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(2) U NIVERSIDADE M ETODISTA. DE. S ÃO P AULO. SEXUALIDADE E DST/AIDS: CONHECIMENTOS E PRÁTICAS DE PROTEÇÃO COM ESCOLARES. Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação. –. Mestrado/Doutorado. em. Psicologia da Saúde da Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, para obtenção do título de Mestre. Orientador: Prof. Dr. Manuel M. Rezende. S ÃO B ERNARDO 2004. DO. C AMPO.
(3) V ÂNIA A PARECIDA. DA. S ILVA F IGUEIREDO. DO. C OUTO. SEXUALIDADE E DST/AIDS: CONHECIMENTOS E PRÁTICAS DE PROTEÇÃO COM ESCOLARES. COMISSÃO JULGADORA DISSERTAÇÃO PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE. Prof. Dr. Manuel Morgado Rezende (orientador): _______________________. Prof. Dr. José Tolentino Rosa: _______________________ Prof(a) Dr.(a) Cecília Pescatore Alves: _______________________.
(4) Dedico. esta. dissertação. a. minha. família, na pessoa de meu pai Oswaldo e meu irmão Paulo, por todos momentos presentes caminhada.. e. afeto. recebido. nesta.
(5) AGRADECIMENTOS. A Deus, pela oportunidade da vida, pela capacidade de acreditar nos sonhos e por ser fiel aos meus ideais. Aos meus filhos, Vinícius e Ana Carolina, partes de um todo que me completam e incentivam a tantas mudanças. Agradeço ao meu esposo, Márcio Couto, companheiro e cúmplice; ao afeto e à mão estendida que serviram de sustentáculo para a sedimentação de um futuro pessoal e profissional de comprometimento. Você foi fundamental neste processo. Meus agradecimentos se estendem aos professor-orientador Dr. Manuel Rezende o qual fez de seu conhecimento científico e ético a força geradora deste estudo. Sua paciência, seu esforço e sua dedicação foram fundamentais. “O sonho começa, a maior parte das vezes, com um professor que acredita em você, que o puxa, empurra para o próximo estágio, às vezes até o aguilhoamento com um bastão profundo chamado verdade” Aos professores Dr. José Tolentino Rosa e Dr.(a) Cecília Pescatore Alves, agradeço pela valorosa contribuição prestada neste processo de aprendizado em ocasião da banca de qualificação e pelo aceite em participar da Banca Examinadora..
(6) "Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a intenção da semente." Henfil.
(7) COUTO, Vânia Aparecida da Silva Figueiredo. Sexualidade e DST/Aids: conhecimentos e práticas de proteção com escolares, São Bernardo. do. Campo. –. SP,. 2004,. dissertação. de. mestrado. apresentada ao Programa de Pós-graduação em Psicologia da Saúde da Universidade Metodista de São Paulo.. RESUMO Este trabalho teve por objetivo geral investigar as informações a respeito da sexualidade e DST/ Aids de escolares, na cidade de Rondonópolis – MT sobre sexualidade e DST, uso de preservativos e comportamentos diante de uma realidade que aponta um índice elevado do vírus HIV entre adolescentes. A partir desta investigação, a análise envolve as molduras comportamentais (interpretações, crenças, imagens ou símbolos compartilhados e usados pelas pessoas na sua interação com a sexualidade e DST). A análise da literatura demonstrou que a falta de informações não depende somente da predominância de diferenças sociais ressaltadas pelo poder aquisitivo das famílias. A teoria da estruturação, arcabouço teórico do presente trabalho, visualiza que os temas como a sexualidade e as DST's/Aids necessitam fazer parte do dia-a-dia dos jovens e adolescentes de todas as sociedades, independente da classe social ou cultural dos mesmos. Dessa maneira, concebe-se a escola como um veículo importante de informação que deve ser utilizado em toda a sua amplitude, auxiliando assim, na manutenção da saúde pública através da prevenção das DST's/Aids. Para tanto, foi realizada uma coleta de dados na tentativa de obter mais detalhes sobre questões como: Conhecimento sobre sexualidade, conceito e uso de preservativos. Entre outros resultados encontrados, há evidência da necessidade da escola, enquanto espaço privilegiado da informação e saber, ater-se em programas que oportunizem o debate e a reflexão de tais temas. Palavras Chave: DST/Aids, Adolescentes, Informação, Fatores de proteção e risco..
(8) ABSTRACT This work has for general objective to investigate the information regarding sexuality and STD/Aids among students in the city of Rondonópolis (Mato Grosso), observing the behavior of this public for concepts on sexuality and STD, use of condoms and behaviors faced in a virus HIV intense reality. The analysis involves the interpretations, beliefs, images or symbols shared and used for the people in its interaction with sexuality and STD. This manner, the analysis of literature demonstrated that the lack of information on the STD don’t usually differs from a situation of salient social differences. The Structuration theory, theoretical framework of the present work, visualizes that the themes like sexuality and the STD’s/Aids needs to be part of day-by-day of the young and the adolescents of all the societies, independent of the social or cultural class of the same ones. In this way, it is conceived that school is an important vehicle of information that must be used in all its amplitude, thus assisting in the maintenance of the public health through the prevention of the STD’s/Aids. For in such a way, a collection of data was carried to get more details on questions as: Knowledge on sexuality and concept and use of condoms. Among others results founded, it has evidence of the necessity of the school, while privileged space of the information and knowledge, to insert itself in programs that oportunizes the debate and the reflection of the such themes.. Key words: STD/Aids, Adolescents, Knowledge, Factors of protection and risk..
(9) SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................... 12 1. SEXUALIDADE E ADOLESCÊNCIA ......................................... 19 1.1. Aspectos gerais sobre a sexualidade ................................................19 1.2. Os riscos e oportunidades na adolescência......................................23 1.3. Vulnerabilidade social e adolescência...............................................34 2. ADOLESCÊNCIA E DST’s/AIDS .............................................. 38 2.1. Doenças Sexualmente Transmissíveis .............................................40 2.2. Pesquisas recentes sobre DST’s/Aids entre adolescentes...............41 2.3. Políticas de enfrentamento e formas de prevenção..........................45 3. Objetivos ............................................................................... 51 4. Método .................................................................................. 52 4.1. Participantes ......................................................................................52 4.2. Ambiente ............................................................................................53 4.3. Instrumento ........................................................................................53 4.4. Procedimentos ...................................................................................54 5. Resultados e Discussão........................................................... 55 5.1. Características socioeconômicas ......................................................55 5.2. Informação sobre DST’s/Aids ............................................................59 5.3. Iniciação sexual .................................................................................62 5.4. Aids: Informações sobre riscos e proteção .......................................67 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................... 72 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................... 75 8. ANEXOS ................................................................................ 79 8.1. ANEXO A – Questionário ..................................................................79 8.2. ANEXO B – Autorização para Pesquisa............................................84 8.3. ANEXO C - Distribuição etária da população por sexo e idade Município de Rondonópolis 1970, 1980, 1991 e 2000............................................85.
(10) L ISTA. DE FIGURAS. Figura 1 – Infra-estrutura doméstica (bens de consumo)...........................................57 Figura 2 – Escolaridade do chefe do domicílio ...........................................................58 Figura 3 – O que significa DST (Doença Sexualmente Transmissível)? ...................59 Figura 4 – Conhece alguma DST segundo iniciação sexual ......................................60 Figura 5 – Conhecimento de DST’s enumeradas no questionário.............................61 Figura 6 - Conhecimento de DST’s enumeradas no questionário por turno escolar .62 Figura 7 – Distribuição dos casos de iniciação sexual segundo idade da primeira relação..................................................................................................................63 Figura 8 – Idade da primeira relação sexual segundo a idade atual..........................64 Figura 9 – Relacionamento atual segundo iniciação sexual.......................................65 Figura 10 – Usa preservativo (apenas para os que já tiveram relações sexuais)?....66 Figura 11 – Tipos de uso de preservativo selecionados segundo relacionamento atual......................................................................................................................66 Figura 12 – Como se pode contrair Aids? ..................................................................68 Figura 13 – Como se pode evitar a Aids?...................................................................68 Figura 14 – Já fez exame de HIV/Aids? .....................................................................69 Figura 15 – Você conhece alguém soropositivo? .......................................................69 Figura 16 – Qual a principal fonte de informação sobre HIV/Aids?............................71.
(11) L ISTA. DE TABELAS. Tabela 1 – Participantes por sexo e idade (%) ...........................................................55 Tabela 2 – Participantes por turno escolar e sexo (%)...............................................56 Tabela 3 – Rendimento médio mensal da família (em salários mínimos de 2004)....58.
(12) 12. INTRODUÇÃO. A sexualidade humana é um dos fenômenos que desperta o interesse da comunidade científica e da população em geral. A procura de explicações para comportamentos sexuais nas mais diversas culturas tem sido objeto de estudo em numerosas. disciplinas. científicas.. Em. relação. às. doenças. sexualmente. transmissíveis a Psicologia, nas últimas décadas, tem realizado contribuições relevantes para a constatação das mudanças de comportamento de risco. As Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) estão entre os problemas de saúde pública com especial destaque no Brasil e no mundo. Em países desenvolvidos ocorre um novo caso de DST em cada 100 pessoas por ano; e nos países em desenvolvimento, as DST estão entre as cinco principais causas de procura de serviços de saúde (OMS, 1990). Embora as DST’s potencialmente possam atingir o conjunto da população de uma maneira uniforme, alguns grupos são particularmente mais vulneráveis a este tipo de situação: o dos adolescentes. A vulnerabilidade, entendida enquanto uma capacidade de receber e, de certa forma, se proteger e responder a algum efeito externo permite apreender a situação social de determinados grupos sociais além de sua condição econômica. Ou seja, caracteriza-se enquanto uma abordagem multidimensional que vai além da situação de pobreza enquanto justificativa, mas todo um conjunto de ativos sociais (MOSER, 1998) Neste sentido, o trabalho como Conselheira Municipal de Saúde da cidade de Rondonópolis, no Estado de Mato Grosso e as experiências práticas em Psicologia, possibilitou-nos constatar diversas queixas e dúvidas trazidas às reuniões pelos coordenadores do programa das DST/Aids e representantes da Associação de Soro.
(13) 13 Positivo1. Dentre as queixas surgiram também dúvidas sobre o motivo pelo qual inexiste no município de Rondonópolis – MT indicadores que mostram dados acerca da idade de início da atividade sexual, sobre os comportamentos de proteção e/ou risco e os conhecimentos a respeito das DST/Aids na população adolescente. Este quadro nos estimulou na busca um esquadrinhamento maior sobre o tema, aguçando o desejo de investigar, objetivando contribuir com a discussão da Promoção da Saúde e Prevenção das DST/Aids. Por outro lado, minha formação acadêmica em Psicologia e a experiência adquirida ao longo dos últimos 20 anos junto à Rede de Escolas Estaduais do Ensino Fundamental e Médio de Rondonópolis – MT contribuíram para que nos sentíssemos motivados em desenvolver o presente estudo, objeto dos caminhos que percorreremos em nossa dissertação. Isto porque, durante esse período, sempre trabalhamos em órgãos da Secretaria de Educação do Estado, desenvolvendo projetos na área de Saúde Escolar, com a oportunidade de estabelecer contato direto com diretores, professores, pais e alunos que nos proporcionaram uma visão da complexidade das questões enfrentadas pela escola para além dos problemas ditos “curriculares”. Considerando-se que a escola tem função de socialização dos indivíduos, seu espaço torna-se viabilizador do trabalho de prevenção à Sexualidade e DST/Aids. É através da mobilização provocadora da consciência que o sentido da necessidade de prevenção poderá despertar, permeado pela aquisição de informações científicas e pela discussão crítica acerca dos problemas da sociedade contemporânea. Ao comentar sobre os impactos que podem causar danos aos adolescentes colocando-os em situação de risco, bem como a importância da educação neste sentido, Alan Marlatt et al (1999) esclarece que as práticas que viabilizam a redução de danos podem ser ensinadas nas escolas através de programas educacionais que objetivam a redução dos riscos do envolvimento em comportamentos como, por exemplo, beber, comer, fumar, usar drogas permitidas ou não e praticar sexo.. 1. Associação de Soro Positivo. Essa Associação constitui uma Organização Não. Governamental de atendimento às pessoas portadoras de Soro Positivo..
(14) 14 Observa-se, finalmente que a educação é a chave para a prevenção e redução dos comportamentos de risco. A discussão do problema das DST/Aids chegou às escolas por imposição das necessidades dos adolescentes e elas se viam obrigadas a inserir em seus projetos pedagógicos a inclusão dos temas transversais. Assim, as propostas pedagógicas repassadas aos alunos têm incluído a sexualidade e as DST/Aids entre as questões emergentes. a. serem. trabalhadas. pelos. professores.. Não. obstante,. será. imprescindível incluir no plano escolar o enfrentamento deste tema de uma forma mais abrangente, contemplando o conhecimento da sexualidade do adolescente escolar e a formação dos professores para lecionar sobre o tema. A DST/Aids é um tema que costuma desencadear acaloradas discussões a respeito das características comportamentais, sócioeconômicas e biológicas. E é neste contexto que os adolescentes assumam especial destaque enquanto um grupo especialmente vulnerável à infecção pelo vírus (HIV), além de outras DST’s que parecem aumentar cada vez mais entre estes grupos. A. sexualidade. entre. os. adolescentes. é. uma. das. características. comportamentais importantes a ser considerada, em muitos casos é o momento onde se dá o início das primeiras experiências sexuais. Dados da UNAIDS2 (2001), comprovam este preocupação, pois cerca de 50% dos jovens norte-americanos já tiveram relações sexuais antes dos 17 anos e apenas metade desses relatam uso de preservativos na última relação. A UNAIDS destaca ainda que muitas vezes a não utilização dos preservativos está relacionada ao abuso de álcool e outras drogas, os quais favorecem a prática do sexo inseguro, tornando importante a orientação dos adolescentes sobre o assunto e, sobretudo, indicando que uma parcela grande do problema pode ser controlada através de uma mudança comportamental. No caso brasileiro, de acordo com o Sistema Nacional de Notificação (SINAN), o Mato Grosso é considerado de média endemicidade de acordo com a classificação do Ministério da Saúde, possuindo como limite mínimo 0,1% e máximo de 0,3% para. 2. O UNAIDS é o Programa Conjunto das Nações Unidas para a Aids, co-patrocinado por sete. órgãos do sistema das Nações Unidas, começou sua atividade em janeiro de 1996..
(15) 15 a prevalência para HIV entre indivíduos de 15 a 49 anos de idade. No período de 1984 a 1998 somam-se 1.508 casos de AIDS notificados. No decorrer dos últimos 12 anos, observa-se que a população feminina tem apresentado maior incremento no número de casos. Este fato fica evidente ao comparar-se a proporção masculino/feminino no ano de 1989, de 7 por 1, com o ano de 98, em que é menor do que 2 por 1. Também é possível relacionar este fato com o aumento do número de casos em heterossexuais que no período de 1994 a 1998 foi de 78,8%, enquanto que em homossexuais houve um decréscimo de 34,6%. No ano de 1998 a principal via de transmissão continuou como em anos anteriores, sendo a sexual em 82,3% (166) casos. A transmissão perinatal contribuiu com 4% (8) do total de casos e as demais categorias corresponderam a 2,8% dos casos. Em 10,9% dos casos notificados não foi informada a categoria da exposição. Em Mato Grosso 71 (56,3%) dos municípios já tem casos de Aids notificados, embora Cuiabá ainda apresente o maior número de casos, seguido do município de Rondonópolis e Várzea Grande. Em 1998, a Secretaria de Estado de Saúde – MT (SES)3 desenvolveu em parceria com o Ministério da Saúde, o Projeto “Prevenção de DST e Aids” nas escolas, em que foram capacitados 140 professores, tal projeto teve alcance de 30.000 alunos. Comparando o número total de alunos do Estado de Mato Grosso, em que no referido período era de 831.900 alunos, temos praticamente 3,7% de alunos que participaram do Programa de Prevenção e 96,3% que não participaram de tais Programas, nos permitindo investigar os conhecimentos e práticas de proteção da sexualidade e DST/Aids, bem como as mudanças ocorridas nas práticas sexuais daqueles que participaram dos programas. Dados estatísticos revelam um número significativo de contágio das DST’s/Aids no Brasil. Esses dados foram divulgados pelo Ministério da Saúde, através de uma pesquisa realizada entre os anos de 1980 e 2003, que revelaram os seguintes índices de contaminação: 277 mil 154 casos de Aids no Brasil. Desse total, 197 mil. 3. Número. de. Alunos.. Disponível. <http://www.seduc.mt.gov.br/numeros_alunos_consulta.asp> Acesso em: 18 Abr. 2003.. em:.
(16) 16 340 foram verificados em homens e 79 mil 814 em mulheres. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2003) No ano de 2003, foram notificados 5.762 novos casos da epidemia e, desses, 3.693 foram constatados em pessoas do sexo masculino e 2.069 do sexo feminino, demonstrando que, atualmente, a epidemia cresce mais entre as mulheres. Alguns estudos indicam que nos últimos anos é crescente a incidência da Aids na faixa etária dos 13 aos 19 anos em adolescentes do sexo feminino, que pode ser explicado pelo início cada vez mais precoce da atividade sexual em relação a estas adolescentes e que normalmente o fazem com homens com maior experiência sexual, isto é, com maior exposição aos riscos de contaminação por DST’s/Aids (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2003). Segundo dados do Ministério da Saúde, 21% das pessoas que contraíram Aids no ano de 2003 tinham entre 13 e 24 anos de idade. E 18% dos casos de Aids estavam relacionados ao uso de drogas injetáveis. (GAPA, 2003)4. No Estado de Mato Grosso, de acordo com a Secretaria de Saúde do Estado, existem 2.527 mil casos registrados no período de 1980 até 2003. (SES/MT, 2003) Tendo em vista essa realidade, mesmo com muitos avanços no sentido de entender e avaliar a situação atual das DST/Aids no Brasil e no mundo, ainda há muito a ser feito. Ou seja, mesmo com toda a preocupação em torno do assunto, cresce o número de casos de DST/Aids. E é neste contexto que a pesquisa presente procura se inserir, ampliando o debate de modo a contribuir para ações sociais que permitam melhor entender e divulgar as práticas de proteção a respeito da Sexualidade e DST’s/Aids. Mais do que esgotar o assunto, o objetivo maior é trabalhar com a realidade que se apresenta diante de nós buscar uma maior interação entre o conhecimento e a prática preventiva no caso particular do município de Rondonópolis. Para a integração efetiva das ações de prevenção e promoção à saúde e educação é necessário o reconhecimento e a valorização da capacidade técnica e. 4. GAPA. Grupo de Apoio à Prevenção à Aids..
(17) 17 operacional já construída por estas instâncias ao longo de sua história. A integração pressupõe ainda a adoção de princípios e objetivos comuns. Embora as ações possam se diferenciar, constata-se que esses setores compartilham e já desenvolvem de forma relevante o trabalho educativo, podendo ser destacados: -fomentar a discussão democrática de valores e atitudes em relação aos cuidados com a saúde e a sexualidade; -planejar ações preventivas respeitando-se o contexto de cada região, de acordo com os princípios e diretrizes descritas anteriormente, visando à transformação da realidade; -otimizar e socializar os recursos materiais e tecnológicos existentes; -qualificar recursos humanos para o planejamento, execução e avaliação das ações preventivas. Entende-se,. sobretudo. que. a. criança. e. o. adolescente. estão. em. desenvolvimento bio-psico-social, o que pressupõe que as informações devam ser transmitidas com clareza e atendendo as curiosidades próprias da idade, a respeito do corpo e de seus fenômenos. As experiências que estes vivenciam podem e devem ser discutidas sem preconceitos ou medos tanto no que se refere a assuntos como drogas e doenças; fato que pode favorecer as escolhas ou o enfrentamento dos riscos. Tudo isso pode contribuir para melhores chances a fim de que estes tenham uma vida mais saudável e de melhor qualidade. É neste contexto que o profissional de saúde pode contribuir de maneira importante nos projetos de Educação para a Saúde focalizando as práticas de conhecimento e as práticas escolares. Enfim, o presente estudo se inscreve no intuito de melhor entender estas relações no município de Rondonópolis-MT, situado a 220 Km de Cuiabá e possui segundo dados do Censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – pouco mais de 150 mil habitantes em 2000 e, seguindo a tendência nacional, apresentou nas últimas décadas uma redução nas taxas de fecundidade, levando a um aumento na participação dos jovens e adolescentes na distribuição etária total da população..
(18) 18 A mudança no perfil etário da população de Rondonópolis tem caminhado em direção a uma redução gradual da participação das crianças, fazendo com que hoje (em 2000) os grupos de idade de “10 a 14 anos” e de “15 a 19 anos” sejam um dos mais representativos; juntos estes dois grupos somam mais de 20% da população do município de Rondonópolis (como ilustram as pirâmides etárias apresentadas em anexo, ver Anexo C na página 87). E não é apenas por terem um peso relativo evidenciado que o estudo é importante. Seguindo outra tendência nacional e mundial, a gravidez adolescente apresentou um aumento substancial nos últimos dez anos para o município de Rondonópolis. Segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano do Brasil (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA e Fundação João Pinheiro) o percentual de adolescentes de 15 a 17 anos com filhos passou de 7,69% em 1991 para 13,08% em 2000; o que evidencia necessidades de políticas públicas adequadas tanto no que se refere às condições de vida dessas adolescentes como em relação a maior exposição aos riscos de DST’s/Aids. Tais informações por si só justificam o esforço em entender melhor este grupo de idade e assim o investimento em uma pesquisa, mesmo que breve, mas que possa levantar subsídios importantes para a reformulação de políticas públicas mais eficazes na esfera municipal. A justificativa se torna uma demanda imprescindível se somarmos a estes dados toda a discussão já suscitada aqui neste trabalho, tanto em relação às questões referentes à adolescência como suas interfaces de riscos em relação à disseminação de Doenças Sexualmente Transmissíveis e, sobretudo, à Aids..
(19) 19. 1. SEXUALIDADE E ADOLESCÊNCIA. 1.1.. Aspectos gerais sobre a sexualidade. A sexualidade é um processo muito mais amplo do que o conjunto de órgãos genitais e não se limita simplesmente ao ato sexual, mas sim, ao somatório das peculiaridades do mundo afetivo. Pela prevalência do aspecto anatômico, sempre fomos levados a pensar em sexualidade como sinônimo de genitália. Esta base anatômica, a genitália como indicadora do sexo. Neste contexto, o conceito de sexualidade está fundamentado no aspecto biológico do humano, exercido em uma função social. Exemplo: nascer com um pênis é estar destinado a criar e prover uma família; nascer com uma vagina indica a possibilidade receptiva e acolhedora de gerar e parir filhos. Como função social, a sexualidade se transformou em uma necessidade humana para a manutenção da espécie. Sem exagero, podemos dizer que sempre se pensou assim, até o século passado ou início deste; para categorizar a sexualidade, valiam os estudos anatômicos e as regras morais da religião dominante. No início do século XX, Freud e o seu conceito de libido, estende os horizontes da sexualidade caminhando para uma compreensão que passa a ir além do anatômico. A fisiologia e a endocrinologia também ampliam estes limites. A partir de então, tudo se sexualiza. A forma biológica passa a ser apenas um indicador básico para as considerações sobre sexualidade. Assim, com o referencial de classificação anatômico/biológico, surgem novos casos e permite-se um novo olhar em torno do que. seria. um. padrão,. pseudohermafroditismo.. como. por. exemplo,. o. hermafroditismo,. o.
(20) 20 A sexualidade é um termo de múltiplas acepções, algumas bem amplas, outras mais estritas. Concebe-se que conceituar sexo ou sexualidade é tarefa complexa, tanto pela abrangência que envolve o tema, quanto pela própria questão evolutiva e subjetiva da matéria. Sob este entendimento analisa-se que o sexo constitui uma das grandes riquezas da vida humana. Neste sentido, passa-se a vida toda conhecendo os seus aspectos e a magia que o sexo exerce em todos os seres vivos e, especialmente nos homens, de forma mais acentuada no período da adolescência. Compreende-se que o processo de formação da personalidade vem a ser dotado de pequenas nuanças capazes de determinar o caráter da pessoa enquanto ser eminentemente ético, moral e social. Sobre este tema analisa-se a reflexão freudiana, que assevera:. (...) a reflexão freudiana parece embater numa dupla aporia referente, por um lado, à essência da sexualidade (em que a última palavra é deixada a uma hipotética definição bioquímica), e, por outro, à sua gênese, pois Freud contenta-se com postular que a sexualidade existe desde logo virtualmente (...) a reserva de Freud quanto a uma concepção puramente genética e endógena da sexualidade verifica-se igualmente no papel que continuou a atribuir à sedução, uma vez reconhecida a existência de uma sexualidade infantil (...). (LAPLANCHE; PONTALIS, 1970: 621-623). Na. visão. de. (LAPLANCHE;. PONTALIS,. 1970). alguns. fatores. são. determinantes para a sexualidade na adolescência. Este se constitui um período transitório de crescimento que tem início marcado fisicamente com a puberdade e se encerra quando se atinge a maioridade, muito embora, a maturidade física e mental seja fator preponderante na questão que envolve a sexualidade. Sob este entendimento observa-se que conceituar a sexualidade ou repassar conhecimentos subjetivos acerca desta matéria a qualquer pessoa e, principalmente, aos jovens constitui um trabalho que envolve não apenas a cientificidade, mas, acima de tudo, a moral e o respeito próprio. Envolvendo todas as características que circundam a sexualidade dentro da manifestação da personalidade dos indivíduos é.
(21) 21 correto afirmar que o tema é, por si só, fonte de inesgotáveis interpretações e concepções, por isto se demonstra extremamente interessante e instigador. Quando se fala de sexualidade, pressupõe-se falar de intimidade, uma vez que ela está estreitamente ligada às relações afetivas. A sexualidade é um atributo de qualquer ser humano. Mas para ser compreendida, não se pode separá-la do indivíduo como um todo. Enfim, é muito mais do que simplesmente ter um corpo desenvolvido ou em desenvolvimento, apto para procriar e apresentar desejos sexuais. Trata-se, também, de uma forma peculiar que cada indivíduo desenvolve e estabelece, para viver suas relações pessoais e interpessoais a partir de seu papel sexual. Daí poder afirmar que a sexualidade é um instrumento relacional importante, embora não seja o único. Nos últimos vinte anos tem-se falado muito no assunto. Criaram-se diversas teorias, realizaram-se vários estudos, e o tema conquistou um espaço fantástico nos jornais e revistas. No entanto, toda esta publicidade ocasiona, muitas vezes, uma idealização da vida sexual, dando a falsa impressão de que existe uma fórmula única de viver plenamente a sexualidade, um padrão sexual, um modelo estruturado ao qual todos os indivíduos devem se adaptar. E, desse modo, inverte-se o ritmo natural das coisas. A sexualidade desponta a partir do momento em que o corpo de uma criança começa a sofrer transformações e novas funções vão surgindo, principalmente as funções sexuais. Nesta fase da vida humana a mente se desenvolve, novas concepções e noções de mundo são reconhecidas, as sensações afetivas e sexuais tomam novas proporções e, tudo isso, provoca no adolescente um período de complexidade. que. envolve. crises. pessoais. e,. conseqüentemente,. sociais.. (FREITAS, GIR, FUREGATO, 2002) Sexualidade é formada por um processo que pode ser observado a partir da amamentação, conforme explicam Freitas, Gir e Furegato:. A problemática da psicose remete a um tempo anterior ao trabalho psíquico de distinção entre amor e sexualidade. Esta problemática concerne às dificuldades que encontrou o sujeito.
(22) 22 na sua relação com a mãe de amor, com a mãe de cuidados, e na época em que o espaço psíquico do bebê que foi, não se distinguia do espaço psíquico materno que o amparava e dele se ocupava. (FREITAS, GIR, FUREGATO, 2002: 70-76). No período da adolescência observa-se que o jovem se encontra envolvido por diversas mudanças submete a inúmeros conflitos, tanto do ponto de vista biológico, com o surgimento de espinhas pelo rosto e pêlos no corpo, que embora sejam naturais, para eles constitui um peso que faz com que se sintam discriminados diante de uma aparência que eles mesmos julgam repulsiva e definitiva. (ABERASTURY; KNOBEL, 1981), quanto social, pois atravessam uma fase de transição entre a infância e a vida adulta. Isso o leva a uma grande confusão mental e física.. O crescimento e as modificações do seu corpo ao chegar a puberdade (...) impõem ao adolescente uma mudança de papel frente ao mundo exterior, e o mundo externo exige-lhe se ele não o assume (...) A característica da adolescência é que a criança, queira ou não, vê-se obrigada a entrar no mundo do adulto; e poderíamos dizer que primeiro entra através do crescimento e das mudanças do seu corpo e, muito mais tarde, através de suas capacidades e de seus afetos. É muito freqüente que aos 16, 17, ou 18 anos se mostrem muito maduros, em alguns aspectos, mas paradoxalmente imaturos em outros. Isto surge por um jogo de defesas frente ao novo papel e frente à mudança corporal que é vivida como uma invasão súbita incontrolável de um novo esquema corporal que lhe modifica a sua posição frente ao mundo externo e o obriga a procurar novas pautas de convivência. O que aprendeu como criança, em aprendizagem e adaptação social, não lhe serve mais (...). (ABERASTURY; KNOBEL, 1981: 89). Neste período de transformações físicas e mentais, os adolescentes passam por dificuldades de relacionamentos, especialmente, com pais e professores. (ERIKSON, 1987:128) deixa claro que nesse período os adolescentes são “assediados pela revolução fisiológica de sua maturação genital e a incerteza dos papéis adultos à sua frente (...).” Na visão de (ERIKSON, 1987) a adolescência vem a ser uma fase de questionamentos e dúvidas que permeiam sem cessar as mentes dos jovens em transformação, assim, é indiscutível a presença marcante dos pais neste contexto, todavia, existe a propensão ao afastamento entre ambos. Apesar deste.
(23) 23 distanciamento, a opinião dos pais permanece, seja ela como verdade indiscutível ou como plataforma sobre a qual cada um alcança seu vôo maior. Quando se encontram na fase da puberdade ou adolescência meninos e meninas passam pelos mesmos questionamentos e dúvidas sobre sua sexualidade, entretanto, a sociedade impõe a estes, caminhos diferentes. É preciso que eles compreendam que a sexualidade na relação homem-mulher deve ser bem estruturada, para tanto, a educação sexual deve estar relacionada à formação da personalidade, proporcionando bases sociais sólidas, seja para rapazes ou moças (ABERASTURY; KNOBEL, 1981). ABERASTURY, investigando as perturbações e os momentos de crises que ocorrem na adolescência encontrou a seguinte enunciação:. (...) a definição do papel feminino ou masculino na união e procriação e as mudanças corporais que acontecem durante este processo – aparecimento dos caracteres sexuais secundários – são o ponto de partida das mudanças psicológicas e de adaptação social que também o caracterizam (...). (ABERASTURY; KNOBEL, 1981: 63). Enfim, a sexualidade vem a ser uma premissa que diferencia homens e mulheres, entretanto, jamais os diminui, devendo ser este o entendimento que deve primar nas escolas e nas famílias, para que somente assim, os jovens possam assumir suas responsabilidades, inclusive com relação ao sexo, sem isentar-se pela condição de masculino ou feminino (ABERASTURY; KNOBEL, 1981).. 1.2.. Os riscos e oportunidades na adolescência. O Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF (2002) - define a adolescência como:. uma ‘janela de oportunidades’, [...] um período de rápido desenvolvimento para jovens em todos os aspectos – físico, emocional, psicológico, social e espiritual. Fora o período pré e neonatal, a adolescência é, de fato, a fase de mais rápido desenvolvimento humano. [...] Um tempo de crises e conflitos próprios, mas também de um imenso conjunto de possibilidades.
(24) 24 de mudanças e de questionamentos desenvolvimento de toda a sociedade.. fundamentais. para. o. Esta “janela de oportunidades” pode ser composta por quatro dimensões fundamentais que se constituem como a) uma oportunidade para o país na medida em que características normalmente percebidas como negativas na esfera microsocial (impulsividade, instabilidade de humor, intransigência com as opiniões diferentes das suas, seu desejo de extrapolar os limites, sua curiosidade face ao novo e ao inusitado, sua atração pelo que é arriscado, sua insegurança e necessidade de se afirmar, seu ímpeto de rebeldia, sua oposição à autoridade, seu espírito de aventura) podem ser entendidas positivamente como partes inerentes ao desenvolvimento de uma sociedade inovadora, criativa, na busca de novas relações, valores e atitudes. b) uma oportunidade para a família, pois tendo em vista que a família é a principal referência para 95% dos adolescentes (“A voz dos adolescentes”, UNICEF/Fator OM/2002), ao mesmo tempo em que aumenta o grau de responsabilidade dos pais é uma maneira de valorizar a unidade familiar e de torná-la melhor. Abre ainda um conjunto de oportunidades na esfera das políticas públicas, pois frente aos impactos negativos gerados pelas transformações micro e macro políticas sobre as famílias, “o desenvolvimento de políticas públicas para famílias, estruturadas a partir dos adolescentes, com sua participação ativa, tem se demonstrado um imenso campo de experiências positivas, gerando novas abordagens que apresentam resultados tanto do ponto de vista pessoal do adolescente quanto em relação aos demais membros” (UNICEF, 2004: 12-16). Além disso, é uma oportunidade para a construção de novas relações sociais no sentido de que as negociações grupais, respeito às diferenças, interesse pela diversidade de olhares e de pontos de vista, constantemente reforçadas no período da adolescência constituem-se em um forte exercício democrático. Talvez ainda não tenhamos conseguido adequar as políticas públicas ou o nosso foco não esteja sendo o mais adequado, visto que na maioria dos casos os adolescentes se envolvem em situações que não comprovam esta hipótese, o que torna mais ainda necessário atentar o foco das políticas para esta possibilidade..
(25) 25 Assim, entender a adolescência se faz extremamente necessário frente a todas estas dificuldades analíticas. Como enfrentar todos os problemas que envolvem a sociedade contemporânea em um grupo social (adolescentes) que vive em momento tão particular de sua vida e, sobretudo, em um momento de definições? A adolescência constitui uma fase de anseios e questionamentos que os jovens enfrentam, tanto pela busca da maturidade, quanto pelas transformações físicas e psicológicas expostas a condições sociais peculiares. Mas não se trata apenas de aspectos biológicos, é ainda um processo social complexo para todos os envolvidos (pais, educadores, amigos, parentes e mesmo os próprios adolescentes). Em algumas sociedades o processo de transição para a vida adulta é dado através de rituais bem delimitados, como a primeira menstruação (para as meninas) e por lutas e combates (para os meninos). Pode-se definir a passagem para a vida adulta, através de aspectos formais e legais, como é o caso da cultura ocidental que atribui responsabilidades adultas quando o jovem completa 18 ou 21 anos de idade (RODRIGUEZ, 2001) Na busca pela compreensão do período da adolescência se apresenta interessante observar o poder dos hormônios, conforme aponta Aberastury e Knobel:. A adolescência pode ser definida como uma fase evolutiva durante a qual o indivíduo estabelece sua identidade adulta. Atinge esta identidade através das seguintes elaborações: a) A elaboração básica é a internalização precoce dos objetos parentais e suas inter-relações; b) Verificação constante do ambiente social que o rodeia nesse momento de sua vida; c) Dissociações, projeções, introjeções e discriminações permanentes; e d) Desestruturações e estruturações rápidas e constantes (ABERASTURY; KNOBEL, 1981: 7).. Um indivíduo com o corpo na puberdade e a mente descobrindo o pensamento - este é o adolescente. Nessa idade, dois fatores ocorrem simultaneamente e ocupam quase todo o espaço psíquico: a descoberta da capacidade de pensar e a sexualidade focalizada nos genitais. Na puberdade, o corpo infantil se transforma num corpo adulto. Seu início não tem dia nem hora marcados. Pode começar aos oito anos apenas ou aos quinze, por exemplo. Cada pessoa tem o seu tempo e desenvolvem as diversas partes do.
(26) 26 organismo de forma individual e progressiva. Portanto, é quase impossível determinar com exatidão o início da puberdade. O importante é observar que as modificações corporais ocorrem gradualmente, passando por três estágios biológicos bem marcados: o pré-puberal, quando surgem as primeiras modificações corporais; o puberal, quando essas mudanças do organismo colocam em ação a capacidade reprodutiva, isto é, as meninas passam a amadurecer seus óvulos e os meninos, a produzir espermatozóides; e o pós-puberal, no qual os órgãos funcionam como num adulto e adquirem os caracteres sexuais secundários. Quando a criança entra na puberdade, uma série de alterações ativadas pela hipófise ocorre gradativamente no corpo. Localizada no cérebro, essa glândula é a responsável pela produção dos hormônios sexuais que colocam em atividade os ovários e os testículos. Na mulher, os principais são o estrógeno e a progesterona e, no homem, a testosterona. A primeira modificação aparente da puberdade é o aumento do tamanho dos seios, nas meninas, e o do pênis e dos testículos, nos meninos. Ambos crescem em altura, aumentam sua estrutura muscular, alteram o tom da voz e começam a apresentar pêlos nas axilas e ao redor dos órgãos sexuais. Nos rapazes surgirão, ainda, barba e bigode. Uma das características deste período é o aparecimento de acne (espinhas). Por ação dos hormônios, o organismo começa a fabricar uma quantidade maior de ácidos graxos (gordura), que favorece a formação de uma capa lubrificante na pele. Quando os hormônios sexuais atingem um nível específico, acontece o marco mais importante desta fase: a primeira menstruação para as garotas (menarca) e o início da produção de sêmen para os garotos (semenarca). Neste período repleto de transformações, os adolescentes costumam se dar conta, também, do principal atributo sexual, que é a capacidade orgásmica, isto é, a possibilidade de erotização e de obtenção de prazer através do sexo. Esta descoberta associada aos estímulos hormonais e à aquisição do pensamento abstrato, capacita o adolescente a especular e abstrair no campo da sexualidade. E, assim, ele percebe os impulsos sexuais, pratica atividades sexuais, como a.
(27) 27 masturbação e treina seu papel sexual, sonha com as pessoas-alvo de seu desejo e com o que lhe dá prazer, para, no futuro, usufruir a sexualidade de forma mais ampla e com a perspectiva de envolvimento amoroso. Segundo BOURGUIGNON (1990), foi a saída do nomadismo e a fixação do homem ao solo que propiciou a atual forma patriarcal de organização social com um domínio do homem sobre mulheres e crianças. Essa organização buscou diversas formas ideológicas de garantir a dominação, que variaram ao longo da história humana. O pensamento ocidental até o século XVIII era baseado no one-sex model, onde havia a referência de um único sexo, o do homem, do qual a mulher era uma mera inversão. Após o reconhecimento do gênero feminino como um referencial distinto, foi o homossexual que passou a assumir o lugar do homem invertido. A teoria do determinismo biológico, que buscava na anatomia e na fisiologia justificativas para as relações de poder vigentes, passou então a fundamentar os papéis de gênero na sociedade industrial moderna. COSTA (1989) vai mostrar como que os papéis do homem e da mulher foram reconstruídos no Brasil com a passagem da Colônia ao Império. Nesta época, era necessário consolidar a nova nação brasileira. Uma soberania nacional é apoiada em um tripé econômico, militar e cultural. Era necessário povoar o país de forma a garantir uma força de trabalho adequada e unificar a nação em torno do conceito de pátria. Nesta época, o movimento higienista estava promovendo uma drástica redução nas taxas de mortalidade, o que resultou em um crescimento populacional exponencial da humanidade. Com a autoridade de quem controla a morte , os higienistas forneceram o suporte ideológico para a construção dos novos papéis de gênero, combatendo as práticas vigentes no Colonialismo, como o casamento endógeno. A família, antes orientada para a garantir a propriedade, passou a ser instrumento de defesa do estado, através da proteção e conformação da prole. Agora unida por laços de amor, ela teria os recursos que o estado não dispunha para preparar tantas crianças para um mercado de trabalho em franca expansão. A sexualidade foi confinada ao casamento indissolúvel, que sobre a égide de garantir a reprodução sadia da espécie, foi moldando as relações em torno e dois valores: a pureza d'alma e o vigor do corpo. A sexualidade passou a ser valorizada, mas ninguém gozava impunemente; ela era delimitada pelo casamento, centrada na.
(28) 28 reprodução humana e responsável pela conformação da prole às necessidades da pátria. Da natureza fisicamente mais frágil da mulher inferia-se uma delicadeza que resultava num destino de amar; da força do homem induzia-se um vigor que o destinava à sensualidade. Ao mesmo tempo, dessa fragilidade da mulher induzia-se uma debilidade na sua constituição moral. A redução do amor ao amor conjugal reprodutivo convertia o homem na personagem do pai e a mulher na personagem da mãe. Para amenizar as contradições decorrentes foram construídas válvulas de escape: ao homem é oferecido o machismo – se ele deixou o papel de proprietário do patriarca para cuidar da propriedade dos outros, a ele é oferecida a propriedade sobre a mulher e os filhos. Com a crescente urbanização, a mulher sai da Casa Grande e gradativamente ganha o espaço das ruas. A ênfase na necessidade de amamentar refreia este movimento em direção ao espaço público e restringe a sexualidade feminina ao papel da mãe. O prazer de amamentar vai substituir o prazer genital, restrito às poucas ocasiões reprodutivas. Os conflitos femininos passam a ser descarregados através de crises nervosas, que as protegiam dos seus opressores e eram medicados pelos doutores; a mulher histérica é o contraponto do homem fálico. Mas é o próprio sucesso deste modelo voltado para a "proteção" da prole que vai levar à sua transformação. Na medida em que as nações se consolidam, o expansionismo advindo dos crescimentos exponenciais (populacional e industrial) vai gerar guerras que rompem essas condições de contorno oitocentistas. Com os homens na guerra, as mulheres saem de casa para trabalhar. A amamentação passa a ser desincentivada, a criação dos filhos extremamente regrada, e o cuidado terno e amoroso passa a ser considerado anticientífico apesar das crianças nas creches que seguiam estes preceitos morrerem em taxas que beiravam, quando não atingiam, os 100%!.
(29) 29 Freud (1976)5, introduziu novas formas de se entender a sexualidade que ainda hoje trazem seus desdobramentos. Ele vai romper com a visão do determinismo biológico, substituindo-a por um determinismo psíquico, onde a sexualidade é função da história do indivíduo, e portanto decorrente das condições culturais onde ela se desenrola. Essa reação ao biológico vai se acirrando ao longo de sua obra, e o próprio conceito de civilização é visto como fruto da necessidade de dominar a destrutividade inerente ao homem. A dicotomia entre natureza e cultura se torna exacerbada através da cisão entre o natural e o simbólico. Os estudos de REICH (1942) sobre as couraças caracterial e biofísica vão levar a um modelo utópico de sexualidade: o caráter genital; ao mesmo tempo em que mapeiam a quase totalidade dos seres humanos em um estado, muitas vezes disfarçado, de uma profunda miséria sexual. Suas análises sobre o Funcionalismo Orgonômico vão estabelecer hierarquias de funções na natureza que ao mesmo tempo em que se diversificam ao longo da história evolutiva, herdam as características das funções mais amplas que lhes deram origem. Mas neste quadro, a sexualidade não surge como uma mera especialização dos seres assexuados, mas como uma manifestação de uma função energética mais ampla que abrange todo o cosmos. O modelo de caráter genital fica restrito à equação sexual de um ato centrado em órgãos genitais heterocorporais como a forma de se chegar a abrangência da fusão e da função cósmica. O quanto isto era uma restrição dos paradigmas de sua época só vai se revelar mais tarde, com o questionamento de algumas ideologias então vigentes. Por outro lado, o caráter genital se revelou como um estado extremamente evasivo, um vislumbre sem permanência dos poucos que dele se aproximam, condenando os meros mortais à miséria sexual dos que não se genitalizam. Torna-se um mito, e como tal, tende a ser encarado como um modelo, sujeito a se tornar um instrumento de dominação. Passa a ser visto não como um espaço de possibilidades menos restrito que o caráter neurótico, mas como uma forma de ser. Ainda está imbuído de uma conceituação que ao longo da história tem se mostrado ideológica na boca dos dominadores: isto é que é o natural.. 5. O texto original de Freud é de 1905..
(30) 30 No início do século, a Teoria da Relatividade dá um golpe na noção de absoluto, que vai se repercutir na noção de verdade em todas as áreas do conhecimento. O paradigma determinista começa a ser questionado nos anos 20 a partir do Princípio de Indeterminação de Heisenberg, um dos resultados da Física Quântica. Mas é na segunda metade do século, com o surgimento da Teoria do Caos e dos estudos sobre a complexidade, que começa a haver uma real mudança paradigmática. A história perde a sua linearidade e se bifurca, a verdade deixa de ser única e proliferam as diversidades. Nos modelos de influência cultural oriundos das pesquisas antropológicas dos anos 20, a sexualidade é percebida como um material básico sobre a qual a cultura se desenrola, ao mesmo tempo em que a cultura vai formar os comportamentos e as atitudes sexuais. Sob este aspecto, eles rejeitam o essencialismo, mas por outro lado, a sexualidade é assumida como sendo universal e biologicamente determinada e permanece como uma categoria natural e inquestionável, que tem por núcleo a reprodução. Eles reconhecem a existência de atitudes que encorajam e restringem uma. variedade. de. comportamentos. sexuais,. mas. não. o. significado. do. comportamento em si. Na sociedade moderna, a entrada gradativa da mulher no espaço público foi tendo desdobramentos cumulativos de longo alcance durante várias décadas deste século. A prática feminista e os estudos decorrentes começaram a questionar o que era natural e separar sexualidade de gênero, principalmente a partir dos anos 70 e, no caso brasileiro, pouco tempo depois na década de 80.. As primeiras reivindicações explícitas por prerrogativas femininas no campo da reprodução e da sexualidade podem ser rastreadas, no Ocidente, a partir do século XVII (Corrêa e Petchesky, 1996). Contudo, os conceitos de direitos reprodutivos e sexuais são formulações marcadamente contemporâneas. (...)[Assim, o conceito de] ‘saúde da mulher’ surgiu como uma estratégia semântica para traduzir, em termos de debate público e propostas de políticas, o lema feminista da década de 1970: ‘Nosso corpo nos pertence’ (CORRÊA e ÁVILA, 2003: 19).. Em meados da década de 1970, a introdução de novos métodos contraceptivos também exerce papel fundamental no que se chamou de "revolução sexual”,.
(31) 31 alterando principalmente a ênfase no papel reprodutivo da mulher de modo que esta passou a assumir o controle desta esfera da vida familiar. Essa reestruturação de forças na vida cotidiana vai, juntamente com as mudanças na constituição indissolúvel do casamento, transformar a estrutura familiar de hierárquica para outra horizontal, muito embora ainda tenhamos muito para caminhar neste sentido. Enfim, foi nas décadas de 1960 e 1970 que o movimento feminista passou a denunciar o autoritarismo dos defensores do planejamento coercitivo da natalidade trazendo consigo uma série de reivindicações que passasse a incluir na agenda política uma postura integral da mulher enquanto agente social e não apenas o receptáculo da maternidade (CORRÊA e PETCHESKY, s/d). Surgem assim, novas concepções que possibilitam aos indivíduos um embasamento capaz de oferecer meios para o seu desenvolvimento. Neste. período. os. adolescentes. e. jovens. carregam. a. dificuldade. encontrada na transição entre a infância e a maturidade e se deparam, muitas vezes, com drogas e um comportamento sexual diverso a sua real identidade.. Nos países do Sul, assegurar os direitos sexuais e reprodutivos é inseparável da transformação de desigualdades, sejam elas relativas às relações de gênero, sejam elas de caráter macroeconômico.(...) A partir da compreensão da pobreza e da injustiça, estes grupos de mulheres desenvolveram um conceito ampliado dos direitos sexuais e reprodutivos, o qual não abrange somente a regulação da fertilidade, mas também a assistência materna, pré-natal e infantil; nutrição para mulheres e adolescentes; tratamento de infertilidade; fim dos abusos da esterilização e de outros esforços coercitivos de planejamento familiar; prevenção contra a mutilação genital feminina, a violência sexual e as doenças sexualmente transmissíveis (CORRÊA e PETCHESKY, s/d).. Como vimos, ocorre, em um curto período de tempo (final do século XX), uma alteração importante na correlação de forças sociais em torno do tema sexualidade. Em vista disso, a adolescência se torna um ponto de inflexão importante para a reprodução destas novas posturas sociais e de gênero na sociedade. Afinal, é sobre os adolescentes que recai uma grande parte da pressão social para não reproduzir os vícios sociais de.
(32) 32 dependência masculina e de manutenção do status feminino conquistado, mesmo que isso se dê de maneira inconsciente. Do ponto de vista do adolescente, ABERASTURY e KNOBEL (1981: 7), comentam que. entrar no mundo dos adultos – desejado e temido – significa para o adolescente a perda definitiva de sua condição de criança. É o momento crucial na vida do homem e constitui a etapa decisiva de um processo de desprendimento que começou com o nascimento. (...) As mudanças psicológicas que se produzem neste período, e que são a correlação de mudanças corporais, levam a uma nova relação com os pais e com o mundo. Isto só é possível quando se elabora, lenta e dolorosamente, o luto pelo corpo de criança, pela identidade infantil e pela relação com os pais da infância.. Neste período da adolescência ocorre um descobrimento do corpo e do mundo, Na adolescência propriamente dita, em torno dos quinze ou dezesseis anos, é que o adolescente está estruturado para lidar com o sexo oposto. É a considerada fase heterossexual. Contudo, segundo ERICKSON (1987), o amor adolescente é ainda uma tentativa de se chegar a uma definição da própria identidade. No início, eles gastam a maior parte do tempo junto conversando. Cada um está preso em si mesmo. Aos poucos, o relacionamento evolui para um processo de trocas em que ambos passam a poder inverter os papéis. Isto é, conseguem identificar como o outro sente, sem perder sua identidade sexual. Este é o ápice da aquisição da identidade e da possibilidade de manter um relacionamento heterossexual.. Em considerável medida, o amor adolescente é uma tentativa para se chegar a uma definição da identidade própria mediante a projeção de uma imagem difusa da própria pessoa numa outra, vendo-a assim refletida e gradualmente aclarada. É por isso que boa parte do amor jovem é conversação. (...) Os adolescentes não só se ajudam uns aos outros, temporariamente, no decorrer desse conturbado período, formando turmas e estereotipando-se a si próprios, aos seus ideais e aos seus inimigos, mas também testam, insistentemente, as capacidades mútuas para lealdades constantes, no meio de inevitáveis conflitos de valores. (ERIKSON, 1987: 133).
(33) 33 Enfim, frente a todos estes fatores que interpelam a construção da identidade do adolescente, podemos dizer que este é um dos grupos sociais mais vulneráveis dentro da sociedade complexa do final do século XX; tanto do ponto de vista individual como do ponto de vista social. Ou seja, considerando-os como um conjunto de oportunidades para o desenvolvimento social como um todo – como é o ponto de vista da UNICEF, devemos garantir que estes cheguem ao estágio adulto com melhores oportunidades e menos riscos. De certo modo, o exercício da sexualidade pode ser uma fonte de imenso prazer e de expressão de sentimentos profundos próprios do encontro amoroso, mas também pode ser uma fonte de graves transtornos na vida pessoal e social de um indivíduo. A presença da Aids e o aumento de gravidez na adolescência são fatos constatados e que reforçam a hipótese de que a desinformação, a repressão, o silêncio, o medo e outros sentimentos negativos parecem limitar as escolhas do adolescente, ante a vida sexual e reprodutiva, criando situações de difícil atuação para pais e profissionais de saúde que lidam com jovens. A gravidez na adolescência e a Aids são atualmente as grandes ameaças da vida sexual dos jovens, por suas conseqüências na saúde e no desenvolvimento pessoal e econômico. E mesmo que a gravidez na adolescência não possa ser sempre encarada como um ponto negativo na vida de uma adolescente, desde que se trate de uma escolha, continua sendo um problema social quando mudam as formas de atendimento médico-hospitalar e todo um conjunto de oportunidades sociais se fecham, já que na maioria dos casos não há instituições capazes de apoiar estas adolescentes em sua integralidade. Aqui reside o grande desafio de medidas preventivas de ação social. Não é apenas um posicionamento particularizado na esfera do indivíduo, mas também uma preocupação social que cresce cada vez mais com os dilemas e entraves econômicos que se impõe sobre todo o conjunto da sociedade e, sobretudo, nestas camadas mais jovens. Sobre as transformações psicológicas e físicas do adolescente Aberastury destaca que:.
(34) 34 Só quando a sua maturidade biológica está acompanhada por uma maturidade afetiva e intelectual, que lhe possibilite a entrada no mundo do adulto, estará munido de um sistema de valores, de uma ideologia que confronta com a de seu meio e onde a rejeição a determinadas situações cumpre-se numa crítica construtiva. Confronta suas teorias políticas e sociais e se posiciona, defendendo um ideal. Sua idéia de reforma do mundo se traduz em ação. Tem uma resposta às dificuldades e desordens da vida. Adquire teorias estéticas e éticas. (...) (ABERASTURY; KNOBEL, 1981: 15). 1.3.. Vulnerabilidade social e adolescência. O vocábulo “vulnerabilidade” tem sua origem na reflexão sobre os direitos humanos, indicando uma fragilização política e/ou jurídica das pessoas em decorrência de falhas na garantia dos seus direitos de cidadãos garantidos pela Constituição Federal. O conceito de vulnerabilidade encontra espaço a partir das discussões sobre a epidemia da Aids, enfocando uma nova visão acerca da maneira mais apropriada para lidar com o problema. Dois conceitos precederam o de vulnerabilidade neste caso, quais sejam: “grupo de risco” e “comportamento de risco”. O primeiro surgiu com o próprio Human Immunodeficiency Vírus (HIV) nos Estados Unidos e na França, no início da década de 80. Esses fatores sofreram um “deslocamento discursivo” impulsionado pela grande mídia, na qual o fator de risco adquiriu propriedades conceituais de grupo de risco composto pelo segmento e/ou grupos sociais (homossexuais, usuários de drogas, hemofílicos e trabalhadores do sexo). Tal conceito gerou conseqüências negativas como estigmatização e discriminação, tanto no âmbito social quanto em termos de políticas públicas. Para Ayres (1996, p. 18) a noção de vulnerabilidade ultrapassa a forma de se entender a contaminação pelo HIV, uma vez que redimensiona os fatores determinantes de suscetibilidade à infecção e explica:. A noção de vulnerabilidade (explorada nos EUA) busca estabelecer uma “síntese conceitual e prática das dimensões sociais, político – institucionais e comportamentais associadas às diferentes suscetibilidades de indivíduos, grupos populacionais e até mesmo nações à infecção pelo HIV e às suas conseqüências indesejáveis (doença e morte)”..
(35) 35 É possível observar uma crescente conscientização sobre a prevenção da Aids por parte das pessoas que já foram taxadas como pertencentes ao “grupo de risco”, por outro lado, pode-se visualizar um aumento da contaminação entre os desavisados, ou seja, aqueles que estão alheios ao problema pela carência de informação e conhecimento, gerados pela falta de interesse. Por dedução lógica, pode-se dizer que todos os indivíduos que não se previnem estão expostos à contaminação pelo vírus HIV. Sobre essa matéria Ayres (1996, p. 18) esclarece que esta. visa não à distinção daqueles que têm alguma chance de se expor à Aids, mas sim ao fornecimento de elementos para avaliar objetivamente as diferentes chances que todo e qualquer indivíduo tem de se contaminar, dado o conjunto formado por certas características individuais e sociais de seu cotidiano, julgadas relevantes para a maior exposição ou menor chance de proteção diante do problema.. Existem fatores descritos na literatura, sobre a vulnerabilidade, capazes de descrever com clareza a suscetibilidade à contaminação. Esses fatores dizem respeito ao indivíduo, seu comportamento, as condições em que ocorre tal comportamento, o grau de consciência sobre esse comportamento e o poder de transformação de comportamento ocorrido a partir dessa consciência. Ou seja, o conceito de vulnerabilidade permite dar conta das características multidimensionais que envolvem o risco de se contrair DST’s/Aids e, embora ainda careçam de algum refinamento teórico, parecem dar conta das interfaces sociais e não apenas aquelas ligadas aos aspectos individuais e utilitaristas da questão. Em uma pesquisa desenvolvida pela UNAIDS (2000, p. 93) junto a crianças e jovens, foi possível obter as seguintes informações relevantes para o enriquecimento do tema em discussão:. [...] Fatores que aumentam a vulnerabilidade incluem pobreza, violência, falta de habilidades, e normas sociais prejudiciais, tais como o machismo e o início prematuro da vida sexual (freqüentemente forçado, explorado e perigoso). Altas taxas de gravidez e doenças sexualmente transmissíveis, entre adolescentes, indicam altos níveis de sexo não seguro..
(36) 36 A vulnerabilidade se apresenta muito mais complexa do que os trágicos casos registrados de crianças de rua e órfãos, cujas estimativas apuradas pela UNAIDS (2000, p. 93) serão de 40 milhões no ano de 2010. A vulnerabilidade, sob o enfoque do plano social, pode ainda ser avaliada sob aspectos como o acesso à informação, quantidade de recursos destinados à saúde por intermédio das autoridades e legislação local, aspectos sociopolíticos e culturais, liberdade de expressão, condição de bem-estar social, acesso e qualidade dos serviços de saúde, comportamentos de indicadores epidemiológicos como coeficiente de mortalidade infantil e grau de prioridade política dada à saúde. No plano programático a vulnerabilidade é compreendida por inúmeros aspectos, tais como: compromisso das autoridades locais com o enfrentamento do problema,. ações. interinstitucional. efetivamente e. intersocial. propostas (saúde,. por. estas. educação,. autoridades,. trabalho,. entre. coalizão outros),. planejamento das ações, gerenciamento adequado e estável dos programas propostos, continuidade dos programas, avaliação e retro-alimentação dos programas. Muitas são as pesquisas, reflexões e estatísticas acerca da DST/Aids que revelam a vulnerabilidade dos adolescentes, por isso, a importância da escola em participar ativamente na prevenção por meio da vivência da cidadania. A partir do entendimento de Ayres (2000, p. 24) é possível verificar que:. [...] o trabalho preventivo não se resume apenas a passar informação, a informação técnica pura e simples, mas procura justamente contribuir para tornar as pessoas mais capazes de identificar suas próprias necessidades e ter possibilidades efetivas de dispor do conhecimento na forma em que elas quiserem e puderem usar para defender a si e aos outros da epidemia.. Professores e alunos devem refletir sobre as informações recebidas acerca da DST/Aids, assim como os problemas que geram a impotência diante do desejo de ter uma vida mais digna. São idos os tempos em que o relacionamento entre professor e aluno se distanciava por um abismo hierárquico que, se por um lado tem sido um ponto desfavorável no que diz respeito à valorização do profissional da educação, por outro pode se tornar, ao ser usada, uma ferramenta poderosa na.
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