• Nenhum resultado encontrado

GESTÃO DEMOCRÁTICA: DA APRENDIZAGEM AO DISCURSO

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "GESTÃO DEMOCRÁTICA: DA APRENDIZAGEM AO DISCURSO"

Copied!
12
0
0

Texto

(1)

GESTÃO DEMOCRÁTICA: DA APRENDIZAGEM AO DISCURSO 

Kátia Cr istina Br ito (UFT ) [email protected]  Nádia Flausino Vieira Bor ges (UFT) [email protected] 

1. Intr odução 

A  educação  básica  com  qualidade  socialmente  referenciada  é  busca  constante  dos educadores  e  instituições  que  atuam  visando a  construção de uma  sociedade  mais  justa e democrática. A luta pela escola pública, gratuita e laica tem sido uma marca dos  educadores  brasileiros  e  objeto  de  manifestos  históricos.  Isso  ocorre  pois  enquanto  prática social, a educação pode ser analisada sob duas óticas fundamentais: primeiro de  ser um dos desdobramentos em torno das políticas públicas desenvolvidas pelo Estado;  segundo pela estreita relação dessas últimas com os processos produtivos.  Segundo Vieira  e Freitas (2003), desde o Manifesto dos Pioneiros da Educação  Nova, redigido em 1932, se têm registros de movimentos e embates com este objetivo,  influenciados pela compreensão de que o ingresso e a permanência do aluno no espaço  escolar  só  se  efetivarão  se  houver  participação  da  sociedade  organizada,  não  apenas  como parceiros, mas como atores de um processo que se constrói cotidianamente. 

Na  história  recente  do  Brasil  o  debate  sobre  a  gestão  democrática  tem  se  intensificado  a  partir  do  projeto  constituinte  que  a  delineou  como  um  componente  imprescindível em todos os setores sociais e, de forma específica, na educação. A partir  da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9394/96), se inscreve a gestão  democrática como princípio da educação nacional que implica no diálogo, participação  e em novos processos de gestão e organização do espaço escolar visando o exercício da  democracia. 

2. Conselhos Escolar es Como Deter minantes da Gestão Democr ática 

Os documentos legais e as reformas educacionais instituídos no Brasil a partir da  década  de  80  estimulam  a  criação  de  diversos  colegiados  que  se  organizam  como  conselhos  fiscais,  como  o  conselho  do  FUNDEF;  da  merenda  escolar;  conselhos  com  funções  normativas,  como  os  conselhos  de  educação  em  nível  estadual  e  municipal;

(2)

grêmios  estudantis;  conselhos  de  classe  e  os  conselhos  escolares  ou  as  associações  de  pais e mestres que são organizadas na maioria das unidades escolares públicas do país. 

A organização dos referidos conselhos está circunscrita a um conjunto de ações  que  se  intensificaram  na  década  de  90,  no  bojo  das  políticas  e  reformas  educacionais  instituídas  pelo  Governo  Fernando  Henrique  Cardoso  (1995­2002).  Uma  das  ações  considerada  como  mudança  e  inovação  na  educação  foi  o  repasse  de  recursos  para  a  manutenção das escolas. Segundo o Relatório do Ministério da Educação: 

Este  programa  objetiva  valorizar  a  escola  como  centro  da  ação  educativa, que precisa de autonomia para decidir sobre questões pedagógicas,  administrativas e financeiras. O fortalecimento da escola é condição necessária  para  o  alcance  de  um  novo  patamar  de  gestão  educacional,  que  dote  as  instituições de perfil próprio e competência para responder publicamente pelos  resultados de seu trabalho. 

O repasse de recursos diretamente à escola, sem a intermediação dos governos  dos  estados  ou  dos  municípios,  exige  que  a  instituição  tenha  uma  associação  de  pais  e  mestres,  conselho  escolar  ou  caixa  escolar,  havendo  assim  uma  co­  gestão dos recursos públicos com representantes da comunidade a que pertence  a escola. Cada instituição recebe um valor proporcional ao número de alunos e  diferenciado segundo a região onde se localiza (MEC, 1996, p. 63). 

Dentre outros, o foco das ações políticas deste período foi a descentralização de  recursos,  assim,  cada  escola  com  mais  de  100  alunos  receberia  recursos  direto  do  Ministério  da  Educação  através  do  programa  de  transferência  voluntária  de  recursos  denominado  Programa  Dinheiro  Direto  na  Escola  ­  PDDE.  A  partir  de  então,  estimulados por uma ação externa, diferentes personalidades jurídicas são instituídas no  seio  das  unidades  escolares  públicas  em  todo  o  país  com  diferentes  composições  e  atribuições. 

A  análise  dos  princípios  de  gestão  democrática  estabelecidos  nos  documentos  legais  e  em  estudos  acadêmicos  realizados  por  Aguiar  (2004),  Paro  (2003)  e  Ferreira  (2004)  demonstra  a  possibilidade  de  envolvimento  da  comunidade  em  diferentes  aspectos  com  participação  efetiva  na  elaboração  do  regimento  acadêmico,  projeto  político­pedagógico,  calendário  escolar,  além  de  contribuições  curriculares,  metodológicas, didáticas e administrativas. 

Cury  (2004)  ao  tratar  da  diversidade  de  conselhos  na  gestão  dos  sistemas  de  ensino afirma que: 

A gestão  democrática é  mais do que  a exigência de transparência, de  impessoalidade,  e  moralidade.  Ela  expressa  tanto  a  vontade  de  participação  que  tem  se  revelado  lá  onde  a  sociedade  civil  conseguiu  se  organizar  autonomamente,  quanto  o  empenho  por  reverter  a  tradição  que  confunde  os  espaços públicos com o privado. (p. 55)

(3)

Ressalta­se que a participação da comunidade no processo de gestão das escolas  públicas requer muito mais que  aparato legal, ou institucional,  requer,  na  verdade, um  conjunto  de  iniciativas  que  possibilitem  que  tal  ação  seja  efetiva  e  que  contribua  superando  os  limites  de  tempo,  espaço,  formação  escolar,  relações  de  poder,  representatividade e o acesso às informações. 

A  ação  educativa  e,  conseqüentemente,  a  política  educacional  em  qualquer  das suas feições não possuem apenas uma dimensão política, mas é sempre  política,  já  que  não  há  conhecimento,  técnica,  e  tecnologias  neutras,  pois  todas são expressão de formas conscientes ou não de engajamento (Dourado,  2003, p. 82) 

A  gestão  democrática  tem  sido  tema  de  pesquisas  e  controvérsias  quanto  aos  paradigmas que fundamentam as práticas e os programas educacionais. Os autores que  se  dedicam  aos  estudos  de  gestão  no  campo  educacional  ressaltam  a  necessidade  de  redimensionar  tal  conceito,  apresentando  a  gestão  escolar  numa  perspectiva  participativa,  afinal os  métodos  de  gestão  considerados  mais  democráticos porque  são  participativos  vêm  sendo  incorporados  à  gestão  democrática  sem  incorporar  aos  segmentos sociais suas representações (Oliveira, 2003).  Nesse contexto 

Uma forma de conceituar gestão é  vê­la como um processo de mobilização  da competência e da energia de pessoas coletivamente organizadas para que,  por  sua  participação  ativa  e  competente  promovam  a  realização,  o  mais  plenamente  possível,  dos  objetivos de sua unidade de trabalho, no  caso,  os  objetivos educacionais. (LÜCK, 2006, p. 21) 

Esta  dimensão  se  diferencia  do  enfoque  apenas  cartorial  e  técnico  em  que  as  ações  de  gerenciar  e  supervisionar  estão  inseridas  em  um  contexto  de  subordinação,  nele, os fatores determinantes são a  eficiência dos processos e  a  utilização racional de  recursos para a realização de fins determinados. Vale aqui ressaltar o alerta de Oliveira  e t al(2006) ao afirmar 

que  é  preciso  estar  atento  para  o  fato  de  que  o  tema  vem  estimulando    a  concepção  de  propostas  referenciadas  por  diferentes,  senão  antagônicas,  matrizes teóricas, isto sem duvida, conduz a diferentes concepções e práticas  de  gestão  escolar,  podendo  significar  retrocessos  ou  avanços  para  a  escola  pública ( p. 22). 

No que  se  refere  ao  conceito  de  democracia,  observa­se  a  necessidade  de  uma  análise  contextualizada,  considerando­se  que  tal  prática  teve  sua  origem  entre  as  civilizações clássicas, chegando à sociedade ocidental burguesa, em contextos sociais e  políticos diferenciados. 

Segundo Sales (2006) a democracia representativa caracterizada pela divisão de  poderes, que se controlariam mutuamente, foi questionada a partir do século XIX pelas

(4)

diferentes  classes  sociais  que  começaram  a  se  organizar  em  associações,  sindicatos  e  partidos visando contemplar os interesses de classes de diferentes grupos. A democracia  representativa começou a ser atacada e defendida por todos os lados, ficando instaurada  uma  crise  nesta  forma  de  exercício  da  democracia,  confirmando  a  afirmação  de  Ghiraldelli Júnior (2006) que a considera como um regime em que a tomada de decisões  obrigatórias para todos é feita por todos os cidadãos qualificados podendo ser definida  pela  completa  certeza  quanto  aos procedimentos  e  pela  completa  incerteza  quanto aos  resultados. 

Nesse  sentido  insere­se,  também,  o  conceito  de  gestão  democrática  que,  conforme  Ferreira  (2004),  faz­se  na  prática,  quando  se  tomam  decisões  sobre  todo  o  projeto  político  pedagógico  e  quando  se  organiza  e  se  administra  coletivamente  todo  esse processo, viabilizando a descentralização do poder e o exercício da cidadania. 

Entretanto,  cabe  ressaltar  que  o  exercício  da  cidadania,  aqui  descrito,  deve  possibilitar a participação de todos no processo de tomada de decisão de forma coletiva,  e não apenas na perspectiva de legitimar as decisões e ações previamente estabelecidas.  Tal postura, encontrada em diferentes instâncias de gestão colegiada referenda a análise  de Dourado: 

A gestão da escola assenta­se, portanto, em duas possibilidades antagônicas  em  disputa.  De  um  lado,  uma  visão  gerencial  pautada  por  uma  lógica  economicista,  cuja  concepção  negligencia  a  especificidade  da  ação  pedagógica, em que a autonomia da escola se configura  como uma retórica  de  participação  tutelada  e,  de  outro  lado,  uma  visão  político  ­  pedagógica  pautada  pela  luta  pela  efetivação  da  educação  como  direito  social,  pela  busca da construção da emancipação humana sem descurar da especificidade  da  ação  pedagógica  e  dos  movimentos  em  prol  da  efetivação  de  uma  progressiva autonomia da unidade escolar. (DOURADO, 2004, p. 69). 

No que se refere ao conceito de participação, Abranches (2003, p. 76) a descreve  como  um  “exercício  democrático,  por  meio  do  qual  aprendemos  a  eleger  o  poder,  fiscalizar, desburocratizar, e dividir responsabilidades, sendo que os vários canais dessa  participação  convergem  para  elaborar  condições  favoráveis  de  surgimento  dos  cidadãos”.  A  participação  é  uma  construção  histórica  e  social:  exige  aprendizado  continuado.  Numa  visão  mais  abrangente,  ela  é  entendida  como  intervenção  constante  nas  definições  e  nas  decisões  das  políticas  públicas,  tornando­se  uma  prática  social  efetiva que sedimente uma nova cultura de cidadania. 

Ao  considerar  a  participação  uma  das  dimensões  mais  importantes  da  gestão  democrática, no espaço escolar,  Lück (2006) afirma a  necessidade de reconhecê­la em  seu  sentido  pleno  que  corresponde,  portanto,  a  uma  atuação  conjunta  superadora  das

(5)

expressões  de  alienação  e  passividade  de  um  lado  e  autoritarismo  e  centralização  do  outro. 

3 Os pr incípios Legais da Gestão Democr ática 

O  processo  de  redemocratização  teve  seu  ápice  na  assembléia  nacional  constituinte  que  consagrou  o  princípio  da  gestão  democrática.  A  Constituição  promulgada em 1988 foi o principal fundamento da referida gestão no ensino público. 

Em seguida, a própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) –  nº 9394 de 20 de dezembro de 1996, estabelece como princípio a gestão democrática do  ensino público na forma desta Lei e das legislações dos sistemas de ensino (Inciso VIII,  Art.3), e no Artigo 15 define os princípios da gestão democrática: 

Os  sistemas  de  ensino  definirão  as  normas  da  gestão  democrática  do  ensino  público  na  educação  básica,  de  acordo  com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios:  I – participação dos profissionais da educação na elaboração do  projeto pedagógico da escola;  II – participação das comunidades escolar e local em conselhos  de escola ou equivalente.  Os princípios estabelecidos na Constituição Federal inspiraram a organização de  conselhos nas áreas social, educacional de saúde e, mais recentemente, quanto à gestão  das cidades e do orçamento público. 

Tal  experiência  pode  dar  a  impressão  de que  a  democracia  representativa  tem,  cada vez mais, deixado espaço para a participação popular, dividindo tarefas, interesses  e perspectivas, possibilitando a participação da sociedade nas mais diferentes instâncias  deliberativas. No entanto, segundo Sales: 

O  que  parece  estar  acontecendo  no  Brasil  e  que  os  Conselhos,  que  na  sua  origem  pretendiam  substituir  a  Democracia  Parlamentar  representativa  por  uma  democracia  mais  ampliada,  ao  serem  implantados,  passaram  a  ser  um  dos instrumentos da democracia representativa. Não deixaram, entretanto, de  ser  uma  tentativa  de  democracia  mais  ampliada.  Supõe­se  então,  estar  instaurada,  no  Brasil,  uma  tensão  entre  a  democracia  representativa,  com  sinais  de  crise  bastante  profunda,  mas,  tentando  sobreviver,  e  a  gestão  democrática  da  sociedade,  um  tipo  de  democracia  que  parece  estar  emergindo  do  “desejo”  dos  diferentes  grupos  sociais  em  ter  o  que  dizer  sobre  o  seu  destino,  e  o  modo  de  gerir  os  seus  interesses.(Sales,  2006,  p.  139).

(6)

Acrescenta­se  se  às  análises  apresentadas  a  dificuldade  de  exercício  da  participação  propositiva  dos  conselheiros  representantes  da  sociedade  organizada,  o  desconhecimento de aspectos legais e técnicos no que se refere às temáticas, à falta de  vivências específicas na  gestão pública e finalmente o distanciamento dos conselheiros  das  bases  que  deveriam  suportar  e  subsidiar  a  participação  de  seu  representante  nos  respectivos conselhos. 

Observa­se que a simples criação e institucionalização de forma apressada, para  cumprir  prazos  e  objetivos  determinados;  a  inobservância  dos  limites  técnicos  e  operacionais dos representantes,  muitas  vezes, provocam a  banalização dos conselhos.  A proposição que teria o objetivo de fomentar o diálogo, a participação e possibilitar a  tomada de decisão de acordo com os anseios da sociedade organizada pode se tornar em  um instrumento de legitimação de iniciativas e práticas que não correspondem ao querer  desta  sociedade,  confirmando  o  que  afirma  Gadotti  (1997,  p.51)  “multiplicou­se  os  conselhos mas diminuiu a participação, limitada às mesmas pessoas em todos eles.” 

4. Análise dos Dados 

A  pesquisa  teve  como  objetivo  identificar  a  concepção  de  gestão  democrática  que  permeia  as  falas  e  produções  dos  gestores  escolares  matriculados  no  curso  de  especialização  em  Gestão  Escolar  –  Escola  de  Gestores  –  convenio  MEC­UFT­  UNDIME,  mais  especificamente  nas  cidades  de  Palmas,  Araguaína,  Miracema,  Porto  Nacional, Gurupí e Arraias. 

Os  textos  analisados  foram  respostas  elaboradas  à  questão  que  solicitava  a  descrição  em  linhas  gerais  de  uma  gestão  escolar  democrática.  Como  a  referida  atividade  era  facultativa,  nem  todos  os  acadêmicos  do  curso  de  pós­graduação  responderam  à  questão,  mas  uma  significativa  quantidade  de  acadêmicos  se  propôs  à  construção de textos descrevendo sua rotina  na escola onde trabalha e qual a realidade  de  gestão  que  cada  um  evidencia  em  sua  prática  diária.  Pode­se  inferir  dos  textos  apresentados  à  questão  proposta  que  grande  parte  dos  acadêmicos  compreende  a  necessidade  da  luta  pela  instituição  da  gestão  democrática  na  escola  pública  como  mecanismo para o alcance da educação básica de qualidade socialmente referenciada, e  para  a  formação  de  um  ambiente  escolar  composto  por  educadores  e  instituições  voltadas para a construção de uma sociedade justa e democrática.

(7)

Conforme podemos conferir nos seguintes textos: 

“Pode­se  afirmar  que  em  uma  gestão  escolar  democrática  alunos,  professores,  pais  e  todos  os  servidores sentem  orgulho de  fazer  parte de um  ambiente  estruturado e, sobretudo, de  uma  escola  em  que  a  formação  intelectual  dos  alunos  está  baseada  na  apropriação  de  novos  saberes sobre o aprender e o ensinar por parte dos professores, além de uma postura reflexiva e  critica frente ao trabalho desenvolvido por todos e complementado pela família. Sendo assim, é  preciso que os alunos, servidores,  pais e comunidades compreendam  melhor a função social da  escola  e  que  ela  é  um  ambiente  de  trabalho  importante  para  a  aquisição  do  conhecimento,  da  formação da personalidade e da construção da cidadania.” (A 1) 

“A  escola  democrática  procura,  obedecer  aos  padrões  que  exige  uma  educação  de  qualidade. As deliberações do campo escolar são realizadas no coletivo, ou seja, as decisões são  tomadas levando em consideração a opinião de todos, onde os mesmos possam analisar discutir e  definir os projetos e as ações realizadas pela escola.” (A 2) 

Em âmbito geral, também a  maioria dos acadêmicos evidenciam a  importância  da participação e envolvimento da comunidade local nas reuniões da escola. Mas apenas  26% das 170 respostas obtidas compreendem essa participação como participação ativa  de  todos  os  envolvidos  no  processo  educacional  com  capacidade  de  opinar  nas  discussões e com potencial de tomada de decisões e avaliação dos objetivos alcançados. 

Os textos que confirmam tal posição: 

“A meu  ver, a mola  mestra da  gestão escolar democrática é a participação de todos os  envolvidos na gestão escolar, desencadeando o fortalecimento de ações nos múltiplos processos  educativos e administrativos da instituição. Sua forma de trabalho deve ser organizada através de  órgãos colegiados e norteada pelo projeto político pedagógico, em caráter dinâmico que favoreça  os processos coletivos e participativo de decisão.” (A 3) 

“Em  linhas  gerais,  gestão  democrática  para  se  dizer  efetiva,  deve  envolver  os  interessados nos resultados da escola em todas as atividades desenvolvidas para se chegar a eles.  Ou seja, dar oportunidade para que todos participem da elaboração e execução de todas as ações  propostas  pela  escola,  tendo  autonomia  para  sugerir,  implementar  e  realizar.  Acredito  também  que este  procedimento ainda não  é adotado  por  muitas escolas, em  virtude  de algumas pessoas  ainda não saberem lidar com a autonomia.”  (A 4) 

Dentre  as  demais  opiniões  obtidas  39%  falam  de  gestão  democrática  quando  todos podem expressar suas opiniões, e ficam em seus conceitos nos meandros de poder  ser ouvido, ou poder avaliar as ações da escola, e vêem a necessidade de acompanham  um trabalho transparente, através do acompanhamento das finanças e  gastos da escola.  Ou  definem  gestão  democrática  quando  a  comunidade  pode  ajudar  na  execução  dos  projetos da  escola,  e  focam  suas  idéias  centrais  em  reuniões  para  discussão.  Como os  texto à seguir: 

“A  escola  deve  ser  um  espaço  onde  todos  os  envolvidos  na  escola  possam  participar,  discutir, opinar sobre  os projetos e as ações educativas.” (A 5) 

“A  característica  da  gestão  democrática  é  o  compartilhamento  de  decisões  e  informações, a preocupação com a qualidade da educação. É a que prima pela transparência dos  recursos financeiros usados na escola...” (A 6)

(8)

“A gestão democrática por sua vez, requer, dentre outros, a participação da comunidade  nas ações desenvolvidas na unidade escolar.” (A 7) 

“Gestão  escolar  democrática  é  uma  ação  transformadora,  arte  de  promover  encontros,  acordos,  diálogos,  conciliações  e  decisões  que  visam  o  bem  coletivo  e  a  sustentabilidade  das  relações.  Exercício  administrativo  de  desejos,  tempos,  espaços,  recursos  e  intencionalidades  políticas.  Através de uma gestão aberta descentralizada os cidadãos e cidadãs se comprometem  com  o  cuidar,  com  a  solidariedade,  com  as  condições  dignas  de  realização  da  vida,  com  o  princípio  das  decisões  coletivas  que  tenham  impactos  positivos  para  todos  e  para  todas  que  vivem  e  convivem  em  comunidade.  Promovo  Cultura  da  paz,  igualdade,  oportunidade,  senso  crítico e mundo melhor.” (A 8) 

Os outros 35% descrevem situações que vagamente se encaixam nos méritos de  uma  gestão  escolar  democrática,  e  demonstram  que  até  no  conceito  inicial  a  gestão  democrática  tem  se  confundido  com  diversos  outros  paradigmas,  o  que  influenciará  diretamente sobre a prática de gestão de cada um dos acadêmicos. 

Em grande parte das respostas  não se alcançam o eixo da gestão democrática – a  possibilidade  de  envolvimento  da  comunidade  escolar  em  diferentes  aspectos  com  participação  efetiva  na  elaboração  do  regimento  acadêmico,  projeto  político­  pedagógico,  calendário  escolar,  além  de  contribuições  curriculares,  metodológicas,  didáticas e administrativas. 

Se  fixam  na  preocupação  imediata  de  que  todos  possam  ser  ouvidos,  talvez  porque  essa  seja  a  necessidade  imediata  vigente,  a  grande  maioria  das  definições  de  gestão  democrática  giram  em  torno da  aceitação  da  opinião  da  comunidade  envolvida  no  processo  escolar,  no  tocante  à  propostas  para  ações,  mas  não  envolvendo  a  participação  na  hora  da  tomada  de  decisão  final,  e  não  abrangendo  a  participação  na  aplicação das práticas adotadas. 

Podemos ver isso nos textos a seguir: 

“A  gestão  democrática  se  encaixa  nessa  idéia  de  educação  emancipadora  cujos  objetivos  é  a  transmissão  de  conhecimentos  ,descentralização  d  a  transparência  nas  decisões  coletivas.” (A10) 

“A  organização  administrativa  de  a  escola  permitir  situar  o  âmbito  da  gestão  na  perspectiva  de  promover  a  democracia,  a  qualidade  do  ensino,  a  descentralização  do  poder  administrativo e o desenvolvimento humano de forma coletiva e global. Bem como permite que  cada  indivíduo  faça  uma  reflexão  de  reconstrução  conscientemente  sua  ação  por  meio  de  um  processo  coletivo  de  descentralização  e  reflexão  sobre  a  própria  experiência  e  a  dos  demais  e  tendo  autonomia  intelectual  para  analisar  criticamente  processos  e  os  conteúdos  socializadores”(A 11) 

A  descentralização  do poder é  muito  ressaltada,  contanto  no  âmbito de  que  essa  descentralização  possa  possibilitar  esse  modelo  de  participação

(9)

evidenciado.  Tomam  como  fundamento  básico  para  alcançar  esse  objetivo  a  socialização de saberes começando pela sociedade onde a escola está inserida.  Uma  preocupação que  vale  ser  ressaltada  é  a  expressão  de opiniões  que  levam  cunho  mercantilista  em  sua  essência  Textos  foram  construídos  com  base  na  busca  qualidade total para atingir a aceitação e satisfação dos pais e responsáveis, e passam a  imagem destes como a figura do cliente que “sempre tem a razão”.  E esse é um perigo  para o estabelecimento da gestão democrática na educação pública nacional, pois se os  pais  começam  a  ser  tratados  como  “o  cliente”  do  mercado,  a  sua opinião  e  satisfação  vale mais que o real resultado do processo educativo, por que toda a busca da educação  passa  a  ser  satisfazer  uma  necessidade  a  curto  prazo,  deixando  de  lado  o  resultado  a  longo prazo,  que  seria  a transformação de  toda um nação através de  uma educação de  qualidade. 

Outro ponto que é muito ressaltado dentre os textos ou parágrafos construídos a  fim de elucidar a questão, é a visão de gestão democrática como o olhar uma os pães de  uma  padaria pela  vitrine estando do lado de fora da loja. Vendo a gestão democrática  com a exigência de uma gerência com transparência e feita de forma impessoal. 

O  ponto  mais  positivo  encontrado  nos  textos  dos  26%  que  descreveram  de  maneira  geral  o  melhor  conceito  de  gestão  democrática,  e  também  a  linha  de  pensamento que procurávamos, é  a preocupação com os processos de  implantação  nas  instituições  educacionais  dos  procedimentos  que  desencadeiam  iniciativas  que  possibilitem  a  ação  que  contribua  para  a  construção  de  um  ambiente  onde  os  agentes  estejam coletivamente organizados, exercendo participação ativa  no conhecimento dos  problemas,  na  formulação  de  hipóteses  e  sugestões,  nas  tomadas  de  decisão,  na  execução das atividades propostas e na avaliação dos resultados obtidos. Para enfim, se  chegar  a  uma  democracia  de  fato  e  de  verdade,  onde  a  divisão  de  poderes  possa  ser  evidenciada  na  prática,  mesmo  em  situações  mais  diversas,  e  em  comunidades  compostas por sujeitos mais distintos. 

5 Conclusão 

As  leituras  e  estudos  realizados possibilitam  a  percepção de que,  ainda  no  discurso,  a  gestão democrática se confunde  com diferentes paradigmas de  gestão o que influencia  na pratica dos referidos gestores.

(10)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

­ABRANCHES, Mônica. Colegiado escolar : espaço de par ticipação da comunidade.  São Paulo : Cortez, 2003. Coleção Questão de Nossa Época; 102. 

­AGUIAR,  Márcia  Ângela  da  Silva.  A  r efor ma  da  educação  básica  e  as  condições  mater iais das escolas.  In: SILVA, Aída Maria Monteiro; AGUIAR, Márcia Ângela da  Silva (orgs.). Retr ato da escola no brasil. Brasília: CNTE – Confederação Nacional de  Trabalhos em Educação, 2004. p. 119­140. 

BRASIL.  Constituição  (1988).  Senado  Federal.  Constituição  da  República  Feder ativa do Br asil: texto constitucional pr omulgado em 05 de outubr o de 1988.  Brasília: Senado Federal, 2001. 

­BRASIL.  Ministério  da  Educação  e  do  Desporto.  Desenvolvimento  da  educação  no  Br asil. Brasília, 1996. 

­BRASIL.  Senado  Federal.  LDB:  Lei  de  Dir etr izes  e  Bases  da  Educação  Nacional:  Lei n. 9.394, de 1996. Brasília: Senado Federal, 1997. 

CISESKI,  Ângela  Antunes;  ROMÃO,  José  E.  Conselhos  de  escola:  coletivos  instituintes  da  escola  cidadã.  In:  GADOTTI,  Moacir;  ROMÃO,  José  E.  (orgs.).  Autonomia  da  escola:  pr incípios  e  pr opostas.  6  ed.  São  Paulo  :  Cortez  :  Instituto  Paulo Freire, 2004. – Guia da escola cidadã; v. 1. p. 65­74. 

­CURY, Carlos Roberto Jamil. Os conselhos de educação e a gestão dos sistemas. In:  ­­FERREIRA, Naura Syria Carapeto; AGUIAR, Márcia Ângela da S. (orgs.). Gestão da  educação: impasses, per spectivas e compr omisso. 4 ed. São Paulo : Cortez, 2004. p.  43­61. 

DALBEN,  Ângela  Imaculada  Loureiro  de  Freitas.  Tr abalho  escolar   e  conselho  de  classe. Campinas : Papirus, 1992.

(11)

­DOURADO, Luiz Fernandes. Gestão democr ática da escola: movimentos, tensões e  desafios. In: SILVA, Aída Maria Monteiro; AGUIAR, Márcia Ângela da Silva (orgs.).  Retr ato  da  escola  no  brasil.  Brasília:  CNTE  –  Confederação  Nacional  de  Trabalhos  em Educação, 2004. p. 65­80. 

­FERREIRA,  Naura  Syria  Carapeto.  Gestão  democr ática  da  educação:  r essignificando  conceitos  e  possibilidades.  In:  FERREIRA,  Naura  Syria  Carapeto;  AGUIAR, Márcia Ângela da S. (orgs.). Gestão da educação: impasses, per spectivas e  compr omisso. 4 ed. São Paulo : Cortez, 2004. p. 295­316. 

­GADOTTI, Moacir. Escola cidadã. 4 ed. São Paulo : Cortez, 1997. 

­GADOTTI,  Moacir;  ROMÃO,  José  E.  Escola  cidadã:  a  hora  da  sociedade.  In:  GADOTTI,  Moacir;  ROMÃO,  José  E.  (orgs.).  Autonomia  da  escola:  pr incípios  e  pr opostas.  6  ed.  São  Paulo  :  Cortez  :  Instituto  Paulo  Freire,  2004.  –  Guia  da  escola  cidadã; v. 1. p. 43­50. 

GRAMSCI,  Antônio.  Concepção  dialética  da  histór ia.  3  ed.­  trad  Carlos  Nelson  Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. 

­GUIRALDELLI  Jr.,  Paulo.  Histór ia  da  educação  brasileir a.  São  Paulo  :  Cortez,  2006. 

GUTIERREZ,  Gustavo  Luis;  CATANI,  Afrânio  Mendes.  Par ticipação  e  gestão  escolar :  conceitos  e  potencialidades.  In:  FERREIRA,  Naura  S.  Carapeto  (org.).  Gestão  democr ática  da  educação:  atuais  tendências,  novos  desafios.  São  Paulo  :  Cortez, 2003. 

­­LÜCK, Heloísa. A gestão par ticipativa na escola. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006. Série:  Caderno de gestão. 

MANACORDA,  Mário  Alighiero.O  pr incípio  educativo  em  Gr amsci;  trad  por  Willian Lagos. Porto Alegre: Artes Médicas,1990.

(12)

­OLIVEIRA,  Dalila  Andrade.  A  gestão  democr ática  da  educação  no  contexto  da  r efor ma do estado.  In: FERREIRA, Naura  Syria Carapeto; AGUIAR,  Márcia Ângela  da S. (orgs.). Gestão da educação: impasses, per spectivas e compr omisso. 4 ed. São  Paulo : Cortez, 2004. p. 191­112. 

­OLIVEIRA,  João  Ferreira  de;  FONSECA,  Marília;  TOSCHI,  Mirza  Seabra.  Educação,  gestão  e  or ganização  escolar :  concepções  e  tendências  atuais.  In:  FONSECA,  Marília;  TOSCHI,  Mirza  Seabra;  OLIVEIRA,  João  Ferreira  de  (orgs.).  Escolas  ger enciadas  :  planos  de  desenvolvimento  e  pr ojetos  político­pedagógicos  em debate. Goiânia : Ed. da UCG, 2004. p. 21­33. 

­­PARO,  Vitor  Henrique.  Gestão  democr ática  na  escola  pública.  3  ed.  São  Paulo  :  Ática, 2003. 

­SALES,  Ivandro  da  Costa.  Os  desafios  da  gestão  democr ática  da  sociedade:  em  diálogo com Gr amsci. 2 ed. Sobral­CE : Editora da UFPE, 2006. 

­VIEIRA,  Sofia  Lerche;  FREITAS,  Isabel  Maria  Sabino  de.  Política  educacional  no  Br asil: intr odução histór ica. Brasília: Plano Editora, 2003.

Referências

Documentos relacionados

Essa liderança democrática, como melhor meio de melhorar, estruturar, organizar e gerenciar a instituição de ensino vem sendo teoricamente muito bem aceita pelos gestores de visão

Em 2010, o grupo de pesquisa Formação de Professores e Educação Infantil da Faculdade de Ciências e Tecnologia – FCT/Unesp de Presidente Prudente/SP constituído por

Quanto aos aspectos positivos desta relação, TELES (1992, p.40), afirma que ―são dois humanos que crescem juntos sendo que o primeiro tem mais conhecimento

Além do que, entendemos que para esse empreendimento é vital um consenso sobre esse tema, já que a concepção de gestão é complexa na contemporaneidade, pois perpassa vários

No caso dos queijos artesanais de Minas Gerais, Brasil, o potencial de contribuição da Indicação Geográfica se torna evidente, haja vista que a produção desses queijos

Nesta perspectiva nos reportamos à experiência de estágio em gestão escolar realizado no primeiro semestre de 2010 pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) no período

Se aceitarmos que uma função primordial da escola é a socialização para o trabalho e assim o faz não apenas a maioria dos estudiosos da educação, mas também seus

modo de agir em específico para cada ação, assim terá como consequência a melhor aprendizagem de professores e alunos. Sair do plano das ideias e partir para a ação.