• Nenhum resultado encontrado

JÉSSICA CASTRO TAVEIRA

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "JÉSSICA CASTRO TAVEIRA"

Copied!
60
0
0

Texto

(1)

CURSO BACHARELADO EM HISTÓRIA

JÉSSICA CASTRO TAVEIRA

HISTÓRIA, EDUCAÇÃO E PODER NO ALTO JURUÁ

(1904-1915)

RIO BRANCO – ACRE

(2)

HISTÓRIA, EDUCAÇÃO E PODER NO ALTO JURUÁ

(1904-1915)

Monografia apresentada ao curso de bacharelado em história (CBH) da Universidade Federal do Acre (UFAC) como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em história.

Professor orientador: Gerson Rodrigues de Albuquerque.

RIO BRANCO - ACRE

(3)

Monografia (Graduação em História) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Federal do Acre, Rio Branco.

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da UFAC

Bibliotecária:Vivyanne Ribeiro das Mercês Neves CRB-11/600 T232h Taveira, Jéssica Castro,

História, educação e poder no Alto Juruá (1904-1915) / Jéssica Castro Taveira. – 2012.

60f.; 30 cm.

Monografia (Graduação) – Universidade Federal do Acre, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Curso de Bacharel em História. Rio Branco, 2012.

Inclui Referências bibliográficas e anexos.

Orientador: Prof. Dr. Gerson Rodrigues de Albuquerque.

1. Alto Juruá (AC) – Cidades – História – 1904-1915. 2. Alto Juruá (AC) – Educação– 1904-1915. 3. Alto Juruá (AC) – Poder – 1904-1915. I. Título.

CDD: 981.12

(4)

HISTÓRIA, EDUCAÇÃO E PODER NO ALTO JURUÁ (1904-1915)

Monografia apresentada ao Curso de Bacharelado em História da Universidade Federal do Acre, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em História.

Banca Examinadora

___________________________________________________________________

Prof. Dr. Gerson Rodrigues de Albuquerque (Orientador)

___________________________________________________________________

Prof. Dr. Francisco Bento da Silva (Membro Titular)

___________________________________________________________________

Prof. Mestrando Armstrong Silva Santos (Membro Titular)

Conceito: __________ (_______________________)

(5)

DEDICATÓRIA

DEUS, primeiramente, a Ele toda honra e toda glória e todos os agradecimentos; aos meus pais, Ivanilde Almeida Castro Taveira e Jedson Rodrigues Taveira, que me ensinaram o caminho de Deus, enfrentar e conquistar sonhos apesar das aflições; a minha irmã, Gabrielly Taveira, que cuidei como filha.

Aos meus avós, Enéias Miguel Taveira (in

memoriam), falecido durante a escrita do primeiro

capítulo, e Maria Taveira (in memóriam), falecida durante a escrita do segundo capítulo [paternos], Beatriz Castro [avó materna], que auxiliaram em muito o meu crescimento atuando também como pais. E a toda a minha família, que não pude expressar em nomes por serem muitos.

(6)

AGRADECIMENTOS

Ao meu Deus, novamente, pois sem Ele não teria encontrado forças para persistir neste estudo. A Ele toda honra e toda glória; ao Fábio do Nascimento Lopes, que atuou como companheiro e amigo; aos meus amigos da Associação Puma de Taekwondo, minha segunda família, até em Cristo Jesus.

Ao meu orientador, Prof. Dr. Gerson Rodrigues de Albuquerque que me apresentou o tema; ao Desembargador Arquilau de Castro Melo, o qual dividiu seu amor por Cruzeiro do Sul e as fontes bibliográficas de seu acervo pessoal para o desenvolvimento desta pesquisa; ao Prof. Dr. José Dourado de Souza, que muito me apoiou para que concluísse a graduação; à Janaira Fidelis Caetano, que prestou sua ajuda mesmo quando passava por situação aflitiva semelhante a minha; às minhas parceiras de pesquisa, Domingas e Ítala, que me ajudaram e apoiaram em muito durante estes dois anos e alguns meses de PIBIC. Nestes agradecimentos incluo os mesmos a quem dedico este trabalho. A todos,

(7)

A história do Acre – uma grande parte –

ainda está por ser escrita.

Trabalhos como este são utilíssimos

para alcançarmos novas visões de experiência

do homem situado nos vales acreanos.

Leandro Tocantins

(Escrita para o Livro Nos confins do extremo oeste: a presença do capitão Rego Barros no alto Juruá. Vol.I de Glimedes Rego Barros)

(8)

TAVEIRA, Jéssica Castro. História, educação e poder no Alto Juruá (1904-1915). Rio Branco, 2012. 59 f. Monografia (Graduação em História) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Federal do Acre, Rio Branco.

RESUMO

Apresentamos, inicialmente, uma proposta de aproximação do leitor com o tema através de uma historicidade inserida no contexto do estudo sobre a cidade de Cruzeiro do Sul, focada nos períodos administrativos (não consecutivos) de Gregório Thaumaturgo de Azevedo e Francisco Siqueira do Rêgo Barros. Expomos aqui o estudo sobre a formação da cidade e as formas inseridas nas propostas de uma “cidade ideal” na Amazônia acriana do século XX. Através de fontes documentais e bibliográficas referentes, direta ou indiretamente, aos períodos e localidade deste estudo, podemos compreender e analisar os métodos utilizados nestas administrações que, tanto através da arquitetura, educação e das leis, reprimiam, vetavam e excluíam aqueles que não condiziam com os moldes “civilizados” da época, através de um aparelho camuflante, utilizado para justificar estes tipos de transformações, denominado de “progresso”.

(9)

TAVEIRA, Jéssica Castro. History, education and power in the Alto Juruá (1904-1915). Rio Branco, 2012. 59 f. Monograph (graduation) – Centre for Philosophy and Humanities. Federal University of Acre, Rio Branco.

ABSTRACT

We present a proposal initially approach the reader with the theme through a historicity inserted into the context of the study on the city of Cruzeiro do Sul, focused on the administrative periods (not consecutive) of Gregory Thaumaturgo de Azevedo and Francisco Siqueira of Rego Barros. We expose here the study on the formation of city and the shapes inserted into an "ideal city" in Amazon acriana of the 20th century. Through bibliographic and documentary sources relating, directly or indirectly, the periods and location of this study, we can understand and analyze the methods used in these administrations, both through architecture, education and law, suppressed, vetoing and excluded those that don't fit with the molds "civilized", through a camouflage device used to justify these kinds of transformations, called "progress".

(10)

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...10

CAPÍTULO 1 A CAPITAL DO ALTO-JURUÁ: PANORAMA HISTÓRICO...13

CAPÍTULO 2 A QUESTÃO DA EDUCAÇÃO NO ALTO JURUÁ...23

CAPÍTULO 3 COSTUMES, LEIS E PODER NA MODERNIDADE...34

CONCLUSÃO...51

ANEXOS...53

(11)

Ao apresentar este trabalho, nossa intenção é pensar a formação de Cruzeiro do Sul, sede do Departamento do Alto Juruá, focando as relações sociais (vivências, contradições e conflitos) de homens e mulheres - autoridades ou não –, e o discurso da “cidade ideal” que levou à “invisibilidade” dos elementos: indígenas, seringueiros e desterrados durante a constituição do "fazer-se" da vida urbana na sede deste Departamento no início do século XX, especificamente entre os anos de 1904 e 1915, estudados com base nas representações oficiais dos Relatórios Departamentais das administrações de:

• Coronel do Exército Gregório Thaumaturgo de Azevedo – (Primeiro Prefeito Departamental do Alto Juruá) de 7 de setembro de 1904 a 20 de fevereiro de 1905, seguido, após este período, por 6 (seis) prefeitos interinos. Retornou à administração em 12 de setembro de 1905, ali permanecendo até 9 de julho de 1906.

• Capitão do Exército Francisco Siqueira do Rego Barros – Após a última administração de Thaumaturgo, passaram-se 16 (entre Prefeitos Interinos e Prefeitos nomeados) para que Francisco Rego Barros chegasse a Prefeito Interino, de 3 de fevereiro de 1912 até fevereiro de 1913, e assumisse a Prefeitura de 21 de Dezembro de 1912 a 29 de novembro de 1915.

Estudaremos a formação da cidade e a invisibilidade dos indígenas, seringueiros e desterrados, a partir de representações oficiais. Este estudo se dá no âmbito dos estudos culturais (olhar voltado para o urbano e suas múltiplas dimensões).

A “vida” de Cruzeiro do Sul como sede do Departamento do Alto Juruá se inicia em 1904, quando o governo federal baixa um decreto e organiza o Território do Acre dividindo-o em três departamentos administrativos: Alto Acre, Alto Purus e Alto Juruá. Esta divisão foi delimitada principalmente pelos três principais rios do Acre: Juruá, Purus e Madeira.

A presença de delegados da União, na condição de prefeitos departamentais, iria alterar profundamente o quadro das relações de poder no Alto Juruá. Foi no contexto dessa alteração na estrutura jurídico-política e administrativa da região que se originou um amplo conjunto de relatos escritos e representações sobre o Alto Juruá.

(12)

Este trabalho teve origem em pesquisas realizadas durante o Projeto PIBIC, no qual estive trabalhando nestes últimos anos, momento em que despertou-me o interesse por esta cidade planejada em um relevo um tanto acidentado: Cruzeiro do Sul. Embasei meus estudos nas pesquisas realizadas em relatórios, cartas, iconografias e algumas bibliografias referentes à época e à cidade. Alguns dos principais dados coletados que me servem de suporte, foram encontrados no Museu Universitário da UFAC.

As fontes desta pesquisa foram disponibilizadas nas Bibliotecas: Central da UFAC, Pública de Rio Branco e Biblioteca da Floresta. Museu Universitário (antigo C/D/I/H), Museu da Borracha, Acervo pessoal do Desembargador Arquilau de Castro Melo, textos estudados em sala de aula nas disciplinas de História do Acre, História da Amazônia, Historiografia Brasileira, História, Natureza e Cultura, Linguagens e Identidade. E livros indicados durante a graduação pelos professores Armstrong Silva Santos, Francisco Bento da Silva, José Dourado de Souza e pelo meu orientador Gerson Rodrigues de Albuquerque (que ministrou História do Acre II).

A utilização de meios para promover este processo de “invisibilidade” ocorria através de leis de posturas, instrução e recenseamento, entre outros, tudo isto sem se desviar dos meios legais.

Este trabalho está dividido em 3 (três) capítulos:

Capítulo 1 - A capital do Alto Juruá: Panorama histórico, apresenta a formação da cidade de Cruzeiro do Sul, enfatizando o processo de modernização, proposto por Gregório Thaumaturgo de Azevedo em seu projeto de “cidade ideal”, e uma belle époque no Departamento do Alto Juruá.

O capítulo 2, A questão da educação no Alto Juruá, faz uma análise da constituição e do desenvolvimento da educação, compreendendo as dificuldades e objetivos, propostos e implícitos, deste instrumento “legal” de regeneração da população.

No terceiro e último capítulo, Costumes, leis e poder na modernidade

(13)

performances administrativas com relação à possibilidade de estes sujeitos desorganizarem o meio urbano.

(14)

A CAPITAL DO ALTO JURUÁ: PANORAMA HISTÓRICO

A instalação do Departamento em 7 de setembro de 1904, ano seguinte à assinatura do Tratado de Petrópolis em 1903, se deu no mesmo ano em que o então Presidente da República do Brasil, Francisco de Paula Rodrigues Alves, instituiu a primeira organização político-administrativa do Território do Acre (ver anexo 1). De acordo com Glimedes Barros:

Após a assinatura do Tratado de Petrópolis, o Acre foi organizado em Território Federal, subdividido em três Departamentos autônomos, cujos prefeitos eram de livre escolha e nomeação do Presidente da República. Assim, constituíam-se os Departamentos do Alto Acre, Alto Purus e Alto Juruá.

Ao se estabelecer, no Acre, a administração federal, após a assinatura do Tratado de Petrópolis, o desconhecimento das condições geoeconômicas e sociais suscitou um erro: a divisão em três Departamentos autônomos. Foi um dos grandes deslizes da organização baseada na Lei nº 1.181, de fevereiro de 1904.

À simples observação de um mapa da região, qualquer observador divisa nítidos separadores, os dois grandes cursos d’água, pelos quais foi realizada a ocupação do Território: Purus e Juruá. Essas duas bacias ressaltavam a constituição de duas vastas regiões, com governos independentes, fadados, no futuro à existência de dois Estados. (BARROS, 1993, p.5-60).

Inicialmente a sede provisória da Prefeitura foi efetivada no local chamado “Invencível”, na foz do Môa.1 Posteriormente a sede foi transferida para a área do ex-seringal “Centro Brasileiro”, e neste local foi elevada de sede à cidade em 31 de maio de 1906 (SOBRINHO, 2005, p. 98). E denominada: “Cruzeiro do Sul”, nome que teve origem da nomenclatura de um seringal anterior à sua formação: o Seringal “Cruzeiro”.

Cruzeiro do Vale — Ex-Cruzeiro. A origem deste nome vem de uma cruz formada por dois igarapés, sendo um na margem direita, o outro na margem esquerda do rio Juruá, que deságua defronte um do outro, quatro praias acima da foz do rio Amauacas [...] quando se criou a cidade de Cruzeiro do Sul, o proprietário, a pedido de um agente do governo departamental, acrescentou o nome de Vale para se diferenciar do da capital da ex-Prefeitura, palavra essa tirada de seu sobrenome. [...] Francisco Chagas

1

(15)

do Vale, que o povoou e explorou (CASTELLO BRANCO SOBRINHO, 2005, p. 37).

Nessas terras estava concentrado maior número de brasileiros, por isso era denominado “Centro Brasileiro”2

O projeto da cidade (ver anexo 3) foi desenhado pelo primeiro Prefeito Departamental e Engenheiro do Exército Nacional, Gregório Thaumaturgo de Azevedo.

. Estas são marcadas pelo relevo de vasta terra firme, com colinas e córregos, e contava com apenas um barracão em seu perímetro urbano, pertencente ao ex-proprietário Antônio Marques de Meneses, o “Pernambuco” - um dos mais antigos exploradores daquelas paragens, (ver anexo 2) - que, anos mais tarde, seria encontrado em extrema pobreza, de acordo com o relatório da prefeitura de Rego Barros (BARROS, 1993, p. 135-6).

A presença deste modelo exterior à região e que criava códigos e instituía saberes fez-se perceber até em nomenclaturas de lugares públicos, verbi gratias, o Boulevard Thaumaturgo. Além de nomenclaturas, o que mais se destaca são os padrões e hábitos exteriores à realidade da região.

[...] O seu fundador planejou-a com as regras de higiene e estética da época, com ruas de 20m e avenidas com 30m, prevendo ainda praças e jardins. A cidade foi prevista para abrigar 200.000 habitantes, na razão de 100 m2 por habitante. (BARROS,1993, p. 136).

A inspiração da divisão espacial de Cruzeiro do Sul em: zona urbana, zona suburbana e zona rural, veio de Paris, grande palco da belle époque e modelo de “cidade ideal”.

O projeto Taumaturgo, dividiu-a em 3 zonas: a urbana com uma área de 9.901.350m2 com ruas e avenidas compartimentadas em 483 quarteirões: uma suburbana com uma área de 7. 346.500m2, limitada por uma avenida circular de 100m de largura e 12, 5 km de desenvolvimento, contendo 127 quarteirões; uma zona rural destinada a sítios agrícolas com 6. 100.000m2, separada da zona suburbana por uma avenida de 100m de largura. (BARROS, 1993, p. 135).

2

Tornou-se sede permanente e renomeada de “Cruzeiro do Sul” através do Decreto de nº 4, de 28 de setembro de 1904, expedido pelo Coronel Thaumaturgo de Azevedo.

(16)

Projetada para 200.000 pessoas, sendo 100m2

Em períodos de crise, alguns dos que permanecem na floresta optam pela agricultura, como é possível acompanhar a partir dos censos demográficos, pontuando que:

para cada habitante, a cidade era dominada pela floresta cenário dos “espetáculos” de surtos e crises da indústria extrativista que causavam intensos movimentos migratórios, dependendo da situação do preço da borracha, nos sentidos: cidade-floresta, centro-margem e floresta-cidade.

Aos primeiros indicios da crize da borracha, os proprietarios volveram sua actividade para a agricultura e a população de Cruzeiro do Sul, accrescida de centenas de individuos que abandonavam desanimados os seringaes, derrubou, da noite para o dia, a mata e cobriu a terra de esplendidas searas [...]. O povo ja começa a comprehender as vantagens da cultura da terra [...] (RÊGO BARROS, 1914, p. 10/603).

Observando o ufanismo de Rego Barros4

No Relatório de Governo do ano de 1906, Thaumaturgo de Azevedo explicita que não havia disposição de muitos braços para serem distribuídos de maneira proporcional em atividades agrícolas e de extração do látex. Nota-se também a dificuldade de se administrar um Departamento como o Alto Juruá com tão grande extensão de terras, deficiência nos modos de comunicação e a mesma dificuldade em consolidar a produção agrícola voltada para o abastecimento local, pois, segundo ele:

, percebe-se que de maneira predominante a população do “Juruá Federal” estava concentrada na floresta e dependia dela.

[...] os braços são poucos e esses poucos correm atrás da falaciosa miragem da goma elástica. O sertão é o que mais se presta à locação de núcleos agrícolas, está por devassar. Fazendo-se um serviço imigratório

3

Alguns Relatórios Departamentais que utilizo neste trabalho, coletados através de pesquisas realizadas no Museu Universitário da UFAC, disponibilizaram dois tipos de paginação: a original da época e a realizada pelo responsável pela organização dos documentos, por isso disponibilizam na referência as duas paginações.

4

Leandro Tocantins faz referência a Francisco Siqueira do Rego Barros na apresentação do livro de Glimedes Rego Barros: “Nos confins do extremo Oeste: a presença do capitão Rego Barros no Alto

Juruá (1912-1915)”.

O próprio Prefeito Rego Barros é personalidade representativa, simbólica, dessa época. Portador de valores adquiridos em sua formação militar no Sul do País, procurou, inteligentemente, implantá-los num meio social onde a civilização ensaiava seus primeiros passos.

Por exemplo, entre as inúmeras e lúcidas providências tomadas pelo Prefeito Rego Barros, destaca-se a da subdivisão da Prefeitura do Alto Juruá.

(17)

oficial, esta situação penossíssima (sic), que poderá ser de conseqüências fatais, começará naturalmente a corrigir-se (AZEVEDO, 1906, p. 67).

Além de não contar com o número de habitantes suficientes para favorecer o desenvolvimento do Departamento, faltavam recursos financeiros para programar e promover o projeto da cidade idealizada, como destacaria Rego Barros, alguns anos depois:

Se bem que haja sido traçado na administração do Coronel Gregório Thaumaturgo de Azevedo, o plano urbanístico da cidade, a ausência de recursos financeiros e a deficiência de população não permitiram a sua execução. Todavia a cidade constitue-se de nove (9) avenidas, desenove (19) ruas e cinco (5) praças, obedecendo ao aludido plano, iluminadas a luz elétrica e na sua maioria calçadas de tijolos (REGO BARROS, 1913 p. 3).

No lamento de Rego Barros, ganha evidência que a idealização urbanística de Thaumaturgo de Azevedo entrou em choque com uma realidade social, espacial e geográfica, que não tinha sido devidamente dimensionada pelo autor do Plano Urbanístico com seus impecáveis traços para a sede do Juruá. A realidade era de parcos materiais, recursos financeiros, inundações (ver anexo 5) e em algumas obras a superficialidade de sua idealização.

A busca por uma padronização ou organização estética no processo de construção de moradias e edifícios, era realizada a custos muito elevados, tanto para a administração quanto para a população. Ambos tinham de recorrer ao que estivesse ao seu alcance. As moradias iniciais eram cobertas de palha, mas para “modernizá-las” com telhas, por exemplo, fazia-se necessário comprá-las em Manaus e transportá-las pelos rios elevando o preço das obras. Percebendo isso, a Comissão de Obras Federais

do Território do Acre5

5

Esta comissão foi criada pelo Decreto nº 6.406, de 8 de março de 1907, e era subordinada ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores, sendo designada para sua sede a cidade de Cruzeiro do Sul, capital do então Departamento do Alto Juruá. Era destinada, especialmente, à abertura de estradas, à desobstrução de rios, à construção, a juízo do Governo Federal, de edifícios para os diferentes serviços das Prefeituras do Acre, e à construção de obras de defesa militar no Território (CASTELLO BRANCO SOBRINHO, 2005, p. 113).

construiu uma olaria a vapor que passou a funcionar, embora produzisse tijolos de baixa qualidade. Em 1918, a população da “Zona Urbana” da cidade que, nessa época, contava com alguns edifícios em alvenaria, embora com telhados diversificados, chegou a um total de 3.802 habitantes (SOBRINHO, 2005).

(18)

De acordo com Castello Branco Sobrinho, Juiz de Direito de Cruzeiro do Sul6

O serviço postal-telegráfico foi criado, formalmente, em 1905, por intermédio de uma Portaria datada de 16 de novembro. Antes disso o serviço era executado pelos escrivães das empresas de navegação e efetuado sem obrigatoriedade. Os primeiros agentes dos correios passariam a ser nomeados a partir de 11 de novembro de 1907, com uma gratificação de cem mil réis, pagos pela prefeitura, a título de reforço (BARROS, 1993).

, não havia uma só casa de instrução na área do Território do Acre antes de 1904, tendo sido o coronel Gregório Thaumaturgo de Azevedo o iniciador deste serviço.

Este meio mais rápido e acessível era uma forma de conforto e melhorava muitíssimo as relações sociais, administrativas e comerciais. Porém esta acessibilidade não durou por muito tempo e, pouco depois, se desfez com a elevação das taxas, restringindo apenas aos mais bem-sucedidos o direito aos telegramas (BARROS, 1993).

A partir da leitura dos documentos, durante a pesquisa, foi possível apreender o quanto o panorama da cidade é controverso nas representações e leituras produzidas por diferentes observadores. Nessa direção, destacamos o trecho de uma carta datada de 7 de novembro de 1907:

O Cruzeiro do Sul é uma belíssima cidade, de ruas largas e lindas avenidas, umas e outras caprichosamente delineadas, e por sua posição topográfica, será, em futuro mais ou menos próximo, uma das mais importantes do país e de certo (sic) a mais importante do Território Federal do Acre. (ARAÚJO, 1993, p. 45).

O autor desta e de outras cartas contidas no livro “Cartas do Acre”, às quais são feitas referências neste trabalho, é Antônio José de Araújo7

6

. Segundo uma pequena biografia escrita por Luis da Câmara Cascudo no livro Natureza e História do

Rio Grande do Norte, de João Alves Melo, José Moreira Bacharelou-se na Academia de Olinda, em 13

de Novembro de 1849. “Foi um jornalista político de incessante participação, doutrinador, polemista, escrevendo com invejável serenidade e uma polidez incomparável. Dizia-se que Moreira Brandão era um dos homens mais bem educados de seu tempo, distante de intimidade, de pilhérias salgadas, de desabafos meridionais e niveladores.” Foi dez vezes deputado da Assembleia Provincial e três vezes deputado do Império. Foi também Secretário de Província e Diretor de Instrução Pública.

; aqui ele percorre o projeto

7

Bacharel formado em sciencias juridicas e sociaes pela Faculdade de Direito do Recife em 19 de Novembro de 1889.

Ex-promotor público do Alto Juruá, Território Federal do Acre.

Advogado nos auditórios da cidade do Cruzeiro do Sul, séde (sic) da Comarca do Alto Juruá, no dito Território Federal do Acre (TYP. do “Jornal do Coomercio” de Rodrigues & C.).

(19)

urbanístico de Thaumaturgo de Azevedo, ressaltando uma cidade que ainda não tinha se realizado, mas que aspiraria a lugar importante futuramente. E que, poucos anos depois, seria “cenário” para leituras a partir das quais percebemos as contradições e relação à presença de grupos humanos que não constituíam o “tipo ideal” para aquela cidade projetada.

Na capital do Alto Juruá, o indígena era considerado elemento “não brasileiro”, portanto não era apresentado em recenseamentos departamentais. No entanto, este, juntamente com o caboclo, contabilizava o maior número de habitantes (SOBRINHO, 2005).

O elemento indígena aparece em crônicas oficiais como vítimas de acossamentos realizados por peruanos que atuavam na extração do caucho ao longo do rio Juruá e, segundo o relatório da Prefeitura Departamental, datado do ano de 1905, seriam responsáveis pelo declínio populacional dos grupos indígenas da região (AZEVEDO, 1905, p.33). Percebeu-se uma visível preocupação do prefeito com estes processos de “extermínio”.

Essa perspectiva liga-se ao raciocínio da utilização da mão de obra indígena nos processos de agricultura, entre outros serviços em que muitos indígenas catequizados trabalhavam sem salário, por vezes recebendo em troca vestimentas e alimentação. Apresentados como “maiores preoccupações das prefeituras”:

De sorte que no momento actual as maiores preoccupações das prefeituras devem ser – aproveitamento do indio; localização do nacional; distribuição do ensino primario e technico; abertura de estradas; esboçamento de povoados com proporções a se fazerem futuras villas e cidades 8

(ARAÚJO, 2003, p. 34).

Mesmo que alguns registos históricos analisados durante a pesquisa afirmem inexistência ou escasso número de negros na Amazônia juruaense, tomamos nota da figura de tanta representatividade no Departamento do Alto Juruá, na pessoa de Mâncio Agostinho Lima, apresentado em sua identificação como de pele “morena clara” (ver

anexo 4).

Escrevia estas cartas ao proprietário do Jornal “O Palladio”, de Santo Antônio de Jesus, no Estado da Bahia.

Neste estudo, o ano original aparecerá em nota de rodapé. 8

(20)

Como estava em voga na época a chegada ou a influência para a vinda de estrangeiros como mão de obra, Thaumaturgo sugere uma campanha para atrair imigrantes de outras partes do país e do mundo - com o objetivo de promover o “desenvolvimento” na indústria gomífera e abrir espaço para o conhecimento sobre a agricultura. - Estava diretamente ligada às tensões entre o chefe do executivo departamental e os proprietários de seringais, propondo que aliviaria a pressão dos patrões sobre os trabalhadores, e vice-versa, Thaumaturgo de Azevedo tinha urgência em promover o estabelecimento de:

[...] uma larga e contínua corrente imigratória, nacional e estrangeira, a fim de não escravizar os trabalhadores e de libertar os patrões de tal sobrecarga, preferindo nesta última a do povo da raça amarela, por ser a mais adaptável ao clima amazônico, e entrando-se para isso em negociações com qualquer empresa japonesa ou com o próprio Japão, cujo plenipotenciário no Brasil, o Sr. Sughimura, já se ofereceu aos governadores de S. Paulo e de Minas Gerais para introduzir colonos da sua nacionalidade naqueles Estados (AZEVEDO, 1905, p. 48).

A “modernidade” de Thaumaturgo caminhava na direção de outras iniciativas presentes nas Amazônias, como nos aponta Maria Luiza Ugarte Pinheiro, em “Meandros da cidade: cotidiano e trabalho na Manaus da borracha, 1880-1920”, ao pontuar que o sucesso de um movimento progressivo de modernização que, excluindo o

que havia de ‘primitivo’, ‘selvagem’ e ‘atrasado’, recuperava a Amazônia para a cultura ocidental, branca, civilizada, limpa, elegante (PINHEIRO, 2008, p. 54).

A proposta da presença japonesa reafirmava a busca pelo processo de “limpeza”, contrapunha a “herança ocidental” e representava uma visão de superioridade racial; além de tudo, continha o caráter primordial de incentivo ao desenvolvimento agrícola, principalmente, tendo em vista a notoriedade japonesa no que se refere ao conhecimento e trato com a agricultura.

Para o autor das “Cartas do Acre”, a sugestão era que tais grupos tivessem meios morais, materiais, para desenvolver-se e

Falta-lhe a população, principalmente população instruída capaz de representação em qualquer dos departamentos do serviço público; falta-lhe (sic) os meios Moraes e materiaes, de se desenvolver e aproveitar os germens de riqueza latente no seu riquíssimo solo; falta-lhe, sobretudo, o aprendizado governativo, que não se adquire com as más praticas dos Estados vizinhos,

(21)

nem com dous ou tres annos de governo prefeitural, governo inadequado ao regimen de representação9 (ARAÚJO, 2003, p. 172-173).

O que entrava em questão era a instrução, mas a instrução de ordem moral, apresentando atributos que decorriam de sujeitos com ideias, valores e percepções de mundo que silenciassem e jogassem para as margens as culturas e processos históricos que marcavam as trajetórias dos grupos de homens e mulheres de distintas tradições que habitavam a Amazônia juruaense e que gradativamente foram tornando-se invisíveis nos escritos oficiais. Logo, esta instrução visibilizava tais sujeitos com o objetivo de desviar instintos.

Enquanto os habitantes do Departamento do Alto Juruá se habituavam aos novos contornos de cidade, no contexto de estrutura urbanística, existiam outros atributos a se adaptar, tais como: novas normas, novos corpos, novas práticas da belle

époque juruaense.

A belle époque, para Marcia Camargos, configura um período de novidades, euforia e relativa paz e prosperidade, entre fins do século XIX e o contexto da Primeira Guerra Mundial. Para esta autora, o brilho dessa fase anunciava-se por meio de

mutações, muliplicação das invenções e metamorfoses que desenhavam os contornos da modernidade (Camargos, 2001, p.21).

O Brasil contemplou o auge da Belle époque no governo de Campos Sales, atuante principalmente na capital do Brasil, que neste período localizava-se no Rio de Janeiro. Para Ana Maria Daou:

[...] A “Bela época” é a expressão da euforia e do triunfo da sociedade burguesa no momento em que se notabilizavam as conquistas materiais e tecnológicas, se ampliaram as redes de comercialização e foram incorporadas à dinâmica da economia internacional vastas áreas do globo antes isoladas. (DAOU, 2004, p. 7).

A percepção da belle époque, expressa no projeto da cidade de Cruzeiro do Sul, impregnada de propósitos civilizadores, saneadores, higiênicos e ideais de “bons” costumes nos moldes do que, desde o modelo parisiense, vinha se estendendo para

9

(22)

muitas cidades brasileiras. No caso de nosso estudo específico, note-se que a implantação idealizada para a cidade já se deu sob a égide desse modelo.

Nesse sentido é relevante a “descrição” de Antonio Araújo, ao mesmo tempo crítico e propagandista dos empreendimentos e “inovações” do Prefeito Departamental:

E, dahi, o voltarem-se para os novos emprehendimentos. Não é de conventos e igrejas que se enchem as cidades de agora; é de theatros, de estabelecimentos de ensino, de casas de instrucção e diversão. Rasgam-se os horizontes, alargam-se e embellezam-se as ruas, augmentam-se os parques e boulevards, cortam-se as grandes avenidas, fazem-se as casas mais bellas, mais commodas, mais hygienicas; em uma palavra, põe-se a natureza ao serviço do homem que tem vontade, do homem, finalmente, que possue uma alma e já não a volta para o eco, que elle desconhece, ignora, não sabe se em realidade existe, mas para o mundo, que o attrahe e fascina pelo gozo e pelo trabalho, dous companheiros inseparáveis10 (ARAÚJO, 2003, p. 56).

A partir desse trecho de uma carta do ano de 1907, podemos perceber que a “belle époque” juruaense, ancorada na expansão da economia gomífera, era influenciada em consideráveis proporções pela belle époque de cidades como Belém e, principalmente, Manaus, palcos de espetáculos inspirados em Paris – cidade europeia que deu origem à belle époque, de onde abstraía não apenas a construção espacial e de costumes.

O acesso ao teatro, nomenclaturas francesas, cinemas, associação comercial, sociedades recreativas, beneficentes e operárias passaram a constituir o panorama de uma cidade que proporcionava espaços acessíveis a uma pequena elite que viria a se encaixar na estrutura urbana. Tecnologias e desenvolvimento em iluminação, lazer, transporte, educação, justiça, estrutura urbanística e meios de comuniação, tudo isso advinha da nova tendência da época.

Essa “belle époque” objetivava “civilizar” o ambiente “hostil” daquele mundo amazônico e seus habitantes, rotulados como “selvagens” em contraposição ao ideal de “civilização”. Com relação a isso, não estamos nos referindo às normas higiênicas das estruturas e projeções da cidade em si, mas da regência de normas aplicadas às estruturas mentais, comportamentais e físicas dos habitantes do Departamento do Alto Juruá.

A imposição de hábitos civilizados em meio a uma paisagem apresentada pelo discurso dominante como: “hostil”, “insalubre” e de costumes “selvagens”, fazia dela

10

(23)

uma paisagem de incompatibilidade com o progresso e com os novos parâmetros que eram pregados na época. Aí já estava expresso o ideal de modernização que buscava a “regeneração” do ambiente e de seus habitantes.

Velloso (1988) trabalha o termo regeneração com o significado de civilizar, deixando de lado uma cultura considerada inferior, pois integrava elementos arcaicos, bárbaros e selvagens e passava a constituir uma espécie de subcultura europeia. Ainda no raciocínio de Velloso, a subcultura europeia fragmentou a cultura brasileira em dois conceitos: erudito e popular. O primeiro, considerado universal, estaria em perfeita sintonia com a modernidade, o progresso e a dinâmica; já o segundo, o saber popular, representaria o arcaico, um mundo em extinção, do qual caberia fazer apenas o inventário (VELLOSO, 1988).

Nessa direção, ressaltamos também as considerações de Mary Del Priore (2004), para quem:

[...] Os hábitos populares se tornaram alvo de especial atenção [...] Nesse sentido, medidas foram tomadas para adequar homens e mulheres dos segmentos populares ao novo estado de coisas, inculcando-lhes valores e formas de comportamento que passavam pela rígida disciplinarização do espaço e do tempo do trabalho, estendendo-se às demais esferas da vida [...] Convergiam as preocupações para a organização da família e de uma classe dirigente sólida – respeitosa das leis, costumes, regras e convenções. Das camadas populares se esperava uma força de trabalho adequada e disciplinada (DEL PRIORE, 2004, p. 364).

No diálogo com Del Priore, pensamos a noção de belle époque, aplicada ao Alto Juruá, acompanhada do ideário civilizatório e do modelo de intervenção espacial e temporal proposto por Thaumaturgo de Azevedo. Nessa direção, percebemos que, além da instrução como forma de adequação aos novos valores e formas de comportamento “aceitáveis”, houve toda uma preocupação com a regulação do trabalho, com a institucionalização de uma legislação local específica para isso.

A regulação do trabalho e a primeira divisão espacial simbolizavam a razão ordenadora do projeto que buscava desenhar aquela “cidade ideal”, “moderna” e “civilizada” (VELLOSO, 1988, p. 12).

(24)

A QUESTÃO DA EDUCAÇÃO NO ALTO JURUÁ

As denúncias sobre o alto índice de analfabetismo no Departamento do Alto Juruá e as intervenções oficiais para sanar esse “problema” estavam continuamente na ordem do dia em relatórios departamentais dos primeiros anos de implantação da presença do Estado Nacional na região.

A partir da leitura e análise dos primeiros relatórios de Thaumaturgo de Azevedo, foi possível extrair uma tabela (Tabela 1) e compor outra (Tabela 2) que espelhasse a visão oficial sobre alfabetização de homens e mulheres situados no interior daquele departamento, como podemos acompanhar nas tabelas abaixo:

Tabela 1

Fonte: (AZEVEDO 1905, p. 51).

11

Após a reforma gramatical escreve-se Moa.

DEPARTAMENTO DO ALTO JURUÁ

RESULTADO DO RECENSEAMENTO EFETUADO EM 31 DE DEZEMBRO DE 1904, EM 112 SERINGAIS DOS RIOS: ALTO JURUÁ, JURUÁ-MIRIM, MÔA11, IPIXUNA, PARANÁ DA VIÚVA, EMBIRA E ALTO

GREGÓRIO RIOS HOM E NS MU L H ER E S TO TA L MENORES DE 21 ANOS MAIORES DE 21 ANOS S A B E M L E R E ES C R EV ER ANAL F AB E T OS TO TA L HOM E NS MU L H ER E S TO TA L HOM E NS MU L H ER E S TO TA L ALTO JURUÁ 1.493 577 2.070 551 318 869 942 259 1.201 563 1.507 2.070 JURUÁ-MIRIM 34 45 79 21 13 34 29 16 45 27 52 79 MÔA 423 136 559 160 81 241 263 55 318 127 432 559 IPIXUNA 380 170 550 173 92 265 207 78 85 113 437 550 PARANÁ DA VIÚVA 370 166 436 134 91 225 236 75 311 284 252 536 EMBIRA 2.011 734 2.745 1.241 317 1.558 770 417 1.187 699 2.046 2.745 ALTO GREGÓRIO 376 59 435 113 35 148 236 51 287 140 295 435 SOMA 5.087 1.887 6.974 2.393 947 3.340 2.683 951 3.634 1.953 5.021 6.974

(25)

A Tabela 1 contém um recenseamento realizado no fim do ano de fundação (1904). Nela percebemos a deficiência na distribuição de homens e mulheres que causa a discrepância entre o número de homens e mulheres nos rios e seus afluentes, destacando como exemplo o Juruá Mirim, que tem em maior número de habitantes o gênero feminino, mesmo que se encontrem na faixa etária inferior aos 21 anos, contrapondo-se às outras localidades onde percebemos maior número de homens.

Entre o número de alfabetizados, que contabilizam 1.953, destacamos a hipótese da existência de alguns desterrados alfabetizados deslocados para as terras acrianas, inseridos nestes números. A existência destas pessoas não era representada expressamente, com relação à instrução, em informações de relatórios.

Tabela 2

RECENSEAMENTO DO ANO DE 1906 (DEPARTAMENTO DO ALTO JURUÁ)

Rio Juruá e afluentes Rio Tarauacá e afluentes Soma

TOTAL DE HABITANTES 7.781 6.427 14.208 [grifo nosso]

HOMENS 5.880 4.701 10.581

MULHERES 1.901 1.726 3.627

SABEM LER 2.262 1.663 3.925

NÃO SABEM LER 5.519 4.764 10.283

CRIANÇAS - - 2.129

QUANTIDADE DE SERINGAIS 90 115 205 [grifo nosso]

Fonte: (AZEVEDO, 1906, p. 28).

A Tabela 2 foi elaborada de acordo com as informações encontradas no referido Relatório Departamental, no qual as informações são apresentadas em forma de quadro expositivo; apenas a soma geral dos habitantes e da quantidade de seringais não foram mostradas no relatório, foram adicionadas neste trabalho por ser viável o resultado. A partir dessa tabela, a quantidade de crianças não é revelada nos rios e seus afluentes, como se pode perceber, mas aparece na soma e é inclusa para o cálculo do total de habitantes. Na sede do Departamento, Cruzeiro do Sul, contabilizam-se apenas 546 habitantes. Ao final das informações coletadas sobre o recenseamento, na mesma página, o Prefeito Departamental faz a seguinte consideração:

(26)

Os que pensam que tirem (sic) as naturais deduções da desproporção constatada entre homens e mulheres, refletindo também sobre o pavoroso cancro do analfabetismo. Estes dois males explicam muitos desequilíbrios morais dos povoadores destas regiões. (AZEVEDO, 1906, p. 28).

A análise de Thaumaturgo de Azevedo sobre os números levou-o à conclusão de “desequilíbrio moral” e buscar o combate a isto, e partindo deste fato pôs em prática o ensino da moral e da constituição do “sujeito civilizado” que formaria o sujeito da “cidade ideal” planejada por ele, destacando também a acentuada preocupação com a higiene do Departamento.

Entre os instrumentos utilizados para a adequação aos novos padrões, estão as leis e a instrução, concebidas como propostas cabíveis a uma população constituída de um grande número de analfabetos12

“Homens de letras”, de passagem por Cruzeiro do Sul, trataram de registrar suas impressões sobre a necessidade de implantar um sistema de educação formal naquela cidade de Departamento Territorial.

e de pessoas classificadas em documentos oficiais como transgressoras, ou desprovidos de civilização.

Na sciencia está o segredo dos destinos humanos [...] Mas esses princípios, e essas verdades, esses preceitos orgânicos da sciencia, o homem não nasce sabendo-os. E’ precizo estudal-os; é precizo se lh’os ensinar. E esta é a grande função do Estado, essa entidade que os antigos não conhecia e de que o modernos fazem a cabeça e o cerebro das nações13 (ARAÚJO, 2003, p.75).

Os olhares dos dirigentes departamentais em estudo se estenderam, de uma maneira geral, aos sujeitos que habitavam no interior da floresta; estes deveriam ter prioridade em ser “alfabetizados”.

Seguindo esta visão de função do Estado, Thaumaturgo de Azevedo, implantaria, em 1904, a primeira escola do Departamento, denominada “Visconde do Rio Branco”, e a partir daí muitas outras instituições de ensino foram fundadas. Para tal, a Prefeitura forneceu os artigos necessários ao funcionamento das instituições, incluindo

12

De acordo com o texto Castelo Branco Sobrinho (o Juruá Federal) o analfabetismo chegou a alcançar 70% da população do Departamento.

13

(27)

quadro mobiliário e, como não poderiam faltar, os livros indicados para a execução das aulas:

[...] enviei também a todas as escolas a seguinte nota dos livros escolares a adotar no 1º ano: Taboada, Guia prático e teórico da Cartilha maternal, compilada por João de Deus; Os deveres dos filhos, por João de Deus; Arte de escrita, por João de Deus; Cadernos de escrita, método Garnier, do 1º ao 10º caderno; O desenho na escola, por Fernando Dardignac, ns. 1 a 4; Coração, por Edmundo de Amicis; Elementos de instrução moral e cívica, pelo Dr. João Diogo Esteves da Silva; Mário, livro de leitura enciclopédica, por Paulo Tavares; Pequena geografia da infância, pelo Dr. Joaquim Maria de Lacerda; Gramática portuguesa, 1º ano, por João Ribeiro; Hinos escolares, por Menezes Vieira (AZEVEDO,1906, p. 23 e 24).

Pela relação dos livros, evidenciam-se os “deveres dos filhos” e os “elementos de instrução moral e cívica”, para suprir a falta de instrução moral encontrada em adultos para que não se perpetuasse na nova geração, para formar o “tipo ideal”. Pensando nisto, podemos utilizar a referência que José Arimatéa Bezerra fez a Telma de Barros Correia no texto: “Eugenia, nacionalismo e higienismo: as bases do discurso sobre alimentação da criança na escola.” Vejamos:

Tratava-se de domesticar os instintos e reprimir paixões, fazendo as crianças assimilarem hábitos julgados civilizados, de modo a tornarem-se adultos pacíficos, moralizados e asseados - cientes e respeitadores das regras de civilidade e de higiene corporal. Ensinar a acatar ordens, compreender regras e cumprir regulamentos surgia como um dos eixos centrais desse ensino. Treinar o indivíduo para respeitar hierarquias e, sobretudo, a autoridade do patrão era outro de seus alvos (BEZERRA, apud CORREIA, p. 134).

A instrução moral e cívica serviria para assegurar a ordem, o cumprimento das normas disciplinares, para manter um controle de conduta para administração da Prefeitura Departamental e da seringalista, compreendendo que o imaginário de “selva” e “selvagem”, aí já estava embutida na mentalidade da época também no Departamento; logo, a selvageria atribuída aos habitantes daquelas paragens, de acordo com o discurso, deveria abrir espaço para a “civilidade”, oferecendo a proposta de levar “luz às trevas”.

Para a administração da Prefeitura era necessário que a instrução fosse levada a todas as direções enfatizando a moral e a higiene. Os sujeitos foco desta transformação estavam localizados no interior da floresta, portanto distantes do barracão (centro de

(28)

abastecimento e de prestação de contas). Fez-se necessária a ida até a floresta para assegurar o acesso a esta instrução e:

[...] o desenvolvimento do cortejo de males, que quasi gangrenam o paiz, criando habitos maós, costumes inveteradamente reprovaveis, exemplos de difficil desarraigação [...] sem descuidar-se do valor das sciencias Moraes e sua benefica influencia sobre os costumes, vê na sciencia o manancial de onde decorrem ou podem decorrer todas as prosperidades e grandezas não já das nações sómente, mas da humanidade inteira, motivo por que distribue o seu ensino por um processo eminentemente pratico e positivo14 (ARAÚJO, 2003, p.76).

O que chama a atenção é que essa instrução não visava propiciar apenas o acesso ao domínio da leitura e da escrita, mas implicava a absorção de valores morais e de combate aos “maus costumes”. Essa passou a ser a maior preocupação do Governo Federal, que assumiu a ideia de mudança de costumes através da instrução, posto que:

[...] como em outras tantas medidas e providencias que ainda hoje são assignaladas como início do desenvolvimento moral e material do Departamento, notadamente a organização da justiça de paz, a distribuição do ensino primário, etc.15

O Governo Federal anda muito preocupado com os melhoramentos do Acre e uma das suas iniciativas mais louvaveis e mais dignas de encomios vai sendo o levantamento ao nivel moral e intellectual da população pela diffusão do ensino16 (ARAÚJO, 2003, p. 52 e 108).

Essa preocupação abre a discussão às condições naturais dos indivíduos inseridos na proposta de educação que, para tanto, haveria necessidade de tempo disponível ao estudo e acesso à escola. Mesmo com a implantação de escolas noturnas para adultos, no período da administração de Thaumaturgo de Azevedo, essa situação não era lucrativa nem ao seringalista, em tempos de lucros, e nem para o seringueiro que trabalhava para saldar suas dívidas com o patrão, se comparado ao fato de que o tempo gasto no estudo poderia ser revertido para a extração do látex, já que o Departamento dedicava-se exclusivamente à produção da borracha, obtendo gêneros alimentícios através da importação.

14 6 de janeiro de 1908 15 11 de novembro de 1907. 16 5 de fevereiro de 1908.

(29)

A afirmação disto é que, em alguns casos, patrões não convergiam com os propósitos da administração departamental e, ante a ameaça de não auferirem maiores lucros com a produção gomífera, relutavam por aceitar ou incentivar esta proposta do Prefeito, que diz respeito à instalação de escolas e à colaboração do proprietário do seringal.

Provavelmente esta reação é justificada pelas ameaças que o conhecimento da escrita e da matemática (aritmética) representaria para os proprietários de seringais, no que diz respeito ao seringueiro saber calcular e identificar saldos defraudados e se lesado pela fraude, buscar seus direitos de ressarcimento.

Estas divergências entre proprietários de seringais e a administração Prefeitural também incluía a coibição da ligação do morador à terra, causando barreiras ao incentivo à produção agrícola, proposto pela prefeitura e que em alguns casos feriam os interesses de seringalistas em lucrar com o acréscimo exagerado nos preços de produtos importados vendidos em seu barracão. Assim, dificultavam e proibiam esta vinculação de maneira rígida e tirânica.

As discussões e denúncias em relação a essa situação fundiária, publicadas em jornais de outras localidades, especialmente, no Rio de Janeiro, capital da República, abriram espaço para o debate sobre a questão da propriedade da terra na Amazônia juruaense, já naquele contexto de inícios do século XX, e da presença do Estado na região, como nos deixa perceber um trecho da carta de Antonio Araújo, datada de 26 de setembro de 1909:

[...] As demais povoações que existem nos rios Juruá, Tarauacá, Murú e Envira, como sejam Paraná dos Mouras e Amonea, no Juruá, Jamínauas e Riozinho do Jordão, no Tarauacá, e Paraíso, no Murú, não ostentam mais de doze ou vinte crianças de ambos os sexos, e isto porque todas essas povoações são situadas em seringais de “propriedade particular”, e os proprietarios ou antes, posseiros, porque no Acre quasi não ha proprietarios territoriaes, difficultam a construcção de barracas, prohibem em absoluto as casas de telha de barro, e não consentem na vinculação do morador ao solo17 (ARAÚJO, 2003, p. 164).

Em tese, aqueles que disponibilizariam de mais oportunidades para a instrução, seriam as crianças, se estas também não estivessem ocupadas auxiliando no sustento da

17

(30)

família. Na opinião dos administradores, a instrução da criança “injetaria” em sua casa o saber apreendido na escola. Levava-se também em conta a inclusão da criança indígena e ribeirinha neste ambiente escolar, objetivando a mudança de posturas e a disseminação da educação apreendida em sala de aula levada ao âmbito familiar e ambiente relacionado a eles.

Nestas dificuldades encontradas para a difusão da instrução, destacamos outra muito influente: a falta de dotação orçamentária Tamanhos gastos e empecilhos na proposta de levar instrução a todas as localidades acarretaram o seu fracasso em algumas delas pela distância de um seringal para outro, da colocação para o centro, até mesmo pela geografia do Departamento e suas oscilações fluviais, dentre outras causas, posto que, no dizer de Castello Branco Sobrinho:

[...] os prefeitos e o Governo atual do Território não se descuraram desse importante problema nacional, com que despendiam, quase sempre, mais de um terço da dotação orçamentária, mas a angústia das rendas prefeiturais e territoriais, além de se achar espalhada a população, contribui para tornar este problema de solução complexa (CASTELLO BRANCO SOBRINHO, 2005, p. 79).

O resultado evidente foi o cerrar das portas de muitas escolas sem condições de continuarem abertas pela falta de alunos suficientes (como podemos acompanhar pela tabela abaixo), sem descurar do fato de que se trata de uma leitura ou interpretação de certo contexto histórico, a partir de informações oficiais que merecem ser devidamente contextualizadas e problematizadas.

(31)

Tabela 3

ANOS ESCOLAS MATRÍCULA FREQUÊNCIA MÉDIA DE ALUNOS OBSERVAÇÕES

1904 3 - 118

1905 7 - 218 Uma não funcionou.

1906 6 - 160 Eram particulares.

1907 15 - -

1908 20 - 160

1909 26 - 468

Sendo um Lyceu, uma profissional e três escolas no Tarauacá.

1910 26 - -

1912 20 542 - A frequência (sic) foi de 70%.

1913 24 608 474 Sendo oito na cidade.

1914 17 517 438 Sendo oito na cidade.

1915 19 532 - Sendo oito na cidade.

Fonte: (SOBRINHO, 1922, p. 96).

A preocupação com o projeto de instrução que estava decaindo seria refletida nos relatórios departamentais, restando aos administradores buscar a manutenção das escolas que não apresentavam muitas dificuldades.

Nessa direção, mais uma vez, mantemos diálogo com o relatório de José Moreira Brandão Castello Branco, que atuou na região na condição de advogado e Juiz de Paz, deixando uma série de importantes registros escritos.

A não ser na cidade, nas vilas e alguns povoados, os seringais não oferecem núcleos de população que possam manter uma escola com 30 ou 40 alunos, porque, tendo estes uma área enorme, com poucos habitantes, acham-- se eles situados em colocações de dois, três ou quatro moradores, distantes na maior parte três, quatro e mais horas da sede do referido seringal, senão (sic) dias, atendendo-se certos embaraços de comunicação (CASTELLO BRANCO, 2005, p. 79).

Para Thaumaturgo de Azevedo, o ato de intensificar escolas móveis diminuiria os gastos orçamentários repassados pelo Governo Federal e abririam oportunidades de alcance para os seringais e colocações de difícil acesso, sem se descuidar das escolas fixas em centros urbanos. Para ele esta tentativa solucionaria os problemas com gastos

(32)

em escolas instaladas em localidades das quais poucos frequentavam pela insuficiência populacional, distância ou dificuldades de acesso, e que findariam por fechar as portas:

Já tive ensejo de expor a V. Exª. a minha maneira de ver a respeito do sistema de ensino mais adaptável a estas regiões, em que a população se dispersa pelos seringais, formando um magote em cada barracão. Seria preciso, para que a luz da instrução se espalhasse por todos e adaptando o processo da fundação de escolas fixas, criar uma em cada seringal. A maior das receitas seria suficiente para custear este serviço. É indispensável, no entanto, que o ensino se reparta igualmente pelos que substanciam a camada contribuinte. E o único método a seguir é o das escolas móveis, visto que o professor preencherá os fins da aula primária em quatro meses, podendo um só, assim, visitar três seringais por ano. Isto não dispensará, todavia, as escolas fixas nos centros mais populosos (AZEVEDO, 1905, p. 13).

Mais esta dificuldade foi identificada nas administrações departamentais: a escassa quantidade de habitantes, tanto que, para suprimir essa carência, além de outras providências, persistiu-se na catequese para utilização do braço indígena em trabalhos e serviços do Departamento.

No início da década de 1910, durante a administração de Rêgo Barros, o quadro apresentado seria basicamente de uma instrução focalizada na criança, mas sem deixar de lado a instrução do adulto, realizada em período noturno, herdada da administração de Thaumaturgo Azevedo.

De acordo com o relatório de Rêgo Barros, a questão da “instrução móvel” era assunto bem acolhido por alguns proprietários de seringais, mas expressa que seria impraticável. Sendo assim essa proposta foi descartada por essa administração.

[...] Ao começo, estudando o assunto, pensei nas escolas ambulantes; tive, porem, de abandonar essa idéa, reconhecendo a sua impraticabilidade, não só pela dificuldade de transporte como pela falta de pessoal apto a esse mister. Atualmente quazi todos os proprietarios de seringais se interessam pela difuzão do ensino e muito auxiliam a Prefeitura, dando caza e mobiliario para o serviço escolar, acolhendo carinhosamente os professores e reunindo nas proximidades da escola o maior numero possível de crianças (BARROS, 1913, p. 43).

Esta questão da instrução pública foi peça chave no projeto de desenvolvimento do ideal civilizador na região; ela buscaria manter algumas orientações, instituições e professores, e ajustá-los às normas e exigências da higiene

(33)

pedagógica18

Também era importante manter a escola como um atrativo infantil que alcançasse e “contagiasse” os ambientes em contato com o aluno, principalmente, o meio familiar, utilizando-se para isto o ensino como modo de manter e disseminar a “boa conduta moral e cívica da população”:

da época. Na medicina social, a higiene, anteriormente desenvolvida sob

a forma de política médica, cede lugar, então, à prática higiênica de cunho ordenatório com a finalidade de administrar a população (BEZERRA, 2004, p.133).

[...] tenho a satisfação de afirmar a V Exa. que o ensino primário na sede da Prefeitura é uma realidade e póde ser equiparado ao de qualquer cidade do paiz. A infancia vai para a escola com prazer porque sabe que os professores tornaram as casas de ensino centro de atração infantil, e os pais, mesmo os mais ignorantes e descuidados da instrução dos filhos, já vão compreendendo as vantajens da instrução publica. A educação civica e moral são objeto de cuidados muito especiais da Inspetoria da Instrução e de desvelos dos mestres, e o desenvolvimento fizico das crianças é dado indistintamente a ambos os sexos por meio da ginastica sueca, não sendo esquecido, como parte integrante do programa em vigor, a educação social (BARROS, 1913, p. 13).

Produzindo a mente e o corpo, educando os sentidos e os olhares, a educação no Departamento do Alto Juruá, na narrativa de Rego Barros, transcorria de maneira prática, para tornar mais ordeira, higiênica e civilizada a sede do Departamento e preocupando-se com a constituição do “novo cidadão”, não obstante o fato de que apenas na parte urbana do Departamento a instrução havia se tornado bem sucedida, mas não funcionando do mesmo modo no interior, onde havia revoltas, fugas, a temida “indisciplina trabalhista” e dos costumes. Talvez este fosse o incentivo que levou alguns outros patrões a aderir e começar a apoiar a introdução de escolas, móveis ou fixas, em suas propriedades.

Nesse sentido, o preocupar-se com a instrução e a instalação de escolas fixas, mantidas sob rigorosa fiscalização do inspetor de ensino, passou a ser a prioridade da administração departamental, como mecanismo mesmo de intervenção na esfera familiar:

18

Método de ensino que marcou os períodos iniciais do Brasil República, que buscava a constituição de um Estado Nacional, um caráter nacional, sem levar em consideração o aspecto multicultural e multiétnico da nação.

(34)

O aluno das escolas do Departamento é geralmente filho do homem pobre, roído pelas mais atrozes privações domesticas e inteiramente destituído de virtudes aprimoradas e senso cívico. No lar esse menino nada aproveita do convivio paterno. E’ preciso que o governo prefeitural intervenha tutelarmente na educação dessas crianças por meio da escola (BARROS, 1914, p. 107/99).

A tutela da criança pelo Estado e a análise de Rego Barros sobre ela, coloca em evidência o caráter autoritário da administração departamental e a tentativa de imposição de práticas culturais em direto confronto com os modos de vida e as culturas locais. Assim, chama nossa atenção o relatório do Inspetor de escolas na região, João Craveiro Costa, ao afirmar que, em algumas escolas do interior os professores se

esforçam no sentido de desempenhar fielmente seus deveres e se mais não conseguem de seus alunos é porque falta-lhes (sic) quase tudo que é indispensavel a uma escola.

Entretanto, neste âmbito percebemos também o confronto de percepções sobre os métodos de ensino entre os discursos oficiais. Temos como exemplo a situação observada segundo o inspetor Craveiro Costa em relatório ao Prefeito Departamental Francisco Rego Barros:

Em quazi todas as cazas de ensino que vizitei encontrei a palmatoria como símbolo da disciplina e da instrução, infrinjindo, neste ponto, quazi todas os professores o regulamento em vigôr. Disseram-me alguns professores que castigavam fisicamente seus alunos a pedido dos Paes e de alguns paes ouvi a confirmação dessa desculpa. Proibi formalmente o emprêgo aviltante e contraproducente da palmatoria, fazendo retirar da sala esse instrumento de castigo (BARROS, 1914, p. 37).

A apresentação acima denuncia a situação deparada em algumas escolas que ainda viviam nos moldes da administração anterior a Rego Barros, que se utilizava da palmatória como modo de garantir obediência e ensino.

O espanto e a reação nesta situação assinalam as direções, dificuldades e contrastes culturais que os modelos civilizatórios - propostos por devotos defensores da “modernização” e da “belle époque” juruaense, - enfrentavam. Estes paralelos iam se manifestando até mesmo no âmbito dos agentes e instrutores a quem cabia a incumbência de levar a “civilização” aos “bárbaros”, e que naquele momento representaram para a administração vigente, métodos ultrapassados de ensino.

(35)

COSTUMES, LEIS E PODER NA MODERNIDADE JURUAENSE

No processo de implantação da Prefeitura Departamental do Alto Juruá, um conjunto de regras, normas e leis foram surgindo e sendo realizadas pela administração departamental. A partir dessas normas, as novas formas de apreender e intervir nas lógicas temporais/espaciais locais redundaram em conflitos e tensões com as populações de seringueiros e indígenas, bem como com os patrões e outros grupos locais, descontentes com os procedimentos institucionais e com a “ordem pública”, exemplo de que o urbano e o universo da floresta haviam sido submetidos a uma visão exógena que acarretou estas tensões.

As lógicas e as posturas adotadas pelo Estado para controlar e reprimir costumes passaram a delimitar as ações e fronteiras culturais e espaciais entre o “urbano” e o “universo da floresta” ou dos valores e hábitos que insurgiam da floresta – tida como “rural” – no perímetro destinado à cidade idealizada por Thaumaturgo de Azevedo. Um dos artigos do Decreto n. 24, de 28 de dezembro de 1905, ressaltava a proibição de

[...] ter vacas, porcos, cabras, carneiros, cavalos, cães ou quaisquer outros animais soltos, dentro do perímetro urbano da capital. Os cães cujos donos quiserem que andem em liberdade dá-los-ão à matrícula. Multa de 50$ para o contraventor (AZEVEDO, 1905, p. 64).

Essa lógica voltada para a formulação de um código de posturas, que organizaria as atividades e a vida cotidiana na captital do departamento, permite captarmos a visão exógena lançada pela administração pública àquele mundo amazônico. Como podemos observar em trechos de leis e decretos da Intendência Municipal do Alto Juruá:

Do asseio da cidade e dos suburbios, providencias em geral Art. 86º - É prohibido nas ruas, praças, sargetas ou esgotos, ou lgares destinados ao uso publico:

§2º - Estender, bater, o secar couros salgados ou espichados. §3º - Queimar estrumes, lixos, ou quais quaesquer outros resíduos. (AQUINO, 1913, p. 35)

(36)

Art. 178º - Os animaes que forem encontrados vagando pelas ruas, praças e mais logradouros publicos, ou os que forem de criação prohibida dentro da cidade e dos suburbios, serão apprehendidos e recolhidos ao deposito de correcção e não pagando o seu dono a multa respectiva, nem apresentando reclamação no praso de 24 horas, serão os mesmos animaes arrematados á porta do deposito, precedendo edital por 3 dias, sendo que do produto da arrematação deduzir-se-á a multa e custas ou despezas e o resto será recolhido aos cofres munícipes para ser entrege a quem de direito. (AQUINO, 1913, p. 48)

A tentativa de impor uma urbanidade medida pelo padrão de outras localidades à cidade de Cruzeiro do Sul, fazia ecoar a preocupação estética em detrimento das possibilidades reais de sobrevivência dos grupos humanos que a habitavam.

Também vale ressaltar que para aqueles que constituíam suas práticas sociais vinculadas à exploração da borracha e ao comércio de produtos da floresta, as mudanças de poderes influenciaram em muito suas vivências, que entraram em choque com as propostas de remodelamento social, adaptação, disciplina ao trabalho e ao comportamento “cívico” e “ordeiro”.

A introdução de leis na esfera de um mundo marcado, tradicionalmente, pela vontade dos seringalistas e seus códigos, acabou servindo como estopim para uma série de conflitos na região, como foi possível perceber a partir da leitura dos relatórios departamentais, marcando o contraponto entre a questão da autoridade do proprietário de terras e da lei através da administração departamental.

A efetiva organização do poder judiciário no departamento serviu, no entanto, para fazer com que o conflito entre esses poderes fossem, gradativamente, modificados e adaptados por questões de interferências e de interesses.

Só não se sabia o que era autoridade, senão por se haver sentido alhures effeitos de seu poder, aqui completamente annulado [...] Não existiam escolas, não havia justiça e até mesmo o fisco não seria lembrado se às vezes as partes não achassem necessária a sua presença para melhor garantia dos seus direitos. Tudo quanto existia e dominava, para neutralizar os effeitos de tamanha desorganização era a generosidade do mais forte, as mais das vezes espancada por maós [grifo nosso] impulsos de momento19 (ARAÚJO, 2003, p. 174).

Certamente que este trecho da carta se refere ao antes da atuação dos prefeitos departamentais. Esta falta de leis perdurou até o início da “vida” da recém-fundada sede

19

(37)

do Departamento (1904), onde as novas leis do Governo Federal encontraram dificuldades de tornarem-se conhecidas e praticadas devido ao fato de que os habitantes daquelas paragens ainda atuavam de acordo com seus costumes sem influenciarem-se com as leis federais e suas punições, já que o funcionamento da justiça era efetivado pela “lei do mais forte”.

Alheios à legalidade, como réprobos de um Estado que se dizia seu protetor, os negócios faziam-se aqui – amigavelmente ou a rifle. As disposições das leis nacionais eram para a maioria dos comerciantes letra morta. Uns ignoravam-nas e outros, pela impossibilidade de zelarem o registro dos seus livros em Manaus, abandonavam este dever (AZEVEDO, 1906, p. 48).

Thaumaturgo de Azevedo trabalhava com a lógica instituída pela presença de um Estado que estava ausente na região. Esquecia-se de atentar para toda constituição histórica da economia extrativista do látex que movimentou milhares de capitais e seres humanos para aquela parte da Amazônia. Assim, durante décadas, os processos de exploração da economia gomífera na região do Alto Juruá foram marcados pela predominância de uma disciplina do trabalho e de relações de poder marcadas pela força, coerção e violência contra as camadas de trabalhadores oriundos de diferentes localidades e contra os grupos indígenas que habitavam a região (IGLESIAS, 2008).

Em relação à violência contra os grupos indígenas, preocupado com suas proporções alarmantes, em 1906, Gregório Thaumaturgo de Azevedo propôs a fundação da Caixa dos Índios:

É sabido que as nossas leis equiparam os índios aos menores. Entendi, por isso, que a Prefeitura devia protegê-los diretamente, ressalvando-os da escravidão em que vegetavam em alguns seringais. E assim pela Lei do Trabalho, art. 37, mandei que os patrões contribuíssem mensalmente com 5$000 por cada índio menor de 10 anos que os tivessem em seu poder e com 10$000 por cada um também daí até a idade em que nós outros somos declarados maiores (AZEVEDO, 1906, pág. 44).

A Caixa dos Índios – espécie de imposto previdenciário em que os patrões que mantinham indígenas trabalhando em sua propriedade deveriam depositar – seria realizada em conjunto com ações, como a catequese, com a intenção de inserir os grupos indígenas ao mundo “civilizado”. A regulação do primeiro prefeito

(38)

departamental tinha como justificativa o fato de que, segundo ele, os índios não estavam na alçada de sua gestão nem o comportam os recursos financeiros da Prefeitura,

socorrer de outro modo esses infelizes. (AZEVEDO, 1905, p. 33).

O trabalho indígena intensificava o movimento de catequese pela qual firmava--se basicamente, uma educação dos “instintos” que conduzisse o “catequizado” à servidão dos empreendimentos da “civilização” e da “cultura” do trabalho e dos “bons costumes”. Acompanhemos as impressões de Antonio Araújo:

[...] Quanto aos indios, outros não há ao meu ver, senão cathechizar, conservando-os em suas malocas, construídas estas do modo mais hygienico e moral, a maneira das nossas tabas ou povoados, e reservada para cada uma dellas área determinada de terreno, que possam cultivar fornecendo-lhes gratuitamente a ferramenta indispensavel e ensinando-se-lhes a trabalhar, embora em comum. Assim situados, o mestre-escola levar-lhes-á, em aulas diurnas e nocturnas, para as crianças e para os adultos, as luzes da instrução.

No dia em que o indio souber com certo numero de syllabas formar uma palavra, pode-se garantir que mais um grande e poderoso elemento terá entrado para a communhão nacional20

(ARAÚJO, 2003, p. 33).

A mentalidade da época apregoava a linha de progresso pautada sobre a distinção entre “selvagem” e “civilizado”. Essa ideia confronta a variação entre a barbárie de quem expropria pela força desigual da bala, que exclui através da rotulação e que tratava como selvagens e bárbaros os praticantes de outras culturas.

[...] Mas o progresso depende de suas causas multiplas, umas de caracter moral, e prendem-se á elevação, do espirito e crystalização dos sentimentos que enaltecem o homem, distinguindo-o das bestas, e outras de feição material, se dizem respeito ao melhoramento das condições de vida em um tempo e lugar dados21

[...] Os índios são elemento de valor em nosso remodelamento social e proprietários há que percebem isto limpidamente, de molde a tê-los já aos seus serviços, domesticando-os na medida das suas forças. E’ precizo que o Governo venha em seu auxilio, propugnando-lhes a catechese. Os meios parece não serem inacessíveis á nossa perspicácia. Se por muito tempo procuraram evitar-nos, se a maior parte ainda nos evita, considerando-nos inimigos e atacando-nos com pertinacia irreductivel, é que, no trato com elles, nuca (sic) usamos de outras armas, senão as que offerecem a violência e a perversidade . 22 . (ARAÚJO, 2003, p. 74 e 32). 20 19 de março de 1907 21 6 de janeiro de 1908 22 19 de março de 1907

Referências

Documentos relacionados

Disto pode-se observar que a autogestão se fragiliza ainda mais na dimensão do departamento e da oferta das atividades fins da universidade, uma vez que estas encontram-se

Para tal, iremos: a Mapear e descrever as identidades de gênero que emergem entre os estudantes da graduação de Letras Língua Portuguesa, campus I; b Selecionar, entre esses

dois gestores, pelo fato deles serem os mais indicados para avaliarem administrativamente a articulação entre o ensino médio e a educação profissional, bem como a estruturação

Não podemos deixar de dizer que o sujeito pode não se importar com a distância do estabelecimento, dependendo do motivo pelo qual ingressa na academia, como

Our contributions are: a set of guidelines that provide meaning to the different modelling elements of SysML used during the design of systems; the individual formal semantics for

There a case in Brazil, in an appeal judged by the 36ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (São Paulo’s Civil Tribunal, 36th Chamber), recognized

O relatório encontra-se dividido em 4 secções: a introdução, onde são explicitados os objetivos gerais; o corpo de trabalho, que consiste numa descrição sumária das

Os principais resultados obtidos pelo modelo numérico foram que a implementação da metodologia baseada no risco (Cenário C) resultou numa descida média por disjuntor, de 38% no