UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE FACULDADE DE DIREITO
A RELAÇÃO ENTRE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO E O PROCESSO PENAL NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
DOUGLAS ALVES DE PAULA MOURA
NITERÓI, RJ 2016
DOUGLAS ALVES DE PAULA MOURA
A RELAÇÃO ENTRE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO E O PROCESSO PENAL NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
Monografia apresentada como parte dos requisitos para obtenção do título de Bacharel em Direito pela Universidade Federal Fluminense.
Orientador:
Prof. Dr. Ozéas Corrêa Lopes Filho.
NITERÓI, RJ 2016
Universidade Federal Fluminense
Superintendência de Documentação
Biblioteca da Faculdade de Direito
M929 Moura, Douglas Alves de Paula.
A relação entre os meios de comunicação e o processo penal no estado democrático de direito / Douglas Alves de Paula Moura. – Niterói, 2016.
100 f.
Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Direito) – Universidade Federal Fluminense, 2016.
1. Meios de comunicação de massa. 2. Estado democrático de direito. 3. Processo penal. 4. Direitos e garantias individuais. I. Universidade Federal Fluminense. Faculdade de Direito. II. Título.
DOUGLAS ALVES DE PAULA MOURA
A RELAÇÃO ENTRE MEIOS DE COMUNICAÇÃO E PROCESSO PENAL NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
Monografia apresentada como parte dos requisitos para obtenção do título de Bacharel em Direito pela Universidade Federal Fluminense, sob a orientação do Prof. Dr. Ozéas Corrêa Lopes Filho.
Aprovada em ____/____/_____.
BANCA EXAMINADORA
_________________________________________________ Prof. Ozéas Corrêa Lopes Filho
Orientador – UFF/RJ
__________________________________________________ Prof. José Ricardo Ventura
Avaliador - RJ
__________________________________________________ Prof.ª Paola de Andrade Porto
Avaliadora – RJ
NITERÓI, RJ 2016
RESUMO
Os meios de comunicação possuem grande influência sobre praticamente todos os campos da vida moderna. O Direito não se encontra apartado desta realidade, contudo por vezes tal influência pode ser danosa, provocando efeitos contrários ao que é juridicamente correto. Quando tal fato ocorre no processo penal, erros jurídicos graves podem ocorrer, como a absolvição de um culpado, e de forma mais grave e danosa à Democracia, um inocente pode ser condenado. Da mesma forma os bens jurídicos mais importantes ao ser humano, como sua liberdade e sua honra podem ser atingidos, bem como os direitos humanos intrínsecos ao Estado Democrático de Direito podem ser desrespeitados. Infelizmente tais fatos ocorrem com relativa frequência, e tal situação pode ocorrer de diversas formas como se verá no decorrer deste trabalho. Os meios de comunicação também podem auxiliar o Estado Democrático de Direito, à medida que atuem dentro de sua função social, como se observará. O presente estudo visa de forma ampla e interdisciplinar, se utilizando de conteúdo da Ciência da Comunicação Social, analisar o modo como os meios de comunicação de massa se relacionam com a sociedade, em especial com o processo penal no Estado Democrático de Direito, com o uso de diversos casos ocorridos nos últimos tempos, bem como com a doutrina, jurisprudência e legislação correlata a essa temática, colocando-se no fim, possíveis soluções aos inconvenientes da relação entre Mídia e Processo Penal.
Palavras-chave: Meios de Comunicação. Estado Democrático de Direito. Direitos
ABSTRACT
The media have great influence on virtually every field of modern life. The law is not apart of this reality, but sometimes this influence can be harmful, causing adverse effects to legally correct. When this fact happen in criminal proceedings, errors serious legal may occur, as the acquittal of a guilty, and more serious and harmful to democracy, an innocent can be guilty. By the same way the most important legal goods to the human being, as their freedom and their honor can be achieved, and the intrinsic human rights law Democratic State may be infringed upon. Unfortunately such events occur relatively often, and such a situation can occur in different ways as discussed in this paper. The media can also assist the democratic rule of law, as they act in their social function, as will be noted. This study aims at a broad and interdisciplinary way, using the content of Science of Social Communication, examine how the mass media relate to the society, in particular the criminal proceedings in the democratic rule of law, with use of several cases occurred in recent times, as well as the doctrine, jurisprudence and legislation related to this issue, placing it at the end, possible solutions to the drawbacks of the relationship between Media and Criminal procedure.
Keywords: The Media. Democratic State. Fundamental rights. Criminal proceedings.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 07
2 BREVE CRONOLOGIA SOBRE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO NA HISTÓRIA ... 08
2.1 Meios de comunicação no Brasil ... 09
3 A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NA SOCIEDADE ... 14
3.1 Teorias da Comunicação ... 15
3.1.1 Teoria Hipodérmica ... 15
3.1.2 Teoria da Persuasão ... 16
3.1.3. Teoria dos Efeitos Limitados ... 20
3.1.4. Teoria Funcionalista ... 21
3.1.5. Teoria do Agendamento ... 22
4 O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO ... 26
5 O DIREITO PENAL ... 28
6 O PROCESSO PENAL ... 29
7 O DEVIDO PROCESSO LEGAL... 32
8 A PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA ... 36
9 A LIBERDADE DE EXPRESSÃO ... 41
10 O TRIBUNAL DO JÚRI ... 42
11 A INFLUÊNCIA DAS FIGURAS MIDIÁTICAS NO PROCESSO E DIREITO PENAL ... 45
12 A INFLUÊNCIA MIDIÁTICA NO COMPORTAMENTO DOS OPERADORES DO DIREITO... 48
12.1 A busca pela notoriedade e projeção pessoal por meio dos meios de comunicação... 48
12.1.1 Caso Eike Batista ... 53
13 A COBERTURA MIDIÁTICA DE PROCESSOS PENAIS ... 57
13.1 Caso Ângela Diniz: a mídia acompanhando as tendências sociais no processo penal ... 57
13.2 Caso O.J. simpson: o desvirtuamento do objeto processual ... 62
14 INFLUÊNCIA DA MÍDIA NA LEGISLAÇÃO PENAL: CASO CAROLINA
DIECKMAN ... 69
15 A MÍDIA FERINDO A DIGNIDADE HUMANA E OS DIREITOS HUMANOS . 72 16 RESPONSABILIDADE JURÍDICA DA MÍDIA... 76
16.1 Responsabilidade civil ... 76
16.2 Responsabilidade penal dos meios de comunicação ... 78
17 EFEITOS DA ATUAÇÃO MIDIÁTICA IRRESPONSÁVEL NA POPULAÇÃO. O TERROR, O DIREITO PENAL DO INIMIGO E OS JUSTIÇAMENTOS ... 79
18 MEIOS DE COMUNICAÇÃO NO AUXÍLIO AO PROCESSO PENAL E AO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO ... 82
18.1 Caso Vinicius Romão ... 83
18.2 Jornalismo investigativo ... 87
18.3 Tim Lopes... 89
19 POSSÍVEIS SOLUÇÕES À PROBLEMÁTICA ENVOLVENDO OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO E O PROCESSO PENAL ... 92
CONCLUSÃO ... 95
1 INTRODUÇÃO
Na atualidade acompanha-se com assombro a forma como as distâncias diminuem ao se observar a velocidade com que se dá a propagação de informações e notícias por meio das tecnologias que aumentam e se desenvolvem em proporções quase que inacreditáveis.
Esta explosão de comunicação, informações e notícia vem a dar a sensação que o Planeta Terra se torna um lugar menor. Da mesma forma, por incontáveis motivos, tornou-se também um lugar melhor. A facilidade de transmitir mensagens e difundir ideias, informações e notícias, vêm a produzir inúmeros e inegáveis benefícios a vida do homem em sociedade.
Contudo, este processo apresenta seus inconvenientes. A facilidade de propagar informação vem a permitir que informações equivocadas ou falsas atinjam elevado número de pessoas, produzindo efeitos nefastos no corpo social.
Desta forma tem ocorrido com elevada frequência durante os tempos no que se refere ao direito penal e processual penal, causando graves danos aos direitos humanos, tendo assim um efeito negativo e uma atuação completamente incompatível com o Estado Democrático de Direito.
O presente trabalho tem por objetivo avaliar de forma ampla, o modo como os meios de comunicação em suas atuações e influenciam a sociedade, mais especificamente na relação desta com o Direito Penal e Processual Penal. Na abordagem haverá de se trabalhar com o processo evolutivo dos meios de comunicação e sua relação com as sociedades, a compreensão de processos históricos que envolvem de forma indireta os conceitos jurídicos que vem a sofrer consequências da atuação midiática, a forma como a mídia afeta o processo penal, bem como a observação de diversos casos em que a atuação midiática trouxe consequências ao direito e processo penal, a forma como o Estado Brasileiro atuou na matéria durante os tempos e possíveis formas de se evitar danos a direitos humanos.
2 BREVE CRONOLOGIA SOBRE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO NA HISTÓRIA
A tecnologia é a manifestação material mais intensa do desenvolvimento do intelecto humano. Enquanto nos primórdios da espécie os instrumentos possuíam o fim quase que exclusivamente direcionado a luta pela sobrevivência, conforme é retratado na clássica cena do filme ''2001: uma odisséia no espaço'', na qual um primitivo ancestral se utiliza de uma ferramenta em um combate, hoje, apesar de o ser humano ainda não habitar outro local do universo distinto da Terra como ocorre no evoluir da referida obra cinematográfica, a tecnologia ganhou preocupações distintas do mero combate corpo. Sem dúvidas, é assombrosa a forma como o homem consegue desenvolver de forma progressiva e quase imparável inventos e melhorias tecnológicas nos mais variados campos da vida. A cada segundo a impressão que um indivíduo possui de se encontrar desatualizado em relação a determinado aparelho tecnológico é maior.
No campo da comunicação é possível se observar a forma como a evolução da tecnologia se dá de uma das formas mais intensas possíveis. Na primeiras épocas o meio oral era predominante no campo da comunicação, sendo portanto necessário ao homem, se encontrar presencialmente com outro de modo a, por meio de sua voz ou mesmo por gestos, lhe comunicar qualquer coisa. Outras formas de se transmitir mensagens surgiram como a emissão de sinais de fumaça e o uso de pipas.
Com a Antiguidade, o homem desenvolveu a linguagem escrita, podendo transmitir determinada mensagem sem necessariamente estar na presença do receptor, ou emitir qualquer tipo de som ou realizar algum gesto.
A partir da invenção da prensa Johannes Gutenberg, em 1447, surgiram os jornais modernos, que tiveram grande circulação entre comerciantes, para a divulgação de notícias mercantis.Na década de 1920, o rádio, que teria tido sua primeira transmissão em 1906, passou a ser utilizado como meio de comunicação de massa. Na década de 40, veio a televisão. E a partir da década de 1990 a Internet saiu do âmbito estatal norte-americano para se difundir em meio à população.
2.1 História dos meios de Comunicação no Brasil
Os meios de comunicação no Brasil, em decorrência da situação colonial a qual o território estava submetido durante a maior parte de sua história desde o descobrimento pelos portugueses, tiveram a sua difusão retardada, já que eram proibidas por Portugal, que tencionava manter a colônia afastada da circulação de informações, bem como de um eventual desenvolvimento político e cultural.
Em que pese algumas tentativas de introdução da imprensa, estas foram devidamente reprimidas pela Metrópole. Como foi o caso de diversas outras instituições brasileiras, a Imprensa só veio oficialmente permitida com a Chegada da Família Real Portuguesa.
O primeiro jornal oficial do país foi a Gazeta do Rio de Janeiro, publicada pela Imprensa Régia no Rio de Janeiro, editora que se tratava de uma filial da Imprensa Régia de Portugal. Seu conteúdo limitava-se aos interesses da Coroa e da Corte. Sobre o períodico, se manifestou o bibliotecário real Luís dos Santos Marrocos em carta a seu pai:
Devo advertir que nelas (notícias) há muita falta de exação e muita mentira, que não posso desculpar, pois, narrando com entusiasmo coisas não existentes ou dando valor a ninharias, cai no absurdo, ou talvez no desaforo, de não publicar fatos e circunstâncias ainda mais essenciais daquele ato.1
A Censura prévia era a regra, sendo inexistindo a liberdade de imprensa.Tendo em vista que, todo conteúdo publicado na Imprensa Régia, que era à única tipografia oficial da Capital, era submetido à uma comissão que tinha por objetivo "fiscalizar que nada se imprimisse contra a religião, o governo e os bons costumes" Periódicos e tipografias que contrariassem os interesses reais fechado, e os jornalistas surrados.
O jornalismo da época se baseava na doutrinação ideológica, seja qual fosse, não sendo uma preocupação em geral se informar.
1 MEIRELLES, Juliana Gesuelli. Oficial, mas nem tanto. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 3, n. 28, janeiro de 2008.
Da mesma ressalta-se o forte analfabetismo existente à época, bem como o caráter majoritariamente rural da população, tendo em vista que ao final do império, 90% da população habitava o campo.
Com o segundo reinado (1840-1889) a imprensa veio a se fortalecer no país, muito em decorrência da tolerância daquele governo. Mesmo impressos de natureza oposicionista foram permitidos ou não proibidos. Na província, em decorrência da grande instabilidade política que se viu naqueles tempos, inclusive ocorrendo conflitos armados, observou-se uma maior repreensão do que na Capital.
Desta época datam diversos jornais atuais, como Jornal do Brasil (Rio de Janeiro) e O Fluminense (Niterói), os paulistas A Província de São Paulo [atual O Estado de S. Paulo] (São Paulo) e A Tribuna (Santos), e o gaúcho Correio do Povo (Porto Alegre).
Famosa é a charge na qual se retrata Dom Pedro II dormindo com um jornal de título ''O PAIZ'' em seu colo, em que se depreende que o Imperador estaria dormindo e não estaria observando os rumos do país.
Em grande parte se deve aos jornais o papel de influência em grandes acontecimentos da história brasileira naquele momento, como a abolição da escravatura.Destacam-se O jornal “O Abolicionista”, de Nabuco, e a “Revista Ilustrada”, de Ângelo Agostini.
Com a República, a imprensa veio à ser exposta a mais momentos de instabilidade.No período posterior à proclamação, se viu um esforço do Governo instituído em reprimir toda e qualquer manifestação contrária a si, de modo que a imprensa não esteve afastada deste movimento. Muito pelo contrário, tendo em vista a sua atividade. O Decreto 85 tinha natureza bem ampla, de modo que qualquer oposição por parte de imprensa viria de encontro ao previsto no ato normativo.
Com a Constituição de 1891, a Liberdade de imprensa foi teoricamente assegurada no ordenamento jurídico brasileiro.
Contudo, tendo em vista a intensa agitação política da época, com diversos conflitos e revoltas, como Revolta da Armada: 1893-1894, Revolução Federalista: 1893-1895, Guerra de Canudos: 1893-1897, Revolta da Vacina: 1904, Revolta da Chibata: 1910, Guerra do Contestado: 1912-1916,Sedição de Juazeiro: 1914, Greves Operárias: 1917-1919, Revolta dos Dezoito do Forte: 1922* Revolução Libertadora: 1923.
Da mesma forma, o Estado de Sítio foi decretado mais de uma vez, de modo que a imprensa sofreu as consequências na prática da instabilidade da época em sua atividade.
Todavia foi um momento de evolução nas comunicações brasileiras com a chegado do rádio, que chegou ao país em 1923, por Edgard Roquette-Pinto. A princípio as emissoras de rádio limitaram-se a programas de entretenimento, só posteriormente passando a veicular publicidade de notícias.
Desta época também é datada a fundação de alguns dos jornais de maior circulação no Brasil na atualidade, como O GLOBO e A FOLHA DE SÃO PAULO.
Com a Revolução de 1930, a imprensa acompanhou de forma intensa os acontecimentos que marcaram o período, como a Revolução de 1932. A Constituição de 1934 teoricamente estabilizava o ordenamento jurídico nacional.
Contudo o golpe de 1937 veio a sufocar de modo intenso a liberdade de imprensa.Em 1939, o governo reformulou seu organismo de propaganda criando o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), pelo decreto-lei nº 1915, em 27 de dezembro, com as atribuições de censurar toda a produção jornalística, cultural e de entretenimento, produzir conteúdos e controlar o abastecimento de papel. 420 jornais e 346 revistas tiveram o registro vetado pelo Órgão.Tamanha era sua importância e extensão, que funcionava no Palácio Tiradentes no Rio de Janeiro, atual casa do Poder Legislativo Fluminense.
A polícia política vigiava de perto os profissionais de imprensa e os jornais eram submetidos à censura, com a reprodução obrigatória ou enfaticamente induzida da propaganda estatal, pressionados por meio de verbas publicitárias, financiamentos e subsídios ou obstáculos ao fornecimento de insumos, quase todos importados.
Após a deposição de Getúlio Vargas em 1945, a democracia se fortaleceu e com ela a atividade de imprensa.
Em que pese a ocorrência de resquícios dos períodos anteriores, a princípio a tendência governamental do momento era propagandear a democracia e suas instituições. Contudo a época esteve longe de retratar qualquer tipo de estabilidade no campo político, com diversos eventos e acontecimentos que vieram a marcar a nação, bem como provocar o desenvolvimento do jornalismo de natureza política, em contraposição ao puramente ideológica, informativo ou propagandista.
A televisão chega ao Brasil, em que pese na época ter um público restrito, bem como não se ter desenvolvido ainda as emissoras. Da mesma forma o rádio atingia grande popularidade nacional.
Contudo, a imprensa ainda era o principal meio de comunicação à época, com circulação total de 5,75 milhões de exemplares no país.
Após o intervalo democrático, em 1964 o país tornou à Ditadura, agora com um Regime Millitar.
Os meios de comunicação, que em grande parte apoiaram o Regime em seu princípio, sendo incluídos não apenas jornais, mas também jornalistas de renome, como muitos apoiadores iniciais do Golpe.
A Ditadura veio, entre outros tantos atos violentos e antidemocráticos perpetuados, a coibir a liberdade de imprensa, de forma a fechar jornais, bem como retomou-se a famigerada tortura.
As liberdades civis e políticas foram feridas, de modo que muitas pessoas foram mortas, torturadas e exiladas do país.
Um dos grandes golpes ao Jornalismo no país foi a morte do Jornalista Vladimir Herzog. Vladimir, que era o Diretor de Jornalismo na TV cultura, após ter sido convocado à prestar depoimento por suposta ligações com o Partido Comunista Brasileiro, que na época era clandestino, tendo se apresentado voluntariamente à prestar depoimento ao DOI-CODI em São Paulo.Seria encontrado morto, com uma corda envolta no pescoço indicando o laudo policial um suposto e improvável suicídio, de modo a acobertar o assassinato perpetrado pelos torturadores do Órgão. Este episódio, em uma altura do regime a qual se falava em suposta abertura política, viria a mudar os rumos do governo.O rabino Henry Sobel viria à afirmar em suas considerações sobre a Ditadura: "O assassinato de Herzog foi o catalisador da volta da democracia".2
Há estudiosos que defende que a imprensa dançou conforme a música, sendo destacada a ação de O Pasquim, A OPINIÃO, entre diversos outros que tentavam dentro de suas possibilidade se opor ao regime instituído.
A televisão viria a ganhar a força de meio de comunicação de massa que possui nos dias de hoje de forma gradativa.
2 Qual o papel do chefão da CBF no assassinato de Vladimir Herzog? Disponível em http://apublica.org/2013/02/qual-papel-chefao-futebol-brasileiro-assassinato-de-herzog/ Acesso em 20 fev. 2016
Com o enfraquecimento do Governo, gradativamente os movimentos de oposição e fim da ditadura foram se fortalecendo, crescendo e estendendo sua influência, de modo que a imprensa que em grande parte havia se submetido ao Regime, foi aderindo com intensidade o movimento pró democracia.
Nesse sentido, é histórica a cobertura realizada do Movimento Diretas já, no qual milhares de pessoas foram as ruas protestar contra o regime, e pedir eleições diretas ao cargos eletivos da Nação.
Com a demorada volta à Democracia em 1984, bem como com a promulgação da Constituição Federal de 1988, os meios de comunicação no Brasil chegam a devida liberdade de imprensa.
3 A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NA SOCIEDADE
Os meios de comunicação de massa que também podem ser chamados de meios de comunicação social, ou mídia, ou mass media, destacando-se que no presente trabalho estes termos serão utilizados indistintamente, são o conjunto de instrumentos e empresas de comunicação de amplo alcance, como o rádio, a televisão, a internet, o cinema e as empresas detentoras de seus controles.
Nos tempos atuais, a mídia vem sendo considerada por muitos, como o quarto poder, em referência a tripartição de poderes proposta por Montesquieu. Tal fato se dá em decorrência da forte influência, segundo lição da teoria, que os meios de comunicação de massa possuem na sociedade moderna. Sobre esse ponto, afirma Darcy Arruda Miranda:
Dentro da grei humana, a sua importância é tal que já se lhe atribui a categoria de 4º Poder do Estado, em virtude do seu índice de penetração na massa popular e imensa facilidade em construir ou destruir reputações, em estruturar ou desintegrar a sociedade, em edificar ou debilitar os povos, pelo domínio das consciências, através de noticiários e comentários honestos ou tendenciosos.3
Assim sendo a mídia atua diante da sociedade moderna nas mais diversas áreas, e o Direito não se encontra blindado à isso, de modo que iremos estudar diversas formas nas quais ocorre a relação entre o direito e a mídia.
De forma a se analisar a relação entre mídia e a população, se irá partir dos estudos realizados no âmbito da comunicação social acerca desta temática, sendo esses estudos as chamadas Teorias da Comunicação.
3.1 Teorias da Comunicação
Com a forte ascensão e popularização que os meios de comunicação tiveram no início do século XX, os estudiosos começaram a se debruçar acerca dos efeitos e funções que a mídia teria em relação à sociedade e aos seres humanos.
3 MIRANDA, Darcy Arruda. Comentários à lei de imprensa. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1995.
3.1.1 Teoria Hipodérmica
De fato, a divulgação de mensagens em grandes escalas apresentava efeitos visíveis ao corpo social.
Concomitantemente, no campo da psicologia também se propagava um intenso movimento acadêmico que buscava abordar o ser humano de um modo distinto do tradicional. Conquanto tradicionalmente o foco principal da Psicologia se baseava nos processos mentais de cada indivíduo em específico, o Behaviorismo ou Comportamentismo, postulava que a forma mais eficiente de estudo da Psicologia seria a análise do comportamento humano.
O comportamento seria é sempre uma relação ou interação entre eventos ambientais (estímulos) e atividades de um organismo (respostas).
Consoante os ensinamentos do Behaviorismo, os indivíduos viriam a agir de determinada forma em respostas a determinado evento.
Em muito influenciado por esta corrente de pensamento, iniciaram-se os estudos acadêmicos acerca da forma como os meios de comunicação influenciariam o comportamento dos indivíduos, surgiu a teoria hipodérmica.
Durante a 1ª Guerra Mundial, os meios de comunicação da época, além de serem utilizados para passar informações acerca do combate, também serviram aos Estados como forma de motivar a população no conflito, imbuí-las de espírito nacionalista e conclamar a se revoltarem contra o inimigo em comum. O grande objetivo era retirar o indivíduo de sua esfera de vida própria para fazê-lo pertencer a um grupo, um conjunto, uma nação, uma massa, e que este se sentisse bem em fazer parte desta massa. O indivíduo deveria se comportar como os outros para servir a nação da qual faria parte e deveria ter orgulho de defender.
Com a observância dos supostos eventos que a propaganda de massa teve na 1ª Grande Guerra, bem como a crescente difusão e popularização dos meios de comunicação e de seu espaço dentro da sociedade, a Teoria Hipodérmica, buscou com base no Comportamentismo estudar o modo como os meios de comunicação atuavam no comportamento do homem dentro da sociedade.
A Teoria Hipodérmica, também chamada de Teoria da Bala Mágica, acreditando que a mídia teria poder de direcionar o comportamento humano em massa ou sociedade de forma praticamente absoluta. Em observância ao método comportamental, ocorreria que a mensagem, notícia ou informação proveniente de
um meio de comunicação em massa seria o estímulo, e influenciaria de a resposta do ouvinte, interlocutor, leitor de modo que este acreditaria na informação veiculada.
A informação da mídia teria sob o indivíduo o mesmo efeito que uma agulha hipodérmica quando penetra a camada cutânea e se introduz sem dificuldades no corpo de uma pessoa. Daí o porquê de esta teoria também ser conhecida como "Teoria da Bala Mágica", pois a mensagem da mídia conseguiria o mesmo efeito "hipodérmico" de uma bala disparada por uma arma de fogo.
A Teoria Hipodérmica, em que pese suas contribuições ao estuda da relação da sociedade com os meios de comunicação, não poderia funcionar de forma absoluta. De fato, seria simplório pensar que todos os indivíduos viessem a ser influenciados da mesma forma por determinada notícia, tendo em vista que isso iria variar no referente a escolaridade, nível social, profissão, entre diversos fatores.
Como caso hipotético, pensa-se em determinada notícia na qual se reporta que um indivíduo teria sido preso pelo crime de roubo, conquanto no decorrer da mesma notícia se mesmo tenha recolhido objeto de uma casa na ausência dos donos e sem que tenha tido violência ou grave ameaça contra ninguém. Em que pese o fato de boa parte da população ser atingida de forma efetiva pela notícia ao não diferenciar os tipos penais, qualquer cidadão com formação jurídica mínima observará que a notícia é em relação ao direito, falsa ou equivocada.
Contudo, ainda que no geral a Teoria Hipodérmica esteja superada no referente aos estudos atuais acerca do tema, não se trata de absurdo imaginar que no referente a certas situações e certos indivíduos e camadas da população, a informação midiática venha a ter efeitos similares à agulha hipodérmica ou a ''bala mágica'', adentrando em sua mente e influenciando sua forma de pensar de forma quase que absoluta, como em diversos temas ocorre nas camadas da população com menor acesso a informação e à educação.
3.1.2 Teoria da Persuasão
Em evolução aos postulados demasiado simplistas da Teoria Hipodérmica, surgiu a Teoria da Persuasão ou Teoria Empírico-experimental.
A Teoria da Persuasão observou que de fato seria inverossímil pensar que determinada mensagem midiática atingiria todos os indivíduos da mesma forma.
Ainda que não tenha sido teoricamente baseada no behaviorismo, como foi a Teoria Hipodérmica, é possível se vislumbrar que a Teoria da Persuasão seguiu a evolução deste. Conquanto o Behaviorismo clássico que tanto influenciou a Teoria da Bala Mágica, acreditava a base dos estudos do comportamento humano deveriam ser as de conexões estímulo-resposta, colocando os processos mentais em um segundo plano, o Neobehaviorismo mediacional de Tolman, incluía nos estudos os processos mentais como fundamento indissociável do comportamento humano.
Da mesma forma, a Teoria da Persuasão tinha por uma de suas bases os processos mentais, ainda que não tivesse uma abordagem psicológica, buscando em seus experimentos analisar o modo como o Interlocutor receberia a mensagem de acordo com suas opiniões pessoais, seus preconceitos, seus conhecimentos acerca da temática abordada, seu eventual interesse sobre a mesma, de modo com que tendo por base esses fatores, teria uma maior ou menor probabilidade de ser convencido, acreditar ou concordar com a mensagem.
Desde já é abandonada a ideia que a mensagem obteria um sucesso ou efeito imediatamente esperado como na Teoria da Bala Mágica. A análise baseou-se na forma como determinada mensagem teria maior ou menor adesão em relação aos indivíduos, desde já observando-se suas peculiaridades, e tendo-se em vista a probabilidade da mensagem não atingir os efeitos esperados.
Os estudos que fundamentaram a teoria da persuasão foram realizados preponderantemente em situações de ''campanha'' midiática, qual sejam situação como eleições, informações, propagandas, publicidade, etc. De fato, é valido se ressaltar que ocorreu grande influência do Governo Norte-Americano na mesma, observando-se que os estudos mais conhecidos foram realizados pelo Psicólogo Carl Hovland durante a Segunda Guerra Mundial à serviço da Divisão de Informação e Educação do Exército Americano.
Se baseiam em duas premissas: a audiência, ou seja, quem receberia a mensagem e suas peculiaridades, a forma como o interlocutor haveria de avaliá-la segundo suas opiniões ou interesse e a mensagem em si, o modo como esta deveria ser efetivamente transmitida para a obtenção dos resultados esperados.
Acerca da Audiência, concorreriam os seguintes fatores: O interesse em obter a informação, observando-se que o êxito de uma campanha de informação teria como base o interesse demonstrado pelo público na mesma. A exposição
seletiva, com vistas a descobrir qual seria o meio de comunicação mais eficaz para a transmissão de determinada informação em relação ao seu público alvo. A Percepção Seletiva que de fato representa o elemento mais profundo no referente a observação da forma como a mensagem atingiria ao indivíduo em específico:
Os elementos do público não se expõem à rádio, à televisão ou ao jornal num estado de nudez psicológica; pelo contrário, apresentam-se revestidos e protegidos por predisposições já existentes, por processos seletivos e por outros factores.4
Este é de fato um ponto claro da superação da Teoria Hipodérmica, tendo em vista que a mensagem não tem o efeito de uma agulha hipodérmica, sendo filtrada pelo indivíduo em conformidade com os processos psicológicos do mesmo.
Interessante se observar o modo como uma informação acerca de eventuais suspeitas de corrupção por parte de um político pertencente a determinado partido haverá de ser recepcionada em relação a um seguidor ou militante do mesmo, e de um opositor ferrenho. Evidentemente que o militante haverá de se ''blindar'' em relação a esta informação, não importando seu conteúdo, conquanto o opositor ferrenho haverá de por total confiança na notícia, independentemente da forma como se encontra elaborada.
A outra premissa principal sob a qual se funda a teoria da Persuasão é a da mensagem em si, quem a transmite, a forma como é transmitida.
A credibilidade do transmissor da mensagem é levada em conta no que se refere aos efeitos que a mesma fará, sendo interessante não apenas a integridade da fonte, bem como o prestígio, de modo que prestigiada. A credibilidade da fonte pode influir na aceitação da mensagem por parte do receptor:
Este e outros estudos semelhantes indicam que o problema da credibilidade da fonte não diz respeito à quantidade efetiva da informação recebida, mas à aceitação das indicações que acompanham essa informação. Por outras palavras, pode existir apreensão do conteúdo, mas a escassa credibilidade da fonte seleciona a sua aceitação.5
Igualmente a ordem de uma eventual argumentação, sendo os argumentos que se desejam passar postos no início ou no fim do debate seriam mais eficazes.
4 KLAPPER, T.J. The Science of Human Communication. New York: Basic Books. Tradução it. In Livosli M. (a cargo de), Communicazioni e cultura di massa, Hoepli, Milão, 1969, pp. 245-251.
A colocação das conclusões colocadas de forma implícita ou explícita também influiria na forma como a mensagem seria recepcionada pelo público o qual se deseja transmiti-la.
Um dos grandes estudos foi sobre a viabilidade se de se transmitir a integralidade ou não das argumentações, se seria mais adequado pôr apenas os pontos mais favoráveis ou as vantagens e desvantagens, sendo realizada pesquisa com os soldados americanos sobre a manutenção da guerra antes da queda definitiva do chamado Eixo do Mal durante a 2ª Grande Guerra. Os resultados foram os seguintes: das duas mensagens radiofônicas elaboradas para esse fim, a primeira (one side) expõe apenas os motivos que apontam para o prolongamento da guerra para além das expectativas excessivamente optimistas dos soldados, enquanto o segundo programa (quatro minutos mais longo) apresenta igualmente (both sides) os argumentos relativos às vantagens e à notável superioridade da máquina de guerra americana sobre o exército japonês. Em resumo, a mensagem confirma que a guerra será longa e dura, tendo, contudo, em consideração os factores positivos da situação americana relativamente à japonesa.
Aqueles que possuem um grau de instrução mais elevado, são mais favoravelmente influenciados pela apresentação de ambos os aspectos da questão; aqueles que possuem um grau de instrução mais baixo são influenciados sobretudo pela comunicação que expõe apenas os argumentos a favor do ponto de vista defendido. O grupo em relação ao qual a apresentação de ambos os aspectos do problema não é minimamente eficaz é composto por aqueles que possuem um grau de instrução mais baixo e já estão convencidos da posição que constitui o objecto da mensagem.6
A Teoria da Persuasão, em que pese ter seu campo de estudos baseado em situações de campanha, e ainda que alguns de seus resultados tenham sido obtidos em um âmbito restrito de ação, teve o mérito de esquematizar o modo como se dá em grande parte, a assimilação de conteúdos por parte da população diante da atuação dos meios de comunicação de massa.
3.1.3 Teoria dos Efeitos Limitados
Enquanto a teoria hipodérmica tratava a relação entre os meios de comunicação e a sociedade como a de manipulação, e a teoria empírico-experimental a de persuasão, a teoria dos efeitos limitados concebia uma relação de influência.
O termo influência revela uma minimização, sendo a influência mais branda que a persuasão e a manipulação. A manipulação se relaciona ao controle, sendo como já observado que nos enunciados da teoria da bala mágica que a mensagem proveniente dos meios de comunicação controlaria a opinião da massa. A palavra persuasão se relaciona com convencimento, tendo a mídia uma forte capacidade de convencer a opinião da população.
O termo influência revela uma menor importância ou menor intensidade, tendo em vista que a influência não é única, existindo diversas influências no pensamento e comportamento humano, sendo a mensagem midiática apenas mais uma.
As relações pessoais apresentam influência mais intensa que a da mensagem midiática, de modo que esta deve observar aquela para que venha à gerar maiores efeitos.
De facto, os efeitos de reforço prevalecem sobre os efeitos de conversão e, acima de tudo, a influência pessoal que se desenvolve nas relações entre indivíduos parece ser mais eficaz do que a que deriva directamente dos mass media. A natureza da influência pessoal, que é diferente da natureza da influência interpessoal dos mass media, motiva a sua eficácia que resulta do facto de estar inextrincavelmente ligada à vida do grupo social e nela enraizada. Se é certo que aqueles que se revelam mais indecisos nas suas atitudes de voto são também os que se expõem menos à carnpanha dos mass media, os contactos pessoais são mais eficazes do que os mass media, precisamente porque podem atingir mesmo aqueles que, potencialmente, estão mais predispostos a mudar de atitude. Se a comunicação de massa depara, inevitavelmente, com obstáculo da exposição e percepção selectivas, a comunicação interpessoal, pelo contrário, ostenta um maior grau de flexibilidade perante as resistências do destinatário. Se a credibilidade da fonte se reflecte na eficácia de urna mensagem persuasiva, é provável que a fonte impessoal dos mass media se ache em desvantagem em relação às fontes, essas bem conhecidas, que são próprias das relações interpessoais; por outro lado, enquanto uma mensagem da campanha eleitoral é entendida como sendo destinada a um objectivo preciso, a influência que resulta das relações interpessoais pode estar (ou parecer) menos ligada a finalidades específicas de persuasão. É este o carácter particular da influência pessoal que a coloca em vantagem em relação à eficácia dos mass media, limitando assim os efeitos destes.7
7 LAZARSFELD, P.; BERELSON. B; GAUDET. H. The People´s Choice: how the Voter Makes Up his Mind in a Presidential Campaign, 2. ed. Columbia: University Press, Nova Iorque, 1944.
O Meio de Comunicação deve selecionar o grupo, e apenas depois viria a ter influência nesse grupo. Assim se definiriam os efeitos pré-selecionados e os efeitos posteriores, um dos pontos básicos do estudo.
De fato, é inegável que a atuação dos meios de comunicação possa vir a persuadir o indivíduo e a população a pensarem de determinada forma, bem como por vezes venha a manipular a mente das pessoas. Contudo, entende-se quem em geral o efeito seja o de influência, disputando com outros meios de influência na vida do indivíduo, os comportamentos e pensamentos deste.
Da mesma forma, observa que nas duas teorias anteriormente expostas, trabalhavam com uma relação direta entre a atuação midiática e o comportamento, sendo esta absoluta na Teoria Hipodérmica, e na Teoria da Persuasão mitigada à forma como a mensagem seria passada e a quem seria passada, enquanto na Teoria dos Efeitos Limitados esta relação não seria direta, dependendo ainda de diversos outros fatores.
Igualmente, enquanto nos estudos anteriores ou não se estudam os filtros individuais, ou estes possuem natureza psicológica, agora eles têm natureza social.
3.1.4 Teoria Funcionalista
Na Teoria Funcionalista a abordagem é de maior amplitude, e o estudo se baseia não nos eventuais efeitos da mídia e sim em sua função na sociedade.
São apresentados quatro problemas fundamentais, ou imperativos funcionais, que todo sistema social deve enfrentar: 1) A Manutenção do modelo e o controle das tensões 2) A adaptação ao ambiente 3) A perseguição do objetivo 4) A
Integração.
Para essa Teoria, os meios de comunicação são eficazes na medida em que o receptor experimenta satisfações a suas necessidades.
Nessa teoria são apresentadas funções aos mass media no âmbito da sociedade, de modo que elas sejam cumpridas.
Tais funções podem ser relativas à sociedade como alerta os cidadãos contra perigos e ameaças, fornece instrumentos para se exercitar certas atividades, como por exemplo, as trocas econômicas. Também podem ser relativas ao indivíduo: atribuição de posição social e prestigio às pessoas que são objeto de atenção dos mass media, o reforço do prestígio por ser um cidadão bem informado, o reforço das
normas sociais, caráter ético, confirmando as normas sociais, denunciando seus desvios à opinião pública.
Contudo, também ocorrem, disfunções das comunicações de massa como: o fato do fluxo informativo dos mass media circular livremente pode ameaçar a estrutura fundamental da própria sociedade, e a exposição a grandes quantidades de informação pode provocar a chamada "disfunção narcotizante".
Em outros estudos são apresentadas necessidades que a mídia satisfaz: necessidades cognitivas: aquisição e reforço de conhecimentos e de compreensão, Necessidades afetivas e estéticas: reforço da experiência estética, emotiva, necessidades de integração a nível social: reforço dos contatos interpessoais, necessidades de integração a nível da personalidade: segurança, estabilidade emotiva, necessidade de evasão; abrandamento das tensões e dos conflitos.
3.1.5 Teoria do Agendamento
Com o passar dos tempos, a teoria da comunicação de um modo geral ganhou um novo enfoque.
Passou-se a estudar o modo como ocorreria o controle de informações por parte dos meios de comunicação. Estes, com a cobertura que fazem dos fatos que ocorrem em seu âmbito de alcance, teriam a possibilidade de divulgá-los da forma como melhor lhe aprouvessem, bem como se fosse de seu interesse, não divulgá-los.
Neste contexto, surge a Teoria do Agendamento, que se baseia na ideia de que a mídia determina a pauta (em inglês, agenda) para a opinião pública ao destacar determinados temas e preterir, ofuscar ou ignorar outros tantos.
Lippmann8 propôs a tese de que as pessoas não respondiam diretamente
aos fatos do mundo real, mas que viviam em um pseudo ambiente composto pelas "imagens em nossas cabeças". A mídia teria papel importante no fornecimento e geração destas imagens e na configuração deste pseudo ambiente.
A Mídia decide o que será efetivamente veiculado e passado à população, de modo que, ainda que sua mensagem possa não ter o efeito no referente a manipular a forma de pensar do indivíduo e da população, haverá de restringir de
8 LIPPMANN, Walter. Jornalista norte-americano, autor do livro “Public opinion”, 1922. Disponível em: <htpp://www.observatoriodaimprensa.com.br>. Acesso em: 00 fev. 2016.
algum modo o conteúdo o qual este haverá de pensar em relação a assuntos que não sejam de seu cotidiano normal.
Tendo em vista as ligações dos dirigentes dos principais meios de comunicação, poderosas figuras, com outras poderosas figuras sócias, como políticos, empresários, e altos criminosos, muitas das vezes eventuais ações ilícitas dos mesmos, não são divulgadas por aqueles.
Interessante se tomar como um exemplo a esta teoria, os fatos envolvendo a proibição dos jogos de azar no Brasil:
Se Assis Chateaubriand, antevendo as consequências, recusou-se a publicar na revista O CRUZEIRO as fotos escondidas que seu principal fotógrafo tirara da dinheirama correndo solta pelas mesas do Cassino Atlântico (afinal, o dono do estabelecimento era seu amigo e todos os cassinos anunciavam nos Diários Associados”), Roberto Marinho, do concorrente O GLOBO, não desperdiçou a oportunidade. Durante o mês de abril, O Globo publicou uma série de reportagens que chocou os brasileiros. Dutra se viu obrigado a, no dia 30, baixar o decreto que proibiu o jogo no país. Mais de quarenta mil pessoas que trabalhavam de forma direta ou indireta nos 79 cassinos em atividade no Brasil estavam no olho da rua.9
Neste caso, não adentrando-se evidentemente no mérito acerca da legalização dos jogos de azar, é possível se vislumbrar a seletividade na cobertura dos meios de comunicação. Enquanto o Diário Cruzeiro, em decorrência da amizade de seu dirigente com o dono do cassino, bem como dos lucros que recebia dos anúncios, não veiculou as fotos chocantes acerca dos jogos de azar, o Jornal O GLOBO, não possuindo qualquer vínculo com o Cassino, publicou massivamente as fotos de forma a ganhar muito com isso, tendo influência (recordando os ensinamentos da Teoria Funcionalista) tão grande ao ponto de alterar a legislação vigente com a proibição dos jogos de azar.
Da mesma forma, a maior emissora de televisão do Brasil, que constantemente divulga informações acerca de processos judiciais, se encontra em um processo milionário de sonegação de impostos na Receita Federal, e este nunca foi divulgado em qualquer notícia pelo mesmo canal de comunicação obviamente, de modo que agendamento se torna manifesto nesta situação.
Segundo informações veiculadas em blogs na internet, a emissora teria usado 10 empresas criadas em paraísos fiscais para esconder a fraude. Com o
esquema, o sistema Globo teria incorrido em simulação e evasão fiscal. O imposto sobre importâncias enviadas para o exterior para aquisição de direitos de transmissão no caso da empresa beneficiária estar sediada em paraísos fiscais seria de 25%, se fosse pago, e deveria mais de R$ 600 milhões aos cofres públicos porque sonegou o imposto decorrente da compra dos direitos de transmissão da Copa de 2002. Contudo, este fato não foi em nenhum momento noticiado pela emissora, sendo o público que a assiste afastado de informações acerca do assunto. Tal fato só pôde ser visto em ocasião na qual candidato ao governo do Estado do Rio de Janeiro foi questionado acerca de processos judiciais, no que o mesmo veio a questionar a entrevistadora acerca deste processo a Receita Federal, para revolta da jornalista.
Destarte, com o efetivo controle da informação realizada pelos meios de comunicação, a sociedade vem a determinar parte dos assuntos que são discutidos dentro do corpo social, bem como omite muitos assuntos que não são de seu interesse divulgar. Shaw afirma:
A hipótese do agenda-setting não defende que os mass media pretendam persuadir [...]. Os mass media, descrevendo e precisando a realidade exterior, apresentam ao público uma lista daquilo sobre que é necessário ter uma opinião e discutir. O pressuposto fundamental do agenda-setting é que a compreensão que as pessoas têm de grande parte da realidade social lhes é fornecida, por empréstimo, pelos mass media.10
De modo a se avaliar o modo como ocorreria esse agendamento, a teoria desenvolveu a figura do agenda setting, analisando o modo como os profissionais da comunicação
Os estudos sobre os gatekeepers ("guardiões do portão") analisam o comportamento dos profissionais da comunicação, de forma a investigar que critérios são utilizados para se divulgar ou não uma notícia. Isso porque estes profissionais atuariam como guardiões que permitem ou não que a informação "passe pelo portão", ou melhor, seja veiculada na mídia. A decisão de publicar algo ou não publicar depende principalmente dos acertos e pareceres entre os profissionais, que estão subordinados a uma cultura de trabalho ou uma política empresarial e ainda aos critérios de noticiabilidade. E que não raro exclui o contato
10 SHAWN, Donald. The Agenda Setting Function of Mass Media. 1979. In: WOLF, Mauro. Teorias da
Comunicação. Lisboa: Editorial Presença, 1995, p. 96. Disponível em: <http://www.intercom.org.br>.
com o público. Nesta teoria é levado muito em conta a percepção do próprio editor (gatekeeper) sobre como ele planeja anunciar a notícia e qual caminho este dará a ela. Ou seja, o editor não leva em conta o contexto social em que a notícia será publicada e sim sua própria percepção e suas experiências.
Os ''porteiros da informação'', ao ter conhecimento acerca de determinado fato, fazem um juízo de conveniência acerca dos eventuais efeitos que a notícia poderá provocar.
Da mesma forma, compreende-se que uma determinada informação que venha a gerar benefícios ao meio de comunicação passa por um "tapete vermelho", que é o sensacionalismo.
Deste modo são diversas as abordagens que estudam o modo como os meios de comunicação social atuam ao passar a informação à população, de modo a se beneficiar ao máximo o possível desse processo.
4 O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
Com o gradativo enfraquecimento das monarquias absolutistas no mundo ocidental, foi surgindo o conceito de Estado de Direito.
O Estado de Direito vêm a ser a definição do modelo estatal no qual todos e cada um, compreendendo-se todas as personalidades de um Estado, inclusive o próprio e suas representações, estão submetidos ao direito e a lei,
Dentre outras características se encontram a separação de poderes, marco do afastamento do absolutismo proposta inicialmente por Montesquieu11, o qual
apresenta a idéia de que três poderes deveriam ser distinguidos: o executivo, o legislativo, e o judiciário, no qual cada poder ocuparia uma função básica. O Legislativo, teria a função de elaborar as leis e fiscalizar; o Executivo, administrar a máquina pública; o Judiciário, julgaria, realizando a aplicação das leis em casos concretos nas resoluções de lides dos cidadãos entre si, ou entre estes e o Estado. Da mesma forma, os poderes ou funções haveriam limitar eventuais excessos cometidos, um pelo outro. A moderna doutrina vêm substituindo o termo "poderes" por "funções", tendo em vista que o poder do Estado é de fato uno e indivisível.
No Estado de Direito, da mesma foram consagrados os direitos individuais, que visavam garantir que o indivíduo teria certa gama de direito, exercido dentro do seu limite, protegido contra todos, inclusive contra o Estado, o que em geral não ocorria na ordem anterior, onde o Estado quase sempre impunha sua vontade sobre o homem.
Apesar de representar grande avanço no âmbito sócio-estatal, em decorrência de retirar o Estado da esfera de onipotência absoluta que caracterizava o absolutismo, o Estado de Direito apresentava fortes inconvenientes.Assim como os movimentos que lhe inspiraram, como a Independência norte-americana e a Revolução Francesa, o Estado de Direito possuía origem burguesa, e consequentemente liberal, de modo que prioritariamente era defendido como direito individual a propriedade.Dessa forma quem efetivamente possuía propriedade, no sentido de riqueza, que eram uma pequena minoria, governavam, tendo em vista as diversas restrições ao processo eletivo, e eram beneficiados com as benesses do Estado.
O Estado de Direito veio a evoluir para o Estado Democrático de Direito. No Estado Democrático de Direito, sem dúvida, ascendem como valores primordiais as democracias e os direitos fundamentais.
A democracia, termo oriundo do grego democratia, cujo significado é "governo do povo" vêm a ser o regime político no qual a população vem a ser o poder que comanda o governo, seja diretamente, no que se chama democracia direta, ou indiretamente, democracia indireta. O parágrafo único do art 1 da Constituição Federal de 1988, explicita essa ideia: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio do representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta condição”.12
Da mesma forma, com o Estado Democrático de Direito advieram os chamados direitos fundamentais de segunda geração, abrangidos nestes os direitos sociais, culturais, econômicos e coletivos. De fato, não se poderia pensar em um estado democrático apenas no qual todos poderiam teoricamente votar por meio do voto, mas também uma sociedade na qual todos podem de alguma forma usufruir da ordem estatal vigente, diferenciando-se assim do liberalismo, no qual apenas os que possuem propriedade haveriam de vislumbrar benefícios em viver naquele tipo de Estado.
Em que pese a ocorrência de tentativas anteriores, a efetiva consolidação do Estado Democrático de Direito no Brasil se deu com a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, que é a organização jurídica fundamental vigente no pais.
12 BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br>. Acesso em: 21 fev. 2016.
5 O DIREITO PENAL
O Direito Penal é o conjunto de normas jurídicas mediante as quais o Estado proíbe determinadas ações ou omissões, sob ameaça de característica sanção penal, segundo conceito de Heleno Fragoso.
Para Von Liszt é o "Conjunto de normas jurídicas que regulam a atuação estatal no combate contra o crime, através de medidas aplicáveis aos criminosos", citado por Aníbal Bruno.13
O objetivo primordial do Direito Penal deve ser a defesa da sociedade, pela guarda dos bens jurídicos, que são os valores reconhecidos pelo direito, como a vida, a integridade física, o patrimônio, a honra, a paz publica.
O Direito Penal, engloba as ações definidas pela lei como crimes, os tipos penais, bem como as penas que devam ser cominadas a essas condutas.
Contudo, de modo que se faça a associação entre determinada conduta e do indivíduo com a pena prevista em lei, ou essa associação não seja feita no caso de ser devida, se faz necessário o devido processo legal no bojo do processo penal do Estado Democrático de Direito, de modo a se apurar se o indivíduo realmente cometeu ou não a conduta delituosa, bem como o grau de sua culpabilidade segundo o ordenamento jurídico e a lei, sendo necessária a máxima observação destes de modo a se evitar que injustiças venham a serem cometidas, sendo que a injustiça pode levar um inocente à prisão por um crime que ele não cometeu, bem como poderá denegrir sua imagem de forma pública e irremediável.
É nesse momento que a atuação dos meios de comunicação pode vir a afetar o Estado Democrático de Direito.
13 LISZT, Franz Von. 2005 apud BRUNO, Aníbal. Direito Penal parte Geral, tomo 2º, 3. ed., São Paulo: Editora Forense, 1967.
6 O PROCESSO PENAL
De modo a se efetivar o devido processo legal na esfera penal, se faz necessária a atuação do Poder Judiciário.
O ramo do direito que estuda à atividade de jurisdição do Estado no julgamento do crime e do indivíduo acusado de ter cometido um crime é o Direito Processual Penal.
O Processo Penal é o modo como Estado julga se o indivíduo cometeu ou não o crime, bem como sua culpabilidade no caso.
Contudo, não se restringe apenas a essa função, tendo em vista que no Estado Democrático de Direito, isso seria muito pouco. Segundo Rômulo de Andrade Moreira:
O Processo Penal funciona em um Estado Democrático de Direito como um meio necessário e inafastável de garantia dos direitos do acusado. Não é um mero instrumento de efetivação do Direito Penal, mas, verdadeiramente, um instrumento de satisfação de direitos humanos fundamentais e, sobretudo, uma garantia contra o arbítrio do Estado. Aliás, sobre processo, já afirmou o mestre Calmon de Passos, não ser “algo que opera como simples meio, instrumento, sim um elemento que integra o próprio ser do Direito.14
De fato, o processo penal funciona como modo de garantir que o indivíduo venha à ser devidamente julgado, sem arbítrios ou atropelamentos, tendo seus direitos garantidos e a possibilidade de ter sua liberdade preservada.
Em regimes autoritários, o indivíduo pode vir a ser sob uma ótica legal, julgado de forma sumária e sem um regramentos de garantias, de modo que não se pode ter segurança acerca da manutenção de sua liberdade. O processo penal democrático, tem suas regras amplas e definidas, de modo que se há todo um conjunto de defesas contra atos arbitrários do Estado.
É possível se vislumbrar esse conjunto nos diplomas legislativos processuais penais, como o Código de Processo Penal, no capítulo das nulidades, no qual, em diversas ocasiões em que um ato do processo for feito de forma inadequada, o mesmo será anulado, fomentando assim um procedimento rigoroso de exatidão, de modo a se proteger o indivíduo que está sendo processado.
14 Moreira, Rômulo de Andrade. O Processo Penal como instrumento da Democracia. Disponível em: <http://www.jurisite.com.br/doutrinas/Penal/douttpen65.html>. Acesso em: 21 fev. 2016.
Destarte é possível se observar como o Processo Penal é também um instrumento para a efetivação dos direitos humanos. Nas palavras de Ada Pelegrini Grinover,
o processo penal não pode ser entendido, apenas, como instrumento de persecução do réu. O processo penal se faz também – e até primacialmente – para a garantia do acusado(...) Por isso é que no Estado de direito o processo penal não pode deixar de representar tutela da liberdade pessoal; e no tocante à persecução criminal deve constituir-se na antítese do despotismo, abandonando todo e qualquer aviltamento da personalidade humana. O processo é uma expressão de civilização e de cultura e consequentemente se submete aos limites impostos pelo reconhecimento dos valores da dignidade do homem.15
O Processo Penal se divide em alguns sistemas em decorrência da forma procedimental pelo qual corre o feito, sendo classificado como inquisitivo, acusatório ou misto.
No sistema inquisitivo, as funções de acusação, defesa e julgamento se concentram no mesma figura processual. Desta forma, ficava impossibilitado o contraditório, da mesma forma que se tratava de uma culpa quase presumida, vindo o indivíduo após eventualmente ser denunciado por um crime, invariavelmente condenado, caso não tivesse influência suficiente para persuadir o magistrado para a absolvição.
Com o fortalecimento dos direitos humanos, surgiu o sistema acusatório, no qual as figuras processuais do acusador, da defesa e do julgador são separadas.A ampla defesa , o contraditório, e a publicidade são princípios a serem observados. Trata-se do sistema processual devido ao Estado Democrático de Direito.
O Sistema misto, como seu próprio nome já deixa claro, é uma fusão entre os dois sistemas anteriores. Enquanto algumas partes são feitas no modo inquisitivo, como a investigação policial, conquanto as outras estejam no sistema acusatório.
Existe ampla discussão doutrinária acerca de qual é de fato o modelo processual brasileiro, se acusatório ou misto. De fato, existem elementos inquisitivos no processo penal brasileiro, como o inquérito policial, bem como a possibilidade de produção de provas de ofício pelo magistrado prevista no art 156 do Código de Processo Penal. Contudo, sendo o Brasil um Estado Democrático de Direito, e
15 GRINOVER, Ada Pelegrini. Liberdades Públicas e Processo Penal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2. ed., 1982, p. 20 e 52.
observando-se o princípio do contraditório, o sistema de processo penal é o acusatório, em que pese ocorrerem violações a este em normas legais como em dispositivos do CPP nos quais características inquisitoriais estejam presentes.
Como não poderia ser diferente a Constituição Federal vêm a regular os princípios fundamentais do Processo Penal Brasileiro. Dentre outros, se faz necessário destacar os que vêm a ser mais diretamente atingidos pela atuação midiática no âmbito do processo penal, que são o devido processo legal e a presunção de inocência.
7 O DEVIDO PROCESSO LEGAL
O Devido Processo Legal é um dos princípios basilares do Estado Democrático de Direito, do Constitucionalismo e do Processo Penal.
Se trata de um marco dos direitos humanos, representando de fato uma revolução na ordens jurídicas em todos os tempos, tendo em vista que foi observado dessa forma na Magna Carta de 1215 na Inglaterra, o documento histórico que veio à limitar o poder do absolutismo e sujeitando o Rei à lei, de modo que se trata do símbolo do inicío do Estado de Direito e do Constitucionalismo. Desta forma, se apresentam os arts. 38 e 39:
38.Nenhum bailio levará, de hoje em diante, alguém a julgamento, com base apenas na sua palavra, sem testemunhas dignas de crédito para apoiá-lo.
39.Nenhum homem livre será detido ou sujeito à prisão, ou privado dos seus bens, ou colocado fora da lei, ou exilado, ou de qualquer modo molestado, e nós não procederemos nem mandaremos proceder contra ele senão mediante um julgamento regular pelos seus pares ou de harmonia com a lei do país.16
Posteriormente a Declaração de Direitos da Virgínia, de 1776, veio a abarcar ideia semelhante, no art. VIII:
Que em todo processo criminal incluídos naqueles em que se pede a pena capital, o acusado tem direito de saber a causa e a natureza da acusação, ser acareado com seus acusadores e testemunhas, pedir provas em seu favor e a ser julgado, rapidamente, por um júri imparcial de doze homens de sua comunidade, sem o consentimento unânime dos quais, não se poderá considerá-lo culpado; tampouco pode-se obrigá-lo a testemunhar contra si própria; e que ninguém seja privado de sua liberdade, salvo por mandado legal do país ou por julgamento de seus pares.17
No bojo da Revolução Francesa, foi elaborada a Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, apresenta redação um pouco diferente, contudo, segue da mesma forma o princípio nos arts 7° e 8°:
16 MAGNA CARTA. 1215. Inglaterra. Declaração de Direitos do Bom Povo de Virgínia. Disponível em: <http://www.empreende.gov.br>. Acesso em: 22 fev. 2016.
17 DECLARAÇÃO DE DIREITOS DO BOM POVO DE VIRGÍNIA. 1776. Disponível em: <http://www.rolim.com.br/2002/_pdfs/0611.pdf>. Acesso em: 22 fev. 2016.
Artigo 7º- Ninguém pode ser acusado, preso ou detido senão nos casos determinados pela Lei e de acordo com as formas por esta prescritas. Os que solicitam, expedem, executam ou mandam executar ordens arbitrárias devem ser castigados; mas qualquer cidadão convocado ou detido em virtude da Lei deve obedecer imediatamente, senão torna-se culpado de resistência.
Artigo 8º- A Lei apenas deve estabelecer penas estrita e evidentemente necessárias, e ninguém pode ser punido senão em virtude de uma lei estabelecida e promulgada antes do delito e legalmente aplicada.18
Posteriormente diversas constituições vieram a reproduzir o devido processo legal em seus textos, de modo que se encontra de forma intrínseca no Estado Democrático de Direito.
No Direito Constitucional Brasileiro, infelizmente, o devido processo legal em termos amplos não era devidamente abordado. Na Constituição imperial de 1824, toma-se por exemplo o art. XI: ''Ninguém será sentenciado, senão pela Autoridade competente, por virtude de Lei anterior, e na fórma por ella prescripta.''19
A Constituição de 1946, do chamado interregno democrático, assim preceituava:
§ 25. É assegurada aos acusados plena defesa, com todos os meios e recursos essenciais a ela, desde a nota de culpa, que, assinada pela autoridade competente, com os nomes do acusador e das testemunhas, será entregue ao preso dentro em vinte e quatro horas. A instrução criminal será contraditória.20
Da mesma forma a Constituição de 1967 passa ao largo. Apenas com a Constituição de 1988 se encontrou devidamente regrado o devido processo legal. O princípio do devido processo legal, se encontra inserido no art 5°, LV da Constituição Federal: “LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”.21 É um princípio que abarca diveros ramos do direito.
18 DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDADÃO. 1789. Disponível em: <http://www.jusbrasil.com.br>. Acesso em: 22 fev. 2016.
19 BRASIL. Constituição Imperial de 1924. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br>. Acesso em: 22 fev. 2016.
20 BRASIL. Constituição Federal de 1946. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br>. Acesso em:
22 fev. 2016. 21 BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br>. Acesso em:
O devido Processo Legal visa a garantir que eventuais consequências acerca de ações realizadas pelo indivíduo não se darão antes que seja feito um julgamento acerca de sua efetiva culpa.
Contudo, muitas das vezes em decorrência dos atropelos ocorridos no âmbito social, o indivíduo vem a sofrer consequências antes mesmo do julgamento.
Os meios de comunicação muitas vezes vêm em sua atuação a ferir o devido Processo legal,adiantando consequências que não deveriam serem observadas antes de um processo.
A medida que o processo se inicia e o indivíduo já está condenado, seja pela opinião pública, seja por manifestações provenientes do Órgão julgador, não se vislumbra a ocorrência do devido processo legal.
Por vezes os meios de comunicação alardeiam de tal forma uma condenação, de modo que se cria uma expectativa social em relação a essa, de modo que essa vêm a influenciar a sentença de tal modo que, indecentemente das provas que venham a ser produzidas no bojo da instrução criminal. Desse modo, não ocorre o devido processo legal, tendo em vista que o processo estará por si, maculado com uma forte influência da pressão popular sobre a condenação, quando a vontade popular não deva vir a influenciar no feito, tendo em vista que nesse, apenas deva influir as provas e as fontes de direito.
O processo ao invés de cumprir sua função democrático de garantia dos direitos do acusado vêm a se tornar uma mera formalidade para uma condenação anunciada, de modo que se observa que o princípio constitucional é ignorado.
A conduta delituosa gera no corpo social em geral diversos sentimentos e atitudes negativas como desprezo, raiva, revolta e ódio. Especialmente os crimes contra a vida e demais crimes violentos, fazem com que o indivíduo se transfira mentalmente a situação da vítima ou algum parente desta, de modo que sua primeira consideração do caso é que o criminoso deva ser punido rigorosamente para seu castigo, bem como seja imediatamente afastado do convívio social, senão executado para os mais radicais, observando-se que em que pese a impossibilidade constitucional da pena de morte em tempos de paz, é comum escutar clamores nesse sentido.
De fato, mesmo entre os mais baixos segmentos sócio econômicos pode-se ouvir o brado de bandido bom é bandido morto, paráfrase de antiga frase de colonizadores que afirmavam que índio bom é índio morto é constantemente ouvida
no cotidiano popular, especialmente após um crime ser cometido e sua repercussão causada. Isto reflete, o sentimento causado na população de ódio e desejo de vingança ao crime e ao criminoso.
Os Meios de Comunicação Social se aproveitam da reação social causada para insuflar e estimular o sentimento de ódio na população e na sociedade em geral, de um modo que o direito, e o processo penal vêm a sofrer influência desse pernicioso processo.
É nesse contexto que os direitos fundamentais, como o devido processo legal e a presunção de inocência são atingidos, e a medida isso acontece, não apenas o processo penal, mas toda ordem jurídica, tendo em vista que, a medida que esses direitos basilares e corolários do Estado Democrático de Direito são atingidos com tamanha frequência, todos os outros direitos fundamentais também estão em perigo.
Destarte, à medida que a sentença condenatória está pronta, sendo o processo apenas formalidade, observa-se que o devido processo penal está maculado. Como princípio corolário do devido processo legal, se encontra a presunção de inocência.