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Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.37 número2

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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 37( 2 ) :192-193, mar-abr, 2004

Inclusão da reativação da doença de Chagas como uma

condição definidora de AIDS para fins de vigilância

epidemiológica no Brasil

Inclusion of Chagas’ disease reactivation as a condition for AIDS

case definition to epidemiological surveillance in Brazil

1 . De par tame nto de Saúde Co munitár ia da Unive r sidade Fe de r al do Ce ar á e Me mb r o do Co mitê Asse sso r de Epide mio lo gia do Pr o gr ama Nac io nal de DST/AIDS do Ministé r io da Saúde , B r asília, DF, B r asil.

En de r e ço par a cor r e spon dê n ci a: Dr. Alb e r to No vae s Ramo s J únio r. R. Pr o fe sso r Co sta Me nde s 1 6 0 8 /5 º andar, Ro do lfo Te ó filo , 6 0 4 3 0 - 1 4 0 Fo r tale za, CE. Te l: 5 5 8 5 2 8 8 - 8 0 4 4 , Fax: 5 5 8 5 2 8 8 - 8 0 5 0

e -mail: no vae s@ iis. c o m. b r

Re c e b ido par a pub lic aç ão e m 1 5 /1 /2 0 0 4 Ac e ito e m 2 5 /2 /2 0 0 4

Senho r Edito r :

Re c o nhe c e -se que par a o e stab e le c ime nto das aç õ e s de

vigilânc ia e pide mio ló gic a são ne c e ssár ias e str até gias b e m

de finidas par a a c o le ta c o ntínua e siste mátic a de dado s, b e m

c o mo par a a sua adequada análise e inter pr etaç ão . O o b j etivo pr inc ipal é a pr o nta ide ntific aç ão de e ve nto s r e lac io nado s ao

proc esso saúde-doenç a que requeiram aç ões bem definidas de

saúde públic a asso c iadas à avaliaç ão de pro gramas1.

A definiç ão de c aso em epidemiologia representa uma dessas

estratégias, possibilitando a identific aç ão de indivíduos que apr esentam um agr avo o u do enç a de inter esse de fo r ma a

padronizar c ritérios para o monitoramento das c ondiç ões de

saúde e para a desc riç ão da oc orrênc ia de uma doenç a ou agravo

sob investigaç ão. O objetivo princ ipal é tornar c omparáveis os critérios diagnósticos que regulam a entrada de casos no sistema,

tanto no nível nac ional quanto internac ional1 1.

Entretanto, o processo de definição de caso não é estático. Do

ponto de vista da vigilância epidemiológica, a definição de caso pode

se modificar ao longo do tempo devido à expansão dos conhecimentos clínicos específicos relacionados aos aspectos clínicos e de avaliação

complementar, às alterações epidemiológicas e à intenção de ampliar

ou reduzir os parâmetros de entrada de casos no sistema, aumentando

ou diminuindo sua sensibilidade e especificidade, de acordo com as etapas e as metas estabelecidas por um programa de controle1 3.

Como reflexo desse proc esso dinâmic o, a definiç ão de c aso

de síndr o m e da im uno de fic iê nc ia a dq uir ida ( AI DS) ve m

passando por diferentes modific aç ões nas últimas duas déc adas

não apenas no B rasil, mas também em outras partes do Mundo. No c aso do B rasil, a AIDS tornou-se uma doenç a de notific aç ão

c ompulsória em 2 2 de dezembro de 1 9 8 6 , por meio da Portaria

no 5 4 2 do Ministério da Saúde, juntamente com a sífilis congênita.

De sde e ntão , j á ho uve quatr o r e visõ e s par a o s c aso s de AIDS em adulto s e tr ês em c r ianç as.

Entr o u e m vigo r e m j ane ir o de 2 0 0 4 a no va de finiç ão de

c aso de AIDS em adulto s e em c rianç as. Essa no va definiç ão de

c a so fo i o r e sulta do de r e uniõ e s do Co m itê Asse sso r de

Epidemio lo gia do Pr o gr ama Nac io nal de DST/AIDS r ealizadas

e m 2 0 0 3 e que c o ntar am c o m a impo r tante par tic ipaç ão de

r e pr e se ntante s da So c ie dade B r asile ir a de Me dic ina Tr o pic al

( SB MT) , da So c ie dade B r asile ir a de Do e nç as Se xualme nte

Transmissíveis ( DST) , da So c iedade B rasileira de Infec to lo gia

( SBI) , da Soc iedade Brasileira de Pediatria ( SBP) e da Federaç ão

B r a s ile ir a da s So c ie da de s de Gin e c o lo gia e Ob s te tr íc ia

( FEB RASGO) .

De uma forma geral, espec ific amente em relaç ão à definiç ão

de c aso de AIDS e m indivíduo s c o m tr e ze ano s de idade o u

mais, os princ ipais c ritérios de definiç ão de c aso de AIDS foram revisto s, mantendo -se o Crité rio Rio de Ja ne iro /Ca ra c a s sem q ualq ue r alte r aç ão , te ndo e m vista a sua aplic ab ilidade e

validaç ão ante r io r, e intr o duzindo -se adaptaç õ e s e aj uste s na evidênc ia c línic a de imunodefic iênc ia estabelec idas no Crité rio CDC Mo difica do, que passou, dessa maneira, a ser denominado Crité rio CDC Ada pta do. Além disso , o s c ritério s exc epc io nais fo ram revisto s restando apenas o Crité rio Exce pcio na lÓb ito. Par a o s me no r e s de tr e ze ano s de idade , a simplific aç ão do s

c r itér io s r esulto u em do is c r itér io s: o Crité rio CDC Ada pta do e o Crité rio Exc e pc io na l Ób ito.

Uma das que stõ e s disc utidas de sde a se gunda r e visão da

definiç ão de c aso de AIDS em adultos de 1 9 9 2 , era a sinalizaç ão de q u e a lgu m a s do e n ç a s e n dê m ic a s n o B r a s il c o m o a

leishmanio se, a do enç a de Chagas e a par ac o c c idio ido mic o se

po de r ia m te r c o m po r ta m e nto o po r tunista e m indivíduo s

infe c tado s pe lo vír us da im uno de fic iê nc ia hum ana ( HIV)

indic ando a ne c e ssidade de ate nç ão e spe c ial do s se r viç o s de

saúde , e m te r mo s da assistê nc ia e da vigilânc ia, visando o

e stab e le c ime nto de e vidê nc ias que pe r mitisse m inc luí-las no

futur o c o mo indic ativas de AIDS4.

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Ra m o s - Júnio r AN

A atual revisão da definição de caso de AIDS em adultos cristaliza essas discussões ao avaliar como principal alteração no Critério CDC Ada pta do no c aso dos adultos a inc lusão da reativaç ão da do e n ç a de Ch a ga s , e x pr e s s a c lin ic a m e n te po r m e io de

m io c a r dite e /o u m e n in go e n c e fa lite , n a lis ta de do e n ç a s

de fi n i do r a s . Du r a n te a s r euniõ es do Co mitê Assesso r de Epidemiologia, avaliou-se a possibilidade de inclusão de outras

doenças endêmicas da realidade brasileira, como a leishmaniose

visceral, na lista de doenças definidoras. Apesar das possibilidades,

tendo em vista a maior complexidade e polimorfismo da co-infecção HIV e Le ishm a nia spp, c onc luiu-se haver a nec essidade de desenvolvimento de estudos mais aprofundados para a validação de

critérios visando o estabelecimento da leishmaniose visceral como

doença indicativa de AIDS. Além disso, discutiu-se a necessidade de avaliação de formas alternativas de vigilância, frente à elevada

prevalência das leishmanioses no Brasil.

Nesse sentido, na presente revisão, optou-se por incluir apenas

a reativação da doença de Chagas. Do ponto de vista epidemiológico,

a doença de Chagas vem se caracterizando por controle da transmissão vetorial, principalmente a estabelecida pelo Tria to m a infesta ns, ressaltando a importância de outras modalidades anteriormente

menos freqüentes, c omo a transfusional. Entretanto, existe um

grande contingente de indivíduos infectados cronicamente pelo Trypa no so m a cruzi distribuídos em grande parte do território brasileiro, havendo superposição de áreas em relação à infecção

pelo HIV.

Essa inclusão justifica-se tendo em vista os relatos cada vez mais

freqüentes na literatura com evidências clínicas e epidemiológicas da reativação dessa condição em pacientes com aids e com outras formas

de imunossupressão. Apesar de o processo de reativação da doença

de Chagas ser incomum, encontra na infecção pelo HIV em fase

avançada um espaço para expressão mais freqüente. Nessa situação, a grande maioria dos casos publicados5 7 1 0 que incluiu a avaliação da

contagem de linfócitos T CD4+ tinha esse parâmetro laboratorial

inferior a 2 0 0 células/mm3. Acrescenta-se ainda o fato da marcante

especificidade da expressão clínica da reativação da doença de Chagas por meio de quadros clínicos de meningoencefalite e miocardite

chagásicas agudas2 4 8 9.

Ressalta-se que do ponto de vista da vigilância epidemiológica,

não se espera que a inc lusão dessa c ondiç ão represente um fator

para aumento significativo da sensibilidade ou da especificidade do c ritério, apresentando um c aráter princ ipal de possibilitar uma

maior visibilidade a essa c ondiç ão espec ífic a no sistema de saúde

brasileiro. Entretanto, da mesma forma, várias condições presentes na lista original de doenç as e agravos dos Centers fo r Disea se Co n tro l a n d Pre ve n ti o n in dic a tivo s de AI DS q ue fo r a m inc orporados nas últimas déc adas não apenas aos c ritérios

brasileiros, mas também aos de outros países, não apresentaram

impacto do ponto de vista epidemiológico para a captação de casos.

A inc orporaç ão da doenç a de Chagas representa, portanto,

o amadur e c ime nto das aç õ e s de vigilânc ia fr e nte à r e alidade tipic amente b r asileir a e o estímulo à nec essár ia apr o ximaç ão

e ntr e vigilânc ia e assistê nc ia de ntr o da ár e a das do e nç as

infec c io sas e parasitárias. Deve ser enc arada ainda c o mo uma

impo r tante e str até gia tanto par a o r e c o nhe c ime nto de sua importânc ia bem c omo para o avanç o das aç ões de intervenç ão

e de c o ntr o le mais e spe c ífic as da e pide mia de infe c ç ão pe lo

HIV/AIDS no B r asil.

Alber to No vaes Ramo s Júnio r

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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