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AULA DE

DIREITO CONSTITUCIONAL I

Profª Lúcia Luz Meyer

atualizado em 03.2010

PONTO 05 – EVOLUÇÃO

POLÍTICO-CONSTITUCIONAL

D

O BRASIL

Roteiro de Aula (17 fls)

SUMÁRIO:

5.1. Introdução. 5.2. Período colonial.

5.3. Fase monárquica. 5.3.1. Constituição de 1824.

5.4. Fase republicana. 5.4.1. Constituição de 1891. 5.4.2. Constituição de 1934.

5.4.3. Constituição de 1937. 5.4.4. Constituição de 1946.

5.4.5. Constituição de 1967. 5.4.6. Emenda Constitucional n° 1, de 1969.

5.5. Nova República e Constituição de 1988.

5.1. INTRODUÇÃO:

Em relação à ordem econômica, as Constituições brasileiras seguiram, todas elas, em linhas

gerais, diretrizes e políticas de um Estado individualista-liberal, ou de um ‘liberalismo

econômico’.

Nos primeiros 322 anos de sua existência, correspondente ao PERÍODO COLONIAL (de

1500 a 1822 – aí incluso o período de Vice-Reinado de 1815 a 1822), nosso país não teve sua

própria Constituição. De fato e de direito, não era então um Estado soberano mas uma Colônia de

Portugal; entre 1512 e 1822 participou do Reino Unido a Portugal e a Algarves. Apenas em 1822 é

proclamada a independência e criado o Estado brasileiro, autônomo e soberano.

Depois da independência, no curto PERÍODO IMPERIAL que durou 67 anos – 1822 a

1889 -, teve o Brasil a primeira Constituição, que foi a que vigeu por mais tempo em toda sua

história, tendo sofrido uma única alteração (considere-se que era uma Constituição semi-rígida e

sofreu apenas uma alteração nas normas formalmente constitucionais). A Constituição de 1824

surgiu como desdobramento da Revolução Liberal do Porto, em Portugal, que foi, por seu turno,

conseqüência da Revolução Francesa.

Na FASE REPUBLICANA, que já dura 120 anos - de 1889 até o presente -, tivemos mais

06 (seis) Constituições, sem citar a de “1969” que na realidade se trata de uma EC. A Constituição

vigente – de 1988 -, tendo completado 21 anos, sofreu 62 Emendas Constitucionais até a presente

data.

(2)

É de se observar, como veremos a seguir, que sempre que ocorreu uma alteração

fundamental na estrutura do poder político em nossa história, surgiu em seguida uma nova

Constituição, inclusive porque se tornava necessário dar uma nova formulação jurídica à ordem

recém surgida.

Tivemos, assim, 07 (sete) Constituições. Alguns entendem ter havido oito (08),

considerando a Emenda Constitucional nº 1/1969 como, de fato, uma Carta Constitucional, quais

sejam:

1

a

) 25.03.

1 824

– (Constituição Política do Império do Brasil ou Carta da Lei de 25

de março de 1824). Sucedeu à Independência, em 1822.

2

a

) 24.02.1891 – (Constituição da República dos Estados Unidos do Brazil). Sucedeu

à Proclamação da República, em 1822.

3

a

) 16.07.1934 – (Constituição da República dos Estados Unidos do Brazil). Sucedeu

à tomada de poder por Getúlio Vargas, em 1930.

4

a

) 10.11.

1937

– (Constituição dos Estados Unidos do Brasil). Sucedeu ao golpe de

Estado (o Estado Novo) de 1937.

5

a

) 1946 – (Constituição dos Estados Unidos do Brasil). Sucedeu à queda de Getúlio

Vargas e à Redemocratização do país em 1945.

6

a

) 24.01.19

67

– (Constituição da República Federativa do Brasil). Sucedeu à

Revolução Militar de 1964.

7

a

) !!! 1969 - (“Emenda Constitucional n° 01, de 17.10.1969”)

8

a

) 05.10.19

88

– (Constituição da República Federativa do Brasil). Sucedeu ao fim

da Ditadura Militar.

A história das Constituições brasileiras, repetimos, é marcada como conseqüência das

grandes alterações ocorridas na estrutura do poder político no Brasil, conforme ver-se-á a seguir.

5.2.

PERÍODO

COLONIAL:

Iniciando uma retrospectiva desde o Descobrimento do Brasil, em 1500, até à

Independência, em 1822, pouco teríamos a falar sobre ‘constituições’. Na realidade, em relação a

‘normas constitucionais’, nada encontraremos nesse período colonial de nossa história, mesmo

porque o fenômeno do ‘constitucionalismo’, como hoje o entendemos, no sentido de ‘limitação do

poder’, ou ‘corpo de regras que definem a organização fundamental do Estado’ teve início a partir

das grandes Revoluções Sociais ocorridas no século XVIII, sobremodo na França e inspirado nas

idéias de Montesquieu (‘L’Èsprit de Lois’, ou ‘O Espírito das Leis’, de 1748).

Então, quais as regras que vigoravam no Brasil desde quando foi descoberto, até nossa

primeira Constituição, outorgada em 1824? Ou seja, nesses mais de 300 anos de história,

(3)

conhecido como período de BRASIL COLONIAL, que normais vigoravam em nosso país?

Estavam em vigência na Colônia brasileira as Ordenações do Reino (princípios e

dispositivos de direito civil), o Direito Canônico, o Direito Romano, a Jurisprudência

metropolitana e colonial e os Costumes.

Mas, sem dúvidas, e por óbvio, é a legislação portuguesa, dentre as fontes próximas de

nossa legislação, a que exerceu maior influência, sendo que nos 322 anos de Brasil Colônia nossas

tradições jurídicas foram comuns com as lusitanas.

A história das constituições brasileiras, vale repetir, é marcada pelas grandes alterações

ocorridas na estrutura do poder político Brasil. Foram as transformações ocorridas no seio da

sociedade, originando mudanças nos poderes políticos e conseqüentes modificações na estrutura do

Estado, que determinaram cada uma das sete (ou oito, como preferem alguns) Constituições que

regeram o Estado brasileiro ao longo desses últimos 186 anos.

Capitanias Hereditárias:

A partir do descobrimento do Brasil - 1500 - até o início das Capitanias Hereditárias (na

primeira metade desse século XVI), ainda não se falaria em colonização do Brasil, pois não havia

qualquer organização sócio-político-econômica ou sequer divisão de território.

Com as Capitanias Hereditárias, dividindo-se nosso território em ‘porções’, dá-se início a

núcleos de povoamento, com centros econômicos e sociais, que acabaram influenciando a própria

estrutura do Brasil atual. Os donatários, titulares das Capitanias Hereditárias, tinham poderes quase

absolutos sobre seus domínios, com jurisdição civil e criminal, auxiliado por ouvidores que ele

próprio nomeava e por ‘juízes’ eleitos pelas Vilas.

As normas eram vindas de Portugal: as ‘Ordenações Manuelinas’.

Governos Gerais:

A partir de 1549 inicia-se entre nós, após o fracasso das Capitanias Hereditárias, o sistema

de Governadores-Gerais, introduzindo-se um aspecto unitário na organização da Colônia,

coexistindo com as capitanias ainda existentes.

Esse sistema unitário é rompido várias vezes durante o processo de colonização, surgindo

novos centros autônomos que se subordinavam, política e administrativamente a poderes regionais

ou locais.

Tomé de Souza, 1º Governador Geral, trouxe-nos o Regimento do Governador-Geral.

Esse, e outros Regimentos (pois seguiram-se-lhe vários) foram considerados verdadeiras Cartas

Organizatórias do regime colonial brasileiro.

A esse respeito

PEDRO CALMON

(História do Brasil, Rio de Janeiro: Editora José

Olympio, 1959) disse que:

(4)

administrativa do país: antecipava-se às cartas políticas, pelo menos na delimitação das funções e no respeito exigido das leis, forais e privilégios, atenuando o arbítrio, fixando a ordem jurídica.

WILMAR DA SILVA VIANNA JÚNIOR

em artigo intitulado “A questão do poder na

Colônia” ( disponível em: <

www.nethistoria.com/index

> TEXTO Nº 0001) assevera ainda que:

Estavam em vigência na Colônia as Ordenações (princípios e dispositivos de direito civil), o direito canônico, o direito romano, a jurisprudência metropolitana e colonial e os costumes. As autoridades coloniais guiavam-se pelos regimentos - instruções dadas a pessoas e instituições para o desempenho de determinadas funções -, por leis ordinárias editadas pelo rei, alvarás - determinações, em geral, válidas por um ano -, cartas-régias - comunicação para execução de uma ordem específica -, decretos - determinações, geralmente, a juízes e tribunais -, provisões e consultas - decisões de órgãos colegiados - e portarias - ordens do rei à autoridades, referentes a despachos em processos e passaportes. Não se deve perder de vista que as leis por diversas vezes atendem a interesses momentâneos, em alguns casos, de particulares. A legislação aplicada a colônia era um feixe de normas, muitas das vezes contraditória, ‘no dizer do historiador João Francisco Lisboa no século XIX ‘profusas e confusas’, facilitando a corrupção e o patronato’ (WEHLING; 1999, p. 313). Max Fleiuss (1923, p.57) chama a atenção para o fato de que no século XVII existia ‘um vasto e complexo corpo de leis extravagantes, cartas régias, alvarás e provisões’, que muitas das vezes se colidiam e até se anulavam. Ponto esse também abordado por Raymundo Faoro que afirma que os vícios dos funcionários coloniais são produtos das contradições e omissões existentes na legislação colonial. (...). As revoltas do final do século XVIII e começo do XIX, como a Inconfidência Mineira, a Conjuração Baiana e a Revolta Pernambucana de 1817, mostram o enfraquecimento do sistema colonial. A independência dos EUA e a Revolução Francesa reforçam os argumentos dos defensores das idéias liberais e republicanas. Cresce a condenação internacional ao absolutismo monárquico e ao colonialismo. Aumentam as pressões externas e internas contra o monopólio comercial português e o excesso de impostos numa época de livre comércio.

Vai-se delineando uma estrutura que definirá as características básicas da organização

política brasileira. No século XVIII novas idéias já agitavam o mundo europeu, originando as

grandes revoluções sociais e as primeiras Constituições escritas do mundo, tais como:

a) 1776 – Independência dos Estados Unidos da América;

b) 1787 – Constituição norte-americana;

c) 1789 - Revolução Francesa (inspirada, entre outros, nas idéias de Montesquieu:

separação das funções estatais) - 26/08/1789 = Declaração dos Direitos do Homem

e do Cidadão;

d) 1791 – Constituição francesa.

É o início do CONSTITUCIONALISMO MODERNO.

5.3. FASE MONÁRQUICA:

Início da Monarquia:

Com a vinda da Corte Portuguesa para o Brasil, fugida de Napoleão, em 1808, inicia-se a

fase monárquica, com D. João VI, ocorrendo o rompimento das sujeições coloniais.

(5)

Em 16 de dezembro de 1815 o Brasil é elevado de Colônia de Portugal à categoria de Reino

Unido a Portugal e a Algarves.

Surgem novas teorias políticas, como o Liberalismo, o Parlamentarismo, o

Constitucionalismo, o Federalismo, a Democracia e a República.

Tem início o movimento constitucional no Brasil e uma Constituição escrita era exigência

da própria independência.

Em 3 de junho de 1822, dom Pedro recusa fidelidade à Constituição portuguesa e convoca a

primeira Assembléia Geral Constituinte e Legislativa brasileira, visando a elaboração de uma

Constituição que formalizasse a independência do Brasil em relação ao reino português.

Em 1º de agosto ele baixa um decreto declarando inimigas as tropas portuguesas que

desembarcarem no país. Cinco dias depois assina o Manifesto às Nações Amigas, redigido por

José Bonifácio. Nele, dom Pedro justifica o rompimento com as Cortes Constituintes de Lisboa e

assegura "a independência do Brasil, mas como reino irmão de Portugal".

Brasil Império:

Independência – Em protesto, os portugueses anulam a convocação da Assembléia

Constituinte brasileira, ameaçam com o envio de tropas e exigem o retorno imediato do príncipe

regente. No dia 7 de setembro de 1822, em uma viagem à São Paulo, dom Pedro recebe as

exigências das cortes. Irritado, reage proclamando a independência do Brasil. Em 12 de outubro de

1822 é aclamado Imperador pelos padres do Reino e coroado pelo bispo do Rio de Janeiro em 1º de

dezembro, recebendo o título de dom Pedro I.

No início de 1823 realizam-se eleições para a Assembléia Constituinte da primeira Carta do

Império brasileiro. A Assembléia é fechada em novembro por divergências com dom Pedro I.

Dessa maneira, a primeira Constituição brasileira deveria ter sido promulgada, mas acabou

sendo outorgada, já que durante o processo constitucional houve o choque entre o Imperador e os

constituintes. Assim, elaborada pelo Conselho de Estado, a Constituição é outorgada pelo

Imperador em 25 de março de 1824, constituindo-se em uma Constituição semi-rígida.

5.3.1. Constituição de 1824:

A Constituição de 1824 é a 1ª Constituição brasileira (Constituição Política do Império do

Brasil, de 25 de março de 1824), também conhecida como Constituição Imperial. Foi outorgada

por D. Pedro I. Adotou o voto censitário (apenas algumas pessoas, em razão da fortuna).

Foi a única que previu QUATRO Poderes Estatais:

a) Executivo – competia ao Imperador e o conjunto de Ministros por ele nomeados;

b) Legislativo – representado pela Assembléia Geral, formada pela Câmara de

(6)

Deputados (eleita por quatro anos) e pelo Senado (nomeado e vitalício);

c) Judiciário – formado pelo Supremo Tribunal de Justiça, com magistrados

escolhidos pelo Imperador;

d) Moderador – pessoal e exclusivo do próprio Imperador, assessorado pelo

Conselho de Estado, que também era vitalício e nomeado pelo Imperador.

5.4. FASE REPUBLICANA:

A Fase Republicana inicia-se, por claro, com a Proclamação da República, em 15/11/1889.

Nela tivemos as Constituições de 1891, 1934, 1937, 1946, 1967, a EC de 1969 e a vigente CF de

1988, conforme a seguir estudaremos.

5.4.1. Constituição de 1891:

A Constituição de 1891 é a 2ª Constituição do Brasil e 1ª Constituição da República.

(Constituição da República dos Estados Unidos do Brazil, de 24 de fevereiro de 1891). É quase

toda de autoria do ínsigne baiano Ruy Barbosa.

Inspirou-se preponderantemente no modelo americano da Carta de 1787. A ela precedeu o

Decreto n° 1, de 15.11.1889, que proclamou “provisoriamente e decretou como forma de governo

da Nação brasileira a República Federativa, estabelecendo que as provícnias do Brasil, reunidas

pelo laço da Federação, ficam constituindo os Estados Unidos do Brazil”.

Vale observar que o sentido basicamente político, relativo à ‘organização’ dos poderes,

predominou nas duas primeiras Constituições brasileiras.

FERNANDO MACHADO DA SILVA LIMA

, no artigo “O sistema constitucional

brasileiro e sua efetividade” (disponível em: <

http://www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp?

id=3764

> TEXTO Nº 0014), aduz que:

A primeira Constituição Republicana, de 24.02.1891, também adotou, embora teoricamente, a idéia da soberania popular (Nós, os representantes do povo brasileiro...), mas na verdade expressou a vontade de grupos oligárquicos, que mais pretendiam instituir a Federação, do que propriamente a República. Em conseqüência, mudamos o eixo do nosso constitucionalismo para o sistema norte-americano, de onde copiamos a forma de estado federal, em substituição ao unitarismo do Império; a forma de governo republicano, em substituição à monarquia; e o sistema presidencial de governo, em substituição ao parlamentarismo, que foi de certa maneira praticado durante o Império, embora existissem na Carta Imperial disposições favoráveis, ao lado de disposições perfeitamente infensas ao desenvolvimento desse sistema. Copiamos também o controle de constitucionalidade e a matriz ideológica do sistema norte-americano, em uma tentativa de redução da nossa realidade social, política e econômica aos quadros teóricos do modelo jurídico norte-americano.

JOSAPHAT MARINHO

(Estudos constitucionais: da Constituição de 1946 à de 1988,

Universidade Federal da Bahia, 1989, p. 55) ensina sobre a Constituição de 1891 que:

(7)

de 1891, acentuou que a esta serviu de ‘modelo’ a da ‘América do Norte’. Disse-o bem, pois, com a República, adotamos o sistema presidencial, o regime federativo, o mecanismo de poderes que proporcionou ao Judiciário o controle de constitucionalidade de leis e atos emanados do Legislativo e do Executivo. Mas, se houve semelhança, não se espelhou identidade, indicativa de cópia, menos ainda de ‘cópia servil’, a que tantos se referiram ontem e muitos repetem hoje. Operou-se o influxo da construção constitucional americana. A transladação de instituições, princípios, normas, porém, é fenômeno cultural comum, e agora mesmo o revela a crescente similitude do direito constitucional moderno.

Quanto ao aspecto social, a Constituição de 1891 foi considerada atrasada, adotando um

sistema econômico liberal individualista; foi uma Constituição liberal-democrática.

No campo eleitoral, ela previu eleições por “sufrágio direto da nação e maioria absoluta de

votos” para Presidente e Vice-Presidente da República; previu hipóteses de inelegibilidades para o

cargo de Presidente e Vice-Presidente da República (art. 47) e a Justiça Eleitoral volta a ter previsão

constitucional.

Ela sofreu grandes alterações, conhecidas como a Reforma de 1926. Foi uma verdadeira

‘revisão constitucional’, imposta pelas transformações econômico-sociais do após-guerra e os

compromissos assumidos no Tratado de Versailles. Supre lacunas, mas não altera a índole do

regime.

Sobre o assunto ler

Aliomar Baleeiro

em “Constituições brasileiras: 1891”, Brasília:

Senado Federal, 2001.

5.4.2. Constituição de 1934 :

A Constituição de 1934 é a 3ª Constituição brasileira (Constituição da República dos

Estados Unidos do Brazil, de 16 de julho de 1934).

Segundo o citado

FERNANDO MACHADO DA SILVA LIMA

, no já citado artigo “O

sistema constitucional brasileiro e sua efetividade” (TEXTO 0014):

A segunda Constituição Republicana, de 16.07.1934, resultou de ideologias frustradas, que não resistiram às crises da época, e à instabilidade política que em muitos Estados causou a queda dos regimes democráticos.

Essa Constituição tinha o espírito democrático e liberal, com respeito às prerrogativas

individuais e de cidadania; durou pouco mais de 3 anos, sendo substituída pela Constituição de

1937, imposta por Getúlio Vargas.

Caracteriza-se por ter sido uma Constituição social-democrática, inspirada na Constituição

alemã de Weimar, de 1919 e na espanhola de 1931. Adotou um pensamento intervencionista ou

socializante.

Apesar de não corporificar transformações radicais, trouxe inúmeras inovações de conteúdo

progressista:

a) regulou melhor o mecanismo presidencialista, limitando o poder do Chefe do

Executivo;

(8)

b) fortaleceu o regime representativo consagrando o voto secreto e assegurando à

mulher o direito constitucional do voto; estabeleceu a competência privativa da

Justiça Eleitoral para o processo das Eleições; dispôs sobre alistamento, direitos

políticos e inelegibilidades; foi 1ª Constituição a prever a Justiça Eleitoral (que já

havia sido criada pelo Código Eleitoral, através do Dec. nº 2.076/32) como órgão do

Poder Judiciário;

c) reforçou a estrutura federativa, especificando competências legislativa e política

dos Estados-membros e Municípios;

d) reconheceu direitos sociais, com maior proteção aos direitos do trabalhador;

e) entre os direitos individuais, garantiu o de propriedade lhe assegurou a prévia e

justa indenização no caso de desapropriação;

f) prescreveu o reconhecimento dos sindicatos e associações profissionais

assegurando expressamente a pluralidade sindical e a completa autonomia dos

sindicatos;

g) ordenou a regulamentação do trabalho agrícola;

h) disciplinou um título próprio sobre a ‘ordem econômica e social’.

A Constituição de 1934 ainda trouxe muitas outras inovações, a exemplo da instituição da

Justiça do Trabalho, o salário mínimo, a limitação de lucros, a nacionalização de empresas, direta

intervenção do Estado para normalizar, utilizar ou orientar as forças produtoras, e etc.

GERALDO BEZERRA DE MENEZES

(O Direito do Trabalho e a Seguridade Social

na Constituição, Rio de Janeiro: Pallas SA, 1976, p. 25/6) traz importante contribuição ao observar

que:

As Constituições brasileiras, a partir de 1934, acolheram algumas das mais importantes e justas reivindicações sociais dos trabalhadores, embora reiterem muitos princípios inscritos na Lei Maior de 1891. Porque diverso o texto, não têm, esses princípios ou normas fundamentais, o mesmo conteúdo de origem e a potencialidade que os caracterizavam, quando se impuseram, irresistivelmente, no fim do século XVIII e no decorrer do XIX. A superestrutura político-jurídica nelas consignadas não é do tipo demo-liberal, mas, na realidade, sócio-democrático, como se pode deduzir, sistematicamente, dos postulados referentes aos ‘direitos e garantias individuais’ e à ‘ordem econômico e social’.

Sobre esta Constituição recomenda-se também a leitura da obra de

João Mangabeira

, “Em

torno da Constituição”, editada pela Companhia Editora Nacional, em 1934.

5.4.3. Constituição de 1937:

A Constituição de 1937, também conhecida como “Constituição Polaca” (devido a forte

influência da autoritária Constituição polonesa) ou “Constituição do Estado Novo”, foi a 4

a

Constituição brasileira (Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 10 de novembro de

1937).

(9)

FERNANDO MACHADO DA SILVA LIMA

, no multi-citado “O sistema constitucional

brasileiro e sua efetividade”, diz que:

A Constituição de 1934 foi substituída, traumaticamente, pela Carta outorgada por Getúlio Vargas, em 10.11.1937, copiada da Constituição totalitária polonesa de 1935, do Marechal Pilsudski.

É a Constituição do ‘Estado Novo’, inspirada pelo avanço dos regimes totalitários. Foi

outorgada. Um golpe de Estado dissolveu o Congresso e extinguiu a Constituição de 1934. O

Presidente - Getúlio Vargas - legislava por decretos-leis.

Houve a suspensão dos direitos individuais, foi suprimido o ‘mandado de segurança’ como

garantia constitucional e extinguiu-se a Justiça Eleitoral.

De fato, ela não vigorou na totalidade de seus mandamentos, tendo sido alterada várias

vezes. Reconheceu autonomia ao “direito operário”, que já era uma denominação superada mesmo

àquela época.

A Lei Constitucional nº 9, de 28/02/1945, ensejou a edição do Decreto Lei nº 7.586, de

28/05/1945, recriando a Justiça Eleitoral como órgão autônomo do Poder Judiciário. Era o fim do

‘Estado Novo’; Getúlio Vargas foi deposto pelas Forças Armadas e o Governo Provisório convocou

uma Assembléia Nacional Constituinte, instalada em fevereiro de 1946.

Recomenda-se aqui a leitura de

Araújo Castro

na obra “A Constituição de 1937”, bem

como de

Pontes de Miranda

, em “Comentários à Constituição Federal de 10 de novembro de

1937”.

5.4.4. Constituição de 1946:

A Constituição de 1946, foi a 5

a

Constituição brasileira (Constituição dos Estados Unidos

do Brasil, de 18 de setembro de 1946).

Ainda, no artigo referido - “O sistema constitucional brasileiro e sua efetividade” -, diz-nos

FERNANDO MACHADO DA SILVA LIMA

que:

Depois do Estado Novo, com a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial e sob a influência do novo constitucionalismo, tivemos a chamada redemocratização, ou reconstitucionalização, no sentido do constitucionalismo histórico ou ideológico radicado em França e consagrado no art. 16 da Declaração Francesa de Direitos do Homem e do Cidadão. Assim, pelo menos teoricamente, a nova

Constituição brasileira, de 18.09.1946, já estabelecia a separação dos poderes, como forma de

garantir a limitação do poder, e assegurava, também, os direitos e garantias dos jurisdicionados. Durante a sua vigência, o Mundo esteve ideologicamente dividido entre o comunismo soviético e a democracia americana. As inúmeras crises levaram à renúncia do Presidente Jânio Quadros, à efêmera adoção do parlamentarismo, como solução de emergência, e ao golpe de 1964, com a deposição do Presidente João Goulart e a edição de um Ato Institucional, que deu amplos poderes ao General Castelo Branco.

Essa Constituição, elaborada após a 2ª guerra mundial, refletiu menos inovações nas esferas

econômica e social que a Carta de 1934, vale dizer, pouco progrediu em relação aos direitos sociais

e às garantias de igualdade, bem como aos direitos econômicos. Seu espírito foi mais restaurador da

(10)

ordem democrática do que inovador. Com ela veio a redemocratização do país.

Cita-se como algumas de suas importantes disposições:

a) instituiu os partidos políticos nacionais (art. 134), mas cancelou o registro do

Partido Comunista Brasileiro e a cassação dos mandatos de seus representantes;

b) incorporou a Justiça do Trabalho ao Poder Judiciário (art. 94);

c) restabeleceu o ‘mandado de segurança’ como garantia constitucional (art. 141);

d) manteve a indissolubilidade do vínculo matrimonial;

e) a Justiça Eleitoral volta a ter previsão constitucional;

f) recuperação da autonomia das entidades federadas.

Alguns consideram que se assemelhou à Constituição de 1891. São inovações de ordem

trabalhista:

a) salário mínimo capaz de satisfazer também as necessidades normais da família do

trabalhador (art. 158);

b) participação obrigatória e direta do trabalhador nos lucros da empresa (art. 157,

IV);

c) repouso semanal remunerado (art. 157, VI);

d) direito de greve (art. 158).

Em 11 de dezembro de 1948 é aprovada pela Assembléia Geral da Organização das Nações

Unidas – ONU a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 11 de dezembro de 1948.

CLÁUDIA MARIA TOLEDO SILVEIRA

no artigo intitulado “Cidadania”, à pág. 8 (TEXTO

Nº 0015) diz-nos sobre essa Declaração que:

Aprovada por quarenta e oito Estados, como prova de preocupação, à época, de se universalizarem os Direitos Fundamentais e os assumir não apenas como referentes aos cidadãos de um ou outro Estado, mas sim a todos os homens. A positivação de tais preceitos demonstra o cuidado de não apenas os proclamarem ou ideologicamente reconhecerem, mas ampará-los legalmente, de forma a protegê-los. ‘Os direitos do homem nascem como direitos naturais universais, desenvolvem-se como direitos positivos particulares, para finalmente encontrarem sua plena realização como direitos positivos universais.

Vale observar também a edição da Constituição da “Organização dos Estados da

América-OEA’, em 02 de maio de 1949.

Outrossim, veja-se o Ato Adicional - EC nº 4, de 02/09/1961/61, que instituiu o sistema

parlamentar no Brasil, e a posterior EC nº 6, de 23/02/1963, que dispôs sobre o retorno ao regime

presidencialista.

(11)

5.4.5. Constituição de 1967:

A Constituição de 1967 é a 6ª Constituição do Brasil. (Constituição da República

Federativa do Brasil, de 24 de janeiro de 1967).

Continuando a citar

FERNANDO MACHADO DA SILVA LIMA

, em seu excelente artigo

“O sistema constitucional brasileiro e sua efetividade”, leciona o mesmo que:

Durante os Governos Militares, tivemos inúmeros Atos Institucionais e complementares e também a

Constituição de 24.01.1967, votada por um Congresso autoritariamente transformado em Assembléia

Constituinte, pelo Ato Institucional nº 4, de 07.12.1966. Esse Congresso conseguiu cumprir o prazo fatal que lhe fora assinado (art. 1º do AI-4/66) para a discussão, votação e promulgação do projeto de constituição apresentado pelo General-Presidente, embora para isso tenha sido necessário parar os ponteiros dos relógios do Congresso Nacional, antes da meia-noite do dia 24 de janeiro, para que durante a madrugada fossem colhidas todas as assinaturas dos congressistas-constituintes... Conseqüentemente, a Constituição de 1967 pode ser classificada como votada, ou promulgada, na imprópria denominação de alguns autores, porque foi aprovada por uma Constituinte, mas na realidade ela foi outorgada, ou imposta, através do AI-4/66. Ou seria, talvez, um tipo híbrido, porque foi aprovada por um Congresso subordinado a essas normas autoritárias?

A Constituição de 1967 é resultante do golpe de Estado de 31/03/1964, que derrubou João

Goulart. Não houve convocação de Assembléia Constituinte sendo, portanto, uma Constituição

outorgada, impregnada pela idéia de “segurança nacional” - é a “Doutrina do Estado de Segurança

Nacional”.

Ela manteve a Justiça Eleitoral como órgão do Poder Judiciário e dispôs sobre os direitos

políticos e sobre os partidos políticos. Adota a redução de direitos individuais.

5.4.6. “Constituição” de 1969

(EC):

Para alguns cons

iderada uma Constituição, de tal modo alterou a Carta de 1967, a que

seria a “7ª Constituição brasileira” trata-se, de fato, da Emenda Constitucional nº 1, de 17

de outubro de 1969.

Segundo

FERNANDO MACHADO DA SILVA LIMA

, no texto “O sistema

constitucional brasileiro e sua efetividade”, falando relativamente à Emenda de 1969, diz-nos ele

sobre essa “Carta” que foi …

... outorgada pelos três Ministros Militares; era apenas uma Emenda Constitucional, como formalmente denominada – Emenda Constitucional nº 1 -, embora editada com fundamento no Ato Institucional nº 5/68, que permitia a decretação do recesso do Congresso Nacional e atribuía ilimitado poder legiferante (e até mesmo constituinte, obviamente) ao Chefe do Executivo, ficando os seus atos excluídos da apreciação do Poder Judiciário. Portanto, Poder Constituinte ilimitado, ou originário, embora atribuída sua titularidade ao povo, conforme a argumentação constante do preâmbulo do Ato Institucional nº 1/64 (…).

Assim, também é polêmica a origem da Carta de 1969, outorgada através da Emenda

Constitucional nº 1, de 17.10.1969, mas que também manteve em vigor a legislação revolucionária.

A Emenda Constitucional nº 1/69, que deu nova redação à Constituição de 1967, foi outorgada, durante recesso do Congresso Nacional, pelos três Ministros militares que estavam no exercício da Presidência da República, em decorrência do afastamento do General-Presidente Costa e Silva. (…).

(12)

Mas depois dela, e de muitas outras crises, tivemos um novo processo de redemocratização, com a

Constituição de 05.10.1988, votada por uma Constituinte que conseguiu, de certa forma, expressar as

contradições de nossa realidade social, política e econômica e tentou solucionar as questões que têm sido evitadas pelas elites dominantes. Em decorrência, algumas conquistas foram concretizadas, embora permaneçam as graves desigualdades sociais, e o cidadão ainda seja apenas aquele que tem o direito de votar, mas não tem o direito de desfrutar dos direitos básicos, teoricamente garantidos pela Constituição Federal.

(grifos nossos)

Essa EC regulou a Justiça Eleitoral e dispôs sobre os direitos políticos e sobre os Partidos

Políticos. Também de regime individualista, fundada no poder privado de domínio dos meios de

produção e lucros respectivos.

Ver ainda a EC nº 15, de 19/11/1980, que restabeleceu o voto direto para Governador e

Senador, bem como a EC nº 25, de 15/05/1985 que dispos que o Presidente e Vice seriam eleitos

por sufrágio universal, voto direto e secreto.

5.5. NOVA REPÚBLICA E A CONSTITUIÇÃO DE 05 de outubro de 1988:

A vigente Constitução de 05.10.1988 é o objeto atual da própria disciplina de Direito

Constitucional. É a vigente Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de outubro

de 1988.

JOSÉ AFONSO DA SILVA

(Manual da Constituição de 1988, São Paulo: Malheiros,

9.2002, p. 13/14 – grifamos) faz a seguinte retrospectiva até chegar à CF/88:

A Constituição de 5 de outubro de 1988 é a oitava Constituição brasileira. A primeira foi a

Constituição Política do Império do Brasil, de 25 de março de 1824, outorgada por D. Pedro I,

após dissolver pela força a Assembléia Constituinte; a segunda (e primeira da República) foi a

Constituição dos Estados Unidos do Brasil, elaborada e promulgada pelo Congresso Constituinte em 24 de fevereiro de 1891, que durou até que, por ato da Revolução de 1930, foi

revogada – especialmente pelo Decreto nº 19.398, de 11 de novembro de 1930, que instituiu o Governo Provisório da República, que passou a exercer, discricionariamente, todos os poderes; a

terceira, a Constituição dos Estados Unidos do Brasil, elaborada pela Assembléia Constituinte, e promulgada em 16 de julho de 1934, que durou pouco mais de três anos, derrubada pelo golpe de

Estado de Getúlio Vargas, em 1937; a quarta, a Constituição dos Estados Unidos do Brasil,

outorgada por Getúlio Vargas no dia 10 de novembro de 1937, pela qual implantou a ditadura que

perdurou por oito anos; a quinta, a Constituição dos Estados Unidos do Brasil, elaborada e

promulgada em 18 de setembro de 1946, pelo Congresso Constituinte eleito a 2.12.1945, e instalado

a 2.2.1946; foi a mais liberal e democrática; muito emendada e modificada regularmente e por via de atos institucionais; sofreu impactos de crises e investidas golpistas, até que o golpe de 1964 preparou sua substituição; a sexta, a Constituição do Brasil, outorgada em 24 de janeiro de 1967, para vigorar a partir de 15 de março do mesmo ano, pelo Comando da Revolução, por meio de atuação coativa do Congresso Nacional, que não tinha legitimidade para elaborar uma Constituição nova; durou pouco, substituída que foi pela chamada Emenda nº 1, de 17 de outubro de 1969, para vigorar a partir de 30 do mesmo mês e ano; em verdade era uma constituição nova, até no nome, Constituição de República Federativa do Brasil, de 17 de outubro de 1969; a oitava, finalmente, é a

atual.

Adiante, às pp. 14/15, continua

JOSÉ AFONSO DA SILVA

:

No fim da década de 70 o regime autoritário de 1964 se esgotava na corrupção e no fracasso de sua atuação governamental. Crescia a luta pela reconquista do Estado de Direito, mediante a elaboração

(13)

de nova Constituição por uma Assembléia Nacional Constituinte livre e soberana. A luta pelas eleições direta de Presidente da República, a partir de 1984, preconizava, em verdade, mudanças substanciais, mais do que simples forma eleitoral. Tancredo Neves, perdida a batalha das eleições diretas, candidata-se à Presidência pelas oposições, perante o Colégio Eleitoral, com a promessa de destruí-lo, fazer a transição do autoritarismo para a democracia, mediante a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte destinada a elaborar nova Constituição justa. Morre sem exercer o poder. O Vice-Presidente assume a Presidência. Convoca a Assembléia Constituinte, em forma de Congresso Constituinte. Nomeia a Comissão Provisória de Estudos Constitucionais (conhecida como ‘Comissão Afonso Arinos’), para elaborar um Projeto de Constituição, a qual se desincumbiu de sua tarefa depois de um ano de trabalho intenso. Seu anteprojeto não agradou ao Presidente, que não o submeteu ao Congresso Constituinte, mas, em verdade, ele serviria, indubitavelmente, de base para o texto Constitucional de 1988. A estrutura e o funcionamento da Constituinte seguiu o modelo da Comissão Afonso Arinos. O plano da Constituição de 1988 e sua temática encontrou no anteprojeto Afonso Arinos sua fonte primeira.

CELSO RIBEIRO BASTOS

(Curso de Direito Constitucional, São Paulo: Celso Bastos

Editora, 2002, pp. 139-241):

A Constituição da República Federativa do Brasil foi promulgada em 05/10/1988, após um longo período de deliberações que se iniciou em 01/02/1987. A Constituição de 1988 tem, ao todo 250 artigos, subdivididos em diversos incisos, alíneas e parágrafos, o que confere ao seu texto um caráter excessivamente analítico. A Emenda Constitucional nº 25, por exemplo, acrescentou uma nova subdivisão ao art. 29, qual seja, o art. 29-A. No mesmo sentido, procedeu a Emenda Constitucional nº 30/2000 (art. 100, § 1º-A). (...) É fundamental, pois, que se tenha uma compreensão do seu todo. Nenhum dispositivo constitucional deve ser examinado isoladamente. É que a solução para um determinado caso concreto nem sempre se encontra em um único artigo; no mais das vezes, se resolve por outras regras, isto sem falar nos princípios.

Dentre suas características destacam-se:

a) promulgada;

b) longa e minuciosa (preâmbulo, 250 artigos e mais os 94 artigos dos ADCT);

c) progressista. Segundo

JOSÉ AFONSO DA SILVA

(9.2002:16-17):

Trata-se de uma Constituição progressista. O ‘Código Fundamental Político mais liberal e avançado de quantos registra a história do País, do continente americano e do mundo inteiro’, na opinião do jornal espanhol ’YA’, de 10 de outubro de 1988. Seus objetivos progressistas e democráticos são apontados já no Preâmbulo, quando declara que os representantes do povo brasileiro se reuniram em Assembléia Nacional Constituinte ‘para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias’. Ela, assim, visa a construir um Estado Democrático de Direito, fundado na dignidade da pessoa humana, na valorização do trabalho e no princípio democrático (art. 1º).

d) extinção dos Decretos-lei e criação das Medidas Provisórias;

e) sistema presidencialista, com direito a voto direto e secreto, obrigatório para

maiores de 18 anos e facultativo para maiores de 16 anos e menores de 18, para os

maiores de 70 anos e para os analfabetos;

(14)

g) criação da Advocacia geral da União;

h) previu a ‘Revisão Constitucional’ após 5 anos da promulgação;

i) criação do Superior Tribunal de Justiça;

j) extinção do Tribunal federal de Recursos;

k) 344 artigo (250 + 94), tendo já sofrido 62 Emendas Constitucionais e 06 Emendas

de Revisão.

Nas palavras de

NILSON BORGES FILHO

tiradas do artigo de sua autoria ‘O Direito da

Razão ou a Razão do Direito? Um breve histórico constitucional brasileiro’ – p. 8 (disponível em:

<

www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp?id=2445

> - TEXTO Nº 0013):

Com o término do ciclo militar e a transferência do poder aos civis, a Constituição de 1967 e a Emenda Complementar de 1969 transformaram-se em corpos jurídicos totalmente obsoletos frente à nova ordem que se pretendia instalar, com a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte. Novo regime. Nova Constituição. Afinal, tinha-se que refundar a República brasileira. Depois de dois anos de discussões, avanços, retrocessos e acordos, nasce a Constituição de 1988. A nova Carta mantém o perfil liberal, racional e formalista, mas expressou alguns avanços e consagrou direitos reclamados, desde sempre, pelos movimentos sociais organizados.

Vale trazer o seguinte RESUMO DAS

CARTAS CONSTITUCIONAIS NO BRASIL

(disponível em: <

http://www.enciclopedia.com.br/MED2000/pedia98a/hist2jcp.htm

>):

Todos os Estados servem-se de leis reguladoras cujas atribuições destinam-se à determinação das normas governamentais como a forma de governo (monarquia, república federativa, república parlamentar), assim como a atribuição de direitos e deveres na cidadania. O conjunto das leis supremas que regulam estes aspectos num Estado formam sua Constituição.

Ao longo de sua história, o Brasil passou por várias promulgações de cartas constitucionais: cada uma fornece características bastante definidas em relação ao contexto político e social em que foram promulgadas, tanto no âmbito nacional quanto no âmbito internacional. A seguir, encontram-se as principais atribuições de todas as Constituições promulgadas na história do Brasil:

Constituição de 1824:

Tendo sido outorgada por D. Pedro I, foi a primeira Constituição no Brasil. Um dos aspectos principais desta Constituição é o estabelecimento da primazia do poder imperial sobre os demais poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário, em contraposição ao poder Moderador, ou seja, o poder pessoal do próprio imperador: a Assembléia Legislativa, por exemplo, poderia ser fechada a mando de D. Pedro I).

Constituição de 1891:

A Constituição de 1891 teve inspiração na própria Constituição dos Estados Unidos, fator do qual derivou-se inclusive a maior autonomia dos Estados em relação ao poder federal. Neste período, o Congresso Constitucional elegeu Deodoro da Fonseca presidente do Brasil. Através desta Constituição, o modo de governo instituído passa a ser o presidencialismo, juntamente com a eliminação do poder Moderador exercido pelo Imperador. As eleições diretas são instituídas, cabendo o direito de voto aos homens cuja idade ultrapassasse vinte e um anos. Restrições do direito de voto são impostas às mulheres, aos religiosos, analfabetos e membros dos setores militares. O voto é não-secreto.

Constituição de 1934:

Esta Constituição teve promulgação durante o primeiro governo de Getúlio Vargas na Presidência da República. O direito de voto passa, a partir desta Constituição, a ser estendido às mulheres. Maior poder é concedido ao governo federal. Constituição de caráter mais liberal em relação às suas antecessoras e mesmo à

(15)

sua sucessora imediata, através dela possibilitou-se a criação de órgãos oficiais encarregados dos assuntos de justiça trabalhista e eleitoral.

Constituição de 1937:

Através desta Constituição, promulgada sob o governo de Vargas, houve a institucionalização do Estado Novo, que prescrevia um regime de caráter ditatorial. A eleição indireta é instituída, a autonomia dos estados é substituída por um regime de interventores nomeados pelo poder federal e a liberdade partidária é eliminada. O mandato previsto para os presidentes eleitos passou a ser de seis anos. A pena de morte também é instituída. Os poderes Legislativo, Judiciário e Executivo passam a sofrer intervenção direta do governo, perdendo sua autonomia.

Constituição de 1946:

Constituição promulgada após a queda do Estado Novo, restabeleceu a autonomia dos Estados e dos poderes Legislativo, Judiciário e Executivo e previu eleições diretas à Presidência da República (mandato de cinco anos). Além disso, passou a adotar artificialmente o regime parlamentarista, a partir do ano de 1961. Posteriormente, no ano de 1963, o regime parlamentarista foi derrotado através de um plebiscito, havendo subseqüentemente o restabelecimento do regime presidencialista. A prescrição constitucional da pena de morte da Constituição anterior foi anulada.

Constituição de 1967:

Através desta Constituição houve nova retração na afirmação das liberdades individuais; através de um conjunto de medidas, como o Ato Institucional Número Cinco, o governo do Regime Militar de 64 investe-se de poderes praticamente ilimitados quanto ao estabelecimento de leis tributárias e eleitorais; os processos econômicos e políticos também foram submetidos ditatorialmente ao governo militar. As eleições presidenciais são indiretas.

A partir do governo de Ernesto Geisel, o Brasil passou a assistir ao processo de abertura política, desencadeada através de eventos e posteriormente da promulgação de emendas que levavam a um gradual restabelecimento da democracia no país. O processo de abertura política no país estendeu-se até o governo do General João Baptista Figueiredo, enfrentando uma série de contradições, avanços e recuos. A última eleição indireta para presidente ocorreu em 1985, realizada através do Colégio Eleitoral: vence Tancredo Neves, que falece antes de sua posse. Seu vice toma lugar no poder.

Constituição de 1988:

Sob o "governo de transição" de José Sarney, a Constituição atualmente em vigor foi promulgada pela Assembléia Constituinte, formada por membros eleitos pela nação. A Constituição previu um plebiscito para a escolha popular sobre a adoção de sistema e regime de governo (Presidencialismo e Parlamentarismo, República e Monarquia). Durante o período do governo de Itamar Franco foi realizado o plebiscito, vencendo assim o presidencialismo republicano, havendo então a continuidade do regime e do sistema de governo plenamente implantados e adotados no Brasil.

As liberdades públicas e individuais são um ponto de reforço nesta Constituição, que regulamentou a incorporação de emendas populares. Pela primeira vez, o direito de voto é concedido aos analfabetos. A idade mínima dos eleitores é fixada em dezesseis anos. O período de cinco anos é estabelecido para o mandato presidencial. Atualmente, as reformas constitucionais entram no palco das discussões políticas, tendo sofrido uma série de adiamentos.

E, para concluir, trazemos mais um comentário de

LUIZ ROBERTO BARROSO

sobre “A

ASCENSÃO CIENTÍFICA E POLÍTICA DO DIREITO CONSTITUCIONAL NO BRASIL”

(“Fundamentos teóricos e filosóficos do novo Direito Constitucional brasileiro” (disponível em:

http://www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp?id=3208

- TEXTO Nº 0020).

O direito constitucional brasileiro vive um momento virtuoso. Do ponto de vista de sua elaboração científica e da prática jurisprudencial, duas mudanças de paradigma deram-lhe nova dimensão: a) o compromisso com a efetividade de suas normas (83); e b) o desenvolvimento de uma dogmática da interpretação constitucional (84).

Passou a ser premissa do estudo da Constituição o reconhecimento de sua força normativa (85), do caráter

vinculativo e obrigatório de suas disposições, superada a fase em que era tratada como um conjunto de aspirações políticas e uma convocação à atuação dos Poderes Públicos. De outra parte, embora se insira no âmbito da interpretação jurídica, a especificidade das normas constitucionais, com seu conteúdo próprio, sua

(16)

abertura e superioridade jurídica, exigiram o desenvolvimento de novos métodos hermenêuticos e de princípios específicos de interpretação constitucional.

Essas transformações redefiniram a posição da Constituição na ordem jurídica brasileira. De fato, nas últimas décadas, o Código Civil foi perdendo sua posição de preeminência, mesmo no âmbito das relações privadas, onde se formaram diversos microssistemas (consumidor, criança e adolescente, locações, direito de família). Progressivamente, foi se consumando no Brasil um fenômeno anteriormente verificado na Alemanha, após a Segunda Guerra: a passagem da Lei Fundamental para o centro do sistema. À supremacia até então meramente formal, agregou-se uma valia material e axiológica à Constituição, potencializada pela abertura do sistema jurídico e pela normatividade de seus princípios (86).

A Constituição passa a ser, assim, não apenas um sistema em si – com a sua ordem, unidade e harmonia

– mas também um modo de olhar e interpretar todos os demais ramos do Direito. Este fenômeno, identificado por alguns autores como filtragem constitucional, consiste em que toda a ordem jurídica deve ser lida e apreendida sob a lente da Constituição, de modo a realizar os valores nela consagrados. A constitucionalização do direito infraconstitucional não identifica apenas a inclusão na Lei Maior de normas próprias de outros domínios, mas, sobretudo, a reinterpretação de seus institutos sob uma ótica constitucional (87).

A ascensão científica e política do direito constitucional brasileiro é contemporânea da reconstitucionalização do país com a Carta de 1988, em uma intensa relação de causa e efeito. A Assembléia Constituinte foi cenário de ampla participação da sociedade civil, que permanecera alijada do processo político por mais de duas décadas. O produto final de seu trabalho foi heterogêneo. De um lado, avanços como a inclusão de uma generosa carta de direitos, a recuperação das prerrogativas dos Poderes Legislativo e Judiciário, a redefinição da Federação. De outro, no entanto, o texto casuístico, prolixo, corporativo, incapaz de superar a perene superposição entre o espaço público e o espaço privado no país. A Constituição de 1988 não é a Carta da nossa maturidade institucional, mas das nossas circunstâncias. Não se deve, contudo, subestimar o papel que tem desempenhado na restauração democrática brasileira. Sob sua vigência vem se desenrolando o mais longo período de estabilidade institucional da história do país, com a absorção de graves crises políticas dentro do quadro da legalidade constitucional. É nossa primeira Constituição verdadeiramente normativa e, a despeito da compulsão reformadora que abala a integridade de seu texto, vem consolidando um inédito sentimento constitucional (88).

O constitucionalismo, por si só, não é capaz de derrotar algumas das vicissitudes que têm adiado a plena democratização da sociedade brasileira. (O Direito tem seus limites e possibilidades, não sendo o único e nem sequer o melhor instrumento de ação social). Tais desvios envolvem, em primeiro lugar, a ideologia da desigualdade. Desigualdade econômica, que se materializa no abismo entre os que têm e os que não têm, com a conseqüente dificuldade de se estabelecer um projeto comum de sociedade. Desigualdade política, que faz com que importantes opções de políticas públicas atendam prioritariamente aos setores que detêm força eleitoral e parlamentar, mesmo quando já sejam os mais favorecidos. Desigualdade filosófica: o vício nacional de buscar o privilégio em vez do direito, aliado à incapacidade de perceber o outro, o próximo (89).

Em segundo lugar, enfraquece e adia o projeto da democratização mais profunda da sociedade brasileira a corrupção disseminada e institucionalizada. Nem sempre a do dinheiro, mas também a do favor político e a da amizade. No sistema eleitoral, a maldição dos financiamentos eleitorais e as relações promíscuas que engendram. No sistema orçamentário, o estigma insuperado do fisiologismo e das negociações de balcão nas votações no âmbito do Congresso. No sistema tributário, a cultura da sonegação, estimulada pela voracidade fiscal e por esquemas quase formais de extorsão e composição. No sistema de segurança pública, profissionais mal pagos, mal treinados, vizinhos de porta daqueles a quem deviam policiar, envolvem-se endemicamente com a criminalidade e a venda de proteção. A exemplificação é extensa e desanimadora. A superação dos ciclos do atraso e o amadurecimento dos povos inserem-se em um processo de longo prazo, que exige engajamento e ideal. O novo direito constitucional brasileiro tem sido um aliado valioso e eficaz na busca desses desideratos. Mas o aprofundamento democrático impõe, também, o resgate de valores éticos, o exercício da cidadania e um projeto de país inclusivo de toda a gente. Um bom programa para o próximo milênio.

DOUTRINA CITADA:

BASTOS, Celso Ribeiro - “Curso de Direito Constitucional”, São Paulo: Celso Bastos

Editora, 2002.

CALMON, Pedro - “História do Brasil”- (7 vols.). Rio de Janeiro: Editora José Olympio,

1959.

(17)

MARINHO, Josaphat - “Estudos constitucionais: da Constituição de 1946 à de 1988”,

Universidade Federal da Bahia, 1989.

MENEZES, Geraldo Bezerra de - “O Direito do Trabalho e a Seguridade Social na

Constituição”, Rio de Janeiro: Pallas SA, 1976.

SILVA, José Afonso da - “Manual da Constituição de 1988”, São Paulo: Malheiros,

9.2002.

TEXTOS RECOMENDADOS COMO LEITURA COMPLEMENTAR:

ALVES JÚNIOR, Luís Carlos Martins – “Atos do executivo com força de lei nas

constituições autocráticas do Brasil - 1824, 1937 e 1967/1969” (disponível em:

http://www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp?id=173

) - TEXTO Nº 0058.

BARROSO, Luís Roberto - “Fundamentos teóricos e filosóficos do novo Direito

Constitucional brasileiro”, (disponível em:

http://www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp?

id=3208

) - TEXTO Nº 0020.

BORGES FILHO, Nilson - “O Direito da Razão ou a Razão do Direito? Um breve

histórico

constitucional

brasileiro”,

(disponível

em:

<

www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp?id=2445

) - TEXTO Nº 0013.

FERRAZ JÚNIOR, Tércio Sampaio – “Constituição Brasileira: Modelo de Estado,

Estado democrático de Direito, Objetivos e Limites Jurídicos”, (disponível em: <

http://www.serrano.neves.nom.br/gabinete/constitucional/Constituicao_Brasileira_e_

Estado

_Democratico_de_Direito.htm

) - TEXTO Nº 0008.

SILVA, Fernando Machado da - “O sistema constitucional brasileiro e sua efetividade”,

(disponível em: <

http://www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp?id=3764

) - TEXTO Nº

0014.

SILVEIRA, Cláudia Maria Toledo Silveira - “Cidadania”, (dispon=ivel em: -

http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=78

) - TEXTO Nº 0015.

VIANNA JÚNIOR, Wilmar da Silva - “A questão do poder na Colônia”, (disponível

em: <

www.nethistoria.com/index

) - TEXTO Nº 0001.

Osnabrück, Niedersachsen - Deutschland, atualizado em 08 de março de 2010

Profª LUCIA LUZ MEYER

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