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Academic year: 2021

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TÍTULO: IDENTIDADES E NEGRITUDE NAS MÍDIAS AUDIOVISUAIS: ANÁLISE DE UM DEPOIMENTO NO YOUTUBE

TÍTULO:

CATEGORIA: CONCLUÍDO CATEGORIA:

ÁREA: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS ÁREA:

SUBÁREA: HISTÓRIA SUBÁREA:

INSTITUIÇÃO: UNIVERSIDADE DE SANTO AMARO INSTITUIÇÃO:

AUTOR(ES): WASHINGTON SILVA SIQUEIRA AUTOR(ES):

ORIENTADOR(ES): PAULO FERNANDO SOUZA CAMPOS ORIENTADOR(ES):

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Resumo

O trabalho problematiza a formação das identidades negras ou como as novas mídias - youtube, blogs, facebook - permitem evocar o debate no âmbito da História. A partir do processo que pretendeu o embranquecimento do Brasil, no século XIX, a sociedade assume o discurso enaltecedor do branco, de uma identidade fixa, na qual a imagem do negro é depreciada. Nesse sentido, a representação não negra torna-se mais aceita. Os resultados permitem considerar que jovens de ascendência negra se deparam com dificuldades de aceitação de si e de suas ancestralidades na medida em que diferentes mídias valorizam discursivamente a identidade branca em detrimento da identidade negra às avessas, depreciativa e estereotipada, o que permite considerar a permanência de estereótipos construídos para os negros na atualidade.

Introdução

O presente trabalho tem como tema principal analisar o debate em torno de problemas que tratam a identidade do Negro no Brasil. A partir do conceito de mestiçagem, que se constitui com os ideais do embranquecimento, é possível considerar o processo histórico da identidade negra brasileira evoca muitos problemas sociais, institucionais, de aceitação de si ou da ancestralidade negra que dá origem a maioria da população nacional.

Estudos sobre o tema permite considerar como uma perspectiva que o processo de branqueamento, que ocorre no fim do século XIX e XX, bem como a mestiçagem, seja na forma biológica (miscigenação) ou mesmo na forma cultural (sincretismo cultural) tem por objetivo estabelecer uma sociedade monoétnica e monocultural.

A partir do processo de miscigenação as variações que são dadas aos filhos de negros e brancos tais como mulato, mameluco, cafuzo e algumas delas pejorativamente enunciadas, ampliam a abrangência da reflexão em torno do conceito de negritude e abarcam a história dos negros no Brasil. Hoje, na sociedade brasileira, existem outros termos de classificação étnica, além do branco e negro. Todavia, mais do que uma essência de origem, o que está em questão são políticas

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culturais, jogos ideológicos e representações que inferiorizam alguns e supervalorizam outros a partir de dispositivos e marcadores histórico-culturais, no caso, a cor da pele.

Assim, no processo de branqueamento, não raro, negros assumem o discurso branco como norteador. Para a pesquisadora Schucman (2014) no processo histórico que pretendeu branquear o Brasil se constrói a “supremacia branca” como ideologia e poder, em que os brancos tomam sua identidade racial como normativa, isto é, como a que deve prevalecer sobre os grupos considerados “inferiores”. Assim, existe um privilégio considerado natural ao pertencer ao grupo normativo e no imaginário brasileiro o discurso branco, o lugar social assumido pelo branco no Brasil, estimula o branqueamento do país, mesmo que ideológico. O pardo passa a se declarar “branco”, o negro passa a considerar-se pardo ou moreno, afastando-se da identidade negra, negando sua ascendência negra, pois, assim, fugiriam de todos os estereótipos a que foram submetidos.

Para Stuart Hall (2014) não existe uma identidade única e congelada. Diante dessa premissa, o estudo visa analisar a (des)construção das identidades atribuídas ao negro no Brasil a partir de depoimentos publicados em diferentes mídias sociais como facebook, blog, vlog e youtube. Segundo Michel Foucault (1996) é necessário entender quais discursos engendram as identidades e qual mecanismo a auxiliam na imposição de uma mentalidade, no caso, que insiste em desqualificar o negro no Brasil em seus contextos próprios.

Na sociedade brasileira cada vez mais pessoas que se identificavam como pardos ou morenos passaram a se intitular negras. O IBGE indica o aumento significativo em relação a essa variável, o que torna o país eminentemente negro. Todavia, ainda persistem representações que desqualificam os negros no Brasil, fatos que levaram ao estudo em desenvolvimento e a considerar o que é ser negro. O debate importa na medida em que as investigações no universo on-line, nas mídias digitais e redes sociais localizaram depoimentos de jovens sobre a questão da identidade negra que permitem considerar a permanência de uma não aceitação, uma não identificação, de dúvidas e afastamento da ancestralidade negra, como atesta reiteradamente a violência a que são submetidos homens e mulheres negros na Internet.

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Para o profissional que atua na Licenciatura, o Professor, o tema pode ser uma via para rediscutir a identidade brasileira juntamente com alunos, ajudando-os a descontruir ou construir suas identidades como não fixas, não acabadas, tampouco, desprestigiada, o que não implica desconsiderar as essencialidades existentes ou excluir as realidades que o mundo social evoca.

Objetivos

O estudo objetiva uma análise da identidade negra no Brasil orientados pelas concepções de Stuart Hall (2014). Os objetivos específicos propostos para a pesquisa em desenvolvimento visam caracterizar a perspectiva teórica da pós-modernidade em relação ao conceito de identidade proposto, assim como localizar textos, imagens, depoimentos que tratem a questão da identidade negra produzida e publicada em redes socais e outros meios de comunicação online. Para essa comunicação, trataremos um depoimento em específico na perspectiva da desconstrução.

Metodologia

Maria Luiza Tucci Carneiro (1996) indica que a análise de discurso permite o estudo dos que praticam e sofrem a intolerância racial. De acordo com a autora, a partir das falas produzidas por sujeitos históricos é possível analisar mentalidades que norteiam uma dada sociedade. Por meio de coletas de depoimentos em mídias sociais e a partir do pressuposto que não há linguagem que seja neutra, o estudo procede identificando o vocabulário, os enunciados e os discursos que permitem ao pesquisador decompor suas simbologias e significados históricos.

As fontes recolhidas partem de depoimentos realizados por diferentes pessoas que explicitam suas reações ao debate da identidade negra, de ser negro. Carneiro (1996) ressalta que o emprego de determinadas palavras e frases estereotipadas fornecem a persistência de uma mentalidade racista e intolerante, para isso se faz necessário um estudo detalhado do vocabulário como possibilidade de detectar a visão do mundo sustentada pelo grupo discriminador. A linguagem nos revela os

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papéis assumidos e impostos, transformando-se em representação e prática social, cultural.

Deste modo, o método qualitativo, como tratado por Silveira (2010), permite uma maior profundidade da análise e uma descrição maior das experiências pessoais do fenômeno, vale dizer, a análise qualitativa requer um rigor maior, pois exige recuperar a ênfase nos detalhes e nas multiplicidades das dimensões do problema. Por intermédio das mídias digitais aprofundamos a análise para trazer a discussão e reflexão sobre o negro no Brasil.

Desenvolvimento

O vídeo postado no youtube intitulado “Caião quer conversar” evoca o debate sobre a identidade negra e o racismo. A partir do depoimento usado como fonte é possível analisar o discurso que enunciam os indícios de uma permanência perversa em relação ao ser negro no Brasil. As palavras do jovem que discorre sobre o que o depoente pensa de si e como os outros identificam sua negritude fornecem subsídios para a análise do tema, bem como da resistência a uma mentalidade racista e intolerante.

O youtube foi lançado em 2005 como uma plataforma na qual seus usuários pudessem carregar vídeos e compartilhá-los em formato digital. Devido a grande facilidade de hospedar quaisquer vídeos, exceto matérias protegidos por copyright, apesar deste mesmo conteúdo ser encontrado muito facilmente, essa se tornou uma ferramenta social. Hoje o youtube possui uma variedade de vídeos, seja videoclipes, filmes, séries, vídeos ao vivo e de vlogers e youtubers. Recentemente a youtuber Júlia Tolezano identificada como Jout Jout em seu canal intitulado JoutJoutPrazer, possui mais de 1 milhão de escritos e aborda temas como sexo, amizade, tabus, feminismo e assuntos do cotidiano.

Dentre muitos vídeos, um vídeo torna-se particularmente interessante para a análise proposta. Trata-se de um vídeo no qual o ‘famoso’ namorado da Julia Tolezano apresenta um depoimento e muitos seguidores da youtuber ficaram desapontados por Caio ser negro, visto que até o momento ninguém o conhecia, e muitos comentários destacavam as expectativas frustradas dos usuários, que

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comentaram: “É um negão. Jout Jout gosta de salame extra G. Parabéns Jout Jout” ou “Caio na minha imaginação é loiro alto, de olhos azuis e musculoso”. Entre outros comentários, os textos revelam a mentalidade racista do grupo discriminador, pois como destaca Robin (1977, p. 47) “seu vocabulário bastaria para defini-lo, para designar-lhe um lugar especifico no tabuleiro politico”.

No depoimento Caio em suas palavras diz “declarar-se ou se declarava pardo” ressaltando a sua dúvida quanto a sua identidade após ser identificado como negro e mostra-se confuso a respeito dela. No vídeo, relata que seu padrasto, um homem negro da Guiné Bissau, achou interessante todo o ocorrido, mas diz “Caio não é negro”. Caio busca ajuda de amigos para que possa entender o que ele é, o que o leva a refletir sobre o que é necessário para ser negro e sobre os discursos que engendram esta ‘não identidade’.

O vídeo usado como fonte para essa análise sugere que no Brasil, para ser negro, é necessário ter sofrido com o racismo. No depoimento, o jovem indica que não entende o que torna alguém negro e quais os fatores para se assumir negro ou em suas palavras “[...] vem uns americanos e falam que eu pareço com o Obama”, visto que este comentário só enaltece a visão do parâmetro usado por um grupo para delimitar um aspecto da identidade negra. Ao final, o depoente faz um convite a outros ‘caios’ que não reconhecem sua identidade como negra ou “que assim como eu, está se descobrindo e não sabem muito bem sua identidade” construam espaços para o debate sobre a apropriação das ancestralidades e identidades negras.

Caio relata que “algumas dessas pessoas que falaram que eu não sou negro, estavam tentando me proteger de ser negro” comprova a insistência de uma mentalidade racista onde encontra uma aceitação do pardo e uma repulsa pela identidade negra. Essa visão relatada por Caio mostra a visão sustentada por um grupo que tem um discurso discriminador e intolerante. Segundo Carneiro (1996), a consciência é revelada através da linguagem assumida, nela é possível penetrar na consciência dos homens. Caio em sua fala diz “agora você que diz que Julia não havia me mostrado porque eu era negro [...]” evidencia o grupo discriminador e que ressalta uma estrutura social onde uma determinada etnia é valorizada em detrimento de outra.

A partir de um estudo diacrônico podemos classificar os termos detectados quanto a sua disposição no tempo, isto é, a estrutura linguística é um reflexo da

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estrutura social como na fala do Caio “alguns comentários onde havia pessoas me apoiavam, desejando força e outras que falaram ‘Mas gente, Caio não é negro...” é evidente o discurso branco sustentado por um determinado grupo no qual deprecia a identidade negra. Ao observar as alterações no discurso através do emprego de expressões e identificando os significados das palavras usados pelo grupo discriminador, é possível analisar a permanência de uma mentalidade ultrapassada do ponto de vista dos estudos históricos, pois uma época pode ser delimitada baseando-se no estudo léxico, como identificando em seus adjetivos atribuídos ao sujeito ou a determinados grupos sociais. No caso, os que usam as facilidades das mídias digitais.

O caso do Caio apresentado no trabalho não é um único, assim como ele outros indícios históricos e sociais permitem considerar que a população jovem negra se encontra na mesma situação, qual seja, de dúvidas sobre sua identidade negra. Por desconhecimento dos conteúdos de História muitos não são capazes de avaliar discursos disseminados em nossa sociedade, nos quais prevalece uma supremacia branca. Trazendo luz a um tema que está em profundo debate nos dias atuais, se torna necessário que a ancestralidade negra se constitua como reflexão no âmbito da educação básica, que alunos e professores de história se apropriem da temática como luta contra o racismo e a intolerância, contra a falsa democracia racial, como posicionamento politico.

Resultados

O presente trabalho, desenvolvido como estudo qualitativo, cujas fontes foram analisadas de forma vertical e por intermédio da análise de discurso, formalizam o eixo e tratamento dispensado ao tema. A análise de discursos produzidos e publicados pela mídia digital assume a perspectiva da desconstrução com abordagem e método de pesquisa dados pela análise do discurso para, assim, identificar como a identidade negra no Brasil é caracterizada nos movimentos em rede, enquanto memória, patrimônio e cidadania. A história como ciência serve para revisar o que foi atribuído como real, verdadeiro, ideal e que hoje não é mais, ou seja, torna-se uma oportunidade para apropriar-se e assumir a ancestralidade negra que em grande parte forma a composição étnica nacional.

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Referências:

Robin, Regine. História e Linguística. São Paulo: Editora Cultrix, 1973.

HALL, Stuart. Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2014

SCWARTCZ, Lilia Moritz. Nem Preto Nem Branco, Muito Pelo Contrário: cor e raça na sociedade brasileira. São Paulo: Claro Enigma, 2009.

SCWARTCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças: cientistas, instituições e questões raciais no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

FOUCAULT, Michel. Ordem do discurso. 24. ed. São Paulo: Loyola, 1996.

SCHUCMAN, Lia Vainer. Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana. 2012. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.

CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. O discurso da intolerância: fontes para o estudo do racismo. Fontes históricas: abordagens e métodos. São Paulo: Unesp, p. 21-32, 1996.

SILVEIRA, Fabiano Augusto Martins. Da criminalização do racismo: aspectos jurídicos e sociocriminológicos. Belo Horizonte: Del Rey, 2007.

MUNANGA, Kabengele. Negritude afro-brasileira: perspectivas e dificuldades. Revista de Antropologia. São Paulo, n. 33, 1990, p. 109-117.

PEREIRA, João Baptista Borges. A cultura negra: resistência de cultura à cultura de resistência. Dédalo Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, n. 23, p. 177-188, 1984.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estudos e Pesquisas, Informação Demográfica e Socioeconômica número 35: Síntese de Indicadores Sociais. Uma

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Análise das Condições de Vida da População Brasileira, 2015. Rio de Janeiro. Disponível em: < http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv95011.pdf> . Acesso em: 2 Abr . 2017.

MUNANGA, Kabengele. Negritude: usos e sentidos. São Paulo: Editora Ática, 1988.

SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Identidade e Diferença: A Perspectiva dos Estudos Culturais. 1. ed. São Paulo: Vozes, 2009.

MOURA, C. As injustiças de Clio: o negro na historiografia brasileira. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1990.

DOMINGUES, Petrônio. Movimento negro brasileiro: alguns apontamentos históricos. Revista Tempo, v. 12, n. 23, p. 100-122, 2007.

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