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ANA RITA RIBEIRO
Licenciada
DISSERTAÇÃO DE NATUREZA CIENTÍFICA
para a obtenção do Grau de Mestre em Arquitetura
ORIENTAÇÃO CIENTÍFICA
Professor Doutor José Luís Mourato Crespo
JÚRI
Presidente: Professora Doutora Maria Teresa Salgueiro Vasconcelos e Sá
Vogal: Professor Doutor Hugo José Abranches Teixeira Lopes Farias
Vogal: Professor Doutor José Luís Mourato Crespo
Documento Definitivo
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SISTEMAS FLEXÍVEIS EM ESPAÇOS DE HABITAR
O caso das Vilas e Pátios em Lisboa Oriental
ANA RITA RIBEIRO
DISSERTAÇÃO DE NATUREZA CIENTÍFICA
para a obtenção do Grau de Mestre em ArquiteturaORIENTAÇÃO CIENTÍFICA
Professor Doutor José Luís Mourato Crespo
JÚRI
Presidente: Professora Doutora Maria Teresa Salgueiro Vasconcelos e Sá
Vogal: Professor Doutor Hugo José Abranches Teixeira Lopes Farias
Vogal: Professor Doutor José Luís Mourato Crespo
Lisboa, FA ULisboa, Dezembro de 2018
PALAVRAS-CHAVE
RESUMO
A compreensão dos espaços de habitar a partir do conceito fenomenológico ou social, propõe uma reflexão sobre os espaços que se metamorfoseiam em consonância com os seus mediadores. As temáticas que englobam sistemas flexíveis em espaços de habitar vem correlacionar formas de intervir na habitação, observando as caraterísticas para quem se destina, promovendo soluções evolutivas.
Das estratégias que visam superar as transformações que ocorrem nos espaços de habitar, emerge a problemática dos novos tipos de família e agregados, decorrentes de novos modos de viver como um impacte da modernização. Neste âmbito, empreende-se uma revisão que vai desde a evolução da família à sua diversificação, e aos novos modos de habitar. Da família ou não-família como um novo agregado da sociedade contemporânea, é proposto que a habitação congregue soluções heterogéneas.
Do direito à heterogeneidade na habitação empreende-se a investigação pelos conceitos de flexibilidade, habitação evolutiva e progressiva como formas potenciais de aproximarem o habitante ao espaço de habitar, sem fragilizar a noção mais primária de abrigo.
Neste enquadramento, as Vilas e Pátios como conjunto de habitação com morfologia muito particular, oferecem-se como território de implementação dos pressupostos que se aprofundam num tecido urbano pós-industrial, pouco consolidado, fragmentado, expectante e com muito potencial de requalificação.
FLEXIBLE SYSTEMS IN HOUSING
The case of the Vilas and Patios in Eastern Lisbon
ANA RITA RIBEIRO
DISSERTATION OF SCIENTIFIC NATURE
to obtain the Master's Degree in ArchitectureSCIENTIFIC ORIENTATION
Professor Doctor José Luís Mourato Crespo
JURY
President: Professor Doctor Maria Teresa Salgueiro Vasconcelos e Sá
Vowel: Professor Doctor Hugo José Abranches Teixeira Lopes Farias
Vowel: Professor Doctor José Luís Mourato Crespo
Lisbon, FA ULisboa, December 2018
KEYWORDS
ABSTRACT
Understanding the spaces to inhabit from the phenomenological or social concept, it proposes a reflection on the spaces that metamorphose in consonance with its mediators.
The themes that include flexible systems in spaces of living comes correlate ways to intervene in housing, observing the characteristics for whom it is intended, promoting evolutionary solutions.
From the strategies that aim to overcome the transformations that occur in the living spaces, the problem of new types of families and households emerges, arising from new ways of living as an impact of modernization.
In this context, a review is undertaken that goes from the evolution of the family to its diversification, and to the new ways of living. From the family or non-family as a new aggregate of contemporary society, it is proposed that housing bring heterogeneous solutions.
From the right to heterogeneity in housing, research is undertaken through the concepts of flexibility, progressive and incremental housing as potential ways of bringing the inhabitant into the living space, without weakening the more primary notion of shelter.
In this context, the Vilas and Pátios as a set of housing with a very particular morphology, offer as a territory of implementation of the assumptions that are deepened in a post-industrial urban fabric, poorly consolidated, fragmented, expectant and very potential for requalification.
AGRADECIMENTOS
Ao meu Orientador
Professor José Luís Mourato Crespo pela perseverança e confiança no empreendimento desta investigação, com crítica e orientação a novos caminhos.
Ao João e Helena
Um agradecimento muito especial pela generosidade e compreensão ao me emprestarem a esta demanda.
Aos meus Pais
Gratidão por direta ou indiretamente corroborarem este percurso. Aos amigos
ÍNDICE
Resumo V
Abstract VII
Agradecimentos IX
Índice XI
Índice de Figuras XII
1. INTRODUÇÃO 1
1.1. Tema e Justificação 3
1.2. Vilas e Pátios em Lisboa Oriental 4 1.3. Objetivos, Questões e Hipóteses 5 1.4. Metodologia e Estrutura da Dissertação 7
2. MODOS DE HABITAR 9
2.1. Do Habitar 23
2.2. Novos Modos de Habitar 26
2.3. Dimensionamento na Habitação Mínima 35
3. ESTRATÉGIAS EM ESPAÇOS DE HABITAR 41
3.1. Flexibilidade nos Espaços de Habitar 43 3.2. Habitação Evolutiva nos Modos de Habitar 49 3.3. Estratégias de Habitação Progressiva 59
4. PROJETOS DE REFERÊNCIA 67
4.1. Projeto PREVI | Habitação Experimental 69 4.2. Projeto ELEMENTAL | Habitação Progressiva 77 4.3. Projeto SAAL | Habitação Participada 83 4.4. Projeto GARCES OF SETA BONET | Reconversão da indústria para habitação 93
5. CASO DE ESTUDO: VILAS E PÁTIOS EM LISBOA ORIENTAL 97
5.1. Da Indústria ao Território 100 5.2. Modos de Vida em Lisboa Oriental 105 5.3. Vilas e Pátios em Lisboa Oriental 119 5.4. Estratégias de Requalificação 145
6. CONCLUSÃO 157
ÍNDICE DE FIGURAS
1. Planta e Vista do Falanstério ... 14
2. Planta e Secção esquemática do Falanstério ... 14
3. Planta e Secção de Familistério de Goudin | 1856 ... 16
4. Diagrama das associações das crianças numa rua ... 22
5. Diagrama de uma rua indicando as zonas de contato ... 22
6. Diagrama de associação involuntária/voluntária ... 22
7. Diagrama Shared room ... 28
8. Barriadas, Lima | 1963 ... 52
9. Desenho urbano aberto - Bairro-Cidade, PREVI, 1970 ... 52
10. Operações de Evolução - Núcleo Subdivisível e Expansível | Relatório Habitação Evolutiva, 1972 ... 54
11. Organização interna fogo | Tipos de lote-Relatório Habitação Evolutiva 1972 56 12. Exemplos de Evolução de Lote Estreito | Relatório Habitação Evolutiva ... 58
13. Evolução do projeto | Guacamayas, Bogotá, Colômbia | 1976-1977) ... 63
14. Guacamayas, Bogotá, Colômbia | 2009 ... 63
15. Evolução do Projeto | Navagampura, Colombo, Sri Lanka | 1986-1988 ... 64
16. Navagampura, Colombo, Sri Lanka | 2009 ... 64
17. Evolução do Projeto | Chinagudali, Visakhapatnam, ìndia | 1988 ... 65
18. Chinagudali, Visakhapatnam, ìndia | 2009 ... 65
19. Lima | Peru | Charles Correa ... 68
20. Planta Projeto PREVI | Equipas Arquitetos Participantes ... 72
21. Colagem de tipologias de construção | Sistema pedonal de praças e passagens | Veículo rodoviário e de estacionamento ... 72
22. Colagem de tipologias de construção | Sistema pedonal de praças e passagens | Veículo rodoviário e de estacionamento ... 72
23. Planta Projeto PREVI | Etapas evolutivas ... 74
24. Projeto PREVI original e modificações pelo habitante | James Stirling | 1978 . 76 25. Imagens Quinta Monroy | Após obra e Após apropriação... 78
26. Plantas Quinta Monroy | Três níveis ... 80
27. Processo de autoconstrução ... 84
28. Despacho fundador do Serviço de Apoio Ambulatório Local | 1974 ... 88
29. Projeto de reconversão da indústria para habitação | 29 habitações não convencionais | Poblenou, Barcelona | 2009 ... 92
30. Vista interior 29 habitações não convencionais | Poblenou, Barcelona, 2009 . 94 31. Vista exterior 29 habitações não convencionais | Poblenou, Barcelona, 2009 94 32. Praia de Xabregas | Lisboa | Agosto de 1940 ... 104
33. Pátio interior do Pátio do Colégio | Marvila | 2010 ... 110
34. Lugares marcados na Vila Flamiano | Marvila | 2010 ... 110
35. Vila no Beco dos Toucinheiros| Marvila | 2011 ... 110
37. Cinema Popular | Rua Direita de Marvila | 1972 ... 112
38. Chafariz da Vila Dias | Beato | 1954 ... 114
39. Interior do lavadouro da Rua Gualdim Pais | Beato | Década de 1960 ... 114
40. Lactário da Alameda do Beato | 2008 ... 116
41. Obras (possivelmente) reconstrução do lactário da Alameda do Beato | SD. 116 42. Vila Dias | Composição apoiada no rectângulo √2. ... 122
43. Vila formando correnteza ... 126
44. Vila formando pátio ... 126
45. Vila atrás de prédio ... 126
46. Vila formando bloco ou chalet ... 126
47. Vila formando rua ... 128
48. Vila de escala urbana ... 128
49. Imagem do edifício da Rua do Açúcar, Rua Pereira Henriques e vista do corredor de distribuição | Vila Pereira | 2018 ... 130
50. Vila Pereira. Imagem das chaminés na Rua do Açúcar e Planta aerofotogramétrica | Vila Pereira ... 130
51. Diagrama Vila Pereira | programa organizacional... 132
52. Planta Vila Pereira | programa existente ... 132
53. Imagem edifício tipo nº 2 e Planta aerofotogramétrica | Vila Flamiano ... 134
54. Imagens da fachada e marcação de lugares no território | Vila Flamiano ... 134
55. Imagens do pátio e sinais de apropriação do exterior | Vila Flamiano ... 134
56. Diagrama Vila Flamiano | programa organizacional ... 136
57. Planta Vila Flamiano | programa existente ... 136
58. Planta aerofotogramétrica | Vila Dias ... 138
59. Imagens do quotidiano na Vila Dias | Alberto Carlos Lima | início século XX 138 60. Imagem da apropriação do exterior | Vila Dias | 2018 ... 138
61. Diagrama Vila Dias | programa organizacional ... 140
62. Planta Vila Dias | programa existente ... 140
63. Habitação operária degradada | Parte sem patrimonial ou condições de reabilitação | Vila Dias | 2009 ... 142
64. Áreas degradadas e coesão socioterritorial | Coberturas Vila Dias ... 142
65. Visualização tridimensional e Vista atual da Vila Dias ... 146
66. Diagrama Vila Pereira... 152
67. Diagrama Vila Flamiano ... 152
68. Diagrama Vila Dias ... 152
69. Planta Vila Pereira | circulação existente ... 154
70. Planta Vila Flamiano | circulação existente ... 154
71. Planta Vila Dias | circulação existente ... 154
72. Planta Vila Pereira | circulação proposta ... 155
73. Planta Vila Flamiano | circulação proposta ... 155
1.1. TEMA E JUSTIFICAÇÃO
A introdução ao tema dos espaços de habitar, a partir da premissa da flexibilidade propõe uma reflexão sobre as novas formas de habitar e as suas necessidades intrínsecas.
A habitação como espaço primordial de relações entre a unidade família, mais ou menos convencional, introduz um interesse pela compreensão das distintas formas de apropriação que os seus interlocutores introduzem neste espaço. As diferentes necessidades dos utilizadores podem promover a sua participação na organização dos espaços de habitar, e esta intercessão entre o espaço-existente e o espaço-apropriado remete para a necessidade de uma resposta flexível.
Reunir exemplos de habitação flexível, a partir de conceitos de flexibilidade passiva como neutra e estabilizadora espacial, ou flexibilidade ativa como dinâmica e que introduz alterações físicas ao espaço é um dos motes da presente investigação.
Enquadrando a temática no âmbito das diferentes formas de habitar, que o caso das Vilas e Pátios em Lisboa Oriental apresenta, empreende-se a investigação no território das habitações para o operariado em contexto industrial.
A Revolução Industrial e a migração da população para os polos urbanos fabris, promoveu a massificação da habitação, em condições pouco planeadas. O desenvolvimento ocidental dos sistemas flexíveis de habitação introduz a redução ao espaço mínimo útil da habitação, que a Revolução Industrial veio impor como uma necessidade de rentabilização da área de habitar.
O caso de estudo das Vilas e Pátios em Lisboa Oriental como território frutífero de exemplos com soluções mais ou menos insalubres, mas de curiosa adequação às necessidades prementes, revela-se de interesse para esta investigação.
Da compreensão destes conceitos à proposta de respostas de sistemas flexíveis em espaços pré-existentes com as características de unidade mínima, em Vilas e Pátios, é a pretensão deste trabalho.
1.2. VILAS E PÁTIOS EM LISBOA ORIENTAL
O objeto de estudo das Vilas e Pátios em Lisboa Oriental propõe refletir sobre as características formais destas unidades, como espaços coletivos que evoluíram condicionados ao enquadramento urbano, económico e social em que se inserem.
Da análise de conjunto às unidades independentes, as Vilas e Pátios apresentam-se como exemplos de pré-existências com maior ou menor intervenção pelos habitantes. Neste âmbito, embora se refira a tipologia e morfologia dos Pátios, a investigação não desenvolve estes tipos mas antes os introduz como precedentes aos tipos Vilas. Interessa portanto enquadrar estes conjuntos que embora menos planeados, se propõem à resolução da mesma problemática de falta de habitação e que são reveladores da necessidade de programas adequados e salubres que as Vilas vêm tentar colmatar.
A apropriação dos espaços privados pelos utilizadores, que se prolongam na maior parte dos exemplos para o espaço público, é reveladora do seu nível de flexibilidade e das estratégias a que os mesmos recorrem para adaptar às necessidades do agregado familiar.
As ações de alteração dos limites do espaço e do programa habitacional das unidades, são portanto tema de investigação e mote para enquadrar estes tipos de intervenção. A partir da compreensão destas ações, como registo de intervenções vernaculares dos habitantes, empreende-se na intenção em definir um conjunto de estratégias de aplicação de sistemas flexíveis em unidades de habitar.
O trabalho que se apresenta assenta assim no mote de requalificar conjuntos pré-existentes, com as caraterísticas de habitação coletiva em unidades como as Vilas e Pátios, fundamentada a partir dos conceitos de dimensionamento, flexibilidade e habitação evolutiva.
Estabelecido o fundamento conceptual, a proposta visa apresentar estratégias de intervenção nas Vilas e Pátios, introduzindo sistemas de controlo do espaço mínimo – dimensionamento, estratégias de modelação do espaço interior – flexibilidade e estratégias de ampliação – habitação evolutiva.
Estas ações definem um conjunto de pressupostos comuns a estes conjuntos habitacionais, balizando um nível de adaptação distinto para cada caso, mas que proponha uma resposta de conjunto coerente aos tipos de unidade.
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1.3. OBJETIVOS, QUESTÕES E HIPÓTESES
A proposta de reflexão sobre a casa e a família contemporânea vem sugerir a promoção de espaços de habitar com um carácter flexível e evolutivo, como resposta a um problema.
O primeiro objetivo introduz a problemática do tema do habitar e enquadra-se na pretensão em questionar o que é o habitar na sua relação com o homem nas dimensões física, psicológica e social, como mote de resposta às suas necessidades.
A questão primária incide sobre se a habitação como resposta primitiva de abrigo responde às necessidades do homem, em que mais do que as suas necessidades primárias urgem os fatores sociais e culturais.
O modo de construir o habitar segundo as dimensões humanas e matérias do lugar de pertença do homem, transpõe-nos para a questão da arquitetura vernacular como resultado de longos processos de constante assimilação e reposição da experiência do construir de modelos consolidados.
Construir como significado do Habitar, é uma resposta que contemporaneamente não é impercetível de encontrar na arquitetura. Ao longo da história, a habitação evoluiu até à criação de uma disciplina projetual - a Arquitetura da Habitação.
Como hipótese de que a habitação como um produto em série não se adequa a todas as pessoas e acaba por não responder às suas necessidades, pode demonstrar ser necessário adequar as habitações a quem vai utilizar os espaços.
Da evolução da família à evolução do espaço de habitar pretendeu-se apontar soluções que respondam aos novos de vida e à relação espaço-tempo que estes modos promovem.
Deste ponto de partida, a questão que se colocou foi se os novos modos de vida poderiam condicionar as transformações ao nível dos espaços de habitar. Como hipótese, apresenta-se que a habitação não acompanha as mudanças ao nível dos novos tipos de residencialidade e pode revelar a necessidade de novas estratégias.
Assim, a partir da premissa que o conceito de flexibilidade está associado a uma maior polivalência e versatilidade do espaço habitado, propõe-se criar sistemas
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de recuperação flexíveis que possam responder à necessidade de adequação aos habitantes.
Desta necessidade, questiona-se de que modo o espaço de habitar flexível e evolutivo promove a sua apropriação pelo interveniente, mais ou menos consistente com o projeto inicial.
Como hipótese, pretende-se aferir se as soluções evolutivas poderão responder à variabilidade dos intervenientes.
Outro objetivo propõe entender a apropriação como um processo de intervenção vernacular sobre um espaço, que o transforma e o personaliza, que se exprime por um estilo de ocupação próprio de um indivíduo ou grupo. Deste modo, como pode o processo inferir um sentido de responsabilidade partilhada ou de apropriação positiva. E se apropriação do lugar pode contribuir para o aumento da auto-estima pelo espaço em que se insere a habitação. A hipótese que se pretende verificar remete para se a implicação direta das pessoas na construção das suas próprias casas poderá promover uma pertença ao espaço de habitar.
Por último, e embora este seja um processo de investigação dinâmico, propõe-se estudar as formas de habitar num território pós-industrial fragmentado, como nas Vilas e Pátios em Lisboa a oriente, aprofundando com pormenor três exemplos de Vilas.
O território em Lisboa Oriental oferece um conjunto de edificados, enquadrados junto a estruturas fabris ou inseridos nos mesmos edifícios, que serviam de habitação aos operários da indústria aí implantada.
A questão colocada remete para se estes conjuntos revelam diferentes formas de habitar, pelo próprio programa das habitações, ou pelas suas apropriações espontâneas dos habitantes.
Como hipótese considera-se aferir se estes conjuntos poderão servir para implementar soluções flexíveis a partir da análise prévia que permitam a personalização dos espaços de habitar.
1.4. METODOLOGIA E ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO
O processo de investigação que sustenta a presente dissertação assenta numa metodologia que enquadra diversas técnicas e métodos de recolha e análise da informação, a partir do Estudo de Caso, com uma abordagem qualitativa. A mobilização destas técnicas visa compreender e aprofundar as temáticas que remetem para os espaços de habitar, desde os modos e estratégias que dinamizem esta experiência, num contexto de conjuntos habitacionais pré-existentes.
A fase primordial da recolha e análise bibliográfica a partir da definição prévia das temáticas que se empreende aprofundar, propõe uma recensão de vasta informação que deve ser triada no âmbito do foco que se pretende alcançar, visando a consolidação da estrutura de investigação.
Sobre os Modos de Habitar, a definição de conceitos transversais ao Habitar e aos novos modos de apropriação dos espaços de habitar, que as transformações da sociedade requerem mas que os suportes arquitetónicos não conseguem inferir em graus de liberdade e elasticidade, remete-se para a temática do dimensionamento na habitação mínima.
Desta fase de definição de conceitos e revisão bibliográfica, introduzem-se conceções que propõem soluções descritas a partir das problemáticas identificadas no primeiro momento.
As Estratégias em Espaços de Habitar sugerem a revisão extensiva sobre soluções que promovam a implementação de interfaces, a partir dos conceitos de flexibilidade, habitação evolutiva e progressiva.
Outro momento da investigação, enquadrando os conceitos que sustentam a temática do trabalho consiste na recolha e análise de Projetos de Referência nacionais e internacionais. Neste âmbito, propôs-se a revisão bibliográfica e análise de quatro projetos que contribuem para a construção do caso de estudo. Os quatro projetos de referência enquadram três casos internacionais em territórios distintos do caso de estudo, mas que expõem metodologias e estratégias de valor para o desenvolvimento do trabalho.
Da definição do lugar de intervenção com observação direta, incidiu-se na recolha e análise documental a partir de cartografia, vídeos e outros registos e conversas com residentes.
Da recolha empreendida, entendeu-se que a indústria como território suporte para este trabalho no Caminho do Oriente estava bem documentado, assim como os modos de vida e de apropriações no território. Quanto à análise de
planos, programas e projetos confrontou-se a investigação com lacunas documentais que sustentem graficamente as pré-existências.
No entanto, esta falta de informação de peças desenhadas que documentem estas tipologias de Vilas, foi um dos motes para aprofundar um território pouco consolidado e trabalhado, por comparação por outros territórios que também incorporam tipos - Vilas.
Do caso de estudo das Vilas e Pátios em Lisboa Oriental, o trabalho focou-se nas Vilas a partir de três modelos existentes, com a definição de pontos de partida que conduzam a uma metodologia de implementação de estratégias de requalificação em espaços de habitar.
2. MODOS DE HABITAR
A compreensão do habitar a partir do conceito fenomenológico, social ou cultural propõe uma reflexão sobre um espaço que se metamorfoseia à medida dos seus interlocutores.
Do habitar aos novos modos de habitar empreende-se uma revisão que vai desde a evolução da família à evolução da casa. Nesta recensão à volta do tema sobre as transformações nos espaços de habitar, correlaciona-se esta problemática com os novos tipos de famílias e agregados que surgem na sociedade atual, decorrentes de variados impactes da modernização e dos tipos de vida. Aborda-se também a forma como estes novos tipos de viver e habitar, se relacionam com a diversificação da família ou de um novo tipo descrito como
não-família. E assim se enquadram as novas formas de monoresidencialidade
e coabitação que podem servir como suporte para novas abordagens à habitação.
O dimensionamento na habitação promove uma cronologia evolutiva dos espaços mínimos mas também uma observação às dimensões psicológica e social, que vai além das relações físicas de e no espaço.
OWEN E O MOVIMENTO COOPERATIVO INGLÊS
A problemática da habitação no contexto da Industrialização massiva que ocorreu entre os séculos XIX e XX é o âmbito da investigação, que se empreende na compreensão das primeiras abordagens e respostas à migração de população e à sua procura de habitação.
A revisão que se propõe das primeiras respostas à problemática de habitação vão de Robert Owen (1771-1858) e o movimento cooperativo inglês e as suas implicações urbanas, às áreas mínimas e a contribuição de Gropius para a
Urbanística Moderna.
Segundo Benevolo (1994), Robert Owen (1771-1858) terá iniciado a sua atividade laboral precocemente aos dez anos, e aos dezoito anos abriu uma pequena indústria de grande sucesso, que lhe permitiu adquirir em sociedade as fiações New Lanark na Escócia, em 1799.
Membro da Sociedade Literária e Filosófica de Manchester desde 1793 terá contactado com os ensinamentos de Thomas Spence (1750-1814), um dos filósofos mais radicais. No entanto, para Benevolo (1994: 51), a experiência de vida como trabalhador e posteriormente como industrial, destacam a abordagem de Owen, conforme refere:
“(…) são as condições ambientais que determinam de modo preponderante a sorte dos indivíduos. (…) é pois necessário partir do ambiente, que deve ser reconstruído ao serviço do homem antes do ambiente, que deve ser reconstruído ao serviço do homem antes de se pensar em qualquer vantagem económica, individual ou coletiva.”.
Com a aplicação direta nas Fiações New Lanark, Owen introduz uma série de melhoramentos no tratamento dos operários e empreende uma iniciática ação filantrópica para os filhos de quem habita a Instituição, e mais tarde a qualquer agregado em Lanark, com a intenção de ser generalizada.
Como consequência de uma enorme capacidade de força operante e o aumento de força mecânica, a primeira foi sobejamente suprimida promovendo um novo problema humanista na classe operária.
Assim, Owen propõe a adequação de um emprego favorável a todos os trabalhadores, subordinando o trabalho mecânico como única opção a uma inevitável reformulação da ação industrial, e permitindo a continuação da evolução mecânica.
A ESCOLA
SAINT-SIMONIANA
Estabelecendo esta premissa política, Owen desenvolve um plano que prioriza o ensino para os filhos dos trabalhadores e um trabalho apropriado aos adultos (Benevolo, 1994: 54).
A ideia de atribuição destes benefícios propõe que seja aplicado num agregado para uma média de 1200 pessoas, sem ser concedido a indivíduos ou a famílias muito numerosas. O aldeamento suficiente para 1200 pessoas, em cerca de 1000 a 1500 acres1, distribuía-se num quadrado onde se situavam os edifícios públicos ao centro e na envolvente os alojamentos para as famílias.
A distribuição das construções periféricas era atribuído segundo uma organização, em que conforme Benevolo (1994: 55):
“(…) três lados das construções periféricas são destinados às casas, sobretudo para as pessoas casadas (…). O quarto lado é reservado ao dormitório de todas as crianças que excedam o número de duas por família ou tenham mais de três anos.(…). Pressupõe-se que as crianças com mais de três anos vão à escola, tomam as refeições e dormem em comum.”.
A circundar as casas a tardoz, hortas-jardins rodeadas por ruas asseguram o bom ambiente na vida das famílias, e a fábrica localiza-se geograficamente afastada deste conjunto para não o poluir.
A proposta de Owen assenta numa Teoria dos Paralelogramos em que cada paralelograma correspondia a um aldeamento. Estes distribuíam-se pelo território e interconectavam-se por estradas, criando uma rede de estruturas autossuficientes.
Este modelo de Owen é descrito por Benevolo (1994) como o primeiro plano urbanístico moderno desenvolvido em cada uma das suas partes, desde as premissas político-financeiras ao programa de construção e ao orçamento financeiro.
O Conde de Saint-Simon (1760-1825), à semelhança de Owen e Fourier, tem formação anterior à Revolução de 1789 estando envolvido nos primeiros momentos do movimento.
1 Cerca de 404,69 / 607,03 hectares.
FOURIER E A SUA INFLUÊNCIA NA EUROPA E AMÉRICA
A sua teoria social, sobre o lugar dos industriels2 na sociedade, introduz uma
nova conceção de pensamento e as suas ações influenciaram a Reforma do Socialismo Francês. O princípio apoiava-se nas bases sociais com o objetivo de promover os operários aos lugares de comando, depondo as antigas classes dirigentes.
No entanto, a escola saint-simoniana não abordou o território urbanístico com rigor mas deixou um legado do valor das obras públicas, que vieram a assumir grande importância à posteriori.
Charles Fourier (1772-1837) propõe um sistema filosófico-político diferenciado dos saint-simonianos, conforme descreve Benevolo (1994: 65), sendo “(…)
autor de uma meticulosa e exacta utopia.”.
O sistema descrito no tratado Théorie des Quatres Mouvements de 1808, imoraliza uma sociedade que se baseia na competição individual ou de classe, e apresenta a união de esforços como alternativa para alcançar um estado de harmonia universal.
Segundo a sua teoria, para Fourier esta harmonia deve ocorrer gradualmente através de sete períodos históricos, sendo que a humanidade se encontra na transição entre o quarto – barbárie - e o quinto – civilização – período.
A proposta de uma cidade numa ordem minuciosa encontra-se no sexto período, que se organiza em três cinturas, refere Benevolo (1994: 66):
“(…) a primeira contendo a cité ou cidade central, a segunda contendo os subúrbios e as grandes fábricas, a terceira contendo as avenues e a periferia. (…) As três zonas são separadas por cercas, sebes e plantações que não devem obstruir a visibilidade.”.
1. Planta e Vista do Falanstério
Fonte: http://www.historia.uff.br/nec/sites/default/files/Fourier.pdf. Consultado em [setembro. 2017]
2. Planta e Secção esquemática do Falanstério Fonte: Benevolo (1994: 69)
(1) sótão, com os quartos para os hóspedes; (2) reservatórios hídricos; (3) aposentos provados; (4) rue
intérieure; (5) salas de reunião; (6)
sobreloja, com os alojamentos para os jovens; (7) andar térreo com
passagens para viaturas; (8)
Fourier define regras de dimensionamento do espaço arquitetónico e urbano, a partir da definição da largura mínima das ruas, a sua morfologia e pontos focais; a distância mínima entre edifícios, a área construída e os espaços livres aumentam proporcionalmente à distância do centro; a altura das construções, as fachadas regulares de todos os lados e o tipo de coberturas em pavilhão. Um plano urbano que favorecia a construção de casas coletivas em detrimento das casas pequenas, o que favoreceria a relação entre as pessoas e a concentração de serviços.
Esta definição de cidade antecipa, conforme reforça Benevolo (1994), o conteúdo dos regulamentos da construção oitocentista e um contributo para a prática urbanística que se lhe seguiu.
Mas este sistema foi considerado por Fourier como apenas uma transição para a harmonia universal que se realizará no sétimo período, e reformulará o problema do povoamento, com um grupo funcional racionalmente composto, a Falange, que viveria num dispositivo arquitetónico unitário, o Falanstério. A direção da Falange promove a todos os benefícios de alimentação, vestuário e alojamento para albergar cerca de 1500 – 1600 pessoas.
O edifício destinado à Falange, o Falanstério, em nada se assemelha às construções urbanas ou rurais, sendo regular tanto quanto o terreno o permita, de grande escala e centraliza as funções públicas.
As alas mais periféricas do edifício albergam de um lado as oficinas ruidosas, e do lado oposto as salas de baile e de relações externas, longe do centro do Falanstério para não perturbar as relações domésticas.
Além dos apartamentos individuais, privilegiam-se os espaços de relações públicas ou locais de reunião - os Seristérios, que substituem as ruas exteriores por rua-galeria. Estas assumem-se como o espaço principal com privilegiadas condições ambientais protegidas das intempéries, ventiladas e elegantes (Benevolo, 1994: 68).
3. Planta e Secção de Familistério de Goudin | 1856
O FAMILISTÉRIO DE GODIN
A ARQUITETURA MODERNA
A intenção de Fourier de implementar a sua utopia, foi empreendida em França, todavia sem sucesso, devido à insuficiência de capital. Outras tentativas, na Rússia, Argélia e América foram levadas a cabo, e entre 1840 – 1850 alcançou um notável sucesso nas comunidades experimentais nos Estados Unidos.
Jean-Baptiste Godin (1817-1888), um jovem industrial com uma oficina metalúrgica em Guisa, executou o Falanstério de Fourier empreendendo algumas modificações resultantes da sua própria experiência.
Este foi o único caso de sucesso, com recurso à diminuição de escala do edifício igualmente composto por três blocos, fechados à volta de pátios cobertos por vidro, que substituem as rua-galeria.
O Familistério de Godin, à semelhança do Falanstério de Fourier, continha os serviços gerais, creche e jardim-escola, escolas, teatro, banhos e lavandaria. A construção do primeiro bloco foi iniciada em 1859 e do terceiro em 1877. Em 1880, Godin cria uma cooperativa com operários da sua fábrica promovendo o carácter industrial da mesma, e a salvaguarda da autonomia das Famílias e da sua privacidade, mantendo os benefícios comuns.
Estas premissas antecipam o que Benevolo descreve como “(…) o raciocínio
que está na base da unité d’habitation de Le Corbusier.” (1994: 73).
As propostas utópicas vão estimular alterações de pensamento sobre o planeamento urbano, e em 1848 Marx e Engels elaboram o Manifesto do Partido
Comunista.
Benevolo (1994: 90) aponta semelhanças entre as ideias utópicas propostas ao longo do séc. XIX que resume:
“(…) a unidade de habitação com número limitado de habitantes, as instalações centralizadas, os pátios, a rue intérieure, a circulação de viaturas no andar térreo – com certas soluções da arquitectura moderna.”.
Entre as utopias do séc. XIX e a arquitectura moderna, Howard propõe as
Garden Cities em 1889, em que as comunidades são criadas para um número
limite de habitantes e o seu quotidiano se relaciona com a agricultura e natureza, num regresso às quintas e afastamento da indústria.
A segunda metade do século XIX é marcada por vários acontecimentos que transportam para a arquitetura novas abordagens e conceitos. A segunda
Revolução Industrial é descrita por Benevolo (1982: 417) como o acontecimento
charneira, que vem introduzir novas técnicas construtivas e novas materialidades, bem como infraestruturas que possibilitaram a organização vertical de edifícios com vários pisos.
As alterações no edificado acompanham as transformações na estrutura urbana, que vêm dar resposta à necessidade de introduzir elementos fundamentais nos edifícios, como as redes de abastecimento e drenagem de águas, redes de energia e outras infraestruturas. Para a implementação dos novos sistemas, o desenho urbano atua sem procedentes em demolições no centro histórico, ampliações para a periferias e abertura de grandes eixos viários.
Neste contexto, Benevolo (1982: 430) aponta três condições de partida para o movimento moderno:
1. O Deutscher Werkbund – Federação Alemã do Trabalho - e a nova arquitetura alemã, com relevância para Gropius, Mies van der Rohe e Taut;
2. Os movimentos para a reforma das artes figurativas, em 1905-1914, que radicalizam os princípios que ordenam os hábitos visuais;
3. A Primeira Guerra Mundial e o ambiente pós-guerra que influi novas ideias nos arquitetos e artistas, suspendendo alguma atividade de alguns. A formação do movimento moderno, é datada pelo próprio entre 1918-1927, no entanto a atribuição da sua origem a um lugar é impossível, reforça Benevolo (1982: 453), sendo a partir de 1927 que se revela uma linha comum de trabalho. Neste registo destacam-se ideologias determinantes para o movimento urbanístico moderno, como a de Gropius como uma ação coletiva, e a de Le Corbusier como individual.
A fundação da Bauhaus, em 1919, por Gropius, promoveu uma aproximação de
academia com um paralelismo teórico-prático, em que a presença dos mestres
no ensino era acompanhada pelo contato com a realidade de trabalho.
Por sua vez Le Corbusier, tornou-se um mediador entre a tradição nacionalista na sociedade francesa do século XX e a inovação do movimento moderno, conforme (Benevolo, 1982: 487):
ELEMENTOS MÍNIMOS
“(…) os cinco pontos de uma nova arquitetura: os pilotis, o terraço-jardim, a planta livre e la fenêtre longueur (…) aos quais se admite o valor revolucionário.”.
O movimento moderno foi lançado, mas os concursos que permitem a formalização das suas ideias iniciam-se posteriormente, sendo o primeiro organizado pelo Chicago Tribune em 1922. O Deutscher Werkbund, organiza a segunda exposição em 1922, em Stuttgart, liderada por Mies van der Rohe, com grande adesão por vários nomes internacionais da arquitetura.
A fundação do Congrés International d’Architecture Moderne (CIAM) decorre desta adesão à discussão coletiva sobre a arquitetura e a sua influência na vida social. Das exposições e ideias em concursos, à aproximação das teorias aos problemas urbanísticos, os CIAM são o palco, e após a Primeira Guerra Mundial o problema da habitação é agudizado em muitos países da Europa.
O século XIX é marcado no âmbito do desenho urbano, por modelos e normas urbanísticas que caracterizam os tipos construtivos com recurso à sociologia. Sobre estes Benevolo et al. (1987: 14) introduzem que Gropius descreve as premissas sociológicas para os alojamentos mínimos da população urbana industrial que assentam na observação de determinados padrões higiénicos em que “(…) um compartimento para cada indivíduo adulto e a superfície e
cubicagem mínima para a habitação de uma família (…)” que definirão as guias
para projetar a habitação. E assim, se dita o projeto do que será a grande produção arquitetónica de habitação no século XX.
Os alojamentos são equacionados ao detalhe, bem como a definição do desenho dos compartimentos, para corresponderem ergonómicamente aos movimentos e proporções anatómicas do homem. O racionalismo desta época repercute-se nos espaços de habitar, e a redução do espaço para a vida doméstica é resultado desta racionalização.
Estes pressupostos de habitar propõem um novo tipo de edifício em barra de
sabão, o slab house, que é composto por células de habitação todas iguais, de
dimensões mínimas e equipadas para a vida doméstica. No âmbito do habitar coletivo, a cada edifício de habitação corresponde um conjunto de serviços coletivos que respondem ao eficaz desenvolvimento das atividades domésticas, que não têm lugar nas reduzidas células que compõem os alojamentos.
LE CORBUSIER WALTER GROPIUS
E A URBANÍSTICA MODERNA
ALISON E PETER SMITHSON ESTUDO DOS PADRÕES
O dimensionamento da unidade de habitação determina o grau de autossuficiência da comunidade que o habita, assim como as relações de escala individual e o sistema urbano global (Benevolo et al., 1987).
Em 1922, Le Corbusier define a sua primeira ideia de cidade ideal, dividida hierarquicamente em três zonas concêntricas. Na zona central os edifícios em forma de cruz e de elevada altura, na zona intermédia destacam-se as casas de seis pisos e na periferia as moradias unifamiliares. O traçado simétrico e ortogonal é rigoroso.
Posteriormente, propõe o conceito de Ville Radieuse em que a combinação das células habitacionais produzem o desenho urbano até uma extensão indefinida, de duas formas:
a) Este-Oeste: com duas orientações privilegiadas, as células beneficiam de boas condições ambientais em ambos os lados, e ao centro a rue
intérieur;
b) Norte-Sul: a vertente Norte mais desfavorecida recebe a galeria de distribuição e a Sul os espaços habitáveis.
Da observação às modificações a ocorrer na família e no indivíduo, constata-se que há um afastamento à família tradicional e uma emancipação do indivíduo. Esta transformação que começou a ocorrer no século XX, num pós Revolução Industrial e Primeira Grande Guerra, revelou a urgência da célula de habitação individual que numa área mínima colmatasse as necessidades do indivíduo num âmbito coletivo, com a oferta de serviços e vivências coletivas.
Os CIAM vêm assim definir normas que promoviam a redução dos espaços ao mínimo, equilibrando esta redução com o aumento proporcional de luz e ventilação natural, que assegurassem salubridade das habitações.
Na Carta de Atenas do 4º Congresso CIAM em 1933, Le Corbusier revelou que o Urbanismo ultrapassa o pensamento analítico sobre a produção de comunidades. Neste contexto, introduz quatro pilares nos quais a vida humana se pode basear: viver, trabalhar, lazer e circular.
Assim, propõe que a cidade seja planeada com base nestas funções, de modo a que o Homem Moderno tenha tempo para executá-las plenamente.
No CIAM de 1954, Alison Smithson a partir da posição de Le Corbusier propõe que se considere para além das quatro funções básicas, o contexto no qual o
projeto se insere referindo que mesmo que não seja um objetivo regressar à imagem da cidade antiga, é importante que um olhar sobre o passado possa trazer ideias de como a sociedade evoluiu e se agrupou ao longo do tempo (Smithson e Smithson, 2005).
Smithson e Smithson afirmam que os termos usados para descrever casa, rua e outros, não devem ser lidos literalmente mas mais como ideias daquilo que representam.
Apesar de estarmos atentos às alterações dos costumes do nosso dia-a-dia, nos últimos anos a evolução da composição da casa estagnou e a preocupação dos arquitetos centraliza-se demais nos espaços coletivos, fachadas e tratamento do espaço exterior (Paricio e Sust, 2000).
Da análise de Pereira (2016) sobre a casa e mudança social, propõe-se uma análise do sensível sobre a apropriação do espaço: Modos de habitar apelam a modelos familiares. Então para quem projetamos?
A cidade pública é um termo introduzido por Paola di Biagi, que aparece como uma metáfora para a cidade moderna e contemporânea e refere-se à forma como a cidade se foi desenvolvendo ao longo do século XX mediante os seus novos problemas de habitação (di Biagi, 2008: 14).
4. Diagrama das associações das crianças numa rua Fonte: Smithson e Smithson (2005: 23)
5. Diagrama de uma rua indicando as zonas de contato Fonte: Smithson e Smithson (2005: 23)
6. Diagrama de associação involuntária/voluntária Fonte: Smithson e Smithson (2005: 25)
2.1. DO HABITAR
O conceito de habitar3 no sentido etimológico aponta para o sentido de possuir ou criar hábitos4 que nos definem enquanto indivíduos e pertença a um lugar. O lugar que é construído para preservar a intimidade e que pode caracterizar-se como espaço pessoal, espaço social e espaço cultural.
Numa abordagem ao habitar do ponto de vista psicossocial, Fischer (1994) afirma que um espaço define uma relação essencial do ser humano com o território: estabelece nele a sua casa.
O alojamento que é para todos um primeiro universo social, porque é no espaço familiar que se operam as primeiras aprendizagens e se produzem as primeiras interações sociais.
A casa que como descreve Bachelard (1979: 208) é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade:
“Reimaginamos constantemente a sua realidade: distinguir todas as imagens seria revelar a alma da casa; seria desenvolver uma verdadeira psicologia casa.”.
Segundo (Bachelard, 1979: 202) é graças à casa que um grande número das nossas lembranças estão guardadas e que se a casa se complexifica:
“(…) se tem porão e sótão, cantos e corredores, nossas lembranças têm refúgios cada vez mais bem caracterizados.”.
Sobre o Habitar, Heidegger (1954: 1) introduz que só se chega por meio do Construir e o Construir tem o Habitar como fito, e questiona:
“(…) contêm as habitações já em si a garantia de que aconteça um Habitar?”.
As construções que são habitações permanecem determinadas a partir do Habitar, servem o Habitar dos homens.
As habitações5, unidades espaciais são correspondentes à unidade social família, o espaço onde se desenvolve a teia das relações familiares, e que pode ser uma manifestação de cultura.
3 (Lat. habitãre) Habitar, residir, viver (Figueiredo, 1976: 7).
4 (Lat. babitus) Hábito, costume, uso, aspecto, aparência (Figueiredo, 1976: 7).
5 “[…] Tradicionalmente cada elemento da Habitação era fixado em referência a uma função social, facto ainda observável nas sociedades rurais. Com a passagem ao meio urbano certas funções deixaram de ser realizadas no seu interior, devido por um lado à necessidade de redução de espaço e por outro à alteração dos usos e costumes […] A Habitação pode ser também encarada
A dimensão cultural revela a forma como uma sociedade utiliza o espaço, correspondente ao seu sistema de valores, às suas atividades e às relações entre os seus membros.
Na nossa sociedade ocidental o habitat é um espaço organizado como uma
concha pessoal para abrigar, mas noutras sociedades mesmo que o habitat seja
vivido como abrigo, o seu meio cultural influencia-o de forma distinta. Fischer (1994) reforça que em cada cultura, o significado do habitat é determinado pelo
lugar da mulher e pelo valor atribuído à intimidade, e que informa sobre a
organização do habitat segundo a importância de diferenciação dos papéis masculino e feminino.
As relações homem-espaço no habitat desenvolvem-se no interior de combinações caracterizadas pelo seu uso, organizado segundo um princípio unifuncional que rejeita tudo o que não entra na sua esfera. Assim as diferentes atividades são afetas a lugares separados.
Fischer (1994: 66) refere como ideia de separação dos lugares: o local de trabalho e a habitação e reforça:
“O parcelamento do espaço é por isso indissociável do parcelamento do tempo.”.
As relações no espaço compreendidas como relações num espaço-tempo consideram que o uso de um lugar está condicionado ao tempo de permanência. Por exemplo, habitar longe do trabalho promove frequentemente que a habitação seja o lugar que menos se ocupa temporalmente, mesmo podendo ser o lugar com maior importância de experiência vivida do indivíduo.
Merleau-Ponty (2004) mostrou a importância da relação entre espacialidade e corporeidade, separando a ideia de espaço vivido e conhecido.
Nesse sentido interessa perceber se a casa é por excelência o espaço onde se Habita, ou se o Habitar vai além da habitação, e Heidegger (1954) reflete sobre as construções que não são habitações mas que se constituem âmbito do nosso
Habitar, pois mesmo sabendo que o lugar de trabalho não é a nossa casa, ele
é habitado e portanto implica uma presença física, uma relação com o lugar mais ou menos permanente.
como factor de status social. Para além de poder ser um instrumento de prestígio e ostentação, ela reflecte diferenças importantes nas ideologias e comportamentos das diversas classes sociais” (AA. VV., 1971: 4-5).
Considerando que espaço e tempo são essenciais na formação das culturas, sendo que cada uma tem a sua própria conceção, organização e linguagem do espaço relacionadas com o seu sistema de valores, o espaço como sistema cultural é enunciado por Fischer (1994: 57) em três pontos:
“(…) o sistema de valores que determina a organização social, o modo de vida e de relações que dela resultam, o lugar atribuído ao espaço corporal.”.
As relações estabelecidas entre o homem e os diferentes ambientes revelam que o ambiente atua sobre o ser humano, que por sua vez age sobre os fatores espaciais que o determinam6.
Torna-se essencial elucidar a natureza da relação no espaço, decifrando através do dispositivo espacial toda uma codificação da vida doméstica. Como propõem Eleb-Vidal e Debarre-Blanchard (1989), as relações entre os membros da família têm diretamente a ver com as relações de contacto com os espaços, e portanto estes gerem a própria relação entre os indivíduos e as suas hierarquias, homens-mulheres, pais-filhos, entre outras.
A forma como o indivíduo utiliza um lugar é outro modo de compreensão da relação no espaço, como Fischer (1994: 38) descreve:
“Trata-se de um espaço vivido (…) que produz através das relações estabelecidas com ele, um conjunto de significações carregadas de valores culturais próprios.”.
A apropriação como processo de intervenção sobre um espaço transforma e personaliza-o, exprimindo-se por um estilo de ocupação próprio de um indivíduo ou grupo. Este processo opõe-se muitas vezes às limitações impostas por um espaço construído.
Para Fischer (1994) este mecanismo de apropriação é subjacente a duas dimensões: o exercício de um controlo sobre o espaço e a margem de manobra oferecida pela organização de um espaço.
6 “As nossas casas moldam-nos e nós moldamo-las até eventualmente se atingir um ponto de equilíbrio” (Churchill cit. por Gaspar, 2000: 7).
2.2. NOVOS MODOS DE HABITAR
Da Evolução da Família à Evolução da Casa, o século XIX marca uma importante evolução no conceito de família, elevando o papel do indivíduo no agregado.
Desta individualização a um novo pensamento sobre o matrimónio ao longo do século XX, a noção de família sofre grandes transformações particularizando o papel da mulher na família.
Segundo François de Singly (2011), estas alterações sugerem o início da família nuclear com um reduzido número de membros, em que o grupo doméstico simples – pai, mãe e filhos – constitui-se como um modelo dominante nas sociedades pouco urbanizadas.
Singly (2011) adverte que neste modelo familiar os seus membros não desempenham funções idênticas, pelo que a originalidade da família moderna remete para o seu sistema de relações.
O sistema de relações dentro do agregado doméstico, não tem no entanto de ter a obrigatoriedade relacional de parentesco. Esta noção compreende que o tipo de novas famílias abarca outros sistemas relacionais mais abrangentes. Segundo Sofia Aboim (2003), a definição de agregado doméstico é mais abrangente que a noção de família, e baseia-se num critério de co-residência entre indivíduos que partilham o mesmo teto, recursos e atividades. Torna-se portanto evidente que em consonância com as alterações sociais do agregado, o programa de habitação deve ser repensado a uma nova organização familiar. A redução do número de membros na família nuclear propõe a redução do espaço doméstico e adequação à multiplicidade de organização familiar. Esta adequação incompatibiliza-se com a normativa vigente em Portugal (RGEU - Regulamento Geral das Edificações Urbanas).
As transformações que ocorrem no modelo familiar são transversais ao modelo laboral tendo implicação direta na organização do programa habitacional. A evolução do espaço de habitar aponta para a inibição de áreas com usos muitos específicos, como a cozinha ou a sala de jantar. Por outro lado, as alterações que tendem a ocorrer nos modelos familiar e de trabalho indicam a necessidade de novos espaços sem especialidade mas com valência plural, que se adeque às necessidades do utilizador.
A ideia da habitação evolutiva vem dar resposta à ocorrência de que o utilizador acaba quase sempre por executar alterações, reflexo da sua própria apropriação do espaço.
No entanto, pela estrutura estanque da habitação, estas ocorrem a elevados custos ou acabam por se resumir a intervenções de superfície ao nível dos suportes já existentes que não respondem inteiramente às distintas necessidades de cada utilizador ou agregado.
Segundo Jorge (2012), a diferença entre a habitação produzida em massa e a atual oferta de habitação multifamiliar nos centros urbanos remete para o contexto económico, social e tecnológico que o início do século XX condicionou. No pós-Revolução Industrial, apesar do surgimento de inúmeras soluções de habitações, algumas experiências não passaram de meras utopias.
Da necessidade de espaços sem especialidade que visem responder às necessidades destes novos agregados, a unidade autónoma dentro do fogo pode assumir-se como estratégia evolutiva.
A estratégia de conferir à habitação, uma divisão com maior grau de independência, pela sua localização ou morfologia, promove que cada sistema de relações dentro do agregado estabeleça o tipo de apropriação a essa unidade, adequando às suas necessidades. A multifuncionalidade e a capacidade de reverter o tipo de uso do espaço são grandes valias para esta estratégia.
Conforme descrevem Monteys et al. (2010), a proposta de compartimentos contíguos autónomos representa o complemento dos espaços de habitar preexistentes e não a constituição de uma nova habitação equipada conforme padrões mínimos. Por sua vez, Schneider (2006) propõe a possibilidade de independência total dos compartimentos autónomos apesar do seu dimensionamento exíguo.
Este conceito de combinações da unidade autónoma ou partilhada, apresentada por Schneider e Till (2007), decorre da possibilidade da permuta do compartimento entre unidades de habitação distintas. A partir de um conjunto de combinações variáveis, flexibiliza-se a utilização por qualquer uma das habitações com acesso pela circulação pública. O tipo de utilização é variável entre compartilhar a unidade autónoma por várias habitações numa versão de
TRANSFORMAÇÃO NOS MODOS DE HABITAR
7. Diagrama Shared room Fonte: Schneider e Till (2007: 189)
Independentemente do tipo de combinação, o tipo de utilização temporária desta unidade autónoma induz a um tipo de flexibilidade temporária.
A estratégia de evolução da habitação tem várias vertentes, a partir da possibilidade de introduzir alterações ao longo do tempo.
Neste âmbito, enquadra-se a flexibilidade permanente conforme categorizou Galfetti (1997), sendo uma das categorias a Elasticidade com a adição ou subtração do espaço, pressupondo o aumento da área útil.
A elasticidade compõe-se de uma das características formais que a premissa da ampliação no espaço de habitar pressupõe. A ampliação da habitação como estratégia flexível, visa acrescentar área ou equipamentos à unidade de habitação primordial.
Segundo Jorge (2012), as motivações que impulsionam as ampliações habitacionais são justificadas prioritariamente por questões económicas, políticas e sociais, numa perspetiva de prolongar o tempo de permanência dos agregados familiares no seu habitat original.
Mornement (2007: 8) descreve que “(…) o resultado desse estancamento
doméstico é o aumento da tendência a melhorar o que temos.”.
As transformações que se vêm verificando ao nível dos agregados, o papel do indivíduo e o sistema de relações dentro destes, é um tema que nos remete assim para a existência de novas famílias.
A mudança nos modos de habitar decorre da mudança nos modos de vida e Haumont (2006: 15) afirma que:
“O interesse no programa é o de ter sinalizado as mudanças que podem parecer atípicas, marginais, dizendo respeito a pessoas que se encontram em situações particulares, não totalmente banais (…). Ora, a história mostrou que estas situações ditas “atípicas” tendem a transformar-se na norma.”.
As novas famílias são resultantes dos novos modos de habitar o espaço e a casa, e Bourdieu (2002: 46) desenvolveu um estudo da forma e da função da casa que ilustra esta mudança:
“Microcosmos organizado segundo as mesmas oposições e as mesmas homologias que ordenam o universo a casa mantém uma relação de homologia com o resto do universo, mas de um ponto de vista, o mundo da casa tomado no seu conjunto está com o resto do mundo numa relação de oposição cujos princípios não são outros senão os que organizam tanto o espaço interior da casa como o resto do mundo, e mais geralmente, todos os domínios da existência.”.
No entanto, Sandra Marques Pereira (2016: 13) sugere alguma precaução no risco de interpretativismo:
“(…) se é verdade que a casa revela muito de uma sociedade, não é menos verdade que ela não revela tudo.”.
Um dos autores que propõe uma reflexão sobre este tema é Roderick J. Lawrence, a partir da des-universalização de quaisquer modelos explicativos de determinação da casa, conforme refere Pereira (2016), através da inserção de cada caso no seu contexto, espacial e temporal: as variáveis que intervêm na formatação da casa são múltiplas (culturais, sociais, económicas, políticas, mais coletivas ou individuais, mais locais ou transnacionais) e têm diversos pesos em função desses mesmos contextos.
No entanto, Pereira (2016: 16) corrobora que a casa está repleta de sentidos
que se oferecem a uma interpretação significante, não desadequando portanto
a apreensão dos significados sociológicos do tipo e número de divisões de uma
casa. Assim sendo na:
“(…) perceção das múltiplas formas como as diferentes divisões de uma casa que se podem estruturar, relacionar e hierarquizar, configurando determinados padrões que, em si mesmos, veiculam distintas visões de quem as habita e de como elas poderão ser habitadas. Ora, porque a família só é apreensível enquanto realidade relacional, também o significado sociológico do espaço doméstico só o é nessa realidade.”.
Pereira (2016) lista como pontos de interesse na análise desta realidade: i. na identificação do tipo, do número e da área das várias divisões que
compõem uma casa;
ii. na localização e posição relativas das mesmas face ao conjunto, assim como na forma como elas se agregam em determinados sub-conjuntos ou zonas, também estas ocupando uma posição relativa face ao todo e entre cada uma;
iii. na relação de permeabilidade/separação que se estabelece não só entre cada uma das divisões, como também entre cada um dos sub-conjuntos (áreas) que as agregam e que, no seu todo (relacional), constituem o espaço doméstico em toda a sua indivisibilidade.
Sobre a indivisibilidade do espaço doméstico, Pereira (2016: 16) refere:
“A casa tem um centro e uma periferia, como zonas que se estruturam em função do valor social adstrito a cada uma das partes que poderão integrar um e outra, (…) mas também (…) em função da distinção público/privado: dois aspetos tão interdependentes, quanto social e historicamente variáveis.”.
A casa que segundo Portas (1968) deve ser um terreno de apropriação muito menos prescritivo do que é comum.
Sobre esta apropriação Pereira (2016: 19) refere que o que estava em causa era a:
“(…) inversão da lógica de relacionamento entre o social e o espacial: se até então predominava a crença e o desejo de que o social era determinado (e determinável) pelo espacial, doravante passa a acreditar-se no poder (e nas virtudes) do social determinar o espacial.”.
Também, uma outra componente é a valorização da participação dos utilizadores na fase do projeto.
Da valorização da participação foi notável o programa7 Serviço de Apoio Ambulatório Local – SAAL, introduzido em 1974 por Nuno Portas, o então Secretário de Estado da Habitação e do Urbanismo, que tinha sido um dos principais mentores da reflexão em torno da necessidade de pôr termo à opressora imposição da homogeneidade veiculada pela casa moderna. Por um lado, o direito à diversidade cultural e social, em forma de casa; e por outro, a recusa da submissão ao didatismo esclarecido protagonizado pelo arquitetos modernos e consubstanciado na ambição de ensinar às massas a maneira correta de viver o espaço doméstico (Pereira, 2016).
Os inquéritos empreendidos no âmbito do SAAL, um extenso trabalho de equipas de várias valências, do GTH (Gabinete Técnico de Habitação) da CML (Câmara Municipal de Lisboa) criado em 1959, e do LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil) decorriam dos trabalhos sobre o estudo sistemático dos
usos do espaço doméstico de uma ou mais classes por Chombart de Lauwe, que segundo Pereira (2016: 19) evidenciavam:
“(…) diversidade (social) dos usos do espaço doméstico, a qual, por seu turno, tinha mais ou menos explícita, a denúncia da impositiva homogeneidade veiculada pela casa moderna.”.
A resposta à participação dos utilizadores compreendia que, como refere Bandeirinha (2007: 29), o desafio fundamental fosse o desenvolvimento dos métodos mais adequados à captação das “verdadeiras aspirações”, e não “necessidades”, habitacionais das populações uma vez “(…) que fazê-las
derivar directamente da consulta directa” a essas mesmas populações “poderia não as exprimir” efectivamente.”.
Para Bernard (1995: 30), um modo de habitar é:
“(…) a relação estabelecida por uma pessoa ou família com a sua casa, uma relação que pode ser analisada através do tempo passado na casa, do interesse que a mesma desperta nos seus moradores e sobretudo das práticas que aí são desenvolvidas.”.
Nesta análise, Pereira (2016: 21) identifica que além da relação prática e funcional que a família (ou indivíduo) estabelece com a casa, esta relação também é simbólica e refere:
“A dimensão simbólica do habitar está tão presente nas representações que as pessoas têm da sua casa, seja a casa real ou a casa ideal, como nas formas concretas como a usam e, não menos importante, como a decoram.”.
Da análise dos modos de habitar, as abordagens não se devem deter pelo carácter genderizado dos espaços e não se deve esgotar portanto na questão do género, como algumas abordagens feministas das ideologias da família se detêm e Pereira (2016: 23) reforça:
“A casa não é para aqueles que a concebem e menos ainda para os seus habitantes apenas, e muito provavelmente não é sobretudo, um espaço político, um espaço de exercício (desigual) de poder: é justamente a dimensão emocional da casa (…) Contudo, esta dimensão emocional da casa, complementarmente com as suas dimensões prática e funcional, económica e simbólica, assume uma relevância central para o entendimento concreto das formas de habitar.”
NOVAS FAMÍLIAS E O IMPACTE DA MODERNIZAÇÃO
Sobre os novos modos de habitar e as novas famílias que estes promovem, Pereira (2016: 25) refere a individualização como uma tendência pesada da modernização, que pressupõe que se considere dois aspetos:
“(…) o facto de que a exposição às suas oportunidades e riscos é social e individualmente desigual; por outro, o facto da mesma não ser vivida de forma hegemónica nem de modo impermeável a outras lógicas supostamente menos modernas.”.
Sobre os impactes da modernização, em geral, e da individualização, em particular, na família, Pereira (2016: 27) reporta para duas dimensões:
“Em primeiro lugar, o estilo das interações intra-familiares (mas também da família com o exterior), relativo à distribuição dos papéis e do poder entre os vários membros da e na família, e às lógicas relacionais que a caracterizam, nomeadamente em matéria de conjugalidade e parentalidade. No fundo, estes estilos reportam-se ao modo, intrinsecamente relacional, como se configura a família, o que numa analogia à casa poder-se-ia definir como o padrão de configuração da própria família. (…). Em segundo lugar, as suas formas estruturais ou, dito de outro modo, ao nível da sua composição.”.
Considerando a segunda dimensão como a mais visível, Pereira (2016) atribui ao impacte da individualização na família a sua própria diversificação. Em Portugal, a tradicional família nuclear composta por casal com filho(s), ainda se mantém como a dominante (Almeida et al., 1998; Aboim e Wall, 2002; Torres, 2007).
A esta juntam-se progressivamente novas composições familiares: desde as famílias recompostas, às mono-parentais, às famílias conjugais, casais sem filhos, DINK (Double Income No Kids), aos casais em que cada um dos cônjuges habita a sua casa, LAT (Living Apart Together), até aos mono-residentes, indivíduos sós que dificilmente se encaixam na categoria “família” (Pereira, 2016: 28).
Numa análise micro-sociológica, relativa ao lado mais intimista da vida quotidiana, Pereira (2016) remete para o tipo de interações que o(s) indivíduo(s) estabelecem dentro do seu agregado e/ou com o exterior e o estilo de vida que protagonizam, e ainda as auto-narrativas sustentadas pelos próprios, as quais tendem a explicar biograficamente, a sua situação atual e perspetivas do futuro. Uma dessas novas realidades que mais tem suscitado o interesse dos