1 Processo de Tombamento Nº 874-T-73
“IGREJA: PILAR, MUNICÍPIO DE RIBEIRÃO PIRES, EST. DE SÃO PAULO”
Capela do Pilar Velha – Ribeirão Pires – Foto maio/2016
A foto que tiramos em recente visita é ilustrativa não só das condições atmosféricas que envolvem a região onde está situada a capela neste período de outono/inverno, como igualmente em relação às névoas que infelizmente ainda mantem em segredo informações talvez melhores que possam clarificar as ambiguidades que cercam suas origens bem como a sua insólita trajetória histórica.
O processo de tombamento, embora contenha informações diversas sobre o monumento, é falho, a começar pela ausência de manifestação por parte do diretor regional1; e assim permaneceu sobrestado.
Isso, porém, não significa que a capela não tenha sido objeto de consideração. Localizamos no arquivo de Monumentos Não Tombados, a pasta “PNT00250 – RIBEIRÃO PIRES – SP IGREJA NOSSA SENHORA DO PILAR” que reúne documentos e informações desde 1959 e de que nos valeremos preliminarmente para verificar o juízo de valor que por ventura neles se possa reconhecer.
Dito isso, vamos ao parecer.
1 Ofícios da Direção Central do IPHAN de 1973/74 ao Chefe do 4º Distrito, arquiteto Luís Saia, solicitando manifestação, constantes no processo.
2 Antes, porém, cabe desde já assinalar que, conforme se pode verificar a fls. 19 deste mesmo processo, a capela já está colocada sob a proteção do Decreto-lei nº 25, sob jurisdição do órgão estadual – pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT), desde o ano de 1975 (dois anos, portanto, após a abertura deste processo Nº 874-T-73 no IPHAN), quando promoveu o seu tombamento
“pelas suas qualidades excepcionais de padrão arquitetônico e de antiguidade”.
De modo que, estando já devidamente protegida, e como veremos também beneficiada com obras de conservação pelo CONDEPHAAT (inclusive de agenciamento turístico de seu entorno pela Prefeitura),2 resta somente avaliar se reúne valores que permitam figurar no rol dos monumentos nacionais.
Assim, voltando à pasta antes mencionada,3 damos destaque inicialmente a documentos que demonstram ter sido a capela objeto de atenção desde o ano de 1959, os quais registram sucintas considerações feitas por técnicos do próprio IPHAN, a começar pelo arquiteto Edgard Jacintho, enviado a S. Paulo pelo Diretor, Dr. Rodrigo Mello Franco de Andrade.
Primeiramente, o Relatório assinado pelo fotógrafo da Regional paulista Herman Hugo Graeser, datado de 10 de Abril de 1959, dando conta de “viagem de inspeções e vistorias realizada nos dias 7, 8, 9 e 10 de Abril pelo Dr. Edgard Jacintho em companhia de H.H. Graeser e Armando Rebollo” a várias localidades (Carapicuíba; Santana de Parnaíba. Itú, sítios de Sto. Antonio e do Querubim em S. Roque e do Padre Ignacio em Cotia; casa á rua da Gloria (Convento) na capital) e, inclusive, a “uma capela em Ribeirão Pires”, sobre a qual extraímos o trecho com as informações seguintes:
“Á tarde fomos vistoriar uma capela em Ribeirão Pires, município visinho da capital e que achamos realmente interessante e digna de mais aprofundados estudos, tanto pelo seu aspecto exterior como interior, com boa talha, imagens e altares etc. Externamente há é verdade, aposição mais ou menos recente, de uma torre absurda mas fácil de ser removida e a reconstrução – agora em terminação – da parede direita da capela, com vitreaux. As 16 fotos anexas facilitarão certamente a formação de julgamento melhor.”
Em consequência deste relatório e do exame das citadas fotografias, seguiu-se Informação do Chefe da S. A. (Seção de Arte) de nº 236, arquiteto Paulo Thedim Barreto, ao Diretor do PHAN, datado de 9 de dezembro de 1959, nos seguintes termos:
“Pelas fotografias remetidas, do exterior da igreja, verifica-se que a igreja é construção de taipa-de-pilão, do século XVII, possivelmente, ainda que acrescida, pelo menos, em data bem recente, de novas portas, janelas, torre, parede do lado do evangelho, feita em alvenaria de tijolo e do telhado da nave de telhas planas, tipo Marselha.
Para se dizer a respeito do tombamento julgo que se deva solicitar preliminarmente o parecer do Dr. Luís Saia, Chefe do 4º Distrito.”
2 Veja á pag. 14 deste Parecer Fotos e Nota 28.
3 Arquivo Documental do IPHAN/SP: Pasta “PNT00250 – RIBEIRÃO PIRES – SP IGREJA NOSSA SENHORA DO PILAR”, Monumentos Não Tombados. OBSERVAÇÃO: Alguns documentos desta pasta são referidos neste Parecer, inclusive fotos tiradas em 1959 (quatorze anos antes da abertura deste processo).
3
Fotos IPHAN (H. Graeser – 1959)
Interessante observar, no entanto, que embora este último pronunciamento técnico atente para elemento importante da construção – estrutura de taipa-de-pilão – e que o faz remeter a edificação para o século XVII – “possivelmente” –, nada diz o Chefe da Seção de Arte sobre a fachada lateral da igreja, onde esse sistema construtivo se expressa mais claramente, o qual também apresenta o aspecto que mais chama a atenção de quem a observa, e que nos leva a associá-la, imediatamente, às moradas rurais da classe dominante do Período Colonial paulista dos séculos XVII e XVIII, também conhecidas como “Casas Bandeiristas”, e amplamente estudadas por Luís Saia em vários artigos,4 por meio dos quais, alcançaram, no dizer do pesquisador que melhor soube interpretar a contribuição desse ilustre arquiteto-restaurador, juntamente com outros monumentos paulistas, “relevância enquanto testemunhos da formação sócio-econômica nacional”, tornando-se desse modo “alvos do preservacionismo nacional, e não apenas local”.5
Capela do Pilar Velha – Ribeirão Pires. Fachada lateral – Foto maio/2016
4 Esses artigos, escritos e publicados desde 1945 até 1963 (entre outros, as NOTAS SOBRE A ARQUITETURA RURAL PAULISTA DO SEGUNDO SÉCULO. Revista do IPHAN nº 8. RJ. 1945), foram, posteriormente, reunidos em livro - Morada Paulista –, pela Ed. Perspectiva, cuja 1ª edição é de 1972. 5 LOWANDE, Walter - HISTÓRIA DA CASA E POLÍTICAS PRESERVACIONISTAS: A MORADA PAULISTA DE LUÍS SAIA. p. 7. http://www.seminariodehistoria.ufop.br/seminariodehistoria2008/t/walter.pdf.
4 Em outras palavras, o que havia de mais relevante em São Paulo fora já identificado nos trabalhos desenvolvidos por Luís Saia e constituía – os monumentos assim selecionados e valorizados por meio do restauro – o rol dos elementos formadores da “cultura material representativa da memória nacional brasileira”.
Fotos IPHAN 1959 Veem-se os dois lados da edificação: o de taipa, fachada com alpendre, solução típica das antigas moradas rurais paulistas, e a parede de alvenaria recém construída (observe-se os restos de material e entulhos da
obra), com os vitreaux, mencionados por Edgard Jacintho, que posteriormentes seriam suprimidos.
Razão porque, prudentemente, recomendava o Chefe da Seção de Arte ao Diretor do DPHAN que solicitasse, “preliminarmente”, parecer do Chefe do 4º Distrito,6
reconhecidamente a maior autoridade intelectual sobre a questão.7
6 O parecer sugerido nesta oportunidade, para ser elaborado pelo Chefe do Distrito, no entanto, jamais foi feito ou, se foi, não logramos localizá-lo. Da mesma maneira, como já adiantamos, constatamos em momentos posteriores, já nos anos 1970, diante de novas e reiteradas solicitações da Direção Central, então sob o comando do arquiteto Renato Soeiro.
7 Os critérios de seleção dos monumentos nacionais em São Paulo, notou Walter Lowande, obedeceram visão bastante criteriosa, fundada em elaborada formulação teórica:Se no capítulo intitulado “Notas sobre a arquitetura rural paulista do segundo século” Saia propõe uma “solução arquitetônica típica para os fazendeiros mais abastados do século XVII” (Saia, 2005, p. 62) em São Paulo, partindo de doze exemplares encontrados pelo SPHAN no planalto paulista, no próximo capítulo, cujo título é “A casa bandeirista”, ele associará esta solução arquitetônica característica do século XVII, mas sobrevivente no XVIII com alterações, a um “período de experimentação social e econômica [... e] esforço de adaptação dos conceitos medievais às condições específicas desta parte da Colônia Portuguesa” (Saia, 2005, p. 127). Desta forma, a arquitetura tradicional paulista refletiria, na escolha da plataforma plana à meia encosta e na distribuição das casas de forma espaçada e sem a constituição de núcleos urbanos, uma economia mais baseada no apresamento indígena para fins militares que na exploração da terra, assim como a construção firme, de grossas paredes de taipa, telhado de quatro águas e planta rigidamente disposta em retângulo, espelharia a fisionomia psicológica do senhor paulista, tanto na solidez do programa quanto na divisão social que esta casa impunha e que do bandeirante emanava. Assim se explica a sistematização de uma “faixa fronteira”, composta de quarto de hóspedes, alpendre e capela, destinada ao contato exterior do senhor com seus empregados, separada da zona da família, ... E mais
adiante acrescenta: Se os três primeiros períodos se caracterizariam pela formação de uma sociedade e
arquitetura correspondente originais, isso em decorrência de um esforço de colonização que se deixou moldar pelo meio e pelas atividades econômicas mais viáveis na região, os demais períodos serão tratados com um tom de nostalgia. LOWANDE, W. – op. cit. pp. 4/5)
5 Cabe, desde já, assinalar que o Chefe da Regional paulista, além desses estudos apoiados nos restauros efetuados, desenvolvia, paralelamente, ativo movimento em prol da criação de um órgão de preservação estadual. Advogava Luís Saia que caberia a este novo órgão organizar os trabalhos tendo por finalidade erigir as antigas edificações paulistas não contempladas pelo órgão federal de preservação, pautados em estudos acurados que identificassem os processos socioculturais das regiões paulistas, neles identificando os valores que caracterizaram sua ocupação econômica, implantação das unidades produtivas, estabelecendo, desse modo, novos e mais precisos critérios de salvaguarda, idealizados para tanto.
A razão, portanto, para o não tombamento desta e de outras edificações correspondentes aos dois primeiros séculos de colonização em São Paulo se explica por um posicionamento metodológico e conceitual, bem elaborado e aplicado talvez com rigor exagerado, mas não somente em razão da escassez de recursos do 4º Distrito do IPHAN, que de fato existiam, tanto humanos como materiais, mas que não justificariam a atuação menos ampla do órgão federal, ao não acolher aqueles monumentos que, sob essa ótica, se caracterizariam dentre aqueles que Saia considerava de valor “regional” ou mesmo “local”, decorrentes de processos próprios e circunscritos, e cuja conceituação dependeria ainda de adequada formulação quando da criação do órgão estadual.
Da mesma forma vale, ainda, observar que o tombamento estadual da Capela de Na. Sra. do Pilar de Ribeirão Pires ocorre em 1975, apenas sete anos após a criação do CONDEPHAAT (a lei de sua criação - nº 10.247 - é de 22 de outubro de 1968), época em que o próprio Diretor do 4º Distrito do IPHAN ainda mantinha assento como Conselheiro no órgão estadual de preservação, dando aval ao tombamento dos monumentos de valor regional.
Voltemos, todavia, aos documentos voltados a justificar o tombamento da capela. Do ponto de vista histórico, vê-se duas diferentes informações acerca da igreja, ambas emitidas e enviadas pela Prefeitura Municipal de Ribeirão Pires, porém em momentos distintos. A primeira, em ofício GP Nº 58-2-61, datada de 15.02.1961, do Prefeito Francisco Arnoni, ao Arquiteto Luís Saia, no qual afirma ter sido:
Erigida no ano de 1549 por João Ramalho e Tibiriça.
Esta informação é do citado Prefeito, baseada em pronunciamento do vereador Raimundo Batista Viana na Câmara Municipal, naquele mesmo ano de 1961(em 5 de dezembro), o qual, por fundamentar a inicial do pedido de tombamento, todavia por muito extenso e meandroso, remeto-o a Nota de rodapé8, para leitura de quem se interessar.9
8 “Sob o silêncio de uma solidão que amargura e entristece: um recanto florestal que se faz bem distante
das luzes sociais dos centros urbanos ... lá, senhor Presidente, senhores Edis, entre matagal, entre à grande saroba existente naquele recanto histórico denominado de “Pilar Velho” há mais de quatro centenas de anos está ardendo bem no centro das chamas arrasadoras do esquecimento a conhecidíssima, a histórica, a tradicionalíssima Igreja de Nossa Senhora do Pilar.... Eu conheço regularmente a história de São Paulo, e a história dos seus bandeirantes desassombrados, verdadeiros heróis pelas suas jornadas, ...Então se assim é formada a história da Igreja do Pilar, a história de Ribeirão Pires, a história de São Paulo, a história do Brasil, com todos esses marcos, com todos esses
6 A segunda informação, também proveniente do Gabinete da Prefeitura Municipal de Ribeirão Pires, já da época de gestão do Prefeito Valdirio Prisco, porém sem data, foi juntada a este Processo de Tombamento com o titulo “A CAPELA DE NOSSA SENHORA DO PILAR (outra versão surgida)”. Contrariamente à primeira informação, remete sua fundação ao início do século XVIII, atribuindo-a ao Capitão-Mor Antonio Correa de Lemos em razão de uma promessa:
Em consequência de um evidente milagre, que lhe restituíra a vida, que de uma grave enfermidade, já a tinha perdido, resolveu o Capitão-Mor ANTONIO CORREA DE LEMOS, em cumprimento a promessa que havia feito anteriormente, levantar uma capela em honra de sua salvadora, Nossa Senhora do Pilar.
...
E assim, através de pessoas que dominavam seu artesanato, taipeiros e entalhadores, com a ajuda dos escravos do instituidor, erigiram a dita capela sob uma colina que certamente havia sido escolhida para o fim específico. Foi construída pelo sistema da “Taipa”, com pilares de madeira trançados de esteiras de palha e barro, tendo suas paredes
aproximadamente 40 centímetros de espessura.
Assim conforme previsão do Bispo Dom Francisco de San Jeronimo, e respectiva benção do guardião Frei Pacífico da Igreja de São Francisco, e ainda por despacho deste mesmo, fundou-se então no chamado bairro de Caguassu, a Capela de Nossa Senhora do Pilar, em 25 de março de 1714. Conforme descrição que existia na ocasião em uma tábua que estava pendente na sacristia do Mosteiro de São Bento em São Paulo, destinava-se o dia 25 de
Março à esta Santa “por haver indulgência plenária nesse dia”.10
Com esta “nova versão” vê-se reduzida a ancianidade da capela em pelo menos uns 150 anos!
Cabe assinalar, contudo, que nenhuma das Informações fornecidas pelo Poder Público Municipal, baseia-se em documentos comprobatórios que atestem a veracidade das versões nelas expressas, muito embora a que atribui sua edificação ao Capitão Antonio Correa de Lemos faça referência a terras concedidas em sesmaria na região em 1677 (“Caguassu”),11 ao
símbolos, com todas essas demonstrações, com todo esse documentário que muito diz de um passado que chama a atenção, que admira, que encanta, que ensina ... a Igreja de Nossa Senhora do Pilar é o marco mais significativo a nos falar sobre a tradicional vida religiosa e histórica do Município de Ribeirão Pires e de toda a região do A.B.C. ... Aquele antiquíssimo templo foi erigido por João Ramalho e Tibiriçá; ... Esses dois homens da nossa história, por volta do ano de 1549 construíram a citada Casa Santa a pedido do Padre Leonardo Nunes, ... Tem aquele templo construção à moda de mais de quatrocentos anos, ou seja de categoria grosseira, sem arte alguma, legitimamente camponesa, por assim dizer. Sua origem deu-se na ocasião em que se levava a cabo a abertura de picadas cuja finalidade seria levar ao planalto para ligar-se a zona litorânea ao já referido povoado de Santo André da Borda do Campo. ... ...”
9 A mesma informação é repetida em Ofício do Prefeito Valdirio Prisco, G.P.N.º 613.04.73, datado de 18 de abril de 1973, ao Diretor do IPHAN, Dr. Renato Soeiro, e que deu início a este processo,
10 “A CAPELA DE NOSSA SENHORA DO PILAR (outra versão surgida)”, anexado ao Processo, fl. 13. 11 Aliás, com esta mesma denominação era conhecida uma região próxima a São Paulo de Piratininga, hoje conhecida por “espigão da Paulista”. Ver p. ex. esquema elaborado por Luís Saia sobre evolução urbana da região paulistana, onde Caaguassú corresponderia a esta região. Mas isso não quer dizer muita coisa. John Monteiro, fala de uma “Caucaia” no século XVII, se não me equivoco, para os lados de Guarulhos, denominação quase igual ao de um bairro também muito antigo existente no lado oposto à cidade de S. Paulo, hoje distrito do município de Cutia, “Caucaia do Alto” (NEGROS DA TERRA Índios e Bandeirantes nas Origens de São Paulo” Letras, 2009.)
7 que se deve adicionar a menção ao provimento eclesiástico (1714),12 ano em que se supõe foi edificada e abençoada, mas que requer ainda confirmação13.
Carecem, portanto, de melhor estudo quaisquer das versões apresentadas. O Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, por exemplo, quando incitada em 1959 a intermediar o pleito municipal junto a Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a ela refere-se como a lendária “Igreja do Pilar”, eximindo-se desse modo de atestar as informações que encaminhava atendendo pedido do Prefeito. 14 Da mesma forma, não temos notícia de estudo algum, mais recente, que tenha sido realizado para sua valorização.
Talvez devêssemos ainda considerar a notícia de quando do falecimento de seu fundador seu corpo terá sido nela enterrado 15 (à semelhança do que terá ocorrido, três anos antes, na Capela de Santo Antonio, no atual município de S. Roque/SP, com o seu fundador, o Capitão Fernão Paes Barros).
No entanto, como consideraremos adiante, somos pendentes a acreditar que não é esta a capela mandada construir pelo Capitão Antonio Correa de Lemos.
Informamos atrás que a capela ou igreja do Pilar Velho, de Ribeirão Pires já está protegida pelo Poder Público, tombada no ano de 1975 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico (CONDEPHAAT). E o acautelamento estadual, para efeito de seu registro de tombamento, parece ter reconhecido a versão constante na segunda informação da Prefeitura. Versão acolhida inclusive para as ações de conservação do monumento,16 como vemos corroborada em Ofício datado de 15 de março de
12 “Em 25 de Março de 1714, a capela recebeu a benção inaugural.” GENEARC. http://www.genearc.net/index.php?op=ZGV0YWxoZVBlc3NvYS5waHA=&id=NjcxNw==
13 Procuramos, neste sentido, entrar em contato com o Arquivo da Cúria do Rio de Janeiro, em busca da citada provisão. A resposta nos chegou, ontem, nos seguintes termos: Pesquisamos junto ao inventários
das Séries e não localizamos nenhuma referência a dita capela e ao seu fundador. Verificamos junto aos Breves Apostólicos, onde é possível localizar uma solicitação para construção de capela, oratório, entre outros. As duas Visitas Pastorais que remetem a São Paulo são do sécuo XVII. ... Talvez seja possível localizar alguma informação junto aos livros de ordens régias e pastorais e editais, mas infelizmente esses livros não possuem índices e não temos como fazer a pesquisa.
14 Of. do Dr. José Pedro Leite Cordeiro, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo ao Dr. Rodrigo Mello F. de Andrade, de 14.09.1959: No intuito de colaborar com o Sr. Francisco Arnoni,
Prefeito Municipal de Ribeirão Pires, envio, a V. Excia, o ofício nº 366-9-59, acompanhado de cinco fotografias, no qual pede aquele Senhor providências sobre a lendária “Igreja do Pilar”.
15 Pesquisa arqueológica quem sabe possa confirmar a veracidade desta informação, o que daria credibilidade à “nova versão”. Seria, por outro lado, a primeira vez que o órgão federal de preservação traria o concurso do arqueólogo neste sentido – o que talvez venha a interessar aos Técnicos desta área, sempre envoltos nos afazeres burocráticos de fiscalização de pesquisas alheias, demandadas pelas Obras Públicas em curso no território paulista. Mesmo assim, para isso, haveria de contar (além do interesse já manifestado por alguns Técnicos em Arqueologia por mim consultados em realizar pesquisas de interesse direto da repartição) com duas outras condições fundamentais: Liberdade ou autonomia para propor ações desse tipo e 2. Recursos.
16 Obras (que acabaram suprimindo os vitraux de 1959) motivadas pela ameaça de queda (veja só!) da parede de alvenaria que já adulterara o edifício primitivo; enquanto as de taipa permanecem tal qual quando foram piladas até hoje.
8 1985, do Diretor Técnico do órgão estadual ao Diretor da 9ª Coordenadoria da SPHAN/Pró-Memória,17 no qual a descreve nos seguintes termos:
A referida capela, de fatura muito singela, remontando ao início do século XVIII foi ao longo do tempo incorporando alterações e adaptações. Dentre estas, interessamos destacar a introdução do arco cruzeiro e do retábulo ocorrida mais recentemente ... O Ofício tinha, porem, outra finalidade. Comunicar, com base em suspeita levantada pelos técnicos do CONDEPHAAT no curso das obras, de “vestígio” de antiga pintura que localizaram na parede de taipa por detrás do retábulo da igreja, e que ali estaria conservada. E adiantava interpretação interessante que, se comprovada, mereceria estudo especializado e mesmo restauro:
a pintura sobre a taipa, a qual supomos, fizesse a “vez” deste, emoldurando um nicho, atualmente fechado, onde é possível admitir a existência de um sacrário.
O interesse em melhor analisa-la motivou na ocasião a solicitação de auxílio técnico ao IPHAN que, todavia, não foi atendida.18
Detalhe da parede de taipa com possível vestígio de pintura. (Foto recente, de maio/2016)
Estivemos recentemente em visita à capela; adentramos o espaço referido e, no entanto, não conseguimos notar vestígio evidente de pintura. O que não descarta a sua existência; mas requer o “olhar do especialista”, de um técnico em restauro artístico experimentado, mais afeiçoado a reconhecer traços de pintura que o nosso olhar não familiarizado com tais indícios (se é que realmente existem) não consegue detectar. Fosse
17 Ofício do Arquiteto Marcos Carrilho (atual Técnico do IPHAN/SP e que, na ocasião, pertencia ao quadro técnico do CONDEPHAAT, onde desempenhava o cargo de Diretor Técnico Substituto) ao então Diretor da 9ª Coordenadoria do IPHAN, o arquiteto Antonio Luiz Dias de Andrade.
18 Conforme Despacho de 26.III.85 de Antonio Luiz Dias de Andrade, exarado no referido Ofício, e resposta do Técnico Restaurador indicado, de Abril.1985.
9 porém comprovada a sua existência, mesmo que residual, por pequena que fosse, poderia indicar, senão mesmo atestar ancianidade maior da capela.19
Colhemos também junto aos caseiros que cuidam da capela informação de que a antiga imagem da Senhora do Pilar que chegou a interessar a Chefe da Seção de Arte, Lygia Martins Costa (Informação nº 302, de 27.XII.73, a fls. 16 deste Processo), foi roubada, figurando no altar uma cópia da mesma. Há notícia todavia de que a imagem antiga foi recuperada mas, por precaução, “está na casa do padre”.
Imagens da Senhora do Pilar e da Senhora do Rosário (Fotos IPHAN 1959)
Mas não são esses os aspectos que chamam mais a nossa atenção quando observamos a capela.
O que nela mais nos intriga, que suscita maior curiosidade, e nos faz querer entende-la, é porque se nos apresenta plasticamente como algo diferenciado, misturando elementos de épocas distintas, o que a torna um produto singular. Sua “historicidade” trouxe como resultado uma mescla de elementos de tempos distintos, que mais confunde e obscurece do que esclarece ou ilumina sua gênese e evolução; é, pois, enquanto produto acabado, a menos que venha a se constituir objeto de estudo mais apurado, de pouco valor documentário.
Assim, o que apresenta de mais interessante em sua modelagem é a sua fachada “lateral” e que imediatamente reporta nossa lembrança às moradas rurais paulistas dos séculos XVII e XVIII (e não o seu frontispício que a caracteriza enquanto capela, mas que nada mais é do que o oitão do antigo edifício modificado para cumprir essa nova função, digamos assim).
Em verdade, o próprio frontispício é extemporâneo, pois o elemento que melhor a define enquanto capela – a portada de pedra – é evidentemente do século XIX. Muito embora, diante de tantas intervenções sobre as quais é possível imaginar tenha ela sofrido no curso de sua história, possa-se também conjecturar ter existido uma portada anterior, de madeira, quem sabe ainda à época do Capitão Lemos ou, o que achamos mais provável, anos depois quando se converteu em patrimônio da população local que passa a realizar as festividades à Senhora do Pilar, a cuidar de seu equipamento e, é a nossa hipótese, a promover as
19 Apoiada, quem sabe, em experiência próxima ao padrão das pinturas (?) recentemente restauradas na capela jesuítica de São Miguel.
10 adaptações na morada rural adaptando-a à função religiosa, antes realizada numa pequena capela construída ao lado pelo seu fundador.
Desse modo, a capela de Ribeirão Pires é curiosa por ensejar e ser ilustrativo talvez de processos ulteriores ao período das instalações próprias do período bandeirista nas imediações da Capital. E é esta a razão porque abrimos espaço aqui para registrarmos algumas reflexões a seu respeito que, quem sabe, possam ser de utilidade às atividades de valorização que venha a merecer no futuro.
Pois, seja esta edificação de fins do XVII seja, com maior probabilidade, do início do XVIII, o que se observa já a primeira vista, repito, é tratar-se de “resto” de uma morada rural típica do período Colonial – de pequeno porte, planta retangular, com cobertura de duas águas, como a do bairro de Tatuapé na Capital, porém com a solução de alpendre estranhamente reduzida se comparada à dos demais exemplares conhecidos, transformada e adaptada para a função religiosa. A intervenção de maior porte se deu notadamente no interior da primitiva morada, inteiramente transformado, com supressão da sala e dos cômodos, espaço que se transformou na capela propriamente dita. Infelizmente, e pouco antes dos primeiros registros fotográficos serem feitos pelo IPHAN, foi necessária a construção de uma parede de alvenaria. A foto abaixo, do interior da capela, está a indicar que esta parede de alvenaria acabara de ser executada. No entanto, não está informado no relatório se a mesma substituía uma taipa anterior. Todavia, se nos reportarmos à foto da fachada da capela, vê-se nitidamente a parede de taipa antiga encostada à torre, que a nova, de alvenaria, substituiu na continuidade do edifício.
Fotos IPHAN 1959
Sou, portanto, de opinião de que a capela, tal como hoje a vemos, se trata de desdobramento ulterior da "morada rural" primitiva construída pelo Capitão Lemos em sua sesmaria, transformada e adaptada depois de sua morte para desempenhar função pública
11 antes realizada na capela primitiva propriamente dita e voltada, primordialmente, à família de seu fundador, seus “hóspedes” e convidados,20 como nos exemplos citados (Santo Antonio e Vuturuna) próximo à morada, no prolongamento do terreno à sua esquerda, num patamar pouco mais elevado, talvez onde hoje se vê um cercado que, segundo dizem, abrigou um “antigo cemitério”.21
Adicionamos ao que já dissemos mais uma consideração e que enseja outra conjectura importante: verificamos que o alpendre, que restou da antiga morada e ainda existente ao lado da capela, não está voltado para o Norte (como seria de esperar na hipótese de constituir a fachada de uma primitiva morada rural),22 mas para o Sul, para onde, morro abaixo, sobrevive à duras penas um pequeno córrego, imundo, com seu curso já bastante deteriorado nos pontos mais próximos às ruas que o ladeiam. Seria então de nos perguntamos: esse alpendre que ali restou da antiga morada não seria o “alpendre de serviço” que Luís Saia supôs ter existido somente nos exemplares do século XVIII?23 Faz sentido.
Mas, e o principal, o da fachada da casa?
Por essa razão retornamos à capela uma segunda vez.24 E verificamos que a planta do edifício, embora retangular, foi estreitada no lado menor do retângulo, ou seja, na profundidade do que constituiria a primitiva residência rural. Estreitamento que, se de fato ocorreu, está a indicar a supressão do alpendre fronteiro, que originalmente estaria voltado para o Norte. Observe as fotos abaixo.
20 Não estou me referindo à capela da morada que se localizava num dos cômodos do alpendre da morada primitiva. Esta pode e deve ter existido no alpendre principal, ou seja, na fachada da casa que estaria voltada para o Norte como adiante supomos, e que foi suprimida quando se promoveu obras de adaptação que a transformaram na Capela de Na. Sra. do Pilar. (Informações adicionais, em especial sobre a distinção entre a “capela” da morada rural (sede) e a “capela” propriamente dita da fazenda, remeto o interessado para os artigos PESQUISAS EM TORNO DE UM MONUMENTO e CAPELAS RURAIS PAULISTAS DOS SÉCULOS XVII E XVIII. https://sites.google.com/site/resgatehistoriaearte/)
21 A dificuldade está em provar que a capela primitiva, que pode ter realmente existido, não é essa que vemos agora. Observamos o terreno do “antigo cemitério” e, aparentemente, nada indica ter existido ali uma capela. Porém, seria o local adequado para ter-se edificado uma pequena capela, talvez não nas proporções duma Santo Antonio (de S. Roque/SP), mas suficientemente equipada, com a imagem da Santa do Pilar figurando no seu nicho, num pequeno altar, tendo ao lado o crucifixo e demais paramentos necessários para a realização da missa, sem o que não teria recebido a autorização do Bispo do Rio de Janeiro para funcionar.
22 “... na generalidade dos casos, a fachada está sempre voltada para o Norte ou Noroeste” – conf. SAIA, Luís – NOTAS SOBRE A ARQUITETURA RUAL PAULISTA DO SEGUNDO SÉCULO (Morada Paulista. p. 69). 23 “Resta ainda analisar as peças dispostas na parte posterior de tais residências. Quando nesta parte da
construção também há alpendre (Mandu, Caxingui e no exemplar tardio do Butantã), dois compartimentos se dispõem lateralmente, com acesso pelo alpendre. ... É verdade que os alpendres posteriores, existentes em dois (três, na verdade) exemplares destas residências rurais devem ser interpretados como alpendres de serviço. Idem ibidem, p. 77.
24 Novamente em companhia do simpático e eficiente Alessandro Affonso Mukai, motorista do IPHAN que, além de nos ensinar caminhos alternativos (conhece a região na “palma da mão” e do seu “WhatsApp”), providenciou também uma bússola para confirmar a exata posição da fachada presumida.
12
Fotos mais recentes da capela (08.julho.2016)
E qual a razão da existência da parede de alvenaria que se observa na lateral da capela? Em nossa opinião, quando da supressão do alpendre principal, as paredes de taipa que restaram ali sofreram abalo sendo necessário repará-las. Posteriormente , ou melhor, em data mais recente (1959), acabaram sendo substituídas pelas de alvenaria. Mas, primitivamente constituíam as paredes interiores (de taipa) da morada. Outra intervenção também mais recente foi o acréscimo da torre, recobrindo em parte a área antes ocupada pelo alpendre principal da primitiva morada e onde se pode notar ainda a presença da parede de taipa original encostada na torre (Ver foto de 1959, abaixo)
Por outro lado, a supressão do alpendre principal, e a adaptação do edifício á nova função (capela), exigiu solução interna (com a construção da parede de alvenaria) que provocou evidente desequilíbrio no eixo da primitiva edificação, notada externamente no
13 desalinho da altura das águas no oitão e ainda mais evidente no caimento mais pronunciado do telhado.
De outro lado, terá sido neste momento de sua existência que a residência transformou-se em capela, substituindo a primitiva que foi abandonada, tendo sido transferido porém seus equipamentos para esta.
Se esta hipótese estiver correta, somente prospecções no terreno em busca de alicerces de taipa poderão confirmar de fato que terá existido ali o alpendre fronteiro, e suprimido como aventamos.
Luís Saia examinou em detalhe um caso decorrente também de processo de transformação de uma antiga residência em Santana do Parnaíba. Os estudos e as obras de restauro que realizou levaram-no à convicção de que se tratava de uma antiga morada rural, que, ao se deparar posteriormente em situação urbana em razão das transformações ocorridas no local em que estava inserida, foi forçada a adaptar-se ao novo meio, conservando somente os cômodos interiores, perdendo porém a sua fachada primitiva, ou seja, a área correspondente ao alpendre ladeado pelos dois cômodos fronteiros que a caracterizavam quando de sua instalação numa região ainda rural.25
No caso de Ribeirão Pires parece ter ocorrido algo diferente, embora as transformações se tenham verificado igualmente sobre uma antiga residência rural. Diversamente do caso de São Roque, onde se supõe tenha ocorrido transformação e reaproveitamento da capela primitiva que Pedro Vaz Guassú tinha ao lado de sua morada
25 ... residência urbana de Parnaíba. Esta ... parece datar do século XVII. De fato, não apenas o seu plano
pode ser interpretado como representando o resto de um edifício mais completo e de planta muito sugestiva que apresenta com a das casas rurais daquele século ... Estaríamos em face do único exemplar de residência urbana do segundo século na região de São Paulo. E em Nota, acrescenta: Não só pesquisas posteriores vieram confirmar a ancianidade desta construção, como a sua restauração, em 1958, denunciou que paredes hoje aproveitadas no sobrado anexo faziam parte do corpo da residência. Esta adaptação de esquema para o regime urbano teria originado o desaparecimento da faixa fronteira, composta de alpendre, quarto de hóspedes e capela. SAIA, Luís – op. cit. pp. 89/91.
14 rural,26 em Ribeirão Pires terá sido com a morada do Capitão Antonio Correa de Lemos, transformada em capela, em momento que ainda não foi possível precisar, pelo que pudemos deduzir do que dela restou.
As características do sítio, a situação topográfica em que está inserida, enfim sua localização no alto de um morro foram certamente condicionantes fundamentais, mantendo-a a distância do aglomerado urbano que se desenvolveu em área distante (e não ao seu redor como o caso já referido de São Roque), muito embora hoje se localize nas franjas do tecido urbano, numa zona limítrofe da periferia pobre da cidade, onde ainda se vê do alto da mesma colina da capela uns sítios antigos de uma banda e uma área de condomínio fechado de outra.
Fotos divulgadas na internet que retratam a situação atual.
É plausível, pois, supor houvesse existido de fato uma capela, construída pelo Capitão Antonio Correa de Lemos, mas independente de sua casa de morada (à semelhança das capelas preservadas pelo IPHAN em S. Roque e Voturuna), a qual terá recebido a citada provisão e benção eclesiástica em 1714(?),27 e, por motivos que ignoramos, mas que é possível imaginar, tempos depois, ao deixar de cumprir a função particular de origem (o atendimento religioso ao seu fundador, e que, segundo consta, terá sido nela enterrado), ganhou importância em razão de função mais ampla que passou a desempenhar à população que se concentrava ao seu redor, acrescido depois por demanda ainda maior de devotos que passou a frequentá-la.28
Essa é, portanto, a hipótese a que chegamos: ter sido substituída pela transformação da casa de morada, mais espaçosa que a primitiva capela (abandonada e depois destruída),
26 Não se registrou em Ribeirão Pires processo que ocorreu em inúmeros outros casos conhecidos no território paulista, nos quais se verificou a evolução de algumas primitivas capelas particulares, fundadas por grandes senhores de terras e índios, os “Potentados paulistanos” segundo a nomenclatura utilizada por Pedro Taques, tornarem-se, com o tempo, centros de aglutinação populacional, dando origem a bairros rurais que, por sua vez, incorporadas a administração da Igreja, originaram freguesias com suas igrejas paroquiais que se transformaram em Matrizes de futuras Vilas e cidades. Nesses casos, o que se verifica é a transformação do edifício da primitiva capela, através de obras que lhe acrescentam novos espaços, transformando a capela original em capela mor da nova igreja apenas. 27 Vide Nota 13, à fls. 7.
28 O que fará, mais recentemente, o poder público local promover o agenciamento do seu entorno com o dispositivo da grande escadaria no sentido de provocar o interesse e a visitação de romeiros a igreja, com a intenção de incrementar o turismo somente, como se observa nas fotos acima.
15 remodelada à função de capela nas proporções exigidas então pela população do bairro rural.29 Nem tudo, porém, foi necessário ou quiseram alterar; a área posterior da casa (o “alpendre de serviço”, como supomos atrás) era útil para servir como entrada lateral de serviço, bem como os cômodos antigos que passam a servir a acomodação do pároco e como sacristia, enquanto todo o restante da morada original (sala e quartos) era transformado no espaço propriamente da capela, com o oitão recebendo uma portada para caracterizá-la como seu frontispício. Se essa hipótese vier um dia a ser confirmada, constituiria o primeiro caso de transformação de uma antiga morada rural em capela paroquial.30
Assim, o edifício da capela do Pilar parece constituir uma contrafação de uma dessas moradas, transformada em grande medida para cumprir a nova função (religiosa), da qual, porém, restou somente uma parte, que aqui supomos consistia no seu “alpendre de serviço”, com as alterações indicadas, mas que mesmo assim é o aspecto mais curioso e que desperta maior curiosidade sobre o monumento.
O que assemelha a capela do Pilar, ou a diferencia, das poucas que restaram da mesma época, Colonial? Semelhança, nenhuma; diferença, quase tudo. As que restaram daquele período enquadram-se no contexto bandeirista do século XVII, referenciadas por Pedro Taques de Almeida. Esta do Pilar é completamente distinta dos dois únicos remanescentes recenseados e tombados pelo IPHAN, as conhecidas capelas de Santo Antonio e Voturuna – ambas da segunda metade do século XVII, construídas em espaço independente, mas próximo às sedes das fazendas construídas pelos Capitães Fernão Paes de Barros e Guilherme Pompeu.
Porém, só um trabalho de prospecções meticulosas no edifício e no terreno de seu entorno, permitirá avançar com maior segurança no esclarecimento dos processos ocorridos ao longo do tempo. Ficam, todavia, registradas as hipóteses que desenvolvemos – uma vez que protegida a capela já está (tombamento estadual), o que é suficiente para a sua preservação – como sugestão para futuras investigações que conduzam a uma mais precisa reconstituição e valorização deste monumento.
29 O equipamento de culto transferido, inclusive a imagem da padroeira que vimos em foto do Germano Graeser, mas teve que sofrer as adaptações, redimensionado o seu retábulo original, assim teve substituído alguns de seus elementos, recebendo depois, ao longo do tempo, outros apetrechos. Há um confessionário antigo muito interessante entre os guardados da capela na área da sacristia.
30 O que restou da primitiva residência não deixou, todavia, de sofrer outras alterações. A primeira se dá com o fechamento do alpendre posterior por meio de uma balaustrada de madeira, ali encaixada simplesmente sem outra função senão a intenção decorativa. Uma segunda alteração, e correspondente ainda ao primeiro momento de adaptação, ocorreu com o fechamento da janela do quarto do alpendre, transportada para a parede lateral do mesmo para assim “compor” o que veio a constituir o frontispício da capela. Mesmo esta janela sofreu uma segunda e muito recente alteração que pode ser observada comparando a foto de 1959 com as atuais. Uma terceira alteração foi preciso executar, porém o resultado que hoje lá se observa deve ser extemporâneo: a portada de pedra da igreja. É plausível, no entanto, supor que a solução inicial tenha sido a de uma portada de madeira, talvez ainda de seção quadrada para melhor ornar com a janela ao lado. A composição, ao menos, ornaria mais com o “espírito do tempo” como iria supor Lúcio Costa se houvesse de ser consultado no caso de intervenção restaurativa. Quarta, a torre de construção ainda mais recente, em completo desacordo com tudo o que lhe havia precedido em sua insólita trajetória.
16 Outros casos talvez, dentre o vasto acervo de monumentos que sobreviveram de nosso passado colonial, tombados ou não, possam se caracterizar com problemáticas semelhantes, constituindo desse modo um campo ainda insuficientemente explorado e que podem desde já ser objeto da atenção dos órgãos de preservação paulistas, mapeados de acordo com sua tipologia e organizados para serem investigados, se possível com participação de técnicos das várias áreas afins (arquitetura, história, artes, arqueólogos, geógrafos, etc.), seguindo orientação teórica atualizada, para o que seria desejável não só a participação de acadêmicos (daqueles que vem se dedicando seriamente ao estudo de nosso patrimônio cultural) como também e especialmente com a colaboração dos técnicos que atuaram nesses últimos trinta, quarenta anos nos órgãos de preservação, com cujo interesse seria possível ainda contar. (Anexo: outras fotos de 1959 e 2016)
Em 20 de julho de 2016.
Carlos Gutierrez Cerqueira TÉCNICO EM PESQUISA – IPHAN/SP
18 FOTOS maio/2016 (Carlos Gutierrez Cerqueira):
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