UNIVERSIDADE VALE DO ACARAÚ - UVA
UNIVERSIDADE ABERTA VIDA - UNAVIDA
CURSO: PEDAGOGIA
DISCIPLINA:
EDUCAÇÃO E MOVIMENTOS
SOCIAIS
OS NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS E OS ESPAÇOS DE
EDUCAÇÃO NÃO-FORMAL
18 OS NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS E OS ESPAÇOS DE EDUCAÇÃO NÃO-FORMAL
Desde os anos 1980, falamos de “movimentos sociais”. Nos anos 1980, o sistema democrático queria deixar a sociedade civil se exprimir, também para evitar que as pessoas se reagrupem nas ruas para protestar. Hoje, na verdade, todos os indivíduos querem novos direitos. Cada dia, em diversas partes do mundo, existem movimentos sociais. Na França, quase diariamente há manifestações sociais. O movimento social é uma mobilização, onde os indivíduos, com esperanças de mudar, podem externar fatos considerados por eles como injustos. Mas, se estes movimentos sociais são transmitidos frequentemente na imprensa internacional, isso demonstra uma relativa desordem social no pais.
A partir de 1990, os movimentos sociais deram origem a outras formas de organizações populares, mais institucionalizadas, como os fóruns nacionais de luta pela moradia popular. No caso da habitação e reforma urbana, por exemplo, o próprio Estatuto da Cidade, é resultado dessas lutas. O Fórum da Participação Popular e tantos outros fóruns e experiências organizativas locais, regionais, nacionais e até transnacionais, estabeleceram práticas, fizeram diagnósticos e criaram agendas, para si próprios, para a sociedade e para o poder público. O Orçamento Participativo, e vários programas, surgiram como fruto desta trajetória.
Novos movimentos sociais são movimentos que surgiram no final do século XX e têm na transformação cultural grande parte dos meios e fins de sua ação.
A expressão “novos movimentos sociais” supõe diferenças em relação aos movimentos sociais tradicionais. Em princípio, os movimentos tradicionais se faziam através de uma identidade de classe social, consistindo basicamente como movimentos operário-sindicais, organizados a partir do mundo do trabalho. Essa referência classista dos movimentos sociais tornou-se inadequada na medida em que as posições de classe perderam a estabilidade, com os sujeitos assumindo, ao longo da vida e conforme as circunstâncias, diferentes identidades que já não decorrem apenas das suas relações de produção.
Os movimentos sociais contemporâneos ocorrem nos mais diversos lugares do planeta sempre que um grupo de indivíduos considera seus direitos desrespeitados ou se dispõe a lutar pala aquisição de novos direitos. É o caso dos movimentos ambiental e feminista, que propõem questões importantes para todos nós. Eles podem ser tomados como exemplos de movimentos sociais contemporâneos.
Os novos movimentos sociais surgiram no final do século XX e são os novos grupos ou até mesmo os que já existem que enxergam oportunidade maior para reivindicar um lugar melhor na sociedade como o movimento negro, o LGBTT, feminista ambientalistas e muitos outros que surgem todos os dias e estão fazendo sua voz ser ouvida e respeitada. Como consequência, esses novos movimentos sociais acabaram formando uma nova identidade social que criavam ações e relações mais fortes entre os indivíduos neles inseridos atiçando ainda mais a vontade de defender e manifestar sua posição sobre
19 determinado assunto. É por meio dos novos movimentos que tabus são quebrados e que o preconceito e o racismo são vencidos aos poucos. A partir dos anos de 1970, os movimentos, como os feministas, passaram a ter um enfoque maior, movimentos como estes, mudaram a análise antes utilizados para movimentos tradicionais. Os novos movimentos sociais estão mais preocupados em garantir os direitos dos grupos minoritários, preferem uma ação mais direta que envolvam a mídia para ampliar sua causa, beneficiando os envolvidos no movimento de uma forma mais eficiente.
A finalidade desses movimentos eram reivindicar direitos além de questões econômicas. Os termos novos movimentos sociais evidenciam uma ruptura com os movimentos sociais tradicionais. Estes dão uma cara mais jovem com novas formas de reivindicação e mais plural.
A presença de vozes que clamam por igualdade de gênero, etnia, sexualidade e nacionalidade, sinalizam uma outra percepção realidade social e o desejo de igualdade, liberdade e fraternidade a muito prometido.
Da metade do século XX para cá, avançaram muito quanto ao número de adeptos e ao atendimento de suas demandas. Na contemporaneidade, tais movimentos têm influências em vários setores da sociedade civil, inclusive em partidos políticos. A lógica de organização coletiva de seus membros é bem diferentes de seus membros tradicionais e busca diminuir a distância hierárquica entre seus movimentos.
Os movimentos sociais, tanto os novos quantos os tradicionais, são importantíssimos devido a cobrança de devidas mudanças, reivindicam transformações, mostrando assim a insatisfação do povo com as medidas adotadas por governantes. Os novos movimentos sociais se articulam através de solicitações coletivas unindo interesses, organizando ações conjuntas e buscando visibilidade social. A população responde no plano da moral e nas questões sociais relacionadas a problemática da idade, fazendo surgir movimentos como: movimentos dos aposentados, do negro e do indígena. Movimentos Nacional dos meninos e meninas de rua, dos homoafetivos, feministas ecológicos e outros.
20 Desde o advento da Revolução Industrial, os movimentos sociais trazem grandes conquistas para a sociedade, mesmo que estas ainda não sejam suficientes. Os novos movimentos sociais no Brasil iniciaram ainda no regime militar e tiveram pouco espaço devido a uma maior necessidade de atuação de movimentos sociais tradicionais naquela época. A grande contribuição desses novos movimentos para a sociedade tem sido a formação de uma nova cultura que se manifesta em novos meios de organização social e de ações políticas, seja ela dos direitos aos LGBTTs, aos negros e índios ou a implantação de medidas que preservem o meio ambiente, muitas vezes através de ONGs. O principal obstáculo de ação dos novos movimentos sociais ocorre através da não superação do particularismo e isso impede que a ação defendida ganhe força e acabe por enfraquecer mais e mais como é de objetivo a ser. Os novos e antigos movimentos sociais, são processos fundamentais na tomada dos espaços de luta por uma sociedade melhor, na qual a cidadania sai do discurso e se constrói na prática através de conquistas, firmamento e extensão dos direitos.
No entanto, qualquer movimento popular, que vá contra os interesses dos mandatários dos diversos países em que ocorram esses movimentos, especialmente de trabalhadores rurais sem-terra, é visto como agressão à propriedade e, como a propriedade está ligada umbilicalmente à essa estrutura repressora e elitista, qualquer forma de atentado e crítica à propriedade, ao empregador, ao patrão é vista como uma atitude ilícita, de delinquente e que tem que ser reprimida. Quem está na ponta da repressão dos movimentos populares é a polícia, que executa as ações de repressão e muitas vezes faz uso da violência para conter estas manifestações.
Mas, atualmente, pelas características e pelo panorama da sociedade brasileira atual, pelos fatos e acontecimentos recentes na sua conjuntura, o movimento contra a violência nas cidades ganhou força. Ele está sendo organizado em bairros e representam um clamor da sociedade civil na área da segurança pública, na busca de proteção à vida do cidadão no cotidiano. Pesquisas de opinião pública estão demonstrando que a
21 segurança está passando a ser o principal item de demanda da população, mais do que o emprego. A segurança é, atualmente, o temor maior, ela ganha do medo do cidadão ficar desempregado, ou de contrair uma doença grave. Está sendo a preocupação número um da sociedade.
Os movimentos de Direitos Humanos criaram redes nacionais, estão interligados a redes internacionais como a Anistia Internacional. Já os movimentos contra a violência, nos centros urbanos, são mais focalizados, eles têm um caráter diferente, partem de grupos e ações localizadas, motivados por perdas de entes queridos; eles passam a criar redes, mobilizam as associações comunitárias dos bairros - muitas vezes também acuadas pelo medo à violência dos grupos armados organizados de uma região. O movimento contra a violência urbana têm organizado passeatas, manifestações de rua, etc. O próprio movimento estudantil, que entra e sai da cena pública constantemente, tem tido um papel importante no movimento antiviolência, em campanhas como pelo desarmamento da população.
Os movimentos de gênero (relações homens e mulheres) onde se destacam os movimentos de mulheres e os movimentos homoafetivos; os movimentos dos afro-brasileiros e o movimento indígena, são considerados movimentos identitários e culturais; possuem uma identidade e conferem aos seus participantes uma identidade centrada em fatores étnicos e raciais.
Há outros movimentos identitários e culturais como os movimentos geracionais onde se destacam os jovens, e nesses, seus movimentos culturais expressos, por exemplo, na música, via o Hip Hop, o Rap e tantos outros. Movimentos de meninos e meninas de rua e movimentos de idosos completam os movimentos das gerações.
22 Há ainda os movimentos culturais dos ambientalistas, os ecologistas que cresceram muito após a ECO 92. A maioria dos movimentos identitários e culturais atua em conjunto com ONGs e eles têm sido bastante noticiados pela mídia. Muitas vezes lhes são atribuídos muito mais poder e força do que de fato possam deter. Isso ocorre por dois motivos: de um lado como resultado de suas lutas que criaram uma nova gramática no imaginário social e lhes conferiu legitimidade. Por outro lado, este super dimensionamento resulta também da forma como a mídia apaga o conflito, a diferença. Eles se transformam, nas reportagens, em lugares de identificação, elimina-se do processo de identidade propriamente dito, a diferenciação, a luta, a resistência. Os movimentos identitários são reportados como ações coletivas frutos de projetos focalizados, coordenados por indivíduos empreendedores, agrupados segundo categorias de gênero, faixa etária, origem étnica, religião etc. O empreendedorismo social é uma categoria advinda da cidadania empresarial onde líderes comunitários transformam-se em gestores de projetos sociais. A grande mídia, voltada para formar a opinião pública numa sociedade de massa, elimina a negatividade, só afirma, reafirma e confirma a positividade segundo dados interesses. Todo e qualquer caráter universalista é desconsiderado focalizando-se apenas a especificidade daquele projeto. Suas redes articulatórias - que dão apoio e suporte, desaparecem. Exibem-se resultados sem mostrar o processo para chegar aqueles números.
O Feminismo é um discurso intelectual, filosófico e político que tem como meta os direitos iguais e a proteção legal às mulheres. Envolve diversos movimentos, teorias e filosofias, todas preocupadas com as questões relacionadas às diferenças entre os gêneros, e advogam a igualdade para homens e mulheres e a campanha pelos direitos das mulheres e seus interesses.
Ainda dentro deste enfoque, destaca-se o movimento Marcha das Vadias que surgiu no Canadá, batizado de Slutwalk. O movimento surgiu porque, em janeiro de 2011 na Universidade de Toronto, um policial, falando sobre segurança e prevenção ao crime, afirmou que “as mulheres deveriam evitar se vestir como vadias, para não serem vítimas de ataque”. A reação de indignação foi imediata, pois esse pensamento transfere a culpa
23 da agressão sexual para a vítima, insinuando que, de alguma forma, é a vítima que provoca o ataque.
Apesar da polêmica do nome, o movimento ganhou força, pois as mulheres refletiram sobre os usos e o poder da palavra “vadia”. Há muito tempo os homens têm usado a palavra “vadia” para justificar diferentes tipos de agressão. Afirmam que apanhamos porque somos “vadias”, que merecemos ser estupradas porque somos “vadias”. Que um decote ou uma minissaia nos tornam “vadias”. O termo “vadia” oprime nossa sexualidade, pois nos torna um mero objeto de satisfação sexual.
No campo dos movimentos sociais rurais a organização popular cresceu bastante nos anos 90. Dentre dos inúmeros movimentos de sem-terra criados, o mais expressivo foi o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST. Ele se destaca em termos nacional como no plano internacional via um eficiente trabalho de mídia e marketing político de suas demandas pela Reforma Agrária, bandeiras e místicas.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, também conhecido pela sigla MST, é um movimento social brasileiro de inspiração marxista cujo objetivo é a implantação da reforma agrária no Brasil. Teve origem na aglutinação de movimentos que faziam oposição ou estavam desgostosos com o modelo de reforma agrária imposto pelo regime militar, principalmente na década de 1970, o qual priorizava a colonização de terras devolutas em regiões remotas, com objetivo de exportação de excedentes populacionais e integração estratégica. Contrariamente a este modelo, o MST declara buscar a redistribuição das terras improdutivas.
Apesar dos movimentos organizados de massa pela reforma agrária no Brasil remontarem apenas às ligas camponesas, associações de agricultores que existiam durante as décadas de 1950 e 1960, o MST proclama-se como herdeiro ideológico de todos os movimentos de base social camponesa ocorridos desde que os portugueses entraram no Brasil, quando a terra foi dividida em sesmarias por favor real, de acordo com o direito feudal português, fato este que excluiu em princípio grande parte da população do acesso direto à terra.
Uma das atividades do grupo consiste na ocupação de terras improdutivas como forma de pressão pela reforma agrária, mas também há reivindicação quanto a empréstimos e ajuda para que realmente possam produzir nessas terras. Para o MST, é muito importante que as famílias possam ter escolas próximas ao assentamento, de
24 maneira que as crianças não precisem ir à cidade e, desta forma, fixar as famílias no campo.
A organização não tem registro legal por ser um movimento social e, portanto, não é obrigada a prestar contas a nenhum órgão de governo, como qualquer movimento social ou associação de moradores.
O movimento recebe apoio de organizações não governamentais e religiosas, do país e do exterior, interessadas em estimular a reforma agrária e a distribuição de renda em países em desenvolvimento. Sua principal fonte de financiamento é a própria base de camponeses já assentados, que contribuem para a continuidade do movimento.
Dados coletados em diversas pesquisas demonstram que os agricultores organizados pelo movimento têm conseguido usufruir de melhor qualidade de vida que os agricultores não organizados.
O MST reivindica representar uma continuidade na luta histórica dos camponeses brasileiros pela reforma agrária. Os atuais governantes do Brasil tem origens comuns nas lutas sindicais e populares, e portanto compartilham em maior ou menor grau das reivindicações históricas deste movimento. Segundo outros autores, o MST é um movimento legítimo que usa a única arma que dispõe para pressionar a sociedade para a questão da reforma agrária, a ocupação de terras e a mobilização de grande massa humana.
Em 1997, o MST fez uma avaliação interna em que reconheceu que seria necessária uma atuação na cidade além de sua atuação no campo. Dessa constatação, duas opções de luta se abriram: trabalho e moradia. O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) surgiu da necessidade de organizar a reforma urbana e garantir moradia e a todos os cidadãos. É um movimento de caráter social, político e sindical.
Estão em quase todas as metrópoles do País. São desdobramentos urbanos do MST, com um comando descentralizado. As formas de atuação variam de um movimento para outro. Em geral, as ocupações não têm motivação política, apenas apoio informal de filiados a partidos de esquerda. O objetivo das ocupações é pressionar o poder público a criar programas de moradia e dar à população de baixa renda acesso a financiamentos para a compra de imóveis.
Atualmente, o MTST é autônomo em relação ao MST, mas tem uma aliança estratégica com esse.
O movimento estudantil, embora não seja considerado um movimento popular, dada a origem dos sujeitos envolvidos, que, nos primórdios desse movimento,
25 pertenciam, em sua maioria, a chamada classe pequeno burguesa, é um movimento de caráter social e de massa. É a expressão política das tensões que permeiam o sistema dependente como um todo e não apenas a expressão ideológica de uma classe ou visão de mundo. Em 1967, no Brasil, sob a conjuntura da ditadura militar, esse movimento inicia um processo de reorganização, como a única força não institucionalizada de oposição política. A história mostra como esse movimento constitui força auxiliar do processo de transformação social ao polarizar as tensões que se desencadearam no núcleo do sistema dependente. O movimento estudantil é o produto social e a expressão política das tensões latentes e difusas na sociedade. Sua ação histórica e sociológica tem sido a de absorver e radicalizar tais tensões. Sua grande capacidade de organização e arregimentação foi capaz de colocar cem mil pessoas na rua, quando da passeata dos cem mil, em 1968. Ademais, a histórica resistência da União Nacional dos Estudantes (UNE), como entidade representativa dos estudantes, é exemplar.
O movimento estudantil é um movimento social da área da educação, no qual os sujeitos são os próprios estudantes. Caracteriza-se por ser um movimento policlassista e constantemente renovado - já que o corpo discente se renova periodicamente nas instituições de ensino.
O Movimento Passe Livre (MPL) é um movimento social brasileiro que defende a adoção da tarifa zero para transporte coletivo. O movimento foi fundado em uma plenária no Fórum Social Mundial em 2005, em Porto Alegre, e ganhou destaque ao participar da organização, em 2013, dos primeiros protestos em São Paulo por causa do aumento da tarifa de ônibus, que culminaram em protestos por todo país após o aumento da repressão policial contra manifestantes e jornalistas. Ao fim de junho de 2013 mais de 100 cidades do país haviam reduzido a tarifa do transporte, em consequência das manifestações.
O movimento de ocupações de escolas tomou conta do Brasil em outubro de 2016. Mais de mil escolas foram ocupadas por estudantes que não se conformam com os rumos que a educação vem tomando no governo Temer.
O movimento de ocupação nas escolas é uma ação desenvolvida pelos estudantes – especialmente do ensino médio – para ocupar fisicamente o espaço escolar. Através da ocupação destes espaços, busca-se obrigar o Estado a agir a respeito das demandas estabelecidas pelos estudantes. O objetivo principal do movimento era de coibir o
26 fechamento de escolas que estavam planejado para a rede pública, além da oposição à implementação da PEC 241 ou PEC 55, que congelará gastos em saúde e educação por 20 anos, foi aprovada em definitivo pelo Congresso no dia 13 de dezembro de 2016 por 53 votos a 16, quatro votos a mais do que o necessário.
Uma das principais críticas em relação ao movimento de ocupação nas escolas dizia respeito à unidade de sua organização. Existiam, reconhecidamente, diversas fontes de organização destas ações.
Algumas delas associavam-se a movimentos estudantis locais ou nacionais, enquanto outras eram organizadas a partir do próprio grêmio estudantil, sem apoio externo. Neste sentido, muitos acusaram o movimento de agir de maneira desorganizada.
Movimentos Sociais: Espaços de Educação não-formal da sociedade civil
A socialização envolve fundamentalmente práticas educativas. Na socialização alguém ensina a outrem como se comportar. Nenhuma sociedade poderia sobreviver por muito tempo se os membros mais novos não fossem socializados, pois para ocupar certas posições as pessoas devem adquirir certos conhecimentos. Assim, por exemplo, numa tribo da Amazônia, um adulto precisa saber pescar, caçar e guerrear, mas também precisa saber que tem obrigações como respeitar os mais velhos, ao sacerdote e aos deuses, sustentar a família e ser solidário com os demais membros da tribo. Na tribo, lentamente, por meio de conversas na família ou com amigos, através da observação das atitudes dos mais velhos e das festas e cerimônias, os mais jovens aprendem tudo o que necessitam para desempenhar os papéis que lhes reserva a vida adulta. Embora de maneira diversa, esse mesmo processo acontece com um jovem das sociedades urbanas e industriais do nosso tempo.
Viver em sociedade significa aprender a se comportar da maneira como as várias situações exigem. Esse aprendizado começa desde que a criança nasce e se prolonga vida afora. Para tanto, existem dois tipos de socialização: a primária e a secundária.
A socialização primária é a que o indivíduo experimenta na infância. Nessa fase, a criança conhece o mundo e a realidade social através das definições que a ela são dadas pelos familiares. O mundo tal qual lhe é apresentado pelos pais é o único que ela
27 conhece. Por isso, nessa fase, não há conflitos de identificação. A criança sente-se emocionalmente ligada à família, e os familiares são extremamente importantes e significativos para ela. No processo de socialização primária as normas e os valores sociais são interiorizados. A criança aprende os papéis correspondentes à sua posição e à dos demais membros familiares. Ao aprender o que deve ou não fazer uma criança, um filho e um irmão, ela está sendo moldada pela sociedade e vai formando sua personalidade. Para muitos autores, a socialização primária é a que mais influencia o ser humano.
A socialização primária termina quando a criança consegue perceber que as normas sociais não são feitas apenas para uma ou outra pessoa particular, mas para todas as pessoas. Por exemplo, quando percebe que a reprimida da mãe quando ela se apodera de alguma coisa que pertence ao irmão significa que ninguém deve se apoderar daquilo que pertence aos outros.
O processo de socialização secundária não termina; a bem dizer, ele segue por toda a vida. À medida que cresce, a criança participa de várias instituições, e essa participação envolve aprendizado. Ela aprende a linguagem típica de várias instituições, mais os valores e os comportamentos esperados dos membros que compõem as diferentes instituições. Assim, por exemplo, na escola a criança vai aprender a ser aluno e a ser cidadão. O mesmo acontecerá no mundo do trabalho. De acordo com a posição que vier a ocupar quando adulto – chefe ou empregado –, deverá saber o que se espera dele. Evidentemente, o aprendizado de muitas dessas posições pode ser antecipado, isto é, ocorre antes de a pessoa vir a ocupá-las. Isso facilita a acomodação do indivíduo ao papel. Por exemplo, desde a infância, a menina vai interiorizando o que um marido espera da esposa numa dada sociedade.
Se a socialização é vital para a sociedade e ela envolve práticas educativas, então podemos concluir que a educação é uma dimensão importantíssima para a vida social. Existem várias agências socializadoras numa sociedade. As principais são: a família, a escola, a religião, os grupos de amigos, os meios de comunicação de massa, entre outros.
Assim, as expressões socialização e educação têm o mesmo significado. A socialização sempre envolve um processo educativo, e todo processo educativo é um ato de socialização. Isso fica claro quando lemos a definição de educação dada por Durkheim.
“A educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre as gerações que não se encontra ainda preparadas para a vida social; tem por objetivo suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política no seu conjunto e pelo meio especial a que a criança, particularmente, se destina”.
A falta de distinção fica clara quando percebemos que, se trocarmos a palavra educação no início do parágrafo pela palavra socialização, teremos também uma boa definição de socialização. Para evitar confusão, alguns pedagogos estabeleceram uma distinção entre a educação formal, informal e não-formal.
28 Poucos são os estudos sobre a prática de educação não-formal, embora diferentes seguimentos da sociedade venham direcionando o olhar para esta pedagogia social como campos de conhecimento e de ação profissional.
A escola é uma instituição que desenvolve papel central na formação dos educandos que por ela passam, exercendo principalmente acesso aos conhecimentos historicamente sistematizados. Porém, a educação vai além do espaço delimitado pelos muros escolares e salas de aula.
O indivíduo ao longo de toda a trajetória de vida adquire conhecimentos concebidos por suas próprias experiências, por relações sociais com outros indivíduos, no âmbito familiar e em instituições educadoras formais e não formais. Esta última nada mais é que um processo de aprendizagem social centrada no indivíduo, por meio do desenvolvimento de atividades extraescolares. É um processo voluntário de aprendizagem e de educação fora da escola, que acontecem em ONGs, instituições religiosas, iniciativas particulares e programas sociais públicos.
Essa prática é necessária e importante quando se pensa em um processo educacional que priorize a prática de atividades que favoreçam atividades culturais, de criação, esportes, rodas de conversas, relações de trocas de vivências, entre diversas outras atividades educacionais. Tanto as conceitualizações quanto os trabalhos empíricos, apresentam interdisciplinaridade e flexibilidade como características desta modalidade de educação. A educação não-formal pode desenvolver-se nos mais variados espaços, sendo uma modalidade crescente no cenário nacional e pouco explorada nos meios acadêmicos.
No campo educacional existem três práticas diferentes, que acontecem separadas, porém, não independentes uma da outra, são elas: educação formal, educação informal e educação não-formal.
Educação formal trata-se do que ocorre dentro de escolas públicas e privadas, cursos de aperfeiçoamento e treinamento, etc., onde o desenvolvimento das aulas acontece na maioria das vezes dentro de uma sala, por meio de livros didáticos, lousa e caderno. Envolve todo o processo de transmissão de um conteúdo específico de modo intencional e dotado de método, regulamentos e periodicidade próprios.
A educação formal também recebe o nome de instrução. Porém, ela não se resume a instrução escolar. Não seria errado, então, designar como fazendo parte da educação formal cursos como astrologia, cozinha chinesa, jardinagem, etc.
29 Até bem pouco tempo, a educação formal se caracterizava por ser feita em um espaço próprio (a escola). Atualmente, com a difusão dos meios de comunicação de massa, temos o ensino sistemático a distância. A Universidade de Londres, uma das sérias e respeitáveis instituições de ensino superior do mundo, oferece vários cursos por correspondência. No Brasil, temos o exemplo do telecurso e os vários cursos à distância, oferecidos por meio da internet.
A educação informal está diretamente voltada ao comportamento, hábitos, valores não intencionados e não institucionalizados. Essa envolve todos os processos educativos que ocorrem no interior da sociedade e que não são dotados de métodos, regulamentos, periodicidade e conteúdo próprios. Assim, por exemplo, aos assistir um filme de espionagem, a pessoa pode se informar sobre o funcionamento do regime parlamentarista inglês. Porém, a informação não faz parte de uma programação predeterminada e não segue um método pedagógico específico. A mesma coisa pode ser dita dos desenhos animados atuais, que trazem consigo uma lição de moral. Apesar do caráter intencional, falta-lhes a sistematicidade programática e curricular típica da educação formal.
A prática da educação não-formal ocorre no período inverso ao que o aluno frequenta a escola regular.
De acordo com Libâneo (2002), podemos entender que a educação não-formal refere-se às organizações políticas, profissionais, científicas, culturais, agências formativas para grupos sociais, educação cívica, etc., com atividades de caráter intencional. A educação não-formal vem apresentando crescimento em nosso país, principalmente no estado de São Paulo onde obras sociais, organizações não governamentais e instituições privadas e religiosas, se preocupam com a realidade social de crianças e adolescentes que vivem principalmente em bairros periféricos e de baixa renda.
30 A prática da educação não-formal desenvolvidas por diversas instituições, ocupam o aluno com atividades produtivas e longe do tempo ocioso inverso ao escolar, onde um número grande de crianças ficariam pelas ruas, sujeitas à conhecerem uma realidade bastante real no país, como drogas, cigarro e bebida. Ao contrário, a criança ou adolescente frequentadora de projetos sociais, tem a oportunidade de aprenderem uma profissão, pelo fato de que a maioria das instituições e projetos de educação não-formal desenvolvem seus trabalhos por meio de oficinas culturais, esportivas e profissionalizantes.
A expressão “educação não-formal” começa a aparecer relacionada ao campo pedagógico simultaneamente a uma série de críticas ao sistema formalizado de ensino, em um momento em que diferentes setores da sociedade como serviço social, saúde, cultura, pedagógico e outros, veem o universo escolar e a família, impossibilitados de representar todas as demandas sociais que lhes são cabíveis, impostas ou ainda desejadas.
O termo educação não-formal apareceu no final da década de sessenta. Neste período surgem discussões pedagógicas, vários estudos sobre a crise na educação, as críticas radicais a instituição escolar, a formulação de novos conceitos e seus paradigmas. Assim esta crise é sentida na escola e acaba por favorecer o surgimento do campo teórico da educação não-formal
Dentre os fatores considerados importantes para o surgimento da educação não-formal, pode-se citar as mudanças ocorridas nas estruturas familiares de classe alta, e até mesmo aquelas mudanças que resultaram devido às modificações nas próprias relações de trabalho, assim como o fato das crianças e jovens na atualidade não terem espaço seguro para desenvolverem a socialização no mundo moderno e suas transformações, no sentido de redirecionarem e reorganizarem a estrutura familiar conforme as necessidades de espaço, trabalho e localidade, e até mesmo a preocupação de deixar os filhos, sendo que os pais, por opção ou por necessidade, são direcionados para o campo profissional.
Todas estas modificações, em seus contextos trouxeram a necessidade da sociedade se reorganizar, respondendo às mudanças inclusive no campo educacional.
Estes fatores levaram a percepção de que somente os modelos de educação difundidos pela escola e pela família já não mais davam conta da realidade social atual, entretanto não havia conhecimento, credibilidade e amadurecimento das propostas para preencher as lacunas existentes.
Cada característica promoveu por um lado o fortalecimento de uma nova maneira de compreender o papel da educação formal e por outro, para dar visibilidade a outros fazeres educacionais fora do contexto da escola tradicional, passando a legitimar e valorizar outras maneiras de educar e educar-se e, por fim, a compreensão e aceitação de que o meio também educa.
A educação não-formal está sendo difundida, mas não se restringindo somente aos processos de ensino-aprendizagem nas escolas formais, tem o seu foco em oficinas artesanais, culturais, esportivas e recreativas.
31 Os pais informalmente em casa, garantem a seus filhos as mesmas oportunidades dos “saberes”, porém a escola vem trazendo um saber elitizado e em muitas vezes, excluindo os já excluídos pela sociedade.
A educação transmitida pelos pais na família, na interação com os amigos, no convívio diário em clubes, teatros, leituras de jornais, revistas, livros, etc; são considerados temas da educação informal, aquela que ocorre nos espaços de possibilidades educativas no decurso na vida, tendo caráter permanente. O que difere a educação não-formal da informal, é que na primeira existe a intencionalidade de dados, dispostos a criar, proporcionar ou buscar determinadas qualidades com objetividade.
As mudanças econômicas, sociais, principalmente com relação ao mundo do trabalho, ocorrentes nos anos noventa trouxeram grandes destaques a educação não-formal. Os processos de aprendizagens em grupos passaram a serem valorizados, dando importância aos valores culturais que articulam as ações dos indivíduos. Passou-se, ainda, a falar de uma nova cultura organizacional que, em geral exige aprendizagem de habilidades extraescolares. Mas, o novo campo para a educação não-formal não se formou apenas pelas mudanças econômicas e pelos apelos da mídia que utilizava atividades e projetos desenvolvidos em entidades sociais como pano de fundo para incentivos fiscais ou abatimentos em deduções fiscais.
Educação não-formal: práticas e realidades
A educação não-formal vai além do assistencialismo. Visa ao desenvolvimento de valores, acreditando que a aprendizagem se dá por meio das práticas sociais, respeitando as diferenças existentes para a absorção e elaboração dos conteúdos implícitos ou explícitos no processo ensino e aprendizagem.
A flexibilidade é bastante presente no estabelecimento dos conteúdos que permeiam a educação não-formal, assim como a criação e organização de seus espaços, sendo criados e recriados conforme os modos de ação previstos nos objetivos maiores que dão sentido ao fato de determinadas necessidades de grupos sociais pertencentes à comunidade estarem se reunindo.
Os espaços de educação não-formal, segundo Simson e Park (2001), deverão ser desenvolvidos segundo alguns princípios como:
• Apresentar caráter voluntário;
• Proporcionar elementos para a socialização e solidariedade; • Visar o desenvolvimento social;
• Favorecer a participação coletiva;
• Proporcionar a investigação e, sobretudo proporcionar a participação dos membros do grupo de forma descentralizada.
32 Assim, devem ser considerados os desejos e anseios da comunidade com a qual se pretende trabalhar e partindo de estudos, do conhecimento da realidade em questão, fazer uma integração com as ações a serem desenvolvidas.
A partir destas caracterizações, fica claro que não há como pensar a educação não-formal sem levar em consideração a comunidade, pois é muito difícil o envolvimento voluntário e de doação das pessoas com algo a que não se sintam pertencentes. Por estas razões, atualmente muitos projetos foram fundados e contam não somente com voluntários, mas também com funcionários contratados de acordo com as leis trabalhistas, dentre eles, professores, secretários, assistentes sociais, psicólogos, etc. Em determinados municípios esses projetos ou instituições recebem auxílio financeiro para o pagamento de seus funcionários.
Quando a escola é vista como um espaço social, levando em conta os constantes processos de construção de identidade, sendo eles de caráter pessoal e social, automaticamente temos que pensar em práticas que o tempo todo nos faça manter parceiros da sociedade, favorecendo processos, onde a mesma possa integrar e transformar.
Muitas entidades e projetos sociais, organizam as suas atividades enriquecendo seus espaços com atividades comumente denominadas de oficinas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Educação não formal: pedagogia social transformadora e motivadora.
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GOHN, Maria da Glória. Educação não-formal e cultura política. São Paulo: Cortez, 2007. _____________. Sociologia dos Movimentos Sociais. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2014.
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TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia. 3ª ed. São Paulo: Saraiva, 2013. TRILLA, J. A pedagogia da felicidade. Porto Alegre: Artmed, 2006.
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PERFEIÇÃO
Legião Urbana – 1993 Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão Vamos celebrar nosso governo E nosso Estado, que não é nação Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas Celebrar nossa desunião Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades Vamos celebrar nossa tristeza Vamos celebrar nossa vaidade. Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado Todos os mortos nas estradas Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça A ganância e a difamação Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo Nosso pequeno universo Toda hipocrisia e toda afetação Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias: É a festa da torcida campeã.
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir Não se ter a quem amar Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração Vamos celebrar nossa bandeira Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional (A lágrima é verdadeira) Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão. Vamos festejar a inveja A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar A estupidez de quem cantou esta canção.
Venha, meu coração está com pressa Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta Chega de maldade e ilusão.
Venha, o amor tem sempre a porta aberta E vem chegando a primavera -
Nosso futuro recomeça: Venha, que o que vem é perfeição