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Arq. Bras. Cardiol. vol.85 número1

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Academic year: 2018

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Arquivos Brasileiros de Cardiologia - Volume 8 5 , Nº 1 , Julho 2 0 0 5

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Editorial

Im pact o Econôm ico do Trat am ent o da Cardiopat ia

Isquêm ica Crônica no Brasil. O Desaf io da Incorporação

de Novas Tecnologias Cardiovasculares

Economic Impact of Chronic Ischemic Cardiopat hy Treat ment in Brazil. The Challenge of

New Cardiovascular Technology Inclusion

Denizar Vianna Araujo e M arcos Bosi Ferraz

Universidade Federal de São Paulo - São Paulo, SP

Correspondência: Denizar Vianna Araujo – Av. Visconde Albuquerque, 1 4 0 0 /5 0 1 – 2 2 4 5 0 -0 0 0 – Rio de Janeiro, RJ

E-m a il: deniza rvia nna @ cpes.org.br

As doenças cardiovasculares são as principais causas de morbi-dade e mortalimorbi-dade no Brasil, com impacto significativo no orçamento do Ministério da Saúde, principalmente na atenção da alta comple-xidade. A crescente demanda por recursos desencadeou a elaboração da Política Nacional de Atenção Cardiovascular de Alta Complexidade pela Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde.

No ano de 2 0 0 2 , ocorreram 1 .2 1 6 .3 9 4 internações decorren-tes de doenças do aparelho circulatório, representando 1 0 ,3 % do tota l da s interna ções no Sistem a Único de Sa úde (SUS). Em relação ao valor financeiro, a parcela das internações em cardio-logia clínica e cirúrgica correspondeu a 1 7 % do total, superando todos os outros grupos de especialidades isoladamente1.

Entre as doenças do aparelho circulatório, a insuficiência cardía-ca motivou 3 0 ,6 % das internações e o diagnóstico de “outras doenças isquêmicas do coração” representou 1 0 ,6 % das interna-ções. O impacto financeiro para o Sistema de Saúde é maior do que o quantificado, pois os valores computados pelo SUS como despesa não representam o custo verdadeiro com o tratamento das doenças cardiovasculares. Estudo recente sobre custo da insu-ficiência cardíaca demonstrou a defasagem entre os valores re-embolsados pelo SUS aos hospitais e o custo real da internação por essa síndrome2.

Outro componente do impacto econômico não mensurado pelos formuladores de políticas de saúde é o custo indireto representa-do por improdutividade, absenteísmo e morte prematura decorrente das doenças cardiovasculares. Estudo conduzido em hospital univer-sitário brasileiro demonstrou que 2 8 ,5 % dos pacientes em tratamen-to para insuficiência cardíaca foram aposentados precocemente por causa da síndrome2.

A alta prevalência da cardiopatia isquêmica crônica determi-na elevado consumo de recursos no tratamento e reabilitação. No ano de 2 0 0 3 , o SUS financiou a realização de 3 0 .6 6 6 angioplastias coronarianas com implante de stent e 1 9 .9 0 9 cirurgias de revas-cularização do miocárdio, totalizando aproximadamente R$ 2 8 1 milhões de gastos.

A incorporação do Bare Metal Stent (BMS) no SUS em 1 9 9 9

representou mudança significativa na forma de tratamento inter-vencionista dos pacientes com cardiopatia isquêmica. Até 1 9 9 9 , a cirurgia de revascularização do miocárdio representava a principal modalidade de tratamento intervencionista. Nos três anos subse-qüentes, o número de procedimentos de angioplastia coronariana aumentou em mais de 1 0 0 %, com redução significativa no número de cirurgias de revascularização do miocárdio no mesmo período. Os benefícios do tratamento com o stent convencional (BMS) foram importantes, porém com limitações em alguns subgrupos, principalmente pacientes diabéticos com vasos de pequeno calibre e maior extensão, em que a reestenose intra-stent é significativa nos primeiros seis meses pós-procedimento.

O desenvolvimento do Drug Eluting Stent (DES), não-disponível no SUS, proporcionou taxas significativamente menores de rees-tenose intra-stent neste subgrupo de pacientes3 ,4, porém com

au-mento no custo inicial do trataau-mento. O dilema que o SUS enfrenta é compatibilizar a restrição do orçamento com a necessidade de avaliar e incorporar novas tecnologias cardiovasculares.

Esse panorama conflitante tem despertado o interesse da comu-nidade acadêmica na busca de soluções. Necessitamos de novas áreas do conhecimento que possam nos auxiliar na difícil tarefa de tomar decisões em ambiente de escassez de recursos.

O processo de avaliação da incorporação de tecnologia em saúde surge como área do conhecimento interdisciplinar para au-xiliar nesse processo de escolha. A avaliação da incorporação de tecnologia em saúde deve contemplar o funcionamento e/ou impac-to dos produimpac-tos e serviços, programas ou políticas de saúde na promoção, manutenção e produção dos serviços de saúde.

A avaliação de uma tecnologia a ser incorporada pelo sistema de saúde, público ou privado, caracteriza-se por revisão sistemática, crítica, criteriosa da literatura disponível, considerando-se aspectos como efetividade da intervenção, análise econômica e seu potencial impacto no sistema de saúde, ou seja, sua contribuição para promo-ção, manutenção ou reabilitação da saúde. Aspectos éticos e ques-tões de eqüidade devem ser considerados no processo de avaliação. Com o rápido incremento no desenvolvimento tecnológico, especialmente na área cardiovascular, tal processo de avaliação se torna imprescindível, não somente por identificar as interven-ções de valor para o sistema de saúde, mas também pela necessi-dade do processo de escolha entre as alternativas que reconhecida-mente agregam valor ao sistema de saúde.

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Impacto Econômico do Tratamento da Cardiopatia Isquêmica Crônica no Brasil. O Desafio da Incorporação de Novas Tecnologias Cardiovasculares

Paulista de Medicina (UNIFESP) em colaboração com a Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista está ela-borando estimativa do impacto no orçamento do SUS com a in-corporação do stent farmacológico, utilizando dados do ano de 2 0 0 3 . As premissas do modelo de impacto no orçamento são: taxa de conversão do stent convencional para farmacológico; número de stents/paciente/procedimento; porcentagem de reintervenções por reestenose no stent convencional; porcentagem de reintervenções por reestenose no stent farmacológico; preços dos stents; valores de AIH (Autorização de Internação Hospitalar) remunerados pelo SUS aos hospitais para angioplastia e cirurgia de revascularização do miocárdio; preço do clopidogrel pós-procedimento. Esse modelo contém premissas principais que variam significativamente confor-m e o porcentua l hipotético de a cesso da popula çã o a o stent farmacológico, preço de aquisição do stent farmacológico e

por-centual de reintervenções evitadas nos doze meses subseqüentes. Essas variações explicam os cenários possíveis entre 1 2 ,8 % e 2 4 ,4 % (R$ 2 4 .2 7 2 .3 0 8 ,0 0 a R$ 4 4 .4 5 8 .1 6 2 ,0 0 ) de incremento no custo nos primeiros doze meses pós-procedimento para o SUS.

Agências de avaliação de tecnologia em saúde como NICE5 e

AETMIS6 estão auxiliando os financiadores dos sistemas de saúde

no Reino Unido e província de Québec no Canadá na incorporação do stent farmacológico na prática cardiológica.

A discussão sobre a incorporação de novas tecnologias no SUS é uma oportunidade para a Sociedade Brasileira de Cardiologia fomentar o desenvolvimento de métodos que auxiliem os formula-dores de políticas de saúde cardiovascular no processo de escolha entre as alternativas disponíveis, mensurando o benefício para cada unidade de custo e estimando o retorno para a sociedade na incorporação de novas modalidades diagnósticas e terapêuticas.

1. DATASUS 2 0 0 2 (www.datasus.gov.br).

2. Ara újo DV, Ta va res LR, Veríssim o R et a l. Custo da Insuficiência Ca rdía ca no Sistema Único de Saúde. Arq Bras Cardiol 2 0 0 5 ; 8 4 :4 2 2 -7 .

3. Moses JW, Leon MB, Popm a JJ et a l. Sirolim us-Eluting Stens versus Sta nda rd Stents in Patients with Stenosis in a Native Coronary Artery. N Engl J Med 2 0 0 3 ; 349:1315-23.

4. Stone GW, Cox DA, Hermiller J et al. A Polymer-Based, Paclitaxel-Eluting Stent in Patients with Coronary Artery Disease. N Engl J Med 2 0 0 4 ; 3 5 0 :2 2 1 -3 1 .

Referências

5. National Institute for Clinical Excellence (NICE). Guidance on the use of coronary artery stents. Technology Appraisal 7 1 . October 2 0 0 3 . www.nice.org.uk. 6. Agence d ’éva lua tion d es tech nologies et d es m od es d ’intervention en s a nté

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