• Nenhum resultado encontrado

SOBERANIA DOS VEREDICTOS

No documento Tribunal do júri (páginas 32-35)

Dispõe a CRFB/88, em seu art. 5º, inciso XXXVIII, alínea “c”, que no Tribunal do Júri deve ser assegurada ao réu a soberania dos veredictos.

O princípio da soberania dos veredictos baseia-se na interdição de que órgãos jurisdicionais de instância superior modifiquem o julgado emitido pelo conselho de sentença do Tribunal do Júri, relativo à averiguação da condenação ou absolvição do réu (LENZA, 2013).

De acordo com o art. 593, §3º, inciso III, alínea “d”, do CPP, cabe apelação se a sentença for claramente adversa às provas do processo, porém, por esse mesmo motivo, somente poderá ser interposto apelação uma única vez. Assim não fosse, ocorreria a prorrogação inacabável dos julgamentos (NUCCI, 2008).

Os veredictos do Tribunal do Júri são soberanos e não podem ser revistos, salvo quando manifestamente contrários à prova dos autos, remontando a garantia do art. 5.º, XXXVIII, c, da Constituição Federal ao célebre Buschel’s Case, de 1670, decidido pelas Cortes Inglesas. Não viola o princípio constitucional da soberania dos veredictos o comando de realização de novo julgamento pelo Tribunal do Júri, no caso de proferida decisão manifestamente contrária à prova dos autos. A avaliação, se o veredicto é manifestamente contrário às provas, cabe somente às Cortes de Apelação, já que os Tribunais Superiores resolvem questões de direito e não questões de fato e prova. (RHC 113314 AgR/SP, 1.ª T., rel. Rosa Weber, 11.09.2012,

m. v.).

Guilherme de Souza Nucci (2008, p. 32) reflete sobre o assunto:

E se o Júri errou? Vamos a algumas hipóteses: a) “errou” ao avaliar, à sua maneira, as provas exibidas em plenário pelas partes? No máximo, valendo- se do duplo grau de jurisdição, ocorrerá apelação e, provida esta, outro Conselho de Sentença promoverá a devida revisão do julgado anterior; b) “errou” porque não lhe foram oferecidas todas as provas, logo, existe prova inédita, o que tornaria indispensável outro julgamento? Basta que o tribunal, em apelação ou revisão criminal, remeta o caso a novo júri.

Quando analisamos na doutrina o princípio da soberania dos veredictos, em não raras vezes observamos comentários sobre o “caso dos irmãos Naves”.

Para Edilson Mougenot Bonfim (2009, p. 6), quando nos referimos à falha judiciária no Brasil, o que imediatamente vem à memória é o famoso acontecimento dos “irmãos Naves”, sucedido em Araguari/Minas Gerais, no vigor do Estado Novo. Esses dois irmãos foram denunciados pelo falecimento de um primo. Na realidade, este estava viajando para a Bolívia, ou seja, estava vivo. Nessa época, com a vigência do Decreto n. 167/38, afastava-se o princípio da soberania dos veredictos, podendo o Tribunal de Apelação modificar o veredicto proferido pelo júri, no mérito.

Importante ressaltar, que no referido caso, os réus, por duas vezes, foram absolvidos pelo Tribunal do Júri. Todavia, modificando o veredicto, o Tribunal de Apelação os condenou. Um dos réus faleceu na cadeia; já, o outro, continuava encarceirado quando seu primo surgiu, depois de anos, andando calmamente pelas ruas de Araguari/Minas Gerais. Assim, agiu com acerto o júri, “erraram os doutores do tribunal”. (BONFIM, 2009).

Não obstante, mesmo sob a ótica da CRFB/88, ao que parece, o princípio da soberania dos veredictos se afigura relativo, visto que, permite por instância superior, que a decisão seja invalidada, quando é decretada, todavia, a necesidade de realização de um novo júri. Assim, a revisão do julgamento ditado pelo júri não ofende tal princípio, posto que o conteúdo será avaliado novamente pelo conselho

de sentença, sendo proibida mudança no mérito em segunda instância (SILVA, 2008).

No caso de revisão criminal, visando a absolvição do réu, condenado anteriormente pelo júri popular, não há mal em possibilitar ao Tribunal do Júri, por intermédio de novos jurados, reexaminar “a decisão condenatória com trânsito em julgado’”. Até porque, ampara-se o princípio da soberania dos veredictos, tendo em vista que a sentença final continuará sendo dos jurados, “cabendo ao tribunal popular a decisão de mérito, avaliando se houve ou não o mencionado erro judiciário”. (NUCCI, 2008).

De outro lado, a soberania dos veredictos é considerada absoluta nos casos em que os jurados votam conforme um dos argumentos expostos, existindo prova no processo. Da mesma forma, é absoluta quando o tribunal invalida o julgamento primário, decretando a realização de um novo júri, e ocorrendo nova absolvição, nesse secundário julgamento, em oposição às provas do processo, não será permitido novo recurso nesse mesmo diapasão (BARROS, 2009).

Nas ocorrências de delitos dolosos contra a vida, a CRFB/88 atribuiu ao Tribunal do Júri o julgamento final. Sobre a questão das revisões das decisões proferidas pelo júri popular, segundo Guilherme de Souza Nucci (2013, p. 50): “Quem pode garantir que, quando o Tribunal togado der provimento a uma revisão criminal, absolvendo o réu, está realizando a autêntica justiça?” Quem pode confirmar que a mais adequada análise da prova foi realizada pelos juízes togados e não pelos jurados? No Brasil, existe o Tribunal do Júri com supremacia para julgar ocorrências específicas. A resposta, então, será: não importa a sabedoria de qualquer juiz, mas o fato de que a escolha do povo imprescindivelmente tem de ser executada.

Os tribunais recursais não podem alterar, no mérito, as decisões soberanas dos jurados, assim como o Tribunal Eleitoral não pode decidir se os cidadãos escolheram mal ou bem o Governador, Prefeito ou Presidente da República. “Seria consagrar uma inversão de valores inaceitável. Soberania é termo forte e valoroso. Precisa ser respeitado na sua integralidade”. (NUCCI, 2013).

3.4 COMPETÊNCIA PARA O JULGAMENTO DOS CRIMES DOLOSOS CONTRA A

No documento Tribunal do júri (páginas 32-35)

Documentos relacionados