UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
ESCOLA DE ENGENHARIA DE LORENA
MARRYELLE STEFANI FLORIDO
DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS PARA O TRABALHO SOCIAL EM ALUNOS DE ENGENHARIA: UM ESTUDO EXPLORATÓRIO
LORENA
2018
MARRYELLE STEFANI FLORIDO
DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS PARA O TRABALHO SOCIAL EM ALUNOS DE ENGENHARIA: UM ESTUDO EXPLORATÓRIO
Trabalho de conclusão de curso apresentado à Escola de Engenharia de Lorena da Universidade de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de engenheira química.
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio Carvalho Pereira
Versão original
Lorena
2018
Ficha catalográfica elaborada pelo Sistema Automatizado da Escola de Engenharia de Lorena,
com os dados fornecidos pelo(a) autor(a)
Florido, Marryelle Stefani
Desenvolvimento de competências para o trabalho social em alunos de engenharia: um estudo
exploratório / Marryelle Stefani Florido; orientador Marco Antonio Carvalho Pereira. - Lorena, 2018.
55 p.
Monografia apresentada como requisito parcial para a conclusão de Graduação do Curso de Engenharia Química - Escola de Engenharia de Lorena da
Universidade de São Paulo. 2018
1. Competências. 2. Trabalho social. 3.
Estudantes de engenharia. I. Título. II. Pereira, Marco Antonio Carvalho, orient.
RESUMO
FLORIDO, Marryelle Stefani. DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS PARA O TRABALHO SOCIAL EM ALUNOS DE ENGENHARIA: UM ESTUDO EXPLORATÓRIO. 2018. 55 p. Monografia (Trabalho de conclusão de curso em Engenharia Química) – Escola de Engenharia de Lorena, Universidade de São Paulo, Lorena, 2018.
Problemas sociais como educação, saúde, moradia e segurança estão entre os maiores desafios do Brasil, e o investimento público nessas áreas é insuficiente, tamanha são as carências sociais do país. Por isso, iniciativas são necessárias para auxiliar o combate a esses problemas a partir de cidadãos conscientes socialmente.
E isso inclui futuros engenheiros. Este trabalho propõe um estudo sobre o desenvolvimento de competências para o trabalho social em alunos de engenharia, particularmente, nos alunos da Escola de Engenharia de Lorena (EEL). Para tal, um estudo de caso foi realizado. Inicialmente, foi elaborado um constructo para o termo
“compe tências par a o trabalho social” a partir de sólida revisão bibliográfica. Em seguida, após coleta de dados junto a líderes e ex-líderes de entidades sociais, oito competências relacionados com o trabalho social, do ponto de vista prático, foram levantadas: Comunicação, Empatia, Liderança, Trabalho em equipe, Planejamento, Resiliência, Autoconhecimento e Criatividade. Um questionário contendo duas partes foi desenvolvido a fim de avaliar o grau de desenvolvimento destas competências: (i) - a partir das aulas teóricas e experimentais; e (ii) - a partir da participação em entidades estudantis. Este questionário foi respondido por 172 alunos. Três grupos de controle foram analisados: a) alunos que participam/participaram de entidades sociais; b) alunos que participam/participaram de entidades cujo foco não é o trabalho social; e c) alunos que nunca participaram de nenhuma entidade estudantil. A análise ocorreu por meio de testes de hipóteses.
Obteve-se como principal resultado que o desenvolvimento dessas competências ocorre em maior intensidade por meio da participação em entidades estudantis quando comparado com as aulas teóricas e práticas.
Palavras chaves: Competências. Trabalho social. Estudantes de engenharia.
ABSTRACT
FLORIDO, Marryelle Stefani. COMPETENCE DEVELOPMENT FOR SOCIAL WORK IN ENGINEERING STUDENTS: A EXPLORATORY STUDY. 2018. 55 p.
Monography (Trabalho de conclusão de curso em Engenharia Química) – School of Engineering of Lorena, University of São Paulo, Lorena, 2018.
Social problems such as education, housing and safety are some of the most significant challenges of Brazil, and the governmental investments on these areas are insufficient to combat such social needs. That is why projects are necessary to help combat these problems by raising awareness among citizens. That includes future engineers. This monograph work proposes a study of the development of competence for social work in engineer students, particularly, in students of Lorena's Engineer School. For that, a case study was made. Initially, it was elaborated a construct for the word "competences for social work" from literature review. Then, after collecting data from leaders and ex leaders of social organizations, eight competences related to social work, from the practice point of view, were pointed:
Communication, Empathy, Leadership, Team work, Planning, Resilience, Self- knowledge and Creativity. A quiz with two parts was developed in order to evaluate the development rate of these competences: (i) from theoretical and experimental classes of graduation; and (ii) from the participation in university organizations. This quiz was answered by 172 students. Three control groups were analyzed: a) students who participate/participated of social organizations; b) students who participate/participated of organizations which the focus is not the social work; c) students that have never participated in any university organization. The analyses were made by hypotheses test. The main result was that the development of these competences occurs with higher intensity by participation of university organizations when compared to the theoretical and experimental classes of graduation.
Key words: Competences. Social work. Engineering students.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Competências Requeridas para o Progresso Social ... 17
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Ações Mobilizadoras para o Trabalho Social ... 28
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Análise das competências ... 30
Tabela 2 – Média aritmética em relação as práticas educacionais (Parte A – Questionário) 35 Tabela 3 - Média aritmética em relação a participação em entidades (Parte B – Questionário) ... 35
Tabela 4 – Teste t pareado para alunos de ES ... 38
Tabela 5 – Teste t pareado para alunos de ENS ... 38
Tabela 6 - Valor-p para teste t de comparação de duas amostras, par a par ... 40
Tabela 7 Valor-p: Comparação entre alunos de ES e ENS ... 41
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ... 9
1.1. Contextualização ... 9
1.2. Objetivo Geral ... 10
1.3. Objetivos Específicos ... 10
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 11
2.1. Os Desafios Sociais do Brasil ... 11
2.2. Terceiro setor ... 12
2.3. A formação de engenheiros ... 13
2.4. Competências ... 15
3. METODOLOGIA ... 18
3.1. A Escola de Engenharia de Lorena ... 18
3.2. As entidades estudantis na EEL ... 18
3.3. Método de pesquisa ... 19
3.4. Construção do Constructo: Competências para o trabalho social ... 20
3.5. Coleta de dados ... 20
3.6. Análise de dados ... 22
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO ... 23
4.1. Constructo “competências para o trabalho social” ... 23
4.2. Competências do dia-a-dia do trabalho social ... 27
4.3. Resultados do questionário ... 34
4.3.1 Práticas educacionais versus Participação em entidades ... 36
4.3.2 Práticas educacionais: Comparação entre os grupos de controle ... 39
4.3.3 Participação em entidades estudantis: Comparação entre os grupos de controle ... 40
4.4. Aprendizados, Desafios e Sugestões para Futuros Estudos ... 42
5. CONCLUSÃO ... 43
APÊNDICES ... 49
Apêndice A – Ações Mobilizadoras para o Trabalho Social ... 49
Apêndice B – Pré-questionário ... 52
Apêndice C – Questionário Final ... 54
1. INTRODUÇÃO 1.1. Contextualização
A desigualdade social está presente em todo o mundo, entretanto no Brasil a situação é alarmante, pois segundo o Relatório Global de Desenvolvimento Humano de 2016 do PNUD, o Brasil ocupa a 10ª posição no ranking da desigualdade medida pelo índice de Gini (0,515)
1(PNUD, 2016). E segundo este mesmo relatório do PNUD, o IDH
2do Brasil é 0,754, valor que o deixa em 79º lugar no ranking mundial de desenvolvimento (PNUD, 2016).
No Brasil, 3,8% do PIB são destinados à saúde, e 5,9% são destinados à educação (PNUD, 2016). Todos esses indicadores mostram que o Brasil não é um país pobre e tampouco com baixo desenvolvimento, porém a distribuição de renda, a distribuição de uma educação de qualidade e a distribuição de investimento na saúde são feitas de maneira desigual e mantendo privilégios.
Segundo Rousseau (2011) há dois tipos de desigualdade: a natural ou física, que foi estabelecida pela natureza, como diferença de idade, força corporal; e a desigualdade moral ou política, descrita por ele como:
O que depende de uma espécie de convenção e foi estabelecida, ou ao menos autorizada, pelo consentimento dos homens. Consiste esta nos diferentes privilégios desfrutados por alguns em prejuízo dos demais, como o de serem mais ricos, mais respeitados, mais poderosos que estes, ou mesmo mais obedecidos (ROUSSEAU, 2011).
Para enfrentar esses problemas sociais, pessoas qualificadas que tenham formação e competências são essenciais para atuar de forma digna e profissional na solução desses problemas. Pessoas preparadas, conscientes e treinadas tornam viável e assertiva a solução. O desenvolvimento de competências para o trabalho social então se mostra importante para o êxito de tais pessoas, e isso pode ser feito em todos os setores da sociedade incluindo escolas de engenharia, deixando a formação de engenheiro mais humanitária.
1
O índice GINI é expresso como um valor entre 0 e 1. Quanto mais próximo um país estiver de 1 maior a desigualdade no país. Ele é calculado a partir de vários fatores relacionados com diversos problemas sociais como educação, saúde, violência, habitação.
2
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi criado como um contraponto ao indicador do
Produto Interno Bruto (PIB) e é formado a partir de índices de educação, renda e saúde.
Algumas iniciativas universitárias conseguem trazer o desenvolvimento dessas competências para o trabalho social através de observações e vivências em grupos ou comunidades distantes da realidade desses alunos.
1.2. Objetivo Geral
Apurar o grau de desenvolvimento de competências para o trabalho social em alunos graduandos em engenharia.
1.3. Objetivos Específicos
Os seguintes objetivos específicos foram necessários para contribuir com o objetivo geral do trabalho:
Construir um constructo para “ competências para o trabalho social ” .
Identificar as principais competências, do ponto de vista prático, para atuar em atividades de trabalho social.
Analisar competências, do ponto de vista prático, necessárias para o trabalho social a partir da visão de líderes de entidades estudantis que atuam diretamente nessa área na EEL;
Comparar o desenvolvimento de competências para o trabalho social a
partir de aulas teóricas e experimentais do curso de engenharia em
comparação com a participação em entidades estudantis;
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1. Os Desafios Sociais do Brasil
Os maiores problemas sociais do Brasil são justamente as áreas básicas de saúde, educação e segurança. Segundo a Constituição Federal, título II, capítulo II, artigo 6°:
São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição (SENADO FEDERAL, 2017).
O investimento federal nas áreas da educação e da saúde são 5,9% do PIB investido em educação e 3,8% do PIB investido em saúde (PNUD, 2016), mas também existem investimentos em iniciativas e projetos não governamentais que visam contribuir com essas áreas.
A BBC Brasil divulgou entrevista com jovens brasileiros premiados nos EUA por soluções para problemas sociais, dentre os cinco projetos dos jovens entrevistados estavam presentes os temas educação e moradia (BBC BRASIL, 2016).
O PNUD mobilizou empresas e instituições filantrópicas do Brasil para desenvolverem projetos que cumpram quatro Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)
3: n°4 – educação de qualidade, n°10 – redução das desigualdades, n°16 – paz, justiça e instituições eficazes, n°17 – parcerias e meios de implementação (ONUBR, 2018).
Apesar de a educação estar entre os maiores problemas sociais uma reportagem do Jornal Estadão diz que a educação é exatamente a solução para os problemas sociais. Em menos de 30 anos a Coreia do Sul se tornou um dos países mais desenvolvidos tecnologicamente porque priorizou a educação como política de Estado (JUNIOR, 2017).
3
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)
–São 17 objetivos propostos pela ONU com o
objetivo de mobilizar o mundo para ações contra a pobreza, proteção do planeta e garantir paz e
prosperidade a todos. Os ODS trabalham para melhorar a qualidade de vida, de forma
sustentável, para a atual e futuras gerações. Eles incluem temas como inovação, desigualdade
econômica, consumo sustentável, entre outros.
Portanto apesar dos enormes problemas sociais vividos no Brasil, é conhecida a resposta para a mudança e existem diversas iniciativas que tomam essa frente, tudo o que precisam são pessoas capacitadas para desenvolvê-las.
2.2. Terceiro setor
Terceiro setor é composto por organizações da sociedade civil que se diferenciam das organizações do Estado (primeiro setor) e do Mercado (segundo setor). A presença dessas organizações no Brasil ocorre de diversas formas e objetivos.
Dentre diferentes conceitos de terceiro setor encontrados na literatura, Salamon (1997), pesquisando organizações desse segmento, levantou algumas características comuns entre elas e as usou para definir organizações do terceiro setor. As características são:
Não governamentais;
Não visam à distribuição de lucros;
Auto gerenciáveis;
Alto nível de voluntariado.
Para Alves (2002), o terceiro setor é composto pelas mais diversas entidades, tais como: organizações não governamentais (ONG), de economia social, setor voluntário, setor independente, filantropia ou setor filantrópico e setor de caridade. Além desses termos, “organizações da sociedade civil” também vem sendo usado. Porém o termo mais adequado a ser usado é “terceiro setor”.
Segundo estudo de Szazi (2000), existem dois tipos de organizações que
compõem o terceiro setor: associações e fundações. As associações são
definidas por ele como a “união de ideias e esforços de pessoas em torno de um
propósito que não tenha finalidade l ucrativa”. Elas possuem patrimônio porém não
distribuem dividendo entre os sócios e, sim, investem em atividades
socioculturais. As fundações são definidas pelo autor como “patrimônio destinado
a servir, sem intuito de lucro, a uma causa de interesse público determinada, que
adquire personificação jurídica por iniciativa de seu instituidor”. Elas podem ser de direito público ou privado e distribui seus bens para fins sociais.
De acordo com a legislação brasileira, as organizações do terceiro setor tem vantagens fiscais, como isenção e imunidade. As entidades filantrópicas e sem fins lucrativos são isentas de impostos de acordo com o Artigo 150 da legislação (SENADO FEDERAL, 2017).
As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos no Brasil (FASFIL) cresceram 10,6% entre 2006 e 2010, segundo estudo do IBGE (IBGE, 2010). Essa crescente mostra que o terceiro setor tem espaço no Brasil e que pode ser utilizado para o desenvolvimento de soluções práticas para problemas reais.
2.3. A formação de engenheiros
As competências e habilidades a serem desenvolvidas em cursos de engenharia no Brasil de acordo com a Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação estão estabelecidas nas Diretrizes Gerais para Cursos de Engenharia no Brasil:
I - Aplicar conhecimentos matemáticos, científicos, tecnológicos e instrumentais à engenharia;
II - Projetar e conduzir experimentos e interpretar resultados;
III - Conceber, projetar e analisar sistemas, produtos e processos;
IV - Planejar, supervisionar, elaborar e coordenar projetos e serviços de engenharia;
V - Identificar, formular e resolver problemas de engenharia;
VI - Desenvolver e/ou utilizar novas ferramentas e técnicas;
VII - Supervisionar a operação e a manutenção de sistemas;
VIII - Avaliar criticamente a operação e a manutenção de sistemas;
IX - Comunicar-se eficientemente nas formas escrita, oral e gráfica;
X - Atuar em equipes multidisciplinares;
XI - Compreender e aplicar a ética e responsabilidade profissionais;
XII - Avaliar o impacto das atividades da engenharia no contexto social e ambiental;
XIII - Avaliar a viabilidade econômica de projetos de engenharia;
XIV - Assumir a postura de permanente busca de atualização profissional (BRASIL, 2002).
As competências e habilidades “ IX ” a “ XII ” são as que estão relacionadas
com aspectos humanos da formação de um profissional de engenharia e, que de
certa forma, parecem ter uma relação direta ou indireta com o tema desse
trabalho: competências para o trabalho social.
Apesar destas competências e habilidades estarem nas diretrizes para cursos de engenharia no Brasil, muitas universidades não oferecem atividades que estimulam e/ou desenvolvam tais características.
Pesquisa feita pelo Institute of the Future, levantou seis direcionadores globais que moldarão o panorama de habilidades e competências do futuro. Esse estudo - Future of Work Skills 2020 – (IFTF, 2011) mostra dez principais competências necessárias para o trabalho futuro: “ sense-making ” (capacidade de determinar o significado mais profundo do que está sendo expresso), inteligência social, pensamento inovador e adaptativo, pensamento computacional, alfabetização em novas mídias, transdisciplinaridade, mentalidade de design,
“gerenciamento de carga cognitiva”, colaboração virtual e competência transcultural.
Uma pesquisa feita pelo World Economic Forum aponta que até 2020, 35%
das habilidades mais demandadas para a maioria das ocupações deve mudar. A pesquisa é chamada The Future of Jobs (2016) mostra que fatores sócio econômicos, geopolíticos e demográficos terão impacto direto no mundo do trabalho principalmente na reciclagem de competências e habilidades que serão demandadas. Algumas das mais importantes são: habilidades cognitivas (como criatividade e raciocínio matemático), habilidades sistêmicas, resolução de problemas complexos, habilidades sociais (como persuasão, inteligência emocional e capacidade de ensinar), técnicas de gestão de pessoas e habilidades processuais (como escuta ativa e pensamento crítico).
A partir desses estudos pode-se perceber que o profissional do futuro, incluindo engenheiros, precisará desenvolver competências além das estabelecidas nas Diretrizes Gerais para Cursos de Engenharia no Brasil.
A Associação Brasileira de Educação em Engenharia (ABENGE) encaminhou ao Governo Federal uma proposta visando atualizar as diretrizes nacionais para a formação de Engenheiros, proposta esta que é fruto de toda uma discussão ocorrida com a participação da sociedade civil e o Conselho Nacional de Indústrias (CNI).
Nesta proposta de novas Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação
de engenheiros, destaca-se a formação por competências, pois segundo a
ABENGE “ o mais importante não é apenas saber (conteúdo), mas saber fazer com atitudes e comportamentos éticos”. E a partir dessas novas diretrizes procura-se “prover o profissional com a capacidade de juntar as pontas, de conectar pessoas, de realizar resultados, de transitar neste processo que parte de pessoas e termina em pessoas” (ABENGE, 2018).
2.4. Competências
O termo competências é muito utilizado neste trabalho então faz-se necessário definir competência com base na literatura. Tal termo é identificado na literatura acadêmica como um conjunto de Competências, Habilidades e Atitudes, conhecido como a sigla CHA (DURAND, 1998). E na gestão empresarial esse termo é empregado como um conjunto de atributos que levam ao alto desempenho de determinadas tarefas realizadas pelos colaboradores (FLEURY;
FLEURY; 2001).
Reinbold e Breillot (1993) diferenciam a palavra “competência” de
“desempenho”, que por muito tempo foram usados como sinônimos. Segundo os autores “a competência é o processo que produz o desempenho”, sendo a competência responsável por gerar uma resposta de acordo com o contexto e produzir o desempenho individual.
Há seis décadas, White (1959) já destacava que a definição de competência estava ligada com a capacidade de interagir com seu ambiente, e que poderia ser considerada como sinônimo de “capacidade, eficiência, proficiência, destreza”. Portanto, para este autor, a competência tem o poder de mudar o ambiente para favorecer a interação.
Para Bergamini (2012) o sentido de competência aparece quando alguém
supera uma situação mais difícil do que as que são propostas rotineiramente, e é
ainda mais indispensável quando se pretende atingir metas de vida. A autora
ainda destaca que competência é intuitivamente percebida e que pessoas
competentes são usadas de parâmetros nas avaliações de desempenho no meio
organizacional. Mussak (2010) afirma que as fortes competências de uma pessoa
constroem o diferencial competitivo das organizações e ainda salienta que o
grande protagonista da história são as pessoas, pois não são as organizações que têm competências, são as pessoas que as detêm.
Reinbold e Breillot (1993) descrevem pessoas que enfrentam situações imprevistas e adaptam seus comportamentos para obter os resultados desejáveis e assim evoluem seu saber como caracterização do que chamam de competência prática eficaz.
A busca por ser alguém mais eficaz a cada dia e a superação de desafios cada vez maiores, são os grandes motivadores para o desenvolvimento de competências nas pessoas e podem ser classificadas de inúmeras maneiras com inúmeras aplicações. Uma classificação usada por Bergamini (2012) são as competências individuais que tem como objetivo resolver desafios que assegurem uma vida de bem-estar e conforto de cada indivíduo. Sob um pensamento mais grupal, Dutrénit (1997) define que competência social tem como objetivo integrar as pessoas na vida social atingindo suas contribuições e retribuições para o convívio.
Para Le Bortef (1994), a flexibilidade, a responsabilidade e a formação geral estão compreendidas na competência. Esses três parâmetros são o que permitem a adaptabilidade das competências frente às mudanças e transformações das rotinas de trabalho. Segundo o autor, este é o motivo pelo qual há um grande interesse pelo desenvolvimento de competências genéricas, que podem ser aplicadas e adaptadas às situações e mudanças sociais.
Le Boterf (1994) estabelece que competência é um saber agir responsável e que é reconhecido ou validado por outra pessoa, que implica mobilizar, integrar e transferir conhecimentos, recursos e habilidades em diferentes contextos profissionais. Ou seja, de nada adianta uma pessoa ter estoque de conhecimentos se não souber como e quando aplicar esse saber.
Fleury e Fleury (2001) ampliaram essa definição incluindo a agregação de
valores que as competências devem resultar, sendo um “conjunto de
aprendizagens sociais e comunicacionais nutridas a montante pela aprendizagem
e formação e a jusante pelo sistema de avaliações”, sendo sempre
contextualizadas e “devem agregar valor econômico para a organização e valor
social para o indivíduo”.
Em 2014 foi realizado, em São Paulo, o Fórum Internacional “Educar para as competências do Século XXI” organizado pelo Ministério da Educação do Brasil, Instituto Ayrton Senna e OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Foi discutido como preparar crianças e jovens para os desafios socioeconômicos do século 21 e produzido um relatório com as competências cognitivas e não cognitivas requeridas para o Progresso Social no mundo atual. A figura 1 apresenta esses grupos de competências.
Figura 1 - Competências Requeridas para o Progresso Social
Fonte: Fórum Internacional de Políticas Públicas (2014)
Uma das aplicações de competência é no desenvolvimento de trabalhos
sociais que muito se necessita da intuição humana, mas também das
competências individuais e grupais.
3. METODOLOGIA
3.1. A Escola de Engenharia de Lorena
A Escola de Engenharia de Lorena (EEL) foi fundada em 1969 como FAENQUIL (Faculdade Municipal de Engenharia Química) e passou a fazer parte integrante da Universidade de São Paulo (USP) em 2006. Atualmente, a EEL conta com a presença de seis cursos de engenharia: Engenharia Ambiental, Engenharia Bioquímica, Engenharia Física, Engenharia de Materiais, Engenharia de Produção e Engenharia Química (ESCOLA DE ENGENHARIA DE LORENA, 2018).
Na EEL existem diversas iniciativas dos alunos, as chamadas entidades estudantis, que realizam trabalhos complementares ao curso.
3.2. As entidades estudantis na EEL
As entidades estudantis da EEL são organizações formadas por alunos que se “auto gerenciam”, são independentes da instituição e realizam atividades paralelas aos cursos de graduação. Podem ser comparadas às ONGs no que diz respeito ao trabalho exclusivamente voluntário.
Para fins desta pesquisa, as entidades estudantis existentes na EEL, atualmente (novembro 2018), são classificadas em duas categorias diferentes:
sociais e não sociais.
As entidades sociais são aquelas que tem como seu objetivo principal o trabalho social, ou seja, a interação e a promoção da melhoria da qualidade de vida de grupos e/ou indivíduos em algum tipo de situação de vulnerabilidade socioeconômica.
As entidades consideradas como não sociais são aquelas que promovem
atividades cujo objetivo principal não é o trabalho social. Como exemplo, pode se
citar a Atlética, que é responsável por coordenar as atividades esportivas da EEL
ou os Centros Acadêmicos, que representam os alunos perante a coordenação
de seus respectivos cursos. Algumas das entidades consideradas, para fins
desta pesquisa, como não sociais, até realizam algum tipo de trabalho social, mas isso não faz parte da missão principal da entidade.
Para fins desta pesquisa, são consideradas por esta autora, entidades sociais na EEL-USP as seguintes:
Enactus EEL: organização sem fins lucrativos que visa transformar vidas de maneira sustentável através da ação empreendedora, gerando impacto social, ambiental e econômico (ENACTUS EEL, 2018).
Freedom: curso de inglês que permite o acesso de jovens de baixa renda a aulas de Inglês, com aulas semanais, tira-dúvidas pela internet, tarefas e aplicação de provas (FREEDOM, 2018).
Idoso Amigo: projeto social em que voluntários espalham amor e carinho em asilos, visando conscientizar a população sobre a 3ª idade (IDOSO AMIGO, 2018).
Macvest: curso pré-vestibular gratuito sem fins lucrativos, voltado para alunos de baixa renda de Lorena e região (MACVEST, 2018).
Projeto Criança Feliz: projeto social que promove a cidadania e educação na comunidade, criando novas perspectivas para crianças e jovens (PCF, 2018).
Teatreria Clube da Lua: entidade social que tem como objetivo promover a inclusão cultural e transmitir valores através do teatro. (TEATRERIA CLUBE DA LUA, 2018).
3.3. Método de pesquisa
A metodologia para a pesquisa deve ser escolhida a partir do objetivo que se deseja atingir, ela deve atender à questão de pesquisa no sentido de proporcionar um caminho para respondê-la (MIGUEL, 2007). Para este trabalho foi utilizado o estudo de caso, segundo Yin (2001) esse método é usado quando colocam questões do tipo “como” e “por que”, quando o pesquisador tem pouco controle sobre os eventos e quando o foco se encontra em fenômenos contemporâneos inseridos em algum contexto da vida real.
A maioria dos estudos de casos tenta esclarecer qual o motivo de uma
decisão ou um conjunto de decisões foram tomadas, como foram implementadas
e quais resultados foram alcançados (YIN, 2001). Um dos benefícios desse tipo
de estudo é a possibilidade do desenvolvimento de novas teorias e também aumentar o entendimento sobre eventos reais e contemporâneos (SOUZA, 2005).
A presente pesquisa tem característica exploratória, que de acordo com Forza (2002) deve ser usada nos primeiros estágios da pesquisa de um fenômeno, quando o objetivo é descobrir dados básicos e fornecer base para a realização de pesquisas de maior profundidade.
3.4. Construção do Constructo: Competências para o trabalho social
Conforme a proposta de Eisenhardt (1989) que apresenta um guia para a construção de teorias a partir do Estudo de Caso, em que, após a coleta de dados, busca-se evidência para cada um dos constructos a fim de refinar a definição prévia dada aos construtos. Sendo assim, é possível validar e mensurar os constructos pré-definidos, além de melhorar sua validade interna e depois confrontá-los com a literatura.
Um primeiro passo essencial que foi dado para a realização desse trabalho, após um aprofundamento da revisão bibliográfica do tema competências, foi a propositura de um constructo para “competências para o trabalho social”. Constructo este que serviu de ponto de partida para as demais etapas da pesquisa, e que foi validado e/ou aprimorado ao longo das etapas da realização do estudo de caso.
3.5. Coleta de dados
A metodologia de estudo de caso, por observar um fenômeno, demanda múltiplas fontes de dados para que a confiabilidade dos dados seja maior. As principais ferramentas de coleta para o estudo de caso são entrevistas, questionários, observação direta, análise de documentos ou pesquisa bibliográfica/ documental (MEREDITH, 1998). No presente estudo de caso, duas foram as principais ferramentas de coleta de dados: (i) - pesquisa bibliográfica e documental; e (ii) - questionários foram aplicados.
A partir de pesquisa bibliográfica, foram identificadas ações mobilizadoras
para o trabalho social que serviram de base para o envio de uma pesquisa para
sete líderes e/ou ex-líderes das entidades consideradas como sociais (vide seção 3.2) para que apontassem quais competências, do ponto de vista prático, julgavam necessárias para realizar as ações mobilizadoras pontuadas. Tratou-se de uma prospecção que serviu de base para mapear quais competências seriam destacadas para serem pesquisadas mais a fundo, por meio de um questionário, que, posteriormente, foi enviado para os demais alunos. A partir das respostas dadas por estes líderes, foram escolhidas oito competências para serem pesquisadas junto a alunos de graduação da EEL.
Posteriormente, este questionário foi aplicado em sala de aula para alunos de algumas disciplinas da EEL, a fim de que três grupos de controle fossem analisados: a) alunos que participam ou já participaram de entidades consideradas sociais, para fins desta pesquisa; b) alunos que participam ou já participaram de entidades consideradas como não sociais, para fins desta pesquisa; e c) alunos que nunca participaram de nenhuma entidade estudantil.
O questionário era composto por duas partes: a) a primeira parte constituiu
na apuração do desenvolvimento do aluno em relação às oito competências
pesquisadas quando considerado seu desenvolvimento por meio das atividades
normais de seu curso, levando em consideração aulas teóricas e experiências de
laboratórios; b) a segunda parte constituiu na apuração do grau de
desenvolvimento do aluno em relação às competências listadas quando levada
em consideração a participação em entidades estudantis da EEL. Em ambas as
partes, foi usada a Escala Likert, na qual 1 significa “discordo totalmente” e 5
significa “concordo totalmente ” de forma a avaliar o desenvolvimento de uma
determinada competência. Na parte final do questionário, havia uma questão
aberta para comentários mais específicos e aprofundados sobre a experiência do
aluno em relação ao seu desenvolvimento nas entidades estudantis.
3.6. Análise de dados
Para que o objetivo da pesquisa fosse atingido não bastava apenas uma coleta de dados estruturada e diversificada, mas também uma análise eficaz dos dados coletados para que se pudesse chegar a resultados confiáveis. Isso foi feito a partir da análise estatística dos questionários aplicados.
Os questionários foram aplicados em sala de aula para os alunos. Sua análise foi feita de forma quantitativa baseada na nota na Escala Likert que o aluno atribuiu para cada competência, visando avaliar o grau de desenvolvimento das mesmas. A escala Likert é uma escala ordinal e, portanto, pede testes não paramétricos para realizar sua análise, porém segundo Sullivan e Artino (2013) se o tamanho da amostra é no mínimo 10 dados por grupo e a distribuição dos dados for próxima de uma distribuição normal, pode-se usar testes paramétricos para a escala Likert (SULLIVAN; ARTINO, 2013). Foi utilizada então a ferramenta estatística de teste de hipóteses para validar os resultados: esse teste especifica se deve-se aceitar ou rejeitar uma hipótese sobre uma população de acordo com uma amostra de dados (MONTGOMERY; RUNGER, 2009, p.177). Uma hipótese é dada como verdadeira quando o valor-p do teste for menor que o nível de significância desejado. Foram usados dois tipos de teste de hipóteses nesse trabalho, o teste t pareado e o teste t para duas amostras.
O teste t pareado consiste em analisar um conjunto de dados de uma
mesma população sob duas condições diferentes, ou seja, para um mesmo grupo
de respondentes existem dois conjuntos de respostas a serem comparados. Já o
teste t para duas amostras consiste em analisar conjuntos de dados de
populações independentes, ou seja, para grupos diferentes de respondentes
existem conjuntos de respostas a serem comparados, sendo esses grupos de
tamanhos diferentes ou não (MONTGOMERY; RUNGER, 2009, p.221).
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1. Constructo “competências para o trabalho social”
A construção do constructo “competências para o trabalho social” passa, inicialmente, pela definição sobre “trabalho social”.
Andréia Wüsth em sua tese “O trabalho social e a política de habitação:
desvendando contradições algumas regulamentações” apresenta o trabalho social como sendo “um conjunto de ações e/ou estratégias, processos e ações, que visam promover autonomia e protagonismo e/ou participação e inserção social das famílias” (WUSTH, 2015 , p 66-67).
Camila Felice Jorge em sua tese “O trabalho social com famílias bolivianas nos Centros de Referência de Assistência Social da cidade de São Paulo” explica que o trabalho social é feito por assistentes sociais com as famílias e visa
“promover espaços de ref lexão que levem à autonomia e ao empoderamento desses sujeitos ” (JORGE, 2016, p94). O depoimento de um profissional da área aponta que o trabalho realizado é gradativo “fortalecendo a autoestima, estimulando a busca de sonhos, com um novo olhar” ( JORGE, 2016, p 95).
Portanto, para construção do pretendido constructo é preciso conhecer sobre a profissão de assistente social, que no Brasil, é regulamentada pela Lei Federal 8.662/1993 (reformulação da Lei Federal 3.252/1957) que estabelece algumas condições para o exercício da profissão:
Art. 2º Somente poderão exercer a profissão de Assistente Social:
I - Os possuidores de diploma em curso de graduação em Serviço Social, oficialmente reconhecido, expedido por estabelecimento de ensino superior existente no País, devidamente registrado no órgão competente;
II - os possuidores de diploma de curso superior em Serviço Social, em nível de graduação ou equivalente, expedido por estabelecimento de ensino sediado em países estrangeiros, conveniado ou não com o governo brasileiro, desde que devidamente revalidado e registrado em órgão competente no Brasil;
III - os agentes sociais, qualquer que seja sua denominação com funções nos vários órgãos públicos, segundo o disposto no art. 14 e seu parágrafo único da Lei nº 1.889, de 13 de junho de 1953.
Parágrafo único. O exercício da profissão de Assistente Social requer
prévio registro nos Conselhos Regionais que tenham jurisdição sobre a
área de atuação do interessado nos termos desta lei (BRASIL, 1993).
E a referida Lei Federal 8.662/1993 também estabelece as competências para a profissão de Assistente Social.
Art. 4º Constituem competências do Assistente Social:
I - elaborar, implementar, executar e avaliar políticas sociais junto a órgãos da administração pública, direta ou indireta, empresas, entidades e organizações populares;
II - elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas e projetos que sejam do âmbito de atuação do Serviço Social com participação da sociedade civil;
III - encaminhar providências, e prestar orientação social a indivíduos, grupos e à população;
IV
–(Vetado)
V - orientar indivíduos e grupos de diferentes segmentos sociais no sentido de identificar recursos e de fazer uso dos mesmos no atendimento e na defesa de seus direitos;
VI - planejar, organizar e administrar benefícios e Serviços Sociais;
VII - planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para a análise da realidade social e para subsidiar ações profissionais;
VIII - prestar assessoria e consultoria a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, com relação às matérias relacionadas no inciso II deste artigo;
IX - prestar assessoria e apoio aos movimentos sociais em matéria relacionada às políticas sociais, no exercício e na defesa dos direitos civis, políticos e sociais da coletividade;
X - planejamento, organização e administração de Serviços Sociais e de Unidade de Serviço Social;
XI - realizar estudos socioeconômicos com os usuários para fins de benefícios e serviços sociais junto a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades.
Art. 5º Constituem atribuições privativas do Assistente Social:
I - coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos, programas e projetos na área de Serviço Social;
II - planejar, organizar e administrar programas e projetos em Unidade de Serviço Social;
III - assessoria e consultoria e órgãos da Administração Pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, em matéria de Serviço Social;
IV - realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações e pareceres sobre a matéria de Serviço Social;
V - assumir, no magistério de Serviço Social tanto a nível de graduação como pós-graduação, disciplinas e funções que exijam conhecimentos próprios e adquiridos em curso de formação regular;
VI - treinamento, avaliação e supervisão direta de estagiários de Serviço Social;
VII - dirigir e coordenar Unidades de Ensino e Cursos de Serviço Social, de graduação e pós-graduação;
VIII - dirigir e coordenar associações, núcleos, centros de estudo e de pesquisa em Serviço Social;
IX - elaborar provas, presidir e compor bancas de exames e comissões julgadoras de concursos ou outras formas de seleção para Assistentes Sociais, ou onde sejam aferidos conhecimentos inerentes ao Serviço Social;
X - coordenar seminários, encontros, congressos e eventos assemelhados sobre assuntos de Serviço Social;
XI - fiscalizar o exercício profissional através dos Conselhos Federal e
Regionais;
XII - dirigir serviços técnicos de Serviço Social em entidades públicas ou privadas;
XIII - ocupar cargos e funções de direção e fiscalização da gestão financeira em órgãos e entidades representativas da categoria profissional. (BRASIL, 1993).
A maioria das competências de um Assistente Social, de acordo com a Lei Federal 8.662/1993 são técnicas e voltadas para a gestão/coordenação de trabalhos de assistência social. Entretanto, duas destas competências, possuem um viés mais humanístico, e, portanto, mais relacionado com os objetivos deste trabalho. São elas: (a) – inciso III - encaminhar providências, e prestar orientação social a indivíduos, grupos e à população; e (b) – inciso V - orientar indivíduos e grupos de diferentes segmentos sociais no sentido de identificar recursos e de fazer uso dos mesmos no atendimento e na defesa de seus direitos.
Algumas escolas de ensino superior que possuem o curso de Serviço Social são UNESP, UNIFESP, PUC, dentre outras. Segundo a UNESP, a profissão de Serviço Social possui conhecimentos “que fundamentam a sua intervenção nas diferentes expressões da questão social, sempre na perspectiva da defesa e ampliação dos direitos sociais e efetivação das políticas sociais” (UNESP, 2018). O assistente social atua em diversos segmentos populacionais, principalmente naqueles em que os direitos sociais estão sendo violados ou ameaçados, dentre os quais estão negros, mulheres, deficientes, dentre outros.
A Associação Internacional de Escolas de Serviço Social (IASSW , 2014) propõe uma definição global de Serviço Social em que é uma profissão “que promove o desenvolvimento e a mudança social, a coesão social, o empoderamento e a promoção da pessoa”. Afirma ain da que o Serviço Social é responsável por relacionar as pessoas com as estruturas que a sociedade oferece.
Visando agregar elementos que possam contribuir para ampliar a visão
sobre a temática, algumas fontes não científicas também foram consultadas.
Segundo o Wikipedia (2018), a profissão de trabalho social, baseado no Comité Executivo da IFSW
4:
Promove a mudança da sociedade, a resolução de problemas das relações humanas e promove a capacidade e aptidão das pessoas de forma a terem o seu bem-estar. Utilizando teorias de comportamento humano e sistemas sociais, o trabalho social intervém nos pontos onde as pessoas interagem com os seus ambientes. Neste âmbito, o respeito pelos direitos humanos e de justiça social são fundamentais para o trabalho social. O desempenho do trabalhador social encontra-se intimamente relacionado com a necessidade de resolução dos problemas sociais. Neste contexto, o Trabalho Social tende a lançar o seu foco de intervenção sobre os problemas das pessoas dentro do seu contexto ambiental, equacionando intervenções sistémicas e ecológicas.
Isto, porque os indivíduos são influenciados pelas forças e fraquezas de tudo o que orbita em seu torno: família, local de trabalho, grupos de referência, entre outros (WIKIPEDIA, 2018).
Ainda segundo Wikipedia (2018), o trabalho social desenvolveu-se no âmbito dos ideais humanitários e democráticos, assentando no respeito pela igualdade, unicidade e dignidade da pessoa humana. A sua intervenção consiste, sobretudo, no desenvolvimento de capacidades individuais, coletivas e sociais aos níveis cognitivo, relacional e organizativo, encarando o indivíduo sob diferentes núcleos.
E os objetivos do trabalho social, segundo Wikipedia (2018) são:
1) Facilitar a inclusão de grupos sociais excluídos, marginalizados, vulneráveis ou em risco;
2) Promover o bem-estar e solucionar problemas, intervindo com indivíduos, famílias, grupos e comunidades;
3) Desencadear dinâmicas que levem à participação das populações na defesa e dinamização de melhores condições sociais;
4) Trabalhar com as pessoas na formulação, implementação e defesa de políticas coerentes com os princípios éticos da profissão;
5) Defender com e para as pessoas, mudanças nos condicionalismos estruturais relacionados com a exclusão e marginalidade social;
6) Desencadear procedimentos de proteção de pessoas, que pela sua condição ou situação de risco, não estão capazes de o fazer por si próprias.
Os objetivos do trabalho social pretendem induzir mudanças positivas no funcionamento psicológico e social dos indivíduos, nas suas famílias, grupos e ambientes de forma a diminuir as vulnerabilidades existentes e a providenciar oportunidades para a existência de uma vida social mais satisfatória (WIKIPEDIA, 2018).
4
IFSW
–A Federação Internacional de Assistentes Sociais (IFSW) é uma organização global que
luta pela justiça social, direitos humanos e desenvolvimento social através da promoção doNum artigo da Revista Carta Capital, Marcos de Aguiar Villas Boas explica que a participação da sociedade em trabalhos sociais é uma maneira que as pessoas podem “se engajar, aprender e ajudar o próximo, estimulando o seu senso de grupo, de cooperação” afinal “os ensinamentos morais são muito mais bem apreendidos quando praticados” (VILLAS-BOAS, 2017).
Segundo o site conceitos.com (2018) denomina-se “trabalho social qualquer atividade que pretende melhorar as condições materiais, de salubridade, culturais ou educativas da população” e seus objetivos induzem “ mudanças positivas no funcionamento psicológico e social dos indivíduos, nas suas famílias, grupos e ambientes de forma a diminuir as vulnerabilidades existentes e a providenciar oportunidades para a existência de um a vida social mais satisfatória”.
(WIKIPEDIA, 2018)
Portanto, para fins deste trabalho, define-se o constructo competência para o trabalho social como sendo “ a capacidade de intervir e/ou atuar na defesa e desenvolvimento de direitos sociais, principalmente das minorias sociais para trazer autonomia e empoderamento a essas pessoas ” .
4.2. Competências do dia-a-dia do trabalho social
A partir da definição constructo competência para o trabalho social, o
passo seguinte foi determinar, do ponto de vista prático, quais as mais
relevantes competências para a efetiva realização de trabalho social, sobre o
olhar de alunos graduandos em engenharia. Para isso, foram identificados ações
mobilizadoras para o trabalho social a partir da literatura que serviu de base para
a construção do constructo, que são ações que mobilizam indivíduos ou entidades
a se mobilizar para execução do trabalho social. A partir das fontes consultadas,
11 (onze) ações mobilizadoras foram detectadas, sendo que algumas delas são
quase que sinônimos das outras, mas optou-se em manter essas 11 ações
mobilizadoras como ponto de partida para a identificação de competências
ligadas ao dia a dia da vida de indivíduos atuando no trabalho social. Essas 11
ações mobilizadoras e suas respectivas fontes encontram-se no quadro 1.
Quadro 1 - Ações Mobilizadoras para o Trabalho Social
Ação Mobilizadora Fonte
Promover autonomia e protagonismo e/ou participação e inserção
social das famílias”
Wusth (2015)
Promover espaços de reflexão que levem à autonomia e ao
empoderamento Jorge (2016)
(Fortalecer) a autoestima, estimulando a busca de sonhos, com um
novo olhar”
Jorge (2016)
Prestar orientação social a indivíduos, grupos e à população BRASIL (1993) Orientar .... no sentido de identificar recursos e de fazer uso dos
mesmos no atendimento e na defesa de seus direitos BRASIL (1993) Promover o desenvolvimento e a mudança social, a coesão
social, o empoderamento e a promoção da pessoa IASSW (2014) Relacionar as pessoas com as estruturas que a sociedade
oferece. IASSW (2014)
Promove a mudança da sociedade, a resolução de problemas das relações humanas e promove a capacidade e aptidão das pessoas de
forma a terem o seu bem-estar Wikipedia (2018)
(Desenvolver) capacidades individuais, coletivas e sociais aos níveis
cognitivo, relacional e organizativo. Wikipedia (2018)
...Engajar, aprender e ajudar o próximo, estimulando o seu senso de
grupo, de cooperação Villas-Boas (2017)
(Desenvolver) atividade que pretenda melhorar as condições
materiais, de salubridade, culturais ou educativas da população Conceitos.com (2018)
O passo seguinte consistiu no envio desta lista com essas 11 ações mobilizadoras para sete estudantes que atuavam ou já atuaram na liderança de entidades estudantis consideradas como sociais para fins desta pesquisa. Foi pedido a cada um destes sete líderes que detalhassem todas as competências que entendessem que estavam ligadas ao dia a dia da vida de indivíduos que atuam diretamente no trabalho social para cada uma das onze ações mobilizadoras. A resposta que foi dada era aberta, ou seja, uma mesma competência “prática” poderia aparecer várias vezes na sua resposta, se ele entendesse que ela fazia sentido para mais de uma das ações mobilizadoras.
O perfil de cada um desses líderes segue abaixo:
Líder 1 – Ingressou na EEL em 2013. Está cursando seu último ano de Engenharia de Produção. Atuou nas seguintes entidades sociais da EEL: PCF, Enactus. Foi Vice-Presidente do PCF de 2014 a 2015, cofundador da Enactus EEL-USP e líder de projetos de 2014 a 2016.
Líder 2 – Ingressou na EEL em 2013. Está cursando Engenharia de Materiais. Atuou na Enactus EEL-USP de 2015 a 2018, sendo Líder do Projeto Fênix
5de 2015 a 2016, Líder da Gestão de Projetos de 2016 a 2017 e Líder Geral de 2017 a 2018. Foi também idealizador dos Eventos interfaculdades na rede Enactus Brasil e um dos idealizadores do TTCx-Ecoar.
Líder 3 – Ingressou na EEL em 2011. Está cursando o último ano de Engenharia Química. Atuou nas entidades sociais da EEL: PCF e Enactus. Foi Líder do Educacional do PCF em 2014, Presidente da Enactus EEL-USP de 2015 a 2016 e Empreendedor e Facilitador do Choice
6de 2017 a 2018.
Líder 4 – Ingressou na EEL em 2014. Está cursando Engenharia Química.
Foi professor e monitor em projetos sociais de educação de 2012 a 2015, atuou como Líder de Educação do PCF de 2015 a 2016 e como Presidente do PCF de 2016 a 2017.
Líder 5 – Ingressou na EEL em 2012. Está cursando o último ano de Engenharia Química. Atuou na entidade social da faculdade PCF como Presidente de 2014 a 2016, foi Embaixadora do movimento Mapa Educação
7entre 2015 e 2017 e professora voluntária do Curso preparatório popular Casdinho
8.
5
Projeto Fênix
–tem como objetivo disseminar a alimentação saudável e com um preço acessível por meio de hortas orgânicas implementadas em comunidades de baixa renda (ENACTUS, 2018).
6
Choice
–organização que apoia e desenvolve jovens para que empreendam mudanças positivas no mundo, através de programas de vivências e desenvolvimento de habilidades e competências (CHOICE, 2018).
7
Mapa Educação
–movimento que tem como missão que todos os brasileiros tenham acesso a uma educação de qualidade, e o jovem deve ser protagonista dessa mudança (MAPA EDUCAÇÃO, 2016).
8
Casdinho
–curso sem fins lucrativos preparatório para o Colégio da Embraer, ETEC e
olimpíadas científicas, mantido pelos alunos do ITA (CASDINHO, 2018).
Líder 6 – Ingressou na EEL em 2012. Está cursando o último ano de Engenharia Ambiental. Foi voluntária na ONG Serviço de Obras Sociais (SOS)
9em Lorena de 2014 a 2015, fundadora e voluntária da entidade social da faculdade Idoso Amigo de 2015 a 2017 e voluntária na ONG Bibli-ASPA
10e na ONG TETO
11em 2018.
Líder 7 – Ingressou na EEL em 2016. Está cursando Engenharia de Produção. Foi líder do projeto Biguá
12de 2017 a 2018, presidente da Enactus EEL-USP de 2018 a 2019.
O resultado detalhado das competências apontadas por esses sete líderes encontra-se como apêndice A desse trabalho. A tabela 1 apresenta todas as competências conforme apurado a partir das respostas que estão no apêndice A.
A primeira coluna da tabela 1 apresenta o nome da competência; a segunda coluna apresenta o número de vezes que tal competência foi citada pelos sete entrevistados para as onze ações mobilizadoras apresentadas.
Tabela 1
–Análise das competências
Competência Citações
Comunicação 50
Empatia 36
Liderança, Trabalho em equipe 21
Planejamento 14
Resiliência, Autoconhecimento, Criatividade 11
Protagonismo 10
Confiança, Estratégia 9
Observação 8
continua
9
ONG Serviço de Obras Sociais
–entidade que tem como missão atender aos pobres e socorrer os indigentes itinerantes (SERVIÇO DE OBRAS SOCIAIS, 2018).
10
ONG Bibli-ASPA
–centro de pesquisa, cultura e ações sociais sem fins lucrativos que desenvolve atividades de formação, reflexão e conscientização acerca de povos africanos, árabes e sul-americanos e de refugiados e imigrantes de qualquer nacionalidade (BIBLIASPA, 2017).
11
ONG TETO
–organização que busca superar a pobreza em que vivem milhões de pessoas nas comunidades precárias, por meio do engajamento comunitário e da mobilização de jovens voluntários e voluntárias (TETO, 2018).
12
Projeto Biguá
–tem como objetivo empoderar e levar tecnologia para crianças de baixa renda,
continuação
Competência Citações