XVI ERIC – (ISSN 2526-4230)
XVI ERIC – (ISSN 2526-4230)
A RECIPROCIDADE NA OBRIGAÇÃO ALIMENTAR ENTRE PAIS E FILHOS
RECIPROCITY IN THE OBLIGATION FEED OF PARENTS AND CHILDREN
Autor: Bruno Gustavo Rodrigues1
Orientador: Prof.ª Me. Heloisa Ap. Sobreiro2
RESUMO: O presente artigo tem como objetivo analisar o instituto dos alimentos buscando fazer uma análise na reciprocidade entre pais e filhos, trazendo a baila análises juntamente com a relativização dos alimentos aliados com os princípios da dignidade da pessoa humana, da solidariedade e da reciprocidade. Assim, será abordado à origem, conceito e natureza dos alimentos, bem como a obrigação alimentar entre pais e filhos, vice e versa, além de trazer exemplos na obrigação de filhos de pagar os alimentos ou não. E por último, as causas de cessamento da obrigação alimentar que são aplicados a ambos. Diante disso, através das disposições legais, doutrinas, jurisprudências e analogias o trabalho demostrará a procedência na reciprocidade alimentar entre ascendentes e descendentes.
Palavras-chave: Alimentos. Reciprocidade. Pagamento.
ABSTRACT: This article aims to analyze the institute of food seeking to make an analysis on the reciprocity between parents and children, bringing up the analysis together with the relativization of foods allied with the principles of human dignity, solidarity and reciprocity. Thus, it will be addressed the origin, concept and nature of food, as well as the obligation to feed between parents and children, vice versa, in addition to bringing examples of the obligation of children to pay for food or not. And finally, the causes of the cessation of the obligation to feed that are applied to both. Therefore, through the legal provisions, doctrines, jurisprudence and analogies, the work will demonstrate the origin in the food reciprocity between ancestors and descendants.
Keywords: Foods. Reciprocity. Payment.
INTRODUÇÃO
Os alimentos formam um instituto muito importante dentro do Direito de Família e por decorrência do Código Civil de 2002, justamente porque a execução de pagamento é de fundamental necessidade para todos aqueles que necessitam
1 Graduando do Curso de Direito da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Mandaguari, turma
2020
desse tipo de prestação. Salianta-se que o mesmo é de extrema importância para o desenvolvimento do sujeito, do desenvolvimento da vida e da integridade da pessoa humana. Nesse sentido, tal proteção encontra respaldo na Constituição Federal de 1988 através do art. 1°, incisso III que reforça o caráter da dignidade.
Como mencionado os valores de maior proteção são à vida e a dignidade da pessoa humana, tanto é que possuem um grande respaldo da legislação brasileira, pois justamente não faz sentido a tutela de outros bens jurídicos quando estes forem prejudicados. É nesse sentido que ocorre a importância do presente trabalho, visto que o mesmo busca determinar a prestação do pagamento de alimentos reciprocos entre pais e filhos, ou seja, não elencando apenas a mais comum ação que é o pai pagar ao filho, mas também inverter os polos, detectar a capacidade do antecessor também receber quando esteja em papel de polo mais vulnerável.
Portanto, a sobreviência é um direito constitucional resguardado pela Carta Maior e devendo ser protegido para resguardar a dignidade do sujeito; nesse diapazão os alimentos é o meio indispensável para a subsistência de qualquer ente que necessite de ajuda, ou seja, para aqueles que não conseguem se manter sozinhos, tanto por questões como incapacidade, idade, doenças, dentre tantos outros fatores.
Assim sendo, o problema do presente trabalho é abordar qual é a eficácia dos alimentos na reciprocidade de pagamento entre pais e filhos? Qual a sua abrangência para a subsistência de todos aqueles que necessitam de apoio financeiro e moral? Justamente, porque embora se trate muitas vezes de prestação pecuniária, o mesmo também possui valor ético-social.
Diante disso, o presente trabalho tem como objetivo geral tratar sobre a obrigação de alimentos entre pais e filhos com base no ordenamento jurídico brasileiro, levando principalmente em consideração os princípios basilares como o direito à vida, à dignidade da pessoa humana e o da solidariedade. Já os objetivos específicos são abordar os alimentos; sua natureza jurídica e evolução; a obrigação alimentar dentro do ordenamento jurídico, bem como a recipricidade de pagamento entre pais e filhos.
Ou seja, o presente trabalho pretende trazer a baila o instituito dos alimentos no ordenamento jurídico brasileiro para demonstrar a sua eficácia, e seu
imprescindível valor; buscando determinar a possibilidade do pagamento recíproco entre os entes parentais.
PRIMEIRO CAPÍTULO
A ORIGEM E EVOLUÇÃO DOS ALIMENTOS
Para entender a questão dos alimentos é imprescindível analisar que dentro do ordenamento jurídico brasileiro existem bens que se sobrepõem uns aos outros, como é o caso do direito à vida e à dignidade da pessoa humana, justamente porque são bens considerados indispensáveis na manutenção de qualquer relação, de modo que sem a proteção dos respectivos bens quaisquer outros tornam-se dispensáveis. Nesse sentido, acerca dos alimentos Venosa (2006, p. 375) ensina que "desde os seus nascimentos até a sua morte, necessita de amparo de seus semehanttes e de bens especiais ou necessários para a sobrevivência".
Assim sendo, o instituto dos alimentos decorre através do surgimento da vida, e por consequência o mesmo deve ser pago de acordo com a reafirmação da dignidade da pessoa humana. Desta forma, tais bens jurídicos protegidos e tutelados pela Constituição Federal de 1988 estão atrelados axiologicamente aos alimentos. Maria Berenice Dias determina acerca dos determinados bens e pagamentos:
Todos têm direito de viver, e viver com dignidade. Surge, desse modo o direito de alimentos como princípio da preservação da dignidade humana (CF, 1°, III). Por isso os alimentos têm a natureza de direito de personalidade, pois asseguram a inviolabilidade do direito à vida, à integridade física. Inclusive, foram inseridos entre os direitos sociais (CF, 6°). Depois dos cônjuges e companheiros, são os parentes os primeiros convocados a auxiliar aqueles que não têm condições de subsistir por seus próprios meios (2013, p. 531).
Portanto, fica evidente de que tal direito aos alimentos se trata de um meio de garantir o direito a integridade física de todos aqueles que necessitem, salientando também a perpetuação dos outros bens supramencionados. Nesse diapazão, garantir os alimentos é alimentar a perpetuação da vida do polo que mais necessita,
seja temporário ou atemporal. Acerca do direito constitucional dos alimentos, Rodrigo da Cunha Pereira dispõe:
Em consonância com as diretrizes constitucionais que determinam a prevalência de uma vida digna à pessoa humana, os alimentos se consubstanciam em um instituto de direito de família que visa dar suporte material a quem não tem meios de arcar com a própria subsistência. Relaciona-se não apenas ao direito à vida e à integridade física da pessoa, mas, principalmente, à realização da Dignidade Humana, proporcionando ao necessitado condições materiais de manter sua existência. Seu conteúdo está expressamente atrelado à tutela da pessoa e à satisfação de suas necessidades fundamentais (1997, p. 3).
Diante disso, evidenciado fica de que o Direito de Família é um instituto fundamental para o desenvolvimento da sociedade como um todo, e sendo assim os alimentos encontram força e proteção através da Carta Maior brasileira consignada através de todo seu texto, principalmente no art. 1°, inciso III, e nos direitos sociais, que são basilares da nossa constituição; uma vez que o objetivo central é a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, na busca da diminuição das desigualdades.
Ou seja, o sujeito de direito somente terá uma vida digna (qualidade de vida) quando tiver pelo menos o mínimo do essencial para sobreviver, tanto em questões alimentícias, quanto social, quanto psicologicamente falando. Justamente por isso, o nobre constituinte buscou dar ênfase aos alimentos.
CONCEITO
De acordo com Yussef Said Cahali (1999, p. 16) "constituem os alimentos uma modalidade de assistência imposta por lei, de ministrar os recursos necessários à sua subsistência, à conservação da vida tanto física como moral e social do indivíduo". Assim, a obrigação alimentar vem a ser prestações de manutenção de garantia da subsistência da vida, e que a contribuição deve ser garantida por alguém concernente a outrem.
Ressalta-se que a lei não determina uma conceituação no que diz respeito aos alimentos, no entanto a doutrina e entendimento de vários juristas está consolidado aceca do mesmo. Nesse sentido, Orlando Gomes assevera:
Alimentos são prestações para satisfação das necessidades vitais de quem não pode provê-as por si. A expressão designa medidas diversas. Ora significa o que é estritamente necessário à vida de uma pessoa, compreendendo, tão somente, a alimentação, a cura, o vestuário e a habilitação, ora abrange outras necessidades, compreendidas as intelectuais e morais, variando conforme a posição social da pessoa necessidade (1999, p. 427).
Importante destacar que os excelsos autores como Carvalho (2009), Rosenvald (2010) e Gonçalves (2014), além de tantos outros destacam o conceito mencionado acima como referência no que tange ao instituto dos alimentos.
Destaca-se que os alimentos não é somente para o pagamento do conhecido como "o básico", mas, também, deve sustentar toda a questão da cultura, do lazer, remédios, educação, vestuário, dentre tantos outros fatores que muitas vezes são desconhecidos de uma grande parcela da sociedade seja por falta de informação ou de mera ignorância.
Ainda no que tange ao conceito de alimentos Carvalho elucida de forma claríssima:
(...) é a prestação fornecidade a uma pessoa, em dinheiro ou em espécie, para que possa atender às necessidades de sobrevivência, tratando-se não só de sustento, como também de vestuário, habitação, assistência médica em caso de doença, enfim, de todo o necessário para atender às necessidades da vida e, em se tratando de criança, abrange o qe for preciso para sua instrução (2009, p. 389).
Desta maneira, fica estabelecido que alimentos é tudo aquilo que é fundamental para à vida, que traga desenvolvimento sadio à integridade da vida, bem como do contexto social e psicológico. Importante salientar que a respectiva obrigação encontra respaldo no princípio da solidariedade, de maneira que acolhe a família. Lisboa nesse sentido traz seu respaldo:
Consagrou-se a solidariedade social como objetivo da República Federativa do Brasil e da sociedade civil, nas relações jurídicas. Conjugando-se essa finalidade com a afirmação constitucional segundo a qual a família é a base da sociedade e tem proteção especial do Estado, torna-se clara a conclusão segundo a qual o princípio da solidariedade social abrange a solidariedade familiar (2006, p. 59).
Assim, fixa-se a solidariedade mútua entre os sujeitos, que embora aja uma regulamentação legal de alimentos, ambos "deveriam" ajudar-se nos momentos de dificuldades. De modo, que deve prevalecer o respeito, a afeição, que por consequência indireta está respeitando a dignidade da pessoa humana, a moral daquele que necessita do auxílio.
Acerca dos valores como respeito e afeição Lisboa destaca:
No seu sentido lato, a afeição e o respeito possuem, conforme definido, um sentido diferente. Não são propriamente critérios jurídicos a serem utilizados para a fundamentação de solução jurídica dada a um problema familiar. São, na verdade, elementos integrantes do princípio da solidariedade familiar, que passou a orientar as relações entre os membros das entidades familiares e entre parentes a partir da Constituição de 1988 (2006, p. 60).
Traz a tona que a solidariedade deveria nortear todo o processo de pagamento de alimentos, levando em conta o respeito entre as partes, entretanto muitas vezes a pessoa que paga os alimentos o faz de forma mecânica e fria, não levando em conta nenhum sentimento de apreço, ou qualquer coisa do tipo. Apartir de casos assim, a única maneira de resolver o conflito é realmente pelo modo legal.
Nesse contexto, fica comprovado que os alimentos são o pagamento de recurso essencial para a manutenção da vida e da integridade do alimentando, desde coisas de caráter básico, até coisas como lazer e cultura.
NATUREZA JURÍDICA
A natureza jurídica dos alimentos está vinculada na origem da obrigação, de prestar pagamento de alimentos para a manutenção da vida de outrem. Assim sendo, dentro do direito de família responsabilidade do pagamento está ligeiramente ligado na questão do poder de família, ou seja, do parentesco, presente no fim do casamento e/ou de união estável.
Segundo Maria Berenice Dias a obrigação de alimentos é derivado do poder familiar, de modo que o ente deve dar todo suporte, visto que dentro do instituto do casamento e/ou da união estável existe a responsabilidade de assistência mútua, ou seja, a reciprocidade na prestação de ajuda. Desta forma, Dias ensina que:
A natureza jurídica está ligada à origem da obrigação. O dever dos pais de sustentar os filhos deriva do poder familiar. A Constituição Federal reconhece a obrigação dos pais de ajudar, criar e educar os filhos menores (CF, 229°). A Constituição também afirma que os maiores devem auxiliar e amparar os pais na velhice, carência e enfermidade. É obrigação alimentar que repousa na solidariedade familiar entre os parentes em linha reta, e que se estende infinitamente (...). O encargo alimentar decorrente do casamento e da união estável tem origem no dever de mútua assistência, que existe durante a convivência e persiste mesmo depois de rompida a união (2013, p. 532).
Ainda sobre a natureza jurídica existem três correntes doutrinárias que dispõem acerca dessa questão, cada uma delas possuem critérios e princípios variados. Sendo assim, a primeira corrente doutrinária determina que a obrigação de alimentos trata-se de um direito pessoal extrapatrimonial, assim o mesmo visa a manutenção da dignidade humana. Resta analisar que nessa corrente a pessoa alimentada não possui interesse econômico, em enriquecer, mas sim ter uma vida digna, ou seja, tutelar seu direito personalíssimo. Dentre tantos autores que defendem essa tese tem-se Rosenvald, Chaves e Dias.
Já a segunda corrente doutrinária defende o oposto. Ou seja, defende que o direito aos alimentos é claramente um direito patrimonial, principalmente porque aqueles que seguem essa tese decorrem que esse direito é expressamente ligado ao valor econômico; assim sendo, de acumulo de riqueza, de dinheiro.
E por último, tem-se a terceira corrente doutrinária que possui uma visão mista, pois junta as duas primeiras correntes, sendo que define que a natureza jurídica da obrigação de alimentos é um misto, contendo um direito patrimonial e de caráter pessoal. Dentre tantos autores, que adotam essa corrente, pode-se citar Maria Helena Diniz, Carlos Roberto Gonçalves, bem como Orlando Gomes.
Destaca-se que a corrente mais aceita, a majoritária é a terceira e última corrente, a mista. Orlando Gomes destaca:
Não se pode negar a qualidade econômica da prestação própria da obrigação alimentar, pois consiste no pagamento periódico, de soma de dinheiro no fornecimento de víveres, cura e roupas. Apresenta-se, consequentemente, como uma relação patrimonial de crédito-débito; há um credor que pode exigir de determinado devedor uma prestação econômica (1999, p. 429).
Portanto, embora o alimento não vise aumentar o patrimônio do alimentado, a referida prestação pode impedir que o alimentando tenha seu patrimônio diminuído ou dilapidado. Contudo, vale ressaltar que os alimentos possuem caráter social, moral e ético, justamente porque presta auxílio à parte mais vulnerável, em razão do principio da solidariedade e da mútua assistência. Ainda, podemos concluir que a natureza jurídica dos alimentos tem caráter patrimonial e de finalidade pessoal, sendo considerada em regra uma norma inderrogável.
SEGUNDO CAPÍTULO
A obrigação alimentar recíproca tem entrado em voga nos últimos tempos, justamente diante da necessidade de alguns membros da família não conseguirem sobreviver pelo sustento próprio. Salienta-se que não existe uma norma reguladora específica tratando desse assunto, porém isso não quer dizer que as pessoas estejam desprotegidas, visto que existe diversas decisões acerca da reciprocidade alimentar.
Desta forma, destaca o Código Cívil que pode os parentes pedir alimentos para conseguir sobreviver, de modo que dispõe o art. 1.694, do CC:
Art. 1.694. Podem os parentes, os cônjuges ou companheiros pedir uns aos outros os alimentos de que necessitam para viver de modo compatível com a sua condição social, inclusive para atender às necessidades de sua educação.
§1°. Os alimentos devem ser fixados na proporção das necessidades do reclamante e dos recursos da pessoa obrigada;
§2°. Os alimentos serão apenas os indispensáveis à subsistência, quando a situação de necessidade resultar de culpa de quem os pleiteia (CC 2002).
De maneira, que a pessoa não conseguindo subsistir a própria mantença, poderá pleitear alimentos, ainda mais quando a culpa na situação advir de outrem. Um ponto importante é destacar que embora a palavra "alimentos" ligue espontaneamente num entendimento de que seja "somente comida", os alimentos são bem mais amplos, estando ligados ao conceito intelectual, assim sendo, podendo ser inclusos como vestimento, remédios, educação, como já supramencionados.
Nesse sentido, o caso mais comum dentro do Direito são os pais pagarem a prestação de alimentos para os filhos, contudo quando os pais não são autosuficientes e os filhos já são maiores e responsáveis e possuem condições os mesmos devem arcar com os custos dos alimentos dos pais. Assim, no mesmo sentido o art. 1.695 e seguintes do Código Cívil esclarece:
Art. 1.695. São devidos os alimentos quando quem os pretende não tem bens suficientes, nem podem prover, pelo seu trabalho, à próprio mantença, e aquele, de quem se reclamam, pode fornecê-lo, sem desfalque do necessário ao seu sustento. Art. 1.696. O direito à prestação de alimentos é recíproco entre pais e filhos, e extensivo a todos os ascendentes, recaindo a obrigação nos mais próximos em grau, ns em falta de outros. Art. 1.697. Na falta de ascendentes cabe a obrigação aos descentes, guardada a ordem de sucessão e, faltando estes, aos irmãos, assim germanos como unilaterais.
Art. 1.698. Se o parente, que deve alimentos em primeiro lugar, não estiver em condições de suportar totalmente o encargo, serão chamados a concorrer os de grau imediato; sendo várias as pessoas obrigadas a prestar alimentos, todas devem concorrer na proporção dos respectivos recursos, e, intentada ação contra uma delas, poderão as demais ser chamadas a integrar a lide (CC, 2002).
Ou seja, há o pagamento a quem realmente necessita. Não havendo filhos, a obrigação recai sobre os netos, assim se perpetuando a obrigação, de acordo com a ordem de sucessão. Desta feita, Daniela Anderson Rodrigues elucida:
Na falta de ascendentes a obrigação recai nos descendentes, quais sejam: os filhos e netos, uns na falta ou impossibilidade dos outros. Na linha colateral, de acordo com a previsão do art. 1.697 do Código Civil (art. 1.697. Na falta dos ascendentes cabe à obrigação aos descendentes, guardada à ordem de sucessão e, faltando estes, aos irmãos, assim germanos como unilaterais, serão chamados os irmãos, mas, somente na ausência ou impossibilidade dos parentes em linha reta (2017, p. 39).
Como já demonstrado e evidenciado a obrigação alimentar é devida para aquelas pessoas que demonstram necessidades, esteja envolvida, ou seja, em torno do princípio da solidariedade e da dignidade humana, tendo em vista que todas as pessoas possuem direito a uma vida digna; restando necessário o mínimo para o seu sustento. Então, diante do fato de que boa parcela da população brasileira tem
envelhecido e que a tendência para os próximos anos são maiores a quantidade de pessoas idosas, a problemática da reciprocidade alimentar está em voga, e nesse ponto é extremamente válida a obrigação de prestar alimentos em face dos pais. Portanto, trata-se de uma obrigação de mão dupla, porém comumente mais aos filhos.
Vale salientar que o Estado brasileiro embora devesse, não possui condições para suprir as demandas de todos aqueles que necessitam, assim sendo ele determina a prestação das pessoas mais próximas, e como mencionado acima tal afirmação na obrigação de prestar alimentos está ligada a dignidade da pessoa humana consignada através do art. 1°, inciso III da Constituição Federal, de modo que a dignidade da pessoa que necessita de ajuda não seja violada, exige-se o mínimo para a manutenção moral, social e psicológica da pessoa.
Nesse sentido Maria Berenice Dias evoca:
Um ponto a ser destacado é que o dever de solidariedade é um dever de mão dupla, ou seja, para mereço é necessário ser solidário. Para o objeto desde estudo, vale ressaltar-se que seguindo esta premissa, o direito de solicitar a prestação de alimentos está diretamente ligado ao pretérito do requerente (2011, p. 518).
Outro ponto de extrema importância é que aquele que agiu com desonra, que abandou o seu poder familiar, que utilizou de mecanismos de violência contra os filhos podem ter seus pedidos pleiteados negados. Justamente porque segundo Greco (2012, p. 764) cabe aos pais "cuidar de seus filhos até que atinjam a maioridade (civil e penal) aos 18 (anos), ou que, por algum motivo, sejam inaptos para o trabalho, embora já sendo maiores". Assim sendo, havendo o abandono ou qualquer causa de maus tratos, podem resultar no não direito aos alimentos. Salienta-se que muitos tribunais tem decido dessa forma.
Importante trazer a baila decisão do Egrégio Tribunal de Justiça de Santa Catarina que nesse contexto relativizou a reciprocidade, destaca-se:
DIREITO CIVIL - FAMÍLIA - ALIMENTOS - PEDIDO FORMULADO PELO PAI CONTRA O FILHO MAIOR DE IDADE - IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO INICIAL - INCONFORMISMO - NECESSIDADE DEMONSTRADA - AFASTAMENTO - POSSIBILIDADE FINANCEIRA DO
ALIMENTANTE - INCOMPROVAÇÃO - ALIMENTANTE RECÉM FORMADO - AUSÊNCIA DE CONDIÇÃO FINANCEIRA - OBRIGAÇÃO ALIMENTÍCIA VINCULADA AO PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE - INADIMPLEMENTO OBRIGACIONAL PATERNO DECORRENTE DO PODER FAMILIAR - SENTENÇA MANTIDA - RECURSO IMPROVIDO. O pedido alimentar formulado pelo ascendente ao descendente com fundamento no art. 1.696 do CC exige demonstração inconcussa da necessidade alimentar e da capacidade financeira do alimentante de prestar auxílio ao genitor. Em face do caráter solidário da obrigação alimentar, inacolhe-se o pleito formulado por genitor contra filho maior de idade se este não recebeu por ocasião de sua menoridade os cuidados paternos inerentes ao pátrio poder a que tinha direito. (TJSC, Apelação Cível n. 2013.035033-8, de Camboriú, rel. Des. Monteiro Rocha, Segunda Câmara de Direito Civil, j. 10-10-2013).
De modo, que conforme a decisão mencionada acima o genitor não possui direito aos alimentos, justamente porque o mesmo não cumpriu com o seu poder pátrio. Assim, conforme dispõe Dias (2016, p. 552) "o pai que deixou de cumprir com os deveres inerentes ao poder familiar não pode invocar a reciprocidade da obrigação alimentar para pleitear alimentos dos filhos". Ou seja, aquele que não cumpriu com suas obrigações familiares quando os filhos, seus descentes eram menores de idade não possuem o direito de reclamar alimentos, pelo menos nos casos comuns.
No mesmo sentido expõe Maria Berenice Dias em face de um recurso de apelação do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, a mesma afirma ser descabido o pedido.
Ementa: ALIMENTOS. SOLIDARIEDADE FAMILIAR. DESCUMPRIMENTO DOS DEVERES INERENTES AO PODER FAMILIAR. É descabido o pedido de alimentos, com fundamento no dever de solidariedade, pelo genitor que nunca cumpriu com os deveres inerentes ao poder familiar, deixando de pagar alimentos e prestar aos filhos os cuidados e o afeto de que necessitavam em fase precoce do seu desenvolvimento. Negado provimento ao apelo. (SEGREDO DE JUSTIÇA) (Apelação Cível n° 70013502331, Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Maria Berenice Dias, Julgado em 15/02/2006).
Portanto, a reciprocidade não é absoluta, assim como o direito. Condutas indignas podem incidir na perca do direito, abuso no poder pátrio, ainda como supramencionado podem incidir na perda de alimentos. Contudo, tais decisões não são pacíficas nos tribunais, assim como a doutrina não aduz de forma pacífica, como exemplo, tem-se a decisão exarada pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina, conforme segue abaixo:
APELAÇÃO CÍVEL E AGRAVO RETIDO. FAMÍLIA E PROCESSUAL CIVIL. ALIMENTOS REQUERIDOS ÀS FILHAS COM BASE NO PARENTESCO. IMPROCEDÊNCIA NA ORIGEM. AGRAVO RETIDO. AUSÊNCIA DE
REQUERIMENTO PARA APRECIAÇÃO EM
CONTRARRAZÕES PRESSUPOSTO FORMAL.
DESCUMPRIMENTO. ART. 523, §1°. DO CPC. NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO. - Para o conhecimento do agravo retido necessário requerimento expresso na apelação, ou, não tendo sido interposto pelo recorrente, na oportunidade das contrarrazões recursais, por se tratar de requisito de admissibilidade prevista no art. 523, §1°. do Código de Processo Civil. CPC. Ausente esse requerimento, não é possível conhecer da irresignação. MÉRITO. I - ABANDONO DAS FILHAS. PROCEDIMENTO INDIGNO. ART. 1.708, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CC. ANALOGIA COM ART. 1.638, II, DO CC. CONDUUTA MITIGADA DIANTE DAS PARTICULARIDADES DO CASO. PRESSUPOSTO SUBJETIVO CARACTERIZADO, MAS COMO ALIMENTOS LIMITADOS AO ESTRITAMENTE NECESSÁRIO. II - DERRAMENTE CEREBRAL E INCAPACIDADE PARA O
TRABALHO. NECESSIDADES MINIMAMENTE
DEMONSTRADAS. CONSIDERÁVEL PROVENTOS
PREVIDENCIÁRIO DAS ALIMENTANTES. POSSIBILIDADES CARACTERIZADAS. FIXAÇÃO DOS ALIMENTOS EM 7% DO
BENEFÍCIO PARA CADA ALIMENTANTE.
PROPORCIONALIDADE ATENDIDA. III - SUCUMBÊNCIA RECÍPROCA, SEM EQUIVALÊNCIA DE DERROTAS. REDISTRIBUIÇÃO. GRATUIDADE. SUSPENSÃO. ART. 12. DA LEI N. 1.050/60. IV - SENTENÇA REFORMADA. RECURSO PROVIDO EM PARTE. I - Não obstante o abandono material e moral da prole possa caracterizar o "procedimento indigno" a que alude o parágrafo único do art. 1.708 do Código Civil, por analogia ao art. 1.638, II, também do Diploma Civil, não há falar na cessação da obrigação alimentar das filhas aos pais quando as particularidades do caso mitigam tal ausência, recomendando no caso apenas a limitação aos alimentos necessários, a teor do enunciado n. 345 das Jornadas de Direito Civil. II - Demonstradas, ainda que
minimamente, as necessidades do alimentando em razão da incapacidade laboral decorrente dos sérios problemas de saúde por que passou (principalmente o derrane cerebral), e as possibilidades das filhas alimentantes que, embora tenham gastos próprios relevantes, percebem pensão previdenciária em valor considerável, mostra-me razoável a fixação de alimentos em 7% (sete por cento) de tais proventos, de forma a garantir os alimentos necessário e preservar o pouco que resta da solidariedade familiar entre as partes. III - "Na hipótese de cada litigante ser, em parte, vencedor e vencido, os ônus sucumbenciais hão de ser distribuídos entre ambos de modo a refletir a procedência parcial dos pedidos, nos termos do artigo 21 do Código de Processo Civil." (TJSC, Apelação Cível 2003.002693-2, de Joinvile. Rel. Des. Luiz Carlos Freyesleben, j. em 22/03/2007). (TJSC, Apelação Cível n. 2010.046709-8, de Santo Amaro da Imperatriz, rel. Des. Henry Petry Junior, Quinta Câmara de Direito Civil, j. 16-08-2012).
Como determinado na decisão acima, mesmo tendo havido um procedimento indigno por parte do genitor durante a infância das filhas as mesmas foram obrigadas a prestar o pagamento de alimentos ao pai, diante do fato de que as mesmas possuem condições razoáveis e principalmente porque o genitor em questão não tem nenhuma possibilidade de trabalhar. Sendo assim, não há uma posição pacífica, um ponto de convergência, de maneira que cada caso deverá ser analisado em suas particularidades.
Desta feita, fica evidente que o direito aos alimentos é um direito de mão dupla, ou seja, a lei resguarda a todos os direitos há uma vida digna, de modo que todos aqueles que necessitem de alimentos podem recorrer aos meios legais para pleitear seus direitos; sendo assim, existe a reciprocidade no pagamento dos alimentos entre pais e filhos, no entanto tal recíproca não é absoluta devendo os pais terem cumprido com os seus deveres para com seus filhos, nesse sentido é como se fosse uma espécie de "condições de satisfação do direito", não tendo cumprido com o poder pátrio, e perdendo e sendo destituido do poder familiar, tende os pais há não terem direito aos alimentos, de modo que os filhos não precisam se incumbir do ônus de pagamento, entretanto como tais decisões não encontram respaldo pacífico dentro dos tribunais os casos deverão ser analisados específicamente conforme já demonstrado acima, quando algum dos pais não
possuem nenhuma condição física ou psicológica para trabalhar e os filhos possuem condições financeiras, os mesmos tende a ter o ônus.
Portanto a recíprocidade no pagamento existe e está cada vez mais há frente das pessoas que necessitam, de modo que todos aqueles que precisam de tal auxílio podem recorrer através dos meios legais para que sejam amparados pelo ente mais próximo, seja nas relações entre pais e filhos.
TERCEIRO CAPÍTULO
CAUSAS DE ENCERRAMENTO DA OBRIGAÇÃO ALIMENTAR
A obrigação alimentar também possui um caráter mutável, de modo que também é passível de mudança e de extinção, visto que não existe uma espécie de trânsito em julgado. Ou seja, decisões acerca do valor das prestações alimenticias sempre poderão sofrer mudanças, diante das situações financeiras dos agentes em questão. Deste modo o art. 15, da Lei n° 5.478/1968, cujo é conhecida como Lei de Alimentos determina que "a decisão judicial sobre alimentos não transita em julgado e pode a qualquer tempo ser revista, em face da modificação da situação financeiras dos interessados".
Assim sendo, a questão de alimentos pode ser novamente analisada em qualquer momento a pedidos dos interessados na questão; salientando que existem questões e razões para que cessem as obrigações alimentares.
A MAIORIDADE DOS FILHOS
Como já destacado ao longo do trabalho os pais detém o dever de sustentar os filhos, não só na questão alimentar, mas educacional, cultural, de modo que o mesmo tenha um crescimento sádio, para que tenha sua dignidade respeitada, se tratando de uma responsabilidade de fazer. No que concerne à obrigação alimentar, a mesma se situa numa responsabilidade, numa obrigação de dar, justamente por se tratar de um valor alimentar.
Diante disso, com a obtenção do poder familiar advém a obrigatoriedade do sustento da família, de modo que enquanto durar o poder familiar dura a obrigação de sustento. Assim sendo, o sustento e o dever de prestar alimentos para os filhos
menores de idade decorrem do poder familiar.
Importante destacar que com a chegada da maioridade civil, a relação de obrigação dos pais para com os filhos cessa, ou seja, deixa de ser uma obrigatoriedade advinda do poder familiar. Nesse diapazão, o pleiteamento deve ser feita de acordo com aquele da qual necessita, já não se trata mais de uma obrigação presumida igualmente quando o necessitado é o filho menor de idade. Ainda vale mencionar que a Súmulaa 358 do STJ - Superior Tribunal de Justiça destaca que "o cancelamento de pensão alimentícia de filho que atingiu a maioridade está sujeito à decisão judicial, mediante contraditório, ainda que nos próprios autos".
Salienta-se também que em alguns casos mesmo atingindo a maioridade civil o filho poderá continuar percebendo os alimentos caso necessite do auxílio. Tal firmamento legal encontra respaldo no art. 1.695, do Código Civil de 2002, que dispõe que os alimentos são devidos mesmo que o filho tenha chegado à maioridade civil, de maneira que ter a idade que corresponde à maioridade não significa que os mesmos não dependam dos pais, mesmo que o poder familiar tenha cessado. Assim, existem três possíveis maneiras de requerer alimentos, mesmo já estando na maioridade. Nesse contexto as possíveis formas são: o filho com maioridade e incapaz, maior e que cursa graduação ou curso profissionalizante e por fim o filho maior e indigente.
No que refere - se ao primeiro caso, a necessidade na continuação dos alimentos se dá justamente pela incapacidade do filho, o mesmo não possui condições necessárias para sustento próprio. Como exemplo tem-se o julgado da 7° Câmara Cível, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, na qual constata a necessidade dos alimentos por parte do incapaz. Assim, decorre o caso:
Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE
EXONERAÇÃ/REDUÇÃO DE ALIMENTOS. FILHO MENOR INCAPAZ. ALTERAÇÃO DO BINÔMIO NECESSIDADE-POSSIBILIDADE NÃO COMPROVADA NOS AUTOS. 1. A revisão e a exoneração de alimentos somente se justificam quando comprovada alteração do binômio necessidade/possibilidade. Tratando-se o alimentando de pessoa incapaz, portador de deficiência mental decorrente de quadro grave de meningite bacteriana, tendo como sequelas epilepsia e retardo mental, não se cogita exoneração do encargo, independentemente da maioridade, sendo presumidas as suas necessidades. 2. O recebimento de benefício previdênciário pelo alimentando, in casu, também não
autoriza a revisão da obrigação, considerando que o valor auferdo não é suficiente para o suprimento das necessidades de um jovem adulto com doença mental que reside com sua avó desde o nascimento. 3. De outro lado, não se verifica a incapacidade do alimentante, que apesar de alegar incapacidade para o exercício de atividade laboral por tempo indeterminado, não comprova o valor da renda percebida atualmente. Sentença de improcedência confirmada. APELO DESPROVIDO. (Apelação Cível N° 70076094580, Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Sandra Brisolara Medeiros, Julgado em 28/02/2018).
Portanto, no caso exposto fica evidente a grave doença que atinge o incapaz, de modo que o mesmo pode vir a necessitar de alimentos pelo resto de sua vida, sendo assim, o mesmo torna-se uma causa de prestação de alimentos mesmo depois de completar a maioridade.
Já no que tange a segunda hipótese, o filho maior poderá continuar recebendo alimentos caso esteja realizando curso de graduação ou curso profissionalizante. Justamente, nesse caso por necessitar de uma ajuda para a realização dos estudos. Destaca-se que a jurisprudência e a doutrina nesse ponto possuem uma convergência de que o filho mesmo sendo maior pode vir a receber alimentos até os 24 (vinte e quatro) anos. Para corrobar com o entendimento é trazido à baila, decisão processual no qual uma filha maior de idade, porém com menos de 24 (vinte e quatro) anos e está cursando graduação financiada pelo FIES - Financiamento Estudantil, de modo que elucida:
Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. EXONERAÇÃO DE ALIMENTOS. FILHA MAIOR, REGULARMENTE MATRICULADA EM CURSO SUPERIOR INTEGRALMENTE FINANCIADO PELO FIES. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA. RECURSO DA PARTE AUTORA. COMPROVADA NECESSIDADE DE MANUTENÇÃO DA VERBA ALIMENTAR. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO NÃO PROVIDO. "O término do poder familiar, por maioridade, per se, não tem como condão afastar, compulsoriamente, o dever de prestação de alimentos. O encargo alimentar mantém-se, em regra, até o atingimento dos 24 (vinte e quatro) anos ou a conclusão de curso técnico ou superior. Além disso, ausente qualquer prova do filho estar trabalhando, legítima a manutenção do dever de o alimentante arcar com as despesas educacionais do filho maior universitário". TJ-SC - Apelação Cível AC 00003876720148240135 Navegantes 0000387-67.2014.8.24.0135 (TJ-SC).
Assim, conforme determinado na sentença acima do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, pode-se constar que a mesma terá o direito a continuar recebendo os alimentos ate completar os 24 (vinte e quatro) anos de idade ou ao término da graduação. No entanto, é bom salientar que existem casos que vão além da faixa etária, no caso os 24 (vinte e quatro) anos de idade. Como exemplo, tem julgado do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, uma sentença na qual os alimentos foram mantidos para uma filha de 29 (vinte e nove) anos de idade, sendo que a mesma conseguiu demonstrar a necessidade na continuação do recebimento dos alimentos diante do fato de que a mesma era estudante. De modo, que dispõe:
RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Embargos Infringentes. Alimentos. Exoneração. Situação em que excepcionalmente se mantém a verba alimentar até a conclusão do curso universitário da embargante, mesmo contando ela com 29 anos de idade. Deram parcial provimento. Embargos Infringentes n° 70012523511. Relator: Luiz Felipe Brasil Santos. 10 de junho de 2005. Jurisprudência Gaúcha. In. Diário de Justiça do Rio Grande do Sul, 2005.
Ou seja, mesmo já tendo completado a maioridade civil e ter mais de 24 (vinte e quatro) anos, a mesma conseguiu fazer jus ao direito de continuar recebendo os alimentos, diante da necessidade por cursar um curso superior. Portanto, mesmo que não se trate de um caso comum, também não há um limite hetário rigído. Ainda cabe destacar que nesse sentido a doutrina e a jurisprudência não é convergente, visto que muitos destacam que as prestações de alimentos devem cessar no máximo até os 24 (vinte e quatros) anos, no entanto outra parte da doutrina e da jurisprudência ressaltam em suas opiniões que os alimentos devem ser prestados até o encerramento da graduação.
Já no terceiro e último caso existe a possibilidade de o filho maior capaz e indigente possuir o direito de continuar a receber alimentos; trata-se dos casos em que os filhos já são maiores e capazes, contudo não conseguem gerir suas vidas de forma autosuficiente, de modo que necessitam de ajuda de suas famílias para conseguirem sobreviver. Como exemplo, tem-se o Agravo de Instrumento que foi julgado pela Sétima Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, assim elucidam:
EXONERAÇÃO DE ALIMENTOS. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. FILHA MAIOR DE IDADE. REDUÇÃO DO ENCARGO. PECULIARIDADES DO CASO CONCRETO. POSSIBILIDADE. 1. A exoneração da obrigação alimentar não é automática com a maioridade civil, embora cesse com ela a presunção de necessidade. Assim, na ação em que o genitor busca desobrigar-se dos alimentos em face da filha maior e capaz, compete a esta - alimentanda - demonstrar que ainda necessita do auxílio paterno para garantir a sua subsistência. Já ao alimentante cabe comprovar a impossibilidade de continuar prestando a assistência material. Caso concreto em que inexiste prova segura da independência financeira da filha-alimentanda. 2. Não obstante, impossível desconsiderar que a agravada atingiu a maioridade há 06 (seis) anos, existindo vaga notícia nos autos de que já trabalhou como monitora. A essas informações soma-se o fato de que o alimentante tem outra filha menor de idade. Informações relevantes que permitem a redução do encargo alimentar. AGRAVO DE INSTRUMENTO PARCIALMENTE PROVIDO. (Agravo de Instrumento n° 70066377151, Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Sandra Brisolara Medeiros, Julgado em 04/09/2015).
Assim fica consignado que embora a filha seja capaz e maior a mesma não possui condições de sustento próprio, de modo que a filha necessita de ajuda e de alimentos prestados por seu pai para conseguir se mantêr. Maneira pela qual a sentença fixou somente a redução dos alimentos, e não pelo seu encerramento, ou seja, o pai deverá arcar com um custo menor, porém deverá continuar prestando o auxílio através dos alimentos.
PROCEDIMENTO INDIGNO
Pode haver o encerramento dos alimentos quando ficar provado o procedimento indigno; pois de acordo com o art. 1.708, do Código Civil expõe que "com relação ao credor cessa, também, o direito a alimentos, se tiver procedimento indigno em relação ao devedor". Ou seja, se aquele que usufrui o direito aos alimentos tem procedimento indigno em relação com aquele que presta o pagamento, o mesmo terá seu direito encerrado, justamente por se tratar de uma cláusula de exclusão.
Portanto, aquele que cometer atos contra a integridade física, psiquica e moral, humilhar, criar situações vexatórias, atingir a honra do pagador deverá ter seu
direito excluído.
Nesse contexto destaca-se que o art. 557 do Código Civil, aduz as causas que levam ao procedimento indigno:
Podem ser revogadas por ingratidão as doações: I - se o donatário atentou contra a vida do doador ou cometeu crime de homicídio doloso contra ele; II - se cometeu contra ele ofensa física; III - se o injuriou gravemente ou o caluniou; IV - se, podendo ministrá-los, recusou ao doador os alimentos de que este necessitava.
Desta maneira, aquele que cometer algum ato de indignidade contra aquele que presta os alimentos fica excluído de seu direito, conforme dispõe o art. 1.814 do Código Civil:
São excluídos da sucessão os herdeiros ou legatários: I - que houverem sido autores, coautores ou partícipes de homicídio doloso, ou tentativa deste, contra a pessoa de cuja sucessão se tratar, seu cônjuge, companheiro, ascendente ou descendente; II - que houverem acusado caluniosamente em juízo o autor da herança ou incorrerem em crime contra a sua honra, ou de seu cônjuge ou companheiro.
Diante disso, qualquer uma das práticas mencionadas acima se forem concretizadas o filho perderá seu direito aos alimentos, assim como demais bens em virtude de herança, como já supramencionado.
POR MORTE
Basicamente o encerramento do direito aos alimentos nessa hipótese termina justamente com o fim da vida daquele que usufrui o direito, ou seja, com a morte do filho. Sendo assim, a ordem correta deveria ser a morte dos pais, porém pode ser que a ordem seja invertida e ocorra a morte do filho, de maneira que o direito ficará extinto. Entretanto, vale salientar que caso o filho tenha herdeiros o direito aos alimentos não é extinto automaticamente, principalmente por conta da força das disposições legais concernetes pelos arts. 1.700 e 1.792 do CC, que prevê a possibilidade de o direito aos alimentos se estender aos herdeiros.
CAUSAS DE ENCERRAMENTO DO DIREITO AOS ALIMENTOS NOS CASOS PAIS X FILHOS
No que tange a todo o exposto ao longo do trabalho fica evidente que o mesmo poderá ser aplicado nos casos dos pais que necessitem de um auxílio, de uma ajuda por parte dos filhos. De maneira que por parte da doutrina e da jurisprudência, os mesmos poderam ser aplicados aos pais, inclusive as causas de encerramento dos direitos aos alimentos. Assim, quando os mesmos vierem a cometer atos de indignidade em relação aos filhos pagadores de alimentos, estes deverão ter seus direitos excluídos por força de seus atos, bem como no caso de morte. Ou seja, o ônus de praticas desonrosas também devem ser aplicadas sobre os pais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho teve como objetivo primordial destacar o papel dos alimentos, buscando fazer uma análise no que tange a reciprocidade na obrigação alimentar entre pais e filhos. Importante destacar que o direito alimentar é constituída através do norteamento de vários princípios basilaires do direito, dentre os principais, o princípio da dignidade da pessoa humana, princípio da reciprocidade, e também o da solidariedade. De modo, que o trabalho pautou sobre esses três princípios, justamente para trazer a baila a reciprocidade alimentar entre pais e filhos.
A Constituição Federal estabelece através de seu art. 228 que os pais têm o dever de educar, criar os filhos, dar o sustento e tudo aquilo que o mesmo necessitar, bem como os filhos também possui o dever de cuidar dos pais quando os mesmos estiverem na velhice. Assim, fica evidente a recíproca que a Constituição buscou evocar nos cuidados com a família, que é esteio da sociedade brasileira.
Nesse sentido, pautando a questão sobre a luz dos dispositivos legais ficou constatado que nenhum direito é absoluto e que também dentre as normas pode haver sua relativização na busca por um melhor entendimento; sendo que é possível que filhos arquem com custos alimentares para os pais, desde que preenchidos os requisitos necessário como a falta de condições para o sustento próprio,
enfermidades, dentre tantas outras causas. Justamente por estar sobre o prisma do princípio da dignidade humana e da solidariedade, entretanto como mencionado acima nenhum direito é absoluto, ou seja, conforme os casos a serem analisados pela justiça os filhos podem não pagar alimentos aos pais que os abandonaram durante a vida, que não cumpriram com seus papéis, que não exerceram seu poder familiar.
Destaca-se que cada caso deverá ser avaliado, não tendo uma fórmula única, não tendo um entendimento convergente, justamente porque cada caso é um caso; no entanto é possível sim que aja a reciprocidade da obrigação alimentar.
Outro ponto que merece atenção é que as causas de cessação dos alimentos aplicados aos filhos a primeira vista também pode ser aplicado aos pais que é o caso da morte, do procedimento indigno e que os mesmos consigam suprir a próprio a vida sem o auxílio dos filhos.
Assim, fica consignado que pode haver a reciprocidade no pagamento de alimentos, contudo cada caso deve ser discutido perante a justiça, buscando chegar a um meio termo, para que nenhuma das partes seja prejudicada.
REFERÊNCIAS
DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.
CAHALI, Francisco José e PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Alimentos no Código Civil. São Paulo: Saraiva 1997.
CAHALI, Yussef Said. Dos Alimentos. São Paulo: RT. 3ed. 1999
GOMES, Orlando. Direito de Família. 11ª. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1999. GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro, Vol. 6: Direito de Família. 8 ª ed. Rev.E atual. São Paulo: Saraiva, 2014.
CARVALHO, Dimas Messias de. Direito de família. 2 ed. Atual. Rev. E ampl. Belo Horizonte: Del Rey, 2009.
FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Direito das famílias. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010.
LISBOA, Roberto Senise. Manual de Direito Civil, Direito de Família e Das Sucessões. vol.5.4ed. Editora Revista dos Tribunais. São Paulo, 2006.
RODRIGUES, Daniela Anderson. Obrigação de Alimentar: Responsabilidade dos filhos em pagar alimentos aos pais. Disponível em:
<https://www.faef/userfiles/files/11%20%200BRIGACAO%20DE%20ALIMENTAR%2 0RESPONSABILIDADE%20DOS%20FILHOS.pdf>. Acesso em: 20. Jul, 2020. DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias. 8. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011.
______________ Apelação Cível AC 20130350338 SC 2013.035033-8. Acórdão, Segunda Câmara Civil, Relator: Monteiro Rocha. Santa Catarina. Julgado em 09/10/2013.
DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias. 11° Ed. Revista atualizada e ampliada, 2016.
______________Apelação Cível Nº 70013502331, Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Maria Berenice Dias, Julgado em 15/02/2006.
______________Apelação Cível n. 2010.046709-8, de Santo Amaro da Imperatriz, rel. Des. Henry Petry Junior, Quinta Câmara de Direito Civil, j. 16/08/2012.
______________Apelação Cível n. 70076094580, Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Sandra Brisolara Medeiros, Julgado em 28/02/2018.
______________Apelação Cível n. 00003876720148240135, de Navegantes, Tribunal de Justiça de SC, 2014.
______________Embargos Infringentes n. 70012523511, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Luiz Felipe Brasil Santos, Julgado em 10/06/2005.
______________Agravo de Instrumento n. 70066377151, Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Sandra Brisolara Medeiros, Julgado em 04/09/2015.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível
em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm.> Acesso em: 07 dez. 2018.
______________ Lei nº 5.478, de 25 de julho de 1968. Disponível em:<
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L5478.htm.> Acesso em: 07 dez. 2018. ______________Código civil. In: Vade mecum. 11. Ed. São Paulo: Saraiva, 2014.
XVI ERIC – (ISSN 2526-4230)
A SEGURIDADE SOCIAL NA PREVIDÊNCIA SOCIAL
SOCIAL SECURITY IN SOCIAL SECURITY
Autor: Carlos Henrique Alves de Oliveira do Nascimento3
Orientadora: Profª Me. Heloísa Aparecida Sobreiro Moreno 4
RESUMO: A previdência integra a Seguridade Social é conceituada como um seguro que cada indivíduo faz durante a vida, através de contribuições que permitam ao indivíduo usufruir do benefício da aposentadoria e, com sua morte, possa garantir a sobrevivência dos que dele dependiam durante a vida, financeiramente, através da pensão. Seu objetivo é assegurar a manutenção da renda do indivíduo quando da perda, temporária ou definitiva, de sua capacidade de trabalhar em decorrência de riscos a que todos nós estamos sujeitos, como doença, invalidez, idade avançada, encargos familiares, prisão ou morte daqueles de quem dependiam economicamente. Sendo assim, o presente trabalho vai abordar os motivos que fizeram com que a Previdência fosse reformada, assim como conceituar a Seguridade Social Previdênciária e seus principais aspectos.
Palavras-chave: Seguridade Social. Assegurar. Previdência. Renda.
ABSTRACT:Social security is part of Social Security, it is conceptualized as an insurance that each individual makes during life, through contributions that allow the individual to enjoy the benefit of retirement and, with his death, can guarantee the survival of those who depended on him during his life, financially , through the pension. Its objective is to ensure the maintenance of the individual's income when he loses, temporarily or permanently, his ability to work due to risks to which we are all subject, such as illness, disability, old age, family costs, imprisonment or death of those of who depended economically. Therefore, the present work will address the reasons that led to the reform of Social Security, as well as conceptualizing Social Security Social Security and its main aspects.
Key-words: Social Security. To secure. Social Security.
3 Graduando do Curso de Direito da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Mandaguari, turma
2018.
Introdução
A Seguridade Social no Brasil, segundo a Constituição Federal de 1988, é o conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade que se destinam a assegurar os direitos ligados à saúde, à assistência social e à previdência.
O Governo Federal ampara-se na existência de déficits nas contas do RGPS para justificar a aprovação, já realizada, da Reforma Previdenciária no Congresso Nacional, aprovada a partir do envio da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 287/2016 (MAIA, 2017).
O Projeto de Inclusão Previdenciária Projeto de Lei Complementar (PCL) no 210/2004 está amparado pela iniciativa do Executivo que se antecipou através da Proposta de Emenda Constitucional paralela (PEC no 227A/ 2004), que foi inciada a partir da solicitação de inclusão previdenciária para o trabalho informal empreendido no espaço doméstico (MAIA, 2017).
Segundo Castro (2015), o Sistema de Seguridade brasileiro passou a ser ampliado ao longo da década de 1994/2004, através das mudanças das regras: Previdenciária Rural – 1992; Lei Orgânica da Assistência Social – 1995; e Estatuto do Idoso – 2004), que tiveram implicação efetiva na quantidade e no valor dos benefícios cumulativamente emitidos.
Sendo assim, o presente artigo, através da Pesquisa Bibliográfica sobre o tema, abordará as principais características sobre a Seguridade Social na Previdência Social, assim como suas causas, efeitos e os reais motivos que motivaram a Reforma Previdenciária em nosso país.
SEGURIDADE E PREVIDENCIA SOCIAL
CONCEITO DE SEGURIDADE SOCIAL E DE PREVIDÊNCIA SOCIAL
A Seguridade Social é o conjunto de ações provenientes da sociedade e dos Poderes Públicos e que tem por objetivo assegurar os direitos humanos quanto à saúde, à assistência social e à previdência, previsto no art.º 194 da Constituição Federal de 1988.
que o Estado intervenha na liberdade individual com vistas a garantir a todos o bem estar social e a participação coletiva.
São estes os princípios da Seguridade Social:
1. Abrangência de cobertura e atendimento de todas as situações de risco social; 2. Concessão dos mesmos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais; 3. Seletividade e distribuição na prestação dos benefícios e dos serviços; A seletividade consiste na eleição dos riscos e das contingências sociais a serem cobertos. Este princípio tem como destinatário o legislador constitucional, que estabeleceu expressamente quais os riscos e as contingências sociais protegidas no artigo 201 da Constituição Federal (CF); 4. Vedação de redução do valor dos benefícios, a fim de preservar-lhes o poder aquisitivo e proteger os beneficiários de eventuais perdas monetárias; 5. Igualdade na forma de participação no custeio pela sociedade e pelo Estado no financiamento da seguridade, na medida de sua capacidade de contribuição; 6. Várias fontes de custeio, respeitada a capacidade contributiva de cada um; 7. Caráter democrático e descentralizado da administração, mediante gestão com a participação dos trabalhadores, dos empregadores, dos aposentados e do governo; 8. Preexistência de recursos para a concessão dos direitos referentes à Seguridade Social; 9. Recursos próprios e específicos, distintos daqueles que constam do orçamento fiscal da União (CNM, 2008, p. 22).
A Previdência social é um seguro cedificado durante todo o tempo de trabalho de um indivíduo através das contribuições que ele preserva em um sistema para que, quando ele necessite por não estar mais trabalhando, possa gozar do benefício meio a sua aposentadoria ou que pela sua morte, sua família se veja respaldada financeiramente, garantindo, assim, a sua sobrevivência através do recebimento da pensão (CNM, 2008).
O mesmo autor ainda salienta que o objetivo da Previdência Social é assegurar a manutenção da renda também em casos em que haja perda definitiva ou temporária da sua capacidade de trabalhar em consequencia de doenças, invalidez, encargos familiares, idade avançada, prisão ou morte daqueles que dependam dele financeiramente.
O SERVIÇO SOCIAL NA PROTEÇÃO SOCIAL
O sistema de Seguridade Social constitui-se a partir de três aspectos, o primeiro engloba o projeto de inclusão dos microempreendimentos informais na Previdência Social, o segundo a política do salário mínimo e sua atuação no rendimento de pessoas extremamente pobres e o terceiro relacionado à evolução
dos gastos e das fontes de financiamento do orçamento da Seguridade Social no triênio (2003 a 2005) (IPEA, 2005).
O IPEA (2005) explana questões ligadas ao debate da política do salário mínimo e seus reflexos na Seguridade Social, enfatizando os resultados positivos dessa política contra a extinção da pobreza no país, no entanto esta postura gera impactos negativos nas despesas da Seguridade Social, sendo, ainda, analisado nesse sistema a evolução trienal do orçamento da Seguridade Social – de 2003 a 2005 – que se ampara nos vários aspectos explicativos ligados aos gastos e às fontes e suas implicações sobre as condições de sustentabilidade fiscal do sistema.
Vale lembrar que o sistema de seguridade brasileiro foi amplificado dentre os anos de 1994 a 2004 através da Reforma Previdenciária Rural de 1992 que modificou algumas regras, também pela Lei Orgânica da Assistência Social de 1995 e pelo Estatuto do Idoso de 2004 que aumentaram os valores dos benefícios de maneira cumulativa.
Neste período, o crescimento desses benefícios, tanto assistenciais quanto previdenciários resultou na união da ampliação de direitos e da taxa de crescimento demográfico da população beneficiária, considerando esse crescimento físico como uma consequencia do incremento real médio do salário mínimo nesse período (4% a.a.), aproximadamente.
SISTEMA CONTRIBUTIVO DE CUSTEIO DA SEGURIDADE SOCIAL
Conforme prescrito no art.º 195 da Constituição Federal, a Seguridade Social no Brasil deve ser financiada por toda a sociedade de forma direta e/ou indireta e através de recursos oriundos dos orçamentos da União, do Distrito Federal, dos Estados, Municípios e demais contribuições sociais. Já a Lei nº 8.212/ 1991 é a que ampara o tema no âmbito infraconstitucional, sendo regido pelo Plano de Custeio da Seguridade Social (WOLF, 2017).
Segundo Castro e Lazzari (2015), o custeio dos regimes da Previdência Social são divididos em contributivos e não contributivos, sendo assim classificados segundo a fonte de arrecadação da receita necessária ao desempenho da política de proteção social. O modelo do Brasil é o classificado como contributivo em que há a necessidade de uma previsão constitucional acerca da necessidade de
financiamento pelos Estados, Distrito Federal e Municípios, indiretamente. Santos (2014, p. 25) ressalta:
Havendo insuficiências financeiras da Seguridade Social, a União e os demais entes federativos, serão responsáveis pela cobertura deste déficit, caracterizando-se a forma indireta de financiamento. A forma indireta se dá com o aporte de recursos orçamentários da União, dos Estados, dos Municípios e do Distrito Federal. O § 1º do art. 195 determina que esses recursos constem dos respectivos orçamentos dos entes federativos, salientando que não integram o orçamento da União.
O conceito sobre o Sistema Contributivo é assim explanado por Castro e Lazzari (2015, p. 233):
No sistema contributivo, por seu turno, podemos estar diante de duas espécies: uma, em que as contribuições individuais servirão somente para o pagamento de benefícios aos próprios segurados, sendo colocadas numa reserva ou conta individualizada (sistema adotado pelos planos de previdência complementar, privada), a que chamamos de sistema de capitalização; noutra as contribuições são todas reunidas num fundo único, que serve para o pagamento das prestações no mesmo período, a quem delas necessite – é o sistema de repartição, hoje vigente em termos de Seguridade no Brasil.
No Brasil, como já mencionado anteriormente, o sistema de Seguridade Social é definido como contributivo devido a seus aspectos de custeio, repartição e utilização dos recursos. O art.º 1, parágrafo único, Lei 8.212/91, dispõe sobre os princípios e diretrizes a serem aplicadas quanto a seletividade e distributividade na prestação dos benefícios e serviços.
a reforma da previdência (pec 6/2019)
MOTIVAÇÕES E ALTERAÇÕES
A Reforma Previdenciária brasileita acontecida em 23 de outubro de 2019 seguiu uma linha evolutiva desde outros mandatos presidenciais. As motivações que deram início à reforma, segundo Haggard e Kaufman (2008), partiram de grupos interessados em conjunto com o planejamento de certas instituições que motivaram os líderes governamentais quanto ao tangimento de determinados objetivos políticos.
A densidade e a distribuição dos grupos sociais assim como os diferentes interesses por eles demonstrados foram os impulsionadores da Reforma, mesmo considerando que o Congresso tenha sido o propursor de toda a organização para
que a PEC 6/2019 fosse efetivada. Os grupos que motivaram concretização da Reforma foram o Governo Federal, os Estados e Municípios, a Câmara dos Deputados, o Senado, o Judiciário, as Associações de classe, empresários e imprensae os Organismos Internacionais (NAKAHODO; SAVOIA, 2008).
As principais motivações foram o crescimento da demanda populacional nos estados e, consequentemente, a nível nacional o que forçou uma retomada de avaliações sobre como pagar os contribuintes de maneira a não insentá-los do benefício previdenciário.
Santos (2016) comenta que as principais mudanças a que se valem salientar, trazidas pela PEC (6/2019), alteraram o prazo e o valor de recebimento de acordo com o Tempo de Contribuição, Idade de aposentadoria do trabalhador urbano, Aposentadoria por idade do Trabalhador Rural e Aposentadoria do Professor.
Santos (2016, p. 03) explica sobre as alterações na aposentadoria por Idade do Trabalador Urbano:
Tanto homem como mulher terão que completar 65 anos de idade para se aposentar, devendo também satisfazer o mínimo de 25 anos de contribuição. A PEC nº 287/16 prevê uma regra de transição para a aposentadoria por idade, devendo o segurado completar os seguintes requisitos: » Homens: 50 anos de idade na data da promulgação da Emenda Constitucional » Mulheres: 45 anos de idade na data da promulgação da Emenda Constitucional Ademais, também terá que completar os seguintes requisitos: » Homens: 65 anos de idade » Mulheres: 60 anos de idade » Deverá, ainda, completar um pedágio de 50% sobre o tempo que faltaria, na data da promulgação da Emenda Constitucional, para completar as 180 contribuições mensais.
A Tabela 1 a seguir denota as alterações supracitadas:
Tabela 1 – Aposentadoria do trabalhador urbano
Fonte: Santos (2016)
O trabalhador ou trabalhadora rural terá que completar os 65 anos de idade e será exigido o total de 25 anos de tempo de contribuição. [...] A PEC n. 287/16 estabelece uma regra de transição para o segurado especial que preencha os seguintes requisitos: » Homens: 50 anos de idade na data da promulgação da EC » Mulheres: 45 anos de idade na data da promulgação da EC Ademais, também terá que completar os seguintes requisitos: » Homens: 60 anos de idade » Mulheres: 55 anos de idade (SANTOS, 2016, p. 5).
Vale ressaltar que o Trabalhador Rural deverá completar um período adicional de contribuição de 50% com bases no tempo que faltaria para a sua aposentadoria ser promulgada da Emenda Constitucional e para cumprir os 180 meses como Segurado Especial.
O professor, em sua aposentadoria, também sentirá algumas mudanças. Antes da Reforma da Previdência, o professor do sexo masculino que comprovasse o exercício da atividade de magistério no Ensino Infantil, Fundamental e Ensino Médio conseguia se aposentar com 30 anos de contribuição e a mulher com 25 anos. No entanto, com a Reforma, essas condições mudaram:
A PEC n. 287/2016 prevê a extinção do redutor no tempo de contribuição da aposentadoria do professor, ou seja, o professor do ensino infantil, fundamental ou médio deverá cumprir os mesmos requisitos aplicáveis aos demais segurados do RGPS: 65 anos de idade e 25 anos de contribuição (SANTOS, 2016, p. 7).
A Tabela 2 alude a questão:
Tabela 2 – Aposentadoria do professor
Fonte: Santos (2016)
A Aposentadoria Especial também sofreu modificações, antes, de acordo Nakahodo e Savoia (2008), eram exigidos o mínimo de 15, 20 ou 25 anos para o segurado solicitar o direito a receber a Aposentadoria Especial, independente de sua idade, no entanto, com a Reforma Previdenciária, esta modalidade de aposentadoria vai receber modificações, sendo a PEC nº 287/16 a que modifica algumas questões como:
A PEC n. 287/16 passa a exigir a idade mínima de 55 anos que pode ser alterada progressivamente com o aumento de expectativa de vida do
brasileiro. [...] a lei complementar deverá estabelecer qual o prazo mínimo para a aposentadoria especial que pode variar entre 20 anos até 25 anos. [...] Uma das mudanças pretendidas pela PEC n. 287/16 é acabar com a aposentadoria especial para quem exerce atividade sujeita a agentes perigosos (SILVA, 2016, p. 7-8).
A Tabela 3 demonstra os novos cálculos a serem feitos acerca da Aposentadoria Especial:
Tabela 3 – Conversão do tempo especial por Tempo de Contribuição
Fonte: Santos (2016)
A posentadoria Especial será concedida, apenas, para aqueles trabalhadores que, efetivamente, fiquem expostos a agentes nocivos e que tenham a saúde comprometida, não considerando a expressão “integridade física” antes aplicada para o requerimento desta aposentadoria (NAKAHODO; SAVOIA, 2008).
Sendo assim, se torna importante elencar os novos desafios da Seguridade acerca da Reforma da Previdência no Brasil.
DESAFIOS DA SEGURIDADE SOCIAL
A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 1952, fez valer a Convenção nº 102, que caracterizava a Seguridade Social e estabelecia os padrões a serem cumpridos pelos países ratificantes. O significado de Seguridade Social muda de acordo com o país e conforme as necessidades consentidas de maneira sociopolítica, mas não sendo tão variante em seu conceito:
[...] proteção que a sociedade proporciona a seus membros, mediante uma série de medidas públicas, contra as privações econômicas e sociais que, de outra maneira, derivariam do desaparecimento ou da forte redução de seus rendimentos em consequência de enfermidade, maternidade, acidente