primeiras metodologias de avaliação ambientais, como parte das estratégias para o cumprimento de metas ambientais locais estabelecidas a partir da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, conhecida como Eco-92, realizada no ano de 1992 na cidade do Rio de Janeiro. Todos estes métodos partilham o objetivo de encorajar a demanda do mercado por níveis superiores de desempenho ambiental, provendo avaliações para orientar projetistas ou sustentar a atribuição de selos ambientais para edifícios (SILVA, 2003).
No Brasil, os sistemas de avaliações ambientais mais conhecidos são a Certificação Leadership in Energy and Environmental Design (LEED), a Certificação Alta Qualidade Ambiental (AQUA-HQE), o Programa Nacional de Eficiência Energética em Edificações (PROCEL EDIFICA) e o Selo Casa Azul (SCA) da Caixa Econômica Federal (GRÜNBERG et al., 2014).
No ano de 2010, a Caixa Econômica Federal lançou o Guia de Sustentabilidade Ambiental do SCA, que apesar de ter sido desenvolvido para a obtenção do SCA, destinado a empreendimentos habitacionais, pode ser útil para estudantes, profissionais e empresas da área de construção. Visto que, a busca por uma construção sustentável, melhora de forma progressiva e contínua suas práticas de projeto e construção, desenvolvendo novas soluções (DINAMARCO, 2016, p. 21).
Desenvolvido para a realidade da construção habitacional brasileira, o SCA é o primeiro sistema de classificação de sustentabilidade de projetos oferecido no Brasil. Este sistema propõe soluções adequadas à realidade local, de maneira que aperfeiçoem o uso de recursos naturais e, consequentemente promove benefícios sociais.
No entanto, para a elaboração de construções sustentáveis, primeiramente devem ser verificadas as adaptações necessárias, para atendimento das exigências de sustentabilidade conforme cada sistema. Considerando que o SCA é um sistema ainda pouco utilizado no Brasil, torna-se importante analisar os critérios de certificação deste selo, de modo a verificar os benefícios oferecidos aos usuários e ao meio ambiente, para assim, estimular a elaboração de projetos habitacionais que favoreçam ganhos ambientais e sociais.
1.2 OBJETIVO 1.2.1 Objetivo geral
Elaborar um projeto arquitetônico de um edifício residencial multifamiliar com a aplicação de práticas sustentáveis, a fim de verificar a possibilidade de obter o Selo Casa Azul CAIXA.
1.2.2 Objetivos específicos
• Analisar o Selo Casa Azul Caixa (SCA) para conhecer os critérios para obtenção da certificação sustentável;
• Avaliar cada critério do SCA para elencar quais são aplicáveis a uma edificação multifamiliar;
• Identificar referenciais de projetos de edificações já certificados com o SCA; • Elaborar o projeto arquitetônico seguindo os critérios do SCA.
2 REVISÃO DE LITERATURA
A Construção Civil é uma importante atividade que traz benefícios econômicos e sociais, contribuindo fortemente para o contínuo desenvolvimento do país. Como exemplos de tais benefícios, podem ser citados a geração de mão de obra, comércio de materiais, venda e locação de propriedades, dentre outros. Estes benefícios, caracterizam a ampla movimentação socioeconômica pela qual o setor é responsável de forma direta ou indireta, por meio da elaboração de construções de grande, médio e pequeno porte, além de reformas em estruturas já existentes.
Trata-se de um setor em constante crescimento com grande potencial de geração de emprego. Em 2019, a construção 9civil apresentou alta de 3,53% no número de empregos, registrando mais de 80.000 mil brasileiros empregados neste setor (BARBARÁ, 2020). Entretanto, o setor da construção civil é considerado altamente degradante e seus impactos ambientais podem ser observados ao longo de todas as etapas de sua cadeia produtiva, como será exposto a seguir.
2.1 IMPACTOS AMBIENTAIS NA CONSTRUÇÃO CIVIL
No Brasil, com o maciço processo de migração ocorrido na segunda metade do século passado e sua enorme demanda por novas habitações, sem haver uma consciência ecológica na indústria da construção, resultou em danos ambientais irreparáveis (SCHENINI; BAGNATI; CARDOSO, 2004). Este modelo de construção civil praticado no Brasil, ainda acarreta vários prejuízos ambientais, pois utiliza amplamente de matéria-prima não renovável da natureza, consume elevadas quantidades de energia (tanto na extração, quanto no transporte e processamento dos insumos) e é considerado grande fonte geradora de resíduos dentro da sociedade (ROTH, 2008).
Roth (2008), afirma que tais impactos acabam provocando a formação de áreas degradadas que ocorrem em três etapas do processo construtivo: na aquisição de materiais (retirada de matéria-prima natural e a fabricação de produtos), na etapa de execução das obras civis e na fase de disposição final dos resíduos gerados pela construção (Figura 1).
Figura 1 - Impactos Ambientais da Cadeia da Construção Civil.
Fonte: Roth, 2008, p. 116.
Segundo John (2001, p. 29-30):
Nenhuma sociedade poderá atingir o desenvolvimento sustentável sem que a construção civil, que lhe dá suporte, passe por profundas transformações. A cadeia produtiva da construção civil apresenta importantes impactos ambientais em todas as etapas de seu processo. Qualquer sociedade seriamente preocupada com esta questão deve colocar o aperfeiçoamento da construção civil como prioridade.
Atualmente, aproximadamente 40% da economia mundial provêm da participação da indústria da construção civil (BELTRAME, 2013). Essa significativa parcela da construção civil na economia, provém de países ainda em processo de desenvolvimento, como é caso do Brasil, cujas demandas por infraestrutura e habitação são muito elevadas.
Apesar de haver um crescimento de práticas sustentáveis na construção civil no Brasil e no mundo, ainda há muito a ser aprimorado e posto em prática. Dos impactos das atividades relativas à construção, Beltrame (2013) lista alguns deles:
• Consumo de mais de 40% de toda energia produzida no mundo na operação dos edifícios;
• Consumo de 50% da energia elétrica e 20% do total de energia produzida no Brasil;
• Geração de 35% a 40% de todo resíduo produzido na atividade humana;
• Produção anual de aproximadamente 400 kg de entulho por habitante na construção e/ou reforma de edifícios;
• Geração de 8% a 9% de todo o CO2 emitido no Brasil a partir da produção de cimento;
• Alto consumo de energia e grande liberação de CO2, a partir da produção de insumos usados pela construção civil;
• Consumo de 66% de toda a madeira extraída mundialmente; • Responsável por 34% do consumo mundial de água;
• Consumo de 40% a 75% de toda matéria-prima produzida no planeta. 2.2 SUSTENTABILIDADE NA CONSTRUÇÃO CIVIL
As alternativas e tecnologias para a minimização dos impactos ambientais na construção civil são as mais diversas possíveis, não havendo necessidade da criação de algo novo, uma vez que que muitos estudos e soluções já foram feitos em diversos lugares e de forma mais avançada. Porém, é necessário saber fazer a escolha de métodos mais adequados e que muitas vezes precisam ser adaptados à realidade do nosso país.
Além disso, muitas soluções que no papel são ótimas são inviáveis na prática. Portanto, para que um edifício resulte em uma construção sustentável é necessário atender aos seguintes critérios (CEOTTO, 2008):
• Ser economicamente viável para seus investidores; • Atender as necessidades dos usuários;
• Ser produzido com técnicas de reduzam o trabalho degradante e inseguro feito pelo homem.
Na atividade da construção civil e no produto resultante dela, existem cinco principais fases: 1) Concepção, 2) Projeto, 3) Construção, 4) Uso e 5) Manutenção. Diversas são as possibilidades de intervenção em cada uma dessas fases, para obter mais redução de impactos. Considerando todas estas fases, 80% do seu custo total é gasto nas fases de uso e manutenção. Desta forma, detalhes previstos nas fases de concepção e projeto podem trazer grandes impactos nos custos futuros de operação e manutenção de um prédio (CEOTTO, 2008).
Em primeiro momento, umas das ações que visam a diminuição dos impactos em uma obra, seria mudar a nossa cultura e a maneira de agir, não sendo necessário investir em novas tecnologias nem mudar as técnicas usadas atualmente. De acordo com Beltrame (2013, p. 3):
Basta investir na mudança da cultura dos colaboradores, visando uma redução das perdas e da geração de entulho. Embora seja uma ação barata e sem maiores
investimentos financeiros, essa simples e importante ação leva muito tempo para ser absorvida por todos envolvidos.
Não existe o certo ou errado em se tratando da minimização dos impactos ambientais, pois cada caso deve ser analisado separadamente. Contudo, as soluções adotadas seguem as seguintes premissas (CEOTTO, 2008):
• Redução do consumo de energia; • Redução do consumo de água;
• Redução do volume de lixo ou possibilidade de facilitar a sua reciclagem; • Facilidade de limpeza e manutenção;
• Utilização de materiais reciclados;
• Aumento da durabilidade do edifício e a possibilidade de modernização e seu reuso após o término de sua vida útil.
Ao se aprofundar em cada uma dessas premissas, observamos que algumas ações podem ser adotadas, visando a diminuição dos impactos durante a obra e após sua entrega e uso, como por exemplo:
• Para reduzir o consumo de energia, na fase de concepção e projeto, deve-se buscar o aproveitamento da luz solar;
• Para prevenir a incidência direta do sol, pode-se optar pelo uso de brises;
• Sempre que possível buscar utilizar ventilação natural, para reduzir o uso de ar-condicionado;
• Utilização de luminárias e lâmpadas de alta eficiência que geram grande economia de energia;
• Uso de sistemas de aquecimento de água solar, que estão cada vez mais acessíveis a todos os tipos e níveis de obra, gerando grande economia na fase de uso das edificações;
• Reaproveitamento de águas cinzas, dispondo de estações de tratamento, possibilitando o reuso de águas servidas;
• Metais, torneiras e bacias sanitárias com dispositivos de redução de vazão; • Reutilização da água da chuva, água da condensação de ar-condicionado,
irrigação automatizada;
• Redução do volume de lixo e a reciclagem na fase de uso e operação das edificações;
• Utilização de materiais de acabamentos de pisos e paredes de fácil manutenção e limpeza;
• Utilização de materiais recicláveis, como por exemplo o cimento e o aço que podem conter escória de alto forno, cinza volante, sucatas, entre outros.
Desde que haja um bom planejamento e controle, as possibilidades de técnicas e práticas aplicáveis são inúmeras, resultando em grandes benefícios ambientais e sociais. Bem como, obtenção de retorno financeiro significativo aos investidores e usuários, estimulando sempre um ciclo de melhorias.
2.3 SELO CASA AZUL
Atentando-se às necessidades habitacionais e objetivando o desenvolvimento sustentável, a Caixa Econômica Federal, principal instituição financeira concessora de crédito imobiliário para construção e compra de habitações populares no Brasil, criou o SCA (SANTOS; MOTTA, 2016).
Este selo é um instrumento de classificação socioambiental de projetos de empreendimentos habitacionais, que busca reconhecer os empreendimentos que adotam soluções mais eficientes aplicadas à construção, ao uso, à ocupação e à manutenção das edificações. Com intuito de incentivar o uso racional de recursos naturais e a melhoria da qualidade da habitação e de seu entorno (CEF, 2010).
De acordo com a Caixa Econômica Federal (2010), ao se projetar uma habitação, deve-se criar ambientes (interno e externo) que proporcionem ao máximo saúde e bem-estar aos moradores. Para que isso ocorra é necessário aproveitar ao máximo as condições bioclimáticas e geográficas locais, estimular o uso de construções de baixo impacto ambiental, garantir a existência de áreas permeáveis e arborizadas, adotar técnicas e sistemas que propiciem o uso eficiente de água e energia, realizar a adequada gestão de resíduos, ser duradoura e adaptar-se às necessidades atuais e futuras dos usuários.
O SCA é o primeiro sistema de classificação de sustentabilidade de projetos ofertado no Brasil, desenvolvido para a realidade da construção habitacional brasileira e seus diversos aspectos regionais. Este selo foi concebido por uma equipe multidisciplinar da Caixa Econômica Federal com vasta experiência em projetos habitacionais e em gestão para a sustentabilidade, assessorada por professores renomados da Escola Politécnica da Universidade
de São Paulo (POLI-USP), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
O SCA aplica-se a todos os tipos de projetos de empreendimentos habitacionais apresentados à Caixa Econômica Federal para financiamento ou nos programas de repasse. A adesão ao SCA é voluntária e podem se candidatar as empresas construtoras, o Poder Público, as empresas públicas de habitação, cooperativas, associações e entidades representantes de movimentos sociais.
Da mesma forma que outras certificações, o SCA analisa se os parâmetros exigidos foram atendidos, verificando durante a análise de viabilidade técnica do empreendimento, o atendimento aos critérios estabelecidos pelo instrumento, que estimula a adoção de práticas voltadas à sustentabilidade dos empreendimentos habitacionais.
Essa certificação dispõe de 53 critérios de avaliação distribuídos em seis categorias diferentes, sendo elas: Qualidade Urbana, Projeto e Conforto, Eficiência Energética, Conservação de Recursos Materiais, Gestão da Água e Práticas Sociais (Quadro 1).
Quadro 1 - Resumo das Categorias, Critérios e Classificação do SCA.
QUADRO RESUMO
CATEGORIAS/CRITÉRIOS CLASSIFICAÇÃO
1. QUALIDADE URBANA BRONZE PRATA OURO
1.1 Qualidade do Entorno – Infraestrutura Obrigatório
Critérios obrigatórios + 6 itens de livre escolha Critérios obrigatórios + 12 itens de livre escolha 1.2 Qualidade do Entorno – Impactos Obrigatório
1.3 Melhorias no Entorno
1.4 Recuperação de Áreas Degradadas 1.5 Reabilitação de Imóveis
2. PROJETO E CONFORTO
2.1 Paisagismo Obrigatório
2.2 Flexibilidade de Projeto 2.3 Relação com a Vizinhança 2.4 Solução Alternativa de Transporte
2.5 Local para Coleta Seletiva Obrigatório 2.6 Equipamentos de Lazer, Sociais e Esportivos Obrigatório 2.7 Desempenho Térmico – Vedações Obrigatório 2.8 Desempenho Térmico - Orientação ao Sol e Ventos Obrigatório 2.9 Iluminação Natural de Áreas Comuns
2.10 Ventilação e Iluminação Natural de Banheiros 2.11 Adequação às Condições Físicas do Terreno
(Continuação)
CATEGORIAS/CRITÉRIOS CLASSIFICAÇÃO
3. EFICIÊNCIA ENERGÉTICA BRONZE PRATA OURO
3.1 Lâmpadas de Baixo Consumo - Áreas Privativas Obrigatório p/ HIS - até 3 s.m. Critérios obrigatórios + 6 itens de livre escolha Critérios obrigatórios + 12 itens de livre escolha 3.2 Dispositivos Economizadores - Áreas Comuns Obrigatório
3.3 Sistema de Aquecimento Solar 3.4 Sistemas de Aquecimento a Gás
3.5 Medição Individualizada - Gás Obrigatório 3.6 Elevadores Eficientes
3.7 Eletrodomésticos Eficientes 3.8 Fontes Alternativas de Energia
4. CONSERVAÇÃO DE RECURSOS MATERIAIS
4.1 Coordenação Modular
4.2 Qualidade de Materiais e Componentes Obrigatório 4.3 Componentes Industrializados ou Pré-fabricados
4.4 Formas e Escoras Reutilizáveis Obrigatório 4.5 Gestão de Resíduos de Construção e Demolição (RCD) Obrigatório 4.6 Concreto com Dosagem Otimizada
4.7 Cimento de Alto-Forno (CPIII) e Pozolânico (CP IV) 4.8 Pavimentação com RCD
4.9 Facilidade de Manutenção da Fachada 4.10 Madeira Plantada ou Certificada
5. GESTÃO DA ÁGUA
5.1 Medição Individualizada - Água Obrigatório 5.2 Dispositivos Economizadores - Sistema de Descarga Obrigatório 5.3 Dispositivos Economizadores - Arejadores
5.4 Dispositivos Economizadores - Registro Regulador de Vazão
5.5 Aproveitamento de Águas Pluviais 5.6 Retenção de Águas Pluviais 5.7 Infiltração de Águas Pluviais
5.8 Áreas Permeáveis Obrigatório
6. PRÁTICAS SOCIAIS
6.1 Educação para a Gestão de RCD Obrigatório 6.2 Educação Ambiental dos Empregados Obrigatório 6.3 Desenvolvimento Pessoal dos Empregados
6.4 Capacitação Profissional dos Empregados 6.5 Inclusão de trabalhadores locais
6.6 Participação da Comunidade na Elaboração do Projeto
6.7 Orientação aos Moradores Obrigatório 6.8 Educação Ambiental dos Moradores
6.9 Capacitação para Gestão do Empreendimento 6.10 Ações para Mitigação de Riscos Sociais 6.11 Ações para a Geração de Emprego e Renda Fonte: CEF, 2010, 23-24.
Além dos critérios mencionados acima, em 2014, a Caixa realizou uma revisão nos indicadores da certificação para atualizá-los e adequá-los à Norma de Desempenho - NBR 15.575 (ABNT, 2013) e ao programa de etiquetagem Procel Edifica Residencial. Juntamente com a revisão foi adicionado a certificação um critério bônus, com o objetivo de proporcionar maior flexibilidade ao projeto na incorporação de itens adicionais de livre escolha que contribuíram para a pontuação e consequentemente a facilidade na obtenção do Selo. O critério bônus consiste em itens de projeto não contemplados dentre os critérios do Selo e que contribuem para a sustentabilidade do projeto, desde que previamente aprovados pela CAIXA (CEF, [s.d.]).
Além disso, há três níveis de graduação para obtenção do selo, que variam dependendo do número de critérios atendidos, sendo eles: Ouro, Prata e Bronze, conforme apresentado no Quadro 1. Cada categoria possui uma logomarca, diferenciada por cor, conforme Figura 2.
Figura 2 - Logomarcas do Selo Casa Azul níveis Ouro, Prata e Bronze
Fonte: CEF, 2010, p. 21.
Segundo o manual do SCA, a Caixa Econômica Federal exige pré-requisitos para que um projeto passe pelo processo de obtenção do certificado, sendo eles: atender as regras da Ação Madeira Legal, apresentar o Documento de Origem Florestal (DOF) e declaração que informe o volume, as espécies e a destinação final das madeiras empregadas na obra; atender a NBR 9050 (ABNT, 2004) e atender às normas técnicas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) de áreas afins.
2.3.1 Categoria 1 – Qualidade Urbana
Esta categoria está relacionada com a malha urbana do empreendimento e como ela se insere no entorno imediato da área de implantação do projeto. Visa analisar o planejamento da implantação de forma global (projeto x entorno) do conjunto no terreno, ao apresentar exigências quanto à infraestrutura e impactos que o conjunto pode causar na área escolhida, de forma a garantir a acessibilidade, segurança, saúde e bem-estar dos futuros moradores.
De acordo com a Caixa Econômica Federal (2010, p. 42):
Os princípios de qualidade urbana referem-se, principalmente, ao bom dimensionamento da trama urbana, que reduz a ocupação do solo por usos construtivos permitindo sua utilização para fins mais nobres e que minimizem impactos socioambientais.
Isto significa, não darmos importância exclusivamente ao espaço onde o empreendimento será construído, mas inclusive ao seu entorno e se este oferece serviços de infraestrutura básica, como transporte público, rede de abastecimento e água; rede de coleta e tratamento de esgoto sanitário, rede de coleta e escoamento da água da chuva, iluminação pública e vias de circulação.
Ribeiro e Vargas (2001, p. 17), acrescentam:
[...] o conceito de qualidade urbana (ou de vida urbana) vai além dos conceitos de salubridade, saúde, segurança, bem como das características morfológicas do sítio ou desenho urbano. Incorpora, também, os conceitos de funcionamento da cidade fazendo referência ao desempenho das diversas atividades urbanas e as possibilidades de atendimento aos anseios dos indivíduos que a procuram.
Devem ser considerados fatores que interferem na qualidade urbana considerando o bem-estar dos indivíduos, relacionado à espaços livres dedicados a áreas verdes, recreação e lazer para diferentes faixas etárias. Além de acessibilidade para todo tipo de público (RIBEIRO; VARGAS, 2001).
Outro detalhe a ser considerado refere-se a distância que o empreendimento tem a fatores de risco que interfiram no bem-estar, saúde e segurança dos moradores, tais como: rodovias, ferrovias, aeroportos e outros tipos de indústrias, fontes de ruídos excessivos e constantes, bem como estações de tratamento de esgoto, lixões e outros tipos de indústrias, fonte de emissão de odores e poluição (CEF, 2010).
Na categoria Qualidade Urbana, dos requisitos necessários para a avaliação do projeto descritos no Quadro 1, somente dois critérios são exigidos para obtenção do certificado, que são: infraestrutura e qualidade do entorno e impactos. Esses dois critérios estão
relacionados ao local onde será construída a obra. Os critérios não obrigatórios estão relacionados as melhorias ao entorno da obra.
2.3.2 Categoria 2 – Projeto e Conforto
Esta categoria está relacionada com a concepção do projeto adequando-o as condições climáticas a favor da edificação, como por exemplo, orientação solar, da ventilação e da iluminação natural. Bem como o planejamento da implantação do empreendimento considerando a topografia do terreno e seu entorno imediato.
De acordo com Evans (2007), um projeto adequado as condições climáticas locais e seu entorno oferece conforto aos usuários da mesma maneira que propicia o encantamento visual e espacial. A integração do processo projetual e construtivo com o uso de estratégias bioclimáticas e recursos naturais objetiva o bem-estar do usuário, a eficiência energética e a sustentabilidade.
A importância da aplicação destas diretrizes com maior precisão nos estágios de esboço do projeto, possibilita a manutenção das variáveis ambientais que favorecem o conforto. Assim como a proteção contra as condições adversas do ambiente externo.
Segundo o SCA, na categoria Projeto e Conforto, dos requisitos necessários para a avaliação do projeto descritos no Quadro 1, são obrigatórios cinco critérios para obtenção do certificado, que são: paisagismo; local com coleta seletiva; equipamentos de lazer, sociais e esportivos; desempenho térmico de vedações e orientação ao sol e ventos. Os critérios não obrigatórios estão relacionados a trazer benefícios para a vizinhança.
2.3.3 Categoria 3 – Eficiência Energética
Esta categoria está relacionada a redução do consumo de energia dos empreendimentos adotando medidas como o uso de lâmpadas de baixo consumo, dispositivos economizadores de energia e medidores individualizados. Desta forma, visa-se proporcionar a redução de despesas dos futuros moradores com gastos de energia.
De acordo com Carlo (2008), a eficiência energética dos edifícios está intimamente ligada com a solução construtiva adotada, bem como os materiais e equipamentos nela empregues. Desta forma, um bom conhecimento dos fatores que mais influenciam na dinâmica energética de equipamentos edificados deve ser a primeira etapa a ser analisada. A integração de medidas com o objetivo de redução do consumo é sinônimo de uma planificação inteligente
e preocupação de futuro sem comprometer os serviços necessários à saúde, segurança, conforto e produtividade do usuário de uma edificação.
Conforme o SCA, na categoria Eficiência Energética, dos requisitos necessários para a avaliação do projeto descritos no Quadro 1, três critérios são obrigatórios para obter o certificado, sendo que o critério “lâmpadas de baixo consumo” é obrigatório somente para empreendimentos que possui Habitação de Interesse Social (HIS) abaixo de três salários mínimos, os outros dois critérios obrigatórios são: dispositivos economizadores e medição individualizada. Os critérios não obrigatórios estão relacionados a melhorar o consumo de energia, utilizando outra forma de geração de energia e equipamentos mais eficientes.
2.3.4 Categoria 4 – Conservação de Recursos e Materiais
Segundo o manual SCA, esta categoria está relacionada a potencialização dos materiais usados na obra de forma a reduzir a quantidade de perdas e de geração de resíduos da construção que causam impactos ambientais quando não recebem o destino final correto.
A construção civil é um dos grandes vilões ao se falar em impactos ambientais, aparecendo como o principal gerador de resíduos de toda a sociedade, provenientes das perdas ocorridas durante o processo de construção ou de demolições. Estimativas apontam para uma produção mundial entre 2 e 3 bilhões de toneladas/ano de resíduos (BARRETO, 2005).
Segundo Barreto (2005), a excessiva geração de resíduos e seu descarte irregular, em grande parte das cidades brasileiras, causam a poluição do ambiente urbano em grande escala. Assim, os impactos ambientais, sociais e econômicos gerados pela quantidade expressiva do entulho e o seu descarte inadequado impõem a necessidade de soluções rápidas e eficazes para a sua gestão adequada de manuseio, redução, reutilização, reciclagem e disposição desses resíduos.
Conforme o SCA, na categoria Conservação de Recursos e Materiais, dos requisitos necessários para a avaliação do projeto descritos no Quadro 1, são obrigatórios três critérios para obtenção do certificado, que são: qualidade de materiais e componentes, formas e escoras reutilizáveis e gestão de resíduos de construção e demolição. Os critérios não obrigatórios estão relacionados a ajuda na redução do desperdício dos materiais durante a construção e depois da obra finalizada.
2.3.5 Categoria 5 – Gestão de Água
Esta categoria está relacionada a correta gestão do consumo de água, visando seu uso de maneira mais sustentável e contribuindo para amenizar os problemas de escassez, de poluição das águas e reduzir os riscos de alagamentos nos centros urbanos.
Com o crescimento populacional e o desenvolvimento das cidades é notável o aumento da demanda de água para consumo, sendo que a oferta de água permanece a mesma. Por sua vez, na maior parte dos edifícios o consumo de água ainda envolve desperdícios significativos, já que as formas usuais e comumente praticadas para conceber, projetar, executar, operar e manter edifícios, resultam em consumo de água superior ao necessário para o desempenho das atividades consumidoras (CBIC, 2017).
De acordo com Nogueira (2014), a economia realizada em edificações resulta inicialmente, em vantagem econômica para o morador e, a toda sociedade e ao meio ambiente desde que as mudanças de hábitos sejam incorporadas à rotina. Dentre hábitos ou posturas que podem ser incorporados ao dia-a-dia estão a modificação e adaptação de equipamentos em seus pontos de utilização dentro das unidades residenciais: uso de arejadores nas torneiras, redutores de vazão em torneiras e chuveiros; uso de bacias sanitárias com mecanismos para descarga com sistema de duplo acionamento; captação e armazenamento de água da chuva e a instalação de hidrômetros individuais em condomínios residenciais.
Conforme o SCA, na categoria Gestão de Água, dos requisitos necessários para a avaliação do projeto descritos no Quadro 1, são obrigatórios três critérios para obtenção do certificado, que são: medidores individualizados – água, dispositivos economizadores – bacia sanitária e áreas permeáveis. Os critérios não obrigatórios estão relacionados a ajuda na redução do consumo de água do empreendimento e reduz o risco por inundações.
2.3.6 Categoria 6 – Práticas Sociais
Esta categoria está relacionada a sustentabilidade do empreendimento, por meio de ações sociais durante a construção e depois da entrega da obra, envolvendo os profissionais da empresa, os funcionários da obra e os futuros moradores, bem como a comunidade do entorno. Adotar ações sociais sustentáveis no dia a dia de uma empresa ou em nosso convívio social é uma maneira de conservar o meio ambiente e de incentivar quem está ao nosso redor na reflexão sobre suas ações.
[...] o proponente de projeto candidato ao Selo Casa Azul Caixa deixa de ser apenas um fornecedor de bens e serviços, e passa a ser um agente de transformação social, que contempla na sua atuação também as questões socioambientais.
De acordo com o manual do SCA, na categoria Práticas Sociais, dos requisitos necessários para a avaliação do projeto descritos no Quadro 1, são obrigatórios três critérios para obtenção do certificado, que são: educação para a gestão de Resíduos da Construção e Demolição (RCD), educação ambiental dos empregados e orientação aos moradores. Os critérios não obrigatórios estão relacionados a ajuda na conscientização dos envolvidos a práticas sustentáveis.
3 MATERIAIS E MÉTODOS
Diante do questionamento levantado no trabalho de como se projetar uma edificação multifamiliar com a adoção de práticas sustentáveis, uma série de etapas foram seguidas para chegar ao resultado. Inicialmente, buscou-se identificar a tipologia da pesquisa, a qual mais identificou-se com a pesquisa de abordagem qualitativa, com método de procedimento baseado no estudo de caso.
Para tanto, elegeu-se “um projeto arquitetônico de uma edificação multifamiliar com adoção de práticas sustentáveis” como o fenômeno a ser investigado, suas inter-relações e, posteriormente, cotejar o projeto com os critérios para a obtenção do SAC. Pode-se afirmar que, este estudo foi fenomenológico porque tratou de um evento (fenômeno) como projeto sustentável para ser utilizado por famílias (pessoas), que determinam a subjetividade envolvida no processo.
Um estudo de caso é caracterizado por possuir grande abrangência e na grande maioria dos casos, define-se como um trabalho empírico. Necessita de um rigoroso planejamento, com determinação prévia dos instrumentos de coleta e análise de dados a partir de eventos reais, com o objetivo de explicar, explorar ou descrever fenômenos atuais inseridos em seu próprio contexto. Existem ainda, estudos de caso únicos ou múltiplos, com abordagens qualitativas e quantitativas, todas em função da pergunta de pesquisa a ser respondida (EISENHARDT, 1989; YIN, 2005).
Simultaneamente, a fenomenologia está presente enquanto definiu-se “esferas de essência” para o estudo (TRIVIÑOS, 2006). Estas constituem-se em fenômenos considerados e isolados que serão o objeto do estudo. No caso específico desta investigação, pretende-se enfocar uma situação pontual, “Projeto de construção multifamiliar com características sustentáveis.”
O nível do estudo efetuado foi exploratório, isso porque, este tipo de estudo permite ao investigador aumentar sua experiência em torno de determinado problema. Busca também evidências de uma dada situação afim de construir um conhecimento da realidade evidenciada, descrevendo a razão e o porquê dos fenômenos que, no caso desde estudo, envolvem a relação entre projeto multifamiliar x sustentabilidade (TRIVIÑOS, 1987).
Saunders, Lewis e Thornhill (2000), enfatizam que os estudos exploratórios são desenvolvidos primordialmente por meio de pesquisas bibliográficas, com denso diagnóstico na literatura e em conversas com outros pesquisadores especialistas na área, buscando informações sobre as especificidades do fenômeno pesquisado.
Gil (1999, p. 43), afirma que nesse nível, as pesquisas “são desenvolvidas com o objetivo de proporcionar visão geral de tipo aproximativo acerca de determinado fato”. Esse tipo de pesquisa é realizado quando o tema escolhido é pouco explorado e torna-se difícil sobre ele formular hipóteses precisas e operacionais.
Araújo e Oliveira (1997, p. 11), quando tratam de pesquisas de abordagem qualitativa afirmam que esta:
(...) se desenvolve numa situação natural, é rico em dados descritivos, obtidos no contato direto do pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais o processo do que o produto se preocupa em retratar a perspectiva dos participantes, tem um plano aberto e flexível e focaliza a realidade de forma complexa e contextualizada.
Para responder a principal questão do trabalho, procurou-se adquirir conhecimentos por meio da leitura de: artigos científicos, livros e e-books, monografias e por referenciais de projetos já existentes, com características semelhantes. O Guia do SCA da Caixa Econômica Federal foi essencial para a obtenção do resultado final.
Optou-se por um terreno localizado no Município de Tubarão, no Bairro Recife, com os requisitos acima descritos atendidos. Após, analisou-se a legislação pertinente, o plano diretor e o código de obras do município. Seguiu-se com a efetuação do projeto do Empreendimento.
A última etapa caracterizou-se pela análise do SCA, onde foi realizada a tentativa de implementação deste, no projeto residencial multifamiliar.
Para a realização dos projetos foram utilizados softwares gráficos, sendo eles: AutoCad da Autodesk; SketchUp e Lumion; para a obtenção das imagens de satélite, o software utilizado foi o Google Earth Pro; para a confecção das tabelas utilizou-se o software Microsoft Excel.
4 REFERENCIAL PROJETUAL SELO CASA AZUL
Como se pode observar, a Caixa Econômica Federal possui um selo de certificação ambiental para edifícios financiados por ela. Esse selo é conhecido como SCA, que possui três níveis de certificação, como já foi descrito anteriormente.
De acordo com o site oficial da Caixa Econômica Federal, atualmente no Brasil, existem 18 empreendimentos que possuem o selo. No Quado 2 são apresentados os empreendimentos certificados e seus níveis:
Quadro 2 - Empreendimentos certificados pelo Selo Casa Azul.
Nome do Empreendimento Cidade/Estado Nível
Aquarela São José Condomínio e Lazer São José dos Pinhais /PR Prata
Arthe Azul Teresina/PI Ouro
Bela Cintra São Paulo/SP Ouro
Edifício Chapéu Mangueira/Babilônia Rio de Janeiro/RJ Ouro
Guaratinguetá Santo André/SP Ouro
Jardins Mangueiral Brasília/DF Ouro
Mariz Vila Mariana São Paulo/SP Ouro
Multiporto Indianópolis Caruaru/PE Ouro
Condomínio E/G Paraisópolis São Paulo/SP Ouro
Residencial Bonelli Joinville/SC Ouro
Residencial Di Petra São Paulo/SP Ouro
Condomínio Residencial Lazise Maringá/PR Ouro
Residencial Liberdade Fortaleza/CE Ouro
Residencial Parque Jequitibá Vitória/ES Ouro
Residencial Perola Da Pedra Palhoça/SC Ouro
Residencial Solar Imperial Santa Maria/RS Ouro
Ville Barcelona Betim/MG Prata
Villa Chiarizzi São Paulo/SP Ouro
Fonte: Elaborado pelo autor, 2020.
Para análise do referencial projetual, foi escolhido o empreendimento Residencial Bonelli, que foi lançado em 2010, na cidade de Joinville/SC pela Rôgga Empreendimentos. Esse residencial atingiu nível ouro na certificação.
4.1 RESIDENCIAL BONELLI – JOINVILLE/SC 4.1.1 Ficha Técnica
Segundo informações retiradas do site da Rogga Empreendimentos, o Residencial Bonelli fica localizado na Rua Presidente Prudente Morais, nº 555, no bairro Santo Antônio, em Joinville/SC (Figura 3). Este foi o primeiro edifício a receber o SCA de categoria ouro da Caixa Econômica Federal.
Lançado em outubro de 2010 e entregue em dezembro de 2011, o projeto foi iniciado a cerca de seis meses antes da certificação e exigiu ampla pesquisa e algumas adaptações para que os processos construtivos da empresa atendessem aos critérios para obtenção do selo. A ideia central era projetar um empreendimento que não interferisse em seu entorno, pois ficaria localizado em uma área urbana (TELLO; RIBEIRO, 2012).
Figura 3 - Mapa de localização do Residencial Bonelli, Joinville/SC.
A Construtora e Incorporadora Rôgga S/A, foi fundada em 2006 em Joinville e atua em cinco cidades: Joinville, Balneário Piçarras, Barra Velha, Jaraguá do Sul e Penha. Atualmente, está entre as 20 maiores construtoras do Brasil e entre as 50 empresas que desenvolvem práticas mais inovadoras e criativas do sul do país (RÔGGA EMPREENDIMENTOS, 2015).
O projeto de arquitetura foi elaborado pela empresa Cecyn Arquitetura & Design, que foi fundada em 2005, em Joinville e atua em cinco cidades: Joinville, Jaraguá do Sul, Barra Velha, Piçarras, Penha. Atualmente, vencedora do prêmio de Competitividade para Micro e Pequenas Empresas (MPE) do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) de 2015, sendo eleita a melhor empresa de serviços de SC e a segunda melhor empresa de serviços no país (CECYN ARQUITETURA & DESIGN, [s.d.]).
4.1.2 Projeto
O edifício residencial de médio padrão, possui uma área total construída de 4.418,46m² em um terreno com área de 1.544,80 m², distribuído em 9 pavimentos, sendo térreo, 7 pavimentos tipo e cobertura. São 45 apartamentos no total, divididos em 3 tipos de planta baixa: tipo A, possui uma área privativa de 73,63m² e três dormitórios; tipo B, possui uma área privativa de 61,35m² e o tipo C, possui uma área privativa de 63,41m², o tipo B e C são apartamentos com dois dormitórios. O empreendimento possui 55 vagas cobertas de garagem, salão de festas, espaço gourmet, hall de entrada, jardim e deck descoberto, como mostra as figuras 4, 5 e 6 (REVISTA CONSTRUÇÃO MERCADO, 2011).
O sistema construtivo do edifício é composto de fundação em estaca hélice contínua; estrutura em concreto armado; alvenaria de vedação com tijolos cerâmicos; cobertura em telhas de fibrocimento (REVISTA CONSTRUÇÃO MERCADO, 2011).
Figura 4 - Fachada Residencial Bonelli.
Fonte: CEF, [s.d.].
Figura 5 - Área de lazer infantil.
Figura 6 - Espaço gourmet.
Fonte: CEF, [s.d.].
As figuras 7 e 8 mostram a planta baixa do pavimento de apartamentos e duas fachadas. As demais plantas não foram encontradas.
Figura 7 - Planta Baixa Residencial Bonelli.
Fonte: Revista Construção Mercado, 2011.
Figura 8 - Fachadas Residencial Bonelli.
4.1.3 Atendimento ao Selo
O empreendimento atendeu 32 critérios dos 53 critérios totais, sendo 18 obrigatórios e 14 de livre escolha, obtendo assim o selo nível ouro. O quadro com os critérios atendidos pelo Residencial Bonelli encontra-se no Anexo A.
Em relação ao Critério 1 – Qualidade Urbana, o projeto do edifício foi inserido em malha urbana com serviços essenciais próximos, podendo ser acessados a pé pelo morador, além de ser distante de quaisquer fatores de risco que interfiram no bem-estar, saúde e segurança dos moradores. Ainda optou-se por realizar melhorias no entorno do edifício como recuperação de áreas degradadas e reabilitação de imóveis (CEF, [s.d.]).
Quanto ao Critério 2 - Projeto e Conforto, o projeto atendeu aos requisitos para o desempenho térmico da edificação, considerando o clima do local e prevê a flexibilidade com opções de apartamentos variados, adequados às necessidades dos usuários, iluminação e ventilação natural de banheiros e adequação às condições físicas do terreno. O Residencial conta ainda com local para coleta e armazenamento de materiais recicláveis, áreas de lazer, bicicletário e áreas verdes (Figura 5) (CEF, [s.d.]).
Quanto ao Critério 3 – Eficiência Energética, o projeto conta com dispositivos economizadores de energia em áreas comuns, lâmpadas de baixo consumo e sensor de presença nas áreas comuns, medição individualizada de gás, elevador eficiente e eletrodomésticos eficientes instalados nas áreas comuns – PROCEL Nível A e Conpet nível A (CEF, [s.d.]).
Quanto ao Critérios 4 – Conservação de Recursos Materiais, o projeto atendeu aos requisitos com o uso de formas e escoras reutilizáveis, concreto com dosagem otimizada e madeira plantada/certificada para a realização das concretagens. Foram aplicados materiais que, posteriormente, facilitem a manutenção e limpeza das fachadas, aplicação de um plano de gestão de resíduos de construção de demolição (RCD) e o uso de processos para a redução e controle da qualidade dos materiais construtivos (CEF, [s.d.]).
Em relação ao Critério 5 - Gestão da água, o edifício possui medição individualizada de água por apartamento e dispositivos economizadores para descarga e dispositivos arejadores. A área externa do edifício possui piso cimentado por pavimento permeável, com blocos intertravados com espaçamentos preenchidos por grama, este tem alta capacidade de drenagem, evitando alagamentos (CEF, [s.d.]).
Em relação ao Critério 6 – Práticas Sociais, foram realizadas orientações de educação ambiental com os empregados, capacitação para a gestão dos RCD e orientação aos moradores, para garantir o bom uso dos componentes e equipamentos previstos. Dentre os
critérios opcionais, o projeto previu o desenvolvimento pessoal e a capacitação profissional dos empregados, inclusão de trabalhadores locais, educação ambiental dos moradores e capacitação para gestão do empreendimento. O processo de capacitação contou com a colaboração do SENAI-SC, com palestras desenvolvidas dentro do canteiro de obras sobre temas, como educação para a cidadania, programas e segurança, saúde e higiene, economia doméstica e educação financeira (CEF, [s.d.]).
A empresa estima que a implantação do selo ouro tenha custado apenas 3% do orçamento total para construção do edifício. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) considerou o projeto do Residencial Bonelli uma referência em relação à melhoria no Processo Construtivo e o inclui no seu Guia de Boas Práticas em Sustentabilidade na Indústria da Construção (TELLO; RIBEIRO, 2012).
4.2 CONSIDERAÇÕES SOBRE O PROJETO REFERENCIAL
A adoção dos critérios SCA pode trazer grandes benefícios para os usuários, além da valorização do empreendimento em termos de mercado. Tello e Ribeiro (2012), destacam outros benefícios gerados com a aplicação do selo ao Residencial Bonelli:
• Redução de aproximadamente 20% no valor do condomínio comparado a edifícios de mesmo padrão;
• Qualidade de vida para futuros moradores e facilidades por morar num edifício inserido em uma região segura e com fácil acesso a serviços públicos, áreas de lazer e comércio;
• Redução dos gastos de manutenção dos apartamentos, devido aos dispositivos economizadores de água e energia; iluminação e ventilação naturais; desempenho térmico dos materiais empregados; além de maior controle do consumo graças às medições individualizadas;
• Garantia de que os materiais e componentes empregados na obra são certificados e de reconhecida qualidade;
• Redução da sobrecarga sobre o sistema de drenagem do município e contribuição com a prevenção das enchentes; auxílio à recarga dos aquíferos e regularização da vazão dos rios e cursos de água, ao contar com áreas permeáveis no projeto;
• Conscientização dos futuros moradores: manual do proprietário e do síndico, com informações sobre aspectos da sustentabilidade da edificação e instruções para bom uso e manutenção dos equipamentos disponíveis.
O referencial projetual foi escolhido para análise e entendimento de como se aplicam as estratégias sustentáveis para aquisição do SCA do Residencial Bonelli, em Joinville/SC, que servirá de base para a elaboração do projeto arquitetônico resultado deste Trabalho de Conclusão de Curso.
5 DIAGNOSTICO DA ÁREA
O diagnóstico visa a análise para coleta de dados e fundamentos, auxiliando na compreensão do espaço, sobre seus potenciais e restrições, a fim de desenvolver o anteprojeto arquitetônico.
5.1 HISTÓRIA DE TUBARÃO
O Município de Tubarão localiza-se no sul do Estado de SC, a 135 km da capital Florianópolis, com 301.484 km² (quilômetros quadrados) de área territorial. Situado sobre as coordenadas geográficas 28°28’00” de latitude sul e 49°00’25” de longitude oeste, em uma altitude média de 9 metros acima do nível do mar (PMT, 2015).
Possui uma população estimada em 2019 de 105.686 habitantes, visto que o último censo realizado foi em 2010 (IBGE, 2019). Emancipado em 1870, é a sede da AMUREL.
Limita-se territorialmente com os seguintes municípios: ao sul com Treze de Maio e Jaguaruna; ao norte com Gravatal e Capivari de Baixo; ao leste com Laguna; a oeste com São Ludgero e Pedras Grandes (Figura 9) (PMT, 2015).
Figura 9 - Localização do município de Tubarão/SC.
A história da cidade acompanha sua evolução econômica, cortada pelo rio Tubarão, em 1773, quando foi aberto o caminho conectando Lages e Laguna. Os barcos atracavam no Poço Grande, faziam trocas e as mercadorias seguiam até o planalto catarinense por rota terrestre, e o que se fez necessária a construção de abrigos para os viajantes, mercadorias e moradas para as famílias (VITORETTI, 1992; MEDEIROS, 2007).
Em 1884 foi inaugurada pela Ferrovia Tereza Cristina (FTC) a estrada de ferro que fazia o transporte de carvão, o que acabou direcionando a expansão municipal, surgindo o bairro de Oficinas, com a Vila dos Ferroviários em 1951. A margem esquerda passa a ser ocupada a partir de 1939, ano em que foi inaugurada a ponte Nereu Ramos. O atual centro, a partir de 1942, era conhecida como Vila dos Engenheiros, após a instalação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) (MEDEIROS, 2007).
O ano de 1950 marcou a expansão leste, com a implantação da Souza Cruz, contribuindo para o crescimento do bairro Vila Moema. Da mesma maneira que a crescente demanda de ensino, em 1964, fez surgir a Fundação Educacional do Sul de Santa Catarina (FESSC), atual Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) (VETTORETTI, 1992).
A construção da rodovia federal BR-101, inaugurada em 1971, marca o surgimento de uma nova fase de desenvolvimento territorial no município, impulsionando a economia da região, por meio do transporte rodoviário, formando um eixo de ligação entre os municípios no seu traçado, que corta o Estado de SC de norte a sul e incentivando a ocupação urbana em seu entorno, devido às facilidades de acesso e escoamento da produção (MEDEIROS, 2007).
A recente duplicação da rodovia BR-101 no trecho sul catarinense que liga Palhoça/SC a Osório/RS, iniciou-se em 2005. Em 2019 foi totalmente finalizada e entregue à população, oferecendo novos incentivos econômicos e de facilidades para o escoamento da produção industrial do município, marcando o início de uma nova fase de crescimento ocupacional ao longo de ambas as margens da rodovia (SILVA, 2015).
5.2 LOCALIZAÇÃO DO TERRENO
O terreno escolhido para a elaboração do projeto proposto situa-se na cidade de Tubarão, na esquina da Avenida Pedro Zapeline e da Rua Vidal Ramos, bairro Recife, conforme indicação nas Figuras 10 e 11.
Figura 10 - Localização do terreno no Município de Tubarão.
Fonte: Adaptado do Google Earth, 2020.
Figura 11 - Imagem do terreno.
Fonte: Adaptado do Google Earth, 2020.
O local onde se encontra o terreno foi escolhido estrategicamente por ficar próximo ao centro da cidade. Portanto, estando, automaticamente, próximo aos seus principais pontos de comércio e serviços básicos essenciais, visto as exigências referentes as categorias de qualidade do SCA.
Outro fator que foi considerado na escolha da localização do terreno, foi o crescimento e valorização que o bairro vem recebendo ao longo dos últimos anos. Além da procura deste bairro por construtoras para a construção de edifícios multifamiliares (Figura 12). Figura 12 - Mapa de edificações multifamiliares na região.
Fonte: Adaptado do Google Earth, 2020.
Como exemplo do crescimento e valorização que o bairro vem obtendo nos últimos anos, pode ser citado a construção do Edifício Residencial Magestic Residence. Trata-se de um empreendimento de alto padrão da construtora Tartari e Almeida, conhecido por ser o maior prédio da cidade, com 28 andares.
5.3 USOS DO SOLO
Como citado anteriormente, a área nas proximidades do terreno está em processo de crescimento. Entretanto, possui forte predominância de edificações residenciais unifamiliares ou multifamiliares, com pouca quantidade de edificações comerciais ou mistas (residencial/comercial), apresentando apenas alguns pontos de comércio e serviços básicos essenciais (Figura 13).
Figura 13 - Mapa de uso do solo.
Fonte: Adaptado de PMT, 2013.
A pouca quantidade de edificações comerciais nas proximidades do terreno não afeta seus moradores. A poucos metros encontra-se ao norte o bairro Centro e a oeste o bairro Oficinas, locais onde encontram-se uma grande concentração de edifícios comerciais e mistos, que suprem as necessidades de toda a população local.
5.4 DENSIDADE
Na área de entorno do terreno é possível perceber grande quantidade de vazios urbanos compostos em sua maioria por terrenos particulares não ocupados, aumentando sua ocupação de forma gradativa em direção aos bairros Centro e Oficinas (Figura 14).
Em relação ao terreno escolhido, nos lotes ao lado e nos fundos, atualmente encontram-se vazios. Ao lado na esquina com a rua Vidal Ramos há uma instituição religiosa e em frente no outro lado da Av. Pedro Zapelini, o lote também se encontra ainda vazio.