UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS
CLAUDIA REGINA DE FREITAS
PRÓ-SOCIALIDADE EM ADOLESCENTES: UM PROGRAMA DE INTERVENÇÃO
CAMPINAS 2019
CLAUDIA REGINA DE FREITAS
PRÓ-SOCIALIDADE EM ADOLESCENTES: UM PROGRAMA DE INTERVENÇÃO
Tese apresentada à Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos
requisitos exigidos para a obtenção do título de Doutora em Saúde Coletiva, na área de Epidemiologia.
ORIENTADOR: CELSO STEPHAN
ESTE TRABALHO CORRESPONDE À VERSÃO
FINAL DA DISSERTAÇÃO/TESE DEFENDIDA PELA ALUNA CLAUDIA REGINA DE FREITAS, E ORIENTADO PELO
PROF. DR. CELSO STEPHAN
CAMPINAS 2019
BANCA EXAMINADORA DA DEFESA DE DOUTORADO
CLAUDIA REGINA DE FREITASORIENTADOR: CELSO STEPHAN
MEMBROS:
1. PROF. DR. CELSO STEPHAN
2. PROF. DRA. JULIANA LUPORINI DO NASCIMENTO
3. PROF. DR. CARLOS ROBERTO SILVEIRA CORREA
4. PROF. DRA. MIRIA BENINCASA GOMES
5. PROF. DRA. ANDREIA MARIA PEDRO SALGADO
Programa de Pós-Graduação em SAÚDE COLETIVA da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas.
A ata de defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no SIGA/Sistema de Fluxo de Disencontra-sertação/Teencontra-se e na Secretaria do Programa da FCM.
Dedico este trabalho à minha Família:
Meu pai, José Martins e minha mãe, Nazaré que do alto de sua sabedoria pouco letrada sempre me apoiaram no caminho dos estudos e da formação;
Aos meus irmãos e irmãs; e aos sobrinhos queridos que sempre se dispuseram a me ajudar em qualquer situação.
AGRADECIMENTOS
Ao professor Celso Stephan, pela paciência e dedicação com que me orientou e auxiliou na realizado deste trabalho.
Aos gestores e suas instituições que gentilmente abriram suas portas e fizeram todo o possível para que eu pudesse usar suas instalações e recursos para desenvolver minha pesquisa.
A cada um dos 38 participantes deste estudo; sem sua colaboração não seria possível concretixzar as etapas desta pesquisa. Agradeço por sua disponibilidade, respeito, compreensão, e por tudo que aprendi nesses grupos ao longo de cada encontro realizado.
A CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) pela concessão de Bolsa durante três anos, possibilitando a dedicação aos estudos e a cada detalhe necessário no desenvolvimento de toda a pesquisa de campo.
A minha família; pai, mãe, irmãos, sobrinhos, cunhados: Obrigada! Pelo amor incondicional, paciência e tolerância em cada momento de alegria ou de dor.
Ao Beto, meu amor, meu companheiro, que desde a ideia de submissão de um projeto para seleção num programa de pós-graduação esteve ao meu lado, com seu apoio, paciência e carinho.
Às “Pretty Little Girls” pelo apoio incondicional ao longo desses quatro anos, e de toso os outros anos anteriores de uma amizade verdadeira, realista e afetiva.
Por fim, agradeço a Deus Pai Celestial que tem me permitido sonhar, concretizar e agradecer conquistas e realizações.
“O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001”.
Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena!
Quem quer passar além do Bojador, Tem que passar além da dor
Deus, ao mar o perigo e abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu!
RESUMO
Considerando os inúmeros aspectos de condições sociais que cercam os adolescentes na atualidade, a necessidade de lidar com as adversidades e problemas que se apresentam a essa população converge para a necessidade de se proporcionar mecanismos de enfrentamento dessa realidade, e a necessidade de investimentos em políticas públicas especificas e eficazes para esse grupo específico da população (adolescentes), que está continuamente exposto à situações de vulnerabilidade; entre essas situações as condições de violência enfrentadas em diferentes contextos. Diante dessa realidade é que se propõe o estudo, visando compreender os comportamentos de adolescentes a partir da utilização de instrumentos de avaliação e aplicação de um programa de pró-socialidade com vistas a propor alternativas de enfrentamento dessa realidade no âmbito escolar; e possibilitar uma via de promoção de saúde. Esse estudo se propôs a avaliar um programa de intervenção pró-social em adolescentes em ambiente escolar; verificando os níveis de pró-socialidade; observando as mudanças nos comportamentos; e, testando estatisticamente as possíveis diferenças. Participaram do estudo 38 adolescentes, regularmente matriculados em duas escolas públicas municipais de uma cidade do interior do estado de São Paulo, na região do Vale do Paraíba; foram constituídos dois grupos (n=19), um em cada escola; foi aplicado um questionário socieconômico para caracterizar demograficamente a amostra e uma escala do tipo likert para mensurar o grau de pró-socialidade; posteriormente realizou-se uma intervenção empregando um Programa de Pró-socialidade em 20 encontros; durante um semestre letivo em cada escola, e realizou-se uma avaliação de follow-up após seis meses; também foi empregado um Diario de Capo para registro das reflexões e impressões da pesquisadora em cada encontro. Para análise dos dados foi empregado o Test t para amostras dependerntes e independentes, A regressão logística Binária e a Análise de medidas repetidas. Apesar de os tamanhos de efeito apresentados nas análises de medidas repetidas não serem considerados grandes, observou-se que existem tendências positivas no desenvolvimento e mantenção dos comportamentos pró-sociais entre os adolescentes da amostra; e maior tendência positiva entre as participantes do sexo feminino do que entre aqueles do sexo masculino.
ABSTRACT
Considering the numerous aspects of social conditions that surround adolescents today, the need to deal with the adversities and problems that present themselves to this population converges to the need to provide mechanisms to face this reality, and the need for investments in public policies specific and effective for this specific group of the population (adolescents), which is continually exposed to situations of vulnerability; between these situations the conditions of violence faced in different contexts. Facing this reality is that the study is proposed, aiming to understand the behaviors of adolescents from the use of instruments of evaluation and application of a program of pro-sociality with a view to propose alternatives to face this reality in the school context; and enable a path of health promotion. This study aimed to evaluate a program of pro-social intervention in adolescents in school settings; verifying the levels of pro-sociality; observing changes in behaviors; and, statistically testing for possible differences. Thirty-eight adolescents, regularly enrolled in two municipal public schools of a city in the interior of the state of São Paulo, in the Vale do Paraíba region, participated in the study; two groups were formed (n = 19), one in each school; a socioeconomic questionnaire was applied to demographically characterize the sample and a likert-type scale to measure the degree of pro-sociality; later an intervention was carried out employing a Pro-Sociality Program in 20 meetings; during a semester in each school, and a follow-up evaluation was performed after six months; a Capo Journal was also used to record the reflections and impressions of the researcher at each meeting. For the analysis of the data, we used the t test for dependent and independent samples, the Binary Logistic Regression and the Analysis of Repeated Measures. Although the effect sizes presented in the repeated measures analyzes were not considered large, it was observed that there are positive trends in the development and maintenance of the pro-social behaviors among the adolescents in the sample; and a greater positive trend among female participants than among male participants.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Seleção das escolas participantes ...55 Figura 2 - Esquema de aplicação de avaliações e intervenção ...56 Figura 3 - Esquema de comparação dos dados. ...57 Figura 4 - Niveis de Vulnerabilidade social no município de Taubaté de acordo com o grupo de vulnerabilidade. Fonte: Índice Paulista de Vulnerabilidade Social/IPVS. São
Paulo, 2010. ...64
LISTA DE TABELAS
Tabela 1– Distribuição de questões e graus de pró-socialidade da escala EAP-A ...47
Tabela 2 - Classificação do Tamanho do Efeito ...60
Tabela 3 – Caracterização da amostra ...62
Tabela 4 - Comportamentos positivos observados durante os encontros na Escola A. ...69
Tabela 5 - Comportamentos positivos observados durante os encontros na Escola B ...70
Tabela 6 - comportamentos negativos observados na escola a ...71
Tabela 7 - Comportamentos negativos observados na Escola B ...72
Tabela 8- Teste de normalidade da Escola A ...76
Tabela 9- Teste de normalidade da Escola B ...76
Tabela 10- Teste de normalidade da amostra total ...77
Tabela 11- teste t pareado Escola A ...78
Tabela 12- Teste t pareado Escola B ...80
Tabela 13 Análise de regressão logística binaria do grau de pró-socialidade (melhora / não melhora) em relação a seis variáveis independentes. ...86
Tabela 14– Médias, desvios-padrão, p-valor e Tamanho do Efeito da categoria Ajuda, nos 3 momentos de avaliação. ...87
Tabela 15 Comparações múltiplas da medida da categoria Ajuda, entre os 3 momentos de avaliação. ...87
Tabela 16– Médias, desvios-padrão, p-valor e Tamanho do Efeito da categoria Partilha, nos 3 momentos de avaliação ...92
Tabela 17- Comparações múltiplas da medida da categoria Partilha, entre os 3 momentos de avaliação. ...93
Tabela 18 – Médias, desvios-padrão, p-valor e Tamanho do Efeito da categoria Cuidado, nos 3 momentos de avaliação ...97
Tabela 19- Comparações múltiplas da medida da categoria Cuidado, entre os 3 momentos de avaliação ...97
Tabela 20– Médias, desvios-padrão, p-valor e Tamanho do Efeito da categoria Clima Positivo, nos 3 momentos de avaliação ...101
Tabela 21- Comparações múltiplas da medida da categoria Clima positivo, entre os 3 momentos de avaliação. ...101
Tabela 22– Médias, desvios-padrão, p-valor e Tamanho do Efeito da categoria Empatia, nos 3 momentos de avaliação ...105
Tabela 23- Comparações múltiplas da medida da categoria Clima positivo, entre os 3 momentos de avaliação ...105
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - Comparação de níveis de vulnerabilidade social no Estado de São Paulo e no Município de Taubaté. ...64 Gráfico 2 - IDHM do município de Taubaté em relação ao estado e ao país. ...66 Gráfico 3 - Grau de pró-socialidade da amostra geral nos diferentes momentos de
avaliação. ...81 Gráfico 4- Comparação do grau de pró-socialidade nas escolas em T1, T2 e T3. ...82 Gráfico 5 - Grau de pró-socialidade dos participantes da Escola A nos diferentes momentos de avaliação. ...83 Gráfico 6 - Grau de pró-socialidade dos participantes da Escola B nos diferentes momentos de avaliação ...84 Gráfico 7- Pontuação média para cada categoria de dimensões pró-sociais. ...85 Gráfico 8- Perfil da Categoria Ajuda ...88 Gráfico 9 Pontuação média em cada momento de avaliação para a categoria Ajuda em relação ao sexo. ...89 Gráfico 10- Pontuação média em cada momento de avaliação para a categoria Ajuda em relação a Escola. ...90 Gráfico 11- Perfil da Categoria Partilha ...94 Gráfico 12- Pontuação média em cada momento de avaliação para a categoria Partilha em relação ao sexo. ...95 Gráfico 13- Pontuação média em cada momento de avaliação para a categoria Ajuda em relação a Escola. ...95 Gráfico 14- Perfil da Categoria Cuidado ...98 Gráfico 15- Pontuação média em cada momento de avaliação para a categoria Cuidado em relação ao sexo. ...99 Gráfico 16- Pontuação média em cada momento de avaliação para a categoria Cuidado em relação a Escola. ...100 Gráfico 17- Perfil da Categoria Clima Positivo ...102 Gráfico 18- Pontuação média em cada momento de avaliação para a categoria Clima Positivo em relação ao sexo. ...103 Gráfico 19- Pontuação média em cada momento de avaliação para a categoria Clima Positivo em relação a Escola. ...104 Gráfico 20- Perfil da Categoria Empatia ...106 Gráfico 21- Pontuação média em cada momento de avaliação para a categoria Empatia em relação ao sexo. ...107 Gráfico 22- Pontuação média em cada momento de avaliação para a categoria Empatia em relação a Escola. ...108
LISTA DE QUADROS
Quadro 1- Classes de comportamentos pró-sociais (Roche e Sol, 1998). ...29
Quadro 2- Fatores “U” e Fatores “I” (Roche & Sol,1998). ...49
Quadro 3- Comportamentos pró-sociais em contexto escolar (Roche et al 1993)...50
LISTA DE SIGLAS
ABRINQ: Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos
AIDS: Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (acquired immunodeficiency syndrome ANOVA: Analysis of Variance/ Análise de variância
CNS: Conselho Nacional de Saúde DST: Doença sexualmente transmissivel ECA: Estatuto da criança e do adolescente
EPA-A: Escala de avaliação pró-social para adolescentes ESF: Estratégia saúde da família
FAO: Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação IBGE: Instituto brasileiro de geografia e estatística
IDHM:Índice de Desenvolvimento Humano por Município IPEA: Índice da população economicamente ativa
IPVS: Índice paulista de vulnerabilidade social IVS:Índice de vulnerabilidade social
LIPA: Laboratório de Investigação Pró-social Aplicada LST: Life skills training
OPAS: Organização Pan-Americana de Saúde PAIF: Programa de atenção integral à Família PNPS: Poliítica nacional de promoção à saúde
PNUD: Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento PROSAD: Programa Saúde do Adolescente
PSE: Programa de saúde na escola
RLEPS: Rede Latino-Americada de Escolas Promotoras de Saúde SUS: Sistema Único de saúde
UNESCO: Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura UNICAMP: Universidade Estadual de Campinas
UNICEF: Fundos das Nações Unidas para a Infância UNIFESP: Universidade Federal de São Paulo
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ... 17
1- INTRODUÇÃO ... 19
1.1 Adolescência ... 22
1.2 Pró-socialidade e Comportamentos pró-sociais ... 24
1.3 Vulnerabilidade: definições e conceitos ... 31
1.4 Promoção de Saúde ... 35
1.5 Estudos de intervenção com adolescentes em ambiente escolar ... 42
2.OBJETIVOS ... 44 2.1 Objetivo geral: ... 45 2.2 Objetivos específicos: ... 45 3.MÉTODO ... 46 3.1 Instrumentos ... 46 3.4 Participantes ... 54 3.5 Procedimentos ... 54
3.6 Análise dos dados... 57
3.6.1 O empresgo do Test t ... 58
3.6.2 Análise estatística de medidas repetidas ... 59
3.6.4 Tamanho do efeito ... 59
3.7 Aspectos éticos ... 61
4.RESULTADOS E DISCUSSÃO ... 62
4.1 Carcaterização da amostra ... 62
4.2 Diário de campo: Observações durante os encontros ... 67
4.3 A normalidade e a comparação dos dados ... 76
4.4 Graus de pró-socialidade ... 81
4.5 Indicadores de Dimensões de Pró-socialidade ... 84
4.5.1 Ajuda ... 86 4.5.2 Partilha ... 92 4.5.3 Cuidado ... 97 4.5.4 Clima Positivo ... 101 4.5.5 Empatia ... 104 5. CONCLUSÃO ... 113
5.1 Limitações e potencialidades do estudo ... 115
REFERÊNCIAS ... 118
APÊNDICES ... 136
Apêndice 1-Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ... 137
Apêndice 2 -Termo de Assentimento ... 140
Apêndice 3 - Carta de anuência da instiruição ... 142
Apêndice 4 -Lista de atividades programa UNIPRO ... 143
Apêndice 5- R scripts ... 145
ANEXOS ... 154
Anexo 1-Autorização para utilização da Escala. ... 155
Anexo 2-Autorização para selecionar sessões do Programa Troncal. ... 156
APRESENTAÇÃO
Este trabalho surgiu da intenção de compreender o universo dos comportamentos “adaptados” e “não adaptados” de adolescentes escolares e a possibilidade de melhoras a partir do emprego de intervenções e técnicas psicológicas a fim de colaborar para o bom desenvolvimento desta população dentro do ambiente escolar.
Devido à minha formação em Psicologia, pesquisar as interações e o comportamento humano de modo geral é algo que instiga e suscita sempre muitas hipóteses que impulsionam estudos. Desde a graduação me interessei em estudar e investigar cientificamente temáticas relacionadas à violência. Minha primeira pesquisa foi uma Iniciação científica patrocinada por um programa de bolsas da Universidade de Taubaté (onde me formei psicóloga); na qual estudei a violência doméstica contra crianças de até cinco anos de idade, na região do Vale do Paraíba (foram pesquisadas seis cidades da região); e traçado um perfil do tipo de violência que se praticava e quem eram os principais agressores entre os anos de 2006 e 2008.
Com os resultados desse estudo, verifiquei que mulheres/mães eram as principais agressoras; e apartir disso decidi desenvolver meu trabalho de conclusão de curso estudando as relações de mães toxicômanas agressoras de seus filhos.
Ao findar da graduação, apresentei um projeto de pesquisa para o Programa de Pós-Graduação Interdisplinar em Ciências da Saúde da Universidade Federal de São Paulo, e defendi o mestrado, em 2013, com uma dissertação intitulada: “Crianças vitimizadas pelos pais: como elas percebem suas famílias?”; na qual investiguei as percepções e representações de 12 crianças vítimas de violência em relação aos seus genitores/ agressores.
Passando por essa trajetória vinculada ao estudo da violência, da violência intrafamiliar; perpassando agressores e vítimas, decidi investigar um público até então desconhecido para mim no campo da pesquisa – os adolescentes -, por entender que muitos podem ter vivenciado experiências de violência que poderão impactar profundamente em seus futuros. Trata-se de uma população que se encontra num genuíno processo de construção e solidificação de identidade e por isso um momento ímpar para se acolher sofrimentos (se existirem) e proporcionar possibilidades de um futuro saudável tanto quanto possível, do ponto de vista da qualidade de vida e de saúde. Foi assim que, em 2015
ingressei no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, com um projeto de pesquisa, de intervenção propondo averiguar comportamentos pró-sociais em adolescentes estudantes de escolas públicas, e realizar uma intervenção de modo a mensurar seus resultados e poder, a partir disso inferir sobre a importância de se oferecer espaços de reflexão e discussão dentro das escolas acerca de temáticas que favoreçam o desenvolvimento de novas atitudes e comportamentos que amenizem situações violentas e promovam saúde e bem-estar.
1- INTRODUÇÃO
Entendendo o contexto da sociedade contemporânea como permeado por constantes avanços tecnológicos e intensas necessidades imediatistas, individualistas e egocêntricas; tornam-se visíveis as situações de vulnerabilidades em todos os níveis e a crescente vitimização do Homem em variadas modalidades. Além disso, a necessidade de se produzir ambientes e experiências de promoção/prevenção à saúde se tornam cada vez mais evidente nos diferentes campos de atuação da saúde coletiva.
Dificuldades econômicas que assolam todos os países desenvolvidos ou em desenvolvimento levam a quadros de revisão dos investimentos, inclusive aqueles destinados ao desenvolvimento humano e social, o que reflete diretamente na realidade e na qualidade de vida desses milhões de adolescentes. De acordo com dados do UNICEF (2011), 88% dos adolescentes vivem em países em desenvolvimento; 50% deles vivem nas regiões da Ásia Meridional ou do Leste da Ásia e Pacífico Em todas as regiões que dispõem de dados, o número de meninos adolescentes supera o de meninas, inclusive nos países industrializados.
Os adolescentes e jovens brasileiros vivem um momento ímpar na realidade do país estabelecida pela Constituição de 1988, que destacou a infância e a adolescência como prioridade absoluta, seguida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que veio consolidar todos os preceitos garantidos. De acordo com os dados apresentados no relatório “O direito de ser adolescente: Oportunidade para reduzir vulnerabilidades e superar desigualdades”, (UNICEF, 2011), os adolescentes desta década chagaram a essa fase da vida mais saudáveis e dispondo de mais recursos sociais para seu desenvolvimento; as taxas de mortalidade das últimas décadas refletem essa melhoria.
O relatório acima mencionado vem apontando de maneira muito direcionada para a necessidade de investimentos em políticas públicas específicas e eficazes na redução das vulnerabilidades a que esse grupo específico da população (adolescentes) está continuamente exposto, o próprio modo como se compreende esse momento do desenvolvimento pode ser determinante para a exposição ou para a diminuição da vulnerabilidade.
A adolescência em si já é um fator facilitador para a incidência de vulnerabilidade; o UNICEF (2011) elencou nove fatores que potencializam situações
adversas que geram e expõem os adolescentes brasileiros a situações vulneráveis. São eles: pobreza extrema; baixa escolaridade; exploração do trabalho; privação da convivência familiar e comunitária; violência que resulta em assassinatos de adolescentes; gravidez; exploração e o abuso sexual; DST/AIDS e abuso de drogas.
Estatisticamente a incidência desses fatores citados é muito maior nesse grupo populacional do que em qualquer outro na população brasileira, podendo levar a consequências permanentes para o indivíduo e para a sociedade. Quando esses fatores associam - se a: a) cor da pele; b) gênero; c) ter algum tipo de deficiência; e d) local onde vive, o quadro de vulnerabilidade se altera, podendo ser mais ou menos intenso (UNICEF, 2011).
No que se refere especificamente à saúde dessa população, observa-se que a adolescência era considerada o período do ciclo vital com menor risco de adoecimento e morte. Em relação à promoção da saúde mental, Knapp, McDaid e Parsonage (2011) apresentam o desenvolvimento de competências socioemocionais como uma das intervenções com o melhor investimento em relação ao custo benefício; pois há um crescimento das evidências de que o desenvolvimento de competências socioemocionais é crucial para a adaptação das crianças e adolescentes às exigências sociais (DAY; KOORLAND, 1997; GREENBERG et al., 2003).
No entanto, nas duas últimas décadas, observou-se um aumento da morbimortalidade nesse grupo populacional (CLARO et al, 2006), que tem sido relacionada, sobretudo, às consequências da violência, suicídios, acidentes e contaminação por doenças, resultantes das precárias condições de vida e iniquidade social a qual os jovens estão submetidos (MORAIS et al, 2010). De acordo com Moreira, Neto e Sucena (2003), o que explica tal situação é a conjunção diária entre a ausência de perspectivas de futuro, a pobreza, a exclusão social, delinqüência e violência estrutural.
Com as conjunturas sociais e econômicas atuais, a maioria dos adolescentes que vivem em centros urbanos está submersa em uma realidade de territórios permeados pela violência e por comportamentos antissociais1, o que vai contra ao preconizado pelo Estatudo da Criança e do Adolescente (1990), mas que se coloca como um desafio da
1 De forma geral, comportamentos antissociais são aqueles que transgridem as normas e expectativas sociais,
sem que o comportamento, necessariamente, constitua-se como uma infração legal. Nas relações sociais, os comportamentos que manifestam respeito, solidariedade, empatia e ajuda, são reconhecidos como comportamentos pró-sociais. Os comportamentos que envolvem conflitos, e geram manifestações de condutas agressivas são os chamados comportamentos antissociais, que são, de uma forma geral, tratados como opostos aos comportamentos pró-sociais (Saud & Tonelloto, 2005).
modernidade. A carência de espaços de promoção de saúde e de vivências potencialmente saudáveis fica evidente quando se observa, como apontam Pajares et al (2015), que mesmo instituições como a Escola, que deveriam promover resiliência e comportamentos pró-sociais, não escapam do cenário de violência, risco e vulnerabilidade; em contrapartida, a educação ainda é um dos mais fortes preditores de saúde (FREUDENBERG; RUGLIS ,2007; KERNS et al, 2011; PAULA MOREIRA; ANDREOLI, 2016).
Considerando o exposto, entende-se que as alterações de comportamentos eficazes e capazes de promover ações positivas na sociedade precisam ser aprendidas ao longo do ciclo da vida e, por isso o período mais influente na constituição da identidade do sujeito (ALVES, 1997) – a adolescência - revela-se como potencial momento de intervenção, na tentativa de estruturar comportamentos pró-sociais que desencadeiem transformações sociais significativas.
Na gênese dos comportamentos pró-sociais encontram-se vários processos do desenvolvimento psicológico, relacionados ao raciocínio moral, aprendizagem, autoregulação, influências familiares e sociais (AUNÉ et al., 2014); então, modelos de desenvolvimento da pró- socialidade podem ter um bom potencial para intervenção e prevenção junto a adolescentes em situação de vulnerabilidade (AZNAR-FARIAS; OLIVEIRA-MONTEIRO, 2006).
Além disso, segundo Caprara (2005), as respostas pró-sociais tornam-se relativamente estáveis no período do final da infância e início da adolescência, apontando assim para possibilidades de intervenções eficazes e de prevenção. De modo geral, Silva et al (2014) pontuam que conhecer e refletir sobre as percepções dos adolescentes acerca do seu contexto sociocomunitário impõe-se como desafio e exercício para compreender e transformar as práticas de saúde; partindo desse princípio é que se propõe o presente estudo. Desse modo, discutir a formação, a conduta e os comportamentos humanos é fundamental para construir mudanças de contexto e implantação de novas maneiras de agir sobre o ambiente e nas relações sociais que levem ao crescimento e desenvolvimento2.
Assim, o estudo visa compreender esse contexto; as dificuldades; e as experiências
2 Crescimento e desenvolvimento devem ser entendidos, aqui, como relativos à pulsão de vida. Conceito
estabelecido por Freud (1920) que afirmava que estas pulsões diziam respeito às excitações que induziriam à busca de objetos e à autoconservação. Assim, a pulsão de vida seria representada pelas relações “positivas” que estabelecemos com o mundo, com as outras pessoas e com nós mesmos.
de adolescentes escolares a partir da utilização de instrumentos de avaliação e aplicação de um programa de pró-socialide; e possibilitar uma via de promoção de saúde, visto que esse tipo de intervenção, de acordo com Pajares et al (2015), apresenta-se como alternativa ao polo negativo muitas vezes expresso nos comportamentos antissociais de adolescentes.
Esta primeira sessão apresenta os conceitos e os paradigmas que norteiam a discussão do estudo; em seguida apresentam-se os objetivos que se pretendem alcançar. Na Terceira parte, o Método, traz a descrição das ações tomadas pela pesquisadora, os intrumentos utilizados e o modo como foram aplicados e analisados, e apresenta a população estudada. Em seguida são apresentados os resultados e discutidos de acordo com o embasamento teórico previamente apresentado e, por fim, a pesquisadora apresenta suas considerações, as potencialidades e os limites deste trabalho.
1.1 Adolescência
A adolescência é compreendida como um período do desenvolvimento humano; quanto à sua definição, há uma pequena divergência entre o que aponta a Organização Mundial da saúde e o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990); a primeira (WHO, 1986) define como adolescência o período compreendido entre a faixa etária de dez a dezenove anos, e o segundo, define como a faixa etária de doze a dezoito anos. Já o Ministério da Saúde (2010), consoante com a Organização Mundial de Saúde (OMS), considera adolescente a pessoa na segunda década de vida, com idade entre 10 e 20 anos, e juventude o período dos 15 aos 24 anos de idade.
Essa fase do desenvolvimento é ainda caracterizada por uma subdivisão: fase inicial (dos dez aos catorze anos), e fase final (dos quinze aos dezenove anos). Na fase inicial é que ocorrem as mudanças corporais mais significativas, o desenvolvimento dos órgãos sexuais e das características sexuais secundárias; o crescimento rápido, e para além das transformações físicas visíveis, há inúmeras mudanças internas, tanto fisiológicas quanto psicológicas que podem gerar ansiedade e conflitos internos em relação à identidade do indivíduo nesse momento da vida (UNICEF, 2011).
autonomia. Embora ainda se considere muito a influência de pares, nessa etapa a segurança de si é algo mais consolidado garantindo maior independência. A capacidade de avaliar riscos e de tomar decisões também se desenvolve nessa fase; e um fator importante observado é que, os adolescentes nesse momento são mais propensos a usar álcool e outras drogas. É nessa fase que os adolescentes começam a se colocar de maneira efetiva no mercado de trabalho e a assumir papéis definidos na sociedade (UNICEF, 2011).
Apesar das tentativas em definir a adolescência, não se pode perder de vista que cada indivíduo vivencia essa experiência baseado em fatores particulares presentes em seu contexto dependendo de sua maturidade física, emocional e cognitiva. As inúmeras transformações que ocorrem com o adolescente afetam não só a si, mas a todo contexto ao seu redor, que podem implicar em conflitos e dificuldades relacionais e sociais. (PAJARES et al., 2015).
Deve-se cuidar para que não se reduza a Adolescência à particularidade de “adolescentes”, singulares. Trata-se antes, de compreender a possibilidade de identificar diferenças e singularidades em seres únicos, indivíduos imersos em suas realidades particulares, mas que compartilham uma fase de desenvolvimento comum (PERES; ROSENBURG, 1998).
O Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) preconiza que, cada adolescente, tem direito à saúde, à educação, ao esporte, ao lazer e à cultura, à formação para o trabalho, à convivência familiar e comunitária, à proteção especial. Tem direito de viver essa etapa da vida de forma plena, e de ter oportunidades para canalizar positivamente sua energia, sua capacidade crítica e seu desejo de transformar a realidade em que vive.
Um estudo lançado em 2011 pelo UNICEF aponta que há 1,2 bilhões de pessoas com idade entre dez e dezenove anos em todo o mundo, muitos contemplados por esforços de políticas públicas para suprir suas necessidades básicas e sociais. No Brasil, havia aproximadamente 45 milhões nesta faixa etária na mesma época, segundo o IBGE (2011), em 2016, dados do IBGE apontavam um somatório na casa dos 68 milhões de pessoas com idade entre zero e dezenove anos vivendo no Brasil, sendo a distribuição dessa população definida em 41,6% na Região Norte; 36,3% na Regiaão Nordeste; 29,9% na Região Sudeste; 30,4% na Região sul; e 33,5% na Região Centro-Oeste (ABRINQ, 2018).
Adolescentes e jovens representam mais de 20% de toda a população brasileira; com frágeis indicadores sociais, principalmente na Região Nordeste do país, onde a pobreza e os dados de frequência escolar revelam a desigualdade social e de
oportunidades (UNICEF, 2011). Segundo dados do IBGE, em 2015, cerca de 17,1 milhões de pessoas até catorze anos de idade viviam em situação de pobreza3; e 5,4 milhões, nessa mesma faixa etária viviam em extrema pobreza4 (ABRINQ,2018).
Sieving et al (2017) apontam que o crescimento da população jovem latina, combinado com a realidade de que muitos deles vivem em ambientes caracterizados por disparidades sociais, revela uma necessidade convincente de abordar as desigualdades em saúde que os afeta através de programas efetivos de promoção da saúde.
Atualmente o olhar sobre essa questão se amplia, pois se consideram “adolescências”, um plural de vivências que se cruzam em pontos comuns e se distanciam em questões culturais, socias e econômicas, principalmente numa área territorial tão ampla como o Brasil, que já traz em sua história as divergências de regionalismos.
O relatório do UNICEF (2011) anteriormente mencionado vem apontando de maneira muito direcionada para a necessidade de investimentos em políticas públicas especificas e eficazes na redução das vulnerabilidades a que esse grupo da população está continuamente exposto, o próprio modo como se compreende esse momento do desenvolvimento pode ser determinante para a exposição ou para a diminuição da vulnerabilidade.
1.2 Pró- socialidade e Comportamentos pró-sociais
A Pró-socialidade surgiu como uma temática da Psicologia Positiva e desde os anos 1960 também faz parte da agenda de pesquisas da Psicologia Social Participante (DOVIDIO; PILIAVIN; SCHROEDER; PENNER, 2006), e parte de diferentes perspectivas, como os processos biológicos, motivacionais, cognitivos e sociais. De acordo com Baston (1998) a temática do Comportamento Pró - social é um tema clássico de investigação na Psicologia Social.
McDougal, em 19085 definiu os comportamentos pró-sociais como o resultado de
3 Pessoas que vivem com renda domiciliar per capita mensal inferior ou igual a meio salário-mínimo. 4 Pessoas que vivem com renda domiciliar per capita mensal inferior ou igual a um quarto de salário-mínimo.
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MCDOUGALL, William. An investigation of the colour sense of two infants. British Journal of
emoções advindas do instinto parental (ESCOTORÍN; ROCHE, 2010). Oliner e Oliner (1988) definiram a conduta pró - social como uma maneira de superar o ato em beneficio pessoal e individualista, em prol de uma autonomia ligada ao outro, que não necessariamente pertence ao mesmo grupo. Eisenberg et al. (2006) definiram comportamento pró - social como aquele comportamento voluntário orientado ao beneficio do outro.
Outros autores definem comportamentos pró-sociais como qualquer ato que beneficie uma pessoa ou grupo e que seja considerado, por grande parte das pessoas como uma boa ação e ajuda. (DOVIDIO; PENNER, 2001; BASTON et al., 2003; PENNER et al, 2005; DOVIDIO et al, 2006). Esses comportamentos podem se constituir como fatores de proteção atuando na prevenção de problemas de comportamento (BOLSONI-SILVA et al., 2006; BIASOTTO- FEITOSA et al, 2009; DA ROCHA; SILVARES, 2010; RABELO, HEES ; PILATI, 2012; PAJARES et al, 2015).
A definição de pró - socialidade adotada neste trabalho é a exposta por Roche (1995), que aponta como comportamentos pró - sociais aqueles que não buscam recompensas externas, favorecem a outra pessoa e aumentam a probabilidade de respostas recíprocas positivas nas diversas relações sociais e interpessoais.
O comportamento social depende da relação que temos com os nossos parceiros de interação, de modo que o comportamento pró - social (incluindo exibições de equidade, confiança e reciprocidade) é empregado com base em experiências passadas com os parceiros de interação e a perspectiva de interações futuras (BURNHAM et al, 2000; DELGADO et al, 2005; VAN DER BOS et al, 2011).
Atualmente já se sabe que existem diferenças individuais que influenciam processos sócio-cognitivos no comportamento pró-social (PERUGINI; PRESTWICH, 2007; RABELO et al., 2012). Estudos apontam que alguns indivíduos possuem maior tendência a se comportar pró-socialmente em diversos contextos e regularmente ao longo da vida. (PENNER; FILKELSTEIN, 1998; PENNER; OROM, 2010). Os autores têm se referido a essas diferenças como uma orientação de “personalidade pró - social”, ou seja, uma tendência duradoura de agir e pensar orientado pró-socialmente; afirmam que isso se associa a um traço disposicional, ou seja, de “disposição para”; relacionado a vários tipos de comportamentos pró-sociais. Apesar das evidências disposicionais encontradas pelos autores, ainda se deve considerar os fatores situacionais, pois como apontam Fiske (2010) e Eisenberg et al (1999), a situação social na qual o sujeito está inserido pode ter
uma influência automática sobre seu comportamento; assim como se deve considerer as questões contextuais acerca da possibilidade de desenvolver condutas pró-sociais, que necessitam de aprendizado e apoio, por exemplo.
Houbre, Tarquinio & Lanfranchi (2010), e Shelley e Craig (2010) referem que respostas agressivas – verbais e físicas - em crianças, estão associadas a altos níveis de vitimização; e que a procura de apoio social é uma estratégia eficaz para meninas, que prevê menores níveis de vitimização. Por outro lado, buscar apoio social está associado a níveis de vitimização elevados em meninos.
De modo geral, o conceito de pró-socialidade pode ser compreendido como contrário ao conceito de comportamento “antissocial” (PAJARES et al, 2015). Todo comportamento pró-social, implica na aceitação ou satisfação do receptor desta ação. As ações pró-sociais devem ser orientadas ao bem específico do outro, supondo basicamente o cuidado e a estima pelo outro, seu bem estar, harmonia relacional, grupal e coletiva, salvaguardando a identidade, criatividade e iniciativa dos indivíduos ou grupos implicados; essas ações levam à geração de reciprocidade (ROCHE; SOL, 1998; ESCOTORIN; ROCHE, 2010).
Os comportamentos pró-sociais podem ser aprendidos, tornando-se importantes estratégias para prevenir a violência e a agressividade social; constituem fatores protetores e otimizadores da saúde mental (ROCHE, 1997; ROCHE; SOL, 1998), contribuindo para a diminuição dos comportamentos violentos, além de neutralizar e proteger de experiências de depressão e problemas de conduta (CAPRARA et al., 2005). Einolf (2010) afirma que estudos acerca de como os comportamentos e condutas pró-sociais se desenvolvem e quais são seus fatores determinantes tem sido um tópico de grande interesse em diversas áreas das ciências humanas e da saúde. Pilati et al (2010) afirmam que, conhecendo os fatores que levam à conduta pró-social, é possivel auxiliar o desenvolvimento de estratégias e políticas públicas que permitam melhoria na qualidade de vida dos indivíduos em sociedade
De acordo com Fehr e Gächter. (2002), a demonstração de comportamentos pró-sociais fortalece os vínculos entre indivíduos e é crucial na formação e manutenção das relações interpessoais. Deve-se considerar como afirmam Roche e Sol (1998) que esses comportamentos são facilitados por hábitos, atitudes, disposição do indivíduo, traços de personalidade; e também pelo contexto no qual se está inserido.
atitudes existe como consequência de uma influência global das relações entre o indivíduo em desenvolvimento, fatores biológicos, psicológicos, família, comunidade, cultura, ambiente físico e nicho histórico. As tendências para um desenvolvimento adaptativo emergem desta interação, entre o indivíduo e o seu contexto, promovendo o bem-estar e qualidade de vida (GASPAR; et al 2005; ALMERIGI; THEOKAS; LERNER, 2005; LERNER et al, 2005).
Caprara, Alessandri e Eisenberg (2012) mediram as relações entre variáveis disposicionais (agradabilidade, valores autotranscendentes e crenças de autoeficácia empática) quando os participantes de seu estudo tinham, em média, 21 anos e depois mediram novamente, quando eles tinham, em média, 25 anos. O padrão de relação entre as variáveis se manteve semelhante, dando evidências da estabilidade temporal existente entre tais variáveis, e de maior tendência a agir pró-socialmente.
Outros estudos demonstraram que diferenças individuais relacionadas à pró-socialidade são estáveis ao longo do tempo (EISENBERG et al., 2002) e são capazes de predizer significativamente diversos tipos de comportamento pró-social, tais como ajudar outras pessoas, ajudar colégas de trabalho e se envolver com diversos tipos de trabalho voluntário (PENNER, 2002; PENNER et al., 2005). Além disso, diferenças individuais na pró-socialidade podem atuar como importantes variáveis moderadoras da influência de processos sócio - cognitivos no comportamento pró-social (PERUGINI et al., 2011; perugini; prestwich, 2007; RABELO et al., 2012).
Penner, Fritzsche, Craiger e Freifeld (1995) descreveram a orientação de personalidade pró-social como uma tendência estável de pensar no bem-estar e no direito de outras pessoas, de se preocupar e ter empatia pelos outros e de agir de maneira a beneficiá-las. Esses autores propõem que a personalidade pró-social tem duas dimensões: a empatia orientada aos outros, relacionada a sentimentos e pensamentos orientados a outras pessoas; e a prestatividade que organiza comportamentos autorrelatados que demonstram ajuda e cuidado de outas pessoas. Essas duas dimensões estão estruturadas sobre sete fatores: responsabilidade social, preocupação empática, tomada de perspectiva, raciocínio orientado aos outros, raciocínio moral mútuo, desconforto pessoal e altruísmo autorrelatado.
Pearce e Amato (1980) propuseram uma classificação para os comportamentos pró-sociais, categorizando sessenta e duas situações de ajuda em três grandes áreas: da ajuda espontânea-informal a ajuda espontânea-formal; da ajuda séria a ajuda não séria; e
da ajuda direta a ajuda indireta. Isso corresponderia, respectivamente, ao contexto social; o grau de necessidade de ajuda e; o tipo de ajuda.
Strayer, Wareig e Rushton (1979) realizaram um estudo com 26 crianças pré- escolares e apartir dos dados organizaram quatro grupos de comportamentos pró - sociais, (com base em comportamentos observados nas crianças e nos professores). O primeiro grupo, “Atividade relacionada ao objeto”, abarca cinco subclasses, a saber: compartilhamento com pares (dividir brinquedos); oferta de objeto (tentativa de dar um objeto ao coléga); permitir que um objeto seja tomado (permitir que outra criança pegue um objeto com o qual está brincando); entregar um objeto a um coléga (dar a outra criança um objeto mesmo sem ser obrigado a fazê-lo); e entregar um objeto à professora (mesmo sem ser solicitado). O segundo grupo, chamado de “Atividades ativas”, inclui as subclasses: cooperação com os pares na realização de tarefas; jogar e/ou brincar em cooperação com colégas; cooperar com a professora na realização das tarefas; e cooperação dirigida com a professora (muito similar às classes anteriores, mas dispensa qualquer ordem ou solicitação expressa por parte da professora).
No terceiro grupo estão as “atividades de ajuda”, esse grupo é diferente daquele relacionado às atividades de cooperação, pois este último refere-se a situações em que se presta auxílio a alguém mesmo sem que haja contrapartida; enquanto que nas atividades cooperativas há o envolvimento mútuo em atividades que se realizam juntos. Quatro subclasses de comportamento fazem parte desse grupo: ajudar os pares nas suas tarefas; ajudar os colégas em atividades de jogos e/ou brincadeiras; ajudar a professora nas tarefas; e ajudas direcionadas à professora nas tarefas. Por fim, o último grupo. “Atividades empáticas” está subdividido em três tipos de comportamento: perceber/ enxergar um coléga que não está bem; oferecer ajuda; e acolher/ consolar um coléga quando ele não está bem.
Roche e sol (1998), baseados no estudo dos autores supracitados classificaram dez categorias de comportamentos pró-sociais (Quadro 1) que foram agrupados em cinco fatores: Ajuda, Partilha, Cuidado, Clima Positivo e Empatia; de modo que podem ser mensuradas a partir de uma escala Likert - Escala de Avaliação Pró-social para adolescentes (EAP-A); o que permitir verificar o grau de pró-socialidade em que um indivíduo se encontra.
Güroglu et al (2014), analisando achados da literatura mostraram que a resposta pró-social já é observada em crianças de dois anos e meio, cujo comportamento não é
contingente ou pró-social em relação ao comportamento egoísta de seus parceiros de interação. Já aos 3 anos de idade, as crianças têm uma compreensão das normas de equidade e que os outros esperam que compartilhem igualmente (SEBASTIAN-ENESCO et al, 2013; SMITH et al, 2013). Fehr et al, (2008) demonstraram que o comportamento pró-social tende a aumentar entre 3 e 8 anos. Além disso, Güroglu et al (2014) apontaram em seu estudo que as pesquisas anteriores acerca das tomadas de decisão, posicionamentos e comportamentos pró - socias têm se referido majoritariamente a crianças, havendo assim uma lacuna no que diz respeito à essas questões sociais durante a adolescência que merece ser investigada.
As respostas pró-sociais tornam-se relativamente estáveis no período do final da infância e início da adolescência, apontando assim para possibilidades de intervenção e de prevenção durante esse período (CAPRARA et al., 2005). Yoon, Barton & Taiariol (2004) afirmam que os anos do ensino médio são um momento importante para se concentrar em trabalhar com os eestresseores do contexto escolar, pois o relacionamento entre pares pode satistafazer as necessidades de apoio social e propiciar o desenvolvimento de estrategias efetivas e pró-sociais para os relacionamentos.
Quadro 1- Classes de comportamentos pró-sociais (ROCHE; SOL, 1998).
Classe de comportamento Descrição
Ajuda física Conduta não verbal que procura dar assistência a
outras pessoas para cumprir um determinado objetivo, e que conta com sua aprovação.
Serviço físico Conduta que elimina a necessidade dos receptores
da ação de intervir fisicamente no cumprimento de uma tarefa, com aprovação ou satisfação de quem recebe.
Dar e compartilhar Entregar objetos, alimentos ou algo de sua posse a
outras pessoas perdendo sua propriedade ou uso.
Ajuda verbal Explicação ou instrução verbal; compartilhar
ideias ou experiências de vida, que são úteis e desejáveis para outras pessoas na execução de um objetivo.
Consolo verbal Expressões verbais para reduzir a tristeza de
pessoas e aumentar seu ânimo.
Confirmação e valorização positiva do outro Expressões verbais para confirmar o valor de
outras pessoas ou aumentar sua autoestima.
Escuta profunda Atitudes de atenção que expressam acolhida aos
conteúdos manifestados por alguém em uma conversa.
Empatia Compreensão dos pensamentos de alguém ou
emoção de estar experimentando sentimentos parecidos aos dessa pessoa.
Solidariedade Comportamentos físicos ou verbais que expressam aceitação voluntária de compartilhar as
conseqüências, especialmente penosas, da condição de outras pessoas, grupos ou países.
Presença positiva e unidade Atitude de proximidade psicológica, atenção,
escuta, empatia, disponibilidade que contribui para um clima psicológico de bem estar, paz, concórdia.
Nesse sentido, Carreño Martinez (2015) propõe que a manutenção e continuidade desses comportamentos desejáveis para a convivência social seriam mais favorecidas em um contexto que previlegiasse seu desenvolvimento, como por exemplo, o ambiente escolar, que pudesse oferecer apoio para o desenvolvimento desses comportamentos incorporando estratégias dentro de seus planos de ensino, e sugere a necessidade de se discutir e fomenter essa questão.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), nos anos 1990 já afirmava que, por ser a escola o espaço de maior permanência das crianças durante seu tempo, seria esse o lugar ideal para promoção de saúde dessa população (WHO 1997; WHO, UNESCO; UNICEF, 1992).
Quando se pensa sobre os efeitos das condutas pró-sociais, observam-se os seguintes resultados: previne e diminui antagonismos e violência por serem incompatíveis; promove ações recíprocas positivas entre os indivíduos; supõe maior valoração positiva entre as pessoas; aumenta a autoestima e fortalece a identidade de indivíduos ou grupos; aumenta a empatia interpessoal; estimula habilidades de comunicação melhorando sua qualidade; aumenta a sensibilidade para a compreensão do outro; contribui para uma boa saúde mental; melhora a percepção em pessoas com tendências pessimistas; estimula a criatividade e iniciativa; contribui para diminuir dependências; reforça o autocontrole. (ROCHE; SOL, 1998; RABELO; HEES; PILATI, 2012)
Corroborando essa questão, Garaigordobil (2003) afirma que indivíduos que recebem uma formação clara e sistemática em habilidades e desenvolvimento de comportamentos pró-sociais tornam-se capazes de desenvolver interações cooperativas com seus pares; mantém comunicações mais eficazes; verbalizam mais e com mais segurança suas idéias e posicionamentos; conseguem aceitar e respeitar as opiniões e posturas dos demais; estabelecem relações mais positivas e duradouras com seus pares, que se caracterizam por atenção, simpatia/empatia, cortesia e respeito mútuo.
Polan, Sieving e McMorris (2013) conseguiram confirmar, com seus estudos com adolescentes, a hipótese de que criar habilidades sociais e emocionais está fortemente associado à diminuição de envolvimentos em situações violentas, bem como, menores níveis de eestressee foram associados a menos envolvimento em situações de bullying.
Sieving e Vidone (2008) comprovaram que altos níveis de habilidades interpessoais e de gerenciamento de eestressee foram associados com menos envolvimentos em situações de violência em estudantes de sexto ano pertencentes à população de baixa renda de centros urbanos.
Apesar da grande importância de tais comportamentos para o desenvolvimento saudável do indivíduo e da sociedade, ainda há poucos estudos nacionais sobre a temática (PILATI et al , 2010), o que colabora com a proposição desta pesquisa.
1.3 Vulnerabilidade: definições e conceitos
Originário da área do Direito, o termo Vulnerabilidade designa, grupos ou indivíduos fragilizados - jurídica ou politicamente -, na promoção, proteção e/ou garantia dos seus direitos de cidadania. Surgiu da discussão sobre os direitos de cidadania de grupos sociais considerados vulneráveis (MANN; TARANTOLA; NETTER, 1992; SOUZA; ERDMANN, 2015).
O conceito de Vulnerabilidade traz implícito um caráter multidisciplinar, principalmente quando é empregado no âmbito da saúde, pois a complexidade do objeto da saúde necessita diferentes olhares teórico e metodológicos, de forma a garantir a não redução das ações a meras tarefas que não modificam a estrutura das situações que tornam os indivíduos vulneráveis (MUÑOZ-SÁNCHEZ; BERTOLOZZI, 2007). Compreender a vulnerabilidade como um conceito complexo, dinâmico e contextual deve incluir a experiência Humana e a sua capacidade de organização e reorganização (ou resiliência) para que se trabalhe numa perspectiva não estática. Enxergar os fenômenos estruturantes que medeiam processos específicos de saúde - doença é o objetivo final dos estudos sobre vulnerabilidade (OVIEDO; CZERESNIA, 2015).
Oviedo e Czeresnia (2015) apontam uma definição do conceito de Vulnerabilidade muito específico no que se refere ao campo da Saúde Pública, afirmando que nesse
contexto, a vulnerabilidade é considerada como uma dimensão ontológica, constitutiva e constituinte da existência humana como tal; e é sobre essa definição, ao mesmo tempo ampla e específica, que se pretende discutir os fenômenos envolvidos nas vivências dos adolescentes.
No campo da Saúde Coletiva, o termo Vulnerabilidade, há mais de duas décadas tem sido empregado em contraponto ao conceito de Risco, originário dos estudos epidemiológicos. Em termos práticos, a Vulnerabilidade antecede o Risco (OVIEDO; CZERESNIA, 2015; TAKAHASHI et al, 2011).
Amparado num amplo conjunto de práticas e reflexões acerca dos modos de cuidar e de compreender os processos de saúde e doença; seus desdobramentos, impactos biopsicossociais e as estratégias e mecanismos de enfrentamentos em níveis micro e macroestruturais; o conceito de Vulnerabilidade surge como imensa possibilidade de reflexões e elaborações prático-metodológicas em saúde, constituindo-se como um indicador da desigualdade social (SOUZA; ERDMANN, 2015).
Como um conceito em saúde, a Vulnerabilidade foi definida por Bertolozzi et al. (2009) como a expressão dos potenciais de adoecimento, de não adoecimento e de enfrentamento, relacionados a todo e cada indivíduo. Para Hutz et al. (1996) a predisposição do indivíduo para desenvolver uma psicopatologia ou um comportamento inadaptado frente a uma crise seria a definição mais adequada do conceito de Vulnerabilidade.
Bertolozzi et al (2009) propõe uma definição ampla, apontando que o termo Vulnerabilidade tem sido empregado para designar suscetibilidades das pessoas a problemas e danos de saúde. Em suma, na essência do conceito de Vulnerabilidade encontra-se a capacidade de luta e de recuperação (resiliência) dos indivíduos e dos grupos sociais para o seu enfrentamento. O conceito inclui a detecção das fragilidades, mas, também a capacidade de enfrentamento dos problemas/agravos de saúde (BERTOLOZZI et al, 2009), visto que os comportamentos e condutas individuais interagem com aspectos contextuais e situacionais, inclusive os serviços de saúde (OVIEDO; CZERESNIA, 2015).
Bertolozzi et al. (2009), ao tratar do tema vulnerabilidade, consideram três aspectos interdependentes: comportamento individual, contexto social e político-programático. Segundo os autores, a dimensão individual refere-se ao grau e qualidade das informações que o indivíduo detém acerca do problema, sua capacidade de
incorporá-las e colocá-incorporá-las em prática através de atitudes preventivas. Considera o conhecimento acerca do agravo e os comportamentos que oportunizam sua ocorrência.
Já no contexto social, a Vulnerabilidade refere-se aos fatores contextuais que definem e podem diminuir ou aumentar a vulnerabilidade individual, integrando a dimensão social do adoecimento, tais como: fatores jurídicos e políticos (diretrizes governamentais dos países); relações de gênero, raça; atitudes diante da sexualidade; religião; pobreza; escolarização etc. Esta dimensão inclui o ciclo de vida, a mobilidade social e a identidade social.
Por último, a dimensão programática, que se refere às ações institucionais de diferentes setores (saúde, educação, bem-estar social e cultura), contempla o acesso aos serviços de saúde, a forma de organização desses serviços, o vínculo que os usuários dos serviços possuem com os profissionais de saúde, as ações preconizadas para a prevenção e o controle do agravo e os recursos sociais existentes na área de abrangência do serviço de saúde; e o processo de avaliação dos programas em desenvolvimento nesses setores para responder ao controle das situações desencadeantes do processo de adoecimento.
Observa-se que os fatores de vulnerabilidade, quando analisados criticamente mostram associação entre si e abrangem os três níveis: comportamento pessoal; contexto social e político-programático. Desse modo, a vulnerabilidade se configura em uma dinâmica de interdependências recíprocas que exprimem valores multidimensionais – biológicos, existenciais e sociais (OVIEDO; CZERESNIA, 2015).
Silva et al (2014) verificaram que as investigações acerca da vulnerabilidade na população adolescente, em geral, estão focadas em situações específicas como as práticas sexuais e a gravidez na adolescência, e apontam para a necessidade de oportunizar que os adolescentes pensem e tenham escuta adequada sobre as suas próprias percepções e representações de Vulnerabilidades e riscos.
De acordo com Poletto e Koller (2006), os fatores de risco consistem nas condições que estão aliadas à elevada possibilidade de ocorrência de resultados negativos, que podem comprometer a saúde, o bem-estar ou desempenho social do adolescente. Dentre os fatores de risco tem-se: eventos eestresseantes de vida, carência de apoio social e afetivo, o não desenvolvimento de habilidades sociais, cognitivas e emocionais (MASTEN; GARMEZY, 1985).
Já os fatores de proteção, apontados por Poletto e Koller (2006), referem-se às influências que produzem ou melhoram respostas pessoais a determinados riscos de
desadaptação, o que produz efeitos positivos na saúde mental. Masten e Garmezy (1985) identificaram três classes de fatores protetivos: os atributos disposicionais das pessoas como o bem-estar, orientação social positiva, autonomia; os laços afetivos no sistema familiar e/ou em outros contextos que ofereçam suporte emocional; os sistemas de rede de apoio social que propiciam o desenvolvimento positivo.
Como resultado de investigação empírica, Silva et al (2014) concluiram que existe uma complexa interação entre a predisposição individual à vulnerabilidade, o contexto e a presença e/ou ausência de estrutura social. Isso encoraja a visão de uma pluralidade na adolescencia como fase de desenvolvimento, não cabendo pensar as políticas públicas e as ações comunitárias a partir de uma perspectiva de universalidade do sujeito adolescente; mas fortalecendo a concepção de vulnerabilidade a partir de uma lógica individual, social e programática.
Entre as diferentes vulnerabilidades às quais os adolescentes podem estar susceptíveis, a vulnerabilidade social encontra um lugar de destaque nas discussões do meio acadêmico e social. A vulnerabilidade social é um conceito multidimensional que caracteriza a existência de indivíduos, grupos ou lugares em situação de fragilidade, seja por fatores biológicos, epidemiológicos, sociais e/ou culturais. Esses fatores tornam os indivíduos expostos a riscos e a níveis signifcativos de desagregação social que acabam por influenciar no seu modo de viver e de adoecer, e, consequentemente, na sua qualidade de vida (SILVA et al, 2014; DOS REIS et al, 2014).
Adorno (2001) define a Vulnerabilidade social como a idéia de uma maior exposição e sensibilidade de um indivíduo ou de um grupo aos problemas enfrentados na sociedade e refletindo uma nova maneira de olhar e de entender os comportamentos de pessoas e grupos específicos e sua relação e dificuldades de acesso a serviços sociais como saúde, escola e justiça. Sendo assim, vulnerabilidade social diz respeito a todo processo de exclusão ou enfraquecimento de grupos sociais, e está intimamente relacionado aos campos da educação, trabalho e políticas públicas (GOMES et al, 2015).
No que se refere à questão puramente geográfica/social, no Brasil, uma públicação do IPEA (Instotuto de pesquisa Economica Aplicada), de 2015 apresenta um Indice de
Vulnerabilidade Social (IVS) dos 5565 municípios listados pelo senso do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatistica) em 2010, de modo a orientar gestores públicos municipais, estaduais e federais para o desenho de políticas públicas mais sintonizadas com as carências e necessidades presentes nesses territórios.
O IVS traz dezesseis indicadores estruturados em três dimensões, a saber, infraestrutura Urbana, capital humano; e renda e trabalho. A definição de vulnerabilidade social em que o IVS se ancora diz respeito ao acesso, à ausência ou à insuficiência de “ativos” cuja posse ou privação determina as condições de bem-estar das populações nas sociedades contemporâneas, constituindo-se, assim, num instrumento de identificação das falhas de oferta de bens e serviços públicos no território nacional.
Assim, investigar, entender e refletir sobre a vulnerabilidade enfrentada por um grupo populacional – nesse caso os adolescentes – torna-se fundamental para planejar e executar politicas públicas e serviços, principalmente de Educação e Saúde, eficazes no atendimento das necessidades específicas de indivíduos que se se encontram em situações peculiares de desenvolvimento.
Além disso, a própria formação das Agendas governamentais de desenvolvimento de políticas públicas necessitam agregar informações que advém de pesquisas empíricas que levantam e apontam dados de realidade de uma situação, de um fenômeno e de uma comunidade. Logo, esse deve ser um espaço de ampla discussão no âmbito da Saúde Coletiva.
1.4 Promoção de Saúde
Desde o início dos estudos em Saúde Pública, o termo “Promoção de Saúde” é utilizado; entre os séculos XVIII e XIX, médicos como Virchow, Neumann, Rumsay empregavam o termo propondo ações a fim de evitar a propagação de doenças, estabelecendo relações entre processos de adoecimento e mortalidade; e as condições econômicas e sociais de determinados grupos (ROSEN, 1980).
Segundo Machado et al. (2007), a Promoção de Saúde engloba a articulação de diferentes saberes e atores sociais, exigindo a existência de processos democráticos e de participação. Promover saúde, segundo Czeresnia (2003), vai além do emprego de técnicas, focando a transformação da condição de vida por meio da autonomia do indivíduo e de um Estado que desenvolva ações em âmbito global. Pivetta e Porto (2010), defendem uma Promoção da Saúde emancipatória, que envolve um processo dinâmico e dialético de mediações e constituição de relações cognitivas e éticas entre sujeitos –
individuais ou coletivos -, e implica a produção compartilhada de conhecimentos e práticas que favoreçam a constituição de espaços de conquistas, de redução de vulnerabilidades socioambientais e de exercício dos direitos humanos fundamentais.
Barata (2005) faz um questionamento acerca do conceito e do emprego da Promoção de saúde a respeito de um dilema ainda atual em relação ao objeto de intervenção da Saúde Pública: deve ser ele a doença específica? Ou, deve ser a atuação ampla em torno das condições de vida e modos de viver? Esse questionamento torna-se importante à medida que norteia os empenhos de trabalho propiciando desenvolvimento. Considerando esse paradigma, a promoção da saúde esbarra no campo da prevenção de doenças, quase como opostos complementares e antagônicos; a promoção da saúde estaria inserida na prevenção primária, pressupondo medidas em relação à moradia, escolas, áreas de lazer, alimentação adequada e educação (ROUQUAYROL; ALMEIDA FILHO, 1999).
Assim, a promoção da saúde ganha contornos mais específicos, com estratégias e ações junto aos grupos sociais e com o foco na prevenção e na doença. E o modelo passa a sustentar, no âmbito da prática médica, a medicina preventiva (SILVA; BAPTISTA, 2015).
Deve-se atentar para o fato de que o termo “Promoção de saúde” está inserido no campo da Saúde Pública e da Saúde Coletiva e vem sendo empregado muitas vezes para definir ações diversas. Desse modo é preciso perceber que nem toda atividade de intervenção é, por si só promotora de saúde em qualquer nível. Moysés, Moysés, e Krempel (2004), afirmam que a promoção de saúde está baseada no paradigma da produção social do processo saúde-doença. Entende-se então que, a saúde de cada indivíduo depende das ações humanas, e inúmeras interações sociais no nível das políticas públicas, meio ambiente, modelos de atenção oferecidos pelo Estado e etc (FERRETTI, ZIBAS; TARTUCE, 2004).
Nos anos 1970, as desigualdades sociais se acentuavam em diversos países e os modelos que os Estados adotavam para proteção/cuidado de suas populações começavam a ser questionados devido a inseguranças políticas e econômicas; é nesse cenário que se iniciam as discussões sobre uma determinação social das doenças relacionando-as a condições estruturais que afetam a vida humana (SILVA; BAPTISTA, 2015).
Discutida desde a década de 1980, como séria questão de saúde pública, a temática da Promoção de Saúde ganha espaço e evidência em 1986 com a formulação da Carta de
Otawa, apontando que: trata-se do processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade de vida e saúde. Apresenta a saúde como um conceito positivo, que enfatiza os recursos sociais e pessoais; afirmando então que a Promoção da Saúde perpassa os níveis do individual e do coletivo, não sendo responsabilidade exclusiva do Estado. A Carta de Otawa surge como alternativa para redução das iniquidades em saúde, visando o empoderamento dos indivíduos. A Promoção da Saúde é apresentada com a finalidade de ampliar as possibilidades de indivíduos e comunidades atuarem sobre fatores que afetam sua saúde e qualidade de vida, com maior participação no controle deste processo (BUSS, 2009; MORETTI; ALMEIDA; WESTPHAL, 2009; WHO, 2009).
No Brasil, os ideais e princípios de Promoção da Saúde foram aderidos pelo Movimento da Reforma Sanitária e incorporados na Constituição Federal de 1988 bem como foram adotados no processo de formulação do Sistema Único de Saúde (SUS); mas sua institucionalização ocorreu somente nos anos 2000, com a aprovação da Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS). Isso aponta para o fato de que as discuções sobre Promoção da Saúde são antigas, mas as ações efetivas são recentes.
Nos anos 1990, o debate sobre promoção da saúde começa a ocupar espaço no contexto político e institucional brasileiro, mas somente com a formalização da cooperação com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) é que se estabelece um grau efetivo de institucionalização (BUSS; CARVALHO, 2009). Em 1998, o Ministério da Saúde, juntamente com o PNUD, desenvolveu o “Projeto Promoção da Saúde em um Novo Modelo de Atenção”, com o objetivo de implementar e consolidar a promoção da saúde por meio da operacionalização dos princípios da Carta de Ottawa, além de institucionalizar uma política nacional (BRASIL, 2001).
A públicação da PNPS foi um marco histórico na consolidação do SUS, reafirmando o debate dos determinantes sociais da saúde no processo saúde-doença. O debate em torno da definição da Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS) transcorreu durante os anos 2000, sendo um primeiro documento de discussão apresentado em 2002, sua institucionalização aprovada em 2006 e sua redefinição, em 2014 (SILVA; BAPTISTA, 2015).
A PNPS tem por objetivo promover a qualidade de vida e reduzir vulnerabilidades e riscos à saúde, relacionados aos seus determinantes e condicionantes: modos de viver, condições de trabalho, habitação, ambiente, educação, lazer, cultura, acesso a bens e serviços essenciais. Suas diretrizes preconizam atitudes baseadas na cooperação e no