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ART 210 Cristiano Almeida

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Academic year: 2018

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ACADEMIA MILITAR

AS RELAÇÕES ENTRE PORTUGAL E A OTAN

NO PERÍODO DE 1947 A 1960.

Autor: Aspirante de Artilharia Cristiano Fonseca de Almeida

Orientador: Mestre Eurico Manuel Curates Rodrigues

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ACADEMIA MILITAR

AS RELAÇÕES ENTRE PORTUGAL E A OTAN

NO PERÍODO DE 1947 A 1960.

Autor: Aspirante de Artilharia Cristiano Fonseca de Almeida

Orientador: Mestre Eurico Manuel Curates Rodrigues

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Dedicatória

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Agradecimentos

Em primeiro lugar, gostaria de apresentar os mais sinceros agradecimentos à Acade-mia Militar, Esta que será sempre minha a “casa-mãe”, por desde cedo apelar ao sentido crítico e de proporcionar todas as ferramentas necessárias, incluindo o gosto pelo tema es-colhido, para a elaboração do presente estudo.

Agradeço os contributos, que se revelaram fundamentais, das personalidades entre-vistadas.

Ao professor Doutor António José Telo, pela enorme partilha de conhecimento sobre a temática e pela genuína predisposição de contribuir para a realização do presente trabalho. Ao professor Doutor Nuno Severiano Teixeira, pela sua disponibilidade e atenciosa preocupação em partilhar o seu vasto conhecimento, incentivando ainda a uma multiplici-dade de perspetivas existentes na temática.

E, de igual modo, ao Coronel (Doutor) Nuno Lemos Pires, pela divulgação do seu profundo conhecimento referente à temática e a sua inteira disposição para a contribuição da presente investigação.

Com a maior consideração, um especial sinal de apreço ao meu orientador, professor Eurico Curates Rodrigues, por toda a disponibilidade, empenho e dedicação ao longo de toda a investigação que possibilitou a realização do presente trabalho, reconhecendo que sem o seu auxílio a realização do mesmo não teria sido possível.

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Epígrafe

“ Se a guerra é a lei permanente das relações políticas, paz e guerra não se excluem e podem coexistir, isto é, tudo, em certos aspectos, é «guerra», mesmo a «paz». E se a guerra é o facto constante, isto é, a dialéctica interna da história, trata-se de um fenómeno permanente e que não se pode entender apenas como uma luta militar, já que esta só se verificará quando for julgada dialecticamente necessária.”

(6)

Resumo

No período pós-II Guerra Mundial, Portugal encontra-se num impasse relativamente à sua Política de Defesa Nacional, e nesse contexto, importa perceber: “Quais foram as im-plicações da entrada de Portugal na OTAN, quanto à sua Política de Defesa Nacional?” Pre-tende-se, com esta questão, uma comparação da Política de Defesa Nacional do Estado por-tuguês, nos períodos anterior e posterior à assinatura do Tratado do Atlântico Norte.

Essa situação surge em consequência do desaparecimento do Sistema Internacional conhecido até à II Guerra Mundial. Por sua vez, no âmbito das relações internacionais, no-meadamente entre os Estados Ocidentais e os do Leste da Europa – que acabam por formar dois blocos – leva a que a Europa se encontre numa situação sem precedentes, em que o seu poder central move-se para a URSS, sendo que os restantes países europeus se encontram demasiado fustigados pela guerra para responder a tal facto.

Assim sendo, recorrendo a uma análise documental, reforçada com a elaboração de entrevistas exploratórias e semidiretas a três personalidades de elevado conhecimento na temática e de consagrada notoriedade na área em estudo – Professores Doutores António José Telo, Nuno Severiano Teixeira e Coronel (Doutor) Nuno Lemos Pires – foi possivel elevar a investigação a um patamar mais audacioso, conferindo às conclusões uma maior solidez.

Uma vez que o presente estudo pretende uma abordagem qualitativa baseada numa metodologia hipotético-dedutiva e descritiva, mais concretamente um estudo de caso, pôde--se epilogar que a OTAN se revelou uma enorme mais-valia para a Política de Defesa Naci-onal portuguesa num período onde as soluções eram praticamente inexistentes e que um dos aspetos que consubstancia a integração de Portugal na Organização é, efetivamente, a enorme importância geostratégica e geopolítica dos Açores e do triângulo estratégico portu-guês, que acabam por demonstrar o imenso poder funcional português.

(7)

Abstract

In the post-II world war period, Portugal finds itself deadlocked about its National Defence Policy, and in this context, is important to understand: “What were the implications of the entry of Portugal to NATO in terms of his National Defence Policy?” Intended it is with this question, to produce a comparison of the National Defence Politic Portuguese State, before and after signing of the North Atlantic Treaty.

That situation arises in consequence of the disappearance of the International System known until the II World War. Regarding that, in the context of international relations, par-ticularly between the Western States and the Eastern european States – which culminated in the establishment of two colligations – leads Europe to an unprecedented situation in its history, in which its central power moved to USSR, and other european States are too buf-feted to respond to that fact.

In that way, using a documental analysis, which was reinforced with the execution of semi direct and explorative interviews to three entities with high knowledge and distinct reputation about the thematic – Professors Doctors António José Telo, Nuno Severiano Teixeira and the Coronel (Doctor) Nuno Lemos Pires – it was possible to raise the investi-gation to an audaciously level, giving greater strength to the conclusions.

Therefore, the present investigation aims a qualitative approach based on a method-ology hypothetic-deductive and descriptive, methodmethod-ology, sustained in a study case. In that way, we can epilogue that NATO revealed itself very important to the Portuguese National Defence Policy, in one period which Portugal didn´t have solutions and the most important desideratum to America regarding Portugal integration in the Organisation was an immense importance geostrategic and geopolitics of Azores and the strategic Portuguese triangle, which ending to prove the huge functional power of Portugal.

(8)

Índice Geral

Dedicatória... ii

Agradecimentos ... iii

Epígrafe ... iv

Resumo ... v

Abstract ... vi

Índice de figuras ... x

Índice de quadros ... xi

Lista de apêndices ... xii

Lista de anexos ... xiii

Lista de abreviaturas, siglas e acrónimos ... xiv

Capítulo 1 - Introdução ... 1

1.1. Finalidade e generalidades ... 1

1.2. Enquadramento ... 1

1.3. Justificação da investigação ... 3

1.4. Objetivo geral e objetivos específicos... 4

1.5. Pergunta de partida e perguntas derivadas ... 5

1.6. Hipóteses ... 5

1.7. Metodologia ... 6

1.8. Estrutura do trabalho e síntese dos capítulos ... 7

Capítulo 2 - Metodologia ... 8

2.1. Prelúdio ... 8

2.2. Método de abordagem ao problema ... 10

2.3. Técnicas, procedimentos e meios utilizados ... 10

2.4. Local e data da pesquisa e da recolha de dados ... 11

2.5. Amostragem: composição e justificação ... 11

(9)

Índice Geral

Capítulo 3 - Sistema Internacional ... 13

3.1. Prelúdio ... 13

3.2. Conceptualização ... 13

3.3. Agentes do Sistema Internacional ... 15

3.3.1. Estado-Nação ... 15

3.3.2. Organizações Internacionais ... 16

3.3.2.1. Organização do Tratado do Atlântico Norte ... 17

3.4. Sistema Internacional no período 1947-1960 ... 23

3.4.1. Portugal no Sistema Internacional ... 26

Capitulo 4 - Política de Defesa Nacional no período de 1947-1960 ... 31

4.1. Prelúdio ... 31

4.2. Defesa Nacional e Política de Defesa Nacional ... 32

4.3. Portugal Insular ... 34

4.3.1. Período precedente à OTAN ... 35

4.3.2. Período posterior à OTAN ... 38

4.4. Portugal continental ... 41

4.4.1. Período precedente à OTAN ... 41

4.4.2. Período posterior à OTAN ... 43

4.5. Províncias Ultramarinas ... 45

4.5.1. Período precedente à OTAN ... 45

4.5.2. Período posterior à OTAN ... 45

4.6. Forças Armadas ... 47

4.6.1. Período precedente à OTAN ... 47

4.6.2. Período posterior à OTAN ... 48

Capítulo 5 - Conclusões e recomendações ... 51

5.1. Introdução ... 51

5.2. Cumprimento dos objetivos ... 51

5.3. Respostas às questões derivadas ... 51

5.4. Verificação das hipóteses ... 53

5.5. Resposta à questão central ... 54

5.6. Limitações da investigação ... 55

(10)

Índice Geral

(11)

Índice de figuras

Apêndices

Figura 1 - Triângulo estratégico português. ... 15

Anexos Figura 2 - Etapas do procedimento. ... 2

Figura 3 - Método hipotético-dedutivo versus hipotético-indutivo ... 2

Figura 4 - Estrutura da OTAN em dezembro de 1949. ... 3

Figura 5 - Estrutura da OTAN em maio de 1951. ... 3

Figura 6 - Estrutura da OTAN em julho de 1954. ... 4

Figura 7 - Fluxograma do modelo de elaboração da PDN. ... 5

Figura 8 - Defesa dos Pirenéus. ... 6

Figura 9 - Dispositivo OTAN na Europa no final dos anos 50. ... 7

(12)

Índice de quadros

Apêndices

Quadro 1 - Guião das Entrevistas por módulos temáticos

com referências aos objetivos específicos. ... 5 Quadro 2 - Lista dos entrevistados e dados técnicos ... 7 Quadro 3 - Análise das respostas às questões: B1, B2, C1,

(13)

Lista de apêndices

Apêndice A - Guião das entrevistas ... 2

Apêndice B - Análise dos resultados das entrevistas. ... 8

Apêndice C - Triângulo estratégico português. ... 15

(14)

Lista de anexos

Anexo A - As etapas do procedimento e método

dedutivo versus indutivo. ... 2

Anexo B - Evolução estrutural da OTAN. ... 3

Anexo C - Modelo de elaboração da PDN. ... 5

Anexo D - Linha de defesa dos Pirenéus ... 6

Anexo E - Dispositivo defensivo da OTAN na Europa. ... 7

(15)

Lista de abreviaturas, siglas e acrónimos

A

ACLANT Allied Command Atlantic (Comando Aliado do Atlântico)

AM Academia Militar

AOS António de Oliveira Salazar

APA American Psychological Association (Associação de Psicolo-gia Americana)

C

CAPDN Conselho de Ação Política de Defesa Nacional CEMGFA Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas

Cfr Conforme

CO Correspondência Oficial

CSDN Conselho Superior de Defesa Nacional CSM Conselho Superior Militar

D

DL Decreto-Lei

E

EA Escola das Armas

EME Estado-Maior do Exército

EUA Estados Unidos da América

F

FA Forças Armadas

FAP Força Aérea Portuguesa

I

IAEM Instituto de Altos Estudos Militares

(16)

Lista de abreviaturas, siglas e acrónimos

M

MAAG Military Assistance Advisory Group (Grupo Consultivo de Assistência Militar)

MDN Ministério da Defesa Nacional

N

NE Negócios Estrangeiros

NEP Normas de Execução Permanente

O

OAZR Orla Anterior da Zona de Resistência OEDN Objetivos Estratégicos de Defesa Nacional

ONA Objetivos Nacionais Atuais

ONP Objetivos Nacionais Permanentes

ONU Organização das Nações Unidas

OTAN Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO – North Atlantic Treaty Organization)

P

PDN Política de Defesa Nacional

R

RI Relações Internacionais

S

SAC Strategic Air Command (Comando Aério Estratégico)

SACUER Supreme Allied Commander Europe (Comando Supremo Aliado da Europa)

SACLANT Supreme Allied Command Atlantic (Comando Supremo Ali-ado do Atlântico)

SHAPE Supreme Headquarters, Allied Powers Europe (Supremo Quarel-General das Forças Aliadas – Europa)

SI Sistema Internacional

T

TIA Trabalho de Investigação Aplicada U

UNL Universidade Nova de Lisboa

(17)

Lista de abreviaturas, siglas e acrónimos

(18)

Capítulo 1

Introdução

1.1. Finalidade e generalidades

No âmbito da estrutura curricular dos cursos da Academia Militar desenvolveu-se o

presente trabalho subordinado ao tema “As Relações entre Portugal e a OTAN no período

de 1947 a 1960”. Tem como finalidade a comparação da Política1 de Defesa Nacional (PDN) precedente ao Tratado de Washington com a mesma política no período posterior à assina-tura do Tratado por parte de Portugal, analisando o que levou a essas mesmas alterações.

A presente introdução tem por objetivo explanar sucintamente a temática e a proble-mática do estudo em causa, dando-lhe também o necessário enquadramento geral. De se-guida, apresenta quais os objetivos a que o estudo se propõe, formulando a questão central e questões derivadas com as respetivas hipóteses de resposta à questão central. Por fim, será referida a metodologia e toda a estrutura em que se baseia a presente tese.

1.2. Enquadramento

Após a II Guerra Mundial surge um novo Sistema Internacional (SI). Tal como ensina Mendes Dias (2007, p. 27) “(…) aceitamos como pressuposto a existência de um sistema internacional e que, portanto contornamos por questão de método o pensamento de autores como Donald Lampert, Lawrence Fallowski e Richard Mansbach, que questionam essa exis-tência (1978)”, sistema esse que leva o seu tempo a ser compreendido pelos dirigentes por-tugueses (Telo, 1996a). O continente europeu, habituado a pensar em si como o centro do mundo, termina a guerra enfraquecido, e Portugal vive com um verdadeiro choque a perda

1 Segundo Bobio (2000 in Dias C. M.,, 2010, p. 85) é a “(…) actividade ou as actividades que têm de algum

(19)

Capítulo 1 – Introdução

do poder2 da Europa, principalmente a perda de poder relativo3 da Inglaterra, que deixa de

conseguir garantir as suas funções tradicionais da aliança luso-britânica (Telo, 1996b). Em contrapartida, se até aqui Portugal teria conseguido manter a sua posição neutra, de agora adiante essa neutralidade começa a demonstrar-se impraticável (Telo, 1995). Isto, natural-mente, na perspetiva realista das relações internacionais de que não é neutral quem quer, é neutral quem pode.4

Segundo Adriano Moreira (1999) este novo SI consubstanciava-se fundamentalmente em dois Estados que, mais tarde, seriam promovidos à dignidade de superpotências, depois de conhecida a domesticação da energia atómica – a dois de dezembro, por Enrico Fermi – e esta, por sua vez, testada em 16 de julho de 1945 por Robert Oppenheimer.

Durante a primeira fase do SI em questão, de 1945 a 1960/61, o aparecimento da OTAN vem trazer uma profunda reformulação no que concerne à PDN de Portugal.

Nesta perspetiva, pretende-se contribuir para uma melhor compreensão epistemoló-gica, estabelecendo-se uma comparação entre duas PDN completamente distintas. Uma, onde a aliança luso-britânica, isolada, não tinha condições de assegurar as necessidades da

2 Tendo em consideração Joseph Nye Jr. (2012), a definição de poder, nas Relações Internacionais (RI), é muito contestada, não existindo uma definição genérica que seja aceite por todos os seus utilizadores. Desta forma é essencial, quando falamos de poder de um determinado ator, especificarmos que poder de execução tem esse mesmo ator, ou seja, poder para fazer o quê. É ainda importante determinar quem está envolvido na relação de poder e qual o domínio do poder envolvido. Esse poder poderá ser definido como recursos – por exemplo o urânio que até à era nuclear não era fonte de poder – ou ainda como resultado comportamental, onde o poder, numa conceptualização weberiana, é a capacidade de alterar o comportamento alheio, tendo em vista a produ-ção de resultados desejados. Por outro lado, Adriano Moreira (1997, p. 106) entende-o como “(…) a capacidade de estabelecer e manter controlo do homem sobre o homem, ou de uma entidade política sobre outra, analisa-se num conjunto de elementos, desde a violência física aos meios de constrangimento económico e financeiro aos métodos da engenharia social que induzem a adesão e obediência da sociedade civil”.

3 Segundo Mendes Dias (2005), a natureza do poder pode-se organizar em três bases, sendo elas: Objetiva, Subjetiva e Relativa. No que diz respeito à base relativa “Integra um conjunto de fatores que só tem significado

numa relação com outrem. (…) No âmbito desse conjunto de fatores incluem-se as circunstâncias da eventual aplicação do poder; especificando e, por exemplo, circunstâncias de lugar de aplicação, distância de aplicação

e dos meios a serem aplicados” (Dias C. M., 2005, p. 221). De acordo com Joseph Nye Jr., o poder relacional

subdivide-se em três aspetos: o primeiro concentra-se “(…) na capacidade de levar os outros a agir de formas

contrárias às suas preferências e estratégias iniciais” (Nye, 2012, p. 30). Por sua vez, o segundo aspeto refere

-se à possibilidade de “(…) modelar as preferências dos outros afetando-lhe as expectativas do que é legítimo

ou exequível” (Nye, 2012, p. 31). Por fim, o último aspeto refere que se “(…) conseguirmos levar os outros a querer os mesmos resultados que nós, não será necessário contornar os desejos iniciais dos outros” (Nye, 2012,

p. 32).

(20)

Capítulo 1 – Introdução

defesa de Portugal, e, por outro lado, as relações bilaterais com os EUA tendiam a ser com-plicadas. Outra, onde a OTAN é a base da PDN, simultaneamente com o relacionamento bilateral com os EUA e Espanha. Assim, pretende-se sistematizar as principais implicações da entrada na OTAN relativamente à PDN de Portugal.

1.3. Justificação da investigação

Durante a primeira fase da Guerra-fria5, Portugal depara-se com uma peculiar

situa-ção quanto à sua PDN, levando a uma busca de resoluções que se enquadrassem com a sua posição nesse novo sistema. Essa procura culmina com a entrada, como membro fundador, na OTAN que levou a um amplo leque de implicações na sua PDN, que segundo Telo

(1996a, p.196) “ Foi a formulação da NATO que permitiu que o impasse fosse ultrapassado, e isso mudou por completo a política de defesa nacional.”

A escolha das datas de delimitação surgem segundo a seguinte linha de pensamento: Até 1947, a PDN baseia-se na Lei n.º 1905, de 22 de maio de 1935, onde são consa-gradas as bases em que deve assentar a organização superior da defesa nacional. A partir de 1947 essa política encontra-se num impasse. O pedido de ajuda à Inglaterra e a resposta desta, não garantia a defesa nacional (Telo,1996a). Esta situação culmina com a Lei n.º 2024, de 31 de maio de 1947, que vem estabelecer as bases da defesa nacional, que não são mais que uma reforma à Lei de 22 de maio de 1935;

5 No que diz respeito à expressão interessa compreender em primeiro lugar o significado de guerra. Assim,

seguindo o ensinamento de Clausewitz (in Couto, 1988a, p. 144) “(…) a guerra é um acto de violência cujo

objetivo é forçar o adversário a aceitar a nossa vontade”. Por outro lado, Cabral Couto (1988a, p. 148)

define-a como “(…) violêncidefine-a orgdefine-anizdefine-addefine-a entre grupos políticos, em que o recurso à lutdefine-a define-armdefine-addefine-a constitui, pelo menos,

uma possibilidade potencial, visando um determinado fim político, dirigida contra as fontes de poder do ad-versário e desenrolando-se segundo um jogo contínuo de probabilidades e azares.”

Desta forma, podemos entender o conceito de Guerra-fria, que segundo Cabral Couto (1988a) encon-tra-se no espetro da guerra (ver Figura 10 no Anexo F – Espetro da guerra), como uma Guerra Internacional, incluindo uma gama de ações em que a coação –sendo que a coação não é mais que “(…) o emprego ou ameaça

de emprego da força, de forma a obrigar o adversário a aceitar os nossos pontos de vista” (Couto, 1988a, p. 81)

–, reveste várias formas: económica, psicológica, diplomática e política no interior do adversário. Estas formas de coação são combinadas com todo o aprontamento e preparação de meios militares. A Guerra-fria pode subdividir-se em dois níveis, “(…) a intervenção insidiosa e a intervenção aberta” (Couto, 1988a, p. 154).

A intervenção insidiosa abarca “(…) ações muito próximas das práticas diplomáticas normais de

“tempo de paz”, mas conduzidas com uma intenção estratégica.” (Couto, 1988a, p. 154). Pode-se basear em ações diplomáticas, de política interna, psicológicas e económicas com incidência politico-estratégica (Couto, 1988a, p. 154).

A intervenção aberta, por sua vez, “(…) corresponde a uma tomada de posição pública, podendo en-globar o acolhimento e o reconhecimento de governos no exílio, boicotes ou sanções económicas, corte de relações diplomáticas, o fornecimento de armas, de instrutores, de auxílio financeiro ou de instalações a movi-mentos subversivos, etc” (Couto, 1988a, p. 154 e 155).

Outro conceito surge com Raymond Aron (1986, p. 245) que alega que a Guerra-fria surge quando

(21)

Capítulo 1 – Introdução

É em 1960/61 que termina a primeira fase da Guerra-fria, sendo que, também no ano seguinte se iniciam os movimentos de libertação, não visando o nosso estudo abarcar a PDN no período da guerra colonial.

Assim, propomo-nos a contribuir para a compreensão das implicações da entrada de Portugal na OTAN, no que diz respeito à sua PDN, analisando ainda a adequação das possi-bilidades da OTAN às necessidades da defesa de Portugal.

1.4. Objetivo geral e objetivos específicos

O presente trabalho tem como objetivo6 principal a comparação da PDN no período precedente da Aliança Atlântica com a mesma política no período posterior ao Tratado, de forma a determinar quais as implicações na PDN do Estado português com a sua entrada na OTAN.

Como objetivos específicos fundamentais da investigação teremos: a importância do

“triângulo estratégico português” (Lisboa-Funchal-Ponta Delgada), na perspetiva do Estado pluricontinental, abordando desta forma a sua posição geográfica e suas influências na PDN. Focar-nos-emos também na vertente do império português, nos constrangimentos que as colónias trouxeram a Portugal no âmbito da PDN. De salientar que Portugal é o único país, fundador e membro, que não é uma democracia pluralista7, um outro aspeto que merece um detalhado estudo referente à sua implicação na PDN, abordando desta forma o regime político em questão.

6 Segundo ensina Freixo (2012, p. 192) por objetivo deve-se entender “(…) um enunciado declarativo que precisa as variáveis-chave, a população alvo e a orientação da investigação. Indicando consequentemente o que o investigador tem intenção de fazer no decurso do estudo”.

7 Dividindo os termos, temos: Segundo Adriano Moreira (1997, p. 308) a democracia é vista como “(…) os

regimes que se orientam pelo objetivo de estabelecer juridicamente as “técnicas da liberdade” individual, de modo a que o poder se baseará no consentimento de todos, ficando as maiorias obrigadas a respeitar os

direi-tos das minorias, e assegurada a alternância no exercício do poder. As “técnicas da liberdade” conduzem a

uma tipologia constitucional, falando-se em regimes presidenciais, de assembleias parlamentares, ou dualis-tas, variantes orientadas pela mesma concepção de vida, cujo principal texto são as Declarações de Direitos

do Homem.”

Por sua vez, o pluralismo existe “When valued through mutual respect and recognized through inclusive citi-zenship, human diversity becomes an engine of social and economic innovation. But when devalued or de-based, diversity becomes an axis for exclusion and an excuse for violence.

In pluralist societies, peace, prosperity and security are accessible to all.

(22)

Capítulo 1 – Introdução

Por último, temos a importância dos EUA para a defesa de toda a Europa, através da OTAN, pelo que importa estudar de que forma a relação bilateral com Portugal afeta direta-mente a sua PDN.

1.5. Pergunta de partida e perguntas derivadas

A pergunta de partida8 que vem expor o problema a esclarecer é colocada da seguinte

forma: “Quais foram as implicações da entrada de Portugal na OTAN, quanto à sua Política

de Defesa Nacional?”

De forma a alcançar a resposta à questão central, formularam-se várias questões de-rivadas que delimitam a nossa investigação:

1. Quais foram as implicações da posição geográfica de Portugal quanto à sua PDN?

2. Quais foram as implicações do regime político de Portugal quanto à sua PDN? 3. De que forma a entrada de Portugal na OTAN afetou a sua PDN?

4. Quais foram as implicações das relações bilaterais com os EUA na PDN por-tuguesa?

1.6. Hipóteses

Com base na revisão de literatura realizada, são elaboradas hipóteses9 de carácter dedutivo, de resposta à questão central:

H1: Portugal não deixa inteiramente a secular aliança com a Inglaterra mas baseia essencialmente a sua PDN na OTAN e na relação com os EUA, o que obriga a uma política de defesa europeia e atlântica. A península servirá apenas de apoio à defesa do seu regime político. Por outro lado, o império será da sua inteira responsabilidade.

H2: Portugal não deixa inteiramente a secular aliança com Inglaterra mas baseia a sua PDN essencialmente na OTAN, na relação com os EUA e não deixa a ideia de uma defesa peninsular, sendo esta também de defesa de regime, totalmente de parte, apoiando

8A pergunta de partida ou questão central consiste “(…) em dizer, de forma explícita, clara, compreensível e operacional, qual a dificuldade com a qual nos confrontamos e que pretendemos resolver, limitando o seu

campo e apresentando as suas características” (Freixo, 2012, p. 185). Já segundo Fortin (1999, p. 63) a questão

de partida não é mais que “a questão que serviu de fundo à formulação do problema em causa de forma a orientar a escolha do tipo de estudo a realizar.”

9 Segundo ensina Freixo (2012, p. 192 e 193) “As hipóteses constituem um elemento útil para justificar o estudo e garantir-lhe uma orientação. (…) Uma hipótese é uma sugestão de resposta para o problema, (…),

(23)

Capítulo 1 – Introdução

ainda a defesa europeia e atlântica. Por sua vez, a defesa do seu império será da sua inteira responsabilidade.

H3: Portugal deixa totalmente a secular aliança com Inglaterra e baseia a sua PDN em três pontos: na OTAN, nos EUA e na Península Ibérica. Defende o seu regime numa defesa peninsular com acordos unindo-se à Espanha, aposta a defesa de Portugal continental nas relações bilaterais com os EUA, e numa perspetiva peninsular com a Espanha, participa ainda na defesa avançada da Europa. A defesa do Atlântico será baseada na OTAN tal como a defesa do seu império.

1.7. Metodologia

O presente estudo cumpre fundamentalmente as normas em vigor na Academia Mi-litar, plasmadas na 2ª edição da Norma de Execução Permanente (NEP) n.º 520, de 1 de junho de 2013. Foi ainda necessário recorrer, subsidiariamente, às Normas da 6ª Edição das

American Psychological Association (APA) para as situações não abrangidas pela referida NEP.

O estudo compreenderá uma investigação qualitativa10, uma vez que a análise está

focada na compreensão absoluta e ampla do fenómeno em estudo. O desenvolvimento do conhecimento, seguindo esta abordagem de investigação, deverá basear-se na descrição e interpretação do tema em estudo (Freixo, 2012, p. 172).

A análise segue um método dedutivo11, partindo assim de “(…) premissas gerais em busca de uma verdade particular” (Freixo, 2012, p. 106), completa-se ainda com um método descritivo, em que assenta em várias formas de pesquisa para observar e descrever compor-tamentos e dessa forma fornecer uma caracterização precisa das variáveis envolvidas num fenómeno (Freixo, 2012). Relativamente aos procedimentos de obtenção de dados identifica-se com o estudo de caso, utilizando uma grande variedade de técnicas de recolha e análiidentifica-se de dados, tais como as entrevistas, observações e análise documental ou artefactos (Freixo, 2012).

No estudo de caso, o conhecimento produzido advirá de um paradigma crítico, sendo a sua essência emancipar, criticar e identificar o potencial de mudança (Freixo, 2012).

10 Como ensina Freixo (2012, p. 173), uma investigação qualitativa visa o ato de ”(…) descrever ou interpretar

mais do que avaliar”, sendo essencial a compreensão do fenómeno por parte do investigador (Freixo, 2012). 11Por sua vez, o método dedutivo consiste em partir “(…) da lei geral, da teoria, a que se chega mediante a

(24)

Capítulo 1 – Introdução

Numa fase inicial, o estudo consistirá numa pesquisa e consulta documental em fon-tes primárias e secundárias, de forma a recolher toda a informação necessária. Será também nesta fase que serão realizadas as entrevistas que serão estruturadas, uma vez que as questões serão previamente formuladas (Freixo, 2012), preferencialmente exploratórias, em que o in-vestigador centrar-se-á maioritariamente na troca de informação em torno das hipóteses do trabalho, sem excluir os desenvolvimentos paralelos suscetíveis de as corrigirem, de forma a testar essas mesmas hipóteses (Quivy & Campenhoudt, 2008). Estas mesmas entrevistas serão direcionadas a personalidades de elevada notoriedade, conhecimento e responsabili-dade na temática em estudo.

As referidas entrevistas permitirão objetivar a recolha de experiências e os factos não registados documentalmente, e desta forma, associar a informação teórica à informação ob-tida por seu intermédio. Com a combinação da informação pretende-se obter as respostas às perguntas derivadas, que consequentemente levarão à resposta, sustentada, da questão cen-tral.

1.8. Estrutura do trabalho e síntese dos capítulos

O presente trabalho encontra-se dividido em cinco capítulos, inserindo-se nestes a

“Introdução” e as “Conclusões e recomendações”.

Seguindo a lógica do trabalho a “Introdução”, que tem por fim o enquadramento,

justificação e pertinência da investigação, é apresentada como capítulo inaugural.

Como segundo capítulo, referimo-nos à “Metodologia”, explanando todos os proces-sos fundamentais na produção do estudo.

De seguida, apresentamos uma análise dos principais agentes do SI, de maior rele-vância para o estudo, e a respetiva análise do sistema no período à data. Ainda neste capítulo, é elaborada uma explicação sintetizada do papel desempenhado por Portugal no SI, culmi-nando desta forma o terceiro capítulo, denominado de “Sistema Internacional”.

Por sua vez, no quarto capítulo abordamos uma breve mas essencial conceptualização sobre a PDN, para de seguida referirmos as implicações de Portugal insular, Portugal conti-nental, o seu império e as Forças Armadas (FA) nacionais na PDN no período de 1947 a 1960.

(25)

Capítulo 2

Metodologia

2.1. Prelúdio

Segundo Freixo (2012, p. 30) “(…) todo o saber deve perspetivar o saber-fazer e o saber-ser, atitudes em que assenta e se compreende a necessidade de saber-investigar” para tal, é essencial a adoção de um espírito científico que leve a uma procura de soluções sérias, com os métodos mais indicados relativamente aos problemas em questão (Freixo, 2012). Desta forma, a investigação científica12 inicia-se com “(…) uma ideia geral colhida da

rea-lidade ou refletida da teoria, que se converte, progressivamente numa questão específica”

(Freixo, 2012, p. 31). Para responder a essa questão é necessária a adoção de um conjunto de procedimentos e métodos13. Estes complementam-se, sendo que os primeiros representam

“(…) uma forma de progredir em direcção a um objectivo” (Quivy & Campenhoudt, 2008, p. 25) e os segundos “(…) não são mais do que formalizações particulares do procedimento, percursos diferentes concebidos para estarem mais adaptados aos fenómenos ou domínios

estudados” (Quivy & Campenhoudt, 2008, p. 25). Dessa forma, é possível obter-se a formu-lação de hipóteses e o respetivo quadro teórico14 (Freixo, 2012). Como Quivy e Campe-nhoudt (2008) ensinam, o procedimento consubstancia-se em várias etapas: a pergunta de

12Como ensinam Burns e Groove (1993 in Fortin, 1999, p. 17) é “(…) um processo sistemático, efectuado como objectivo de validar conhecimentos já estabelecidos e de produzir outros novos que vão, de forma directa

ou indirecta, influênciar a prática.”

13 Definindo método ou método científico segundo Freixo (2012, p. 84) dizemos que este “(…) consiste em estudar um fenómeno da maneira mais racional possível, de modo a evitar enganos, procurando sempre evi-dências e provas para as ideias, conclusões e afirmações, ou ainda, conjunto de abordagens, técnicas e proces-sos para formular e resolver problemas na aquisição de objetiva do conhecimento. O Método Científico é

utilizado em ciência na produção de conhecimentos, como procedimento e forma de atuar”.

Freixo (2012, p. 88) diz ainda que “O método é o conjunto das atividades sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar o objetivo – conhecimentos válidos e verdadeiros –, traçando o

caminho a ser seguido, detetando erros e auxiliando as decisões do investigador.”

14 Quadro teórico, quadro de referência ou quadro conceptual, são quadros de “(…) uma generalização abstracta que situa o estudo no interior de um contexto e lhe dá uma significação particular, isto é, uma forma de perceber

o fenómeno em estudo” (Fortin, 1999, p. 93). Por outro lado, segundo Pedhauzur e Schmelkin (1991 in Fortin,

1999, p. 93) o quadro teórico “(…) fornece uma orientação particular para um estudo, sobre o qual o

(26)

Capítulo 2 – Metodologia

partida; a exploração15; a problemática16; a construção do modelo de análise17; a

observa-ção18; a análise das informações19; as conclusões20. Para além dessas etapas, os autores

abor-dam ainda um processo de três atos cuja ordem deve ser respeitada, sendo eles: a rutura, a construção e a verificação. A rutura deve-se entender como o “(…) romper com os precon-ceitos e as falsas evidências, que somente nos dão a ilusão de compreendermos as coisas. A ruptura é, portanto, o primeiro acto constitutivo do procedimento científico” (Quivy & Campenhoudt, 2008, p. 26). Esse momento consubstanciou-se com a elaboração das primei-ras três etapas: pergunta de partida, a exploração e culmina com a problemática. Por sua vez, essa rutura advém da construção de um “(…) sistema conceptual organizado, susceptível de

exprimir a lógica que o investigador supõe estar na base do fenómeno” (Quivy & Campenhoudt, 2008, p. 26) é através dessa construção que se pode “(…) erguer as

proposi-ções explicativas (…) a estudar, prever qual o plano de pesquisa a definir, as operaproposi-ções a

aplicar e as consequências que logicamente devem esperar-se no termo da observação” (Quivy & Campenhoudt, 2008, pp. 26-28), só assim existe uma experimentação válida (Quivy & Campenhoudt, 2008). Este ato consubstancia-se na problemática e na construção de um modelo de análise. Por fim, a “(…) proposição só tem direito ao estatuto científico na medida em que pode ser verificada pelos factos. Este teste pelos factos é designado por ve-rificação ou experimentação” (Quivy & Campenhoudt, 2008, p. 28). Esta consubstancia-se nas últimas etapas: a observação, a análise das informações e nas conclusões.21

15 A exploração, segundo ensinam Quivy e Campenhoudt (2008, p. 49) “(…) comporta as operações de leitura,

as entrevistas exploratórias e alguns métodos de exploração complementares.” Estes deverão ajudar o investi-gador a adotar ou selecionar uma abordagem mais adequada ao seu objetivo de estudo (Quivy & Campenhoudt, 2008).

16A problemática consiste na “(…) abordagem ou a perspetiva teórica que decidimos adoptar para tratarmos o problema formulado pela pergunta de partida. É uma maneira de interrogar os fenómenos estudados. Constitui uma etapa-charneira da investigação, entre a ruptura e a construção” (Quivy & Campenhoudt, 2008, p. 89) 17 É nesta etapa que o investigador constrói as hipóteses, de forma a precisar as relações entre os conceitos abordados na investigação. Desta forma vai representar, teoricamente, o modo como o investigador vai abordar a problemática (Quivy & Campenhoudt, 2008).

18 Tal como Quivy e Campenhout (2008) ensinam, a observação deve delimitar o estudo, conceber e testar o

instrumento de observação e proceder à recolha de informação. Desta forma, o “(…) conjunto das operações

através das quais o modelo de análise (…) é submetido ao teste dos factos e confrontado com os dados obser-váveis” (Quivy & Campenhoudt, 2008, p. 155).

19 Esta etapa trata de uma descrição e preparação de todos os dados para a análise. Assim, verifica-se se as informações, já recolhidas, correspondem às hipóteses e, obviamente, se estas transparecem os resultados ob-servados relativamente aos esperados pelas hipóteses. Em 2.º lugar, é função desta etapa interpretar os factos inesperados, de forma a rever as hipóteses, sendo que essas se vão revelar nas conclusões e recomendações (Quivy & Campenhoudt, 2008).

20 Seguindo a linha de pensamento de Quivy e Campenhoudt (2008), esta é a última etapa, e por sua vez com-preende uma retrospetiva geral do procedimento seguido durante toda a investigação. De seguida, contém o registo pormenorizado de todos os contributos para o conhecimento originados pelo estudo e todas as conside-rações de ordem prática.

(27)

Capítulo 2 – Metodologia

2.2. Método de abordagem ao problema

O método de abordagem à problemática restringiu-se a uma abordagem hipotético-dedutiva (ver Figura 3 no Anexo A – As etapas do procedimento e método dedutivo versus indutivo), que compreende a “(…) construção de uma investigação que parte de um conceito postulado22como modelo de interpretação do fenómeno estudado” (Quivy & Campenhoudt, 2008, p. 144) e descritiva sendo que este “(…) assenta em estratégias de pesquisa para

ob-servar e descrever comportamentos (…) assim fornecer uma caracterização precisa das va-riáveis envolvidas num fenómeno ou acontecimento” (Freixo, 2012, p. 117 e 118) é a prin-cipal finalidade do método descritivo. Dentro desse optou-se por um estudo de caso em que

a sua base fundamental é o trabalho de campo ou análise documental, “(…) estudando uma entidade no seu contexto real tirando todo o partido de fontes múltiplas com recurso a entre-vistas, observações, análise documental e artefactos” (Freixo, 2012, p. 121).

Assim, partiu-se do modelo de análise da revisão de literatura de forma a alcançar um objetivo particular a partir de uma visão geral, sendo que o objetivo particular permite a formulação de hipóteses que serão confirmadas ou infirmadas através da confirmação dos conceitos23, dimensões24, componentes25 e indicadores26 (Quivy & Campenhoudt, 2008).

2.3. Técnicas, procedimentos e meios utilizados

Uma vez que o problema da investigação permite determinar o tipo de método de colheita de dados27, por sua vez a escolha desse mesmo método fez-se em função das variá-veis e da sua operacionalização (Fortin, 1999). Assim sendo, a rutura e a construção con-templam toda a revisão de literatura e as entrevistas semidiretas.

22É “(…) no sentido atual, [uma] proposição primitiva que se estabelece como verdadeiro e define uma ou mais relações entre os termos primitivos de um sistema hipotético-dedutivo.” Cfr http://www.infopedia.pt/lin-gua-portuguesa/Postulado, consultado no dia 06 de junho de 2014 pelas 22:10h.

23“Representação simbólica com um significado geral que abarca toda uma série de objetos que possuem

propriedades comuns”. Cfr http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/Conceito, consultado no dia 14 de ju-nho de 2014 pelas 23:15h. Por sua vez numa investigação de ciências sociais representam uma das principais dimensões da construção do modelo de análise, a conceptualização (Quivy & Campenhoudt, 2008).

24 Segundo Quivy e Campenhoudt, para a construção de conceitos são essenciais as dimensões, uma vez que estas por sua vez são uma ferramenta que vai delimitar a investigação.

25 Em conceitos mais complexos a existência de uma decomposição da dimensão em componentes é necessária para conseguir atingir os indicadores (Quivy & Campenhoudt, 2008).

26 Os indicadores são pontos de referência ou linhas de força do estudo de forma a conduzir o investigador à confrontação de factos. Por exemplo: para o conceito velhice temos como indicadores a pele rugosa ou os cabelos brancos (Quivy & Campenhoudt, 2008).

27“É a colheita sistemática de informações junto dos participantes com a ajuda dos instrumentos de medida

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Capítulo 2 – Metodologia

Na análise documental privilegiou-se a pesquisa em fontes primárias, particularmente em documentos emitidos diretamente pelas Organizações – essencialmente OTAN e ONU

– em estudo, pelo Estado português – nomeadamente Decretos-Lei e Leis da época em es-tudo –, e documentos pessoais do arquivo de António de Oliveira Salazar, consultados du-rante o mês de abril do presente ano. De forma a completar o estudo, foram recolhidas in-formações de obras referentes à temática, elaboradas por autores reconhecidos nas áreas abordadas.

As entrevistas foram realizadas a três individualidades de elevado domínio e notori-edade nas áreas referentes ao estudo: o professor Doutor António Telo, o professor Doutor Severiano Teixeira e o Coronel (Doutor) Lemos Pires. Importa sublinhar que estas entrevis-tas foram fundamentais para a fase de verificação, pois permitiram a elaboração da observa-ção. Desta forma pôde-se comprovar ou refutar o resultado das fases de rutura e construobserva-ção.

2.4. Local e data da pesquisa e da recolha de dados

A análise documental efetuou-se essencialmente nas bibliotecas da Academia Militar e do Instituto da Defesa Nacional (IDN), numa procura de fontes secundárias e primárias de autores reconhecidos, sendo que estas últimas foram também consultadas no Arquivo Naci-onal da Torre do Tombo e em alguns sites governamentais e institucionais, possibilitando o acesso a documentos originais. Toda a investigação desenvolveu-se no período de abril de 2013 a julho de 2014, seguindo as fases de investigação enunciadas.

2.5. Amostragem: composição e justifica ção

Segundo ensina Freixo (2012, p. 210 e 211) a amostra é “(…) constituída por um conjunto de sujeitos retirados de uma população, consistindo a amostragem num conjunto de operações que permitem escolher um grupo de sujeitos ou qualquer outro elemento

re-presentativo”. Assim sendo, a elevada notoriedade e o profundo conhecimento do assunto em análise foram os principais motivos conducentes à escolha dos seguintes entrevistados:

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Capítulo 2 – Metodologia

Professor Doutor Nuno Severiano Teixeira: professor catedrático e Pró-reitor da Uni-versidade Nova de Lisboa (UNL), autor de uma vasta bibliografia no campo da História, Defesa e RI. Doutorado em História das RI contemporâneas, exerceu funções como diretor do IDN e do Instituto de RI. De 2005 a 2009 foi ministro da defesa nacional.

Coronel (Doutor) Nuno Lemos Pires é diretor de formação da Escola das Armas (EA) do Exército e autor de numerosas obras e artigos. Doutorado em História, Defesa e RI, exer-ceu funções como professor de História Militar e RI na Academia Militar, entre outras. É um dos oficiais superiores do Exército português com uma vasta experiência em missões internacionais.

Para compreender as entrevistas e aceder ao resumo das respostas, ver Quadros 1 e 2 no Apêndice A – Guião das entrevistas e Quadro 3 no Apêndice B – Análise dos resultados das entrevistas.

2.6. Descrição dos procedimentos de análise e recolha de dados

Como ensinam Quivy e Campenhoudt (2008, p. 203) a recolha de dados28 documen-tais e a sua respetiva análise deverá ser essencialmente direcionada para a “Análise das mu-danças sociais e do desenvolvimento histórico (…) e da mudança nas organizações.” Assim sendo, a opção recaiu maioritariamente sobre uma recolha documental mais intensiva, que veio a ser complementada pelas já referidas entrevistas exploratórias – revelando determi-nados aspetos que por sua vez o investigador não teria pensado – e semidiretas que acabaram por ser uma mais-valia para a investigação, uma vez que não são rígidas nem contém todas as perguntas predefinidas (Quivy & Campenhoudt, 2008).

2.7. Descrição dos materiais e instrumentos utilizados

Segundo Quivy e campenhoudt (2008) o instrumento deve permitir a recolha ou pro-dução da informação prescrita pelos indicadores. Assim, a pesquisa documental focou-se fundamentalmente em fontes primárias, nomeadamente, em legislação e documentos de Or-ganizações Internacionais, elementos doutrinários e ainda em autores de grande notoriedade no âmbito do objeto de estudo – sendo estes alvo das entrevistas exploratórias e semidiretas.

28“Esta operação consiste em recolher ou reunir concretamente as informações determinadas junto das pessoas

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Capítulo 3

Sistema Internacional

3.1. Prelúdio

Com o intuito de interpretação do SI do período a estudar, no presente capítulo esbo-çaremos uma sucinta conceptualização do termo em uso, tratando várias abordagens que são ou foram alvo de referência pela comunidade científica. De seguida, serão abordados alguns dos intervenientes do SI, destacando-se o Estado português e a OTAN, de forma a analisar a relação entre ambos no período em estudo. Por fim, abordaremos o sistema que prepondera no período a estudar, integrando Portugal nesse mesmo SI.

3.2. Conceptualização

No âmbito das RI e em termos conceptuais, podemos verificar a existência de uma vasta panóplia de definições para o conceito SI. Se, por um lado, Morton Kaplan (1962 in Dougherty & Pfaltzgraff, Jr. , 2003, p. 152) define sistema como “(…) um conjunto de va-riáveis tão relacionadas entre si e distintas do ambiente externo que as regularidades de com-portamento descritas caracterizam os relacionamentos internos das variáveis umas das outras e os relacionamentos externos do conjunto de variáveis individuais com combinações

exter-nas”. Já Dougherty e Pfaltzgraff (2003, p. 134) afirmam que “(…) o termo sistema descreve

a forma em que as unidades interagem umas com as outras”. Por sua vez, Raymond Aron (1986, p. 152) compreende-o como um “(…) conjunto constituído pelas unidades políticas que mantém relações regulares entre si e que são suscetíveis de entrar numa guerra” total29.

29 Segundo Cabral Couto (1988a), seguindo uma conceção Marxista da guerra, esta é permanente, total, global

e universal. Assim, a guerra é permanente pelo facto de ser “(…) a lei permanente das relações políticas”

(Couto, 1988a, p. 143) podendo ser coexistente com a paz –sendo esta por sua vez a “(…) suspensão, mais ou

menos durável, das modalidades violentas da rivalidade entre os Estados” (Aron, 1986, p. 220). Pode também ser total uma vez que que não é conduzida à luz de um único aspeto mas sim “(…) analisando as inter-relações

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Capítulo 3 – Sistema Internacional

Cabral Couto (1988a, p. 19) entende-o como “(…) um conjunto de centros independentes de decisões políticas que interatuam com uma certa frequência e regularidade”. Ainda, como Adriano Moreira (1997, p. 303) redigiu, compreende “(…) um conjunto de elementos com identidade própria, interdependentes por um feixe de relações, e que se perfilam dentro de uma fronteira”.

Raymond Aron (1986) afirma que para uma compreensão plena de um sistema é es-sencial estudar a natureza dos Estados e os objetivos formulados, para tal a compreensão e distinção de sistemas homogéneos e heterogéneos é fundamental. Sendo que sistemas ho-mogéneos são aqueles que “(…) reúnem Estados do mesmo tipo, dentro de uma mesma concepção política”, (Aron, 1986, p. 159) enquanto os sistemas heterogéneos são aqueles

que “(…) congregam Estados Organizados segundo princípios diferentes, postulando valo-res contraditórios” (Aron, 1986, p. 159).

Por sua vez, Adriano Moreira (1997) considera que o sistema também pode ser re-fletido em dois planos: um plano onde considera uma hipótese interpretativa, designado de sistema observante, e outro plano onde o conjunto das efetivas relações de interdependências vigentes, dentro de uma situação concreta, e que constituem um sistema específico, conhe-cido como sistema observado. Sendo que o sistema observado, no mundo atual, engloba muitas das vezes elementos exteriores ao Estado, de modo que a fronteira do sistema não coincide sempre com a fronteira do Estado, e “(…) exprime-se num normativismo que visa disciplinar as relações entre os elementos do sistema” (Moreira, 1997, p. 304). Tal situação pode levar, eventualmente, a um fenómeno de falta de autenticidade, devido à disparidade entre o proclamado e a realidade, ou seja, o regime político30 proclamado é intencional e puramente verbal apenas para fins de imagem, porque o regime real é outro (Moreira, 1997). Quanto ao sistema observante, exprime-se a partir da teoria de obediência, “(…) a qual pro-cura determinar as razões pelas quais a regência do sistema é acatada com esporádica

inter-venção da força” (Moreira, 1997, p. 308).

nossos e os mais capazes de suscitar a agressividade” (Couto, 1988a, p. 143), podendo este ser tanto um Estado como uma classe social (Couto, 1988a).

Poderá ainda ser considerada guerra total consoante as formas de coação utilizadas. Nesta utilizam-se todas as formas de coação, sendo elas: ação psicológica; ação diplomática; ação política clandestina no interior do ad-versário; ação económica e ação militar. (Couto, 1988a). Segundo Duarte (2010, p. 246) esta representa “(…)

a total mobilização de todos os recursos nacionais”.

30 Entenda-se regime político segundo Burdeau (in Moreira, 1997, p. 305) que o define como “o estado de equilíbrio em que se fixa num momento dado uma sociedade estática e que se caracteriza pelas soluções que adota quanto à fonte, objeto e modo de estabelecimento do direito positivo”. Por sua vez, entende-se direito

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Capítulo 3 – Sistema Internacional

Por último, poderemos fazer uma classificação quanto à distribuição do poder. Se-gundo Cabral Couto (1988a), o Sistema pode ser: unipolar, bipolar, multipolar e difuso. Sendo que, num sistema unipolar o poder encontra-se concentrado num pólo de poder; num sistema bipolar o poder encontra-se concentrado em dois pólos de poder; num sistema mul-tipolar o poder encontra-se concentrado em poucos pólos de poder e num sistema difuso o poder encontra-se repartido em muitos pólos de poder.

3.3. Agentes do Sistema Internacional

3.3.1. Estado-Nação

Segundo Cabral Couto (1988a), um Estado para ser considerado Estado deverá ter um conjunto de elementos que o definirá como tal, sendo eles: “o território, que deverá ser bem delimitado, o governo, a população, a capacidade de estabelecer relações com outros Estados e, acima de tudo, soberania” (Couto, 1988a, p. 21). Deverá também visar aspirações humanas fundamentais, encimadas pela segurança, prosperidade e bem-estar (Couto, 1988a).

Para conseguir a soberania é necessário que o Estado adquira a personalidade jurí-dica31 internacional, para desta forma poder exercer as inerentes prerrogativas. Para isso terá

de ser reconhecido pelos outros Estados, sendo que, cada Estado é livre de reconhecer, ou não, um novo Estado que emerge no SI (Moreira, 1997).

Ao nível do seu estatuto, após o reconhecimento como Estado soberano, terá um con-junto de competências internacionais que lhe pertencem de acordo com o Direito Internaci-onal Público32.

31 Como Eduardo Silva (1998, p. 308) ensina “(…) os sujeitos da relação jurídica terão forçosamente, que ter uma qualidade: a de serem susceptíveis de direitos e obrigações. E, em segundo lugar, que só ao Homem, ou a agrupamentos de Homens, ou a conjuntos de meios destinados a realizar interesses referidos ao Homem, a prosseguir fins ao serviço do Homem, é reconhecida tal susceptilidade de poderes e deveres. E essa suscepti-bilidade de ser titular de direitos e suporte de obrigações denomina-se por personalidade jurídica.” Assim sendo, a personalidade jurídica seguindo “(…) uma noção qualitativa: corresponde à qualidade que caracteriza o sujeito da relação jurídica de poder ter direitos e obrigações. É, na definição corrente, a susceptibilidade de direitos e obrigações. Utilizando outros termos, a personalidade jurídica é, na expressão do Prof. Manuel de

Andrade, “a idoneidade ou aptidão para receber efeitos jurídicos, para ser centro de imputação deles (consti-tuição, modificação ou extinção de relações jurídicas)” ” (Silva, 1998, p. 310).

32 Entenda-se Direito Internacional Público como o “conjunto de normas jurídicas criadas pelos processos de

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Capítulo 3 – Sistema Internacional

Essas competências, segundo Adriano Moreira (1997), poderão ser internas e exter-nas. Quanto às competências internas, regra geral, são a liberdade de ação no interior do

Estado “(…) que se manifesta por exemplo na organização constitucional, na forma do re-gime político, ou nos modelos de vida jurídica privada” (Moreira, 1997, p. 296).

Quanto às competências externas, Adriano Moreira (1997) diz serem integradas pelos direitos atribuídos aos Estados para agirem na comunidade Internacional33. Uma dessas prer-rogativas é o direito de representação34, seja em missão diplomática ou em rutura de relações

diplomáticas, outra será o direito de celebrar tratados, entendendo tratado como “um acordo

entre Estados com o objetivo de produzir efeitos de direito” (Moreira, 1997, p. 298). Por consequência, essa prerrogativa está diretamente interligada com o direito de estar em jus-tiça. Por fim, é também competência externa de um Estado o “direito de recorrer à força e, portanto, a competência de fazer guerra” (Moreira, 1997, p. 298), nas condições consagradas no acervo jurídico Internacional, designadamente no que se refere à legítima defesa.

3.3.2. Organizações Internacionais

As Organizações Internacionais ou Instituições Internacionais, conceito utilizado por Adriano Moreira (1997), focam-se em dois grandes pilares, a segurança e progresso ou bem-estar (Couto, 1988a).

Essas Organizações são “organismos interestaduais35, em regra com personalidade

jurídica internacional, competência especializada e não genérica, instituídas por tratados

su-jeitos à ratificação pelos órgãos soberanos de cada Estado membro” (Moreira, 1997, p. 332).

33 Segundo Adriano Moreira (1997), a expressão comunidade designa um determinado grupo social ao qual se pertence sem qualquer tipo de escolha, este por sua vez é identificado em termos de vida comum, interesse comum, cooperação e interação entre os próprios membros, na busca da realização de um determinado interesse comum e com um sentido de pertença entre os membros do grupo. Nas sociedades todos os elementos podem-se encontrar, mas o objetivo comum acaba por ter um limite temporal mais ou menos determinado.

Visto que uma comunidade é composta por vários Estados existe obrigatoriamente uma desigualdade entre si,

e “no sentido de compensar a desigualdade de poder, os Estados viram reconhecidas pela comunidade

interna-cional duas condições que são garantias e não direitos ou liberdades: a Igualdade e a Independência” (Moreira,

1997. P. 299).

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Capítulo 3 – Sistema Internacional

Estas Organizações podem ser classificadas em termos de vocação e ainda em termos de natureza. Em relação à vocação, poderão ser universais ou regionais, por sua vez, no que concerne à sua natureza poderão ser políticas, económicas ou militares (Couto, 1988).

Se, por um lado, a cooperação entre os Estados membros é um dos principais

objeti-vos pondo à parte a competição, é ainda o “(…) peso da tradicional hierarquia das potências, em função da relativa capacidade militar, que inspira todas estas fórmulas de compromisso entre o princípio da igualdade36 e o realismo da capacidade diferente” (Moreira, 1997. P. 333).

3.3.2.1. Organização do Tratado do Atlântico Norte

O envolvimento dos EUA na questão da segurança da Europa, no período pós-II Guerra Mundial, não se inicia com a OTAN. Esse envolvimento inicia-se com algumas obri-gações que impendem sobre as potências vencedoras da II Guerra Mundial, sendo que os EUA eram das potências que melhores condições reunia e acabam por, no pós-guerra, rati-ficar alguns acordos de defesa europeia (Krieger, 1996).

Se, até 1947, todos os tratados de aliança na Europa Ocidental eram dirigidos, prin-cipalmente, contra a Alemanha, a partir da rutura entre a URSS e os países ocidentais, existe uma nova procura de alianças, agora dirigidas contra a URSS (Duroselle & Kaspi, 2014). A partir de 1948, o processo de estabilização da Europa ultrapassa o campo político e econó-mico, começando a existir também uma necessidade militar (Marcos, 2010).

Assim sendo, após uma longa política de isolamento, os EUA e o Canadá entram em conversações com os elementos constituintes do Tratado de Bruxelas37 com a vontade de criar um sistema de ajudada mútua de defesa (Moreira, 2004).

36Este “(…) constitui o princípio estruturante do sistema constitucional global, que, na sua dimensão demo-crática, exige a explícita proibição de discriminações, constituindo proibição do arbítrio um limite externo da

liberdade de conformação dos poderes públicos. Quando os limites externos da “discricionariedade legislativa”

são violados, ou seja, quando a medida legislativa não tenha suporte material, há violação do princípio da

igualdade que proíbe, tanto as vantagens, como as desvantagens ilegítimas na atribuição de direitos” (Canotilho & Moreira, 1993, p. 125).

37O Tratado de Bruxelas não era mais que um “Tratado de colaboração económica, social e cultural e de defesa

coletiva. (…) Foi assinado a 17 de março pela Bélgica, França, Luxemburgo, Países-Baixos e Reino Unido, e enquadrava-se nos “ideais da Carta das Nações Unidas”. Foi celebrado por nações possuidoras de uma mesma

ideologia, as quais declararam, no preâmbulo do acordo, que reconheciam “os princípios de democracia, liber-dade pessoal e independência política, as tradições constitucionais e a autoriliber-dade da lei, sua herança comum”.

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Capítulo 3 – Sistema Internacional

O Tratado do Atlântico Norte (ver Quadro 4 no Apêndice D – Tratado do Atlântico Norte (1949) e o Protocolo de 1951), também conhecido como Tratado de Washington, por ser assinado em Washington38 em 1949 por 12 Nações, ou ainda como Aliança Atlântica, resulta de uma comunhão de interesses do Ocidente (OTAN, 1954b), sendo que a Organiza-ção fundamentava-se na seguinte ideia: mesmo que a URSS não tivesse interessada/prepa-rada para travar uma guerra a curto prazo, a recuperação da Europa, tanto a nível económico como social, exigia condições de segurança e confiança que apenas podiam ser garantidas com um compromisso militar (Wohlforth, 1993 in Marcos, 2010). Dessa forma, rapidamente se evidenciou que o Tratado era maioritariamente de inspiração e direção americanas, uma vez que não havia nenhum Estado europeu em condições de assumir a sua chefia. Inclusive alguns autores defendem a tese de que a OTAN era o mesmo que os EUA39 (Nunes, 1999).

O Atlântico, que até então constituía uma barreira de divisão entre dois continentes, passa agora a ser considerado um mar interior de uma comunidade fortemente unida (OTAN, 1954b). Derivado da grande evolução do armamento40, o Atlântico que apresentava, para alguns Estados, uma segurança, em que talvez tivessem confiado de forma excessiva, rapi-damente passou a ser um elo de ligação numa estreita solidariedade comum.41

Durante as duas Guerras Mundiais, houve uma visível necessidade de coligação entre os países da comunidade atlântica. Com a Aliança Atlântica, esses países puseram em co-mum os seus recursos com vista à criação de uma defesa coletiva, sendo que, o Tratado não é mais que uma resposta aos acontecimentos, com a determinação de criar uma Organização Internacional capaz de evitar qualquer recurso à força (OTAN, 1954b).

Uma vez que a Organização das Nações Unidas (ONU), por definição, apelava à uni-versalidade, ou seja, não reunia apenas os países com uma ideologia comum – abarcando desta forma países Comunistas e países Liberalistas –, levava a crer que seria capaz de asse-gurar a paz. Isto devido à solidariedade Este-Oeste existente durante a II Guerra Mundial. Mas o caráter agressivo do expansionismo soviético42, no período pós-guerra (OTAN,

38 Assinado a 4 de abril de 1949 pelos ministros dos Negócios Estrangeiros dos países fundadores: Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados-Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países-Baixos, Portugal e Reino Unido (OTAN, 1954b).

39“ “A OTAN eram os EUA, deixemo-nos de dúvidas”, como disse recentemente o General Ferreira de Ma-cedo, entrevistado no Instituto de Altos Estudos Militares. Nenhum Estado europeu estava em condições de

assumir a liderança da (…) OTAN “ (Nunes, 1999, p. 31).

40 Quando se fala em grande evolução do armamento, é referente à recente conquista, por parte da URSS de conseguir produzir armamento nuclear, conseguindo anular o monopólio nuclear americano (Marcos, 2010). 41 Cfr AOS/CO/NE-17-1, carta do ministro da defesa nacional a António Oliveira Salazar em 1950.

42 No período pós-II Guerra Mundial a URSS empenham-se numa série de atos hostis que levam à ambição de

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Capítulo 3 – Sistema Internacional

1954b), e o uso corrente do seu poder de veto na ONU, demonstrava que a Organização, a nível de segurança, não tinha alcançado os objetivos previstos (Moreira, 2004).

Por fim, após muitas conversações e negociações, o Tratado de Atlântico Norte é assinado em Washington pelos ministros dos Negócios Estrangeiros dos seus países funda-dores (OTAN, 1954b), sendo o seu principal objetivo “salvaguardar a liberdade, herança comum e civilização dos seus povos, fundadas nos princípios da democracia, das liberdades individuais e do respeito pelo direito” (OTAN, 1954b, p. 19). O Tratado acabaria por entrar em vigor alguns meses depois, a 24 de agosto de 1949 (Moreira, 2004).

Dessa forma, o Tratado vai para além de uma simples aliança militar defensiva. Os países assinantes têm em vista prevenir conflitos43 e/ou guerras que poderiam ocorrer na sua política económica internacional e propõe também a cooperação económica e cultural (OTAN, 1954b). Trata-se não apenas de uma definição cultural, mas também de uma defi-nição ideológica (Moreira, 2004), em que a escolha dos países reflete considerações políticas e estratégicas. Pretendia-se que politicamente, a nova aliança fosse uma “ democracia-forta-leza” (Krieger, 1996, p. 57), mas segundo ensina Telo (Comunicação pessoal, 2014) deri-vado da necessidade de presença nas Lages, os EUA optam por excluir a parte política e ideológica do tratado, que só anos mais tarde veio a ser implementada.

No texto da Aliança Atlântica pode-se verificar uma reduzida “(…) alusão (artigo 2) à necessidade de uma melhoria do bem-estar mediante entreajuda recíproca” (Duroselle & Kaspi, 2014, p. 93). Toda a restante redação é referente a cláusulas militares, referindo no-meadamente, uma distinção entre ameaça44 e agressão. No artigo 4.º refere que as Partes

“(…) consultar-se-ão sempre que, (…), estiver ameaçada a integridade territorial, a indepen-dência política ou a segurança de uma das Partes” 45 (North Atlantic Treaty, 1949, artigo 4.º),

“(…) para definir a «ameaça», basta que uma delas declare que há” (Duroselle & Kaspi,

de paz com as nações ex-inimigas; A conservação de importantes forças soviéticas em toda a Europa Oriental e a criação de forças «satélites»; O abuso do direito de veto, nas Nações Unidas” (OTAN, 1954b, p. 12). 43 Segundo Dougherty e Pfaltzgraff (2003, p. 243), conflito “(…) costuma corresponder a uma situação em que um grupo individualizável de seres humanos (de carácter tribal, étnico, linguístico, cultural, religioso, socioe-conómico, político ou outro) se opõe conscientemente a um ou mais grupos humanos individualizáveis devido

àquilo que parecem ser objetivos incompatíveis.” Lewis Coser (in Dougherty & Pfaltzgraff, 2003, p. 243)

“define conflito como «uma luta em volta de valores e reclamações de estatuto, poder e recursos, todos

escas-sos, e em que os objetivos dos competidores consistem em neutralizar, enfraquecer ou eliminar os rivais»”. 44 Tal como ensina Cabral Couto (1988a, p. 329) “(…) uma ameaça é qualquer acontecimento ou acção (em curso ou previsível) que contraria a consecução de um objetivo e que, normalmente, é causador de danos, materiais ou morais. As ameaças podem ser de variada natureza (militar, económica, subversiva, ecológica

etc.) (…) Uma ameaça é o produto de uma possibilidade por uma intenção”.

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Capítulo 3 – Sistema Internacional

2014, p. 93). Por outro lado, em caso de agressão, o artigo 5.º prevê que “(…) um ataque armado contra uma ou várias delas [Partes] na Europa ou na América do Norte será

consi-derado um ataque a todas, (…) cada uma, no exercício de legítima defesa, individual ou

coletiva, reconhecido pelo artigo 51.º da Carta das Nações Unidas46, prestará assistência à Parte(s) assim atacadas praticando (…) a ação que considerar necessária, inclusive o em-prego da força armada, para restaurar e garantir a segurança na região do Atlântico Norte” 47 (North Atlantic Treaty, 1949, artigo 5.º). Desta forma, cada uma das Partes tem a liberdade de tomar a sua decisão: a assistência deverá ser militar e assim entrar em guerra ou não (Duroselle & Kaspi, 2014). Quanto ao nível de defesa, as Partes comprometem-se, tanto individualmente como em conjunto, em manter e desenvolver a sua própria capacidade de resistir a um ataque armado (OTAN, 1954b). Já no que refere aos artigos 7.º e 8.º, estes preveem a compatibilidade entre o Tratado do Atlântico Norte, a Carta das Nações Unidas e os compromissos acordados anteriormente à Aliança Atlântica, entre os aliados. Já o artigo 9.º prevê a criação de um conselho suscetível de reunir representantes de cada uma das Partes de forma a examinar as questões relativamente à aplicação do tratado (Duroselle & Kaspi, 2014).

Qualquer Estado europeu poderia pedir ou, segundo o artigo 10.º do Tratado, ser con-vidado para aderir à OTAN, mas para ser aceite teria que reunir algumas condições, nome-adamente: promover os princípios do Tratado e dar uma contribuição para a segurança do Atlântico Norte, o que leva à necessidade de ser possuidor de um território nas margens do Atlântico Norte (OTAN, 1954b).

Já em 1951 é admitida a Grécia e a Turquia na OTAN, o que leva a uma alteração no Tratado do Atlântico Norte (OTAN, 1954b)48, (ver o Quadro 5 no Apêndice D – Tratado do Atlântico Norte (1949) e o Protocolo de 1951).

46 O artigo 51. º da Carta das Nações Unidas encontra-se no Capítulo VII Action with respect to threats to the peace, breaches of the peace, and acts of aggression:

“Nothing in the present Charter shall impair the inherent right of individual or collective self-defence if an armed attack occurs against a Member of the United Nations, until the Security Council has taken measures necessary to maintain international peace and security. Measures taken by Members in the exercise of this right of self-defence shall be immediately reported to the Security Council and shall not in any way affect the authority and responsibility of the Security Council under the present Charter to take at any time such action as it deems necessary in order to maintain or restore international peace and security” (Charter of the United Nations, 1945, artigo 51. º).

47 A tradução é da responsabilidade do autor. Ver Quadro 4 no Apêndice D Tratado do Atlântico Norte (1949) e o protocolo de 1951.

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Figura 1 - Triângulo estratégico português.
Figura 2 - Etapas do procedimento.
Figura 5 - Estrutura da OTAN em maio de 1951.
Figura 6 - Estrutura da OTAN em julho de 1954.
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Referências

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