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Tribunal do júri

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Academic year: 2021

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TRIBUNAL DO JÚRI:

A ÍNTIMA CONVICÇÃO DOS JURADOS EM FACE DO PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA MOTIVAÇÃO DAS DECISÕES JUDICIAIS (ART. 93,

INC. IX, DA CRFB/88)

Palhoça 2014

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TAMIRIS SCHWINDEN GOULART

TRIBUNAL DO JÚRI:

A ÍNTIMA CONVICÇÃO DOS JURADOS EM FACE DO PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA MOTIVAÇÃO DAS DECISÕES JUDICIAIS (ART. 93,

INC. IX, DA CRFB/88)

Monografia apresentada ao Curso de Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientador: Prof. Sidney Eloy Dalabrida, Doutor.

Palhoça 2014

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TERMO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE

TRIBUNAL DO JÚRI:

A ÍNTIMA CONVICÇÃO DOS JURADOS EM FACE DO PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA MOTIVAÇÃO DAS DECISÕES JUDICIAIS (ART. 93,

INC. IX, DA CRFB/88)

Declaro, para todos os fins de direito, que assumo total responsabilidade pelo aporte ideológico e referencial conferido ao presente trabalho, isentando a Universidade do Sul de Santa Catarina, a Coordenação do Curso de Direito, a Banca Examinadora e o Orientador de todo e qualquer reflexo acerca desta monografia.

Estou ciente de que poderei responder administrativa, civil e criminalmente em caso de plágio comprovado do trabalho monográfico.

Palhoça, 11 de junho de 2014.

_____________________________________

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À minha mãe, por sua dedicação, cuidado,

otimismo, sempre concedendo-me

esperança para prosseguir.

Ao meu pai, por acreditar e investir em mim, e também por descontrair meus dias. Aos meus irmãos Fernando e Cristiane, com os quais amo compartilhar minha vida.

Ao meu namorado Geovanne, pela paciência de sempre, e também por ajudar-me em qualquer situação.

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AGRADECIMENTOS

Ao professor Dr. Sidney Eloy Dalabrida, pela orientação, bem como pelas maravilhosas aulas de Processo Penal.

À minha irmã Cristiane Goulart Cherem, pelo empréstimo de livros e revistas jurídicas.

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“Teu dever é lutar pelo Direito, mas se um dia encontrares o Direito em conflito com a Justiça, luta pela Justiça.” (Eduardo Juan Couture)

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RESUMO

O presente trabalho monográfico tem por objetivo analisar a íntima convicção dos jurados em face do princípio constitucional da motivação das decisões judiciais, inserto no art. 93, inc. IX, da CRFB/88. Esses sistemas, segundo alguns posicionamentos doutrinários, afiguram-se confrontantes, eis que a CRFB/88 não teria recepcionado a íntima convicção, considerando que os jurados, no Tribunal do Júri, não fundamentam as suas decisões, e que o art. 93, inc. IX, da Lei Maior, não dispensa a motivação de todas as decisões judiciais. Assim, analisa-se, se, constituindo o Tribunal do Júri um órgão jurisdicional, mas também uma garantia fundamental, cláusula pétrea, não haveria de ser modificada a forma de realização dos respectivos julgamentos, precisamente no que atine a decisão dos jurados, para que passem a fundamentar seus votos. Para tanto, parte-se da origem histórica do Tribunal do Júri, identificando-se, também, a sua inserção no ordenamento jurídico pátrio, bem como a sua sistematização no direito comparado. Igualmente, analisa-se os princípios constitucionais norteadores do Tribunal do Júri, o procedimento delineado para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida, e as divergências doutrinárias sobre a maneira que os jurados decidem, e ainda a influência da mídia nas decisões do júri. O trabalho culmina com a conclusão, asseverando-se que a íntima convicção dos jurados constitui elemento ínsito à realização, ao exercício, do sigilo das votações, princípio constitucional específico do Tribunal do Júri, não havendo, portanto, incompatibilidade de tal sistema com o princípio da motivação das decisões judiciais.

Palavras-chave: Íntima Convicção dos Jurados. Motivação das Decisões Judiciais. Incompatibilidade.

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

CRFB/88 - Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 CEDH - Convenção Europeia dos Direitos do Homem

CPP - Código de Processo Penal

LECRIM - Código de Processo Penal Espanhol STF - Supremo Tribunal Federal

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 11

2 A HISTÓRIA DO JÚRI NO MUNDO ... 13

2.1 ASPECTOS GERAIS RELEVANTES SOBRE A ORIGEM DO JÚRI ... 13

2.1.1 Inserção do júri no direito brasileiro... 15

2.2 A CONFIGURAÇÃO DO JÚRI NO BRASIL E NO DIREITO COMPARADO... 16

2.2.1 Inglaterra ... 16 2.2.1 Estados Unidos ... 18 2.2.3 França ... 20 2.2.4 Itália ... 21 2.2.5 Espanha ... 22 2.2.6 Portugal ... 23 2.2.7 Brasil ... 25

3 OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS INSERTOS NA CRFB/88 QUE REGEM O TRIBUNAL DO JÚRI ... 28

3.1 PLENITUDE DA DEFESA ... 28

3.2 SIGILO DAS VOTAÇÕES ... 29

3.3 SOBERANIA DOS VEREDICTOS ... 31

3.4 COMPETÊNCIA PARA O JULGAMENTO DOS CRIMES DOLOSOS CONTRA A VIDA ... 34

3.5 AS FASES QUE COMPÕEM O PROCEDIMENTO DO TRIBUNAL DO JÚRI... 37

3.5.1 Instrução preliminar ... 38

3.5.2 Preparação do processo para julgamento em plenário ... 41

3.5.3 Julgamento popular ... 42

4 A ÍNTIMA CONVICÇÃO DOS JURADOS EM FACE DO PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA MOTIVAÇÃO DAS DECISÕES JUDICIAIS (ART. 93, INC. IX, DA CRFB/88 ... 47

4.1 OS JURADOS NO BRASIL: QUEM SÃO? ... 47

4.2 CONCEITOS DE ÍNTIMA CONVICÇÃO E MOTIVAÇÃO DAS DECISÕES JUDICIAIS ... 48

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4.3 A ÍNTIMA CONVICÇÃO VIOLA O PRINCÍPIO DA MOTIVAÇÃO DAS

DECISÕES JUDICIAIS? ... 52

4.4 A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NO TRIBUNAL DO JÚRI ... 56

4.5 CRÍTICAS E SUGESTÕES AO SISTEMA DO JÚRI ATUAL ... 59

5 CONCLUSÃO ... 63

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1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem como objetivo verificar se o atual procedimento do Tribunal do Júri, em que os jurados julgam sem a devida demonstração de motivação, é contrário à CRFB/88.

O incentivo nasceu na disciplina de Processo Penal, ministrada pelo ilustre professor Doutor Sidney Eloy Dalabrida, em que tratava sobre o Tribunal do Júri.

Esse tema se afigura muito importante, pois a sociedade e os operadores do Direito encontram-se, de certa forma, insatisfeitos com o processo penal brasileiro, assim, é necessária certa reflexão sobre a maneira como o Tribunal do Júri julga os crimes dolosos contra a vida.

Muito se discute sobre a forma como os jurados julgam no Brasil, ou seja, por meio de sua íntima convicção, sem qualquer fundamentação. Ademais, discute-se a respeito da composição do Tribunal do Júri, eis que pessoas leigas é que decidem.

Assim, o presente trabalho, tem por finalidade analisar se há afronta à CRFB/88 quando os jurados no Tribunal do Júri julgam de acordo com a sua íntima convicção, haja vista que é previsto na CRFB/88 que todas as decisões judiciais devem ser fundamentadas, precisamente no seu art. 93, inc. IX.

Para a realização da pesquisa é utilizado o método de abordagem dedutivo, pois se começa abordando o Tribunal do Júri, sua origem, organização, inclusive em outros países, os princípios constitucionais que o regem, seu procedimento, para, ao final, discorrer-se sobre o princípio da íntima convicção dos jurados em face à CRFB/88.

A natureza da pesquisa é qualitativa, sendo o método de procedimento, monográfico, histórico e comparativo, já que, compara-se o Tribunal do Júri do Brasil com o de outros países, enquanto a técnica de pesquisa é bibliográfica, com base na doutrina e jurisprudência.

O trabalho é estruturado em três capítulos, sendo que o primeiro versa sobre os aspectos relevantes da origem do júri, e sua organização no Brasil e no direito comparado.

No segundo capítulo, abordam-se os princípios constitucionais que norteiam o Tribunal do Júri, quais sejam, a plenitude da defesa, o sigilo das

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votações, a soberania dos veredictos e a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida, como também, as três fases que compõem o procedimento do Tribunal do Júri: instrução preliminar, preparação do processo para julgamento em plenário e julgamento popular.

No terceiro capítulo, verifica-se o princípio da íntima convicção dos jurados em face do princípio constitucional da motivação das decisões judiciais, inserto no art. 93, inc. IX, da CRFB/88.

Por fim, cumpre registrar que na conclusão do trabalho tem-se o objetivo de ampliar o conhecimento e as discussões sobre o tema, especialmente, diante das divergências verificadas, entretanto, não há pretensão de esgotar-se o aprofundamento do presente estudo.

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2 A HISTÓRIA DO JÚRI NO MUNDO

A história do júri, no mundo, nem sempre encontra posicionamentos convergentes na doutrina. Todavia, antes de adentrar-se em questões técnicas inerentes ao instituto, não se pode deixar de analisar os entendimentos sobre a configuração histórica de algo tão importante, o que será discorrido a seguir.

2.1 ASPECTOS GERAIS RELEVANTES SOBRE A ORIGEM DO JÚRI

John Gilissen, (2001, p. 214) explana que o júri se origina da Common

Law, sistema institucionalizado por Henrique II, em 1166, segunda metade do século

XII, embora admita que muitos veem o seu nascimento no Direito, dos primeiros reis anglo-normandos.

Nesse sentido, José Fábio Rodrigues Maciel e Renan Aguiar (2010, p. 127), relatam a respeito da relevância do júri para o direito inglês na organização judiciária, o qual emergiu na segunda metade do século XII, no mesmo período que a Common Law, asseverando que auferiu potência com Henrique II, visto que este queria dissipar o júri para assegurar julgamentos permeados com certa segurança jurídica, elidindo as provas baseadas nas ordálias1, também conhecidas como juízos de Deus.

Ainda, menciona José Fábio Rodrigues Maciel e Renan Aguiar (2010, p. 127), que no sistema da Common Law, o júri se aplicava também aos casos cíveis, como a várias outras áreas, haja vista que quanto mais casos se submetessem a esse sistema, menos estariam ao arbítrio das ordálias.

Paulo Rangel, (2012, p. 41) expõe que o júri civil surgiu muito antes do criminal, visto que os jurados julgavam só as causas cíveis, sendo que, posteriormente, também abarcou as matérias criminais, que englobavam a liberdade individual e a vida, já que a pena de morte era, e ainda é, presente em alguns países.

Marcus Vinícius Amorim de Oliveira, (2003, p. 63) disserta sobre os vários posicionamentos acerca da história universal do Tribunal do Júri, explicando que 1“Ordália é um tipo de prova utilizada na Idade Média para provar a culpa por meio de elementos da

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esta é uma organização centenária, com recordação dos judices juratis, ou seja, o período áureo do direito romano. Da mesma forma, não se podem esquecer dos

dikatas dos gregos, os soffetins dos hebreus e os centeni comites dos germanos.

Para uma parte de conhecedores, por obra de Moisés, é na antiga legislação hebraica que se descobre o nascimento e fundamento do Tribunal do Júri. Para outra, a primordial origem de ideias para o novo formato da instituição, foi a civilização grega, a qual julgou Sócrates em uma Heliéia2.

Guilherme de Souza Nucci, (2008, p. 42) afirma que o júri, na França, ocorreu posteriormente à Revolução Francesa de 1789, que objetivou o confronto às ideias e métodos defendidos pelos juízes do regime monárquico, o qual teve como escopo preponderar um Judiciário composto pelo povo, envolvido pelas novas ideologias republicanas, substituindo um Judiciário construído, dominantemente por magistrados ligados à monarquia.

Guilherme de Souza Nucci, (2008, p. 41) relata ainda ter o Tribunal do Júri surgido na Inglaterra, na Magna Carta, em 1215, porém, muito antes, este já existia, como por exemplo, nas vilas em que a população fosse excedente a cento e vinte famílias, na Palestina, onde se encontrava o Tribunal dos Vinte e Três. Essas Cortes analisavam e tomavam decisões sobre processos criminais concernentes a crimes puníveis com a pena de morte, sendo os integrantes selecionados dentre padres, levitas e principais chefes de famílias de Israel.

Marcus Vinícius Amorim de Oliveira (2003, p. 64), sobre a origem do júri, explana:

De início, o Júri Popular explicitava contundente conotação religiosa e mística, tanto que Jury era organizado com doze jurados, número correspondente ao de apóstolos de Cristo sobre os quais recaiu o Espírito Santo no dia de Pentecostes.

Rogério Lauria Tucci (1999, p. 13-15), sustenta que a real origem do Tribunal do Júri localiza-se na Roma antiga, no período em que eclodiu o sistema 2“Na Grécia, o sistema de tribunais era subdividido em dois importantes órgãos, a Heliéia e o

Areópago. A Heliéia era o principal colégio de Atenas, formado por quinhentos membros sorteados entre os cidadãos que tivessem, no mínimo, trinta anos, uma conduta ilibada e que não fossem devedores do Erário. As reuniões davam-se em praça pública, sendo presididas pelo archote, a quem cabia decidir pela declaração da culpa de um cidadão. Já, ao Areópago, cabia unicamente o

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acusatório. Ainda, menciona a incerteza dos doutrinadores no sentido de definir o nascimento do Tribunal do Júri, considerando a ausência de referências sobre o assunto.

2.1.1 Inserção do júri no direito brasileiro

Para Marcus Vinícius Amorim de Oliveira, (2003, p. 66-67), o Tribunal do Júri chegou ao Brasil no ano de 1822, com a Lei de 16 de junho do referido ano, incumbindo-lhe, naquele momento, apenas o julgamento dos crimes de imprensa e de opinião. À época, era composto por vinte e quatro jurados, somente competindo recurso ao Príncipe-regente.

Em 1824, com o surgimento da primeira Constituição brasileira, o Tribunal do Júri abarcou um maior número de crimes. Sua formação restou modificada, apresentando dois conselhos: o primeiro, constituído por um júri de acusação, composto por vinte e três membros; e o segundo, formado por um júri de sentença, integrado por doze jurados. Nessa época, sua característica simbólica começou a ser discutida, visto que, em uma comunidade escravocrata, só eram permitidos ser jurados, os denominados “homens bons”, pertencentes às classes dominantes. Com o decorrer do tempo, ocorreram muitas mudanças no júri, passando até mesmo à gestão da polícia, para depois, voltar à esfera do Poder Judiciário (STRECK, 1998).

Mendes de Almeida citado por José Frederico Marques (1963, p. 17), leciona sobre o júri na figuração da Constituição brasileira de 1824:

No dia de Júri de acusação, eram sorteados sessenta juízes de fato. O juiz de paz do distrito da sede apresentava os processos de todos os distritos do têrmo, remetidos pelos demais juízes de paz, e, preenchidas certas formalidades legais. O juiz de direito, dirigindo a sessão, encaminhava os jurados, com os autos, para a sala secreta, onde procediam a confirmação ou revogação das pronúncias ou impronúncias. Constituíam, assim, os jurados, o conselho de acusação. Só depois de sua decisão, podiam os réus ser acusados perante o conselho de sentença. Formavam êste segundo Júri doze jurados tirados à sorte: à medida que o nome do sorteado fôsse sendo lido pelo Juiz de direito, podiam o acusador e o acusado ou acusados fazer recusações imotivadas, em número de doze, fora os impedidos.

Lênio Luiz Streck (1998, p. 73-74), sobre a história do Tribunal do Júri no Brasil, disserta que:

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A Constituição do Estado Novo, de 1937, não assinala sua existência, sendo que somente no ano seguinte foi regulamentado. De salientar, ainda, que, em 1934, o Tribunal do Júri já tinha passado do Capítulo “Dos Direitos e Garantias Individuais” para o que tratava “Do Poder Judiciário” saindo, assim, da esfera da cidadania para a órbita do Estado.

O júri no Brasil, embora não tenha sido referido pela Constituição brasileira de 1937, foi contemplado na Constituição de 1946, no momento em que restou posto novamente no Capítulo “Dos Direitos e Garantias Individuais”, com atribuição exclusiva para o julgamento dos delitos dolosos contra a vida (STRECK, 1998).

Lênio Luiz Streck (1998, p. 74), finaliza acerca da história do júri no Brasil, dispondo que:

Tal dispositivo foi mantido pela Constituição de 1967 e pela Emenda de 1969, a qual, entretanto, não fez menção à soberania do júri, reabrindo, por consequência, a discussão sobre a sua relevância em nossa sociedade. Com o advento da Constituição de 1988, o Tribunal do Júri voltou a ter

status de garantia dos direitos individuais e coletivos, recuperando,

inclusive, sua soberania.

De qualquer maneira, Paulo Rangel, (2012, p. 41) conclui não haver incerteza das características democráticas do Tribunal do Júri, já que surge dos julgamentos originados pela população.

2.2 A CONFIGURAÇÃO DO JÚRI NO BRASIL E NO DIREITO COMPARADO

2.2.1 Inglaterra

Edson Pereira Belo da Silva, (2006, p. 43) menciona que apesar de na Inglaterra o júri ainda ser uma figura central da justiça, visto que desde o início serviu de proteção aos direitos individuais, bem como ao amparo à liberdade, nos dias de hoje, limita-se a três por cento de todos os julgamentos criminais.

Nesse sentido, para Mireille Delmas Marty (2005, p. 521), o Tribunal do Júri na Inglaterra, sendo o lugar no qual o júri auferiu o formato que se conhece atualmente, é responsável somente por um a dois por cento das ocorrências criminais.

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Guilherme de Souza Nucci (1999, p. 64), observa que na Inglaterra essa atenuação gradual começou em 1967, no momento em que o veredicto uníssono para a condenação não foi mais obrigatório, sendo que diversas contravenções penais foram classificadas novamente, mediante uma lei de 1977. Assim, sobram o estupro e o homicídio doloso ou culposo como os crimes que, obrigatoriamente, vão ao tribunal popular.

O autor Ángel Tinoco Pastrana (2001, p. 108) citado por Paulo Rangel (2012, p. 45), assevera que a partir da época em que aconteceu a extinção do conhecido Grand Jury em 1933, no qual a história nos remete ao início da Common

Law, na própria Inglaterra, a relevância deste foi diminuída com o aumento dos

juízes de paz, visto que julgava somente aqueles a quem estes acusavam antecipadamente, desaparecendo pouco a pouco a sua iniciativa. Após, o Grand

Jury começou a ter uma função residual até sua extinção, haja vista a formação de

uma polícia profissional no século XIX, que representou a diminuição da atividade dos referidos juízes de paz que efetuavam a atividade de averiguar as provas apreendidas pela polícia.

Edilson Mougenot Bonfim (2009, p. 8), sobre a composição do júri, assegura:

Na Inglaterra, tão grande é sua respeitabilidade que o Júri é uma espécie de “vaca sagrada”, na expressão de Spencer, encontramos doze como o número de jurados, número este de quinze na Escócia. No Reino Unido, contudo, é tamanha a gama de variantes possíveis na forma procedimental (processo) que é impossível qualquer razoável comparação.

O Tribunal do Júri na Inglaterra é constituído por 12 jurados com idade entre 18 e 70 anos, diversamente do Brasil, em que o conselho de sentença é formado por 7 jurados, sorteados em meio aos 25 nomes, convocados para a sessão de julgamento, o que será melhor elucidado em outro capítulo (RANGEL, 2007).

Todavia, entre o Tribunal do Júri da Inglaterra e o do Brasil, há uma particularidade em comum, visto que, “os jurados não tomam parte da elaboração da sentença, que é ato exclusivo do juiz”. (RANGEL, 2007).

Guilherme de Souza Nucci (2013, p. 52), faz alguns apontamentos ao Tribunal do Júri na Inglaterra:

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[...] Os pontos positivos do júri baseiam-se na sua tradição e na ausência de dados concretos e graves de que se trata de um órgão nocivo ao sistema judiciário. Por outro lado, os negativos concentram-se na influência que os jurados exercem uns sobre os outros na sala secreta, alterando a imparcialidade do tribunal, bem como no fato de que há uma tendência natural a absolvições infundadas, especialmente de criminosos profissionais.

Segundo John Mcnaught (1998, 224) citado por Paulo Rangel (2012, p. 45), na Inglaterra, a comunicabilidade no convívio dos jurados é absoluta, já que os referidos julgam com embasamento no juramento que proferem, no sentido de analisar de forma leal a situação do réu, conferindo um veredicto autêntico em consonância com as provas exibidas.

Dessa forma, o método da instituição do júri na Inglaterra, admite que aos jurados sejam oportunizadas profundas discussões e troca de conhecimentos, para o mais adequado julgamento ao caso concreto (NUCCI, 1999).

2.2.2 Estados Unidos

Inicialmente, Paulo Rangel (2012, p. 45), dispõe que o processamento de ações penais e cíveis ante o tribunal do júri é o aspecto mais acentuado do sistema processual nos Estados Unidos da América (EUA). E tendo por base que o princípio acusatório puro dirige o processo penal nos EUA, a atividade de controle das indagações, a condução dos debates, bem como a sentença das questões de direito, são os juízes togados que efetuam, comandando a sessão na colocação de defensores dos direitos aprovados nas emendas constitucionais norte-americanas.

Na mesma linha, observa Edson Pereira Belo da Silva (2006, p. 40), que a Constituição dos EUA prevê ampla competência ao júri. De outro lado, pondera, que cada Estado regulamenta o respectivo procedimento.

Segundo o mesmo autor, (2012, p. 45), no sistema dos EUA, cabe ao Ministério Público, privativamente, o ônus de demonstrar que há indícios da prática do crime contra o réu, porém, em paridade de condições, diante da defesa técnica.

Edilson Mougenot Bonfim (2009, p. 8), após ter viajado a diversos júris pelo mundo, e os conhecido, faz um registro acerca do júri nos EUA:

Nos Estados Unidos, em suas variadas formas, ocorre por vezes um conflito entre a legislação federal e estadual – um “caos impenetrável”, no dizer de Jiménez de Asúa -, e mais se assemelha ao modelo que concebemos, os

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Trial Juries, com sua composição de doze jurados e tendo como nota

distintiva mais marcante a necessidade da votação unânime e a não-existência da “incomunicabilidade entre os jurados”, bem como do “sigilo das votações”, razão pela qual dá-se exatamente o contrário: o voto é revelado.

No júri estadual dos Estados Unidos é permitido pronunciar julgamentos condenatórios, por maioria, caso não sejam delitos condenados com pena de morte ou outra penalidade grave. Já, no júri federal, a decisão tomada há de ser unânime (NUCCI, 2013).

Ainda, Elizabeth Cardona Mínguez (2000, p. 75) citada por Paulo Rangel (2012, p. 47), discorre que no júri estadual, a matéria é disciplinada pelo Tribunal Supremo Federal. Diante disso, a Constituição não exige um preciso número de jurados. Entretanto, no júri federal, o veredicto tem de ser uníssono para cada um dos casos criminais, e a constituição tem de ser necessariamente de 12 (doze) indivíduos. Em se tratando de crimes graves, a formação de 12 (doze) pessoas no júri, bem como a decisão unânime são condições obrigatórias em quase todos os Estados, com ressalva dos Estados de Arizona e Utah, que autorizam um corpo de jurados composto por oito cidadãos, e os Estados de Connecticut, Florida,

Massachusetts e Nebraska, nos quais é permitido um corpo de jurados incorporado

por seis membros, caso a decisão seja por unanimidade.

Observa Guilherme de Souza Nucci (1999, p. 73) que o Juiz-Presidente não pode pronunciar qualquer revelação que possa vir a interferir na decisão dos jurados, uma vez que ele tem a missão de comandar as atividades no júri, decidindo acerca da admissibilidade das provas exibidas pelas partes e orientando o conselho de sentença para decidir em conformidade com os fatos e a lei.

Edson Pereira Belo da Silva (2006, p. 39), informa que o júri veio introduzido na Constituição dos EUA de 17 de setembro de 1787, estabelecendo em sua Seção 2, artigo III, que:

Todos os crimes, à exceção dos casos de impeachment, serão motivados de julgamento pelo Tribunal do Júri, e o processo tramitará no Estado em que o crime tenha sido cometido; quando não se suscitar a competência territorial de um Estado, o julgamento ocorrerá no lugar ou nos lugares em que o Congresso tenha estabelecido por lei.

Além disso, Paulo Rangel (2012, p. 46) dispõe que a Emenda VI decreta que quaisquer réus tem a garantia de ser notificado acerca da plenitude da

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acusação, e de ser julgado pelos seus vizinhos, ou seja, entre seus pares, bem como a um julgamento popular e célere, mediante um jurado neutro e escolhido no Distrito e no Estado em que o crime foi realizado.

Edson Pereira Belo da Silva (2006, p. 40), identifica que a emenda VII, também de 1791, restou escrita da seguinte forma:

Nos processos do common law (direito consuetudinário), em que o valor do objeto do litígio exceder a vinte dólares, o direito a um julgamento pelo júri será mantido, e nenhum fato julgado por um júri poderá ser examinado por um tribunal dos Estados Unidos, senão conforme as regras da common law (direito consuetudinário).

Conclui Paulo Rangel (2012, p. 46) que existe um limite à vontade normativa ordinária que, caso excedida, será inconstitucional, visto que, todo o instituto do processo ante o júri, no plano processual, está adstrito à conformidade com o direito fundamental especificado na Constituição. Procedimento que igualmente deve motivar o legislador brasileiro, pois a Constituição não pode ser interpretada por intermédio do Código de Processo Penal, mas sim, o oposto.

2.2.3 França

Disserta Paulo Rangel, (2012, p. 47) que a França, com a Revolução Francesa de 1789, almejando derrotar o despotismo e a prepotência dos juízes do

ancien régime, os quais rendiam-se à imposição das dinastias e da monarquia das

quais eram submissos, viu o Tribunal do Júri como a tábua de salvação.

A origem do Tribunal do Júri na França deu-se com a finalidade de substituir um Judiciário composto, dominantemente por juízes associados à monarquia, por um diverso, integrado pela população, cercado por novos ideais republicanos (NUCCI, 2008).

Posteriormente à Revolução Francesa de 1789, verificou-se a influência do júri, em praticamente todos os países da Europa, eliminando somente a Holanda e Dinamarca (NUCCI, 2008).

Elizabeth Cardona Mínguez (2000, p. 111) citada por Paulo Rangel (2012, p. 48), explana que pós-revolução, sendo o júri percebido como mecanismo de amparo do cidadão diante do Estado, a condenação no júri, apenas poderia ser obtida se existisse dez votos em meio aos 12 (doze) que compunham o júri. Em

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1793, abrandou-se a exigência de tutela, enquanto que os princípios revolucionários foram enfraquecendo, já que se acreditava que a norma antecedente beneficiava a impunidade, podendo o veredicto de culpabilidade ser aplicado por prevalência de sete votos em meio aos 12 (doze).

Paulo Rangel (2012, p. 48), disserta sobre o escabinato, sistema atual do Tribunal do Júri na França:

O escabinato decide em sessão secreta e individual, por meio de quesitos distintos e sucessivos que se dirigem ao fato principal da imputação penal e, após, sobre cada uma das circunstâncias agravantes, questões subsidiárias e sobre cada um dos fatos que constituem uma causa legal de diminuição da pena.

A França, desde 1932, e após, definitivamente, em 1941, aboliu o júri tradicional, para instaurar o método do escabinato, constituído de 9 (nove) cidadãos e três magistrados, em que, também, não existe tempo para os debates, mas conservando a particularidade de decidir acerca dos delitos mais gravosos (BONFIM, 2009).

2.2.4 Itália

A disciplina normativa inicial do Tribunal do Júri na Itália foi substituída pelo Reglamento giudiciario de 14 de dezembro de 1865 e a lei de 8 de junho de 1874, e determinada pelo Códice di Procedura Penale de 1859, alicerçadas na divisão entre juízo de direito e juízo de fato (RANGEL, 2012).

A sabedoria e persuasões particulares que os leigos em Direito são capazes de apontar, mostram-se muito proveitosas para o juiz profissional, e a consequência disso é claramente vantajosa para um superior gerenciamento da justiça. Uma nova utilidade indicada é, que na estrutura de escabinato, os juízes profissionais e os leigos constroem um colegiado uno, julgando acerca do direito e do fato, de forma que, as informações de um, conseguem completar as faltas do outro (LOPES JR., 2004).

Dois juízes togados fazem parte do escabinato ou assessorado, um que dirige o tribunal, o qual deve ser constituinte da Corte de Apelação; e o outro, nomeado de giudice a latere, e ainda, 6 (seis) indivíduos, que são magistrados

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leigos, devendo necessariamente, três desses serem homens (MOROSI, 1999 apud RANGEL, 2012, p. 50).

Complementa Paulo Rangel (2012, p. 50), que os jurados leigos são recrutados mediante sorteio pelo magistrado presidente da Corte. Tais jurados devem ser cidadãos de conduta ilibada e possuírem idade entre 30 (trinta) e 65 (sessenta e cinco) anos, com ao menos primeiro grau de escolaridade completo. Todavia, há os jurados integrantes da Corte de Apelação, caso em que o segundo grau de instrução se afigura indispensável.

2.2.5 Espanha

Pilar de Paul Velasco (1995, p. 24) citado por Paulo Rangel (2012, p. 51), dispõe que na Espanha os jurados são eleitores e sorteados em todas as regiões, entre os 15 dias finais do mês de setembro dos anos pares, com a intenção de constituir a listagem bienal de concorrentes a jurados. Também é realidade que existem habitantes espanhóis que não compõem o recenseamento eleitoral por questões socioecomômicas.

O júri espanhol é composto de 9 (nove) jurados que não precisam ter formação em Direito, e um juiz, seu presidente. Os jurados emitem decisão declarando provado ou não o fato criminoso e, por conseguinte, se o réu é culpado ou inocente. Quanto à aplicação da pena, esta é de incumbência do Juiz-Presidente, que ainda decidirá acerca da responsabilidade civil do réu ou de terceiros, desde que requisitado (NUCCI, 2013).

Na Espanha, bem como no Brasil, apesar do Ministério Público encontrar-se submetido ao princípio da legalidade, procedendo em obediência à Constituição, às demais normas do ordenamento jurídico espanhol (art. 105 da LECRIM) e às leis, consegue dispor da matéria contida nos autos com “praticidade, neutralidade e independência funcional”. (CATENA, 1999 apud RANGEL, 2012, p. 51).

Caso o Ministério Público afaste a pretensão acusatória, o réu não se sujeita ao júri. Dessa forma, se o Ministério Público prontamente pedir a absolvição do réu, este é absolvido, e o conselho desfeito (NUCCI, 2013).

Para Vicente Gimeno Sendra (1999, p. 78) citado por Paulo Rangel (2012, p. 52):

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Há forte inspiração e respeito ao princípio acusatório no Direito espanhol por força do art. 6.1 do CEDH em face da interpretação jurisprudencial efetuada pelo TEDH, o que, por si só, desautoriza julgamento se não há mais pretensão acusatória.

As particularidades mais consideráveis do Tribunal do Júri na Espanha, são: envolvimento do povo na administração da justiça; pronunciamento específico a respeito dos fatos, com emprego do direito pelos magistrados, natureza transitória, agrupando-se apenas para o julgamento de um caso concreto (NUCCI, 1999).

Pilar de Paul Velasco (1995, p. 55) citado por Paulo Rangel (2012, p. 52), disserta que as partes, no júri da Espanha, podem indagar os possíveis jurados com o objetivo de conhecer seus perfis políticos, econômicos, religiosos, assim como seus estilos de vida, ocasionais discriminações acerca de etnias, entre tantas outras coisas, que seja capaz de repercutir na análise do fato.

Guilherme de Souza Nucci (2013, p. 64), finaliza que o Tribunal do Júri da Espanha é uma instituição que oportuniza o envolvimento dos cidadãos no Poder Judiciário, no entanto, não é uma proteção essencial do indivíduo. Caso fosse, não poderia ser amplamente restringida por lei ordinária, nem ao menos poderia esta determinar as ocorrências permitidas de ir a júri e quais devem permanecer na atribuição do magistrado.

2.2.6 Portugal

Edson Pereira Belo da Silva (2006, p. 41), dispõe que a Constituição da República Portuguesa, em seu art. 207, acerca do funcionamento do Tribunal do Júri, expõe que:

1. Júri, nos casos e com composição que a lei fixar, intervém no julgamento de crimes graves, salvo os de terrorismo e os de criminalidade altamente organizada, designadamente quando a acusação ou a defesa o requererem. 2. A lei poderá estabelecer a intervenção de juízes sociais no julgamento de questões de trabalho, de infrações contra a saúde pública, de pequenos delitos, de execução de penas ou outras que se justifique uma especial ponderação dos valores sociais ofendidos.

Edson Pereira Belo da Silva, (2006, p. 42-43) ressalta que o Tribunal do Júri usufrui de relevante confiança em Portugal, considerando-se os crimes julgados por ele, tais como incitamento à guerra (art. 236); aliciamento de forças armadas

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(art. 237); recrutamento de mercenários (art. 238); genocídio (art. 239); discriminação racial ou religiosa (art. 240); crimes de guerra contra civis (art. 241); destruição de monumentos (art. 242), entre outros.

Em Portugal, o Tribunal do Júri é constituído por três juízes que compõem o tribunal coletivo, por quatro jurados substitutos e quatro permanentes, dirigido pelo presidente; sendo que, na ausência de um dos jurados permanentes, os substitutos poderão interceder, no decorrer do julgamento ou anteriormente à sua abertura (SILVA, 2000).

A organização do escabinato composto por juízes togados possibilita que seja debatido o quantum da pena a ser utilizada, visto que matérias na qual demandam conhecimento jurídico são entendidas, já que participam do júri, juízes togados, sendo a atribuição do escabinato português interceder no julgamento sobre a pena a ser aplicada e a culpabilidade (RANGEL, 2012).

Registre-se que no sistema do Tribunal do Júri de Portugal, tanto o magistrado quanto os jurados devem explanar os motivos que os levaram a decidirem de determinada maneira, inclusive, apontando, sendo possível, as provas que respaldaram suas convicções. Assim, vê-se que em tal sistema a fundamentação de cada jurado, inclusive dos leigos, é medida que se impõe (RANGEL, 2012).

Acerca da capacidade para ser jurado, Germano Marques da Silva, (2000, p. 237) explana que:

Podem ser jurados os cidadãos portugueses inscritos no recenseamento eleitoral que satisfaçam as seguintes condições: a) Idade inferior a 65 anos; b) Escolaridade obrigatória; c) Ausência de doença ou anomalia física ou psíquica que torne impossível o bom desempenho do cargo; d) Pleno gozo dos direitos civis e políticos; e) Não estarem presos ou detidos, em estado de contumácia, nem haverem sofrido condenação que implique incapacidade para o exercício da função de jurado.

Para Guilherme de Souza Nucci (2013, p. 62), rigidamente falando, não existe Tribunal do Júri em Portugal, visto que o método adotado pela instituição é o escabinato, na qual leigos e magistrados se reúnem para julgarem uma ocorrência. Assim, não há um tribunal popular, conforme no Brasil, EUA e no Reino Unido, em que só leigos julgam.

Por fim, na Constituição de Portugal o Tribunal do Júri não vigora em meio aos direitos e proteções fundamentais, e é de utilização opcional, conforme a

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lei processual penal. Dessa forma, encontra-se distante de compor um amparo ao indivíduo (NUCCI, 2013).

2.2.7 Brasil

No Brasil, o Tribunal do Júri é uma instituição colegiada, pois integrada por muitos componentes; é heterogênea, visto que, constitui-se, de magistrados com particularidades distintas: 1 (um) juiz profissional (Juiz-Presidente) e 25 (vinte e cinco) juízes leigos (jurados), dos quais são sorteados em todos os julgamentos 7 (sete) jurados para a composição do conselho de sentença, sendo as decisões do júri tomadas por maioria simples de votos (LENZA, 2013).

Fernando da Costa Tourinho Filho (2013, p. 403), disserta que compete ao Juiz-Presidente do Tribunal do Júri, todos os anos, ordenar a listagem completa dos jurados, realizando-a sob sua responsabilidade e mediante escolha, por “conhecimento pessoal ou informação fidedigna de autoridades locais, associações de classe ou de bairro, sindicatos, instituições de ensino em geral, universidades, repartições públicas, núcleos comunitários”.

O art. 448 do CPP especifica quem são impedidos de servir no mesmo conselho:

Art. 448. São impedidos de servir no mesmo Conselho: I – marido e mulher; II – ascendente e descendente; III – sogro e genro ou nora; IV – irmãos e cunhados, durante o cunhadio; V – tio e sobrinho; VI – padrasto, madrasta ou enteado. § 1o O mesmo impedimento ocorrerá em relação às pessoas

que mantenham união estável reconhecida como entidade familiar. § 2o

Aplicar-se-á aos jurados o disposto sobre os impedimentos, a suspeição e as incompatibilidades dos juízes togados. (BRASIL, 1941).

Nos moldes do art. 425, caput, do CPP, anualmente, o juiz presidente planejará a lista geral dos jurados, que abrangerá de 800 (oitocentos) a 1.500 (mil e quinhentos) jurados nas comarcas em que a população exceda um milhão de pessoas, de 300 (trezentos) a 700 (setecentos) nas comarcas que ultrapasse cem mil cidadãos e de 80 (oitenta) a 400 (quatrocentos) nas comarcas que tenham menos habitantes. Onde for necessário, segundo o art. 425, §1º do CPP: “Poderá haver alistamento de número maior de jurados e até mesmo a formação de lista de suplentes.” (LENZA, 2013).

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Para realizar o alistamento, o juiz-presidente, sem prejuízo da escolha por conhecimento pessoal, requisitará indicação de pessoas que reúnam condições para exercer a função de jurado às autoridades locais, às associações de classe e de bairro, às entidades associativas, às instituições de ensino, às universidades, aos sindicatos, às repartições públicas e a outros núcleos comunitários (art. 425, §2º).

Divulgada a listagem final, o magistrado decreta que os nomes dos jurados, com designação de seus cargos e endereços, sejam colocados em pequenos cartões idênticos, primeiramente examinados pelo Ministério Público, para após, permanecerem contidos em urna fechada a chave, sob a responsabilidade do magistrado (TOURINHO FILHO, 2013).

Por volta do décimo quinto e o décimo dias que precederem as reuniões habituais, procederá o juiz um sorteio de 25 (vinte e cinco) jurados. Esse sorteio será realizado em sessão pública e com anterior intimação da Ordem dos Advogados do Brasil, do Ministério Público e da Defensoria Pública, de acordo com os arts. 432 e 433 do CPP (LENZA, 2013).

Para Lenza (2013, p. 491), é relevante considerar que esses 25 (vinte e cinco) jurados são sorteados para integrarem “todos os julgamentos que ocorrerem em uma mesma reunião periódica do Tribunal do Júri, independentemente do número de sessões (julgamentos) previstos para realizarem-se”.

Onde se verificar a necessidade, será igualmente formada uma lista de jurados substitutos, na qual, sua elaboração levará em conta os mesmos requisitos estipulados na preparação da lista geral. Os jurados reservas são escolhidos em meio aos indivíduos que moram na sede do juízo ou nas suas redondezas, conforme o art. 425, §1º do CPP (TOURINHO FILHO, 2013).

Fernando da Costa Tourinho Filho (2013, p. 408-409), questiona:

Para que jurados suplentes? Embora a sessão do júri possa ser instalada com um mínimo de quinze jurados, é possível haja, para a mesma periódica, outros julgamentos em pauta, e, assim, urge completar o número legal de jurados, prevenindo-se o Juiz-Presidente de eventuais contratempos.

Compete ao Juiz-Presidente, após decretada aberta a sessão de julgamento, realizar o sorteio de sete jurados dentre os vinte e cinco convocados que irão compor o conselho de sentença (TOURINHO FILHO, 2013).

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Ao menos devem estar presentes no dia da sessão de julgamento quinze dos vinte e cinco jurados convocados (art. 463, CPP). Nesse caso, dos 15 (quinze) jurados presentes, retiram-se os sete que irão compor o conselho de sentença (NUCCI, 2013).

Requisitam-se 25 (vinte e cinco) titulares, caso não haja o quorum mínimo de 15 (quinze), no início das atividades, o Juiz-Presidente sorteará os jurados substitutos que forem preciso, determinando nova data para o julgamento (art. 464, CPP). De acordo com o art. 465 do CPP: “Os nomes dos suplentes serão consignados em ata, remetendo-se o expediente de convocação, com observância do disposto nos arts. 434 e 435 do CPP”. (NUCCI, 2013).

O art. 449 do CPP menciona que não poderá servir o jurado que:

Art. 449. [...]

I – tiver funcionado em julgamento anterior do mesmo processo, independentemente da causa determinante do julgamento posterior;

II – no caso do concurso de pessoas, houver integrado o Conselho de Sentença que julgou o outro acusado;

III – tiver manifestado prévia disposição para condenar ou absolver o acusado. (BRASIL, 1941).

Aliás, sobre o conteúdo do art. 449, inciso I, do CPP, foi editada a Súmula 206 do STF, que assim prevê: “É nulo o julgamento ulterior pelo júri com participação de jurado que funcionou em julgamento anterior do mesmo processo.” (BRASIL, 1964).

Realizadas tais considerações sobre a configuração do júri no Brasil, passar-se-á no próximo capítulo à análise dos princípios que norteiam o Tribunal do Júri na CRFB/88, bem como seu procedimento.

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3 OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS INSERTOS NA CRFB/88 QUE REGEM O TRIBUNAL DO JÚRI

O Tribunal do Júri na CRFB/88 constitui muito mais do que simples regra de competência, mas verdadeiro direito e garantia fundamental3. Tal instituto encontra-se previsto na Lei Maior, precisamente no art. 5º, inc. XXXVIII, e alíneas, as quais estabelecem princípios elementares ao exercício dessa garantia fundamental.

Assim, no presente capítulo, apresentar-se-ão as significações dos princípios do Tribunal do Júri, dispostos na CRFB/88, bem como as fases que compõem o procedimento de julgamento dos crimes afetos à mesma instituição. 3.1 PLENITUDE DA DEFESA

A CRFB/88, no seu art. 5º, inciso XXXVIII, alínea “a”, menciona que no Tribunal do Júri deve ser assegurada ao réu a plenitude de defesa.

Fernando da Costa Tourinho Filho (2013, p. 149), disserta que, apesar de em cada litígio criminal ser ao réu assegurada a ampla defesa, ainda assim, no prisma jurídico, a defesa plena é suprema em relação à ampla defesa.

Sobre o assunto, Guilherme de Souza Nucci (2008, p. 25), explana que:

Amplo é algo vasto, largo, copioso, enquanto pleno equivale a completo, perfeito, absoluto. Somente por esse lado já se pode visualizar a intencional diferenciação dos termos. E, ainda que não tenha sido proposital, ao menos foi providencial.

Nesse sentido, é o julgado do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais:

A Constituição da República assegura a todos os acusados a ampla defesa e os recursos a ela inerentes e, no caso do júri, vai além, assegurando a plenitude da defesa: art. 5º, XXXVIII – é reconhecida a instituição do júri,

3“Direitos são disposições declaratórias de poder sobre determinados bens e pessoas. Em alguns

casos representam diretamente os bens. São principais e visam a realização das pessoas, logo Direito é poder para realizar algo já que o ordenamento jurídico possibilita. Ex: Direito à Vida, Direito à Liberdade e Direito à Propriedade. Já, garantias, em sentido estrito, são os mecanismos de proteção e defesa dos Direitos. Garantia é a exigência que cada cidadão faz ao Poder Público para proteger seus Direitos, bem como o reconhecimento/existência de meios processuais adequados para essa finalidade. Ex:Habeas Corpus e Mandado de Segurança.” (RODHOLFO, 2009).

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com a organização que lhe der a lei, assegurados: a) a plenitude de defesa. (...) Primeiramente, é de extrema importância, nesta questão, estabelecermos a diferença entre plenitude de defesa e ampla defesa, ambas previstas constitucionalmente, pois, apesar de parecer mera repetição ou reforço hermenêutico por parte do constituinte, estes termos não são sinônimos (...). Fica clara a intenção do constituinte ao conceder ao réu, no júri, além da ampla defesa outorgada a todo e qualquer réu, em qualquer processo, cível, administrativo ou criminal, a plenitude de defesa, privilegiando-o em relação à acusação, pois ele é a parte mais fraca da relação. (AP 1.0155.03.004411-1,3.ª Câm. Crim., j.

02.05.2006, v. u., rel. Jane Silva). (grifou-se)

Dessa forma, considerando o princípio da plenitude da defesa e o desempenho da autodefesa, o Juiz-Presidente do Tribunal do Júri deve também acrescentar nos quesitos, o argumento mantido pelo réu, ainda que exista diferença entre os argumentos deste e as alegações da defesa técnica, sob pena de nulidade absoluta do júri (CAPEZ, 2010).

De outro lado, é imprescindível que o Juiz-Presidente fiscalize atentamente a competência do advogado na defesa do réu no procedimento do Tribunal do Júri. Caso o advogado não se manifeste adequadamente, abstendo-se de realizar interferências propícias, em momento adequado, defesa plena não existirá (NUCCI, 2013).

Rogério Sanches Cunha e Ronaldo Batista Pinto (2008, p. 149) aduzem que prevalece a plenitude da defesa em processos do Tribunal do Júri, que é mais que a ampla defesa garantida aos réus nos processos em geral. Dessa forma, admite-se no Tribunal do Júri o uso de alegação não jurídica, particularmente aos assuntos morais, religiosos e sociológicos. Contudo, esses fundamentos não seriam válidos caso o julgamento fosse declarado por um juiz togado.

3.2 SIGILO DAS VOTAÇÕES

Encontra-se na CRFB/88, em seu art. 5º, inciso XXXVIII, alínea “b”, o amparo ao sigilo das votações. Não se trata de sigilo do voto, compreendido como o papel pessoal posto dentro da urna pelo jurado, mencionando “sim” ou “não”, mas em sigilo da votação, que é a ação de votar. Deste modo, procura-se proteger a ocasião em que o jurado vota, ou seja, quando adiciona seu voto na urna, motivo pelo qual a sala especial é o local perfeito para isso (NUCCI, 2013).

Sobre o princípio do sigilo das votações, Guilherme de Souza Nucci (2008, p. 29), observa que o CPP estipula que, posteriormente aos esclarecimentos

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e análises dos quesitos em plenário, não existindo dúvidas a aclarar, segundo o art. 485, caput do CPP, “o Juiz-Presidente, os jurados, o Ministério Público, o assistente, o querelante, o defensor do acusado, o escrivão e o oficial de justiça dirigir-se-ão à sala especial a fim de ser procedida a votação”. E, conforme o art. 485, §1º do CPP, “na falta de sala especial, o Juiz-Presidente determinará que o público se retire, permanecendo somente as pessoas mencionadas no caput deste artigo”.

Existe um debate, que na atualidade, ao que parece, já se encontra ultrapassado pela maior parte da jurisprudência e da doutrina, quanto à constitucionalidade da sala especial para votação, qual seja, se esta ofenderia o princípio constitucional da publicidade, conhecido tanto no art. 93, IX, quanto no art. 5º, LX da CRFB/88. Acontece que a referida redação constitucional, nos dois artigos, relata ser permitido restringir a publicidade dos atos processuais em prol da proteção da intimidade, ou quando o interesse social ou público necessitarem (NUCCI, 2008).

O sigilo das votações é uma máxima que resulta da indispensabilidade de conservar os jurados fora de toda procedência de constrangimentos, embaraços ou coações, por meio da proteção da inviolabilidade do conteúdo de seu voto e da sala secreta para o procedimento de votação (LENZA, 2013).

Pedro Lenza (2013, p. 489), colaciona jurisprudência, afirmando que não existe nenhuma incongruência acerca do princípio do sigilo das votações e a imposição da publicidade dos julgamentos:

Tribunal do Júri. Sigilo das votações (art. 5º, XXXVIII, CF.) e publicidade dos julgamentos (art. 93, IX, CF.). Conflito aparente de normas. Distinção entre julgamento do Tribunal do Júri e decisão do Conselho de Jurados. Manutenção pelo sistema constitucional vigente do sigilo das votações, através de disposição específica. (STF – RE 140975 AgR/RJ – 2ª Turma –

Rel. Min. Paulo Brossad – DJ 21.08.1992 – p. 12.786). Edilson Mougenot Bonfim (2009, p. 496-497), esclarece que:

O veredicto dos jurados resulta das respostas dadas aos quesitos formulados pelo Juiz-Presidente. A votação será realizada em sala especial, denominada sala secreta (art. 485, caput), recebendo cada jurado pequenas cédulas feitas de papel opaco, contendo umas a palavra sim e outras a palavra não, a fim de que, secretamente, serem recolhidos os votos (art. 486). Durante a resposta aos quesitos, o oficial de justiça recolherá, em urnas separadas, as cédulas relativas aos votos e as que não forem utilizadas (art. 487).

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Registre-se que os votos dos jurados não devem ser conferidos por inteiro, mas apenas até chegar-se ao quarto voto no mesmo sentido. Isso porque se eventualmente existisse a conferência por inteiro dos votos dos jurados, comprovando sua unanimidade, ficaria rompido o sigilo das votações, já que, tal divulgaria que os sete jurados, de forma integral, realizaram idêntica votação. Por isso, quando ocorrer o cômputo do quarto voto igualilário, deve a votação dos quesitos ser concluída, visto que, são sete jurados, assim, não existiria meio de se modificar o rumo da votação desse quesito (CAPEZ, 2010).

Examina Edilson Mougenot Bonfim (2009, p. 497), que o legislador busca envolver de profundo segredo o funcionamento da votação dos jurados, excepcionando o art. 93, IX, que dispõe sobre o princípio constitucional da publicidade dos atos processuais.

Efetivamente, sendo o julgamento realizado na presença do assistente de acusação, do advogado, do órgão acusatório, do magistrado togado e dos servidores do Judiciário, esse não se faz secreto (NUCCI, 2013).

Nucci entende que os benefícios da sala secreta são visíveis, já que possibilita que os jurados ouçam os esclarecimentos do magistrado togado, analisem o processo e votem, sem nenhuma pressão do público em geral (NUCCI, 2013).

3.3 SOBERANIA DOS VEREDICTOS

Dispõe a CRFB/88, em seu art. 5º, inciso XXXVIII, alínea “c”, que no Tribunal do Júri deve ser assegurada ao réu a soberania dos veredictos.

O princípio da soberania dos veredictos baseia-se na interdição de que órgãos jurisdicionais de instância superior modifiquem o julgado emitido pelo conselho de sentença do Tribunal do Júri, relativo à averiguação da condenação ou absolvição do réu (LENZA, 2013).

De acordo com o art. 593, §3º, inciso III, alínea “d”, do CPP, cabe apelação se a sentença for claramente adversa às provas do processo, porém, por esse mesmo motivo, somente poderá ser interposto apelação uma única vez. Assim não fosse, ocorreria a prorrogação inacabável dos julgamentos (NUCCI, 2008).

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Os veredictos do Tribunal do Júri são soberanos e não podem ser revistos, salvo quando manifestamente contrários à prova dos autos, remontando a garantia do art. 5.º, XXXVIII, c, da Constituição Federal ao célebre Buschel’s Case, de 1670, decidido pelas Cortes Inglesas. Não viola o princípio constitucional da soberania dos veredictos o comando de realização de novo julgamento pelo Tribunal do Júri, no caso de proferida decisão manifestamente contrária à prova dos autos. A avaliação, se o veredicto é manifestamente contrário às provas, cabe somente às Cortes de Apelação, já que os Tribunais Superiores resolvem questões de direito e não questões de fato e prova. (RHC 113314 AgR/SP, 1.ª T., rel. Rosa Weber, 11.09.2012,

m. v.).

Guilherme de Souza Nucci (2008, p. 32) reflete sobre o assunto:

E se o Júri errou? Vamos a algumas hipóteses: a) “errou” ao avaliar, à sua maneira, as provas exibidas em plenário pelas partes? No máximo, valendo-se do duplo grau de jurisdição, ocorrerá apelação e, provida esta, outro Conselho de Sentença promoverá a devida revisão do julgado anterior; b) “errou” porque não lhe foram oferecidas todas as provas, logo, existe prova inédita, o que tornaria indispensável outro julgamento? Basta que o tribunal, em apelação ou revisão criminal, remeta o caso a novo júri.

Quando analisamos na doutrina o princípio da soberania dos veredictos, em não raras vezes observamos comentários sobre o “caso dos irmãos Naves”.

Para Edilson Mougenot Bonfim (2009, p. 6), quando nos referimos à falha judiciária no Brasil, o que imediatamente vem à memória é o famoso acontecimento dos “irmãos Naves”, sucedido em Araguari/Minas Gerais, no vigor do Estado Novo. Esses dois irmãos foram denunciados pelo falecimento de um primo. Na realidade, este estava viajando para a Bolívia, ou seja, estava vivo. Nessa época, com a vigência do Decreto n. 167/38, afastava-se o princípio da soberania dos veredictos, podendo o Tribunal de Apelação modificar o veredicto proferido pelo júri, no mérito.

Importante ressaltar, que no referido caso, os réus, por duas vezes, foram absolvidos pelo Tribunal do Júri. Todavia, modificando o veredicto, o Tribunal de Apelação os condenou. Um dos réus faleceu na cadeia; já, o outro, continuava encarceirado quando seu primo surgiu, depois de anos, andando calmamente pelas ruas de Araguari/Minas Gerais. Assim, agiu com acerto o júri, “erraram os doutores do tribunal”. (BONFIM, 2009).

Não obstante, mesmo sob a ótica da CRFB/88, ao que parece, o princípio da soberania dos veredictos se afigura relativo, visto que, permite por instância superior, que a decisão seja invalidada, quando é decretada, todavia, a necesidade de realização de um novo júri. Assim, a revisão do julgamento ditado pelo júri não ofende tal princípio, posto que o conteúdo será avaliado novamente pelo conselho

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de sentença, sendo proibida mudança no mérito em segunda instância (SILVA, 2008).

No caso de revisão criminal, visando a absolvição do réu, condenado anteriormente pelo júri popular, não há mal em possibilitar ao Tribunal do Júri, por intermédio de novos jurados, reexaminar “a decisão condenatória com trânsito em julgado’”. Até porque, ampara-se o princípio da soberania dos veredictos, tendo em vista que a sentença final continuará sendo dos jurados, “cabendo ao tribunal popular a decisão de mérito, avaliando se houve ou não o mencionado erro judiciário”. (NUCCI, 2008).

De outro lado, a soberania dos veredictos é considerada absoluta nos casos em que os jurados votam conforme um dos argumentos expostos, existindo prova no processo. Da mesma forma, é absoluta quando o tribunal invalida o julgamento primário, decretando a realização de um novo júri, e ocorrendo nova absolvição, nesse secundário julgamento, em oposição às provas do processo, não será permitido novo recurso nesse mesmo diapasão (BARROS, 2009).

Nas ocorrências de delitos dolosos contra a vida, a CRFB/88 atribuiu ao Tribunal do Júri o julgamento final. Sobre a questão das revisões das decisões proferidas pelo júri popular, segundo Guilherme de Souza Nucci (2013, p. 50): “Quem pode garantir que, quando o Tribunal togado der provimento a uma revisão criminal, absolvendo o réu, está realizando a autêntica justiça?” Quem pode confirmar que a mais adequada análise da prova foi realizada pelos juízes togados e não pelos jurados? No Brasil, existe o Tribunal do Júri com supremacia para julgar ocorrências específicas. A resposta, então, será: não importa a sabedoria de qualquer juiz, mas o fato de que a escolha do povo imprescindivelmente tem de ser executada.

Os tribunais recursais não podem alterar, no mérito, as decisões soberanas dos jurados, assim como o Tribunal Eleitoral não pode decidir se os cidadãos escolheram mal ou bem o Governador, Prefeito ou Presidente da República. “Seria consagrar uma inversão de valores inaceitável. Soberania é termo forte e valoroso. Precisa ser respeitado na sua integralidade”. (NUCCI, 2013).

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3.4 COMPETÊNCIA PARA O JULGAMENTO DOS CRIMES DOLOSOS CONTRA A VIDA

Segundo o art. 5º, inciso XXXVIII, alínea “d”, da CRFB/88, “é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, sendo assegurada a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida”. (CALVO FILHO; SAWAYA, 2003, p. 50).

Um fator importante faz referência à alternativa pelos crimes dolosos contra a vida no âmbito do júri. Não há justificativa sistemática, psicológica ou ontológica, pelo contrário, foi uma escolha de política legislativa. Para assegurar que o Tribunal do Júri estivesse realmente em nosso país, um conjunto qualquer de delitos teria de ser o nomeado. Buscou-se apoio da Constituição de 1946, que introduziu os delitos dolosos contra a vida como sendo da atribuição do júri. E tal escolha, naquela oportunidade, “deveu-se à vontade dos coronéis do sertão, que, mandando matar seus oponentes, desejavam o julgamento dos seus mandatários no Tribunal do povo”. Acontecendo dessa maneira, seria forte a pressão pela absolvição, acatando os desejos políticos da época e da região (NUCCI, 2008).

Enfatiza-se que, caso verificado o evento morte, não necessariamente o delito será caracterizado como sendo doloso contra a vida, pois, em algumas situações, o falecimento da vítima manifesta-se como uma consequência além da vontade do autor, e o acontecimento no todo, não é conceituado como sendo contra a vida. Assim sendo, se a objetividade jurídica predominante afetar outro bem, que não a vida, não será de atribuição do júri (MARQUES, 1997).

A propósito, o crime de latrocínio não é de competência do Tribunal do Júri, à luz da Súmula 603 do STF, que assim dispõe: “A competência para o processo e julgamento de latrocínio é do juiz singular e não do Tribunal do Júri.” (BRASIL, 1984).

O art. 74, §1º do CPP, em consonância com a Lei nº 263, de 23.2.1948, dispõe que “compete ao Tribunal do Júri o julgamento dos crimes previstos nos arts. 121, §§ 1º e 2º, 122, parágrafo único, 123, 124, 125, 126 e 127 do Código Penal, consumados ou tentados”. (BRASIL, 1941).

Assim, são delitos dolosos contra a vida, subordinados à decisão pelo Tribunal do Júri: a) homicídio doloso, simples, privilegiado ou qualificado; b)

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induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio; c) infanticídio; d) aborto, em todas as suas modalidades (BONFIM, 2009).

Observa-se que a redação constitucional aduz ser amparada a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida, mas não apenas estes. A intenção do constituinte foi muito evidente, posto que, “sem a fixação da competência mínima e deixando-se à lei ordinária a tarefa de estabelecê-la, seria bem provável que a instituição, na prática, desaparecesse do Brasil.” Foi o que ocorreu com alguns países, ao não consolidarem na Constituição, a competência do Tribunal do Júri (NUCCI, 2013).

Segundo decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais:

A competência do Tribunal do Júri é considerada “mínima”, pois a Constituição Federal de 1988 apenas assegurou ao Júri a competência para julgamento dos delitos dolosos contra a vida, não havendo proibição da ampliação do rol dos crimes que serão apreciados por este Tribunal por via de norma infraconstitucional. Só se licencia cassação do veredicto popular quando ele é escandaloso, arbitrário e sem qualquer sintonia com as provas dos autos. (AP 1.0024.08.229147-7/002/MG, 3.ª Câm., rel. Paulo Cézar

Dias, j. 05.07.2011, v.u.).

Para Guilherme de Souza Nucci (2008, p. 35), ademais, comprovando ser permitido que o Tribunal do Júri julgue outros crimes, que não apenas os dolosos contra a vida, localiza-se o campo dos delitos conexos. Exemplificando, é possível que os jurados resolvam absolver ou condenar o réu de um crime de roubo ou de estupro, bastando que o crime seja conexo ao delito doloso contra a vida. Assim sendo, caso a competência fosse única, “tal situação, corriqueira nos julgamentos ocorridos diariamente no Brasil, jamais se daria. Lembremos que os institutos da conexão e da continência são previstos no Código de Processo Penal, portanto, legislação ordinária”.

Apesar de reconhecer que a instituição do Tribunal do Júri constitui cláusula pétrea em nossa Lei Maior, Nucci (2008, p. 35) observa que: “A cláusula pétrea, no Direito brasileiro, impossível de ser mudada pelo Poder Constituinte Reformador (ou Derivado), não sofre nenhum abalo, caso a competência do júri seja ampliada, pois sua missão é impedir justamente o seu esvaziamento.”

Vicente Paulo e Marcelo Alexandrino (2008, p. 152) explanam não ser soberana a atribuição concedida ao Tribunal do Júri, por não abarcar os delitos dolosos contra a vida cometidos por possuidores de foro especial por privilégio de

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cargo, consoante determinado pela CRFB/88, eis que esses serão julgados originalmente por tribunais do Poder Judiciário. Hipoteticamente, não serão de competência do júri, o caso em que o Prefeito de um Município ou um integrante do Congresso Nacional tenha cometido um delito doloso contra a vida. O Prefeito será julgado pelo Tribunal de Justiça do seu Estado (art. 29, inciso X, da CRFB/88), e o constituinte do Congresso será julgado perante o STF, conforme art. 102, I, b, da CRFB/88. Excetuando-se os casos em que a CRFB/88 estabelece foro por prerrogativa de função, os crimes dolosos contra a vida serão levados ao júri popular.

Conforme a Súmula 721 do STF: “a competência constitucional do Tribunal do Júri prevalece sobre o foro por prerrogativa de função estabelecida pela Constituição Estadual”. (BRASIL, 2003). “A contrario sensu”, sendo estabelecido pela CRFB/88, o foro por prerrogativa de função, a competência para julgamento do ente que detiver tal privilégio, no caso de cometimento de crime doloso contra a vida, não será do Tribunal do Júri. Neste sentido, aliás, foi a decisão proferida pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro no habeas corpus n. 109.941/RJ, de relatoria do Ministro Gilson Dipp, da 5ª Turma, julgado em 02.12.2010.

Por outro lado, em conformidade com o art. 79, inciso II, do CPP: “A conexão e a continência importarão unidade de processo e julgamento, salvo no concurso entre a jurisdição comum e a do juízo de menores.” (BRASIL, 1941). Ou seja, os menores de 18 (dezoito) anos são julgados de acordo com a Lei 8069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente), por isso, ainda que haja conexão ou continência, as quais, em regra, importam a unidade de processo e julgamento, não serão submetidos ao Tribunal do Júri.

O art. 9º, parágrafo único, do Decreto Lei 1.001/69 (Código Penal Militar), dispõe: “Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos contra civil, serão da competência da justiça comum.” (BRASIL, 1969). De acordo com o referido artigo, os delitos dolosos contra a vida cometidos por militares em oposição aos civis, serão de atribuição da justiça comum.

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3.5 AS FASES QUE COMPÕEM O PROCEDIMENTO DO TRIBUNAL DO JÚRI Tasse (2008, p. 39), começa explanando que: “A lei 11.689/08 foi tímida no que tange à modernização do rito do Tribunal do Júri e manteve a tradicional estrutura brasileira bifásica.”

Messa (2014, p. 475), entende que o procedimento do Tribunal do Júri no processo penal pátrio é fragmentado em duas etapas, dentre os arts. 406 a 497 do CPP.

Pedro Lenza (2013, p. 496), explana que a fase inicial, intitulada judicium

accusationis ou sumário de culpa, começa: “com o recebimento da denúncia e

encerra-se com a preclusão da decisão de pronúncia. Tal etapa traduz atividade processual voltada para a formação de juízo de admissibilidade da acusação”.

A etapa final, qualificada como judicium causae ou juízo da causa, institui-se com as partes institui-sendo intimadas para designação das provas que objetivam realizar em plenário, encerrando com o trânsito em julgado da sentença proferida pelo júri. “Essa fase compreende uma etapa preparatória ao julgamento e o próprio julgamento do mérito da pretensão punitiva”. (LENZA, 2013).

Ensina Tourinho Filho (2013, p. 378), que: “a primeira fase encerra-se com a decisão de pronúncia; e a segunda, inicia-se e termina com o julgamento pelo Tribunal do Júri.” Na fase primária, a acusação busca comprovar a ocorrência do delito doloso contra a vida, tentado ou consumado, e que o acusado foi quem o praticou. Dessa forma, ressalta-se que a sentença de pronúncia, a qual conclui essa fase inicial, restringir-se-á a decidir pela procedência do jus accusationis do Estado.

Já, para Guilherme de Souza Nucci (2008, p. 46), o método do Tribunal do Júri é especial e trifásico, eis que possui especificidades em relação ao procedimento comum, e também porque atravessa três fases bem definidas, quais sejam: Sumário de culpa ou instrução preliminar, preparação dos autos para o julgamento em plenário, e finalmente, julgamento popular.

Dessa forma, ficamos com o posicionamento de Guilherme de Souza Nucci, para quem o júri atravessa três fases, cada qual bem delineada no CPP, com a sua devida relevância.

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3.5.1 Instrução preliminar

A instrução preliminar, em juízo, é a etapa inicial. Apresentada a queixa ou a denúncia, que normalmente são embasadas em inquérito policial, existindo provas satisfatórias da materialidade do delito e evidências consideráveis de autoria, o juiz deve admitir a peça acusatória, determinando a citação do acusado para resposta redigida, no prazo de 10 (dez) dias. Caso haja citação por edital, conta-se esse mesmo prazo da data da apresentação pessoal do réu ou de seu advogado. Caso não existam provas suficientes da materialidade do crime e indicíos suficientes de autoria, o juiz pode, liminarmente, não acolher a denúncia ou queixa (NUCCI, 2008).

Lima (2012, p. 21), conforme anteriormente referido, explana que: “o juiz, ao receber a denúncia ou a queixa, ordenará a citação do acusado para responder a acusação, por escrito, no prazo de dez dias.”

Poderá o réu, na resposta, apresentar esclarecimentos e documentos, impugnar preliminares e argumentar tudo que seja vantajoso às suas alegações, descrever as provas solicitadas e arrolar testemunhas, não superior a oito, qualificando-as e solicitando sua intimação, no momento que preciso for. O juiz designará um advogado para apresentar a resposta no prazo máximo de dez dias, conferindo-lhe vista do processo, caso tal defesa escrita não seja oferecida no prazo legal (LIMA, 2012).

Alega Tourinho Filho (2013, p. 379), que: “se na ‘resposta’ houver preliminares e juntada de documentos, o juiz determinará a abertura de vista ao acusador (Ministério Público ou querelante) para que sobre eles se manifeste em cinco dias.”

Não existindo imprevistos, o juiz determinará que sejam efetuadas as providências exigidas e, designará audiência para a oitiva da vítima (sendo possível), das testemunhas, e do acusado, no prazo de dez dias (TOURINHO FILHO, 2013).

Serão ouvidos em audiência una, respectivamente, a vítima, as testemunhas alistadas pela acusação e defesa, peritos em que a ouvida tenha sido concedida pelo magistrado, acareações e verificação de coisas ou pessoas, interrogatório do réu e, ao final, chega-se aos debates orais, à luz do art. 411 do CPP (LENZA, 2013).

Referências

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