Classificações da Constituição
Inicialmente é importante salientar que existem diversos tipos de classificação da Constituição. Como o material é voltado para estudos de concursos, vamos nos ater aos que são mais cobrados em provas.
Quanto à origem: Outorgadas, promulgadas, cesaristas e pactuadas.
As outorgadas significam que foram impostas de maneira unilateral pelo revolucionário ou seu grupo, que não tinham legitimidade popular para tanto. Exemplo: CF de 1967 (Ditadura Militar);
As promulgadas são aquelas fruto da Assembleia Nacional Constituinte, fruto da escolha soberana do povo. Exemplo: Nossa atual Constituição Federal.
As cesaristas são aquelas onde ocorre a participação popular para ratificar a vontade do detentor do Poder. Exemplo: Pinochet, no Chile.
As Pactuadas são aquelas que exprimem um compromisso instável de duas forças políticas rivais: a realeza absoluta debilitada, de uma parte, e a nobreza e a burguesia, em franco progresso, doutra. Surge então como termo dessa relação de equilíbrio a forma institucional da monarquia limitada.
As escritas, como o nome sugere, é a Constituição formada por um conjunto de regras sistematizadas e organizadas em um único documento, estabelecendo as normas fundamentais de um Estado.
Por outro lado, as não escritas são aquelas em que não há as regras em um único texto solene e codificado. É formada por “textos” esparsos, reconhecidos pela sociedade como fundamentais, e baseia-se nos usos, costumes, jurisprudência e convenções. Exemplo: Constituição da Inglaterra.
(PGE-SC 2010) Quanto à sua forma, as constituições podem ser escritas ou não
escritas. R: Correto! Vide explicação acima.
Quanto à extensão: Sintéticas ou Analíticas.
As sintéticas são aquelas onde se veiculam apenas princípios fundamentais e estruturantes do Estado. Exemplo: Constituição dos Estados Unidos.
As Analíticas são aquelas em que se tratam diversos assuntos, os quais os representantes do povo entendem como fundamentais. Exemplo: A nossa constituição de 1988.
Quanto ao conteúdo: Material e Formal
As Materiais são aquelas normas relativas à organização do Estado e aos Direitos e Garantias Fundamentais.
As Formais são aquelas onde qualquer norma do texto constitucional é considerada como constitucional. Por exemplo: A nossa atual constituição.
Quanto ao modo de elaboração: Dogmáticas ou Históricas
As dogmáticas são aquelas sempre escritas, onde o texto revela dogmas e teorias bem definidas previamente. Exemplo: A atual Constituição Federal.
As históricas são aquelas que se constroem ao longo do tempo, de acordo com a evolução do seu povo. Exemplo: A Constituição inglesa.
Quanto à alterabilidade: podem ser classificadas em rígidas, flexíveis, semirrígidas, fixas, transitoriamente flexíveis, imutáveis e as super rígidas.
As rígidas são aquelas que necessitam de um processo mais rigoroso para sem alteradas, como exemplo, temos a CF 88.
Atenção! Com exceção da CF de 1824, que era semirrígida, todas as Constituições do Brasil foram rígidas!
As flexíveis são aquelas onde não há diferença entre o procedimento para alterar as normas constitucionais. De acordo com LENZA:
Nesse sentido, do ponto de vista formal, devemos observar que, em se tratando de Constituição flexível, não existe hierarquia entre Constituição e lei infraconstitucional, ou seja, uma lei infraconstitucional posterior altera texto constitucional se assim expressamente o declarar, quando for com ele
incompatível, ou quando regular inteiramente a matéria de que tratava a Constituição.
As semirrígidas são aquelas onde existem normas que necessitam de um processo mais rigoroso para sua modificação e outras que não necessitam. De acordo com o Professor LENZA:
O exemplo sempre lembrado é o da Constituição Imperial de 1824, que, em seu art. 178, dizia:
“É só Constitucional o que diz respeito aos limites e atribuições respectivas dos Poderes Políticos, e aos Direitos Políticos, e individuais dos Cidadãos. Tudo, o que não é Constitucional, pode ser alterado, sem as formalidades referidas, pelas Legislaturas ordinárias”.
As fixas são aquelas onde não se estabelecem previamente como se dará a reforma. De acordo com LENZA:
São aquelas que somente podem ser alteradas por um poder de competência igual àquele que as criou, isto é, o poder constituinte originário.
As transitoriamente flexíveis são aquelas onde apenas em determinado período temporal são modificadas iguais como as leis infraconstitucionais. Após esse período, voltam a ter o tratamento rígido para sua mudança.
As Imutáveis são aquelas em que não podem ser alteradas. Por isso mesmo, são chamadas de graníticas.
Por fim, temos as Constituições super-rígidas, que seriam aquelas que possuem um núcleo que não se pode modificar e possuem processo de alteração mais dificultoso. De acordo com as lições de LENZA:
Esta última classificação, contudo, não parece ser a posição adotada pelo STF, que tem admitido a alteração de matérias contidas no art. 60, § 4.o, desde que a reforma não tenda a abolir os preceitos ali resguardados e dentro de uma ideia de razoabilidade e ponderação.
Foi o caso da reforma da previdência que admitiu a taxação dos inativos, mitigando, assim, os direitos e garantias individuais (as situações já consolidadas das pessoas aposentadas que passaram a ser taxadas).
Quanto à origem de sua decretação: Heterônoma e Autônomas
As Heterônomas são aquelas decretadas de fora do Estado por outro (ou outros) Estado(s) ou por organizações internacionais.
Por outro lado, as autônomas, como o nome sugere, são aquelas feitas e promulgadas para o próprio país. Por exemplo, a CRFB.
Classificação de Karl Lowenstein: De acordo com a referida classificação,
busca-se verificar a compatibilidade da constituição e a realidade social (econômica, política, educacional, cultural e etc).
Desta forma, temos três classificações possíveis:
1) Normativa: é aquela em que a Constituição corresponde a uma efetiva adequação entre o texto constitucional e a realidade social. Exemplo: Constituição americana de 1787 e a francesa de 1958;
2) Nominativa: é o oposto, ou seja, quando não há correspondência entre o texto constitucional e a realidade social. Como exemplo, podemos dar a nossa atual Constituição Federal de 1988;
3) Semântica: é aquela em que existe uma traição da Constituição e a mesma existe para legitimar o Poder autoritário. Como exemplo, temos a Constituição Federal de 1937 (Getúlio Vargas) e 1969 (Governo Militar).
Para facilitar o entendimento, veja a seguinte tabela elaborada pelo Professor Bernardo Gonçalves Fernandes:
Constituições Eficácia Social Legitimidade
Normativas Sim Sim
Nominativas Não Sim
Sentidos da Constituição: tema muito cobrado em concursos públicos. Temos
também a seguinte classificação muito importante: sociológico, jurídico, político e culturalista. Vejamos:
1) Sentido Sociológico: De autoria do sociólogo Ferdinand Lessalle, significa que a Constituição é entendida como a soma dos fatores reais de poder que regem uma sociedade;
2) Sentido jurídico: De autoria de Hans Kelsen, possui dois sentidos: A) sentido lógico-jurídico: a norma constitucional deve ser entendida como norma fundamental, que valida todo o sistema jurídico; B) sentido jurídico-positivo: significa que a Constituição é a norma superior do ordenamento jurídico, que dá validade a todas as normas do sistema;
3) Sentido político: De autoria de Carl Schmitt, apresenta uma distinção entre constituição e lei constitucional. Para o autor, a Constituição deve ser entendida como uma decisão política fundamental do povo;
4) Sentido Cultural (culturalista): significa que a Constituição é fruto do
sistema cultural (fato cultural). Trabalha de forma complementar às concepções mencionadas acima e possui como expoente nacional o Prof. Meirelles Teixeira.
Constituições em Branco: De acordo com Bernardo Gonçalves Fernandes,
são aquelas em que não trazem limitações explícitas ao Poder de Reforma ou alteração constitucional;
Constituições Compromissórias: são aquelas que resultam de acordos
entre as diversas forças políticas e sociais, nas quais não há uma identidade ideológica, resultando a constituição da fragmentação de acordo tópicos;
Constituição Dúctil ou Suave: De autoria do autor Italiano Gustavo
Zagrebelsky, significa que a Constituição não deve criar um predeterminado padrão de vida para a população, mas sim proporcionar meios para o exercício de diversos projetos de vida, considerando o pluralismo ideológico, cultura, moral e político existente nas sociedades.
Quanto à unidade documental - Orgânica e Inorgânicas:
Orgânicas: são aquelas elaboradas em um documento único, num corpo único e de
uma só vez pelo Poder competente, contendo articulação entre suas normas (como título, capítulo, etc).
Inorgânicas: são aquelas que não são dotadas de unidade documental. São
elaboradas por textos escritos não dotados de interconexão, que podem ser reunidos posteriormente em um documento específico e ser intitulado de texto constitucional.
Quanto ao sistema - Principiológicas e Preceituais:
Principiológicas: São aquelas em que existe a predominância de princípios,
embora, obviamente, existam as regras. Um exemplo seria a atual Constituição de 1988;
Preceitual: São as constituições que há predominância das regras, embora,
obviamente, possa ter os princípios. Como exemplo, temos a Constituição do México (1917).
Acredito que essa são as principais classificações para fins de concursos. Agora vejamos a resolução de questões e seus respectivos comentários, para fixação ainda maior do tema:
(CESPE - MPC) Quanto à dogmática, a CF é classificada como ortodoxa. R: Falso!
A CRFB é classificada como eclética. Vejamos a diferenciação entre as duas:
Ortodoxa é aquela formada por uma só ideologia, por exemplo, a soviética de 1977, hoje extinta, e as diversas Constituições da China marxista.
Eclética seria aquela formada por ideologias conciliatórias, como a brasileira de 1988 ou a da Índia de 1949.
(CESPE - MPC) Constituição chapa-branca é aquela que se limita a garantir os
direitos individuais e limitar a intervenção estatal na economia. R: FALSO! Destacando a pluralidade de projetos constitucionais, contraditórios entre si, que foram parcialmente incluídos no texto constitucional de 1988, Sundfeld argumenta que o intuito principal da Constituição é tutelar interesses e até mesmo privilégios tradicionalmente reconhecidos aos integrantes e dirigentes do setor público
É importante também lembrarmos essa classificações que já foram cobrada pela CESPE:
1) Constituição ubíqua: Parte-se da constatação de que os conflitos forenses e a doutrina jurídica foram impregnados pelo direito constitucional.
A referência a normas e valores constitucionais é um elemento onipresente no direito brasileiro pós-1988. Essa “panconstitucionalização” deve-se ao caráter detalhista da Constituição, que incorporou uma infinidade de valores substanciais, princípios abstratos e normas concretas em seu programa normativo.
Em segundo lugar, as contradições entre valores e
princípios colocam em risco a estabilidade e a eficácia constitucional, sendo impossível sua implementação no
estado atual do texto.
3) Liberal-Patrimonialista: Consideram a CF/88 uma Constituição liberal-patrimonialista, que objetiva preponderantemente garantir os direitos individuais, preservando fortes garantias ao direito de propriedade e procurando limitar a intervenção estatal na economia.
2) (TJBA - JUIZ) A concepção que compreende o texto da Constituição como não acabado nem findo, mas como um conjunto de materiais de construção a partir dos quais a política constitucional viabiliza a realização de princípios e valores da vida comunitária de uma sociedade plural, caracteriza o conceito de Constituição Dúctil. Vejamos explicação de LENZA sobre esse ponto:
"A uma Constituição caberá a tarefa básica de assegurar apenas as condições possibilitadoras de uma vida em comum, mas já não lhe pertence realizar diretamente um projeto predeterminado dessa vida comunitária. As Constituições concebem-se, pois, como plataformas de partida para a realização de políticas constitucionais diferenciadas que utilizem em termos inventivos os ‘vários materiais de construção’ semeados nos textos constitucionais".
3) (CESPE - STM) A rigidez constitucional é marca de todas as Constituições brasileiras desde, e inclusive, a de 1824. R: FALSO! A de 1824 não é rígida, conforme explicação acima.
4) (PGM - FOR) No que diz respeito ao direito financeiro, a CF pode ser classificada como semirrígida, uma vez que restringe a regulação de certos temas de finanças públicas a lei complementar e deixa outros à disciplina de lei ordinária. R: FALSA! Vide item acima.
5) (Juiz Federal - TRF 1) Quanto ao modo de elaboração, a CF é uma Constituição dogmática, na medida em que se apresenta como produto escrito e sistematizado por um órgão constituinte, a partir de valores predominantes em determinado momento histórico. R: Correto! Exatamente o conceito que apresentamos no decorrer do e-book.