COSTA, GIZELDA MORATO. AS ORGANIZAÇÕES
NÃO-GOVERNAMENTAIS NO SISTEMA PENITENCIÁRIO DO
ESTADO DE SÃO PAULO: PROTAGONISTAS
CONSTITUTIVAS DE NOVOS MODELOS PRISIONAIS OU
REPRODUTORAS DOS MODELOS TRADICIONAIS?
São Paulo, 2006. {Dissertação de Mestrado em Serviço Social
– Pontifícia Universidade Católica de São Paulo}
INTRODUÇÃO
A violência dentro das prisões do Estado de São Paulo, por volta de 1990 se acentuava cada vez mais, em face da deterioração de vários determinantes: a falta de higiene, a precariedade dos serviços de saúde e jurídico, a corrupção entre presos e funcionários, a incompetência administrativa, a prática de torturas psicológica e física aliados à superlotação eram alguns dos indicadores da “questão social” em suas particularidades no cotidiano prisional do Estado de São Paulo.
O descaso governamental era tanto, com relação à situação dos encarcerados que isso contribuiu para que eles se fortalecessem em sua dor, em seu ódio, em sua ira e, pouco a pouco, foram se agrupando e se organizando para exigirem do Estado melhores condições de vida prisional. Esse agrupamento social também mostrou ao Estado que seus custodiados estavam mais equipados e organizados, estrategicamente, que o próprio Estado.
Essa afirmativa foi claramente demonstrada não só ao Estado, mas à sociedade brasileira no dia 18 de fevereiro do ano de 2001, quando deu início a maior rebelião já registrada historicamente no país.
A população brasileira acompanhava as imagens pela televisão do movimento de rebeldia que se espalhava pelas prisões, sendo a maior parte delas subordinadas à Secretaria de Administração Penitenciária.
O principal centro de comando da capital, denominado PCC estava na Casa de Detenção de São Paulo, que na época abrigava 7 mil homens.No chão do pátio da Casa de Detenção, as mensagens que o grupo escrevia eram transmitidas ao mundo pelas redes de TV. O espetáculo era horrível e de total descontrole do Estado em relação aos presos que mantinha sob sua custódia.
Os presos rebelados não apresentavam, naquele momento, denúncias de maus-tratos físicos e psicológicos. As exigências eram de desativação do anexo da Casa de Custódia da cidade de Taubaté, onde as regras disciplinadoras eram extremamente severas, permanecendo os presos, 23 horas por dia isolados em celas, e o retorno dos líderes do PCC à Casa de Detenção de São Paulo, os quais haviam sido removidos dias antes para o anexo de Taubaté. A prioridade para os rebelados era o retorno de suas lideranças.
Os articuladores do movimento, denominado pela imprensa de “megarebelião”, escolheram estrategicamente a data. Era dia de visitas de familiares e de amigos. O fato de terem como reféns inúmeras pessoas inocentes: adultos, idosos e crianças evitariam a ação violenta das autoridades, o que representou um desafio ao Estado para que os problemas decorrentes das rebeliões fossem resolvidos sem mais violência.
Em algumas prisões, as rebeliões foram controladas no mesmo dia e, em outras, a situação se arrastou até o dia seguinte, deixando no final, um saldo de 19 presos mortos em razão de brigas entre eles.
natureza, sugerindo a adoção de novos métodos de trabalho e estratégias inovadoras a fim de amenizar a corrupção, até então reinante, entre presos e funcionários de várias prisões e o não-cumprimento legal das normas reguladoras dos direitos e deveres das pessoas presas.
Diante da problemática exposta das prisões, a Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo, pioneira no Brasil a tratar com exclusividade do sistema prisional, tendo à frente para comandá-la o Secretário de Estado Nagashi Furukawa, percebeu que o sistema penitenciário apresentava inúmeros problemas, dos quais os principais eram os “maus-tratos físicos e psicológicos” sofridos pelos indivíduos presos.
Esse secretário havia atuado, anteriormente, como juiz de execuções criminais, e apresentava uma postura profissional voltada à humanização das prisões, por meio de métodos mais eficientes para o atendimento das necessidades sociais postas pelos indivíduos presos.
O secretário reconhecia, publicamente, que muito existia a ser feito e que métodos inovadores deveriam ser testados a fim de “humanizar as prisões”. No entanto, contraditoriamente ao seu discurso, determinou aos diretores prisionais que identificassem os líderes das organizações criminosas existentes nas prisões, a fim de puni-los com rigor “dentro da lei”.
Identificados os líderes, estes foram confinados em penitenciárias de máxima segurança.
A Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo mantém atualmente três penitenciárias desse tipo, gerando um total de 820 vagas1.
As penitenciárias onde os indivíduos foram confinados, ao contrário das demais, os presos permanecem 23 horas recolhidos em celas, sem direito a ouvir rádio ou ver TV. Somente têm acesso a leituras, essas, triadas pela administração da penitenciária. Também não têm direito à visita conjugal, conhecida como visita íntima, tampouco contato físico com os familiares. Entre os presos e as famílias há uma separação de vidro e uma tela.
Esses métodos estão sendo utilizados como um castigo severo àqueles que têm afrontado o Estado dentro das prisões.
Segundo o secretário, o castigo é severo, mas está dentro do que a Constituição Federal de 1988 permite e também tem prazo estipulado. Essa condição não pode exceder a seis meses, na primeira entrada do preso, mas se ocorrer reincidência, esse prazo passa a ser de doze meses. De acordo com ele, esse método tem desestimulado a atividade dos líderes de facções criminosas.
Entretanto, ao contrário do pensamento do secretário, o confinamento dos “líderes de facções” não tem se mostrado eficaz. A realidade prisional vem mostrando que as facções criminosas se mantêm vivas e articuladas em atividades ilícitas dentro das prisões, nas suas inúmeras ramificações.
A atuação e a postura do secretário em relação à criação desse tipo de prisão, na época da “megarebelião”, foi no mínimo paradoxal, haja vista que ao mesmo tempo em que apresentava discurso “humanizador" da pena, determinou aos diretores dessas prisões que endurecessem dentro da lei o sistema punitivo aos líderes das facções, com a ilusão de que prisões mais rígidas e severas seriam a “panacéia” para combater as lideranças negativas e os ilícitos penais promovidos por elas.
O que tem ficado patente é que o severo confinamento dos líderes de “facções” não consegue aplacar o crescimento de suas ramificações, tampouco com relação aos crimes praticados por várias facções dentro das prisões. Somente no ano de 2005 ocorreram 13 rebeliões, com 28 mortes e inúmeros funcionários reféns. As mortes foram provocadas por desavenças entre as diversas facções criminosas existentes dentro das prisões.
denominadas Centros de Ressocialização - CR, contar-se-ia também com a participação da comunidade organizada em organizações sociais, sem fins lucrativos, para prestarem serviços aos custodiados. O Estado repassaria às Organizações Não-Governamentais –Ongs os recursos públicos necessários à prestação dos serviços, delegados pelo Estado.
Nesta perspectiva foi com o empenho do secretário Nagashi Furukawa que o governador à época, Mário Covas, instituiu o Decreto nº 45.403/2000, que propiciou a utilização de termos de convênio de parcerias com entidades privadas, que primassem em sua finalidade a “reintegração social do preso”.
A maior vantagem desse convênio, segundo o secretário, é que as ONGs devem trazer como finalidade a melhoria das condições de vida do homem preso e não o lucro.
Atualmente, essa proposta de gestão administrativa prisional compartilhada, entre o Estado e a comunidade, atinge 22 Unidades Prisionais, com projeção de expansão de propostas para outras prisões de grande e médio porte em curto espaço de tempo.
A evolução das parcerias com as ONGs está embasada de acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária nos resultados atingidos pela administração mista, entre representantes do governo e da sociedade civil, que vêm minimizando a margem de gastos imediatos com a manutenção de toda a estrutura carcerária e ainda propiciando ações de caráter social, que além do intuito humanístico, traz consigo a redução de gastos mediatos, já que todas as ações das Organizações Não-Governamentais devem convergir para a não “reincidência” do indivíduo que cumpre pena nos Centros de Ressocialização.
Mas, se na prática este modelo de gestão tem apresentado aos olhos da Secretaria alguns avanços na prestação de serviços aos indivíduos presos, tem apresentado contradições que necessitam ser investigadas, por isso nosso interesse em estudar o tema.
Importante esclarecer que a escolha em realizar o presente estudo provém da vivência e dos conhecimentos acumulados durante nossa trajetória profissional no Sistema Penitenciário do Estado de São Paulo desde 1986, primeiramente na qualidade de assistente social, período de 1986 a 1989. De 1990 a 2000, como diretora de equipes interprofissionais, estas responsáveis por elaborar e executar a política de assistência social aos indivíduos presos. No período de novembro de 2000 a 2002, fomos designadas pelo atual Secretário de Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, para dirigir mediante metodologias específicas, o primeiro Centro de Ressocialização, instalado na cidade de Bragança Paulista – São Paulo. Este até hoje tem sido referência para os demais centros implantados no Estado de São Paulo.
No período de 2002 a 2004, atuamos à frente da Direção do Centro de Ressocialização da Cidade de Presidente Prudente – São Paulo e, atualmente somos gestora geral da Penitenciária Feminina do Butantã, esta localizada na cidade de São Paulo.
O desejo em realizar este estudo é um desafio, que acreditamos poder contribuir para uma leitura crítica das discussões que se tem travado acerca da inserção de Organizações Não-Governamentais no sistema penitenciário do Estado de São Paulo, seus limites e possibilidades de prestação de serviços de assistência aos indivíduos presos.
A investigação busca analisar se as ONGs inseridas nos CRs vêm prestando serviços que elevem as condições de vida e de compreensão dos indivíduos presos no sentido de sua humanidade e cidadania, para que possam retornar à sociedade como sujeitos sociais detentores de direitos e deveres.
O Estado, ao simbolicamente derrubar os muros prisionais para a sociedade transitar, conclama-a a assumir parte de sua responsabilidade nos problemas e conflitos sociais que se encontram segregados na prisão. Contudo, é fato comprovado que a maioria dos indivíduos presos, em nossas prisões, são oriundos de grupos sociais excluídos e marginalizados, por uma sociedade capitalista predatória e reprodutora de uma massa de excluídos e desesperançados, abandonados à própria sorte, por um Estado, deficitário e enfraquecido, que passa a existir precisamente para pagar juros a credores externos e manter uma iníqua ordem social.
Os filhos desta sociedade passam a viver numa sociedade injusta, onde parafraseando Eduardo Galeano, pouquíssimos vivem com sobras e muitos vivem apenas de sobras, empurrando para a marginalidade um número de cidadãos expressivos, principalmente os mais jovens 2.
Dados do Ministério da Justiça Federal indicam que mais de 50% das pessoas presas apresentam faixa etária em torno de 20 a 30 anos, são desqualificados profissionalmente e nem chegaram a concluir o ensino fundamental.
Esse é o perfil dos presos nas prisões estatais e, conseqüentemente, nos Centros de Ressocialização. Isto coloca em questão a prática do Estado com sua política pública, enquanto sistema prisional e prática tradicional, que poderá ou não estar contraposta à iniciativa da parceria Estado/ONGs.
Nesse sentido, nossa investigação levou a privilegiar questões que levassem em conta a responsabilidade das ONGs, frente às atribuições que lhe foram delegadas pelo Estado por meio do convênio de parceria realizado e, ao mesmo tempo, precisávamos saber se o Estado está preocupado em investigar se está havendo eficiência e eficácia na prestação dos serviços disponibilizados pelas ONGs, diante das demandas apresentadas pelos indivíduos presos nos CRs.
Nossa hipótese era de que os serviços que vêm sendo disponibilizados pelas ONGs não têm alcançado os objetivos propostos, no
2 Galeano, E. E.
De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso. Porto Alegre: L &PM,
sentido de garantir o atendimento com eficiência e eficácia às necessidades e aos direitos dos indivíduos presos
Perguntamos, quando começamos a refletir sobre este trabalho se o Estado estaria se omitindo em suas obrigações como Estado de direito e responsável pela garantia dos direitos de todos os presos, por igual. Isto porque, como assistente social, defendemos as políticas públicas e a responsabilidade do Estado, com relação às necessidades humanas e sociais dos indivíduos presos. Entretanto, o que se vê é a descentralização administrativa estatal e a transferência ao chamado Terceiro Setor dos serviços de assistência essenciais à promoção humana e social do indivíduo preso, e a precarização, ainda mais, dos serviços que deveriam elevar a condição humana de todos aqueles que cumprem pena nas prisões denominadas Centros de Ressocialização.
Baseadas nas considerações iniciais, e como profissional do Serviço Social em defesa de um trabalho ético, político e social sério que venha ao encontro das reais demandas dos usuários presos, não queremos nos contentar com aparências e com discursos propagados pela Secretaria de Administração Penitenciária quanto aos resultados “positivos” dos trabalhos prestados pelas ONGs nos CRs.
Como profissional pioneira na ação prática deste modelo de gestão prisional, temos clareza de que esse modelo é permeado de contradições que têm dificultado a eficiência e eficácia dos serviços prestados, contudo cremos que existem condições objetivas para superá-las, por isso o interesse em investigá-las.
Realizamos a investigação num universo constituído de três Centros de Ressocialização, dentro da totalidade de 22 CRs: um deles está situado na região oeste do Estado de São Paulo e dois estão situados na região central do Estado.
Os sujeitos investigados foram:
Três diretores gerais, por serem funcionários públicos de carreira e representantes do Estado, no modelo de gestão CR. Todos eles já vivenciaram profissionalmente prisões administradas somente pelo Estado.
Três agentes de segurança penitenciária, por serem funcionários públicos e atuarem na área de segurança e disciplina dentro dos CRs. Utilizamos também o método de escolha de agentes que já haviam atuado em prisões administradas somente pelo Estado para que eles pudessem mencionar com clareza as diferenças de método de trabalho em prisões tradicionais e as administradas em parcerias com as ONGs.
Três gerentes de execução dos serviços, estes contratados em regime de CLT pelas ONGs.
Três profissionais da área de Serviço Social, que são contratados pelas ONGs para compor a equipe que deve elaborar e executar os serviços de assistência aos presos. Estes assim como os gerentes não tinham qualquer experiência de atuação em prisões administradas pelo Estado.
Três indivíduos que cumprem pena no CR, todos em regime prisional fechado e que já vivenciaram cumprimento de pena em prisões administradas somente pelo Estado.
Para a investigação sobre a eficiência e eficácia dos CRs foi separado o grupo de sujeitos de cada categoria mencionada, em cada CR, totalizando 15 sujeitos entrevistados, mais o Secretário de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo.
Não encontramos resistências por parte dos investigados, pois o fato de já ter atuado nos CRs e ter sido pioneira na gestão do primeiro CR, somos conhecida e respeitada profissionalmente, por isso a recepção foi acolhedora por todos.
Para realizar a pesquisa, primeiramente solicitamos autorização do Secretário de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo, e mantivemos contatos por e-mails com os presidentes das ONGs e diretores dos CRs, e, após o agendamento das entrevistas, dirigimos-nos às três cidades onde estão instalados os Centros de Ressocialização.
dificuldades que enfrentam no cotidiano para a prestação dos serviços aos indivíduos presos.
No tocante às técnicas utilizadas, optamos por realizar entrevistas abertas semi-estruturadas, seguindo apenas um roteiro de questões para nortear as entrevistas que foram individuais. As questões que nortearam as entrevistas permitiram o levantamento de um conjunto de informações que possibilitaram o desenvolvimento deste trabalho.
O processo de organização e de leitura dos dados objetivando a análise foi um momento vivido com intensidade e dificuldades. Na realidade, tinhamos clareza quanto ao risco do viés de nosso olhar viciado pela prática profissional no sistema prisional e isso com certeza influenciou algumas análises desenvolvidas ao longo deste estudo, No entanto, partimos da premissa de que todo pesquisador e todo profissional impregnam suas ações por sua visão de mundo e postura profissional sóciopolítica e histórica.
Nessa perspectiva, o que se buscou foi garantir o debate e os questionamentos acerca das questões formuladas e coletadas, mantendo sempre o relato mais fiel possível, evitando-se assim uma análise interpretativa permeada de preconceitos e julgamentos, na medida em que conhecemos a realidade e a dinâmica concreta do sistema de gestão prisional CRs.
Baseadas nessas considerações iniciais apresentamos as partes que integram este estudo. O primeiro capítulo compõe-se de um estudo acerca da história constitutiva da pena privativa de liberdade, dos mecanismos contensores utilizados, desde o período da vingança privada aos dias atuais considerado o período humanitário da pena.
O segundo capítulo enfoca a constituição do sistema penitenciário do Estado de São Paulo, a diversidade dos modelos institucionais arquitetados para o atendimento das diferentes demandas apresentadas pelos indivíduos custodiados pelo Estado e a relação de parceria que o Estado vem mantendo com o chamado Terceiro Setor, na busca de estratégias que garantam a eficiência e eficácia dos serviços de assistência, estes postulados na Lei de Execução Penal – LEP, nº7.210/84.
Nesse capítulo analisamos a desresponsabilização do Estado para com os serviços de assistência aos indivíduos presos, delegando às Organizações Não-Governamentais-ONGs a prestação dos serviços previstos no art. 11 da LEP.
O eixo condutor da análise passa pela crítica no que diz respeito às atribuições delegadas pelo Estado as ONGs, pelo processo de transferência de obrigações originárias do Estado
O terceiro capítulo é dedicado à análise da visão dos sujeitos sociais pesquisados, quanto ao modelo de prisão administrado por essa parceria entre Estado e as Organizações Não-Governamentais, investigando até que ponto as ONGs conseguem dar conta da construção de “novo modelo de gestão prisional”, no que se refere ao processo de "reintegração social” do indivíduo que cumpre pena.
CAPÍTULO I
HISTÓRIA CONSTITUTIVA DA PENA DE PRIVAÇÃO DE
LIBERDADE, OS MECANISMOS CONTENSORES E SUA
EVOLUÇÃO
A pena, em seu contexto mais amplo, tem sua origem em tempos remotos, sendo tão antiga quanto o surgimento do próprio homem. Surgiu inicialmente como manifestação de simples reação natural do homem primitivo para conservação de sua espécie, sua moral, sua integridade; depois, como forma de retribuição e de intimidação, através dos meios mais cruéis e sofisticados de punição, até a atualidade, quando pretende se afirmar com uma função terapêutica e recuperadora.
Etimologicamente, a palavra pena provém do latim poena, porém, com derivação do grego poine que significa dor, castigo, punição, expiação, penitência, sofrimento, trabalho, fadiga, submissão, vingança e recompensa.
definições conceituais que confundem o direito com a moral, o crime com o pecado, a religião com o Estado, a justiça divina com a justiça dos homens.
1.1 Período da Vingança Privada
A vingança individual é apontada por muitos autores como a forma mais remota da manifestação da pena. Caracterizava-se como uma reação puramente instintiva do ofendido. A satisfação do lesado contra aquele que lhe causara um mal. Tal satisfação acabava por constituir nova ofensa que deixava de ser punida pela inexistência de uma autoridade competente.
Mais tarde, com a organização dos grupos sociais, imbuídos de um espírito de solidariedade e interesse comum na proteção da coletividade, esse tipo de pena se colocou ao lado do vingador, praticando uma vingança coletiva e singular manifestada de forma limitada, excessiva, sem nenhuma lógica.
Com o surgimento da sociedade de estrutura familiar, a pena passou a se expressar sob a forma de privação da paz social. O membro do mesmo grupo que cometia o delito era expulso da tribo, ou da comunidade da paz, sem armas nem alimentos e ninguém podia auxiliá-lo, mas persegui-lo. Seu patrimônio também era atingido. Persistia uma reação desproporcionada, sem correspondência com a ofensa, o que culminava em lutas acirradas entre grupos e tribos que aos poucos iam se debilitando, enfraquecendo, extinguindo-se.
Surge, então o período neolítico, mais exatamente na segunda idade da pedra, o talião. Este tipo de punição representou uma grande conquista no campo repressivo, pois a reação era proporcional à ação, ou seja, a pena imposta era estabelecida conforme o crime cometido. Da vingança, até então limitada, passou-se para a vingança limitada e a pena punia o mal com o mal, a retribuição era de igual para igual, impondo ao delinqüente o mesmo dano ou mal por ele causado, segundo a imposição do famoso primeiro talião:
braço, a conseqüência era a invalidez de dois homens, enfraquecendo-se o grupo frente aos inimigos externos.
A lei de talião era bem mais racional do que as outras formas de vingança punitiva, mas ainda não era reconhecida propriamente como um gênero da pena, porém sua importância lhe é devida por ser a primeira fórmula de justiça penal.
Com o decorrer dos tempos e a evolução dos povos surgiu uma forma moderada de penas, a composição.3 Este era o preço pelo qual o ofensor comprava a impunidade do ofendido, ou de seus parentes, com dinheiro, armas, ou utensílios e gado, não havendo, portanto, sofrimento físico e pessoal, mas uma reparação proporcionalmente correspondente. O sentimento e a vingança impulsionavam a justiça e determinavam que esta fosse realizada. Assim como o talião, o sistema de composição não é considerado, ainda, um verdadeiro gênero da pena.
A composição, que foi largamente aceita na sua época, constituem um dos antecedentes da moderna reparação do direito civil e das penas pecuniárias do direito penal.
O período da vingança privada era chamado de sentimental, porque era o sentimento que provocava e demandava a justiça. Assim, imbuídas sempre de um espírito de vingança, suas diversas maneiras de punir representavam uma retribuição à reparação da ordem e da paz coletiva. Estes diferentes tipos de punição foram praticados pelos povos antigos, alcançando até o direito romano.
1.2 Período da Vingança Divina
Esse período pelo qual passou a pena era comandado pela religião. As normas de condutas impostas aos indivíduos, quase sempre, eram inspiradas em preceitos oriundos, supostamente dos deuses. A reação passa a ter caráter religioso, em conexão com o sistema do talião e o da composição. O direito aparece envolvido por princípios religiosos: a religião
3 CUELLO,Calon.
era o próprio direito, imbuído de espíritos místicos. O delito era uma ofensa à divindade que, uma vez ofendida, atingia a sociedade inteira. Para se aplicar pena, levava-se em conta o status social do delinqüente. Cominavam-se penas mais leves, principalmente pecuniárias, aos nobres, enquanto aqueles que pertenciam às classes mais baixas da sociedade eram submetidos a penas corporais por não possuírem condições econômicas para arcar com as multas aplicadas.
Ainda, o poder dos reis e imperadores tinha caráter divino e as leis penais encontravam-se introduzidas e misturadas nos livros sagrados. As sanções se justificavam pela necessidade de obediência absoluta ao poder constituído vindo de Deus. Os sacerdotes, por delegação divina, é que deviam aplicar o castigo e prestar contas com o Senhor, no dia do Juízo Final.
O poder da Igreja era absoluto. Sua doutrina, dogmas e hierarquia deviam ser respeitados pelos próprios imperadores, que estavam submetidos ao rationes peccati, sujeitos à excomunhão; os condes, os barões e demais senhores deviam jurar respeito às autoridades eclesiásticas e ajudar à Igreja para poder comungar.
As autoridades políticas governavam no plano temporal com a ajuda da Igreja. Os bispos, ao lado dos reis, faziam com que o povo seguisse os seus passos em defesa dos inimigos do império. O poder real era constituído pelo sacerdócio. O papa era quase a divindade e exercia seu poder, tanto temporal como espiritual. O Estado era a Igreja.3
O delito era considerado ofensa aos deuses, confundindo-se com o pecado. O castigo era temporal e espiritual. Aplicava-se para que o ofensor alcançasse a bem-aventurança. Através do castigo, a alma do delinqüente tornava-se pura. A quitação do dízimo era uma espécie de perdão judicial, absolvia o acusado em nome de Deus e do Estado. A aplicação dos castigos e o sistema punitivo da Igreja eram cruéis e infamantes, predominando entre as sanções: a pena de morte, as penas corporais com mutilações de partes do corpo, marcando e ferindo os ex-condenados de maneira a marginalizar e estigmatizar eternamente.
A aplicação das penas era manipulada pelo direito canônico. A classe alta tinha suas penas corporais substituídas por pecuniárias, conseguindo clemências por suas faltas mediante pagamento em dinheiro. Prevalecia uma desigualdade na aplicação da pena.
Para melhor entender o direito penal oriental e seu caráter religioso, torna-se importante o estudo dos Códigos de Hamurábi e de Mani, bem como as Leis Mosaicas, explícitas a seguir.4
Nesse período a pena era ainda dominada por total sentimento de vingança, mas agora se tratava de uma vingança divina. Por exemplo, no direito era tido como uma revelação dos deuses. Matar animais sagrados constituía crime dos mais graves e os atentados contra os faraós eram delitos de lesa-divindade, aos quais se aplicavam terríveis penas.
Os Cinco Livros, chamados Livros Sagrados, continham as leis penais, vigorando também o talião: à espiã, cortava-se a língua; à adultera, o nariz; ao estuprador, os órgãos genitais; os falsos escribas tinham as mãos cortadas. Além do enforcamento e da decapitação, adotavam a fogueira, o suplício das cinzas e a colocação na cruz, aos tidos como bruxos. A todos esses sofrimentos alguns acessórios extras eram exigidos ou pela natureza do crime ou pela opinião pública.5
Na Assíria, os apenados eram jogados aos animais ferozes ou em fornalhas ardentes, eram queimados a fogo lento num tacho de bronze ou lhe arrancavam os olhos. Os criminosos eram lapidados, crucificados, tinham as costas queimadas, eram amassados sob os pés de animais, jogados aos rochedos, fechados, pendurados, mutilados e deportados.6
Na Babilônia, por volta do ano 2250 a.C. surge o Código de Hamurabi, atribuídos, ao Deus Sol. Possuía poucas normas de caráter religioso, a vingança era praticamente desconhecida, acolhia o instituto do talião e da composição impondo penas extremamente cruéis e tiranas. 7
4
DONNICI, Virgílio Luiz. A Criminologia na Administração da justiça Criminal. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1976.p.9.
5 OLIVEIRA, Odete Maria de. Prisão um Paradoxo Social. Florianópolis: Editora da UFSC, Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, 1984, p. 7 - 8.
6 OLIVEIRA, Odete Maria de. Prisão um paradoxo social. Florianoplois: Editora da UFSC, Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, 1984, p. 9 –10.
As punições na Pérsia eram tidas como as mais cruéis da época. Inicialmente, baseavam-se na vingança e eram reguladas pelo talião. Depois, em uma segunda fase, acreditava-se serem inspiradas pelo Deus Ahura-Nazda; os reis passaram a representar a vontade divina e os delitos eram considerados ofensas contra a deidade. Os soberanos impunham penas crudelíssimas aos crimes: lapidação, esquartejamento, decapitação, cegueira, aleijamento, crucificação, marca a fogo, empalação, veneno, apedrejamento, enterro do corpo até o pescoço, esmagamento da cabeça entre duas pedras, assamento em brasa, enforcamento de cabeça para baixo - escafismo - era uma pena típica dos persas, ou seja, suplício dos botes, criada por Mitríades, que segundo a História teria sido vítima da pena que ele próprio inventou.8 Em Israel a pena possuía em caráter religioso mais acentuado. As normas penais incorporavam-se na legislação de Moisés, séc. XVI a.C, principalmente nos primeiros livros da Bíblia; Êxodo, Levítico e Deuteronômio.
A pena tinha como objetivo combater a ira da divindade, a expiação e a exemplaridade. Na lei mosaica imperava o talião, a composição só era proibida para os casos de morte, as flagelações eram aplicadas a um grande número de delitos, fixadas no máximo em 40 golpes. A pena capital não estava isenta de crueldade. Praticava-se a lapidação, o fogo, a decapitação e o estrangulamento. A mutilação só figura uma vez no Pentateuco.9
Na Índia, era o Código de Manu, que regulava o direito punitivo. Este código, de caráter religioso, desconhecia o talião e a composição, pretendia a purificação do criminoso mediante penas cruéis e exemplares: cortavam o dedo de ladrão, o pé e a mão ao reincidente, a língua a quem insultasse um regenerador, queimavam o adúltero em cama ardente, entregavam a adúltera aos cachorros. 10
Na Grécia inicialmente vigorou a vingança privada, alcançando não só o culpado, mas também a sua família. Com o surgimento do Estado, as penas eram executadas em nome das divindades, cujas leis eram sancionadas pelos deuses e encontravam-se misturadas nos códigos dos templos. Do séc. VIII a primeira metade do séc. IX a.C., em Esparta,
8 7 OLIVEIRA, op. cit. p. 9 – 10. 9 8 OLIVEIRA, op. cit, p. 10. 10 OLIVEIRA, Odete Maria de.
Prisão um paradoxo social. Florianópolis: Editora UFSC,
se a legislação de LICURGO. Em Atenas, no séc. VII a.C., através da legislação de Dracon, constituiu-se uma pena única, a pena de morte para todos os delitos, não interessando a gravidade. No séc. VI a.C., com SOLON, a legislação tornou-se mais humana. Com freqüência, usavam a chibata, multa, anulação dos direitos de cidadania, confisco, ferro em brasa e exílio. A traição e o sacrifício eram punidos com a pena de morte, podendo ser evitada por um exílio voluntário. Ainda na Grécia manifestavam-se os filósofos Platão e Aristóteles. Platão não era a favor da pena-vingança, a pena deveria ser imbuída de um propósito utilitário, de reforma ou de cura, semelhante aos medicamentos. A pena tinha o sentido corretivo, pois o vício e o crime eram considerados como enfermidade da alma. Aristóteles entendia que o mal e o crime eram produtos do querer livre e racional do homem; e a pena deveria surgir como retribuição do mal pelo mal. 11
O direito romano também foi influenciado pela vingança privada e divina. Os crimes capitais eram numerosos, normalmente a morte era envolvida por agravante ou tortura acessória. Entretanto, com o Império, o poder governamental tendeu a tornar-se absoluto e, conseqüentemente a lei penal se agravou, foram instituídas penas mais severas. Aos patrícios era dada a morte por decapitação simples, aos plebeus aplicavam-se meios degradantes e cruéis e aos escravos a crucificação. Crudelíssima era a punição dada à infanticida: era atirada na água, costurada dentro de um saco de couro onde eram previamente colocados um macaco, um galo, um cachorro e uma serpente.
Em síntese, esse é o panorama da pena durante o período em que predominava a modalidade de vingança divina, quase sempre auxiliada pelo talião e a composição. Entretanto, à medida que evoluímos na civilização, os crimes contra a pessoa e seu patrimônio superam as formas religiosas de criminalidade e sua penalidade vai enfraquecendo. A criminalidade religiosa vai perdendo cada vez mais sua misticidade, mesmo que supostamente emanada de um poder supremo, e vai sendo aos poucos assimilada para tornar-se uma simples realidade.
11 DONNICI, Virgílio Luiz.
A criminologia na administração da justiça criminal. 2. ed. Rio de
1.3 Período da Vingança Pública
Novos conceitos de valores com relação à penalidade foram surgindo com a evolução das civilizações, possibilitando a delimitação definitiva dos campos do direito e da religião. Não era mais possível aceitar as leis como simples costumes sagrados, reveladas e sancionadas pelos deuses, misturadas com os regulamentos litúrgicos, nos antigos códigos dos templos.
O Estado assume a parte principal da execução da sanção penal e, em defesa do soberano, passa a aplicar as penas para cuidar da segurança dos governantes. O Estado assume o poder-dever de manter a ordem e a segurança social, chamando para si o exercício da pena, tirando essa titularidade da mão do ofendido e da vítima ou de sua família. Para a garantia da paz social, qualquer conduta suspeita era arbitrariamente considerada delituosa. Castigos desumanos caracterizavam o absolutismo monárquico, e ainda confundiam-se crime com pecado e direito com religião. Ideologicamente a Igreja ainda continuava presente como instrumento de direção governamental.
A composição, modalidade de pena que no período da vingança privada era uma faculdade para compensar ou reparar o delito, passa a ser obrigatória, ou seja, torna-se um dever jurídico, e a pena, nesse período, perde seu fundamento religioso para assumir uma função eminentemente política. Tanto as autoridades julgadoras como as que legislavam eram subordinadas ao titular maior da administração do governo. Os príncipes, monarcas ou também denominados soberanos dirigiam os assuntos criminais de acordo com seus próprios interesses.
em Roma a primeira e grande expressão do direito penal romano, a Lei das XII Tábuas, possuindo 32 preceitos penais. 12
No ano 200 a.C inicia-se um período em que as punições são mais brandas, os delitos privados são punidos com penas pecuniárias, e a pena de morte deixa de ser a dominante. A pena torna-se definitivamente pública, com o advento da Leges Juliae de César e de Augusto, que criou o Ordo Judicorum Publicorum, segundo os quais para cada delito era cominada uma pena fixada em lei poena legitima. Os romanos passaram também a fazer uma distinção sistemática entre crime publico e privado. A partir do séc. II, os tribunais especiais conduziram e julgaram os processos com inteira liberdade e o mais desumano rigor. 13
Na Idade Média, os crimes religiosos ocorriam com freqüência e os capitais não eram tão numerosos. Na tentativa de evitar a pena de morte a Igreja punia o clero através da segregação, que possibilitava o arrependimento. Os monges rebeldes ou infratores eram recolhidos em penitenciários, ou seja, em celas numa ala dos mosteiros onde, mediante o recolhimento e a oração pretendia-se que se reconciliassem com Deus.14 A internação em mosteiros e reclusão em celas deu origem à pena privativa da liberdade e ao uso da expressão celular.
A Idade Moderna foi caracterizada pelo apogeu da repressão. Segundo Jesuan de Paula Xavier foram acolhidos pela Europa, do século XIII ao século XVIII, os seguintes tipos de penas: morte pelo azeite fervendo, forca, espada, execução em efígie, cegamento, marca com ferro em brasa, dilacerações dos membros até a morte, mutilações, açoites, ferretes, trabalhos forçados em minas, pedreiras ou outros serviços públicos, censura, multa, confisco, retratação publica, peregrinação e banimento.15
A execução da pena era acompanhada por cerimônia destinada a impressionar o povo. O condenado era submetido a um prolongado ritual de terror. O público assistia ao espetáculo em que predominava o requinte e a sofisticação dos suplícios. Por isto é que os suplícios se prolongam ainda
12 OLIVEIRA, Odete Maria de.
Prisão um paradoxo social. Florianoplois: Editora da UFSC;
Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, 1984, p. 16. 13 OLIVEIRA, op. cit. P. 16.
14 LEAL, César Barros.
Prisão: crepúsculo de uma era. Belo Horizonte: Del Rey, 1998.
15 OLIVEIRA, Odete Maria de.
Prisão um paradoxo social. Florianópolis: Editora da UFSC;
depois da morte: cadáveres queimados, cinzas jogadas ao vento, corpos arrastados na grade, expostos à beira das estradas. 16 O dia do supliciamento transcorria em clima de festa. O povo aplaudia e aclamava. Não só participava ativamente da execução, como libertava o condenado e, às vezes, o perseguia até a morte.
Com o passar do tempo autoridades perceberam que esses espetáculos eram inúteis, não mais serviram à função exemplar de castigar, a pena não podia mais objetivar uma vingança pública. Percebeu-se a necessidade de adotar uma outra forma de punir. Foi quando teve início um novo período na história da pena, o período humanitário.
1.4 Surgimento das Prisões Como Mecanismos Contensores
Os povos primitivos desconheceram totalmente a privação de liberdade estritamente considerada como sanção penal. A finalidade da prisão era ser tanto um lugar de custódia para impedir que o culpado pudesse furtar-se ao castigo, ou o devedor ao pagamento de suas dividas, como um lugar de tortura. Recorriam, durante esse longo período histórico, à pena de morte como medida suprema, pura e simples, e para os crimes reputados graves e atrozes apenavam-se os culpados com suplícios adicionais, de efeitos amedrontadores. “A prisão foi sempre uma situação de grande perigo, um incremento ao desamparo e, na verdade, uma antecipação da extinção física”.17
Eram utilizados nessa época como prisões, por não haver uma estrutura arquitetônica penitenciária definida, calabouços, construções em ruínas, como castelos, torres, conventos abandonados e até poço d’água.18
Estas formas de prisão não constituíam penas propriamente ditas, nem eram ligadas a crimes definidos.
16 FOUCAULT, Michel.
Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Tradução de Lígia M.P.
Vassallo. Petrópolis: Vozes, 1977, p.35. 17 BITENCOURT, Cezar Roberto.
Falência da pena de prisão: causas alternativas. 2. Ed.
Na Grécia e em Roma existia a prisão por dívidas, da qual o devedor só se livrava quando, por si ou por outro, saldasse a dívida. Existia, também, a prisão dos escravos na casa de seu dono, em lugar determinado para isso. A tarefa de castigar os escravos, quando necessário, era delegada pelos juizes ao pater famílias, que podia determinar sua reclusão temporária ou perpétua.
Durante muitos séculos, a prisão serviu de depósito do réu que esperava a sua execução. Assim a pena de prisão, como sanção autônima e principal forma de punição, percorreu ainda um longo caminho antes de se fixar definitivamente.
Durante a Idade Média a pena privativa de liberdade se restringe também ao caráter custodial, aplicável àqueles que seriam “submetidos aos mais terríveis tormentos exigidos por um povo ávido de distrações bárbaras e sangrentas. A amputação de braços, pernas, olhos, língua, mutilações diversas, queima de carne e fogo, e a morte, em suas mais variadas formas, constituem o espetáculo favorito das multidões desse período histórico”.19 Também nesse período as medidas repressivas estavam a cargo e arbítrio dos governantes, impostas em função do status social do réu. 20
Surgem, ainda, na Idade Média, a prisão de Estado e a prisão eclesiástica. A primeira apresenta duas modalidades: prisão-custódia, onde o réu esperava a verdadeira pena aplicada, ou detenção onde ficava detido por um determinado tempo ou perpetuamente, ou ainda até receber o perdão. A prisão eclesiástica por sua vez era destinada a sacerdotes e religiosos infratores das normas eclesiásticas, o interno era submetido à penitência e a meditação em uma ala dos mosteiros, para que se arrependesse do mal causado e obtivesse a sua própria emenda.21
A igreja instaura com a prisão canônica o sistema da solidão e do silencio. A sua reforma tem profunda raízes espirituais. A prisão eclesiástica é para os clérigos e se inspira nos princípios da moral católica: o resgate do pecado pela dor, o
19 GUZMAN, Luis Garido.
Manual de ciencia penitenciária. Valência: Universidad de
Valência, 1976, p.77.
20 BITENCOURT, Cezar Roberto. Falencia da pena: causas e alternativas. 2 ed. São Paulo: Saraiva, 2001, p .9.
remorso pela má ação, o arrependimento da alma manchado pela culpa. Todos esses fins de reintegração moral se alcançam com a solidão, a meditação e a prece. 22
Para se adequar à política do uso da fogueira, a Igreja constituiu os chamados Penitenciários: “que eram, em geral, subterrâneos com celas individuais, escuras, imundas e metafísicas, porque, segundo os inquisidores, só assim elas seriam propícias à ascese, à penitência, à expiação, à purgação. Havia uma dependência para os suplícios que eram progressivos, desde os mais brandos até os mais violentos e, desde que o suplicado não se arrependesse e não se convertesse, seria lançado na fogueira”. 23
Os pecadores lá aguardavam até virem a ser queimados. O direito canônico contribuiu sobremaneira com o surgimento do isolamento celular, o arrependimento e a correção de delinqüente, bem como com outras idéias voltadas à procura da reabilitação do recluso.24
Nos séculos XVI e XVII, com a crescente pobreza na Europa, que acarretou um grande aumento na delinqüência, onde pessoas subsistiam de esmolas, roubos e de assassinatos, torna-se impossível a aplicação da pena capital a tanta gente:
Os distúrbios religiosos, as longas guerras, as destruidoras expedições militares do séc. XVII, a devastação do país, a extensão dos núcleos urbanos e a crise das formas feudais de vida e da economia agrícola haviam ocasionado um enorme aumento da criminalidade em fins do século XVII e início do século XVIII. Acrescente-se a isso a supressão dos conventos, o aniquilamento dos grêmios e o endividamento do Estado. Tinha se perdido a segurança, o mundo espiritualmente fechado aos incrédulos, hereges e rebeldes tinha ficado para trás. Tinha que se enfrentarem verdadeiros exércitos de vagabundos e mendigos. Pode-se estabelecer a sua procedência: nasciam nas aldeias incendiadas e nas cidades saqueadas, outros eram vitimas de suas crenças,
22 FUNES, Mariano Ruiz.
A Crise nas prisões. São Paulo: Saraiva, 1953, p.153.
23 FARIA JUNIOR, João.
Manual de Criminologia. Curitiba: Juruá, 1993, p.288.
vítimas atiradas nos caminhos da Europa. Era preciso defender-se desse perigo social, mas não era possível negar-lhe simpatia por razões sociais e religiosas, diante dos danos que os exércitos estrangeiros tinham feitos. 25
Surgiu na segunda metade do século XVI um movimento de grandes transformações das penas privativas de liberdade, de criação e construção de prisões organizadas. Em Londres surgem as casas de correção, que eram destinadas a internar vagabundos, mendigos, prostitutas e jovens entregues a uma vida desonesta, os quais estavam sujeitos a um regime de trabalho obrigatório. Essas casas se espalham por toda a Inglaterra a partir do século XVII, quando atingiram o seu apogeu. Assinala Prins, “que as primeiras casas desta classe se estabeleceram em Londres (1550), Nuremberg (1558), Amsterdam (1595), para homens, (1597) para mulheres”.26 Mas uma das mais duras e cruéis modalidades de pena de prisão, surgida no séc. XVI foi a pena de galés, uma espécie de prisão flutuante, onde os condenados a penas graves e prisioneiros de guerras eram acorrentados a um barco e ficavam, sob ameaça de um chicote, obrigados a remar. Em 1697, surge em Bristol, Inglaterra, a primeira workhouse (casa de trabalho) que tinha como finalidade a reforma dos delinqüentes por meio do trabalho e da rígida disciplina. Em 1667, é fundada em Florença, pelo sacerdote Filippo Franci, o famoso Hospício der San Felipo Néri, destinado à reforma de criança errantes e jovens rebeldes e descaminhados. Nessa instituição, o interno era desconhecido para seus companheiros de reclusão, por causa de um capuz que cobria a cabeça nos atos coletivos. Esse tipo de regime celular seria posteriormente incorporado pelo regime celular do século XIX.27
Em 1656, foi construída na França a primeira instituição para vagabundos e mendigos, influenciada pela obra intitulada Reflexiones sur lês prisons dês ordres religieux, do monge francês Jean Mobillon.27 A obra era um relatório que criticava a falta de higiene, o tratamento desrespeitoso aos
25
HANS, Von Hentig. apud BITENCOURT, Cezar Roberto. 2000, p.15. 26 FUNES, Mariano Ruiz.
A crise nas prisões. São Paulo: Saraiva, 1953. p. 155.
27 BITENCOURT, Cezar Roberto
. A falência da pena de prisão: causas alternativas. 2. ed.
Saõ Paulo: Saraiva, 2001, p.19. 27 MIOTTO, Armida Bergamini.
Temas Penitenciários. São Paulo: Revista dos Tribunais,
acusados, a não manutenção do sigilo da confissão, a ociosidade absoluta, além de oferecer orientações para o desenvolvimento de políticas penitenciárias.
Em 1703, em Roma, o papa Clemente XI fundou a Casa de Correção de São Miguel. Além de jovens delinqüentes, tal instituição abrigava menores de vinte e um anos que se mostravam teimosos e discordavam da disciplina paterna. O ensino religioso era a base de afirmação dessa instituição, os presos trabalhavam juntos em silêncio e, à noite, isolavam-se em suas celas. Essa instituição serviu de modelo para um grande número de prisões criadas, principalmente na Itália, e influenciou o que atualmente se qualifica de tratamento institucional do delinqüente. 28
A prisão, em sua origem, não foi criada somente com o propósito de encarcerar criminosos. A privação da liberdade, como espécie de pena institucionalizada pelo direito penal, apareceu somente há duzentos e poucos anos no século XVII (no apogeu da Revolução Industrial), para garantir a segurança do funcionamento do mercado de trabalho, da produção, do consumo de bens e proteger a propriedade das classes poderosas.
Como pena privativa de liberdade propriamente, a prisão tem suas origens relacionadas à época em que se necessitou de mão de obra para realizar os trabalhos de produção e manufatura (mercantilismo, séc XVI-XVII), e para as expedições de galeras em viagens de exploração e colonizações de terras novas descobertas. Tudo isso associado ao fato de que a pena de morte não tinha contido o aumento da delinqüência nem havia garantido a segurança da classe dominante.
As prisões eram geralmente subterrâneas, insalubres, infectas e repelentes. Não obedeciam a nenhum princípio de política penal humanitária. Tais estabelecimentos eram verdadeiras masmorras do desespero e da fome, onde condenados eram jogados e abandonados, sofrendo cruéis torturas.
Os detidos são amontoados confusamente numa promiscuidade intolerável, achando-se submetidos ao regime mais duro, sofrem penas disciplinares corporais e são obrigados a trabalhos penosos. Só recebem alimentação mínima (pão e água)... A falta de ar, alimentos e de cuidados
28 LUZ, Orlandy Teixeira.
higiênicos mais elementares é tal que as febres infecciosas se propagam no interior das prisões, dizimam os reclusos e se transmitem para fora, produzindo verdadeiros danos à população livre. 29
1.5 Período Humanitário da Pena
Em meados do século XVIII, as leis em vigor inspiravam-se em idéias e procedimentos de excessiva crueldade, predominando os castigos corporais e a pena capital. Reinava o arbítrio judiciário impregnado de sensíveis nuanças políticas dirigidas à proteção de classes privilegiadas, em detrimento das demais que sofriam toda sorte de perseguição. É diante deste cenário que surge, então, em toda a parte, uns movimentos de filósofos, juristas, magistrados, legisladores, parlamentares e técnicos do direito, propondo a reforma do sistema punitivo, com a moderação das punições, sua proporcionalidade com o crime.
Esse movimento iluminista e humanitário, representado, entre outros, por Voltaire, Montesquieu e Rousseau, atingiu seu apogeu com a Revolução Francesa, influenciando uma série de pessoas com o mesmo sentimento, entre elas, o grande expoente, Cesare Bonesana, Marques di Beccaria, autor da obra Dei Delitti e Delle Pen, cujos princípios renovaram e abrandaram o sistema penal, despertando a consciência pública contra as vergonhosas atrocidades do suplício. Essa obra converteu-se na síntese da reação liberal e humanitária ao desumano panorama penal então vigente.
A obra de Beccaria, que retratava a terrível situação da administração da justiça criminal, em que reinava um direito penal arbitrário, cruel e desumano, causou uma reação contra a obscuridade das leis, contra o arbítrio judicial, contra a tortura nos interrogatórios e julgamentos. Segundo ele, as penas não poderiam passar dos imperativos da salvação pública. Dizia que “o critério para medir a responsabilidade penal do agente não é a sua intenção, nem a gravidade de sua falta, mas sim o dano que resultar para a sociedade de seu crime”. Preconizava uma curta duração dos processos, a certeza da pena e sua mitigação. A abolição de suplícios, torturas, atrocidades e também a abolição da pena de morte. Suas idéias eram contratuais e
utilitárias. A pena deveria afastar os indivíduos do propósito de cometer delitos.
Um dos maiores freios não é a crueldade das penas, mas sua infalibilidade e, como conseqüência, a vigilância dos magistrados e a severidade de um juiz inexorável que, para ser uma virtude útil deve ser acompanhada de uma legislação branda. A certeza de um castigo moderado sempre causará mais intensa impressão do que o temor de outro mais severo, unido à esperança da impunidade, pois, os males, mesmo os menores quando certos, sempre surpreendem os espíritos humanos, enquanto a esperança, dom celestial que freqüentemente tudo supre entre nós, afasta a idéia de males piores, principalmente quando a impunidade, outorgada muitas vezes pela avareza e pela fraqueza, fortalece-lhe a força 30.
Charles de Secondat, o Barão de Montesquieu (1755), lutava por uma reforma do direito penal vigente e pela independência do Poder Judiciário, através da separação dos poderes do Estado. Voltaires (1768), pregava a renovação dos costumes judiciais por uma nova prática nos tribunais. Rousseau (1778) clamava pelos fundamentos da liberdade política e da igualdade entre os cidadãos, conforme sua teoria contratualista; a pena serve para vingar o dano causado à coletividade.
Os reformadores não pretendiam apenas minimizar as penas com o desaparecimento dos castigos aflitivos e infamantes, mas atacavam a corrupção que dominava a Justiça, que se apresentava lacunosa, irregular e contraditória, com superabundância de instâncias que a denegriam e a centralizavam ao superpoder monárquico. A reforma intentava pleitear não só nova teoria à justiça da pena, mas também que a mesma fosse melhor distribuídas, que não ficasse à mercê do soberano ou que favorecesse aos privilegiados e que fosse exercida de forma justa e universal.
30 BECCARIA, Cesare.
Dos delitos e das penas. Tradução J. Cretella Jr. E Agnes Cretella.
“Um poder de julgar sobre o qual não pesasse o exercício imediato da soberania do príncipe; que fosse diferente da pretensão de legislar; que não tivesse ligação com relações de propriedade; e que tendo apenas as funções de julgar, exerceria plenamente este poder... que o poder de julgar não dependesse mais de privilégios múltiplos, descontínuos, contraditórios da soberania...” 31
Foi com o inglês Jonh Howard (1726-1790), pensador do século da razão e considerado o pai da Ciência Penitenciária, com seu livro The State of Prisionis in England and Wales, publicado em 1777, que se registrou, em seu país, um movimento revolucionário a favor da “humanização” das regras disciplinares de detenção penal e o regime prisional da época. Nasceu em Hackney (Inglaterra), onde foi o principal representante de um movimento de reforma nas prisões, entre os anos 70 e 80, quando foi nomeado para o cargo de alcaide do condado de Bedford. Visitou grande número de prisões européias, vendo de perto a difícil vida dos encarcerados, com quem teve estreitos contatos, arriscando sua saúde, expondo-se ao contágio das enfermidades carcerárias, que, finalmente causaram sua morte. Em relatos escritos em seu livro, compara as condições carcerárias da Inglaterra e da França e elabora algumas regras básicas para um sistema celular mais justo e humano. Para ele a eficácia da pena, que devia ser emendativa, dependia de fatores, tais como: higiene – ventilação, limpeza do edifício, higiene corporal e sanitária, boa alimentação; disciplina – funcionários bem recrutados e controlados por magistrados, separações dos presos por tipo de delitos, uniformes para facilitar o asseio e dificultar a fuga; economia – manutenção da prisão pelo Estado, trabalho para os presos, devendo ser por eles executados os serviços internos, gerais, da prisão; assistência religiosa – importância do capelão, leituras morais e exortações religiosas dotadas de sanções (penalidades e recompensas).32 Em suma, propõe idéias penais que fundamentam um movimento chamado Penitenciarismo.
31 FOUCAULT, Michel.
Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Tradução de Lígia. M. P.
Vassalo. Petrópolis: Vozes, 1977, p.75.
Ele idealizava a “humanização” das prisões, não admitindo que o sofrimento desumano fosse conseqüência implícita e inexorável da pena privativa de liberdade. Propugnava um sistema penitenciário baseado no recolhimento celular, visando à reflexão e ao arrependimento; a religião como meio mais adequado para instruir e moralizar; trabalho diário como meio reabilitador; com as necessárias condições de alimentação e higiene. Impressionado pelo estado em que se encontravam as prisões que visitou no seu país, tanto no que se refere às condições de salubridade e moralidade como no que respeita ao tratamento dispensado aos presos, decidiu empreender viagens com o propósito de conhecer a situação dos cárceres em outros países. De volta à sua pátria reeditou sua obra, influenciado por tudo que tinha visto e com o acréscimo dos novos dados recolhidos.
Em 1779, Howard conseguiu que fosse aprovada pelo parlamento Inglês uma lei que estabelecia e ordenava a imediata construção de casas penitenciárias, lei que impunha o sistema celular individual e o aproveitamento de mão-de-obra de todos os internados.33
O esforço de Howard não foi inútil. Depois de sua morte, suas idéias lograram continuidade por intermédio do criminalista e filosofo, seu conterrâneo, Jeremias Bentham (1748-1832), que apresentou um modelo de estabelecimento prisional de forma diferente, conhecido como panótico.
O panótico era um tipo de prisão celular, caracterizada pela forma radial, em que uma só pessoa podia exercer em qualquer momento, de um posto de observação, a vigilância dos interiores das celas. O projeto de Bentham baseava-se no principio da segregação absoluta (individual) e da inspeção, pela qual poucos homens faziam a vigilância de todos os reclusos.
Ao descrever o panótico, Bentham diz que é:
uma casa de Penitência. Segundo o plano que lhes proponho, deveria ser um edifício circular, ou melhor, dizendo, dois edifícios encaixados um no outro. Os quartos dos presos formariam o edifício da circunferência com seis andares, e podemos imaginar esses quartos com umas
pequenas celas abertas pela parte interna, porque uma grade de ferro bastante larga os deixa inteiramente à vista. Uma galeria em cada andar serve para a comunicação e cada pequena cela tem uma porta que se abre para a galeria. Uma torre ocupa o centro, que é o lugar dos inspetores: mas a torre não esta dividida em mais do que três andares, porque está disposta de forma que cada um domine plenamente dois andares de celas. A torre de inspeção está também rodeada de uma galeria coberta com uma gelosia transparente que permite ao inspetor registrar todas as celas sem ser visto. Com uma simples olhada vê um terço dos presos e movimentando-se em pequeno espaço pode ver a todos em um minuto. Embora ausente a sensação de sua presença é tão eficaz como se estivesse presente. ...Todo o edifício é como uma colméia, cujas pequenas cavidades podem ser vistas todas de um ponto central. O inspetor invisível reina como um espírito.34
Segundo a descrição de Foucault:
O panótico de Bentham é a figura arquitetural dessa composição. O princípio é conhecido: na periferia uma construção em anel: no centro uma torre; esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior correspondente às janelas da torre, outra que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário, um escolar. Pelo efeito da contraluz, pode-se perceber da torre, recortando-se exatamente pela claridade, as pequenas silhuetas cativas nas celas da periferia. Tantas janelas, tantos pequenos teatros, em que cada ator está sozinho, perfeitamente individualizado e constantemente visível. O dispositivo
panótico organiza unidades espaciais que permitem ver reconhecer imediatamente. Em suma, o princípio da masmorra é invertido; ou antes, de suas três funções: - trancar, privar de luz e esconder – só se conserva a primeira e suprimem-se as outras duas. A plena luz e o olhar de um vigia captam melhor que a sombra, que finalmente protegia. A visibilidade é uma armadilha. 35
Os progressos práticos dos movimentos desses grandes reformadores começaram somente a surtir efeito com o Código Penal francês, de 1810, que suprimiu todas as formas de mutilações, diminuindo o número de crimes capitais, sendo propiciados aos juizes os meios de atenuarem as penas. 36
Segundo Foucault, a transformação da pena foi gradativa: “Desaparece, destarte, em princípios do século XIX, o grande espetáculo da punição física: o corpo supliciado é escamoteado; exclui-se do castigo a encenação da dor. Penetramos na época da sobriedade punitiva. Podemos considerar o desaparecimento dos suplícios, como um objetivo mais ou menos alcançado, no período compreendido entre 1830 e 1848. Claro, tal afirmação em termos globais deve ser bem entendida. Primeiro, as transformações não se fazem em conjunto e nem de acordo com um único processo. Houve atrasos. Paradoxalmente, a Inglaterra foi um dos paises mais reacionários ao cancelamento dos suplícios: talvez por causa da função do modelo que a instituição do júri, o processo publico e o respeito ao habeas corpus haviam dado à sua justiça criminal”. 37
1.6 Teoria da Pena
a. Teoria Absoluta ou Retributiva
35 FOUCAULT, Michel.
Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Lígia M. P.
Vassalo. Petrópolis: Vozes, 1977, p. 18 - 19.
36 OLIVEIRA, Odete Maria de. Prisão um paradoxo social. Florianópolis: Editora da UFSC; Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, 1984, p. .27.
37 FOUCAULT, Michel.
Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Lígia M. P.
A primeira teoria da pena de prisão é definida como absoluta e tem por finalidade a retribuição do crime, sem nenhum caráter de recuperação ou de tratamento do apenado. Mesmo que a pena alcance outro objetivo – como o de punir com justiça o infrator, de afastar outros membros da sociedade da idéia de delinqüir e de servir também para a emenda do infrator – isso não é importante. O importante é pagar o mal com outro mal.
A pena tem uma finalidade absoluta de realização da justiça. É a concepção da Escola Clássica do direito. Delito como violação da ordem legal e sanção para estabelecer e impor a paz social violada.
Segundo Cuello Calon, “a pena é sempre retribuição. Não importa que, ainda sem pretender consegui-lo, produza efeitos que afastem do delito os membros da coletividade, pelo medo ao mal que contém”.37
Essa teoria contra o fundamento da pena e sua justificativa exclusivamente na própria natureza da sanção, não lhe buscando outro sentido, pois ela considerada é justa em si mesma. O castigo decorre do delito. A sanção penal é unicamente a conseqüência jurídica do delito e, também, seu fim é a expiação do crime cometido.
Entre os defensores das teses absolutistas ou retribucionistas da pena, destacaram-se os dois mais expressivos pensadores do idealismo alemão: Kant, cujas idéias partem de uma fundamentação de ordem ética (a pena existe para restabelecer ou realizar a justiça), e Hegel, que formula suas idéias com um fundamento de ordem jurídica (a pena existe como afirmação do direito).
b. Teorias Relativas ou Utilitárias
Segundo essas teorias, a pena possui um fim útil, que é a prevenção do delito. A pena deve ser aplicada por ser útil e necessária à segurança da sociedade e à defesa social. Sanção como utilidade social. O delito deixa de ser fundamento da pena e passa a ser seu pressuposto. Não se castiga porque delinqüiu, mas para que não volte a delinqüir.
37 CALON, E.ugênio Cuello.
La Moderna Penalogia, Barcelona: Editora Bosch; 1958,
Diferente das teorias absolutas, essas teorias buscam na pena um fim socialmente útil. A pena se justifica por sua eficácia, levando-se em consideração seus resultados prováveis e seus efeitos político-sociais e utilitários.
As teorias da prevenção geral, cujos destinatários são a comunidade em geral e o infrator em potencial, têm como finalidade evitar delitos futuros. As teorias da prevenção especial, orientada ao infrator determinado, têm como finalidade corrigir conseqüências danosas do ato perpetrado.
Ainda as teorias da prevenção geral podem ser divididas em negativas e positivas. A primeira baseia-se na clássica teoria da coação psicológica formulada por Feuerbach, que prega o efeito dissuasório ou intimidativo do castigo penal em relação ao infrator em potencial. A da prevenção geral positiva vê na pena a atualização da vigência e a confirmação das normas e dos valores do ordenamento jurídico; acredita que a norma penal pode motivar as pessoas a agirem conforme o direito, na medida em que depositam confiança no funcionamento do sistema penal.
A prevenção especial, derivada de Von Liszt, atua sobre o criminoso pela intimidação de sua personalidade evitando que ele cometa novos delitos. Há, ainda, as teorias da prevenção especial positiva – que confia que a pena pode servir de instrumento útil para evitar que o infrator volte a delinqüir – e também da prevenção especial negativa – que preconiza que esta finalidade se obtenha com a neutralização e intimidação do infrator.
c. Teoria mista
Essas teorias funcionam como meio termo entra as teorias da retribuição e da prevenção, conciliando de um lado o caráter retributivo da pena, acrescentando-lhe de outro, um fim político e útil e a necessidade de garantir o bem e os interesses da sociedade. Para elas, a pena tem duas razões: a retribuição manifestada através do castigo; e a prevenção, como instrumento de defesa da sociedade. Pune-se porque delinqüiu e para que não volte a delinqüir.
Para Fausto Costa, citado por Gilberto Ferreira a pena pode ser:
seja, repressão quanto à sua natureza objetiva, sofrimento quanto á sua natureza subjetiva, prevenção quanto ao seu fim principal. Em realidade, a pena hoje só se justifica, se tiver por objetivo evitar o cometimento de novos crimes, ressocializando o criminoso. O punir por punir em obediência cega a um dogmatismo ético não tem mais sentido O castigar porque errou, o retribuir o mal pelo mal, num disfarçado talião moderno, não passa de sentimento inato de vingança que ainda se esconde na parte mais recôndita da entranha dos homens.38
2 - A Evolução das Penas
A história do direito penal brasileiro surge no período colonial, com as Ordenações do Reino. A partir do descobrimento do Brasil, em 1500, o direito penal nacional passou a reger-se pela legislação lusitana, quando vigoravam em Portugal as ordenações Afonsinas publicadas em 1446, sob o reinado de D. Afonso V, que aparecem divididas em cinco livros. O legislador não teve em vista tanto os fins da pena, e a sua proporção com o delito, como conter os homens por meio do terror e do sangue. Continua a desigualdade entre nobres e plebeus e a pena de morte é amplamente aplicada. Não obstante, o quê representou em relação ao seu tempo notável progresso, pois constituiu o primeiro código completo a surgir na Europa. Em 1505, D, Manoel I mandou rever tal legislação, promulgando definitivamente em 1521 o conjunto de leis que ficou conhecido como Ordenações Manoelinas. Continua o sistema das Ordenações anteriores, com o acréscimo de novos provimentos surgidos desde então, determinados, sobretudo pelo grande desenvolvimento comercial. Este acabou provocando o aparecimento de numerosas leis, reunidas numa Compilação, em 1569, feita por Duarte Nunes de Leão por determinação do rei D. Sebastião, também conhecida como Código de D. Sebastião. Passando Portugal ao domínio da Espanha, em 1580, determinou D. Felipe I a reforma da legislação vigente, afinal promulgada por Felipe II, em 1603. São as Ordenações Filipinas que se baseiam nas anteriores. Essa legislação vigorou quando Portugal readquiriu a independência em 1640,
38 FERREIRA, Gilberto.
Prisões, presos e agentes de segurança penitenciária. São Paulo:
foram revalidadas por lei de D. João IV, em 1643, e vigeram por dois séculos. A essência das Ordenações era a de infundir o temor pelo castigo (característica própria do direito penal repressivo da idade Média). Por exemplo: a aplicação da pena de morte em suas mais variadas espécies; morte cruel (morte lenta por suplício); morte atroz (esquartejamento e queima de cadáver até convertê-lo em cinzas) e morte simples (por enforcamento ou degolamento, sem ritual). O crime era confundido com o pecado, sendo os hereges, os feiticeiros e benzedores apenados severamente. A legislação real brasileira só veio a lume com o Código Criminal de 1830.
2.1 Legislação Brasileira
a. Código Criminal do Império
Com a Independência e, sobretudo, com a Constituição Imperial outorgada em 25 de março de 1824, acolhendo princípios sobre direitos e liberdades individuais, impunha-se a substituição da arcaica legislação do Reino. A Constituição determinava a imperiosa necessidade de elaboração de um Código Criminal, fundado nas sólidas bases da justiça e da equidade. Portanto, não haveria em caso de alguma confiscação de bens, nem a infâmia do réu se transmitirá aos parentes em qualquer grau que seja, além de determinar que “desde já ficam abolidos os acoites, a tortura, a marca de ferro quente, e todo e qualquer tipo de penas cruéis”. 39
O imperador D. Pedro I, em 16 de dezembro de 1830, sancionou o Código Criminal do Império, o primeiro Código Autônomo Latino-americano, de índole liberal, com influências do Código penal francês de 1810 e do Napolitano de 1819. Este ordenamento contava com um esboço de individualização da pena e com a previsão de circunstâncias atenuantes e agravantes. Fundou-se o novo texto nas idéias de Bentham, Beccaria e Mello Freire.
39 Constituição Imperial de 1824, art. 179, n 18, 19, 20. in: FRAGOSO, Heleno Cláudio.
A pena de morte continuava existindo como sanção penal. Não havia diferenciação entre os presos processados e definitivos. O Código de 1830 não estabelecia nenhum regime diferenciado de tratamento em relação à pena privativa de liberdade, ou seja, quanto ao princípio da periculosidade e da individualização da pena. O Código Criminal do Império estabelecia entre as suas sanções: as de exílio, desterro e degredo.
O Código criminal do Império, por sua clareza, precisão e apuro técnico exerceu particular influência na legislação espanhola.
2.2 Período republicano
a. Código Penal da República
Com o advento da república e a instalação de novo sistema político no Brasil surgiram novas tendências no campo do Direito penal. Vários movimentos sociais estabeleceram a necessidade de alteração da legislação vigente.
Por decreto de 11 de outubro de 1890, foi aprovado o Código penal da República, que recebeu duras críticas devido a rapidez com que foi elaborado. Apresentava muitas falhas e lacunas, sendo considerado o pior Código Penal da história do Brasil. Contudo, deu-se um grande avanço de caráter humanitário, sendo abolida a pena de morte e criou-se o regime penitenciário de caráter correcional. Foram construídas inúmeras prisões nas grandes cidades do país.
O Código Penal da república foi elaborado antes do advento da primeira Constituição Federal republicana (1891), sem considerar os notáveis avanços doutrinários que então já se faziam sentir, em conseqüência do movimento positivista, foi objeto daquelas severas críticas que muito contribuíram para abalar o seu prestígio e dificultar sua aplicação. Inúmeros foram os estudos objetivando sua substituição.