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Corpos do afeto: ensaio sobre dança, estesiologia e educação

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Academic year: 2021

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(1)0. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÀO EM EDUCAÇÃO. THAYS ANYELLE MACÊDO DA SILVA RAMOS. CORPOS DO AFETO: ensaio sobre dança, estesiologia e educação. NATAL 2017.

(2) 1. THAYS ANYELLE MACEDO DA SILVA RAMOS. CORPOS DO AFETO: ensaio sobre dança, estesiologia e educação. Tese apresentada no Programa de PósGraduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Educação. Área de Concentração: educação, comunicação, linguagens e movimento. ORIENTADORA: Prof.ª Dr.ª Terezinha Petrucia da Nóbrega CO-ORIENTADORA: Prof.ª Dr.ª Karenine de Oliveira Porpino. NATAL 2017.

(3) 2. THAYS ANYELLE MACEDO DA SILVA RAMOS. CORPOS DO AFETO: ensaio sobre dança, estesiologia e educação Tese apresentada no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Educação. Área de concentração: educação, comunicação, linguagens e movimento.. -------------------------------------------------. -------------------------------------------------. Prof.ª Dr.ª Terezinha Petrucia da. Prof.ª Dr.ª Karenine de Oliveira. Nóbrega. Porpino. Universidade Federal do Rio Grande. Universidade Federal do Rio Grande. do Norte- Orientadora. do Norte- Membro titular interno. ------------------------------------------------------. --------------------------------------------------------. Prof. Dr. Iraquitan de Oliveira Caminha. Prof. Dr. Raimundo Nonato Assunção. Universidade Federal da Paraíba -. Viana. Membro titular externo. Universidade Federal do MaranhãoMembro titular externo. ------------------------------------------------. -----------------------------------------------. Prof.ª Dr.ª Rosie Marie Nascimento de. Prof. Dr. Arão Nogueira Paranaguá de. Medeiros. Santana. Universidade Federal do Rio Grande. Universidade Federal do Maranhão- Membro. do Norte- Membro titular interno. suplente externo. -------------------------------------------Prof. Dr. José Pereira de Melo Universidade Federal do Rio Grande do NorteMembro suplente interno. NATAL 2017.

(4) 3. Divisão de Serviços Técnicos. Catalogação da Publicação na Fonte. UFRN / Biblioteca Setorial do NEPSA / CCSA. Ramos, Thays Anyelle Macedo da Silva. Corpos do afeto: ensaio sobre dança, estesiologia e educação / Thays Anyelle Macedo da Silva Ramos. - Natal, 2017. 250f.: il. Orientador: Profa. Dra. Terezinha Petrucia da Nóbrega. Co-orientador: Profa. Dra. Karenine de Oliveira Porpino. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Educação. Programa de Pós-graduação em Educação. 1. Educação Estesiologica – Tese. 2. Dança – Tese. 3. Corpo – Tese. 4. Afeto - Tese. 5. Lecuona - Tese. I. Nóbrega, Terezinha Petrucia da. II. Porpino, Karenine de Oliveira. III. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. III. Título. RN/UF/BS. CDU 37:793.3.

(5) 4. Aos meus pais. Elo inquebrável.

(6) 5. AGRADECIMENTOS. William Shakespeare já dizia que a gratidão é o tesouro dos humildes. Pensando assim, tomo na mão este tesouro e agradeço a todos que diretamente ou indiretamente construíram comigo esse corpo de afeto que é esta pesquisa. Primeiramente, agradeço ao meu Deus, minha fonte de devoção, inspiração, paz e força. Aspectos que foram importantíssimos para eu encontrar o equilíbrio para produzir. À minha família, minha base, minhas preciosidades. Eles são meu sustento de amor que me ajudaram sobremaneira nesse processo, entendendo minhas ausências e me apoiando nesse projeto. Obrigada meus pais, Maria José Macêdo da Silva e Edmilson Pereira da Silva, obrigada meu marido, Marcus Vinícius Correa Ramos, obrigada meu irmão, Edmilson Pereira da Silva Junior, obrigada minha cunhada Paula Gracielly e minha sobrinha Lívia e meus sogros Mariléa Correa Ramos e Paulo Roberto Ramos. Obrigada por estarem ao meu lado. Às minhas orientadoras, Terezinha Petrucia da Nóbrega e Karenine Porpino, por acreditarem - em muitos momentos mais até do que eu mesma- que eu conseguiria concluir e contribuir com meus conhecimentos. Obrigada, professora Petrucia, por me apresentar a fenomenologia de Merleau-Ponty desde a graduação, pela generosidade de partilhar conhecimentos com essa tese em cada leitura, por ser essa referência de seriedade e comprometimento com a pesquisa. Obrigada professora Karenine pela gentileza de aceitar ser minha co-orientadora e contribuir de forma tão preciosa com essa tese. Aos professores que participaram dos meus seminários doutorais que também de forma generosa contribuíram nessa construção de conhecimento: Rosie Marie Nascimento de Medeiros, Iraquitan Caminha, Claude Imbert e Bernard Andrieu. Ao Grupo Estesia pela partilha de conhecimentos. ..

(7) 6. Ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN pelo investimento em minha formação. Aos amigos e amigas que diretamente ou indiretamente ajudaram nesse processo como fonte de apoio e carinho. À todos, meus sinceros agradecimentos..

(8) 7. Trago dentro do meu coração, Como num cofre que se não pode fechar de cheio, Todos os lugares onde estive, Todos os portos a que cheguei, Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, Ou de tombadilhos, sonhando, E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero. CAMPOS, Álvares - Livro de Versos. Fernando Pessoa. Lisboa: Estampa, 1993, p. 26..

(9) 8. RESUMO Na tese, vestimos o afeto de um entendimento fenomenológico, a possibilidade de um corpo que por sua capacidade afetiva se abre ao outro para interrogar sua própria existência, criando e recriando a cultura, ampliando o processo de conhecer, sentir, pensar, agir, ser, transformar-se. Nesse contexto, a presente tese afirma o corpo e sua possibilidade de afeto em Lecuona, obra coreográfica da Companhia de Dança Grupo Corpo, como uma educação estesiológica. Os objetivos da pesquisa transcorrem entre lançar um olhar fenomenológico sobre as tramas de amor dançadas em Lecuona; estabelecer conexões entre as expressões filosóficas e artísticas. Sendo a primeira em busca de uma compreensão do corpo, da estesia e do afeto e a segunda, mediante o envolvimento da pesquisa nas poéticas da dança. Conexão que oportuniza a reflexão sobre uma educação estesiológica. O percurso metodológico dessa pesquisa se encoraja em uma atitude fenomenológica de Maurice Merleau-Ponty. Neste aspecto, destacamos a redução fenomenológica para interrogar a experiência vivida em busca de novos sentidos e significados relativos ao corpo e sua possibilidade de afeto nesta pesquisa. Como referência para descrever as cenas de Lecuona, fizemos uso do roteiro para apreciação de obras coreográficas ―A dança como carta do visível, do corpo e do movimento humano‖, desenvolvido pelo Grupo Estesia/DEF/UFRN. Os critérios das cenas escolhidas para descrição foram pautados na significação, no que nos fazem pensar sobre a estesia do corpo, as poéticas do movimento, os fluxos estéticos, e a relação da dança com a existência e com a educação e a arte, conforme nos orienta o roteiro em questão para apreciação de obras coreográficas. Fizemos uso do vídeo da dança, das imagens, entrevistas com o coreógrafo e com os bailarinos. A tese em questão se divide em quatro capítulos. No primeiro, construímos um pensamento sobre o afeto, cujas principais referências são: Maurice Merleau-Ponty, com sua ontologia, suas noções de sensível e corpo estesiológico – este corpo capaz de sensação que através do movimento do olhar que é significação, abre-se ao mundo das relações, expressa- se e inaugura as possibilidades de conhecimento–, como também Michel Maffesoli e sua convocação a uma ―ordo amoris‖ de Max Sheler, esse buscando o irrefletido dessa noção como uma ordem aos afetos como ligame societal. No segundo capítulo, convocamos Georges Didi-Huberman para desenhar uma dimensão estética que se encontra na imagem dos ―vagalumes‖ e, assim, pensarmos a dança e seus fluxos estéticos como capacidade afetiva e interrogativa da existência. Assim, refletimos sua potência para um estado de performance (bailarino-espectador) como criação de campos afetivos. Dentro desses pressupostos, pensamos as poéticas do Grupo Corpo nesse cenário da dança brasileira. No terceiro, trilhamos com o olhar os gestos dançados dos bailarinos de Lecuona, descrevemos suas tramas amorosas repletas de afeto e conhecimento. Por fim, no quarto capítulo, mediante o pensamento afetivo construído nos três capítulos antecedentes, refletimos sobre uma educação estesiológica que se configura no corpo e pelo afeto. Uma educação que vai além de instrução e técnica, uma educação que emerge das sensações, que vê no corpo e em suas possibilidades de afeto, um espaço de aprendizados significativos, envolvidos por uma dimensão estética do existir, articulando, criando e recriando sentidos nas diversas relações da existência. Neste entendimento, Lecuona reverbera as potencialidades educativas dessa pesquisa ao nos incendiar com seu amor: ao nos fazer experimentar as sensações da dança e nos envolver em seus sentidos, operando em nós campos de reflexões sobre nossa própria existência. Palavras-chaves: Corpo. Afeto. Dança. Lecuona. Educação Estesiologica..

(10) 9. ABSTRACT. In the thesis, we do not think of affection as a classification of positive and fraternal emotions. However, we clothe the affection of a phenomenological understanding, the possibility of a body that by its affective capacity opens itself to another to interrogate its own existence, creating and recreating culture, broadening the process of knowing, feeling, thinking, acting, being, becoming. In this context, the present thesis affirms the body and its possibility of affection in Lecuona, choreographic work of the Dance Company Grupo Corpo, as a esthesiological education. The objectives of the research run between throwing a phenomenological look at the love plots danced in Lecuona; to establish connections between philosophical and artistic expressions. The first one in search of an understanding of the body, of the estesia and the affection and the second, by means of the research involvement in the poetics of the dance. Connection that facilitates the reflection on a esthesiological education. The methodological approach of this research is Maurice MerleauPonty's phenomenological attitude. In this respect, we emphasize a phenomenological reduction to interrogate a lived experience in search of new meanings and meanings related to the body and its possibility of affection in this research. As a reference to describe the scenes of Lecuona, we made use of the script for appreciation of choreographic works ―A dança como carta do visísivel do corpo e do movimento humano‖. The criteria of the scenes chosen for description were based on meaning, on what makes us think about the body's esthetics, the poetics of the movement, the aesthetic flows, and the relationship of dance with existence and with education and art, according to Guides the script in question for appreciation of choreographic works. We made use of the video of the dance, of the images, interviews with the choreographer and with the dancers. The thesis in question is divided into four chapters. In the first, we construct a thought about affection, whose main references are: Maurice Merleau-Ponty, with his ontology, his notions of sensitiveness and the body of the estesia. Also we are Michel Maffesoli and his call to an "ordo amoris" by Max Sheler, who sought the unreflective of this notion as an order to affections. In the second chapter, we called Georges Didi-Huberman to draw an aesthetic dimension that is found in the image of the "fireflies" and, thus, to think of dance and its aesthetic flows as the affective and interrogative capacity of existence. Thus, we reflect its potency for a state of performance (dancer-spectator) as the creation of affective fields. Within these assumptions, we think about the poetics of Grupo Corpo in this scene of Brazilian dance. In the third, we look at the danced gestures of the dancers of Lecuona, we describe their amorous plots full of affection and knowledge. Finally, in the fourth chapter, through the affective thinking built up in the three previous chapters, we reflect on a esthesiological education that is configured in the body and by affection. An education that goes beyond instruction and technique, an education that emerges from the sensations that it sees in the body and its possibilities of affection, a space of meaningful learning, involved by an aesthetic dimension of existing, articulating, creating and recreating meanings in the diverse relations of existence. In this understanding, Lecuona reverberates the educational potential of this research by burning us with his love: by making us experience the sensations of dance and engaging in his senses, operating in us fields of reflection on our own existence. Keywords: Body. Affection. Dance. Lecuona. Esthesiological Education..

(11) 10. LISTA DE IMAGENS. Imagem 01: Grupo Corpo: Missa do Orfanato.......................................................90 Imagem 02: Grupo Corpo: Primeira parte de 21....................................................94 Imagem 03: Grupo Corpo: Segunda parte de 21 ..................................................94 Imagem 04: Grupo Corpo: Espetáculo Bach ….....................................................99 Imagem 05: Grupo Corpo: Lecuona/cenário para os duos ................................107 Imagem 06: Grupo Corpo: Lecuona/cenário com os espelhos ….....................107 Imagem 07: Espetáculo Onqotô/cena Bicho Tão Pequeno ................................112 Imagem 08: Lecuona - Te he visto pasar .............................................................118 Imagem 09: Lecuona - Te he visto pasar II ..........................................................119 Imagem 10: Lecuona - Te he visto pasar III .........................................................121 Imagem 11: Lecuona - Te he visto pasar IV .........................................................122 Imagem 12: Lecuona - Mariposa ...........................................................................128 Imagem 13: Lecuona - Mariposa/fuga Mariposa .................................................131 Imagem 14: Lecuona - Mariposa/ gesto de mariposa .........................................131 Imagem 15: Lecuona - Mariposa II …....................................................................133 Imagem 16: Lecuona - Yo te quiero siempre .......................................................138 Imagem 17: Lecuona - Yo te quiero siempre II ....................................................139 Imagem 18: Lecuona - Yo te quiero siempre III ...................................................141 Imagem 19: Lecuona - Yo te quiero siempre IV ...................................................142 Imagem 20: Lecuona - Cena final de Yo te quiero siempre ................................143 Imagem 21: Lecuona - Recordar ...........................................................................148 Imagem 22: Lecuona - Recordar II ........................................................................151 Imagem 23: Lecuona - Recordar/ arrastados …...................................................154 Imagem 24: Lecuona - Recordar/cruz ..................................................................154.

(12) 11. Imagem 25: Lecuona - Recordar/pose final .........................................................157 Imagem 26: Lecuona - Celos .................................................................................161 Imagem 27: Lecuona - Celos II ..............................................................................163 Imagem 28: Lecuona - Celos III .............................................................................168 Imagem 29: Lecuona - Celos IV ............................................................................169 Imagem 30: Lecuona - No me Niegues/virada dos espelhos .............................170 Imagem 31: Lecuona - No me Niegues ................................................................171 Imagem 32: Lecuona - No me Niegues/beijo final ...............................................174.

(13) 12. LISTA DE ANEXOS. Anexo 1: Roteiro para apreciação das obras coreográficas: pesquisa “A Dança Como Carta do Visível, do Corpo e do Movimento”...........................................221. Anexo 2: Imagem com Rodrigo Pederneiras na entrevista concedida a esta pesquisa no Teatro Municipal do Rio de Janeiro (16/09/2016)..........................223. Anexo 3: O programa de Lecuona com assinatura do coreógrafo....................224. Anexo 4: Entrevista com o coreógrafo do Grupo Corpo Rodrigo Pederneiras 16/09/2016- Teatro Municipal do Rio de Janeiro..................................................228. Anexo 5: Entrevista com o bailarino do Grupo Corpo André Venceslau. Realizada via rede social (facebook) em agosto de 2014..................................232. Anexo 6: Resumo das Tramas de Lecuona .........................................................235. Anexo 7: Artigos Jornalísticos ..............................................................................245.

(14) 13. SUMÁRIO PRÓLOGO: AMOR À PRIMEIRA VISTA .................................................................14 Uma fenomenologia para afetar e ser afetado pela experiência................................26 As Tramas .................................................................................................................31 PRIMEIRA TRAMA: ELOGIO DO AFETO ...............................................................34 Estesia do corpo ........................................................................................................40 O Afeto ......................................................................................................................50 SEGUNDA TRAMA: O CORPO E AS POÉTICAS DA DANÇA ..............................60 Uma dimensão estética: a dança dos vagalumes......................................................62 Fluxos estéticos da dança .........................................................................................69 Poéticas do Grupo Corpo ..........................................................................................80 TERCEIRA TRAMA: O BALÉ DA PAIXÃO ...........................................................115 Te He Visto Pasar ...................................................................................................117 Mariposa ..................................................................................................................127 Yo Te Quiero Siempre .............................................................................................137 Recordar ..................................................................................................................147 Celos .......................................................................................................................162 No Me Niegues ........................................................................................................169 QUARTA TRAMA: OS PASSOS DE UMA EDUCAÇÃO ESTESIOLÓGICA ........177 Um beijo que revela horizontes educativos ............................................................178 Dançando fluxos estéticos que podem educar pela sensibilidade e pela estesiologia.......191. NO ME NIEGUES ....................................................................................................205 OS LAÇOS AFETIVOS ...........................................................................................214 Referências .............................................................................................................215 Anexos .....................................................................................................................220.

(15) 14. PRÓLOGO: AMOR À PRIMEIRA VISTA.

(16) 15. De modo que é forçoso o Amor ser filósofo e, sendo filósofo, estar entre o sábio e o ignorante (PLATÃO, 2009, p. 107). Em O Banquete, um dos diálogos mais célebres de Platão (428 - 347 a.C.), o poeta Agatão promove um jantar em Atenas e põe em cena Sócrates, Fedro, Erixímaco, Aristófanes e outros convivas. Eles se deliciam no banquete e logo após se enfrentam em uma competição: cada um deve fazer um elogio do Amor. Chegada a vez de Sócrates, o último a discursar sobre o tema, este diz que o Amor carrega uma dubiedade, derivada de sua natureza: do mito de ser filho do deus Recurso e da deusa Pobreza, concebido no dia do nascimento de Afrodite. Por essa condição, primeiramente, o Amor é sempre pobre, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Por causa do pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria, a filosofar por toda a vida: nem imortal é a sua natureza nem mortal, e, no mesmo dia, ora ele germina e vive, quando enriquece; ora morre e de novo ressuscita, graças à natureza do pai. Haja vista que aquilo que consegue sempre lhe escapa, de modo que nem empobrece o Amor nem enriquece. Neste mito contado por Sócrates, o amor, representado pelo deus Eros, não é o próprio belo e o próprio bem. Eros surge das oposições, estando numa situação intermediária sem estar em qualquer oposto e extremo como entendíamos. O Amor, assim, está entre dois pólos e une em sua natureza o que antes era apropriado que continuasse separado. Assim, também está no meio da sabedoria e da ignorância, articulando as antinomias. A posição intermediária do amor no mito atribui-lhe movimento, sendo o mesmo movimento do homem em busca do outro (outro humano, o mundo, a natureza, cultura, linguagem, história), inaugurando o acontecimento. Segundo Maffesoli (2014), uma vez evacuada toda conotação açucarada para uso dos romances da coleção ―Harlequin‖, o amor tem seu lugar na existência, no fogo das efervescências que ele impulsiona, no ordenamento plural das coisas da vida sem síntese abstrata, mas em constante disseminação. Não se trata, é claro, de um amor que se pode reduzir à esfera privada. Nem de um amor que se designa apenas ao sentimento experimentado por duas pessoas. O amor em.

(17) 16. questão é o pathos (as emoções, paixões e os afetos). Assim, convocamos as coisas do amor, do afeto, que entendemos que ultrapassam qualquer marginalização de uma lógica positiva, configurando um campo de saber potente no qual esta pesquisa em questão se desenvolve. Aprendemos com a filosofia de Merleau-Ponty que as relações afetivas são saberes do corpo que ensinam sobre a existência. Neste entendimento, o corpo como ser sexuado faz as coisas existirem para nós pelo desejo ou pelo amor, e esse sentido afetivo aviva nossa relação com o outro e com nossa existência, um conhecimento que ultrapassa a ordem da consciência. A afetividade, nesse sentido, não é um mosaico de estados afetivos, prazeres e dores fechados em si mesmos, mas abertura ao mundo das relações. Segundo Nóbrega (2016), trata-se de uma compreensão erótica que é da ordem do desejo e que liga um corpo ao outro pelos afetos, como podemos observar nesta citação de Merleau-Ponty (1945): Portanto, se queremos pôr em evidência a gênese do ser para nós, para terminar é preciso considerar o setor de nossa experiência que visivelmente só tem sentido e realidade para nós, quer dizer, nosso meio afetivo. Procuremos ver como um objeto ou um ser põe-se a existir para nós pelo desejo ou pelo amor, e através disso compreenderemos melhor como objetos e seres podem em geral existir (MERLEAU-PONTY, 1945/2011, p. 213).. Nesse contexto, Merleau-Ponty na Fenomenologia da Percepção nos fala de afetividade, meio afetivo e não estabelece uma noção ao afeto, mas nos deixa ferramentas para compreendermos o afeto a partir de sua fenomenologia da afetividade. Em nossas breves palavras introdutórias, Merleau-Ponty (1945) diz que não tem como separar o sentir da afetividade, ele estabelece uma relação de sentido entre o sujeito (sua capacidade de sentir ligada ao corpo) e o mundo exterior, posto que no sentir do corpo já carrega a percepção (não há separação), que nos faz compreender a experiência vivida, ou seja, a sensação não é apenas um dado físico, pois já aporta um sentido afetivo. Nas aberturas desse pensamento de Merleau-Ponty, Deleuze e Guattari (1992) em O que é a Filosofia estabelece uma noção ao afeto e diz que não são afecções ―repertoriadas‖, distintamente denominadas, ao contrário, os afetos ―transbordam a força daqueles que são atravessados por eles‖ (p. 213). Para Deleuze e Guattari (1992) os afetos revelam as forças que modulam as sensações.

(18) 17. que nos afetam e nos impulsionam. Eles dizem que o homem é um composto de afetos, composto de devires. Nesse sentido, os afetos potencializam a relação sujeito-mundo,. portanto,. possibilita. devires. humanos. que. arrancam. toda. representação. Ou seja, o afeto não é a passagem de um estado vivido a um outro, mas é dado ao devir do corpo, não é uma imitação, uma simpatia vivida, nem mesmo uma identificação imaginária, mas arbitrariedade, partilha, retornos e desvios que sustentam o acontecimento. Nesse entendimento do afeto, tecendo relações entre Merleau-Ponty e Deleuze e Guattari, temos no primeiro a afetividade como a expressão dos afetos. Esta expressão está diretamente relacionada a experiência do corpo, ampliando e moldando o espaço objetivo, despertando um conhecimento sensível sobre o mundo expresso emblematicamente nas relações amorosas, nos afetos, como também na linguagem poética. Nesse sentido, - aproveitando do entendimento de Nóbrega (2016) em relação a Merleau-Ponty- a afetividade se apresenta como um componente da existência e da operação expressiva da comunicação. Em Deleuze e Guattari (1988, 1992) temos então o afeto como o que nos afeta e nos coloca em situação de potência significativa. Assim, compreendemos o afeto para além de uma classificação das emoções positivas, fraternas. Vestimos o afeto de um entendimento fenomenológico, a possibilidade de um corpo que por sua capacidade afetiva se abre ao outro para interrogar sua própria existência. Possibilidade esta que nos liga ao outro com fios intencionais afetivos que fazem a trama de uma vida que se escapa de si mesmo. Assim, parafraseando Nóbrega (2016), por meio dos afetos, do amor, podemos compreender a sociedade, a política, a cultura, a história, a educação, entre tantos outros eixos possíveis. Maffesoli. (2005,. . 2014). contribui. em. nossa. pesquisa. pelo. aporte. fenomenológico que sustenta a tomada de decisão de sua sociologia e de como ele pensa a educação, partindo de uma reintrodução dos afetos na compreensão da existência. Ele diz que o sistema educativo em suas diversas formas, como também a organização social, a economia, foram fundamentos que se constituíram elos sociais, essencialmente racionais, que marginalizam os afetos. Nesse sentido, em um exemplo de seu cotidiano como professor de uma honorável instituição, ele fala.

(19) 18. da Sorbonne e a chama, utilizando Kierkegaard, de ―palácio desafetado‖. Uma universidade que ele diz ―fortaleza vazia‖. Vazia de vida, de sonhos, de pensamento. Ou seja, ele diz que há razões sem pensamento, isto é, sem enraizamento na experiência cotidiana, esse é o caso da Sorbonne, na opinião de Maffesoli (2014), e de todos os movimentos que privilegiam uma pretensão intelectual. Isso incita ao risco, ao ouro de toda fenomenologia como ele diz: ―a abstinência de toda tomada de posição. Saber pugar-se das nossas convicções, de nossas opiniões, para apreciar o mundo tal como ele é, tal como ele se mostra, e a viver‖ (MAFFESOLI, 2014, p. 9). E devolver aos afetos sua importância como ligame societal1. E, com isso, adentrar a sensibilidade como inteligibilidade, assim como fez Merleau-Ponty em sua filosofia, na possibilidade de devolver vida ao pensamento, na sinergia da razão e do sensível. Assim se exprime a sinergia da razão e do sensível. O afeto, o emocional, o afetual, coisas que são da ordem da paixão, não estão mais separados em um domínio à parte, bem confinados na esfera da vida privada, não são mais unicamente explicáveis a partir de categorias psicológicas, mas vão tornar-se alavancas metodológicas que podem servir à reflexão epistemológica, e são plenamente operatórias para explicar os múltiplos fenômenos sociais, que, sem isso, permaneceriam totalmente incompreensíveis (MAFFESOLI, 2005, p 72).. Em seu entendimento de afeto como ambiência, Maffesoli (2005, 2014) parte do princípio que nós estamos imersos em uma atmosfera estética que é feita de emoções e afetos compartilhados, onde se estabelece o ligame societal. Uma espécie de síntese disseminadora que metamorfoseia tudo e todas as coisas. Maffesoli (2014) diz que ninguém, entre os espíritos agudos deste tempo, ignora totalmente a importância dos afetos, mesmo que muitos o desprezem. Para o autor, isso é dar conta do ―real‖ que contém a ―poesia da existência‖. Um ―real‖ que não tem a ver com o ―princípio da realidade‖, que é próprio da modernidade, reduzir a totalidade às suas mais simples expressões: econômica, social, política. O espírito do tempo parece pôr em dúvida a ordem racionalista que prevaleceu e convocar o emocional. Daí a ênfase no papel dos afetos no mundo da. 1. O termo societal é usado pelo autor quando deseja sublinhar a característica essencial do ―estarcom‖, ―viver-junto‖, superando a simples associação racional designada pelo termo social..

(20) 19. existência. É a ordo amoris2 de Scheler, convocada por Maffesoli (2014), o erótico social, ou seja, a atitude corajosa de encontrar a força que faz o acontecimento. Um ―viver-junto‖ que, além do ―marulho das causas segundas‖, encontra seu fundo numa ordo amoris que, sempre e de novo, repete o poder do amor que, sempre e de novo, repete o poder da vida. Esta ordo amoris é a ordem do afeto. Assim, querendo convocar o afeto como um campo de saber importante para compreendermos como se dão as linhas de forças que garantem o elo da existência humana, esta pesquisa se lança em uma experiência estesiológica ao se propor a olhar a obra Lecuona do Grupo Corpo para compreender uma educação que se dá no corpo e pelo afeto. Assim, a tese afirma o corpo e sua possibilidade de afeto visível na obra coreográfica Lecuona, da referida companhia de dança, como uma educação estesiológica. Esta atitude estesiológica encontra em um corpo capaz de sensação sua condição existencial, pois pelo sentir abre-se ao outro e às possibilidades de afeto. São compreensões da ontologia de Merleau-Ponty (1956-1960/ 1964), pensamento que exige uma Estesiologia: ciência que investe estudos sobre as sensações. Não é possível pensar a estesiologia sem o corpo. Refletiremos com mais propriedade no percorrer desta tese. As inquietações desta pesquisa estavam desde a elaboração do meu trabalho de mestrado ―O Corpo do Grupo Corpo: os movimentos das obras Benguelê, Lecuona e Onqotô” (DA SILVA, 2013), defendido pelo programa de Pós-Graduação em Educação Física da UFRN, orientado pelo Prof.ª Dr.ª Rosie Marie Nascimento de Medeiros. Tal pesquisa lança um olhar fenomenológico à dança da Companhia brasileira Grupo Corpo com objetivo de entrelaçar, tendo em Maurice Merleau-Ponty o referencial principal, os conhecimentos do corpo e do sensível nas descrições de três obras do Corpo: Benguelê (1998/2003), Lecuona (2004) e Onqotô (2005). Assim, afirmamos no mestrado que o corpo do Grupo Corpo é o corpo barroco, efêmero, sombrio, mutável, paradoxal, que une as contradições numa grande harmonia, como num balanceio dos opostos, como no balanceio da existência. Ele é belo e grandioso, atencioso às paixões, aos afetos, não exclui a fealdade, o excesso, o mistério, reconcilia-se com a condição humana, é conhecimento. Na descrição de 2. ―A ordem do amor‖..

(21) 20. Lecuona (cena Te He visto Pasar), contido no segundo capítulo da dissertação, investimos na sensação em busca de uma atitude que anima o corpo e o abre para incorporação do mundo e para existência; refletindo em um sentir que é propriamente significação. Tal atitude me permitiu muitas possibilidades de reflexão em torno do afeto e me abriu horizontes, estes que pretendo engajar no percurso dessa tese, aprofundando-me na investigação sobre o afeto, trazendo para nosso diálogo, além de Merleau-Ponty, outros autores que nos darão suporte na filosofia, na estética, na educação e na dança, entre outros artistas, escritores e viventes. O espetáculo Lecuona, estreado no ano de 2004, de coreografia de Rodrigo Pederneiras, é um investimento em duos3, re-significações das danças de salão (bolero, tango, valsa). São doze duos dançados, cada casal contando uma história de amor diferente, mas que qualquer um de nós possivelmente já vivemos – histórias de sofrimentos, entregas, sacrifícios, arrepios, lágrimas de dor, de felicidade, de suor e saliva. Os gestos de Lecuona criam uma dialética do amor, eles traduzem desejo, sedução, sensualidade e mais, sendo possibilidades desses corpos que se lançam um em direção ao outro. A música de Ernesto Lecuona da década de 1950, ao se unir a esses gestos e ao conjunto da obra, requebra nossas emoções, dá um ritmo às intenções operantes da dança, conta uma história de amor e favorece um espetáculo para nossos sentidos. Há uma poética nesta obra do Grupo Corpo que me atrevo ao envolvimento e sugiro um diálogo que nos permita colocar em suspenso as cenas e suas possíveis artimanhas artísticas e as interrogar, mirando o poder de um corpo que, diferentemente das ―coisas‖, permitese, no milagre das sensações, criar campos afetivos, estar com os outros, existir. Esta pesquisa justifica-se pelo diálogo e reflexão sobre o corpo, afeto e educação como constatamos no estado da arte realizado sobre a temática. Pretendemos ultrapassar a compreensão do corpo-físico apenas, um objeto material e inerte, mas este corpo vivo dotado de intencionalidade original a qual me permite lançar-me no mundo e apreender o seu sentido. Pensar o afeto num mundo contemporâneo e tecnológico, onde, em meio aos seus prejuízos operantes, cada vez mais as pessoas estão individualistas (no que tange o contato, o compartilhar), 3. É o termo utilizado na dança para quando a cena , ou uma escala de movimentos, é composta por dois bailarinos, dividindo o mesmo espaço e tempo cênico, aonde os movimentos de ambos são projetados em função ou em direção ao corpo do outro..

(22) 21. anestesiadas (no que tange às emoções), apressadas e programáticas, é muito válido e pertinente. Assim, a pesquisa segue sua relevância por almejar se unir a produções científicas que tem contribuído com suas reflexões para que cada vez mais a educação, com um olhar particular sobre o corpo nesta pesquisa, estabeleça conexões com o sensível, ultrapassando uma compreensão de educação apartada do corpo e da experiência vivida. Com isso, entrelaço-me aos pesquisadores que tem investido tempo de reflexão no pensar o corpo sensível, seu engajamento na sensorialidade, no discurso fenomenológico, principalmente à fecundidade da atitude fenomenológica do filósofo Merleau-Ponty. Assim como as pesquisas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, principalmente no Grupo de Pesquisa Estesia4 que tem investido muito nessa temática com pesquisas bem consistentes, contribuindo na área da Educação Física, Educação e Arte, como as produções da Prof.ª Dr.ª Terezinha Petrúcia da Nóbrega (2010; 2015; 2016), como também as pesquisas sob sua orientação, como da Prof.ª Dr.ª Rosie Marie Nascimento de Medeiros (2010), o livro da Prof.ª Dr.ª Karenine Porpino (2006). Também, nestas contribuições, a tese de Gilmar Leite Ferreira (2013) e a pesquisa de Avelino Neto (2016), dentre outras tantas pesquisas que tem tornado fecundo esses saberes, aos quais me uno nessa atitude, pretendendo contribuir com esses conhecimentos. O estado da arte, como já mencionado, trouxe uma singular importância ao estudo em questão. No banco de dissertação/teses da Capes encontrei três pesquisas, uma de mestrado e outra de doutorado, voltadas para o Grupo Corpo 5. A primeira é especificamente dirigida ao coreógrafo Rodrigo Pederneiras, de um Professor do Departamento de Arte da UFRN, Marcos Bragato, intitulada ―Saltos, emergências, permanências: três tempos na obra de Rodrigo Pederneiras‖ (1996), 4. Os trabalhos do Grupo Estesia, presentemente, desenvolvem-se no âmbito do Programa de PósGraduação em Educação Física da UFRN, na área de concentração Movimento Humano, Cultura e Educação. No Programa de Pós-Graduação em Educação, as orientações de mestrado e doutorado se dão na Linha Pesquisa Educação, Comunicação, Linguagens e Movimento. O Estesia abarca três linhas de pesquisa: Corpo, Estética e Movimento Humano; Corpo, Expressividade e Movimento Humano; Filosofias do Corpo e do Movimento Humano 5. Temos também a dissertação ―O Corpo do Grupo Corpo: os movimentos das obras de Benguele, Lecuona e Onqotô‖, de nossa autoria. Temos como objetivo ultrapassar as reflexões de nosso primeiro esforço, ao pensar as obras do Grupo Corpo e ir ao encontro do impensado desta pesquisa..

(23) 22. pela PUC de São Paulo; esta é uma análise dos espetáculos Prelúdios, Missa do Orfanato e 21 e parte de um olhar para as descontinuidades coreológicas das obras do Grupo Corpo. A segunda, tese de doutoramento, intitulada "Um pas-de-deux da estratégia com a arte: as práticas da Companhia de dança do Grupo Corpo" é uma pesquisa defendida no Programa de Pós- Graduação em Administração da UFMG, tendo como autor Ernani Viana Saraiva, trata-se de um olhar para a gestão e a estrutura organizacional da Companhia. Podemos citar também o mestrado acadêmico em estudos de linguagem, do Centro Federal de Educação Tecn. de Minas Gerais, de Siane Paula de Araújo, intitulado ―O Corpo Mídia em ‗Nazareth‘: uma análise semiótica da linguagem coreográfica do Grupo Corpo Companhia de Dança‖, a pesquisa propõe uma análise semiótica da obra Nazareth. Sobre o tema Afeto, foram encontrados mais de 300 teses e dissertações, como, por exemplo, a pesquisa de mestrado em Educação da USP de Santos (2011), ―A Escrita e o afeto: o impulso de Jõao Guimarães Rosa em seu corpo de baile‖. Já para uma busca avançada sobre Afeto e Fenomenologia, encontramos três registros, sendo o primeiro o mestrado acadêmico em Educação do Centro Universitário de São Paulo, de Gonçalves (2011), ―Revelações: Poderes e afetos nas entrelinhas do bilhete escolar‖. O segundo registro é a tese de doutorado em Psiquiatria e Saúde Mental pela UFRJ, ―Fatores de vulnerabilidade para TEPT em policiais militares‖, Bezerra (2011). E, por último, a pesquisa de mestrado em Psicologia Social da USP, ―A Cidade na Avenida: a poética urbana da avenida paulista pelo olhar dos artistas que nela trabalham‖ de Marin (2011). Diante dessas investigações que já trataram o tema desta tese, nada fora encontrado sobre o afeto dentro de uma perpectiva estesiológica do corpo. Tais pesquisas abordam o afeto de um ponto de vista que se restringe a sentimentos positivos e comuns à sociedade, sem maiores aprofundamentos filosóficos e estéticos. A filosofia de Merleau-Ponty coloca muito mais questões do que oferece respostas e a profundidade de seus pensamentos está justamente nestas interrogações que é a cava para o impensado. O Impensado não é oposto do que se pensa, não é a falta de pensamento, mas o que sustenta o pensar, o que faz pensar. Um saber não se mostra completo, mas na atitude interrogativa sobre o fenômeno.

(24) 23. ele se revela sempre como algo novo, como criação. Nossos argumentos exigem uma Estesiologia: estudo das sensações. A estesia do corpo é uma noção proposta na fenomenologia de Merleau-Ponty, principalmente refletida nos livros Le Visible et Le Invisible (1964) e Resumé de Cours – 1952-1960 (1968)6que expressa o corpo capaz de sensação, aberto ao outro e, diante disso, multiplicador de sentidos. O corpo estesiológico é a noção indicativa do deslocamento ontológico na filosofia de Merleau-Ponty, indica a passagem de uma descrição fenomenológica do corpo para a experiência estesiológica, aprofundando a compreensão de corpo ao considerar os vínculos com a natureza, a linguagem e a história. Essa arqueologia do corpo revisa, altera, confirma e também ultrapassa a fenomenologia da percepção, como afirma Nóbrega (2014). A estesiologia expressa, esboça, contém uma filosofia do corpo como carne, que é o oposto de representações conscientes, mas que é o sentir mesmo (MERLEAU-PONTY, 1956-1960/2006). Segundo Merleau-Ponty (1964/2009), no entrelaçamento possível com o outro, dado pela experiência do corpo, as propriedades do objeto e as intenções do sujeito não apenas se misturam, mas constituem um todo novo. Este movimento vivo, necessário e expressivo se estabelece na estesia do corpo através da reversibilidade dos sentidos. Assim, para o irrefletido, para o impensado, parte o movimento da reversibilidade, vai em direção aos mistérios do mundo. Desse modo, convido-os a se envolverem nas possibilidades de um corpo estesiológico, que por ser corpo, sente e que, por sentir, é e pode. Com isso, mergulho em sua profundidade, em seus mistérios, num compromisso com o afeto, com o outro, este pelo qual me conheço, pelo qual desejo, outro a que me dirijo para interrogar minha existência. Na obra Lecuona, temos a expressão de estesia na experiência do desejo e dos afetos, uma comunicação sensível, denunciando o corpo sexual, avivado pelas paixões, orgânico, capaz de sofrer, sentir dor e sentir glórias, sentir absurdas e desconhecidas sensações, mas que continua nesta busca do outro para interrogar sua existência. Com isso, vemos nessa obra a possibilidade de pensarmos uma educação que se abre aos sentidos, ao outro, reaprende a ver o mundo, re-significa experiências, reconstrói caminhos, cria, ultrapassa limites científicos, convocando o 6. Especificamente as notas sobre o corpo..

(25) 24. desejo, o afeto, os sentidos, os simbolismos, as subjetividades, as diferenças desses corpos como possibilidades de conhecimentos dados pelo sensível, outra lógica. Campo esse em que esta pesquisa entra e se espalha, une-se no desafio de pensar uma educação que se constrói no e pelo corpo sensível, constrange um conhecimento que se acha desencarnado. Mediante isso, já se avançou bastante no campo epistemológico7, com resistências ainda, é fato, mas, a potência cada vez mais operante do corpo sensível tem difundido um saber contagioso. Segundo Nóbrega (2010), pesquisadora especialista em Merleau-Ponty e uma interlocutora de suas noções na Educação Física e Educação, as funções corporais são vividas, com prazer e delícia, ou com sofrimentos e angústias, entre outras possibilidades, desafiando a análise e a compreensão teórica. A autora continua a afirmar que a arte, ciência, filosofia, cultura e educação não esgotam as possibilidades da experiência vivida, mas redimensionadas pela ludicidade da criação e da ação humana, podem também refazer nossos instrumentos de observação, interpretação, como as dadas pelo corpo vivo e sua condição paradoxal de objeto e sujeito da existência. Sendo o corpo condição existencial, afetiva, histórica, epistemológica, como compreendemos ao entrelaçar esta pesquisa à fenomenologia de Merleau-Ponty, precisamos admitir que o corpo já está presente na Educação, na Arte, na Filosofia, na ciência de modo geral e na Educação Física. O desafio é superar as práticas disciplinares que os atravessam e reencontrar outras linhas de força e compreensão. Desse modo, as aventuras pessoais, os acontecimentos eventuais ou históricos, a linguagem do corpo precisam ser considerados (NÓBREGA, 2010). As expressões da arte no geral: a dança, a pintura, textos poéticos, mas, também, textos políticos, filosóficos, que nos despertam – por meio das significações criadas no ato da leitura, apreciação, criação – revela uma pulsação que se expressa numa linguagem que é relação com o outro, através da comunicação dos sentidos. Pensamos que essas significações podem ser consideradas nas práticas educativas e num pensar o corpo e os afetos na Educação, como também entre 7. Refiro-me principalmente às pesquisas desenvolvidas na última década pelas orientações das Doutoras Terezinha Petrucia da Nóbrega, Karenine Porpino, Rosie Marie Nascimento de Medeiros que compõem o Grupo Estesia/UFRN..

(26) 25. outras áreas do conhecimento, mostrando outras possibilidades de convivência com o corpo que se inspiram nas teses fenomenológicas, como nos ajuda nessa reflexão Nóbrega (2010). Nesta inquietação, recorro à arte como espanto, principalmente à obra de arte moderna do século XX em diante, que transita entre o humano e suas paixões. Essa arte, com sua explosão do inteligível, para se pensar a filosofia do corpo e do sensível. Segundo Merleau-Ponty (1948/2004), um dos méritos da arte e do pensamento desse período moderno é o de nos fazer redescobrir esse mundo em que vivemos e que sempre somos tentados a esquecer enquanto permanecemos numa postura prática e utilitária. Com essa atitude, volto meu olhar para a dança, sua poética, ao desvelar o impensado, o invisível, o que ainda não foi dito, buscando subsídios que possam oferecer imagens sensíveis dos conceitos e das reflexões sobre corpo com um investimento na sensação e no afeto, numa busca pelo Ser de profundidade através da obra de arte da dança como intencionalidades desta pesquisa. Pois, podemos vislumbrar na dança do corpo um sentir que é significação. Diante disso, afirmamos ser possível, num olhar fenomenológico, pensarmos o corpo e o afeto através das descrições e as leituras desta tese. Desse modo, este corpo como possibilidade de afeto, expressado nas doze tramas do espetáculo Lecuona, pode nos fazer pensar uma educação estesiológica. Assim, os objetivos da pesquisa transcorrem entre lançar um olhar fenomenológico sobre as doze histórias de amor dançadas em Lecuona e estabelecer conexões entre as expressões filosóficas e artísticas. Sendo a primeira em busca de uma compreensão do corpo, da estesia e do afeto e a segunda, mediante o envolvimento da pesquisa nas poéticas da dança, conexão que oportuniza a reflexão sobre uma educação estesiológica. Nesta compreensão, essa noção de olhar está além de uma função dos órgãos dos sentidos, mas abraça a significação quando me lanço ao outro em busca de sentidos, como assim nos faz pensar as leituras em Merleau-Ponty. Assim, pensar a educação a partir desta pesquisa nos desafia a um novo olhar a este corpo, reaprendendo a ver o mundo e desafiando nossa capacidade de criar novos sentidos. As reflexões apresentadas aqui pretendem nos levar ao espanto, no qual muitos desafios ainda se impõem, entre eles a compreensão do corpo e do conhecimento sensível. Esta tese une objeto e sujeito do movimento,.

(27) 26. socializando um novo olhar sobre o corpo, estimulando a reflexão para o despertar do corpo para seus sentidos e desejos, considerando sempre que o movimento deve despertar no sujeito a percepção de si mesmo como ser corporal, em relação com os outros e com o mundo, e da sensibilidade como atribuidora de significado às ações humanas. Uma Fenomenologia para afetar e ser afetado pela experiência. Em busca de um percurso metodológico que movimentasse as nossas pretensões de pesquisa, recorremos à atitude fenomenológica de Merleau-Ponty como estilo, uma maneira e um movimento (MERLEAU-PONTY, 1945). Estilo de pensar o mundo, as coisas, a existência ligado à minha afetividade, que une elementos e vivências e me possibilita inaugurar conexões possíveis no campo do saber. Merleau-Ponty configura uma linguagem sensível que é expressa nos movimentos e aprofunda as teses da Fenomenologia num novo arranjo para o conhecimento enquanto resultado de nossa experiência no mundo vivido (NÓBREGA, 2009). Essa atitude se porta com a coragem dos que ―celebram o mundo‖. É, antes de tudo, envolvimento com o mundo da experiência vivida com intuito de compreendê-la. A noção ―mundo vivido‖ não se refere a uma identificação pessoal, introspectiva, nem a um entendimento apenas relacionado ao "meu" mundo e "minhas" relações. Segundo Nóbrega (2010), o vivido não é um sentimento, mas se refere à percepção como modo original da consciência, ou seja, essa expressão mundo-vivido é uma tentativa de tradução da expressão alemã Lebenswelt, que diz respeito ao mundo pré-reflexivo, este que nos possibilita o refletido. O termo Lebenswelt ganha força com o entendimento sobre a questão da verdade a partir da obra de Husserl Investigações Lógicas. Assim, reflete-se a verdade não como adequação do pensamento ao objeto, não sendo definida a priori pelo sujeito e nem contemplada na pura exterioridade do objeto. A verdade é definida na evidência da experiência vivida que precisa ser interrogada. Nesse entendimento, a Fenomenologia busca como finalidade compreender o sentido do mundo, ou seja, suas essências que se encontram na existência. E não.

(28) 27. pensa que se pode compreender o homem e o mundo de outra maneira senão entendendo que sou ―da cabeça aos pés‖ envolvimento com o mundo (eu afeto e sou afetado por ele). Segundo Nóbrega (2016) é preciso considerar que a essência não existe separada da existência, sendo esta que faz distender os fios intencionais. ―As essências de Husserl [da fenomenologia] devem trazer consigo todas as relações da experiência, assim como a rede traz do fundo do mar os peixes e as algas palpitantes‖ (MERLEAU-PONTY, 1945 apud NÓBREGA, 2016 p. 16). Nóbrega (2009) define a fenomenologia como sendo a atitude de envolvimento com o mundo da experiência vivida, com o intuito de compreendê-la. Esta compreensão não é uma representação mental do mundo, mas sim envolvimento que permite a reflexão e a interpretação. Em relação à noção de mundo, Merleau-Ponty (1945) afirma que o mundo é aquilo que vivo e não aquilo que penso. Estamos vulneráveis a este mundo, comunicamo-nos com ele, mas não podemos possuí-lo, pois este é inesgotável. A atitude fenomenológica desta pesquisa ultrapassa o racionalismo ao lançarse no mundo da dança, em especial à dança do Grupo Corpo e, com isso, buscar novos olhares e novos sentidos para a existência, unindo sujeito e o objeto em sua compreensão de mundo e de corpo. Traçamos fios intencionais entre a arte, a filosofia e a educação. Para a fenomenologia de Merleau-Ponty a transubstanciação entre corpo, arte, e educação é plenamente possível por meio da linguagem sensível e sua expressão na palavra, na dança, na pintura, na literatura, nas imagens do cinema, entre outros indicadores do mundo da cultura e do mundo das relações. Neste trato, destacamos a redução fenomenológica para interrogar a experiência vivida em busca de novos sentidos e significados relativos ao corpo nesta pesquisa. De acordo com Merleau-Ponty (1945), para apreender, descrever e atribuir sentidos aos acontecimentos é preciso, inicialmente, romper com nossa familiaridade com o mundo-vivido, recusar-lhe nossa cumplicidade, colocando-a fora de jogo, para uma melhor compreensão:. É porque somos do começo ao fim relação ao mundo que a única maneira, para nós, de apercebermos-nos disso é suspender este movimento, recusar-lhe nossa cumplicidade, ou ainda colocá-la fora do jogo (...) a reflexão não retira do mundo em direção à unidade da consciência enquanto fundamento do mundo; ela toma distância para ver brotar as.

(29) 28 transcendências, ela distende os fios intencionais que nos ligam ao mundo para fazê-lo aparecer, ela só é consciência do mundo porque o revela como estranho e paradoxal (MERLEAU-PONTY, 2011, p.10).. Essa redução nunca será completa, como evidencia o filósofo, pois estamos imbricados no mundo e fazemos parte de sua teia por meio de nossas experiências. A redução começa com o afastamento das nossas crenças e ideologias para, assim, interrogá-las e permitir a criação de novos sentidos. Partindo do mundo vivido da dança, onde realço minha experiência na dança clássica e, logo após, na dança contemporânea como integrante da Companhia de Dança Contemporânea Aviva8, faço-me cúmplice dessa pesquisa que lança um olhar sobre obras contemporâneas do Grupo Corpo. Procuro suspender essa familiaridade e cumplicidade existente com a dança contemporânea para descobrir novos sentidos, novas significações que essas obras da Companhia possam evidenciar sobre o corpo e o sensível. Esses impulsos de pesquisa se misturam com uma vida, posto que minhas experiências se dobram sobre o percurso metodológico desta tese, como um estilo de pesquisa. Posto que, ―a fenomenologia se deixar praticar e reconhecer como maneira ou como estilo; ela existe como movimento antes de ter chegado a uma inteira consciência filosófica‖ (MERLEAU-PONTY, 2011, p.2). Assim, foi possível nesta pesquisa a união de duas de minhas paixões: a dança e a filosofia. A primeira me atravessa com suas inúmeras sensações e significações que sempre estiveram presentes como expressão profunda, um impulso vital que me leva a novas formas de sentir a vida, construí-la, interpretá-la e ampliá-la, desvendando a possibilidade do descobrir, do criar ambientes de liberdade, do compartilhar e do aprender, além de passos diversos, novos sentidos e significados para minha existência. A dança foi um dos caminhos que me transportou a outros mundos. Assim, teorizar a experiência com essa arte foi o que gerou a escolha por uma trajetória acadêmica. Neste processo, cursando a graduação em Educação Física, identifiquei-me epistemologicamente com os 8. Essa Cia de dança iniciou-se em 2006 por um grupo de amigos bailarinos que tinha a intenção de unir suas experiências na dança de modo geral e na dança cristã numa possibilidade de refletir o mundo e transmitir uma mensagem de esperança através dos movimentos. Tinha como coreógrafo Felipe Rocha, mestre em artes cênicas pela UFRN..

(30) 29. conhecimentos que esta área compartilha das Ciências Humanas. Em contrapartida, aproximei-me da filosofia, de alguns pensadores contemporâneos, da fenomenologia de Merleau-Ponty e seus questionamentos sobre o corpo e o sensível mesmo que de maneira inicial (acho que sempre terei essa impressão). O despertar para a filosofia (principalmente a fenomenologia) e para educação reverberou minhas escolhas epistemológicas. Ora, estas vivências se dobram sobre as intenções dessa pesquisa e encontram no afeto o que as ligam para construir algo novo, caminhos de novas interrogações, de novas afetações. Diante disso, descrevo as ações que traçam e tornam possível essa tese. Para as descrições das cenas da obra do Grupo Corpo, Lecuona, fazemos uso do vídeo do espetáculo. Em relação a isto, esta tese acompanha um vídeo com as cenas analisadas. Utilizamos também as imagens do espetáculo, apreciação da releitura da obra no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 2016, da entrevista com o coreógrafo Rodrigo Pederneiras concedida a nossa pesquisa, das entrevistas dadas pelo coreógrafo a jornalistas e outros autores, das falas e entrevistas dos bailarinos concedidas ao documentário Lecuona (2005) e em sites jornalísticos, traçando uma trama de sentidos que permitam a reflexão sobre os objetivos de pesquisa. Importante pontuarmos que fizemos uma entrevista com o ex-bailarino do Grupo Corpo André Venceslau, concedida a esta autora da tese em questão em agosto de 2014. Ele dançou Lecuona e outras obras do Grupo Corpo. Fizemos a entrevista via redes sociais. Todavia, percebemos que as respostas dadas pelo bailarino não contribuíram para os sentidos dessa pesquisa o que não impede de contribuir para outros estudos. Diante disso, deixamos em anexo neste trabalho para consulta e usufruto do leitor. Acredito que todos os caminhos, os registros de pesquisa são válidos para uma construção do pensamento e por isso não o descartamos. Para melhor elencar os sentidos desta tese e nos auxiliar na descrição das cenas, fizemos uso do roteiro para apreciação de obras coreográficas, elaborado no Grupo de Pesquisa Estesia no projeto A dança como carta do visível, do corpo e do movimento humano, na coordenação da Doutora Terezinha Petrucia da Nóbrega. Os critérios das cenas escolhidas para descrição foram pautados na significação, no.

(31) 30. que estas nos fazem pensar sobre a estesia do corpo, as poéticas do movimento, os fluxos estéticos, e a relação da dança com a existência e com a educação e a arte, conforme nos orienta o roteiro em questão para apreciação de obras coreográficas. Este roteiro é uma ferramenta propícia para traçar uma cartografia da obra Lecuona, pois além de identificar e caracterizar a obra, ele ajuda na apreciação e no elencar de sentidos, reflete o posicionamento do corpo na obra, sua postura diante do mundo das relações e em meios as sensações, traz os gestos dançados como potência de percepção e os argumentos cênicos: cenário, música, figurino, iluminação etc. como possibilidades reais de significação. Todo esse aparato para pensarmos a dança como movimento que nos seduz a pensar a educação, a arte, a filosofia, a educação física, a existência. Importante ressaltar que não apresentamos como intenção descrever totalmente as cenas, ou seja, todas as intenções que englobam o trabalho que resultam as cenas, por acreditarmos ser uma tarefa infinita, haja vista que a arte nos possibilita o poder da reinterpretação e de re-significação. Neste contexto, sendo coerente com o método fenomenológico, Medeiros (2010)9 afirma que devemos nos limitar ao que está visível a nós, aquilo que a cena nos evidencia de sentidos. Desse modo, voltamos nosso olhar para as cenas, captando as várias significações que nos são oferecidas sobre corpo e afeto, acreditando na parcialidade e na tarefa inacabada da pesquisa. Para ser afetada pelas cenas de Lecuona, pelos gestos dançados, pelas tramas de amor, fizemos uso de vídeos das cenas do espetáculo, como já mencionamos. É de suma importância na descrição das cenas, visto que, conforme Pavis (2005), o vídeo restitui o tempo real, além disso, é a mídia mais completa, que reúne o maior número de informações, expressando as várias características e a visão geral do espetáculo. Também junto a essa experiência do vídeo, a oportunidade de ver a reapresentação de Lecuona no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em setembro de 2016, experiência que me acrescentou novos sentidos, podendo comparar a vivência de assistir pelo vídeo e, após, a incrível experiência de apreciar ao vivo no 9. A autora evidencia essa preocupação em sua tese, quando faz as descrições dos espetáculos de dança Folguedos, Guarnicê e Flor de Lírio do Grupo Parafolclórico que é um projeto de extensão do Departamento de Educação Física da UFRN..

(32) 31. teatro. Assim, também fizemos uso de imagens das cenas que nos ajudaram igualmente na descrição e em nossos argumentos de pesquisa. Entrelaço as músicas de Ernesto Lecuona como sentidos da descrição, posto que ela dá o tom das tramas, mobiliza os gestos. As descrições também nos entrelaçaram com a poesia de Pessoa, Guimarães Rosa, Neruda, a literatura de Proust, Nelson Rodrigues, entre outros artistas e também pensadores. Para enriquecer nossa pesquisa e contribuir diretamente com nossos objetivos, tivemos a oportunidade de conversar com o coreógrafo de Lecuona, Rodrigo Perdeneiras no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em setembro de 2016. Nós o interrogamos sobre Lecuona e o afeto, a obra e as sensações, a obra como marco dentro dos fluxos estéticos do Grupo Corpo, o processo criativo, como se deu o envolvimento dos bailarinos na intenção da obra, Lecuona como educação. O diálogo foi deveras importante para reafirmar os argumentos da tese: no que tange às poéticas do Grupo Corpo, na descrição das cenas e no refletir de Lecuona, seu fazer e sua potência no pensar sobre educação estesiológica. As cenas escolhidas para descrição foram Mariposa, Te he visto pasar, Yo Te Quiero Siempre, Recordar, Celos e No Me Niegues. Escolhemos essas seis cenas, de um total de doze, e o critério é a significação, o que delas arrebata na apreciação e o que é mais pensante para nossa pesquisa. Os cinco duos descritos contam formas de viver o amor, a dor, de se entregar, de sentir. A última cena No me Niegues, com vários casais em cena, reafirma a ordo amoris, a ordem dos afetos, o sopro esplendoroso de vida. As Tramas Na organização dos capítulos, adotamos a nomenclatura ―tramas‖ que nos remete às 12 tramas de Lecuona, aquelas antigas e sempre novas histórias de amor que podem ser lidas nos livros, vistas em uma peça de teatro, em um filme, mas intencionalmente nesta pesquisa apresentaremos em forma de gestos de dança, imagens dançantes. Diante disso, a primeira trama denominamos de ―Elogio do Afeto”. Nesta, encontramos boa parte do fundamento filosófico que nos permite refletir sobre.

(33) 32. conceitos importantes da pesquisa que sustentam nossa reflexão: o corpo, a sensação, a reversibilidade da carne, a estesia, em busca de uma compreensão fenomenológica do afeto. Olhamos esse capítulo com o olhar de alguns pensadores, entre os principais: Maurice Merleau-Ponty e Michel Maffesoli. A segunda trama é O Corpo e as Poéticas da dança. Com a imagem dos vagalumes – que Didi-Huberman (2011) traz em seu livro Sobrevivência dos vagalumes – é nos dada uma dimensão estética que possibilitou a reflexão sobre a dança como um pensamento interrogativo de seu tempo. Com isso, pensamos a dança e sua poética, o estado de performance (bailarino-espectador) como possibilidade real de criação de campos afetivos onde os sentidos são compartilhados. Assim, também, ao nos envolver numa poética do Grupo Corpo refletimos as descontinuidades, as mudanças, os desvios, os retrocessos e avanços dentro da história desta companhia. Percebemos que o Corpo vive sua quarta fase: a fase afetiva, dada com Lecuona em 2004. Neste movimento, não é possível não entrelaçar a história do Grupo Corpo com a história da dança brasileira. Fizemos este exercício e muitas reflexões se revelaram, entre avanços e retrocessos estéticos da dança no Brasil. A terceira trama, O Balé da Paixão, temos as descrições das cenas do espetáculo Lecuona do Grupo Corpo. Ao afetar com nosso olhar e nos deixar ser afetados em sua poética, suas formas de amar, unimos a razão e o sensível e suscitamos conhecimento nessa dialética do amor, na estesia dos encontros. Alguns artistas dançam nessas descrições: escritores como Proust, cantores como Ernesto Lecuona, poetas como Guimarães Rosa, Pessoa, Neruda, entre outros, ajudam-nos nesse movimento estesiológico. Todo este percurso da pesquisa nos leva a vislumbrar a quarta trama, Os Passos de uma educação estesiológica, uma educação que se configura no corpo e pelo afeto. Assim, refletimos uma educação que vai além de instrução e técnica, mas que transforma mundos e re-significa experiências, que se volta aos afetos, exerce sua liberdade de escolha e reflexão, ou mesmo, uma educação que exige de nós criação e se configura nas relações afetivas. Para assim compreender o humano em nós como capacidade de afetar e ser afetado pelas coisas sensíveis, pelos outros, pelo modo de ser no mundo. Denominamos de No me Niegues as conclusões do nosso trabalho e de.

(34) 33. Laços afetivos as nossas referências e nossos anexos, por possibilitarem a formação do arcabouço dessa pesquisa e por entender que para haver qualquer tipo de compreensão é necessário que haja um envolvimento afetivo. Assim, os argumentos e interligações desta pesquisa nos abraçam e nesta atitude fenomenológica de reflexão, foi possível chegar numa compreensão gerada por esta plasticidade do corpo em se lançar ao mundo e dele apreender sentidos, e, com isso, aproximar o discurso filosófico e estético com a área da Educação como uma das intencionalidades da pesquisa, ou mesmo, torná-la fecunda e contribuir em outras áreas do conhecimento..

(35) 34. PRIMEIRA TRAMA: ELOGIO DO AFETO.

Referências

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