Disciplina Engenharia e Sociedade

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Texto

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Universidade Federal de Juiz de Fora Faculdade de Engenharia

Curso de Graduação em Engenharia Civil

Disciplina Engenharia e Sociedade

Material de Apoio

Oitavo Período

EPD097 – TURMA E – Engenharia Civil Primeiro Semestre 2019

Prof. José Aravena-Reyes Departamento de Construção Civil

Unidade 5

Objetivos Pedagógicos Desenvolver uma perspectiva social engajada com a sociedade

Unidades Programáticas de

Conteúdos 1. Ética e Cidadania. – 2. Desenvolvimento Social

2. Desenvolvimento Social

Engenharia e Sociedade

A temática principal deste curso repousa sobre o território comum da Engenharia e a Sociedade porque, de uma forma mais apropriada, a relação entre ambos conceitos se estabelece melhor e permite a ressignificação de cada termo que foi apropriado por nós de forma separada.

A tratar da Engenharia como motor do desenvolvimento humano estamos fazendo uma grande opção de pensamento: a de que não há dúvidas sobre o que é desenvolvimento humano e a de que estamos no caminho correto promovendo a forma atual de desenvolvimento do ambiente técnico que rodeia o homem. Em ambos os casos é necessário fazer considerações. Do humano, sabemos que há muitas dificuldades em plantear uma definição concisa e definitiva que dê conta desse termo. Desde os primórdios do pensamento até hoje, o homem foi entendido como homem

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racional, animal político ou com linguagem, ser gregário ou até, como recentemente, se diz homem aquele tem mãe. São muitos os cuidados que se devem tomar ao caracterizar o homem e, portanto, se deve ter muito cuidado ao explicitar o que se irá chamar de o seu desenvolvimento.

Desenvolver também representa a ideia de que se trata só de abrir a embalagem, a casca, a envoltura, que daí sairá o homem, ou melhor, o essencial do homem. Sem sabermos ao certo da envoltura, das camadas de recobrimentos que escondem esse ser, acreditamos ter uma noção clara do que elas são e como se deve despir o homem para que seja o que ele tem que ser.

A Engenharia concorre neste projeto de desenvolver o homem auxiliando na criação e aperfeiçoamento dos objetos técnicos que permitem ao homem chegar a ser o que ele tem que ser. Como tais, os objetos técnicos são formas de acompanhar o mundo que o homem cria para ele. Se sairmos da visão romântica de que existe uma única forma essencial de ser homem, isto é, se nos abrirmos para o entendimento de que existem muitas formas de ser esse homem, teremos que necessariamente relativizar a produção técnica em função daquilo que, hoje, de forma hegemônica, e porque não dizer, dominante, se estabelece como destino técnico do homem. Ao dizer destino do homem já se fez uma opção e se a Engenharia obedece às narrativas dessa opção então ela perdeu o sentido amplo de contribuir para o desenvolvimento das outras formas de viver, quaisquer que sejam os outros projetos de homens que ficaram para atrás nessa luta pela dominação dos homens pelo homem dominante. As vezes chamamos isso de custo de oportunidade.

A palavra sociedade concorre aqui tratando de sair da armadilha de pensar a Engenharia como forma de produção do humano singular. Pois as soluções técnicas que a Engenharia promove são produto de situações problematizantes onde o homem já é uma abstração, muitas vezes chamada de usuário ou cliente, na linguagem econômica. Se o social representa uma ordem, um stablishment, um traço amplo de identidade territorial ou cultural, então a Engenharia novamente se volta para a esfera do dominante, perdendo a oportunidade de se debruçar na invenção de novos modos de vida ou formas existenciais diferenciadas, menores, escondidas, invisíveis.

Porém, nada do dominante ou hegemônico é terreiro da Engenharia. Dessa, o principal é a função produtiva de modos de existência, o que leva sempre a estar criando novas relações entre a Engenharia e a Sociedade, isto é, a dar novos sentidos, tanto ao termo Engenharia, quanto ao termo Sociedade, de modo a exaurir todos os campos de desenvolvimento do humano.

Indicadores Sociais

Na esfera macro política e macroeconômica, o mundo singular de cada ser humano que habita o planeta é elevado a uma condição comum; a uma abstração que permita fazer análises e tomar decisões que afetam a todos ao mesmo tempo e de uma mesma forma. Se consideramos que os direitos e deveres dos cidadãos são os mesmos para todos é porque somos todos iguais perante a lei, ou seja, somos uma abstração do homem.

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Com a melhor das intenções, as nações procuraram entender as variáveis que indicam de forma macro, o progresso da humanidade. Trata-se de uma intenção para explicitar o que seria melhor para a sociedade, mediante parâmetros globais, ou minimamente, mediante entendimentos amplos do que significa estar melhor. Se há um mínimo a ser atingido como referencia do melhor ou se se trata de uma corrida à (pseudo)felicidade, a tarefa concreta de promover o desenvolvimento social é atribuída aos Estados. Fosse pouco, ainda é necessário hoje, perante a leitura estreita feita pelos Estados, considerar que a Terra também requer de cuidados, colocando para muito além do econômico, mais uma das variáveis que vêm compor o teor dos indicadores de desenvolvimento social: esse desenvolvimento há de ser durável, sustentável.

Assim, se bem se pode pensar que o desenvolvimento social está atrelado ao desenvolvimento econômico das nações (o que para os engenheiros soa como o desenvolvimento produzido pela inovação tecnológica) é difícil estabelecer uma relação salutar entre todas as produções técnicas e seus efeitos no desenvolvimento social. Veja-se por exemplo, a indústria das armas, o agronegócio e a mineração predatória, a exploração comercial e uma sorte de produções técnicas que se bem aprimoram a lógica do acúmulo, se confrontam com as demandas daquilo que deve desenvolver o social. Assim, além dessa perspectiva positiva, existe a perspectiva negativa que pode considerar a Engenharia como agente que participa também na produção de objetos técnicos que afetam as condições de (des)equilíbrio social ao promover intervenções tanto na melhoria do acesso a bens e serviços quanto nas condições de paz, igualdade de oportunidades, justiça e de direitos sociais.

Engenharia, Justiça Social e Paz

Como parte das ações de engajamento para contribuir no desenvolvimento social, uma primeira abordagem seria contribuir diretamente para o desenvolvimento social tal qual se entende de forma positiva, mas também existe um espaço de ação engajada para tentar diminuir a brecha entre os que se encontram em situações de desequilíbrio social. Como exemplo disso, se pode citar a organização Engineering, Social Justice and Peace, dos Estados Unidos, dedicada a promover mecanismos de inserção efetiva dos engenheiros nas temáticas do equilíbrio social. O mais interessante dessa organização é a sua declaração explicita de visar a justiça social como tarefa da Engenharia. Suas formas metodológicas passam pelo desenvolvimento de competências para lidar diretamente com comunidades a partir de demandas sociais. Seus materiais são livres e estão disponíveis para abordar aspectos quotidianos dos problemas de justiça social nas comunidades envolvidas e formas de encaminhamento para a identificação das situações problemáticas e suas eventuais soluções nesses ambientes.

Organização Social e Cooperativismo

Uma das melhores leituras que pode ser realizada do pensamento de Karl Marx não se encontra na sua abordagem crítica da economia política, senão na afirmação da condição de superação ou confronto aos poderes hegemônicos, notadamente, à hegemonia da ideologia capitalista. A forma metodológica específica é a organização

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social, quer dizer, pessoas ou trabalhadores (seja lá o que isso quer dizer hoje) devem se organizar para defender suas formas de vida perante o peso disciplinador do Estado. Porém, há Estados onde a própria organização social é pauta de condição cidadã. O próprio Estado pode regular a condição coletiva, dando aos seus cidadãos instrumentos para que a própria organização social não se transforme em um novo espaço de usufruto despótico ou imoral. O cooperativismo é uma expressão muito interessante de organização social que pode ter como objetivos desde a vivenda (como no caso do Uruguai) até a coleta de lixo (como no caso do Brasil). A base principal do cooperativismo está na ação coletiva autorregulada e seus efeitos são sempre surpreendentes e benéficos para o empoderamento social.

Se bem se pode pensar que o cooperativismo tem menos conotações de modelo econômico, o mesmo não pode se dizer da Economia Solidária do Peter Singer, que se ergue na grande premissa da solidariedade (ou sorodidade como se aplica hoje em dia para além da femea). Este modelo visa incorporar um conjunto de valores que vão desde a corresponsabilidade até a sustentabilidade da atividade econômica.

A Engenharia Popular –oriunda de conceitos como Tecnologia Social, que declara o interesse por um desenvolvimento tecnológico renovado em contraposição com a Tecnologia Tradicional, de cunho capitalista– promove uma aproximação dos Engenheiros para com as demandas explicitas das populações e comunidades mais desfavorecidas pelo modelo capitalista, de modo a empoderar formas de existência alternativas. Com métodos baseados na autogestão (na base da teoria marxista de apropriação dos meios de produção) e no mutirão, esta corrente enxerga uma possibilidade de organização social de base que possa aplicar conhecimento técnico de Engenharia nas situações problemáticas locais, visando autonomia e afirmação existencial: Engenharia para o povo (seja lá o que isso queira dizer uma vez que as demandas de existência vêm de tudo quanto é lugar e a Engenharia é chamada a agir em todos esses espaços).

Ecosofia

O modelo capitalista tem uma lógica de certa forma esquizofrênica. Por um lado, o corpo social se torna coeso mediante a estabilização dos códigos e comportamentos socialmente compartilhados, mas por outro lado, precisa da inovação como fonte de desestabilização desses códigos, pois são essas novas codificações as que alavancam os novos negócios promovendo a dinâmica econômica necessária para a manutenção do sistema. Cada nova ideia, por mais singular que seja, rapidamente se torna viral, isto é, afeta o social. De viral, rapidamente ascende ao status de business. Esta lógica sempre está capturando toda a criatividade humana a serviço do capital, tornando difícil qualquer intenção de fundar uma economia não-capitalista. Isso não seria um grande problema se não fosse pelos diversos efeitos nocivos que o atual modelo econômico provoca.

Se por um lado, a cada dia surgem mais evidências do crescente deterioro planetário, por outro, parece que ainda não há suficientes argumentos para traçar os paralelos

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entre essa forma de deterioração e os crescentes efeitos nocivos que o modelo capitalista provoca na esfera social e subjetiva.

Socialmente, se sabe das condições de inclusão e exclusão que o modelo promove como forma de compensação-punição em torno dos que se adequam aos princípios morais e a forma de vida promovida pelo modelo dominante (pois, aqui é obvio que não se trata só de uma forma econômica). A chamada economia libidinal age diretamente no controle econômico da libido, ou seja, o desejo como espaço de troca comercial para o acumulo de capital. Constantemente os homens são chamados a experimentar diversas formas de prazer, enaltecendo esse estado e colocando todas as referencias de existência entorno do gozo. Como modelo de captura, novas ideias para atender as crescentes demandas de prazer, o capitalismo promove uma condição de insaciabilidade e de dependência que caracteriza o narcisismo contemporâneo. As identidades sociais são estruturadas de acordo com as possibilidades de consumo dessas novas condições de prazer, e a Engenharia, obedientemente, se presta para a produção de toda sorte de objetos que da suporta ao modelo econômico libidinal sem questionar seus efeitos nocivos.

Do burnout ao esgotamento desse espaço de prazer, o social se deteriora e se instaura na forma de desequilíbrios subjetivos que promovem as condutas mais perversas de dominação e controle, mas também as de submissão e apatia. Não é difícil nem deve estranhar, portanto, as decadentes condutas sociais e individuais que povoam nossos tempos: a violência, o egoísmo, a truculência; todas produto de um homem que pode moldar suas pulsões para a vida ou para a morte, dependendo dos objetos técnicos dos seus próprios projetos existenciais.

Nesse contexto, até o sustentável é território do capitalismo. Dito de outra forma, dá até para lucrar com a degradação planetária e com os desequilíbrios sociais. Nesse contexto, para sair da armadilha da captura capitalista e elaborar novos conceitos que permitam ajustar as existências aos cuidados necessários para a manutenção da espécie em termos ambientais, sociais e subjetivos há necessidade de uma ecosofia, uma declaração de amor a o vivo, à terra, aos territórios existenciais coletivos e a nós mesmos, cultivando a vida como premissa fundamental, e nisso, a Engenharia tem muito a contribuir para a sociedade.

Para começar na aula...

Assista o vídeo AILTON KRENAK - "No meio do caminho havia uma pedra":

https://www.youtube.com/watch?v=ffHgfO8CuMU

Recomendação para ir longe com o pensamento...

Leia o livro de Felix Guattari As Três Ecologias, Trad. Bittencourt, M., 20a Edição, Papirus Editora, São Paulo, 2009.

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Referências

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