UNIVERSIDADEFEDERALDOESPÍRITOSANTO
CENTRODECIÊNCIASJURÍDICASEECONÔMICAS
DEPARTAMENTODEADMINISTRAÇÃO
CURSODEMESTRADOEMADMINISTRAÇÃO
BEATRIZ CORREIA LOPES
PODER E TRABALHO: ANÁLISE DOS PROGRAMAS DE
RESSOCIALIZAÇÃO DE APENADAS DO ESTADO DO
ESPÍRITO SANTO
VITÓRIA 2013
BEATRIZ CORREIA LOPES
PODER E TRABALHO: ANÁLISE DOS PROGRAMAS DE
RESSOCIALIZAÇÃO DE APENADAS DO ESTADO DO
ESPÍRITO SANTO
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Administração do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Administração, na área de concentração Tecnologias de Gestão e Subjetividades.
Orientador: Prof. Dr. Eloisio Moulin de Souza
VITÓRIA 2013
Dados Internacionais de Catalogação-na-publicação (CIP)
(Biblioteca Central da Universidade Federal do Espírito Santo, ES, Brasil)
Lopes, Beatriz Correia, 1988-
L864p Poder e trabalho : análise dos programas de ressocialização de apenadas do estado do Espírito Santo / Beatriz Correia Lopes. – 2013.
155 f. : il.
Orientador: Eloisio Moulin de Souza.
Dissertação (Mestrado em Administração) – Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas.
1. Poder (Ciências sociais). 2. Prisão. 3. Subjetividade. 4. Trabalho. 5. Ressocialização. I. Souza, Eloisio Moulin de, 1968-. II. Universidade Federal do Espírito Santo. Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas. III. Título.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus por estar sempre comigo, me dando forças, luz e coragem para seguir adiante.
A meus pais e irmãs pelo carinho, compreensão e incentivo. Especialmente a meu pai, por me levar a Bubu todas as vezes que precisei ir e ficar lá por horas esperando eu acabar para poder me trazer de volta.
Ao Professor Eloisio Moulin de Souza por aceitar e acreditar no meu projeto. Foi com sua orientação e ensinamentos que pude concluir esse trabalho. Obrigada pela paciência.
A Capes e a Fapes pelo suporte financeiro. À primeira pela bolsa de estudos e a segunda pelo financiamento do projeto do qual essa dissertação faz parte.
À Sejus e a Penitenciária Feminina de Cariacica por abrir as portas da unidade para o projeto, nos deixando à vontade, atendendo prontamente as nossas solicitações e por liberar servidores e internas para participação na pesquisa.
Às “Marias” de Bubu por permitirem que “invadíssemos” o seu cotidiano, respondendo todas as nossas perguntas sobre suas vidas e trabalho, nos deixando observar suas rotinas e nos saudando gentilmente com um “bom dia”, “boa tarde”, “vá com Deus”.
À Bruna de Souza Moulin e Lúcio Moreira Andrade, bolsistas do projeto, por abraçarem a pesquisa e se dedicarem a ela. Obrigada pela dedicação e por proporcionarem um olhar jurídico sobre o tema.
Aos amigos do Mestrado pelo companheirismo e apoio durante os dois anos de curso, em especial, Márcia de Mello Fonseca Corvino, Juliana de Fátima Pinto e
Jocarla Vittorazzi Laquini, por sempre me incentivarem e acreditarem no meu
potencial, por toda a ajuda e reuniões gastronômicas filosóficas.
E, por fim, a todos os meus amigos por entenderem a minha ausência e me apoiarem a sua maneira.
“Maria, Maria É um dom, uma certa magia Uma força que nos alerta Uma mulher que merece
Viver e amar Como outra qualquer
Do planeta Maria, Maria É o som, é a cor, é o suor É a dose mais forte e lenta De uma gente que rí Quando deve chorar E não vive, apenas aguenta Mas é preciso ter força É preciso ter raça É preciso ter gana sempre Quem traz no corpo a marca Maria, Maria Mistura a dor e a alegria Mas é preciso ter manha É preciso ter graça É preciso ter sonho sempre Quem traz na pele essa marca Possui a estranha mania De ter fé na vida.... Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!! Lá Lá Lá Lerererê Lerererê Lá Lá Lá Lerererê Lerererê Hei! Hei! Hei! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Lá Lá Lá Lerererê Lerererê! Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!...”. Maria, Maria (Milton Nascimento)
SUMÁRIO RESUMO ... 10 ABSTRACT ... 11 1 INTRODUÇÃO ... 12 1.1 PROBLEMÁTICA ... 13 1.2 OBJETIVOS ... 14 1.2.1 Objetivo geral ... 14 1.2.2 Objetivos específicos ... 14 1.3 JUSTIFICATIVA ... 14 1.4 ESTRUTURA DO TRABALHO ... 13
2 GENEALOGIA E ARQUEOLOGIA DE MICHEL FOUCAULT ... 17
2.1 ANALÍTICA DE PODER FOUCAULTIANA ... 17
2.2 PODER DISCIPLINAR: DISCIPLINA DO CORPO-MÁQUINA... 21
2.2.1 Nascimento da prisão ... 30
2.3 BIOPODER: REGULAMENTAÇÃO DO CORPO SOCIAL ... 35
2.4 O SUJEITO, A SUBJETIVIDADE E OS PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO ... 42
2.5 ARQUEOLOGIA DO SABER ... 45
3 TRABALHO NA CONTEMPORANEIDADE ... 50
3.1 MULHER E O TRABALHO ... 61
3.2 TRABALHO PRISIONAL ... 69
3.2.1 Trabalho prisional no Espírito Santo ... 76
4 METODOLOGIA ... 79
4.1 TIPO DE PESQUISA ... 79
4.2 LÓCUS E SUJEITOS DA PESQUISA ... 79
4.4 TRATAMENTO DE DADOS... 82
4.5 ANÁLISE DE DADOS ... 83
4.5.1 Análise do discurso ... 83
5 RESULTADOS DA PESQUISA ... 87
5.1 A PENITENCIÁRIA FEMININA DE CARIACICA ... 87
5.2 ANÁLISE DOS DISCURSOS ... 88
5.2.1 História de vida das Marias ... 89
5.2.2 Histórico profissional antes da prisão ... 96
5.2.3 Trajetória criminal ... 100
5.2.4 Cotidiano das Marias de Bubu ... 102
5.2.5 Cotidiano do trabalho ... 108
5.2.6 Programa de ressocialização pelo trabalho ... 116
5.2.7 Método de tratamento penal ... 128
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 132
REFERÊNCIAS ... 138
APÊNDICE A – ROTEIRO DE ENTREVISTAS PRESIDIÁRIAS ... 147
APÊNDICE B – ROTEIRO DE ENTREVISTAS SERVIDORES ... 149
APÊNDICE C – LISTA DE DOCUMENTOS ... 150
LISTA DE SIGLAS
CTC - Comissão Técnica de Classificação Depen – Departamento Penitenciário Nacional Diresp - Diretoria de Ressocialização da Sejus IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IRS - Instituto de Readaptação Social
PAD – Procedimento administrativo disciplinar PEA – População economicamente ativa PSME II - Penitenciária de Segurança Média II PFC – Penitenciária Feminina de Cariacica Sejus - Secretaria de Justiça do Espírito Santo
RESUMO
Considerando a realidade carcerária brasileira, em especial a do Estado do Espírito Santo, objeto desse estudo, o aumento do percentual de mulheres encarceradas no estado e a implantação maciça de programas de ressocialização nas instituições penais de todo o país, percebeu-se importante estudar como as apenadas vivenciam os programas de ressocialização, cujos objetivos são a promoção de cursos de capacitação profissional e a oferta de trabalho. Dessa forma, o objetivo desta pesquisa é analisar o discurso de presidiárias e servidores de Instituição Penal do Espírito Santo sobre os programas de ressocialização que envolvem capacitação profissional e trabalho, desenvolvidos pela Secretaria de Justiça do Espírito Santo e parceiros. Metodologicamente os dados foram produzidos por meio de entrevistas semi-estruturadas com trinta e seis internas inseridas em programas de ressocialização pelo trabalho e treze servidoras da Sejus, observação direta, análise documental e diário de campo. Após a produção dos dados, as entrevistas foram transcritas e os documentos organizados. Como forma de análise dos dados foi utilizada a de análise do discurso de Michel Foucault. Os resultados da pesquisa mostram que o trabalho prisional não oferece condições de ressocialização para o trabalho das apenadas, uma vez que ele não é configurado segundo a lógica do regime flexível de produção, bem como os dispositivos de exclusão são não eliminados, mas aumentados pelo cárcere.
ABSTRACT
Considering the reality of Brazilian prison, especially of the state of Espírito Santo, the object of this study, the increase in the percentage of incarcerated women in the state and the massive deployment of resocialization programs in penal institutions throughout the country, it was found important the study about how the incarcerated women experience the resocialization programs, whose objectives are the promotion of professional training courses and job offer. Thus, the objective of this research is to analyze the discourse of prisoners and workers Penal Institution of the Espírito Santo on the resocialization programs involving job training and work, developed by the Department of Justice of the Espírito Santo and partners. Methodologically the data were produced by means of semi-structured interviews with thirty-six incarcerated women inserted in resocialization programs by work and thirteen workers of Sejus, direct observation, document analysis and field journal. After compiling the data, the interviews were transcribed and documents organized. As a form of data analysis was used discourse analysis of Michel Foucault. The survey results show that prison labor does not offer conditions for the resocialization of the incarcerated women, since it is not configured according to the logic of the flexible production system, as well as exclusion devices are not eliminated, but increased by prison.
1
INTRODUÇÃO
Apesar do crescimento carcerário brasileiro e das políticas públicas direcionadas a recuperação e ressocialização de apenados existem poucos trabalhos na área de Administração que estudaram o trabalho prisional como mecanismo de
ressocialização (LEMOS; MAZZILLI; KLERING, 1997; 1998; COSTA;
BRATKOWSKI, 2004; 2007; MOREIRA NETO; SACHUK, 2007; PIRES; PALASSI, 2007; 2010), conforme pesquisa bibliográfica realizada nos principais periódicos do Brasil e do exterior na área de Administração e também nos eventos da Anpad. O Brasil em junho de 2012 possuía uma população carcerária composta por 549.577 pessoas (MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2013a), quase duas vezes mais presos que a capacidade de vagas das instituições penais. Além de super lotadas, boa parte das prisões possui uma estrutura física e higiênica precária, bem como um cotidiano repleto de situações de violência física, moral e sexual.
Sem dados precisos sobre a taxa de reincidência criminal, bem como considerando a realidade do sistema carcerário brasileiro e a necessidade de dar efetividade à Lei de Execuções Penais (Lei nº 7.210/84) vários órgãos governamentais e instituições sociais tem desenvolvido e implantado programas de ressocialização pelo trabalho em diversos sistemas penitenciários brasileiros. De forma geral, a principal ideia é ocupar o tempo dos encarcerados de forma produtiva, fazendo com que eles tenham acesso a uma educação que irá ajudá-los a retomarem sua vida após a prisão, e, inclusive, possibilitar que eles reflitam sobre valores, atitudes, justiça e cidadania, a fim de diminuir a chance de reincidência (CNJ, 2009).
Dentro dessa perspectiva, o trabalho prisional atua como produtor do homem, desempenha um importante papel para o sistema capitalista de produção (SCHWARTZ, 1998), visto as vantagens econômicas que as organizações adquirem ao contratar mão de obra carcerária, já que os presos não são regidos pela CLT, além de ser um dispositivo disciplinar (FOUCAULT, 1979).
No entanto, conforme os trabalhos encontrados sobre o tema na área da Administração (LEMOS; MAZZILLI; KLERING, 1997; 1998; COSTA; BRATKOWSKI, 2004; 2007; MOREIRA NETO; SACHUK, 2007; PIRES; PALASSI, 2007; 2010), verificou-se que a configuração do trabalho prisional é diferente do trabalho livre,
tendo em vista que não reproduz as características do regime de produção flexível e conta com especificidades próprias do ambiente prisional. Da mesma forma, essa pesquisa também buscou analisar o trabalho prisional dentro da lógica do capitalismo flexível, porém, além da abordagem pós-estruturalista, esse trabalho teve como diferenciais a análise dos dispositivos de inclusão e exclusão presentes na sociedade e que perpassam os sujeitos estudados, a fim de verificar qual tipo sujeito se quer produzir com o programa de ressocialização pelo trabalho e o fato de ter se dedicado a estudar mulheres apenadas, uma vez que os trabalhos existentes foram realizados em unidades prisionais masculinas.
1.1 PROBLEMÁTICA
Estando o mundo em constante devir, o mercado precisa ser ágil e flexível para atender uma demanda que está sempre em transformação, considerando que estamos na era do consumo.
Nesse sentido, não há espaço para as mazelas da rigidez burocrática e da rotina, alterando-se, inclusive, o perfil do trabalhador. Esse deve ser pró-ativo, dinâmico e receptivo a mudanças (SENNETT, 2011). As configurações modernas de produção modificam o trabalho, transformando as relações sociais e, inclusive, demandando novas competências (SCHWARTZ; DUC; DURRIVE, 2010a).
Sendo assim, o trabalho deixa de ser simplista, ou seja, deixa de ser apenas um meio para percepção de remuneração e consequentemente atendimento das necessidades, passando a ser visto como algo mais complexo (SOUZA; BIANCO, 2007). Sendo o trabalho algo mais complexo, têm-se o trabalhador como um sujeito que pensa sua atividade, que a executa segundo suas percepções do cotidiano e das situações de trabalho, constrói e reconstrói assim um método de trabalho e contribui para o desenvolvimento das organizações e das relações sociais (LIMA; BIANCO, 2009).
Diante do contexto e considerando a configuração do trabalho prisional, pretende-se responder por meio dessa pesquisa a seguinte questão: como apenadas e servidores das Instituições Penais do Espírito Santo vivenciam os Programas de Ressocialização, baseados na promoção de cursos de capacitação
profissional e oferta de trabalho, desenvolvidos pela Secretaria de Justiça do Estado?
1.2 OBJETIVOS
1.2.1 Objetivo geral
Analisar o discurso de presidiárias e servidores de Instituição Penal do Espírito Santo sobre os programas de ressocialização que envolvem capacitação profissional e trabalho, desenvolvidos pela Secretaria de Justiça do Espírito Santo e parceiros.
1.2.2 Objetivos específicos
- Compreender como a participação nos programas de ressocialização mitiga os efeitos do encarceramento;
- Analisar se e como o trabalho atua como agente reintegrador de pessoas encarceradas à sociedade e os saberes produzidos;
- Discutir os programas de ressocialização que envolvem qualificação profissional e trabalho promovidos pela Secretaria de Justiça do Espírito Santo discutindo a oferta de condições para a reintegração das condenadas a sociedade;
- Compreender os motivos que levam a apenada a participar dos programas de ressocialização focados na inclusão social pelo trabalho, bem como os dispositivos de inclusão e exclusão existentes.
- Discutir a efetividade dos programas de ressocialização para o trabalho na visão das apenadas.
1.3 JUSTIFICATIVA
Considerando que para Foucault (2010d), mesmo com a utilização do trabalho prisional e educação como instrumentos de transformação do preso, a detenção penal não mitiga a propensão ao crime, da mesma forma que não reduz a probabilidade de reincidência, pelo contrário, provoca-a, mister se faz analisar as relações de poder e a produção de saberes de apenados, tendo como princípios norteadores a noção de sujeito foucaultiano, as relações de poder relacionadas ao
dispositivo do trabalho e os saberes produzidos, contribuindo assim para a temática dos estudos organizacionais.
O estudo das políticas públicas destinadas à recuperação de presos é algo relevante e necessário nos dias atuais, uma vez que entender o significado dos programas de ressocialização por meio do trabalho para os presos contribui não somente com a gestão carcerária, bem como ajuda a analisar e compreender os impactos sociais que estes programas realmente têm sobre a socialização e sua efetividade em termos de recuperação e consequente redução da criminalidade e violência urbana. Nesse passo, esse estudo também se justifica pela necessidade de avaliar o efeito da participação de presidiárias em programas de ressocialização que envolvem trabalho, devido aos diversos programas que têm sido implantados nas instituições penais de todo o país em atendimento a Lei de Execuções Penais e a finalidade pela qual esses programas são desenvolvidos, isto é, promover a recuperação e a reinserção social do apenado.
Com relação à escolha de estudar somente presidiárias deveu-se ao fato de os trabalhos existentes dentro da temática proposta terem sido realizados com presos. Além disso, as mulheres são marginalizadas pelo poder (FOUCAULT, 1979), ou seja, o gênero atua como dispositivo de exclusão e essa exclusão é refletida no mercado de trabalho, considerando que mesmo com todas as transformações sociais as mulheres ainda ocupam cargos inferiores e recebem salários menores do que o dos homens, apesarem de possuir maior escolarização. Logo, sobre as mulheres imperam mais dispositivos de exclusão do que para os homens, o que reflete no processo de ressocialização pelo trabalho.
1.4 ESTRUTURA DO TRABALHO
Este trabalho é composto por cinco capítulos. O primeiro capítulo é composto por essa sessão que compreende a introdução, a problemática, os objetivos geral e específicos e a justificativa da pesquisa proposta.
No segundo capítulo é apresentada a genealogia do poder de Michel Foucault, que envolve as relações de poder e saber que circundam e constituem o indivíduo, a subjetividade e os processos de subjetivação, o poder disciplinar e o exame dos
prisioneiros a luz dessas relações de poder, bem como uma análise histórica da prisão, abrangendo desde as primeiras formas de punição penal até a instituição da prisão como método de condenação. Ademais, será feita uma analítica do poder, isto é, será mostrada a transformação das relações de poder, desde o poder soberano até a biopolítica.
No terceiro capítulo é feita uma análise da importância do trabalho na atualidade, além da apresentação de diferentes conceitos de trabalho e o trabalho como dispositivo de poder. Nesse capítulo também será abordado a mulher no trabalho, apresentando que trabalhos são esses e como as trabalhadoras são vistas pela sociedade, a produção de saberes no trabalho e os estudos já existentes sobre os programas de ressocialização pelo trabalho desenvolvidos no Brasil e no Espírito Santo, na área de Administração.
No quarto capítulo é apresentada a metodologia que foi utilizada nesse estudo. Engloba o tipo de pesquisa, lócus e sujeito da pesquisa, produção de dados, tratamento e análise de dados.
No quinto capítulo é apresentado o resultados da pesquisa e, por fim, tem-se a conclusão, referências bibliográficas e os apêndices que contém os roteiros de entrevista semi-estruturado, a bibliografia resumida das internas entrevistadas e a lista de documentos.
2
GENEALOGIA E ARQUEOLOGIA DE MICHEL FOUCAULT
Os estudos de Michel Foucault são estruturados em três eixos: saber que está relacionado à arqueologia, poder que se refere à genealogia e sujeito que está ligado à ética (ALCADIPANI, 2005).
Primeiro, uma ontologia histórica de nós mesmos em relação à verdade através da qual nos constituímos como sujeitos de saber; segundo, uma ontologia histórica de nós mesmos em relação a um campo de poder através do qual nos constituímos como sujeitos de ação sobre os outros; terceiro, uma ontologia histórica em relação à ética através da qual nos constituímos como agentes morais (FOUCAULT, 1995, p. 262).
Em qualquer um dos eixos, Foucault, similarmente ao pós-estruturalismo, propõe uma analítica interpretativa da história que não se atém a busca pela origem ou por relações de causalidade (ARAÚJO, 1993). De acordo com Dreyfus e Rabinow (1995, p. 147), o trabalho do genealogista “é permanecer o máximo possível na superfície das coisas, para evitar recorrer a significações ideais, tipos gerais ou essências”, afinal não cabe a ele a descrição do presente segundo leis, pessoas, instituições ou acontecimentos do passado (DREYFUS; RABINOW, 1995). Para isso, Foucault propõe uma nova forma de enxergar os acontecimentos, por meio da análise de práticas discursivas que fazem emergir fenômenos como loucura, prisões e sexualidade (ARAÚJO, 1993), as “práticas divisoras” que objetivam o sujeito (FOUCAULT, 1995). Em outras palavras, a intenção de Foucault era a de desenvolver “um modo de análise daquelas práticas culturais, em nossa cultura, que têm sido instrumentais para a formação do indivíduo moderno tanto como objeto, quanto como sujeito” (DREYFUS; RABINOW, 1995, p. 133).
Foucault também nunca intentou estabelecer verdades, visto que a ideia de verdade traz implícita uma concepção de lei geral, de atemporal. A verdade, para Foucault (1979), está ligada as relações de poder que a produz e aos mecanismos de poder que a reproduz. Desse modo, a verdade não existe sem o poder. Mas afinal, o que é poder para Foucault?
2.1 ANALÍTICA DE PODER FOUCAULTIANA
Diferentemente de uma visão funcionalista em que poder representa autoridade, de forma que as pessoas não exercem poder e sim autoridade, o poder para Foucault
(1979) não é algo que se possa ter ou ser titular, já que ele não é um objeto ou propriedade, de fato, o poder para ele nem existe. O poder é, na verdade, uma maquinaria exercida por meio de diversas práticas sociais construídas historicamente, sendo assim, nenhuma instituição, estrutura ou pessoa representa ou detêm o poder.
O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer sua ação; nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles. Não se trata de conceber o indivíduo como uma espécie de núcleo elementar, átomo primitivo, matéria múltipla e inerte que o poder golpearia e sobre o qual se aplicaria, submetendo os indivíduos ou estraçalhando-os. Efetivamente, aquilo que faz com que um corpo, gestos, discursos e desejos sejam identificados e constituídos enquanto indivíduos é um dos primeiros efeitos de poder. Ou seja, o indivíduo não é o outro do poder: é um de seus primeiros efeitos. O indivíduo é um efeito do poder e simultaneamente, ou pelo próprio fato de ser um efeito, é seu centro de transmissão. O poder passa através do indivíduo que ele constitui (FOUCAULT, 1979, p. 183-184).
Dentro dessa perspectiva e sendo microfísico, o poder é também heterogêneo, criando assim indivíduos singulares; hegemônico, isto é, está disseminado por todo o corpo social; dinâmico, considerando que ele circula, funciona em rede; bem como não tem fim de dominação, posto que o poder não se exerce de forma repressora, mas ao contrário, seu propósito é constituir formas de vida, produzir discursos e saberes (SOUZA et al, 2006).
Ao estudar o poder, Foucault (1999b) pretendeu estudar o “como” do poder, ou seja, o poder como regras de direito e como produtor de verdades. Sua intenção era entender: “quais são as regras de direito de que lançam mão as relações de poder para produzir discursos de verdade? [...] Qual é esse tipo de poder capaz de produzir discursos de verdade que são numa sociedade como a nossa, dotados de efeitos tão potentes?” (FOUCAULT, 1999b, p. 28).
A intenção de Foucault ao estudar o “como” do poder não era a de suprimir perguntas como “quê” e “porquê”, mas sim entender como o poder, caso ele exista, se exerce (FOUCAULT, 1995).
Grosso modo, eu diria que começar a análise pelo “como” é introduzir a
conteúdos significativos podemos visar quando usamos este termo majestoso, globalizante e substantificador; é desconfiar que deixamos escapar um conjunto de realidades bastante complexo, quando engatinhamos indefinidamente diante da dupla interrogação: “O que é o poder? De onde vem o poder?” A pequena questão, direta e empírica: “Como isto acontece?”, não tem por função denunciar como fraude uma “metafísica” ou uma “ontologia” do poder, mas tentar uma investigação crítica sobre a temática do poder (FOUCAULT, 1995, p. 240, grifo do autor).
Conforme afirma Foucault, a nossa sociedade é constituída e perpassada pelas relações de poder e o poder é produtor de verdades, então, não se exerce poder sem produzir discursos de verdade. “Somos submetidos pelo poder à produção da verdade e só podemos exercer o poder mediante a produção da verdade” (FOUCAULT, 1999b, p. 28-29).
As construções sociais são dentro desse contexto efeitos das relações de verdade e poder. “Afinal de contas, somos julgados, condenados, classificados, obrigados a tarefas, destinados a uma certa maneira de viver ou a uma certa maneira de morrer, em função de discursos verdadeiros, que trazem consigo efeitos específicos de poder” (FOUCAULT, 1999b, p. 29).
Segundo Foucault (1995), para analisar as relações de poder é preciso considerar o
sistema das diferenciações, visto que “toda relação de poder opera diferenciações
que são, para ela, ao mesmo tempo, condições e efeitos” (FOUCAULT, 1995, p. 246). São as diferenciações que permitem o exercício da resistência ou ainda a resposta a ação de outrem. É preciso também avaliar os objetivos daqueles que respondem a ação dos outros. A análise das relações de poder implica ainda no exame das modalidades instrumentais, posto que o poder pode ser exercido por meio de mecanismos de controles, dispositivos, normas, sistemas de vigilância, dentre outros. Outro elemento de análise são as formas de institucionalização, isto é, o exercício do poder também se dá por meio das instituições, que podem ser estruturas tradicionais, fechadas ou complexas (FOUCAULT, 1995). E, por fim, os
graus de racionalização que compreende a “eficácia dos instrumentos e da certeza
do resultado (maior ou menor refinamento tecnológico no exercício do poder) ou, ainda, em função do custo eventual (seja do “custo” econômico dos meios utilizados, ou do custo em termos de reação constituído pelas resistências encontradas)” (FOUCAULT, 1995, p. 247).
Foucault (1979) adverte ainda para o cuidado de não assumir o poder somente como uma vertente de dominação em massa, pois ele seria fraco se aplicado de modo estritamente negativo, com finalidade exclusivamente de supressão e domínio. Associar poder a repressão é imputar a ele um sentido jurídico restritivo. “Se o poder fosse somente repressivo, se não fizesse outra coisa a não ser dizer não você acredita que seria obedecido? [...] Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir” (FOUCAULT, 1979, p. 8).
Quando Foucault fala em dominação não está dizendo dominação de um sobre o outro, mas sim das “múltiplas sujeições que ocorreram e funcionam no interior do corpo social” (FOUCAULT, 1999b, p. 32). Sendo assim, o poder não é um mecanismo de dominação, pois não se detém o poder. Esse circula, funciona em rede, passando pelos indivíduos, mas nunca estacionando neles.
A produtividade do poder é utilizada por Foucault para apresentar o mecanismo pelo qual o indivíduo é constituído, de forma que ele não pré-existe, sendo altamente determinado tanto pelas relações de poder que o circunda, quanto pelas construções sócio-históricas. “O indivíduo, com suas características, sua identidade, fixado a si mesmo, é o produto de uma relação de poder que se exerce sobre corpos, multiplicidades, movimentos, desejos, forças” (FOUCAULT, 1979, p. 161-162).
De acordo com Foucault, a análise do poder deve ser feita na periferia das relações sociais, posto que o poder não se concentra no centro da estrutura social, ramificando-se a partir daí. Com uma constituição microfísica, infinitesimal, as diversas forças que atuam nas relações de poder são mais perceptíveis aonde ele é capilar (SOUZA et al, 2006). Diante disso, Foucault (1979) construiu sua analítica do poder por meio do estudo dos marginalizados, isto é, os homossexuais, mulheres, crianças, soldados, prisioneiros e doentes nos hospitais, grupos que se encontram justamente as margens das relações de poder. Logo, instituições disciplinares como escolas, exércitos, prisões e hospitais foram estudadas por Foucault. O próximo tópico aborda o poder disciplinar, estrutura de poder presente nessas e em outras instituições disciplinares.
2.2 PODER DISCIPLINAR: DISCIPLINA DO CORPO-MÁQUINA
No livro Vigiar e Punir: nascimento da prisão, Foucault (2010d) apresenta uma forma de poder que ele denomina de disciplina ou poder disciplinar. Para isso, Foucault (2010d) faz uma cronologia da evolução dos castigos e suplícios a que eram submetidos os infratores da Idade Média à Moderna, por meio da análise do sistema penal que, aquela época, era baseado na punição do corpo, relatando a passagem da sociedade soberana para a sociedade disciplinar.
O poder disciplinar, diferentemente do poder soberano, tem como função adestrar os corpos, fabricar indivíduos, tomando-os como objeto e instrumento (FOUCAULT, 2010d).
A “disciplina” não pode se identificar com uma instituição nem com um aparelho; ela é um tipo de poder, uma modalidade para exercê-lo, que comporta todo um conjunto de instrumentos, de técnicas, de procedimentos, de níveis de aplicação, de alvos; ela é uma “física” ou uma “anatomia” do poder, uma tecnologia (FOUCAULT, 2010d, p. 203).
De acordo com Foucault (2010d), no período clássico percebeu-se que o corpo do homem era ao mesmo tempo objeto e alvo de poder; não que já não se soubesse que o corpo era investido por relações de poder, mas, no século XVIII o interesse estava nas novas técnicas do poder disciplinar, como a escala, que é trabalhar o corpo de forma minuciosa, exercendo uma coação constante; o objeto, centrada no exercício, na estruturação e potência dos movimentos; e a modalidade, coerção contínua com foco na atividade, que detalha os movimentos, o tempo e o espaço. “Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as “disciplinas”” (FOUCAULT, 2010d, p. 133).
Segundo Foucault (2010d), as disciplinas fizeram-se presentes em várias instituições, como escolas e exércitos, porém, nos séculos XVII e XVIII elas se transfiguraram em mecanismos de dominação, ou melhor ainda, de coerção, pois conforme ressalta Foucault (2010d), não é uma dominação como a escravidão ou a domesticidade, mas uma mecânica de poder que tem por finalidade não somente aumentar as habilidades dos corpos, mas, inclusive, torná-los simultaneamente e reciprocamente obedientes e úteis.
Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma “anatomia política”, que é também igualmente uma “mecânica de poder”, está nascendo; ela define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina (FOUCAULT, 2010d, p. 133).
É dessa forma que a disciplina produz corpos adestrados, subservientes e permissivos. A disciplina faz da relação de poder sobre os corpos uma relação de sujeição. A disciplina, por meio das suas técnicas de poder, fixou uma nova forma de investimento político e econômico dos corpos, não estacionando neles, mas tencionando expandir-se por todo o corpo social (FOUCAULT, 2010d).
Para o exercício da disciplina é necessário que haja uma distribuição espacial dos corpos e para isso ela utiliza-se de diferentes mecanismos, como a cerca. A cerca é uma espécie de encarceramento, “um local heterogêneo a todos os outros e fechado em si mesmo. Local protegido da monotonia disciplinar” (FOUCAULT, 2010d, p. 137). Consoante Foucault (2010d), os colégios, quartéis, prisões e fábricas são exemplos de “cárceres”.
Porém, a reclusão não é permanente e bastante para as técnicas disciplinares, visto que a disciplina utiliza o espaço conforme o princípio do quadriculamento, isto é, “cada indivíduo no seu lugar; e em cada lugar, um indivíduo” (FOUCAULT, 2010d, p. 138), a fim de evitar a coletividade. O monitoramento e o controle dos corpos é o principal objetivo dessa distribuição espacial e celular. Com isso, há toda uma individualização dos corpos e uma decomposição das forças (FOUCAULT, 2010d). Na disciplina, conquanto haja a singularização dos corpos, eles são intercambiáveis entre os espaços seriais. “A disciplina, arte de dispor em fila, e da técnica para a transformação dos arranjos. Ela individualiza os corpos por uma localização que não os implanta, mas os distribui e os faz circular numa rede de relações” (FOUCAULT, 2010d, p. 141).
Segundo Foucault (2010d), a organização dos corpos, por meio da construção de quadros, é uma das primeiras façanhas da disciplina. Mais do que uma técnica do poder disciplinar, os quadros são também métodos de saber, visto que permitem a
observação, categorização, controle e vigilância dos indivíduos, extraindo o máximo de efeitos. A distribuição por quadros, de acordo com Foucault (2010d, p 143-144):
permite ao mesmo tempo a caracterização do indivíduo como indivíduo, e a colocação em ordem de uma multiplicidade dada. Ela é a condição primeira para o controle e o uso de um conjunto de elementos distintos: a base para uma microfísica de um poder que poderíamos chamar “celular”.
Para o exercício da disciplina é preciso também que haja um controle da atividade, por meio da regulamentação do tempo, da decomposição anátomo-cronológica da atividade, da articulação do corpo com os gestos e os objetos e da maximização da utilização do tempo. A ênfase dessa técnica de sujeição está na descrição de manobras (FOUCAULT, 2010d). “Sobre toda a superfície de contato entre o corpo e o objeto que o manipula, o poder vem se introduzir, amarra-os um ao outro. [...] A regulamentação imposta pelo poder é ao mesmo tempo a lei de construção da operação” (FOUCAULT, 2010d, p. 148).
Todavia, gradualmente o poder disciplinar passa a ter uma composição orgânica que substitui esses processos voltados simplesmente para o movimento físico do corpo. Percebe-se que o corpo útil e dócil não é apenas uma célula, mas sim um organismo (FOUCAULT, 2010d). Conforme Foucault (2010d, p. 150), “o poder disciplinar tem por correlato uma individualidade não só analítica e “celular”, mas também natural e “orgânica””.
Nesse sentido, há o progresso das sociedades ou em outros termos, uma organização progressiva do tempo pelas técnicas administrativas em nível social. E, da mesma forma, as técnicas disciplinares manifestam uma evolução histórica da gênese em nível individual ou, em outras palavras, uma gênese dos indivíduos. Para Foucault (2010d, p. 154), “essas duas grandes “descobertas” do século XVIII são talvez correlatas das novas técnicas de poder e, mais precisamente, de uma nova maneira de gerir o tempo e torná-lo útil, por recorte segmentar, por seriação, por síntese e totalização”. Nesse sentido, tem-se a aplicação de exercícios repetitivos, diferentes, mas graduados, que possibilitam ao corpo uma evolução em nível individual ou social (FOUCAULT, 2010d).
Surge então a necessidade de combinar as forças a fim de obter uma máquina eficiente. Essa necessidade satisfaz-se pelo encadeamento do corpo-elemento com
outros corpos-elementos, inserindo-o em um conjunto ao qual ele poderá se articular formando uma máquina. Nesse sentido é preciso ajustar os tempos individuais de modo a obter o resultado ótimo com a formação do tempo composto. Por fim, é preciso ter uma “voz” de comando para obter o comportamento esperado (FOUCAULT, 2010d).
Em resumo, pode-se dizer que a disciplina produz, a partir dos corpos que controla, quatro tipos de individualidade, ou antes uma individualidade dotada de quatro características: é celular (pelo jogo da repartição espacial), é orgânica (pela codificação das atividades), é genética (pela acumulação do tempo), é combinatória (pela composição das forças). E, para tanto, utiliza quatro grandes técnicas: constrói quadros; prescreve manobras; impõe exercícios; enfim, para realizar a combinação das forças, organiza “táticas” (FOUCAULT, 2010d, p. 161, grifo do autor).
Foucault (2010d) explana ainda sobre o uso da disciplina como mecanismo de adestramento, visto que o poder disciplinar não tem como função extrair ou reduzir as forças dos corpos, mas sim fabricar indivíduos dóceis e úteis, objetos e efeitos de poder. De acordo com Foucault (2010d), o alcance desse objetivo se deve “ao uso de instrumentos simples: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e sua combinação num procedimento que lhe é específico, o exame” (FOUCAULT, 2010d, p. 164).
A vigilância hierárquica é uma técnica do poder disciplinar que tem como finalidade exercer a vigilância sobre os corpos a fim de sujeitá-los e utilizá-los, seria uma espécie de controle por observação. A vigilância é uma técnica de coerção múltipla e muitas vezes invisível que induz a efeitos de poder. Invisível, pois, ainda que não se veja quem vigia, sabe-se que está sendo vigiado (FOUCAULT, 2010d).
O modelo de vigilância foi baseado nos acampamentos militares. A forma como eram distribuídas as tendas, a formação das filas e colunas, as orientação das entradas, formavam uma distribuição espacial circular que permitia uma vigilância detalhada, completa e fazia circular o poder. Com isso, as escolas, hospitais, cidades, prisões foram projetados segundo esse modelo que engendrava a disciplina e provocava uma mudança nos indivíduos por meio da vigilância (FOUCAULT, 2010d). “As instituições disciplinares produziram uma maquinaria de controle que funcionou como um microscópio do comportamento; as divisões tênues e analíticas por elas realizadas formaram, em torno dos homens, um aparelho de observação, de registro e de treinamento” (FOUCAULT, 2010d, p. 167).
Porém, essa arquitetura circular que admitia uma observação do todo logo se mostra deficiente. Devido a isso, a concepção circular reconfigura-se para um formato piramidal devido à necessidade de escala para ampliar os resultados possíveis e ser ao mesmo tempo discreto, completo e sustentável (FOUCAULT, 2010d). “É preciso decompor suas instâncias, mas para aumentar sua função produtora. Especificar a vigilância e torná-la funcional” (FOUCAULT, 2010d, p. 168).
Foucault (2010d) cita o caso das fábricas onde a vigilância hierárquica, com o novo formato, consegue cobrir toda a produção e as tarefas e conhecimento dos operários. À medida que a organização cresce e se complexifica, mais se faz necessário o controle e vigilância, tornando-se parte do processo produtivo. “A vigilância torna-se um operador econômico decisivo, na medida em que é ao mesmo tempo uma peça interna no aparelho de produção e uma engrenagem específica do poder disciplinar” (FOUCAULT, 2010d, p. 169).
A estrutura piramidal da vigilância hierárquica provoca uma autovigilância que faz funcionar e perpetuar a disciplina por entre os indivíduos. Ela repousa sobre eles de forma anônima, de modo que a pessoa se autopolicia a fim de não cometer desvios, pois os indivíduos são, ao mesmo tempo, aqueles que vigiam e são vigiados (FOUCAULT, 2010d).
Organiza-se assim como um poder múltiplo, automático e anônimo; pois, se é verdade que a vigilância repousa sobre os indivíduos, seu funcionamento é de uma rede de relações de alto a baixo, mas também até um certo ponto de baixo para cima e lateralmente; essa rede “sustenta” o conjunto, e o perpassa de efeitos de poder que se apoiam uns sobre os outros. [...] A disciplina faz “funcionar” um poder relacional que se autossustenta por seus próprios mecanismos e substitui o brilho das manifestações pelo jogo ininterrupto dos olhares calculados (FOUCAULT, 2010d, p. 170, grifo do autor).
Além da vigilância hierárquica, outra forma de adestramento do corpo é pela sanção normalizadora. Tem-se um modelo ideal definido pelo corpo social e a disciplina, com seu efeito de adestramento, adapta, sujeita as pessoas a esse modelo, isto é, torna-ás úteis, dóceis, homogêneas, “normais” e também individuais. Daí seu caráter mais corretivo do que punitivo (FOUCAULT, 2010d), considerando que as normas categorizam o que é aceitável do que não é, o que é bom do que não é, o que é permitido e o que não é. Nesse sentido, os comportamentos dentro dos padrões devem ser reconhecidos, recompensados, enquanto que os desvios devem ser
corrigidos. Para Alcadipani (2005, p. 75), “o próprio sistema de classificação dos indivíduos vale como punição ou recompensa”. Contudo, “a punição disciplinar é, pelo menos por uma boa parte, isomorfa à própria obrigação [...]. De modo que o efeito corretivo que dela se espera apenas de uma maneira acessória passa pela expiação e pelo arrependimento; é diretamente obtido pela mecânica de um castigo” (FOUCAULT, 2010d, p. 173).
A sanção normalizadora diferencia-se da penalidade judiciária por sua base. A disciplina institui normas não contempladas pelas regras de direito, isto é, o modo de se vestir, de ser, de falar, de se comportar, dentre outros. O aparelho jurídico, por sua vez, tem por fundamento todo um código legal, que não faz distinção de indivíduo, mas sim julga seus atos dentro do estabelecido juridicamente (FOUCAULT, 2010d). As normas, por outro lado, relacionam “os atos, os desempenhos, os comportamentos singulares a um conjunto, que é ao mesmo tempo de comparação, espaço de diferenciação e princípio de uma regra a seguir. Diferenciar os indivíduos em relação uns aos outros e em função dessa regra de conjunto” (FOUCAULT, 2010d, p. 175-176).
Combinadas, as técnicas de vigilância e sanção normalizadora compõe o exame, outro instrumento do poder disciplinar (ALCADIPANI, 2005). O exame “é um controle normalizante, uma vigilância que permite qualificar, classificar e punir. Estabelece sobre os indivíduos uma visibilidade através da qual eles são diferenciados e sancionados. É por isso que, em todos os dispositivos de disciplina, o exame é altamente ritualizado” (FOUCAULT, 2010d, p. 177).
Por meio do exame a disciplina torna-se invisível. Conforme explica Foucault (2010d), de modo geral, o poder é explícito, fortalecendo-se justamente por se exibir. Aquele que exerce o poder é percebido, enquanto que aquele a quem o poder sujeita pode ser desprezado. O poder disciplinar, em contrapartida, manifesta-se de forma oculta, tendo destaque não aqueles que exercem o poder, mas sim aqueles a quem o poder intenta disciplinar e, pois “é o fato de ser visto sem cessar, de sempre poder ser visto, que mantém sujeito o indivíduo disciplinar. E o exame é a técnica pela qual o poder [...] capta-os num mecanismo de objetivação” (FOUCAULT, 2010d, p. 179). Mais do que medir e categorizar, o exame permite a comparação entre os indivíduos promovendo toda uma produção de saberes, faz do homem
efeito e objeto de poder e saber (ALCADIPANI, 2005). “O exame supõe um mecanismo que liga um certo tipo de formação de saber a uma certa forma de exercício do poder” (FOUCAULT, 2010d, p. 179), ou seja, o exame gera saber tendo em vista que permite medir, classificar, sancionar, comparar, descrever, normalizar. Para Alcadipani (2005, p. 77), “o grande papel do exame, dentro das disciplinas, é dizer, é criar a verdade das pessoas que analisa, para, a partir daí, distribuí-las e organizá-las segundo suas aptidões”. O exame, nessas circunstâncias, possibilita:
a constituição do indivíduo como objeto descritível, analisável, [...] para mantê-lo em seus traços singulares, em sua evolução particular, em suas aptidões ou capacidades próprias, sob um controle de um saber permanente; e por outro lado a constituição de um sistema comparativo que permite a medida de fenômenos globais, a descrição de grupos, a caracterização de fatos coletivos, a estimativa dos desvios dos indivíduos entre si, sua distribuição numa “população” (FOUCAULT, 2010d, p. 182).
E talvez essa característica da técnica de exame seja a mais importante, isto é, ainda que force uma comparação de casos, trata cada indivíduo como um, considerando sua singularidade. Isto propiciou o surgimento de um novo tipo de poder, um poder que em que cada sujeito passa a ser dotado de uma individualidade (FOUCAULT, 2010d). Nesse sentido, Fonseca (2007) ressalta a diferença entre os termos indivíduo e sujeito, posto que “sujeito” qualifica o indivíduo que possui uma identidade própria constituída pelos processos de subjetivação. Tais processos sobrepostos aos processos de objetivação completam o indivíduo moderno: objeto dócil-e-útil e sujeito. E “o exame está no centro dos processos que constituem o indivíduo como efeito e objeto de poder, como efeito e objeto de saber” (FOUCAULT, 2010d, p. 183).
Logo, o poder disciplinar além de adestrar os corpos tornando-os úteis e dóceis também individualiza os sujeitos e quanto mais marginalizado, mais profundamente são individualizados (FOUCAULT, 2010d). Para Foucault (2010d, p. 185, grifo do autor) o indivíduo é:
uma realidade fabricada por essa tecnologia específica de poder que se chama a “disciplina”. Temos que deixar de escrever sempre os efeitos de poder em termos negativos: ele “exclui”, “reprime”, “recalca”, “censura”, “abstrai”, “mascara”, “esconde”. Na verdade o poder produz; ele produz realidade; produz campos de objetos e rituais de verdade. O indivíduo e o conhecimento que dele se pode ter se originam nessa produção.
Diante disso, Foucault (2010d) questiona sobre como a disciplina consegue ser tão habilidosa na fabricação e normalização dos sujeitos. Para responder tal pergunta, o filósofo fez uma análise do Panóptico.
O Panóptico é uma arquitetura prisional projetado por Jeremy Bentham para possibilitar a observação completa e constante dos internos. A construção é formada por um anel que circunscreve uma torre de vigilância. Esse anel é composto por celas individuais vazadas, fechadas nas laterais por paredes para evitar que os detentos entrem em contato uns com os outros. Cada cela possui duas janelas, uma que dá para o exterior possibilitando a entrada de luz de um lado ao outro e uma voltada para o interior em direção à janela da torre. A contraluz permite que a pessoa que está na torre veja os detentos, porém, aqueles que estão nas celas não conseguem ver quem ou se tem alguém na torre (FOUCAULT, 2010d).
A construção panóptica admite dessa forma a visão de todo o complexo penitenciário, mas não suporta a situação inversa. Porém, sua função é exatamente essa, ver sem ser visto, materialização pura da técnica de exame. “Não há necessidade do vigia. O importante é que todos sintam-se vigiados” (ALCADIPANI, 2005, p. 80). Sendo assim, o poder disparado por esse dispositivo tem como virtude disciplinar e inibir os desvios. “O Panóptico é uma máquina de dissociar o par ver-ser visto: no anel periférico, se é totalmente visto, sem nunca ver; na torre central, vê-se tudo, sem nunca ser visto” (FOUCAULT, 2010d, p. 191).
Daí o efeito mais importante do Panóptico: induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder. Fazer com que a vigilância seja permanente em seus efeitos, mesmo se é descontínua em sua ação; que a perfeição do poder tenda a tornar inútil a atualidade de seu exercício; que esse aparelho arquitetural seja uma máquina de criar e sustentar uma relação de poder independente daquele que o exerce: enfim, que os detentos se encontrem presos numa situação de poder de que eles mesmos são os portadores (FOUCAULT, 2010d, p. 191).
Com o Panóptico foi possível iluminar as obscuridades do poder já que traz em seu esquema o meio exterior. Em outros termos, a arquitetura panóptica é o oposto da masmorra. Enquanto nesse fazia-se o encarceramento dos criminosos, escondendo-os e privando-escondendo-os da luz, o Panóptico, por outro lado, pescondendo-ossibilita o encarceramento, a plena luz e a observação de um vigia, quem quer ele seja (FOUCAULT, 2010d). “A submissão nasce de uma forma mecânica a partir de uma relação fictícia. Não é
necessário recorrer à violência e à força para garanti-la” (ALCADIPANI, 2005, p. 80). Percebe-se então o caráter humanitário idealizado para a pena e projetado na prisão.
De acordo com Foucault (2010d), o Panóptico é um dispositivo de poder notável, pois mecaniza e generaliza o poder disciplinar. “Automatiza, pois o indivíduo é o alvo e o ator, o vigiado e o vigilante, o agente passivo e o ativo desta relação de poder. [...] Desindividualiza, pois não importa quem exerce o poder, qualquer pessoa pode fazer com que o indivíduo sinta-se observado” (SOUZA; MACHADO; BIANCO, 2004, p. 8). Sendo assim, não interessa quem ou se alguém coloca em prática o poder, o Panóptico é capaz de dispará-lo por ele mesmo. Para Foucault (2010d, p. 192), “o Panóptico é uma máquina maravilhosa de poder que, a partir dos desejos mais diversos, fabrica efeitos homogêneos de poder. Uma sujeição real nasce mecanicamente de uma relação fictícia”.
Foucault (2010d), acrescenta que a configuração panóptica tem funcionalidade múltipla, pois admite a distribuição individual de corpos, organizando-os e classificando-os, bem como permite a realização de experiências e treinos e leva a mudanças de conduta, além de impulsionar a formação de saberes. Segundo Foucault (2010d, p. 194), “o Panóptico funciona como uma espécie de laboratório de poder”.
Nesse sentido, Foucault (2010d) destaca que não é somente na prisão que se aplica a concepção panóptica, sendo possível percebê-la nas escolas, hospitais, fábricas e por todo o corpo social. O Panóptico não pode ser dessa maneira reduzido a um “local de troca entre mecanismo de poder e uma função; [o Panóptico] é uma maneira de fazer funcionar relações de poder numa função, e uma função para essas relações de poder” (FOUCAULT, 2010d, p. 196). Por esse motivo, Foucault (2010d) afirma que o modelo panóptico acabou sendo idealizado como o cárcere perfeito em decorrência, inclusive, da forma como Bentham trabalhava essa instituição. No entanto, Foucault (2010d) adverte para não considerar o Panóptico como um organismo utópico. O Panóptico “pode ser bem representado como um puro sistema arquitetural e óptico: é na realidade uma figura de tecnologia política que se pode e se deve destacar de qualquer uso específico” (FOUCAULT, 2010d, p. 194).
Por meio da análise do Panóptico, Foucault (2010d) apresenta a “disciplina-mecanismo”, que é uma disciplina funcional, automática e que aperfeiçoa o funcionamento do poder, deixando-o mais eficaz, veloz e sutil. Com isso as instituições disciplinares propagaram-se e espalharam-se pela sociedade, ocorrendo assim uma transformação funcional das disciplinas, conforme explica Foucault (2010d). A nova configuração da disciplina permite que ela funcione como técnica que instala poder, produz saber e fabrica indivíduos obedientes e úteis, diferentemente da “disciplina-bloco”, que tinha por finalidade vigiar os espaços, acabar com as ameaças, segregar ou excluir a população, recaindo no binômio vida-morte (FOUCAULT, 2010d).
Outra mudança percebida por Foucault (2010d) foi com relação a multiplicação e penetração dos mecanismos disciplinares pelo corpo social. Segundo Foucault (2010d) há um aumento do número de instituições disciplinares, porém, os mecanismos de disciplina estão cada vez mais expandindo-se para fora das instituições, circulando livremente pela sociedade. Para explicar melhor, Foucault (2010d) cita o caso das escolas em que não são somente as crianças são submetidas à disciplina, mas seus pais também passam a ser observados, exercendo sobre eles um controle disciplinar constante.
Outra instituição disciplinar bastante estudada por Foucault foi a prisão. E considerando o objeto de estudo dessa pesquisa, faz-se mister discorrer sobre as transformações nas formas de controle e mecanismos disciplinares que levaram ao surgimento dessa instituição disciplinar.
2.2.1 Nascimento da Prisão
O estudo das prisões elaborado por Michel Foucault resultou no livro Vigiar e Punir:
nascimento da prisão, onde o filósofo apresenta uma forma de poder que ele
denominou de disciplina ou poder disciplinar. Foucault fez ainda uma cronologia da evolução dos castigos e suplícios a que eram submetidos os infratores da Idade Média à Moderna. Isto é, Foucault fez uma análise do sistema penal que, aquela época, era baseado na punição do corpo.
De acordo com Foucault (2010d), os castigos eram aplicados a luz do dia e aberto ao público, o que transformava o suplício em um verdadeiro espetáculo, conforme
vários casos narrados pelo autor. Um dos exemplos mais marcantes é o do parricida Damiens, condenado em março de 1757, que, tendo sido despido, foi torturado, queimado com fogo e líquidos ferventes, esquartejado e, finalmente, teve suas partes incendiadas (FOUCAULT, 2010d).
“Supliciava-se com aplicação, seguindo um código preciso de torturas. Marcavam-se, amputavam-Marcavam-se, deslocavam-se os corpos. Da fogueira ao patíbulo, do pelourinho à forca, o sofrimento físico era encenado com um fausto exemplar. Para que ninguém o ignorasse...” (DROIT, 2006, p. 43). Mas, afinal, “qual a finalidade política dos castigos? O terror que imprimem nos corações com tendências ao crime” (BECCARIA, 2011, p. 36). A teatralização da pena ocorreu, pois se acreditava que o exemplo serviria para desestimular as pessoas de maneira que elas não cometessem crimes (FOUCAULT, 2010d). Em suma, o objetivo do Estado era manter o controle social e a ordem pública.
A prática da tortura e suplício perdurou por muito tempo. Contudo, segundo Foucault (2010d), as transformações sociais e econômicas resultaram em uma “nova ética da morte legal”. Com isso, ainda que os suplícios não tenham terminado, as execuções deixaram então de ser um espetáculo, tornando-se segredo de justiça (FOUCAULT, 2010d). Para Beccaria (2011, p. 53), a pena capital “é prejudicial à sociedade, pelas demonstrações de crueldade que apresenta aos homens”, tornando desse modo o homem mais insensível do que correto.
A redução do suplício e o abrandamento dos castigos ocorreram devido às severas críticas ao sistema penal. “As novas exigências econômicas, o medo político dos movimentos populares, que vai se tornar lancinante na França, depois da Revolução, tornam necessário um outro esquadrinhamento da sociedade” (FOUCAULT, 2006, p. 46). A sociedade soberana dá então lugar à sociedade disciplinar.
Diante disso, a punição sobre o corpo foi substituída pela privação da liberdade, que era representada pela tomada de um bem ou restrição de um direito (FOUCAULT, 2010d), surgindo assim as prisões. “O barulho monótono das fechaduras, a sombra das celas ocuparam o lugar do grande cerimonial da carne e do sangue. Não se
exibe mais o corpo do condenado: ele é escondido. Não se quer mais assassiná-lo: ele é adestrado. É a “alma” que é reeducada” (DROIT, 2006, p. 43).
O que fascina nas prisões é que nelas o poder não se esconde, não se mascara cinicamente, se mostra como tirania levada aos mais ínfimos detalhes, e, ao mesmo tempo, é puro, é inteiramente “justificado”, visto que pode inteiramente se formular no interior de uma moral que serve de adorno a seu exercício: sua tirania brutal aparece então como dominação serena do Bem sobre o Mal, da ordem sobre a desordem (FOUCAULT, 1979, p. 73).
O aparelho prisional, consoante Foucault (2010d), propicia a utilização da disciplina para o adestramento do corpo, além disso, percebeu-se que era muito mais útil vigiar, por meio da supressão da liberdade e adestramento dos indivíduos, do que punir. “A prisão deve ser um aparelho disciplinar exaustivo” (FOUCAULT, 2010d, p. 222).
Foucault (2010d), inclusive, apresenta parte de um regulamento sobre a utilização do tempo de uma casa de detenção de Paris a fim de exemplificar a fragmentação do tempo a que era submetido o detento. Para Foucault (2010d, p. 13), o suplício e a ocupação do tempo do detento “não sancionam os mesmos crimes, não punem o mesmo gênero de delinquentes. Mas definem bem, cada um deles, um certo estilo penal”. Ressalta-se, porém, que quase um século separa o suplício da utilização do tempo (FOUCAULT, 2010d).
A mudança mais importante na economia do castigo foi o fim do suplício, de acordo com Foucault (2010d). Percebeu-se que o castigo-espetáculo invertia os papéis, isto é, o condenado se tornava vítima e seus executores, assassinos. “O assassínio, que nos surge como um delito horrendo, nós o vemos praticar com frieza e sem arrependimento” (BECCARIA, 2011, p. 54).
Desse modo, a vergonha atribuída ao transgressor passa a ser a condenação e não mais a humilhação e suplício em praça pública (FOUCAULT, 2010d). Para Beccaria (2011), mesmo com todas as vantagens que o crime pode propiciar o homem não colocaria em risco sua liberdade em virtude do crime. De acordo com o jurista, a morte é para alguns o meio de se ver livre do sofrimento e miséria, sendo, dessa forma, a privação da liberdade o mecanismo mais eficiente de punição, visto que é tão cruel e rigoroso como a morte (BECCARIA, 2011).
A escravidão perpétua, que substitui a pena de morte, tem todo o rigor necessário para afastar do crime o espírito mais propenso a ele. [...] O fanatismo e a vaidade desaparecem nas cadeias, sob os golpes, em meio às barras de ferro. O desespero não acaba seus males, porém os principia (BECCARIA, 2011, p. 52).
Nesse sentido, aos magistrados não compete serem carrascos, mas sim, a reeducação e a correção do transgressor. “Castigos como trabalhos forçados ou prisão – privação pura e simples da liberdade – nunca funcionaram sem certos complementos punitivos referentes ao corpo: redução alimentar, privação sexual, expiação física, masmorra” (FOUCAULT, 2010d, p. 20).
Todavia, para Foucault a prisão falha em seu principal objetivo que é a regeneração dos indivíduos. Porém, seu fracasso não é o suficiente para reformar a prisão, pois, a estrutura de poder utiliza-o como estratégia de submissão, de aumento do controle sobre a massa (FOUCAULT, 2010c, 2010d).
Minha hipótese é que a prisão esteve, desde sua origem, ligada a um projeto de transformação dos indivíduos. Habitualmente se acredita que a prisão era uma espécie de depósito de criminosos, depósito cujos inconvenientes se teriam constatado por seu funcionamento, de tal forma que se teria dito ser necessário reformar as prisões, fazer delas um instrumento de transformação dos indivíduos. Isto não é verdade: os textos, os programas, as declarações de intenção estão aí para mostrar. [...] O fracasso foi imediato e registrado quase ao mesmo tempo que o próprio projeto. Desde 1820 se constata que a prisão, longe de transformar os criminosos em gente honesta, serve apenas para fabricar novos criminosos ou para afundá-los ainda mais na criminalidade. [...] A prisão fabrica delinquentes (FOUCAULT, 1979, p. 131-132).
Conforme observa Foucault (2010d), as situações violentas a que são expostos os indivíduos e todo o abuso de poder que lhes são impostos resultam na transformação do detento em delinquente. A prisão torna-se assim uma escola de delinquência. Ademais, a detenção penal não mitiga a propensão ao crime, da mesma forma que não reduz a probabilidade de reincidência, pelo contrário, provoca-a. “Conhecem-se todos os inconvenientes da prisão, e sabe-se que é perigosa, quando não inútil” (FOUCAULT, 2010d, p. 218), posto que, “o corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe” (FOUCAULT, 2010d, p. 133).
Ao ser encarcerado o indivíduo é despido de toda a sua singularidade, pois, para se adaptar ou sobreviver, ele é obrigado a adotar os costumes e comportamentos impostos pela população carcerária, desconstruindo-se como sujeito e
reconstruindo-se como presidiário. Com o passar do tempo, todas as experiências de abusos, violências, injustiças, etc., a que é submetido são incorporadas por ele. Diante disso, o resultado da vivência carcerária não poderia ser pior para o apenado, principalmente porque a internalização da cultura prisional dificulta a reintegração do indivíduo à sociedade após a sua libertação, além do estigma de ex-presidiário pesar sobre ele. Com isso, muitos acabam retornando para a criminalidade (BARRETO, 2006).
Analogamente, Foucault, ao estudar a prisão de Attica, declara que, uma vez que a sociedade coloca na prisão um indivíduo, esse recebe um tratamento que o esmaga física e moralmente, transformando-o. Ao voltar à vida em sociedade, tudo compete para que ele volte à criminalidade, pois, a sociedade discrimina-o, colocando-o novamente no rumo da prisão (MOTTA, 2010).
O filósofo constata que “a prisão cria e mantém uma sociedade de delinquentes, o meio, com suas regras, sua solidariedade, sua marca mora de infâmia” (FOUCAULT, 2010c, p. 156). “A prisão é, então, um instrumento de recrutamento para o exército dos delinquentes. É para isto que ela serve. Fala-se, há dois séculos: “A prisão fracassa, pois ela fabrica delinquentes”. Eu diria, antes, ela é bem-sucedida, pois é isso que se lhe requer” (FOUCAULT, 2006, p. 48). Diante disso, Foucault (2006; 2010c; 2012) chega a afirmar que, na verdade, os motivos que levam a imputar a prisão como um sistema fracassado, é, por outro lado, o que faz da instituição um sucesso perante a estrutura de poder do Estado.
O sucesso dá-se mediante a utilização da ameaça de criminalidade como subterfúgio para que o Estado aumente o controle sobre a sociedade, pois “é preciso haver delinquentes e criminosos para que a população aceite a polícia” (FOUCAULT, 2012, p. 107). Além disso, existe ainda a relação de conivência entre os delinquentes e a polícia, “um sistema de chantagens e de trocas no qual os papéis são confundidos, como em um círculo. Um alcaguete é algo além de um policial-delinquente ou de um delinquente-policial?” (FOUCAULT, 2010c, p. 157). A prisão exerce então uma função precisa, qual seja, permite a imposição de uma estratégia de submissão do Estado sobre a população, com a finalidade de impedir a prática de qualquer ato ilícito (FOUCAULT, 2006; 2010c; 2010d).
As vítimas da pequena delinquência cotidiana ainda são as pessoas mais pobres. E o resultado desta operação é mesmo, afinal de contas, um gigantesco lucro econômico e político. Um lucro econômico: as fabulosas somas que a prostituição, o tráfico de drogas, etc. proporcionam. Um lucro político: quanto mais delinquentes há, mais a população aceita os controles policiais; sem contar o benefício de uma mão de obra assegurada para as tarefas políticas inferiores: colocadores de cartazes, agentes eleitorais, furadores de greve... (FOUCAULT, 2006, p. 49).
É importante ressaltar que em nenhum momento Foucault propôs um modelo jurídico-econômico ideal de punição; o que ele fez foi uma análise crítica do sistema penal, procurando mostrar o outro lado da justiça penal e como isso afeta e prejudica as classes desfavorecidas (FOUCAULT, 2010c; 2012).
2.3 BIOPODER: REGULAMENTAÇÃO DO CORPO SOCIAL
Para falar sobre o advento do Biopoder é preciso, primeiramente, fazer uma trajetória histórica desde o poder soberano até o Biopoder, para que se compreendam as transformações sociais, econômicas e políticas que levaram até e que ocorreram após a estruturação dos poderes na sociedade.
Segundo Foucault (1999b), o aparelho jurídico é um instrumento do poder real. Foi a favor e a pedido do Rei, para lhe valer de fundamento ou ferramenta, que se desenvolveu o sistema jurídico que permeia as sociedades. Tem-se então o rei como elemento central do poder soberano. “É do rei que se trata, é do rei, de seus direitos, de seu poder, dos eventuais limites de seu poder, é disso que se trata fundamentalmente no sistema geral, na organização geral, em todo caso, do sistema jurídico ocidental” (FOUCAULT, 1999b, p. 30). Mas, por outro lado, o sistema jurídico delimitava o poder real, mostrando até onde o rei poderia exercer o poder mantendo sua soberania. O poder régio é então duplo, isto é, ao mesmo tempo em que legitima o poder do soberano, também o restringe, define seus limites (FOUCAULT, 1999b).
O direito, entendido por Foucault (1999b, p. 31) não somente como as leis, mas todo o “conjunto dos aparelhos, instituições, regulamentos, que aplicam o direito”, além de justificar o poder régio, também permite e propaga relações de dominação.
E, com dominação, não quero dizer o fato maciço de “uma” dominação global de um sobre os outros, ou de um grupo sobre o outro, mas as múltiplas formas de dominação que podem se exercer no interior da sociedade: não, portanto, o rei em sua posição central, mas os súditos em