UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PÂMELA CASALI
DIREITO DO TRABALHO: QUAL O SEU FUTURO
Santa Rosa (RS) 2013
PÂMELA CASALI
DIREITO DO TRABALHO: QUAL O SEU FUTURO
Monografia final do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Monografia
UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul
DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais
Orientador: MSc João Maria Oliveira Mendonça
Santa Rosa (RS) 2013
Dedico este trabalho a minha família, pelo incentivo, apoio e confiança em mim depositados durante toda a minha jornada.
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente a Deus pela vida.
A minha família que sempre esteve presente, me incentivando com apoio e confiança. Ao meu orientador, Professor Mestre João Mendonça, com quem eu tive o privilégio de conviver.
A todos os professores que me
acompanharam durante a graduação, me guiando pelos caminhos do conhecimento.
Aos meus colegas, pelas novas amizades concebidas na faculdade.
RESUMO
O presente trabalho de conclusão de curso faz uma breve síntese da evolução histórica do direito do trabalho, as transformações ocorridas ao longo da história, comparando com a evolução do mundo capitalista. Analisa o conflito e o seu caráter transformador na sociedade, fazendo uma analogia entre o direito do trabalho e a generalização dos direitos fundamentais. Aborda as grandes transformações ocorridas no mundo do trabalho em constante mutação e os reflexos destas, para o Direito do Trabalho. Faz uma breve análise do direito do trabalho com a sua legislação. Finaliza concluindo que se deve modernizar a legislação para esta acompanhar as evoluções e exigências do mercado de trabalho.
Palavras-chave: Evolução histórica. Transformações na sociedade. Exigências do mercado de trabalho. Legislação
ABSTRACT
This present completion of course work makes na analysis of the historical evolution of labor law, the transformations occurred throughout history, comparing with the evolution of the capitalist world. Analyzes the conflict and its transformative character in society, making an analogy between labor law and the generalization of fundamental rights. Addresses the major transformations occurring in the world of work in constantly mutation and reflections of these, for the Labor Law. It makes a brief analysis of labor law with its legislation. It finishes, concluding that if must modernize the legislation for this follow the developments and requirements of the labor market.
Keywords: Historical developments. Transformations in society. Requirements of the labor market.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 7
1 HISTÓRICO DO DIREITO DO TRABALHO ... 9
1.1 Fases do direito do trabalho ... 10
1.2 O direito do trabalho como marco da generalização dos direitos fundamentais ... 17
2 DIREITO DO TRABALHO DE ACORDO COM A CLT ... 24
2.1 As novas exigências do Direito do Trabalho ... 25
2.2 Perspectivas para o futuro ... 32
CONCLUSÃO ... 38
INTRODUÇÃO
O presente trabalho apresenta um estudo a cerca da evolução histórica do direito do trabalho, a fim de efetuar uma investigação em busca da construção de alternativas a Consolidação das Leis do Trabalho. Essa busca é necessária, face a crescente mutação do mercado capitalista e a antiguidade da legislação que muitas vezes abre brechas para litígios não tão justos, atingindo apenas a causa aparente e não a real, gerando vencedores e perdedores.
Para a realização deste trabalho foram efetuadas pesquisas bibliográficas e por meio eletrônico, analisando também as propostas legislativas em andamento, a fim de enriquecer a coleta de informações e permitir um aprofundamento no estudo do direito do trabalho, revelar a importância da modernização da lei no acompanhamento das evoluções da sociedade e apontar novas perspectivas para o futuro.
Para a apresentação deste tema, desenvolveu-se um estudo em dois capítulos. Inicialmente, no primeiro capitulo, foi feita uma abordagem da evolução do direito do trabalho, um histórico passando por todas as fases e transformações, compreendendo as suas mudanças e a importância que elas tiveram para a realidade que estamos vivendo. Segue uma análise do Direito do Trabalho como um marco para a generalização dos Direitos Fundamentais.
No segundo capítulo, apresenta-se um estudo sobre o Direito do Trabalho de acordo com a sua legislação, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), seu conceito, princípios e procedimentos. Também são analisados as novas exigências do direito do trabalho, as exigências do mercado capitalista e a necessidade de um funcionário polivalente. A fim de
demonstrar que muito se vem buscando para conciliar o crescimento das empresas com a correta contratação do empregado. Finaliza-se o estudo apresentando a conclusão.
1 HISTÓRICO DO DIREITO DO TRABALHO
Que o homem sempre trabalhou isso é indiscutível, contudo, a sua história em relação ao trabalho, sempre foi marcada por lutas e conflitos, por buscas e questionamentos, divergências, antagonismos, enfim, processos dinâmicos de construções e reconstruções, de plena transformação. Para entender estas transformações é importante começar pelo histórico das relações laborais, entendendo suas mudanças e percebendo a importância que estas tiveram ao longo da história e hoje servem como parâmetro para a realidade que estamos vivendo.
Na história da humanidade, verifica-se que inicialmente o homem passou por um período que pode ser chamado de “luta pela sobrevivência”, já que sua maior preocupação era com a subsistência mais básica, o alimento do dia-a-dia, sendo que nesse período seu instrumento de trabalho principal eram as próprias mãos. Era conduzido amargamente pela necessidade de satisfazer a fome e assegurar a sua defesa pessoal, objetivando a sobrevivência individual, para depois gradativamente se voltar para a vida em sociedade e para o coletivo.
Neste sentido também é o posicionamento de Leandro do Amaral D. de Dorneles (2002, p. 16):
[...] em seu primeiro estágio de desenvolvimento, realizava-se o trabalho apenas como esforço complementar da natureza. Era o estagio da economia isolada e extrativa. Não era apenas o trabalho em si que apresentava essa forma simplificada de complementação, mas a própria economia humana. Não havia excedentes ou concentração de riqueza, e o trabalho realizava-se na exata medida para a subsistência das pessoas.
Na seqüência, verifica-se o homem se organizando em sociedade, e passando a explorar a mão-de-obra do seu semelhante. O trabalho escravo é a mais expressiva representação do trabalhador na idade antiga, evidentemente não era voluntário, mas sim forçado. E neste sentido, Augusto Comte (apud OLEA, 1997, p. 145) afirma que a escravidão além de “radicalmente indispensável à economia social da antiguidade, constituía um imenso progresso; posto que sucedeu a antropofagia ou a imolação dos prisioneiros.”
Pouco a pouco, o homem trabalhador, ressurgiu com uma característica nova, passou a ser visto como pessoa merecedora de direito, muito embora estes fossem limitadíssimos. Para
Olea (apud DORNELES, 2002, p. 23) “o trabalho produtivo, prestado livremente pelo trabalhador, por conta alheia, de forma subordinada e não eventual”, apenas aparece na era capitalista, assim, temos o Direito do Trabalho essencialmente vinculado ao desenvolvimento capitalista.
Feitas essas primeiras colocações, esclarece-se que o presente capítulo tem por objetivo analisar o tema historicamente, ou seja, a origem do direito do trabalho e sua contextualização no sistema brasileiro, em especial nas leis em vigor, a fim de possibilitar a posterior averiguação de sua eficácia nas atuais relações de trabalho, objeto deste estudo. 1.1 Fases do direito do trabalho
No mundo antigo predominava, como base de muitas economias, o trabalho escravo. Há notícias de escravidão na Mesopotâmia, na Índia, China e Egito. Cada país tinha suas regras de onde extraíam os direitos e deveres dos seus escravizados.
O paradigma antigo mais conhecido é o da escravidão Greco-romana, onde o escravo não gozava da condição de sujeito de direitos e sim na condição de coisa. Existia uma relação laboral baseada no contexto de propriedade, onde a força de trabalho do homem poderia ser vendida e comprada, ou seja, mercadejado (FERRARI, 2011).
Grande sábio, como Aristóteles, chegou a justificar a escravidão em seu livro A Política, sustentando que:
Pertence também ao desígnio da natureza que comande quem pode, por sua inteligência, tudo prover e, pelo contrário, que obedeça quem não possa contribuir para a prosperidade comum a não ser pelo trabalho de seu corpo. Esta partilha é salutar para o senhor e para o escravo. (Aristóteles apud FELICIANO, 2013, p. 47).
Como eram vistos como mercadorias, ou mesmo como animais, eram avaliados fisicamente e tinham o seu preço definido, baseado em uma avaliação eminentemente racista. O preço dos escravos sempre foi elevado quando comparado com os preços das terras, estas abundantes no Brasil. O status social de um homem era medido pela quantidade de escravos que possuía.
Depois dessa fase, segue-se a do colonato, onde “o colonus era o arrendatário de prédio rústico, figura fundamental do trabalhador não servil” (OLEA, apud FERRARI, 2011, p. 29). A partir daí começa o processo de ruralização. Neste sentido, conforme Amauri Mascaro Nascimento, Irany Ferrari, Ives Gandra Martins da Silva Filho (2011, p. 29) descrevem:
[...] com as ‘villas’, unidade de população campesinas semilivre, autônomas frente as cidades, e os grandes colonatos, ambos processos que ruralizam o Baixo Império, favorecidos pela fuga do incremento da pressão fiscal nos municípios urbanos, incluídos os primeiros domínios territoriais constituídos em seu seio pelos invasores germânicos, ou povoados por estes, antecipam o tipo de relação que seria característica da época medieval.
Para estes autores (2011), com o feudalismo, os senhores feudais ofereciam aos seus escravos proteção militar e política em troca de seus serviços e de sua mão de obra. Esta época representa uma derivação do período escravo, no entanto o domínio deixa de ser sobre o escravo e passa a ser sobre a terra.
Mesmo sendo um sistema de escravidão, já existiam alguns elementos de regulação do trabalho, eram basicamente os seguintes: a jornada que se fixava “de sol a sol”, o respeito aos repousos festivos, a livre locomoção do trabalhador de acordo com as necessidades do locatário e alguns pagamentos em dinheiro (FERRARI, 2011).
Ferrari (2011, p. 29) segue dizendo que:
O trabalho, depois disso, passou a ser objeto de locações de obras e serviços. Na locação de obra, havia a execução de uma obra mediante pagamento de um resultado. Configura-se, de certa forma, como o trabalho autônomo ou por conta própria. Na locação de serviços existia uma cessão do próprio trabalho, como objeto de contrato. Deu origem ao trabalho contratado ou subordinado.
No final da idade média, abandona-se o regime de servidão devido ao surgimento de grupos profissionais. Em virtude do aumento dos consumidores, os artesãos necessitam contratar auxiliares para atender a demanda de pedidos, muitas pessoas abandonaram o campo para trabalhar nas cidades.
Destarte, pode-se afirmar que o sistema capitalista de produção está enraizado nos precedentes históricos já estudados acima, como explica Feliciano (2013, p. 57),
[...] de uma parte no plano material, o renascimento urbano e comercial (séculos XIII e XIV), com a consequente formação de uma nova classe social (a denominada ‘burguesia’, expressão que tanto pode identificar os comerciantes como, para além deles, os banqueiros e cambistas – que passaram a auferir lucros em função da própria circulação do dinheiro – e depois dos industriais); de outra parte, no pano das ideias, o liberalismo político e econômico (século XVI), como substrato teórico da livre concorrência, da livre contratação e da livre iniciativa. Surge, pois, o capitalismo.
O capitalismo industrial origina-se no século XVIII, a partir da chamada “acumulação privativa do capital” (FERRARI, 2011). Daí então ocorreu às revoluções industriais.
No caso do Brasil, a implementação do modo capitalista de produção foi resultado de um processo de longa continuidade. No cenário internacional, esse período correspondeu ao estágio de reestruturação sócio político econômico identificada no capitalismo organizado. Para Dorneles (2002, p. 44),
Foi uma época de expansão (hipertrofia) do mercado capitalista internacional bem como de busca por novos mercados (capitalismo imperialista/monopolista) e, nesse sentido, a implantação do capitalismo no Brasil foi moldada pelos interesses dos países centrais. O capitalismo organizado também correspondeu a consolidação de direitos sociais que visam a estruturar (organizar) interesses divergentes entre capital e trabalho, de modo a conciliá-los minimamente. Daí que, no Brasil, as consolidações do modo de produção capitalista e do direito do trabalho serem contemporâneas, resultados de um mesmo processo, diferentemente do que ocorreu nos países centrais.
Com o crescimento das cidades e a expansão do comércio ocorreu a 1ª Revolução Industrial (fim do século XVIII e início do século XIX). Foi a partir daí, com a descoberta da máquina a vapor, a eletricidade, os motores, todos estes como fonte de energia para substituir a força humana, que se impôs a substituição do trabalho escravo, servil pelo trabalho assalariado. Feliciano (2013, p. 59) caracteriza a esta revolução como: “a) desenvolvimento do setor fabril; b) formação da classe capitalista industrial; c) primeiro boom tecnológico; d) aplicação da energia térmica a indústria, com base no carvão; e) melhoramentos nos meios de transporte e de comunicação.”
Devido a esta situação, as máquinas precisavam de pessoas para operá-las e os trabalhadores passaram a vender sua mão de obra ao patrão, que por sua vez detinha os meios de produção.
Nesse período, os operários não tinham seus direitos regulamentados, não recebendo nenhuma proteção do Estado. As condições de trabalho eram precárias, pois eram mal remunerados e não tinham jornada de trabalho determinada (FERRARI, 2011).
A população de empregados, para lutar e defender a sua liberdade, precisavam se contentar com um Estado inerte, que se comportava como mero espectador. Eram atormentados pela instabilidade do seu emprego e aflitos em relação ao futuro, pois não existia na época qualquer amparo à velhice ou a acidentes ocasionados pelo trabalho.
Diante desse contexto, os trabalhadores começaram a buscar por melhores condições de trabalho, unindo-se contra a grande exploração dos patrões.
A ideia da criação e regulamentação de direitos que garantissem condições dignas de trabalho começa a surgir, e a partir de então, a massa operária trilhou um extenso e árduo caminho até a consolidação de seus direitos.
A Revolução Industrial trouxe não só mudanças tecnológicas, mas também mudanças econômicas, sociais e políticas. Com certeza, pode-se afirmar que uma das maiores conquistas da humanidade nessa sua caminhada evolutiva foi à concretização dos direitos sociais, que deram à sociedade e ao Estado parâmetros de atuação e de desenvolvimento.
No início do século XX, teve-se a 2ª Revolução Industrial, onde surgiram os sistemas de produção integrada ou assistida por computadores. Teve-se também, a justa reivindicação dos trabalhadores por um sistema de direitos destinados a sua proteção e aos seus direitos sociais mais reconhecidos, como explica Antonio Carlos Wolkmer (2002, p. 15):
Na contextualização histórica dos direitos de ‘segunda dimensão’ está mais do que nunca presente o surto do processo de industrialização e os graves impasses socioeconômicos que varreram a sociedade ocidental entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX.
O capitalismo concorrencial evolui para a dinâmica financeira e monopolista, e a crise do modelo liberal de Estado possibilita o nascimento do Estado do Bem-Estar Social, que passa a arbitrar as relações entre o capital e o trabalho. [...] a socialização alcança a política e o Direito (nascem o Direito do Trabalho e o Direito Sindical).
Neste mesmo contexto, Feliciano (2013, p. 59) enfatiza mais algumas características da segunda revolução industrial:
[...] substituição do ferro pelo aço; emprego da eletricidade e dos derivados de petróleo (em substituição ao vapor); expansão da indústria de base e de grande porte (siderúrgicas, metalúrgicas, petroquímicas, automobilísticas, de transporte ferroviário e naval, etc.); advento das sociedades anônimas; novas formas de organização industrial, como a introdução das ‘linhas de montagem’; predominância das ciências no setor industrial [...].
Esse panorama revelou ao mundo a necessidade de regulamentação das relações do trabalho. Só a partir daí então, é que surgiu uma legislação com condições de coibir os abusos dos empregadores e preservar a dignidade dos trabalhadores, pondo fim a jornadas diárias excessivas, exploração dos menores e mulheres, salários infames e desproteção total diante de acidentes no trabalho. Nesta linha, Luiz Antonio Colussi (2009, p. 31) decorre de forma bastante elucidativa:
O direito a um salário digno e a uma previdência social, bem como o direito à associação sindical e o direito à greve, só seriam pautados pelos movimentos operários que se desenvolveram a partir do final do século XIX na Europa. Tais movimentos surgiram com a consciência de classe, ou seja, com a percepção pelos operários de que melhores condições de trabalho e salários dependiam inevitavelmente de sua mobilização.
A greve nacional deflagrada nos Estados Unidos pela jornada de oito horas, em 1º de maio de 1886 deu origem ao Dia do Trabalhador, dia 1º de maio. Este episódio de 1886 resultou em mortes, prisões arbitrárias, inclusive com condenações à morte de grevistas, no entanto, como consequência, em 1º de maio de 1890 teve-se aprovação da lei que instituiu naquele país a jornada de oito horas diárias de labor. José Damião de Lima Trindade (2002, p. 147) explana de forma clara e objetiva:
[...] as décadas de passagem para o século XX foram palco de cruenta e só parcialmente bem-sucedida luta pela conquista de direitos – assim mesmo, praticamente só na Europa Ocidental e na América do Norte. Cada conquista – civil, política, econômica, social ou cultural -, por mínima que fosse, teve atrás de si histórias de truculenta repressão estatal, intolerância patronal, defesa encarniçada de privilégios por parte das classes dominantes, prisões odiosas, enforcamentos, extradição de sindicalistas, degredo, mortes e mais mortes e mais mortes de trabalhadores e de trabalhadoras.
Se, no final do século XIX, os trabalhadores do sexo masculino já conquistavam direitos políticos em vários países, à medida que o século XX avançou, os êxitos da pressão operária e camponesa também forçaram o próprio conceito oitocentista de direitos humanos (direitos civis e políticos) a se expandir, com a progressiva incorporação jurídica dos direitos econômicos e sociais, nunca contemplados pelas revoluções burguesas.
No Brasil, o Direito do Trabalho foi influenciado por fatores internos e externos. Nas influencias internas, os fatores mais importantes foram: o movimento operário, ocorrido em fins de 1800 e inicio de 1900. O surto industrial, efeito da primeira guerra mundial e a política trabalhista de Getulio Vargas. Darcísio Corrêa (2002) ressalta que, no Brasil, a primeira Constituição a prever os direitos sociais e trabalhistas foi a de 1934, no primeiro governo de Getúlio Vargas.
Quanto às influências externas, tivemos as influencias de outros países, que exerceram alguma pressão no sentido de levar o Brasil a elaborar leis trabalhistas, o compromisso internacional assumido ao ingressar na Organização Internacional do Trabalho (OIT), criada pelo tratado de Versalhes (1919).
A primeira Constituição do mundo que dispõe sobre o direito do trabalho é a Constituição do México, que foi criada em 1917. Ela prevêa jornada máxima diária de 8 horas, proíbe o trabalho de menores de 12 anos, adere ao salário mínimo, e o direito de sindicalização e de greve (Dorneles, 2002).
No mesmo ano do OIT, ou seja, em 1919, foi criada a constituição da Alemanha, a segunda constituição a prever direitos dos trabalhadores. Esta é considerada a base das democracias sociais. Já em 1927, na Itália, foi criada a Carta del Lavoro. Seu princípio foi a intervenção do Estado na ordem econômica, direitos aos trabalhadores e o controle do direito coletivo do trabalho (Nascimento, 2011).
A Revolução de 1930, que conduziu Getúlio Vargas ao poder e constituiu o marco do processo de hegemonia capitalista no Brasil, significou um ajuste dos grupos que compunham o poder político Brasileiro. Segundo Florestan Fernandes (apud DORNELES, 2002, p. 37), “uma revolução burguesa denota um conjunto de transformações econômicas, tecnológicas, sociais, psicoculturais e políticas e, assim, a era Vargas instaura nosso período revolucionário burguês.”
No Brasil, após a primeira constituição de 1934, teve-se a de 1937, suas alterações foram inspiradas na Carta del Lavoro e na Constituição Polonesa. Esta constituição expressa a intervenção do Estado, instituindo um sindicato único vinculado ao estado e proibindo a greve. Na constituição de 1946 foi reestabelecido o direito a greve, repouso semanal remunerado, estabilidade decenária e encontra-se até a participação dos empregados nos lucros das empresas (Nascimento, 2011).
A Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT, foi instituída por meio do Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943. Esta é a mais importante referência para as leis trabalhistas. Tem a função de reger as relações de trabalho, individuais ou coletivas, e o objetivo de unificar todas as leis trabalhistas praticadas no País.
A CLT foi uma consequência da criação da Justiça do Trabalho, no ano de 1939. Só três anos depois, em janeiro de 1942, Getúlio Vargas, Presidente da República na época, criou uma comissão para que juntamente com o Ministro do Trabalho, Alexandre Marcondes Filho, começassem a reunir e consolidar as leis da época, criando assim o Decreto-Lei em vigor até hoje.
A partir 1949, no plano infraconstitucional, encontramos várias leis novas, sendo criadas para melhorar a garantia do direito dos empregados. Exemplo de algumas delas são a Lei 605/49, que dispõe sobre o repouso semanal remunerado e a remuneração de feriado, a Lei 2.757/56, traz a garantia para empregados porteiros, zeladores, faxineiros e serventes de prédios de apartamentos residenciais, a Lei 3.207/57, regula as atividades dos vendedores viajantes e a Lei 4.090/62, instituiu a gratificação de natal, ou seja, o décimo terceiro salário (Ferrari, 2011).
A Constituição de 1967, além de manter os direitos e garantias trabalhistas da anterior, passou a prever o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), que havia sido criado pela Lei 5.107 de 1966.
Norberto Bobbio (2004, p. 207) destaca a importância da natureza protetiva dos direitos sociais, em especial no ramo do direito do trabalho:
[...] entre os direitos sociais da tradição socialista, dá-se destaque especial ao direito ao trabalho, que para ser protegido em seus vários aspectos – o direito a um salário justo, o direito ao devido descanso, à proteção das mulheres e das crianças – invoca a contribuição do Estado.
Continuando com a evolução, veio a Constituição Federal de 1988, em vigor até os dias atuais, veio alterando, mantendo e trazendo mais garantias fundamentais, princípios, dignidade humana, não só ao trabalhador como também em relação a todo o ser humano. Portanto, uma boa definição dos direitos sociais, considerando sua postura frente ao Estado, conforme explicitado acima, é a formulada por Corrêa (2002, p. 174): “São chamados direitos de crédito, do indivíduo em relação à coletividade e ao Estado” e compreendem:
[...] direito ao trabalho e à liberdade de trabalho, direito ao salário mínimo, à jornada de quarenta e quatro horas semanais de trabalho, ao descanso semanal remunerado, a férias anuais remuneradas acrescidas de um terço do valor do salário, direito à liberdade sindical, direito de greve. Não menos importantes direitos de segunda geração são os direitos à saúde, à educação, à seguridade social, à habitação, enfim, direitos de acesso aos meios de vida e de trabalho. (CORRÊA, 2002, p. 174).
Assim, pode-se verificar dentro das fases do direito do trabalho, que ouve uma larga e eficiente mudança no estilo de vida e nas necessidades da sociedade e da demanda do mercado, com isso, fazendo que o trabalhador também tivesse sua função valorizada, deixando de ser escravo e sendo empregado, digno de respeito, direitos, valores e claro que também deveres.
Sabe-se que todas essas etapas não foram rápidas, mas sim conquistas gradativas. Boa parte inerente à revolta dos empregados, que lutavam por um trabalho mais digno e outra parte pelos princípios e garantias fundamentais estabelecidas em nossa Constituição.
1.2 O direito do trabalho como marco da generalização dos direitos fundamentais
A partir da consolidação da obra jurídica, em virtude das revoluções que ocorreram no final do Século XVIII, as relações sociais adquiriram um caráter eminentemente individualista e, sobretudo, contratualista, uma vez que os cidadãos passaram a ser considerados quase totalidade do normativo da época, para a regulação de seus direitos e deveres.
Deste modo, as normas gerais e abstratas destinadas à regulação das relações individuais, pelos moldes do jus naturalismo racionalista, tinham como locus natural o Código Civil, concebido por Daniel Sarmento (2004, p. 27) como “a constituição da sociedade civil”, enquanto que à constituição propriamente dita, cabia a limitação “dos governantes em prol da liberdade individual dos governados.”
No âmbito do Direito Público, vigoravam os direitos fundamentais, erigindo rígidos limites à atuação estatal, com o fito de proteção do indivíduo, enquanto no plano do Direito Privado, que disciplinava relações entre sujeitos formalmente iguais, o princípio fundamental era o da autonomia da vontade. (SARMENTO, 2004, p. 27).
No período em referência, a regulação das relações sociais estabelecida nos códigos civis, partilhava daquela mesma concepção restritiva, caracterizando os Direitos Fundamentais positivados nas constituições liberais, e equalizando os indivíduos em garantias e obrigações, fazendo a abstração das condições sociais e econômicas que lhes diferenciavam na prática.
Segundo Paulo Roberto Lemgruber Ebert (apud Alino & Roberto e Advogados, 2013), “a ausência de normas específicas quanto a discrepância do poderio econômico dos pactuantes dos “contratos de locação de serviços”, aliada às próprias manifestações sociais e ideológicas ocorridas na primeira metade do Século XIX, viria a ser a causa dos eventos que culminariam com o advento do Direito do Trabalho e com a própria redefinição conceitual dos Direitos Fundamentais”.
Em função das mudanças que resultaram da primeira Revolução Industrial, tanto no que diz respeito ao processo produtivo quanto à economia, é perceptivo que, ao contrário do que acontecia anteriormente quando os meios de produção estavam no campo, agora a concentração dos meios de produção está sendo detida pela burguesia urbana, através da classe trabalhadora, condição esta que resultou na migração de uma expressiva massa trabalhadora para os núcleos industriais, concentrando um excesso de força de trabalho disponível.
Conforme o entendimento de Manuel Carlos Palomeque Lopez (2001), a partir da instalação dos pólos industriais urbanos, e considerando alguns mecanismos da “mão invisível do mercado”, sobretudo à “lei da oferta e da procura”, os trabalhadores viram-se numa
situação de que para sobreviverem precisaram vender sua mão-de-obra a um preço muito baixo do valor, aceitando todas as contraprestações que lhes eram oferecidas por aqueles que detinham os meios de produção, resultando em jornadas excessivas e muitas vezes condições extremamente penosas.
Em tais circunstâncias, não é difícil imaginar que a formulação das condições de trabalho deixada ao “livre” acordo entre os pactuantes, a observar tão-somente as poucas normativas dos “contratos de locação de serviços”, transformaria as referidas diferenças em verdadeiros contratos de adesão com condições fixadas unilateralmente pelos empregadores.
A atual e não mais aceitável situação vivenciada pelos trabalhadores sob a vigência do paradigma liberal, despertou sobre aquela massa o sentimento de pertencer a uma classe explorada e alienada em relação ao produto de seu esforço, ensejando, como consequência de tal percepção, a disseminação da doutrina socialista, a declarar a coletivização dos meios de produção e a justa divisão dos resultados do trabalho.
Para Paulo Roberto Lemgruber Ebert (apud Alino & Roberto e Advogados, 2013),
Sob tal ideologia, os trabalhadores viriam a formar as primeiras coalizões voltadas para a melhoria de sua condição social protagonizando revoltas memoráveis nos países de industrialização avançada. Diante desse quadro de conflagração social, o Estado, comandado pela burguesia, passou a desenvolver mecanismos aptos a promover, de modo conciliatório, a subsistência do sistema capitalista de produção e o atendimento às demandas dos obreiros.
É justamente nesse contexto de lutas em torno de melhores condições sociais, do lado do proletariado, e da necessidade de manutenção do sistema capitalista fundado no trabalho assalariado, da parte da burguesia, que surgiram as primeiras leis protetivas dos trabalhadores, conforme bem observa Lopez (2001, p. 30):
A legislação operária responde, prima facie, a uma solução defensiva do Estado burguês para, através de um quadro normativo protector dos trabalhadores, prover à integração do conflito social em termos compatíveis com a viabilidade do sistema estabelecido, assegurando deste modo, a dominação das relações de produção capitalistas. Não é, por isso, nenhuma casualidade que as primeiras leis operárias versem precisamente sobre aqueles aspectos da relação laboral em que se haviam manifestado os resultados mais visíveis da exploração dos trabalhadores, abordando, assim, a limitação do trabalho das mulheres e menores, a redução dos tempos de
trabalho, o estabelecimento de salários mínimos ou, finalmente, a preocupação pelas condições de segurança e higiene no trabalho e a prevenção dos riscos profissionais.
Inglaterra e França destacam-se por terem preconizado leis direcionadas para a proteção da integridade física e psíquica dos trabalhadores, protagonizando a Revolução Industrial, berço do Direito do Trabalho. As leis protetivas que surgiram no Século XIX, bem mais do que contribuir para o surgimento de um novo ramo jurídico, marcaram significativamente o surgimento de uma postura por parte do Estado burguês, o que, conforme Lopez (2001, p. 28), representou “a primeira e transcendental manifestação histórica da intervenção dos poderes públicos nas relações entre privados.” Ou seja, com a edição destas leis trabalhistas que visam proteger os trabalhadores, o Estado deixou de ser um simples telespectador, adotando uma postura bem mais ativa voltada à intervenção nas relações laborais, tutelando, deste modo, através de atividades legislativas, os trabalhadores e a exploração da sua força de trabalho.
Fabio Konder Comparato (2003, p. 52) afirma que esta situação configurava uma “pomposa inutilidade para a legião crescente de trabalhadores, compelidos a se empregarem nas empresas capitalistas.”
Neste aspecto está expresso o principal papel do Direito do Trabalho para a evolução do conceito de “Direitos Fundamentais”, pois é a partir destas leis protetivas voltadas para a tutela da parte trabalhadora nas relações laborais que os Direitos Fundamentais deixaram de ocupar posições simplesmente defensivas e restritivas, assumindo a ação positiva do Estado no sentido de integrar à sociedade os cidadãos trabalhadores, para os quais estas garantias de cunho individual não passavam, até então de mera retórica. Assim, pode-se dizer, que o surgimento do Direito do Trabalho foi o marco inicial do processo de disseminação dos Direitos Fundamentais.
Com a consagração das normas protetivas dos trabalhadores nos ordenamentos internos dos países que protagonizaram a Revolução Industrial, as lideranças dos trabalhadores e dos empresários, assim como os próprios governos nacionais, passaram a realizar os primeiros esforços no sentido de promover a regulamentação internacional do trabalho.
Dentre os motivos que impulsionaram este importante movimento, destaca-se o temor de que a edição de legislações operárias por parte de determinados países pudesse vir a encarecer os custos com a mão-de-obra, tornando os produtos menos competitivos em relação àquelas nações destituídas de um arcabouço protetivo.
Em função disso, sucessivas propostas voltadas para a regulamentação internacional do trabalho foram formuladas durante do Século XIX e as primeiras décadas do Século XX, destacando-se, nesse ínterim, a proposição pioneira de Robert Owen, dirigida em 1818 aos governos europeus no intuito de limitar as jornadas de trabalho, a gestão bem sucedida de Daniel Legrand junto às autoridades francesas entre 1841 e 1848, com vistas a que estas últimas patrocinassem a internacionalização das normas de proteção ao labor prematuro e excessivo e as iniciativas do governo suíço em 1855 e 1891, no sentido de convocar seus pares europeus para a promulgação de convenções tendo por objeto a normatização uniforme das condições de trabalho (SÜSSEKIND, 2000).
Nesse mesmo sentido, destacam-se as discussões promovidas no âmbito das Associações Internacionais de Trabalhadores convocadas em 1864 e 1889, bem assim as Conferências Internacionais do Trabalho, realizadas em 1890 (Berlim) e em 1905 e 1906 (Berna), com especial destaque, ademais, para a criação, em 1900, da “Associação Internacional para a Proteção Legal dos Trabalhadores”, sob os auspícios do governo suíço (SÜSSEKIND, 2000).
“Embora tais esforços foram feitos, a internacionalização do Direito do Trabalho somente veio a tornar-se realidade em 1919, com a assinatura do Tratado de Versalhes, que na Parte XIII traz a OIT e expressa em seu texto os “princípios fundamentais do Direito do Trabalho”, contendo as principais pautas já presentes nas legislações dos países protagonistas da Revolução Industrial” (EBERT, apud Alino & Roberto e Advogados, 2013).
Neste particular, a intenção do Tratado de Versalhes está exposta de modo claro no preâmbulo de sua Parte XIII, ao afirmar que a almejada paz entre os signatários depende, até certo ponto, da fixação de condições uniformes e justas de trabalho, com o objetivo de evitar a utilização do custo da mão-de-obra como fator de desequilíbrio concorrencial entre os países.
Apesar disso, José Francisco Siqueira Neto (2000) observa que a consagração dos direitos trabalhistas nesta convenção internacional foi significativamente insuflada pela ameaça socialista que na época estava ganhando cada vez mais força, sobretudo com o sucesso da Revolução Russa que ocorrera em 1917, dois anos antes.
Mesmo assim, a Parte XIII do Tratado de Versalhes pode ser considerada como um importante marco da efetiva internacionalização para a proteção do trabalho, e também representa mais um fator que demonstra o protagonismo do Direito do Trabalho na configuração do conceito de Direitos Fundamentais.
A partir da instalação da OIT, passou-se a ser realizadas reuniões, sendo que nestas ocasiões foram aprovadas uma série de pautas voltadas para a proteção dos trabalhadores, com destaque especial para a regulação da jornada de trabalho nas indústrias que ocorreu em 1919, assim como a definição de idade mínima para o trabalho nas indústrias também em 1919, o descanso semanal definido em 1921, a sindicalização na agricultura neste mesmo ano, dos acidentes de trabalho em 1925, do trabalho forçado em 1930, dentre outras.
Nota-se claramente que o Direito do Trabalho assumiu a frente do processo de internacionalização dos Direitos Fundamentais, sendo pela tendência de se definir um ordenamento universal que fosse voltado para a proteção destas referidas garantias, considerando a crescente superação do Estado como locus das relações sociais e assim as consequentes ameaças transnacionais a tais direitos.
Ao fim da Segunda Guerra Mundial, e nos anos que se seguiram, intensificou-se o processo de internacionalização dos Direitos Fundamentais, com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e também com o advento da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 1948, sendo que neste texto buscou-se condensar os valores universalmente compartilhados pela humanidade, incluindo-se neste conjunto tanto as liberdades de cunho individual, quanto as garantias sociais.
Sendo, que concerne ao processo de internacionalização dos Direitos Fundamentais, Bobbio (2004, p. 30) esclarece que:
Com a Declaração de 1948 tem início uma terceira e última fase, na qual a afirmação dos direitos é, ao mesmo tempo, universal e positiva: universal no sentido de que os destinatários dos princípios nela contidos não são mais apenas os cidadãos deste ou daquele Estado, mas todos os homens; positiva no sentido de que põe em movimento um processo em cujo final os direitos do homem deverão ser não mais apenas proclamados ou apenas idealmente reconhecidos, porém efetivamente protegidos até mesmo contra o próprio Estado que os tenha violado.
A Declaração Universal dos Direitos do Homem consagrou em seus artigos XXIII a XXV inúmeras garantias que já haviam sido reconhecidas pelo plano internacional na Parte XIII do Tratado de Versalhes, assim, como já reconhecidas também, pela própria Organização Internacional do Trabalho, destacando-se a remuneração justa e isonômica, a proteção contra o desemprego, o repouso, o lazer, à liberdade sindical e à seguridade social, assim, percebe-se mais uma vez o Direito do Trabalho protagonizando os direito e garantias do homem (EBERT, apud Alino & Roberto e Advogados, 2013).
Precisa-se destacar que a tendência à internacionalização dos Direitos Fundamentais está longe de sua conclusão, sendo este um processo que se encontra ainda em aberto, a ser moldado pelas novas demandas humanas e também pelas circunstâncias econômicas e sociais que vierem a surgir. Segundo Bobbio (2004), estas vicissitudes é que formarão os Direitos Humanos do futuro.
2 DIREITO DO TRABALHO DE ACORDO COM A CLT
A CLT apresenta-se como a principal norma da legislação brasileira no que se refere ao Direito do Trabalho e o Direito Processual do Trabalho. A CLT foi criada por meio do Decreto-Lei n. 5.452, de 1º de maio de 1943, numa pomposa cerimonia, onde foi sancionada pelo presidente da época, Getúlio Vargas. Através da CLT, unificou-se toda a legislação trabalhista então existente no Brasil, sendo que seu principal objetivo está na regulamentação das relações individuais e coletivas do trabalho, que nela estão previstas.
Este ano, a CLT está completando 70 anos, por este motivo aumentou-se a discussão sobre a sua reforma e sua flexibilização, além dos projetos que já tramitam. Para o atual presidente do TST, Carlos Alberto Reis de Paula, (apud, Karina Yamamoto, 2013), em uma entrevista para a jornalista, ele diz que “muita coisa na CLT está defasada” e completa se questionando, “como vamos cuidar da CLT hoje? Se ela está defasada, obviamente, o que é necessário fazer é atualiza-la, moderniza-la”.
O repórter do jornal online O GLOBO (2013), também escreveu um artigo na data do aniversário da CLT, onde mostrou seu posicionamento quanto à antiguidade da lei,
a Consolidação das Leis do Trabalho, embutindo mais de mil itens, completa setenta anos, o que por si só já deveria motivar uma revisão, no sentido de simplifica-la. Se cumprida a risca, nenhum empregador hoje, no Brasil, estaria imune a multas: várias regras da CLT estão em desuso, porque não se coadunam mais com a realidade dos processo produtivos. De modo geral, as empresas adotam rotinas de segurança e saúde mais eficazes do que as definidas pela CLT, em um mundo do trabalho no qual ferramentas como a automação, o computador e as telecomunicações não se faziam presentes décadas atrás.
Desde a criação da CLT, em 1943 e durante décadas posteriores as condições relativas às características das relações de trabalho mantiveram-se imutáveis, de modo que as definições do direito do trabalho existentes eram suficientes para suprir as necessidades. Ocorre que nos últimos anos muitas mudanças vêm ocorrendo, tanto no caráter nacional quanto no internacional, referindo-se não somente às condições que constituem a base do direito, mas também no que se refere ao direito do trabalho em si. Estes inúmeros aspectos serão abordados a seguir, tratando diretamente das novas exigências que permeiam o direito do trabalho.
2.1 As novas exigências do Direito do Trabalho
As mudanças que ocorrem no mundo do trabalho acabam refletindo direta e imediatamente no direito do trabalho, de modo que as alterações que têm acontecido no mundo do trabalho implicam na necessidade de adequação por parte do próprio direito do trabalho.
O surgimento de novas tecnologias acabou alterando intensamente o modo de trabalho em diversos setores. De um lado verifica-se uma grande oferta de emprego, de outro a necessidade de qualificação e preparo constante para realizar as atividades profissionais, ou seja, cada vez está mais difícil encontrar um posto de trabalho para os trabalhadores pouco qualificados, sendo estes atingidos diretamente pelo desemprego.
Por outro lado, as novas tecnologias da informação e de consulta também têm causado uma expressiva descentralização do trabalho, o advogado Cassio Mesquita Barros (2008), diz que a relação de trabalho não é mais necessariamente ajustada para o lugar certo do estabelecimento. De modo que os trabalhadores, em muitas empresas, são juridicamente, mas não economicamente, independentes. Esta situação vem em confronto ao artigo 3º da CLT, que considera empregado a pessoa que prestar serviço de forma não eventual e sobre a dependência do estabelecimento do empregador.
Neste sentido, Octavio Ianni (1997) destaca que tem-se verificado um novo impulso ao desenvolvimento do mercado de trabalho, o qual se baseia em novas tecnologias, na criação de novos produtos, na recriação da divisão internacional do trabalho e na mundialização das forças produtivas.
Ianni (1997) complementa ainda que, em um cenário marcado pela mundialização do mercado, o destaque está para o nomadismo, considerado forma suprema da ordem mercantil. Assim, “o mundo parece ter-se transformado em uma imensa fábrica global” (IANNI, 1997, p. 22). Segue afirmando que:
[...] forma-se toda uma cadeia mundial de cidades globais, que passam a exercer papéis cruciais na generalização das forças produtivas e relações de produção em moldes capitalistas, bem como na polarização de estruturas globais de poder. Simultaneamente, ocorre a reestruturação de empresas, grandes, médias e pequenas, em conformidade com as exigências da produtividade, agilidade e capacidade de
inovação abertas pela ampliação dos mercados, em âmbito nacional, regional e mundial. (IANNI, 1997, p. 11).
Como resultado desta situação, verifica-se uma nova divisão transnacional do trabalho, com a redistribuição das empresas, corporações e conglomerados por todos os continentes. Nesse interim, se torna imprescindível que o Direito do Trabalho produza soluções satisfatórias para as novas demandas sociais e econômicas, resultantes da sociedade pós-industrial. Como salienta Arion Sayão Romita (1997, p. 55),
Sem renunciar à sua própria razão de ser, [...], o Direito do Trabalho não pode voltar as costas à realidade; precisa adaptar-se às novas circunstâncias, reconvertendo também alguns de seus institutos para que eles possam melhor servir ao homem. 'O Direito do Trabalho não pode converter -se em um argumento utilizado como arma que se arroja contra os outros, mas deve ser visto como um instrumento de realização de fins que girem em torno dos postulados de justiça e de solidariedade.'
Na realidade, este desafio do Direito trabalhista nada mais é que o reflexo da própria crise da dogmática jurídica liberal, que tem se mostrado como sendo um modelo desgastado e incapaz de oferecer sua contrapartida às situações sociais da atualidade, que são muito mais dinâmicas e complexas.
Sobre isto, Antônio Celso Baeta Minhoto (2004) esclarece que esse paradigma ainda se mantém praticamente o mesmo do século XIX. Dessa forma, o equívoco do liberalismo político é o de não se perceber que inclusive a sobrevivência do capitalismo exige um processo decisório mais ágil, flexível e que seja também abrangente.
Em um artigo publicado no jornal online O GLOBO (2013), o escritor faz um reflexão,
a CLT parte do pressuposto de que o mau empregador seria a regra, e não a exceção, talvez uma herança do Brasil rural, até então marcado pelo triste período da mão de obra escrava. Mas, ao nivelar o mercado por baixo, a legislação trabalhista acaba dificultando a organização do trabalho de uma forma mais flexível, exatamente o que nos dias atuais mais almejam empregadores e empregados. Tal flexibilidade acaba se impondo na pratica, pelas necessidades de execução das tarefas de produção e prestação de serviços em um pais que se urbanizou e tem a maior população concentrada e grandes cidades. No entanto, a falta de amparo legal a essa flexibilidade sempre da margens para disputas futuras. Não por acaso, o Brasil é um campeão em ações trabalhistas, um contrassenso diante da evolução do mercado de trabalho brasileiro, com formalização crescente, o que implica pagamento de salários e benefícios periodicamente, recolhimento de contribuições, previdências e outros encargos.
Os detentores dos meios de produção não buscam modificações nesse modelo, como alternativa ao modelo que existe. Ao contrário, procuram substituí-lo por outros modelos que sejam multilaterais ou ainda por negociações que sejam diretas entre Estados e empresas. Neste sentido, Minhoto (2004, p. 74) indica que o modelo do direito liberal, que está “embasado no formalismo, procedimentalismo e excessiva abstração”, não consegue resolver os conflitos para os quais ainda se buscam soluções, isso como resultado da própria dinâmica da sociedade atual, que segue o ritmo da globalização.
Segundo José Afonso da Silva (2004), a estrutura econômica nacional está fundamentada na valorização do trabalho e também na iniciativa privada. Ou seja, trata-se de uma economia de mercado, que, apesar de ser capitalista, ainda trata dos valores do trabalho humano sobre todos os demais como prioridade. De modo que sua finalidade, está em garantir a todos existência digna, considerando-se os ditames da justiça social.
De modo semelhante é o entendimento por Eros Roberto Grau (2008), para o qual a ordem econômica que fora instituída em 1988 é a de um regime de mercado organizado, admitindo-se a intervenção estatal para coibir abusos e preservar a livre concorrência.
O direito do trabalho vem satisfazendo de modo limitado às exigências desse modelo econômico, atual, de trabalho, que encontra-se em constante mutação. Em função desta limitada adequação, a reação do direito de trabalho precisa ser de adaptação às regras que estão um pouco defasadas no mercado. De forma que a inovação dos modelos clássicos para outros modelos, como o de trabalho de duração limitada, ou tempo parcial, é inevitável sob o aspecto da criação de novos empregos e modernização.
No que diz respeito à relação de trabalho clássica, esta não pode mais ser considerada como regra para o direito do trabalho, haja vista que cada vez mais se tem os trabalhadores independentes, estando estes, de alguma forma, desprotegidos da aplicação do direito do trabalho.
Segundo a CLT, o empregado dever ser contratado para exercer a atividade determinada pelo contrato de trabalho, sendo que a atual exigência de mercado, é de um profissional polivalente. Neste sentido Ricardo Antunes (1997, p. 26) disserta:
Para atender as exigências mais individualizadas do mercado, no melhor tempo e com melhor “qualidade”, é preciso que a produção se sustente num processo produtivo flexível, que permita a um operário operar com várias máquinas, rompendo-se com a relação um homem/uma maquina que fundamenta o fordismo. É a chamada polivalência do trabalhador. Coriat fala em desespecialização e polivalência dos operários profissionais e qualificados, transformando-os em trabalhadores multifuncionais.
Estas têm permanecido alheias à proteção do arcabouço jurídico-laboral e, por isso, acabaram tornando-se responsáveis pelo desencadeamento de um processo de descaracterização do próprio direito trabalhista, cujos diferentes aspectos colocaram em causa o grau de efetividade desta estrutura legislativa. De forma que é admissível, a criação de relações de trabalhos independentes, sendo que ao contrário de combatê-las é fundamental que estas sejam submetidas, ao direito do trabalho, ampliando assim o círculo de pessoas protegidas pelo direito de trabalho, tornando-o mais amplo. Até porque, entende-se que o direito do trabalho precisa ser o direito de todos os que trabalham.
O direito do trabalho atual não acolhe as inúmeras mudanças que a descentralização implica. A descentralização não está necessariamente relacionada a categoria dos trabalhadores a domicílio, que traz expresso no art. 6º da CLT, a garantia pelos mesmos direitos do empregado a tempo integral e por tempo indeterminado.
Neste sentido, Antonio Casimiro Ferreira (2002) destaca algumas opções estratégicas que poderiam vir a servir para auxiliar uma ação transformadora do direito e sobretudo, das relações laborais conforme uma nova ordem social. Uma das opções refere-se ao estabelecimento de um padrão mínimo de direitos, onde se determine a plena eliminação do trabalho infantil, bem como a extinção da discriminação de qualquer trabalho ou ocupação, e ainda a abolição do trabalho forçado e no efetivo reconhecimento da liberdade sindical e do direito de negociação.
Outra sugestão de Ferreira (2002) está voltada a necessidade que se tem de assegurar um diálogo social democrático através da participação e representação dos trabalhadores,
reconstruindo-se deste modo movimento sindical. Em sentido semelhante, Boaventura de Sousa Santos (2002, p. 291) acrescenta que:
É necessário reconstruir as políticas de antagonismo social de modo a conferir ao sindicalismo um novo papel na sociedade, um sindicalismo mais político, menos sectorial e mais solidário, um sindicalismo de mensagem integrada e alternativa civilizacional, onde tudo liga com tudo: trabalho e meio ambiente; trabalho e sistema educativo; trabalho e feminismo; trabalho e necessidades sociais e culturais de ordem colectiva; trabalho e Estado-Providência; trabalho e terceira idade; etc. Em suma, a acção reivindicativa não pode deixar de fora nada do que afecte a vida dos trabalhadores e dos cidadãos em geral.
Com a mesma linha de pensamento sobre os sindicatos, o repórter do jornal O GLOBO (2013) fala que,
a CLT se mostra igualmente defasada no que se refere a estrutura sindical. Em muitas atividades, nas quais a organização do trabalho se dá de maneira coletiva, os sindicatos são canais importantes para entendimento entre as empresas e as categorias profissionais envolvidas. No entanto, a legislação acabou permitindo a formação de uma verdadeira indústria de sindicatos. O Brasil tem hoje mais de 15 mil sindicatos patronais e de empregados. São criados 250 por ano, que sobrevivem graças ao chamado imposto sindical, cujo recolhimento é obrigatório para assalariados e patrões.
E complementa dizendo, “calcula-se em mais de 300 mil os dirigentes sindicais no país, que, durante seus mandatos, tem seus vínculos empregatícios assegurados” (O GLOBO, 2013).
Finalmente, verifica-se o entendimento máximo de que os direitos do trabalho precisam suplantar qualquer esfera da legalidade seja ela jurídico ou trabalhista, e passar a ser reconhecido como pertencente a todo e qualquer trabalhador, independente se atuam na ala estruturada da economia ou em modo informal, se está se tratando de autônomos, ou ainda domiciliários. Para que se produza justiça social, toda a universalidade de possibilidades de trabalho precisa estar cobertas pela proteção e direitos.
Nascimento (2004) entende que mesmo defendendo a proteção social ao trabalhador por parte do Estado, existe uma impossibilidade por parte deste mesmo Estado em elaborar leis diferentes para cada categoria de trabalhadores. O autor sugere a transferência das regulamentações para o âmbito das negociações coletivas. Expõe ainda o surgimento de “leis
flexibilizadoras do contrato individual para facilitar a administração de pessoal” (NASCIMENTO, 2004, p. 82).
Indiscutivelmente, para que haja crescimento econômico de modo saudável é fundamental haver um equilíbrio entre a proteção ao trabalhador e incentivo ao investimento. Sendo exatamente neste ponto que se destaca a importância do Direito do Trabalho.
Também é o posicionamento do consultor e empresário Gilberto Wiesel (apud, Vinicius Albuquerque, 2013), quando destacou que as perspectivas são de aumento nas contratações, que deverão ser puxadas principalmente pelo setor da construção, em razão das obras de infraestrutura. “Muitos fundos estão investidos em infraestrutura. Além disso há o governo investindo em obras publicas, isso permite prever um cenário positivo para o emprego nos próximos cinco anos ao menos”. “O Brasil, no entanto, ainda tem uma legislação inadequada para o mercado de trabalho e essa, se fosse reformada, permitiria avanços ainda mais expressivos. A CLT tem de evoluir muito, pois as economias mudaram e as relações entre patrões e empregados também são outras” (Wiesel, apud Albuquerque, 2013).
Obviamente que o excesso de regulamentação, assim como os inúmeros encargos sociais, e até a rigidez das normas trabalhistas acabam, em muitos casos, por inibir a geração de empregos formais, fazendo com que todas essas normas se tornem impraticáveis e inutilizáveis para grande parte da população.
Assim, a diversificação dos temas centrais do direito do trabalho e das relações de trabalho em um novo quadro socioeconômico, no qual se combinam elementos de flexibilização e intervencionismo diante da fragmentação do mercado de trabalho e da redução de empregos, caracteriza a época pela retipificação dos contratos de trabalho. (NASCIMENTO, 2004, p. 49).
O direito do trabalho, por muitas vezes que acaba deixando de ser flexivo e assim deixando de suprir algumas demandas atuais, passa a ser uma das múltiplas causas do desemprego em boa parte dos países. Num bom número de países, os parceiros sociais submetidos à necessidades concretas, podem resolvê-las nos contratos coletivos.
José Pastore (1998) destaca que a globalização e o avanço da tecnologia são inevitáveis, e cada vez mais rápidos e acelerados, atingindo mais e mais a população. De
modo que, resta compensar as desigualdades geradas por esses fatores, de modo, inclusive, a utilizá-los de forma favorável para a sociedade.
As relações de trabalho estão mudando, mesmo com a rigidez da legislação existente na atualidade. De modo que se identifica que a flexibilização está surgindo, não do Governo, mas diretamente das partes envolvidas na relação de emprego, isso porque, mais e mais empregados e empregadores estão encontrando arranjos mais maleáveis para se adequarem a esta nova realidade, alcançando as expectativas de ambos.
Na visão de Pastore (1998), ao invés de se criarem mais leis que regulamentem o trabalho, o importante seria que se desenvolvessem “leis realistas que permitam o cumprimento efetivo das obrigações da cidadania e que garantam concretamente o exercício das liberdades individuais – sobretudo a liberdade para trabalhar”.
Em sentido semelhante, Nascimento (2004) adverte que o ideal seria que ocorresse uma abertura no sentido de facilitar a administração de pessoal e consequente incentivo ao investimento privado e criação de novos empregos, cabendo ao Estado regulamentar as questões que são fundamentais com relação à integridade do empregado, como saúde, segurança e garantias individuais, de forma que aspectos específicos de cada profissão fossem tratados diretamente por meio das negociações coletivas, trazendo as normas para a realidade de cada empregado, ao invés de permanecerem no âmbito abstrato da lei.
Barros (2007) menciona que as intervenções legislativas muitas vezes acabam restringindo as oportunidades de emprego, deixando de atender as necessidades econômicas e sociais. E cita o exemplo do que acontecia no âmbito do trabalho da mulher, quando esta encontrava obstáculos em relação a determinados locais, horários e circunstâncias. Quando, regulamentos que apesar de terem cunho protecionista, passaram a representar instrumentos de exclusão social. O que foi abolido, com a Constituição Federal de 1988 ao definir que homens e mulheres são iguais, e deste modo, conferiu-lhes iguais condições para o trabalho.
Mesmo com as inúmeras alterações que a legislação brasileira pertinente vem sofrendo, verifica-se que ainda existe muito para ser adequado por motivos essencialmente econômico-sociais, que buscam diminuir as diferenças sociais. De modo que a flexibilização
deverá ocorrer respeitando os limites mínimos de proteção ao trabalhador, os quais na realidade, constituem direitos fundamentais previstos na Constituição.
Não se pode permitir que as interferências do direito do trabalho nas relações de emprego cheguem ao ponto de prejudicar as partes da relação ou ainda obstruir o caminho do desenvolvimento econômico. Pois do contrário aconteceria como preveem os protecionistas extremistas: seria o fim do Direito do Trabalho; e isso não é o que se deseja, na realidade precisa evoluir, e não terminar!
2.2 Perspectivas para o futuro
Sem dúvida, o direito do trabalho serviu para garantir maior civilidade nas relações entre capital e mão de obra, pacificando os conflitos sociais e buscando preservar um núcleo de direitos vinculados a preservação da dignidade humana.
Conforme o Presidente do Tribunal Superior do Trabalho, o Ministro Carlos Alberto Reis de Paula, em seu discurso na comemoração dos 70 anos da CLT, enfatizou a necessidade de adaptação da CLT as mudanças trazidas pela evolução da sociedade, e dissertou que:
Os fundamentos que justificaram o surgimento do Direito do Trabalho são os mesmos que justificam a sua preservação. São os que ganharam conteúdo constitucional a partir de 05 de Outubro de 1988 no Titulo da Constituição da Republica que cuida dos Direitos e Garantias Fundamentais. Como consagrado no artigo 170 da Carta Magna, a ordem econômica é fundada na valorização do trabalho e na livre iniciativa. (SETENTA ANOS DA CLT, 2013).
Complementa ainda sobre a atualização:
A CLT, como toda Legislação, deve ser atualizada não apenas para compilar a legislação esparsa criada posteriormente, mas também corrigir os arcaísmos e se adaptar as mudanças trazidas pela evolução da sociedade, principalmente por uma lógica produtiva pós-fordista. Essa atualização, no entanto, deve ser feita sem afetar o núcleo principiológico do Direito do Trabalho, buscando dar efetividade aos direitos fundamentais e garantidos pela Constituição de 1988. Deve-se sempre reafirmar a proteção dos direitos básicos do trabalhador e a busca da efetiva representatividade pelas entidades sindicais. (SETENTA ANOS DA CLT, 2013).
Para ele, o termo atualizar, deve ser usado em lugar do termo flexibilizar, “esse “flexibilizar”, significa reduzir, diminuir. Isso como filosofia não pode ser acolhido. O
trabalho, a valorização do trabalho é fundamental para a organização da sociedade. É fundamental” (Carlos Alberto Reis de Paula, apud, Karina Yamamoto, 2013).
E completa dizendo, “para você organizar o Brasil, do ponto de vista econômico, você não pode querer desvalorizar o trabalho. E esse é o argumento que eu uso sempre para dizer que não é a questão de flexibilizar. A questão da CLT é ajusta-la, é faze-la mais adequada aos tempos de hoje” (de Paula, apud, YAMAMOTO, 2013).
Para o presidente do TST, a CLT permite uma estratégia muito “interessante” para regular as relações entre empregados e empregadores: a conciliação;
o caminho está claro, é preciso que trabalhadores e patrões sejam capazes de chegar a acordos que atendam as duas partes. As vezes fico desconfiado que as pessoas, ao invés de querer conversar para encontrar o caminho, encontrar consenso, eles querem conversar para sustentar seu ponto de vista. Aí é difícil. (de Paula, apud, Yamamoto, 2013).
De acordo com Raphael Augusto Campos Horta (apud ROVER, 2013), “A CLT precisa abandonar o apego excessivo as pessoas físicas e se voltar também para a realidade das pessoas jurídicas, motores econômicos do país”. Segundo o advogado, a CLT precisa se modernizar para incorporar verdadeiros princípios da flexibilização e da autonomia privada coletiva, consagrados na própria Constituição.
Há uma outra corrente referente a flexibilização, que é a corrente do garantismo laboral clássico, diz Feliciano (2013), que o garantismo social clássico haveria de ceder a logica do economicamente possível, para o bem da preservação dos empregos. Neste sentido é o pensamento de Nascimento (apud FELICIANO, 2013, p. 135):
A flexibilização do direito do trabalho faria dele um mero apêndice da Economia e acabaria para transformar por completo a sua fisionomia originária. o direito do trabalho deixaria de ser uma defesa do homem contra a sua absorção pelo processo econômico mesmo que com sacrifícios insuportáveis dos trabalhadores [...],
Horta (apud ROVER, 2013) discorda e acrescenta ainda que essa modernização
Reduzirá a grande quantidade de jurisprudência díspar dos tribunais trabalhistas sobre um mesmo tema, aumentando assim a segurança das empresas na condução
das relações de trabalho e emprego, principalmente em relação a assuntos sensíveis e que causam enorme impacto financeiro para os empreendedores, tal como terceirizações.
Existem lacunas na lei, onde as empresas não sabem como agir, ficando a mercê de litígios nas relações trabalhistas. Tem-se ainda aquele antigo pensamento de que o empregador é o lado “forte” e o empregado o lado “fraco” da relação, mas muitas vezes, em virtude dessa brechas, onde a lei não acompanhou a evolução, há alguns litígios não tão justos para o empregador.
Nesta linha explana Celso Tauscheck (2009), “muitos empresários alegam que a Justiça do Trabalho é sempre tendenciosa para o lado do trabalhador e, muitas vezes preferem um maus acordo onerando a empresa, do que discutir nas instancias superiores da Justiça do Trabalho”.
Para Vinicius Albuquerque (2010), “a CLT não cobre a proteção das novas formas de trabalhar como pessoas jurídicas, cooperados, trabalho por projeto, trabalho a distancia, casual, intermitente entre outro”. E complementa ainda,
a nova geração de trabalhadores vem com uma relação totalmente diferente com o trabalho. A legislação tem de melhorar em muito. Muitas empresas fazem acordos independentes da CLT. O contrato de trabalho faz parte da nossa cultura, mas a legislação tem de ser reformada. O empresário tem medo de investir mais por causa da legislação trabalhista, e isso impede que a oferta de emprego cresça tanto quanto poderia crescer. (ALBUQUERQUE, 2010)
Na visão de Feliciano (2013), o futuro do trabalho provavelmente trará consigo um mosaico de características e Nascimento (apud FELICIANO, 2013, p. 36) complementa:
Não há duvidas de que a morfologia do trabalho está em franca metamorfose, tanto em face das novas tecnologias aplicadas a produção de bens e serviços como também em razão dos novos matizes que se constroem nas culturas operarias e corporativas. O tele trabalho, o job-sharing e o Kapovaz, são algumas das novas modalidades de emprego – denominados alhures como “contratos flexíveis de trabalho.
E continua Feliciano (2013) dizendo que os empregos espalhando-se pelos mercados de trabalho nacionais, guardam pouca semelhança com o padrão de emprego regulado entre nós pela Consolidação das Leis do Trabalho, concebida basicamente para um trabalho
subordinado. “Destarte parece certo que o próprio Direito do Trabalho sofrerá modificações importantes e duradouras (como, aliás, já vem sofrendo)” (FELICIANO. 2013, p. 36).
Muito já se evoluiu, artigos foram excluídos e seções completas foram eliminadas da lei, como a dos serviços de estiva e dos serviços de capatazias nos portos. Outras alterações importantes foram o fim da estabilidade decenária e a generalização do FGTS. Mesmo assim percebemos a lei um tanto “engessada”.
somente o Tribunal Superior do Trabalho (TST) emitiu 751 normas que ainda são vigente, entre súmulas, orientações jurisprudenciais e precedentes normativos, para complicar mais ainda a vida do empresário. Além do fato de que essas normas frequentemente são modificadas, algumas eliminadas e outras acrescentadas; somando-se a este arcabouço legal, estão as normas e interpretações dos tribunais inferiores, as normas reguladoras do Ministério do Trabalho, de Medicina e Segurança do Trabalho, Legislação Previdenciária, Instruções, portarias, normas da OIT e outras exigências que aumentam a burocracia e dificultam o acompanhamento, aumentando a possibilidade de erro, exigindo, cada vez mais, especialização profissional para executar tais atividades. (Celso Tauscheck, 2013)
Feliciano (2013) diz que:
Há, portanto, dois caminhos seguramente sinalizados para o Direito do Trabalho no século XXI (além de outros menos significativos): o da flexibilização lato sensu, jactante da sua “neomodernidade”, que recupera as lições do liberalismo oitocentista e reduz ou relativiza o papel do Estado na regulação do trabalho; e o do garantismo social, que rebentou no liminar do século XX, pela mão do constitucionalismo social, e ainda segue ocupando seus espaços nas constituições do novo milênio. (FELICIANO, 2013, p. 147/148)
Existe um projeto do ex presidente Fernando Henrique Cardoso, que foi modificado e está em análise na Casa Civil. Esta nova norma criará condições para que os sindicatos comecem uma reforma gradual na legislação. O projeto não vai permitir que sindicato e empresa eliminem ou reduzam os direitos fundamentais, mas sim que negociem diretamente sobre alguns assuntos.
Caso entre em vigor esta nova norma, será uma passo de conquista no rumo a evolução da CLT, pois com os sindicatos tendo mais autonomia, agilizará a solução dos problemas internos da empresa, evitará litígios trabalhistas e outras demandas processuais, talvez desnecessárias.