Repercussão familiar de uma idosa internauta
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Adriana Araújo Reis Ruth Gelehter da Costa Lopes
Resumo: O presente trabalho tem por objetivo apresentar a repercussão
familiar de uma pessoa idosa que faz uso da internet. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com dois filhos de uma idosa que manuseia diariamente a internet. A pesquisa foi realizada no mês de outubro de 2011 na cidade de Teresina-PI. Os resultados mostram-nos que a repercussão familiar entre os membros da família a respeito da mãe fazer uso da internet é muito positiva e construtiva, passa-se a observar que a idosa constrói um novo aprendizado enriquecedor, contribuindo para um envelhecimento com mais qualidade de vida e mais atuação social.
Palavras-chave: Família, internet, idoso.
Abstract: The present work aims to present the impact of a family elder who
uses the internet. Was conducted structured interviews were conducted with two children of an elderly woman who handles the internet every day. The survey was conducted in october 2011 in the city of Teresina-PI. The results explains that the impact of family members of the family about the mother to make use of the internet is very positive and constructive for both the elderly, in whict new learning that is enriching, contributing to again with a better quality of life and more social performace.
oje observamos a importância da utilização das máquinas pelo homem e a sua repercussão na vida das pessoas, tanto em âmbito pessoal quanto profissional. Os avanços tecnológicos fascinam os homens, por isso existem muitos cientistas e estudiosos procurando desvendar novas tecnologias a serem inseridas e utilizadas na sociedade.
Parece ser um eterno desejo humano a superação de conceitos e descobertas, justificada, por muitos, como sendo para facilitar a vida do indivíduo, no sentido de proporcionar avanços tecnológicos no ambiente de trabalho, como também fora dele. Surgem, assim, muitas variações no pensar e agir das pessoas, pois estas se sentem “obrigadas” a utilizar tais avanços, necessitando aprender as novidades que surgem, pois, caso contrário, estarão “fora” da modernidade, e do contexto ativo social.
Dessa maneira, o homem passa a usufruir das novas tecnologias, compartilhando-a e usando em sua vida cotidiana, algumas, como no caso o computador, adentram o lar e o ambiente de trabalho, com papel relevante na vida dos indivíduos.
Cosentino (2006) afirma que o desenvolvimento da computação iniciou o processamento de informações e, já na década de 80, tem-se o “boom” da computação e informática. Assim, o autor acrescenta que com a internet, o computador passou a ser fonte de informação, conhecimento e entretenimento. Deste modo, notamos o quanto o computador pessoal e, mais especificamente, o acesso à internet desencadeiam mudanças na vida dos indivíduos e, também, em suas relações interpessoais e, especialmente, nas relações familiares.
Lopes (2004) indica que a internet é um conjunto de computadores que funcionam interligados pelo mundo inteiro, tendo em comuns protocolos e serviços, de tal forma que os usuários, a ela conectados, podem usufruir serviços de informação e comunicação de alcance mundial.
O avanço da internet foi muito significativo, já que aproximou muitas pessoas que moravam geograficamente longe, além de contribuir para uma comunicação mais rápida e presente, barateando também os custos, pois, comparativamente, as ligações telefônicas são mais caras do que o custo via internet proporciona.
Filho (2001) aponta que um dos processos da era tecnológica é o excesso e rapidez de informações seja dentro ou fora de casa, basta ter acesso à internet. O uso da internet no ambiente domiciliar, por parte dos indivíduos que compõem a família, desencadeia alterações na rotina de vida familiar. Ocorre, assim, certa preocupação em manter-se “antenado” com as notícias, em participar de grupos/ comunidades virtuais, tendo informações das mais diferenciadas possíveis, o que gera acúmulo de conteúdos, condições que podem impactar na psique do indivíduo, pois ele precisa refletir também sobre si, e não deve estar só fixado neste mundo virtual.
A difusão das tecnologias causa impacto na subjetividade do ser humano e na sua cultura, ocasionando mudanças em virtude de sua inserção no cotidiano das pessoas. Muitas modificações foram significativas: - a facilidade e rapidez de informação, com vários sites jornalísticos manterem informações atualizadas em tempo real, apresentando vídeos e depoimentos, dentre outros; o acesso mais rápido à pesquisas, via sites de pesquisas científicas e bibliotecas virtuais de grandes Universidades, sem sair da frente do seu computador; a facilidade de comunicação e interação com outras pessoas, em âmbito profissional e social, por meio das salas de bate-papo ou fóruns temáticos; a participação nas redes sociais, compartilhando fotos e notícias pessoais, mantendo contato com outros que podem estar distantes geograficamente.
Este acesso pode, em determinadas circunstâncias, amenizar a solidão, pois, caso seja de seu interesse, ele pode manter contatos com colegas, conversando por meio de seu computador, compartilhando vídeos, interagindo com o(s) outro(s). Esta é uma mudança positiva, em especial para as pessoas idosas que fazem uso da internet, também aliviando, de certa forma, sua solidão, já que os filhos e netos estão estudando ou trabalhando, e que podem ocupar o seu tempo acessando a internet e visitando muitos e interessantes sites.
O acesso à internet está aberto a todas as faixas etárias. Crianças, adolescentes e adultos já dominam o computador e o manuseiam facilmente, e muitos idosos já são usuários da internet. Reis (2011) menciona que a criação de possibilidades de vivenciar os dias na velhice, como o aprendizado da internet, pode vir a ser muito bom e repercutir na vida do próprio idoso, de sua família e de amigos.
Kachar (2003) afirma que os idosos apresentam dificuldades em entender a linguagem digital – denominados analfabetos virtuais – o que pode se tornar um elemento de exclusão social. Assim, para inserir-se na linguagem tecnologizada necessita do aprendizado da informática e, atualmente, muitas universidades e faculdades já oferecem cursos de informática para a terceira idade, atraindo um público bem expressivo.
O aprendizado do manuseio da internet proporciona aumento de conhecimentos dentro do ambiente familiar, pois os membros da família podem interagir também por intermédio do computador, ter informações e trocá-las por meio desse novo “espaço virtual” de interações humanas, utilizado e aprovado pelas famílias modernas.
Um número significativo de residências já possui o computador com acesso à internet, e mesmo aquelas famílias que não têm esse recurso em casa vão buscar nas lan-house, no trabalho ou na casa de amigos. O importante é a atualização virtual para todas as faixas etárias.
A internet começa a fazer parte das relações entre os membros familiares, já que, como Sarti (2001) argumenta, a família é um mundo de relações de
situações, e não apenas de indivíduos. A família tem um discurso sobre si que comporta singularidades, acessíveis aos indivíduos na cultura em que vivem. Portanto, observa-se que as relações dos membros familiares são influenciadas pela cultura na qual está inserida, e constatamos que atualmente ela valoriza a informação tecnológica. Assim, o aprendizado virtual pelos componentes da família pode mantê-los ativos socialmente. Então, toda a família adentra no mundo da internet e seus idosos vão também buscar os conhecimentos da informática para participar desse novo arranjo familiar, no qual ela permeia essas relações.
Dessa maneira, o objetivo do presente trabalho foi apresentar a repercussão na família de uma pessoa idosa que faz uso da internet, importante para observarmos as mudanças nas relações familiares, e averiguar os benefícios proporcionados ao grupo como um todo.
Método
Participaram desta pesquisa dois filhos de uma idosa que faz uso diário da internet. A escolha dos participantes foi por meio da rede social da pesquisadora, a família tem uma idosa de 68 anos de idade, que se iniciou o uso da internet, há pouco tempo, por meio de um curso de informática em uma Universidade Aberta à Terceira Idade. Apesar de um aprendizado recente a idosa já está conectada com a internet. A família reside na cidade de Teresina-PI, seus membros são: pai (80 anos), mãe (68 anos), filha (38 anos) e filho (27 anos), residindo todos na mesma casa.
O procedimento para a coleta das informações foi por meio da técnica de entrevista semiestruturada, realizadas no mês de outubro de 2011, na residência dos participantes. Foram realizadas as entrevistas individualmente com hora agendada para cada filho da idosa. A duração de cada entrevista foi de aproximadamente uma hora.
Como já conhecia a família, um vínculo de amizade, o desenrolar da entrevista foi muito espontâneo para os entrevistados, estes estavam bem à vontade nas perguntas, demonstraram satisfação em poderem participar da pesquisa, sentiam-se confortáveis a expor sua fala. Informei, ainda, sobre o processo de transcrição e que usaria um pseudônimo. Todos concordaram. Os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre Esclarecido.
Ao término de cada entrevista, efetuaram-se as anotações. Em seguida, seguiu-se para a etapa de transcrição e textualização. Posteriormente, foi realizada uma leitura minuciosa de cada resposta dada aos itens da entrevista, constatando a existência de pontos em comum e realizando, dessa maneira, uma compreensão das falas.
Resultados e discussão
Serão apresentados os resultados das entrevistas realizadas com Camile (38 anos) e Moisés (27 anos). Observa-se, desde já, uma diferença de idade entre os filhos da idosa internauta, porém ambos tiveram pontos de vista semelhantes em relação às perguntas realizadas.
Quando questionado sobre o começo e assiduidade no usa do computador para acessar a internet, relataram que ela iniciou com o curso de informática em uma Universidade da Terceira Idade, no mês de junho do ano de 2010, que ela frequentou por seis meses, duas vezes por semana. Relataram que a mãe sempre voltava satisfeita com o conteúdo aprendido nas aulas e logo ia por em prática quando estava em casa.
Ao perguntar-lhes sobre a opinião pessoal a respeito da mãe fazer uso da internet, os dois entrevistados consideram construtivo para a mãe:
“Achei interessante (ela usar a internet), não deixou de abrir horizontes” (Camile).
“Fiquei bastante satisfeito por ela poder fazer uso desta
importante ferramenta nos dias de hoje.” (Moisés)
Vemos que os membros familiares observam a ampliação do conhecimento da mãe, acompanhando o mundo moderno, fazendo com que ela, mesmo considerada idosa legal e socialmente, não a impediu de se atualizar e usufruir dos avanços tecnológicos.
Em relação à questão uso da internet versus idade da usuária, relataram:
“A internet faz parte da sociedade atual, não se restringindo a faixa etária ou nível social (tendo haver com a idade da mãe).” (Moisés)
“Internet não tem idade... afinal tem criança de 03 anos que usa super bem a internet... qualquer idade é tempo” (Camile)
O pai dos entrevistados, de 80 anos, não faz uso da internet. Ao serem questionados sobre isto os filhos responderam que ele nunca acessou, não demonstrando motivação a aprender:
“Ele nunca falou nada (a respeito de querer usar a internet), como também não demonstra interesse para aprender, eu acho que nem quer”. (Camile)
“Meu pai acha interessante o uso da internet pela esposa, mas não demonstra interesse em aprender.” (Moisés)
A motivação para a mãe usar a internet partiu, de acordo com os filhos, do fator motivacional extrínseco, inicialmente, depois do fator motivacional intrínseco em querer aprender o novo, o atual:
“[o que motivou foi] ter um computador em casa e não
usar, (e depois) usar para emitir extrato, e está on line com as notícias (assim como os filhos)”. (Camile)
“[o que motivou foram] os filhos e a necessidade de acesso a informações proporcionadas pela internet”
(Moisés)
Em relação a esta argumentação, Sarti (2001) menciona que a singularidade da família é ao mesmo tempo auto referida na construção do “nós” e, permanentemente, influenciada pelo mundo exterior, ou seja, pela cultura da modernidade. A Internet desperta interesse em ser descoberta pelos membros familiares, incluindo seus membros mais velhos.
Os filhos relataram que aprovam a mãe usar a internet em seu cotidiano:
“Acho importante para ela (o uso diário da internet), pois
ocupa seu tempo lhe proporcionando informação e entretenimento.” (Moisés)
Em relação a mudanças nas relações familiares com a internet, observa-se que os jovens, especificamente, estão muito ligados ao mundo virtual, faz parte de suas vidas e cria referências pessoais. Sarti (2001) afirma que as famílias não podem negar essas referências de identidade para os jovens, que se mantém conectados a internet e não uns aos outros.
Desta maneira, os membros familiares, como da família da pesquisa, entre os quais existe uma diferença de idade significativa, sejam entre pais e filhos, ou entre irmãos é fundamental esta atualização para a melhor interação entre os membros, sem ocorrer o distanciamento pelo o uso da internet e em detrimento do relacionamento presencial da família.
Cosentino (2006) diz que a relação de dependência entre o ser humano e a tecnologia tende a se expandir e aprofundar ainda mais, atravessando aquilo que nos faz humanos. É uma dependência no sentido de que a internet, a máquina, a tecnologia fazerem-se presentes na vida do homem de forma produtiva e o que é interessante e bom, todos querem para si, independente da faixa etária.
Os participantes da pesquisa relatam que não observam muitas mudanças nas relações interpessoais da família, pois o contato presencial é constante, já que moram na mesma casa e sempre preferem se comunicar face a face, mas relatam que também usam as redes sociais e e-mail na comunicação.
“Na realidade não mudou muito a relação dos membros da família.” (Camile)
“Não ocorreu nenhuma mudança nas relações entre os membros da família. Apenas ela (a mãe) tornou-se mais participativa nos assuntos relacionados a redes sociais e sites, por exemplo, conseguindo ter acesso a informações e serviços que até então, dependia dos filhos para consegui-los.” (Moisés)
Ao interrogar sobre a curiosidade em saber os sites que a mãe frequenta, tanto Camile quanto Moisés não questionam a mãe sobre os sites visitados, deixando-a bem à vontade em sua privacidade virtual.
Quanto ao uso de salas de bate-papo, facebook, twiter, orkut, comunicadores instantâneos, relataram que os três: mãe, filho e filha, fazem sim o uso, mesmo que não sendo por muito tempo:
“Nos falamos (por meio dos comunicadores
instantâneos), mas muito pouco... nos falamos pelo MSN”
(Camile).
Este exemplo indica como os comunicadores instantâneos estão, a cada dia, mais presentes em muitos relacionamentos, inclusive nas relações familiares, independente da idade, basta a pessoa saber usar. Rodolfo (2006) fala que hoje os internautas usam mais os comunicadores instantâneos que os próprios e-mails. Aponta, ainda, que o uso de aplicativos em diálogos pela internet revolucionou o comportamento humano, conectados em um modelo de comunicação, que margeia a instantaneidade e informalidade de um bate-papo presencial. Isso fascina as pessoas e estas vão envolvendo-se cada vez mais com essa comunicação que pode vir a durar longas horas. Incluindo aí as conversas entre filhos.
As redes sociais são importantes para os indivíduos, e a internet vem favorecendo isso. Segundo Sluzki (1997), estas redes podem ser suportes para a saúde emocional dos usuários por desempenharem algumas funções, tais como: companhia social, apoio social, apoio emocional, guia cognitivo e conselhos, regulação social, ajuda material e acesso a novos contatos. Acrescentando que constitui uma das chaves centrais da experiência individual de identidade, bem-estar, competência e agenciamento. (SLUZKI, 1979; STEINMETZ, 1988 apud SLUZKI, 1997:41)
A internet possibilita a aproximação com parentes pelo correio eletrônico, diminuindo o isolamento e o sentimento de solidão, incentiva o intercâmbio entre gerações no contato com filhos, sobrinhos, netos e amigos que estão distantes. (KACHAR, 2006: 298)
A internet aproxima gerações por meio de várias possibilidades e Nunes (2009) diz que os relacionamentos intergeracionais nutrem a relação de seus participantes, no qual o contato dos jovens com idosos tem uma atitude positiva
para as pessoas mais velhas, proporcionando uma melhor qualidade de vida desses indivíduos.
Quando questionados sobre a observação de mudanças para a mãe, após o uso cotidiano da internet, relataram que veem alterações sim, todas produtivas e construtivas, não visualizando nenhuma mudança negativa.
“As mudanças foram positivas, pois ela se adaptou bem a uma das mais importantes ferramentas da sociedade contemporânea.” (Moisés)
“Vejo mudanças positivas, com certeza, devido ao fato do
grande número de informações diante de tantos sites que podem ser acessados por ela” (Camile)
Foi constatado, assim, que o acesso à internet proporciona atualização com as notícias, visitação a uma variedade de sites disponibilizados pela rede, desencadeando a oportunidade de informações das mais variadas possíveis para a idosa, e todos os demais usuários que fazem uso da internet.
A enorme vontade de aprender estimula o idoso a transpor e a superar desafios do desconhecido, procurando manter uma vida ativa e produtiva. A sabedoria da velhice consiste em manter-se flexível e usufruir dos benefícios da modernidade. (Kachar, 2006:295)
Considerações finais
As transformações tecnológicas conduziram, conduzem e conduzirão a efeitos expressivos nas relações humanas. A internet avança em nosso meio social, proporcionado alterações no cotidiano, na forma de trabalhar, na forma de comunicar-se, dentre outros, e tudo isso impacta o ser humano e leva a mudanças na forma de agir, interagir, trabalhar e viver.
Com esse estudo, observou-se que a pessoa idosa inserida no contexto ativo social, como usuária da internet, apreende novas informações, amplia as formas de interação nas relações sociais, compartilhando atualidades no relacionamento familiar, fator construtivo para as relações entre os membros da família.
Observou-se que os participantes entrevistados relataram o quanto a internet proporcionou de melhorias significativas para a vida da mãe, desencadeando novas descobertas e novos saberes, atualizando-se com o mundo virtual. A repercussão familiar de uma pessoa idosa que faz o uso da internet em sua vida cotidiana mostrou-se, como no caso relatado, muito positivo para todos os
envolvidos: os filhos que se sentem satisfeitos em ver a mãe idosa participando da modernidade, acompanhando o desenvolvimento social, interagindo com eles graças ao domínio do progresso tecnológico; quanto para a pessoa idosa que tem sua vida atualizada, usando a internet como fonte de informações e interação social. Isto é muito bom para a socialização, aprendizagem e qualidade de vida dos indivíduos, em especial, para os idosos.
Referências
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Data de recebimento: 10/03/2012; Data de aceite: 20/03/2012.
Adriana Araújo Reis - Psicóloga, Mestranda em Gerontologia pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo. Especialista em Docência do Ensino
Superior pela Facid. E-mail: [email protected]
Profª Dra Ruth Gelehter da Costa Lopes - Psicóloga. Docente do Programa
de Estudos Pós Graduados em Gerontologia da Pontifícia Universidade