Fonte: https://www.publico.pt/2017/09/06/local/noticia/camara-de-lisboa-tenta-anular-venda-da-vila- dias-no-beato-1784493, consultado [junho.2018]
- Como pode o arquiteto intervir nas características iniciais do projeto e se faz sentido efetuá-las?
- Quais as estratégias de base para promover boas condições de habitar e viver em comunidade?
Para estas questões mais do que a elaboração de um Plano de Pormenor que se entende ser muito objetivo do ponto de vista urbanístico, a definição de estratégias de adequação aos novos modos de viver são de grande pertinência para este trabalho.
Nesse sentido, compreendem-se algumas indicações de atuação, para devolver valor económico, histórico e paisagístico:
- Empreender um inventário de valorização e preservação do património habitacional operário, dos fragmentos às apropriações pelos habitantes; - Requalificar as zonas habitacionais, de cariz popular e operário;
- Salvaguardar as características específicas do lugar, enquadrando desde a morfologia do território aos modos de viver;
- Interligar esta zona a partir de um eixo rodoviário marginal, que permita aceder aos eixos secundários e mais confinados;
- Integrar e consolidar áreas mais segregadas a partir de interfaces que esbatam os limites físicos do lugar.
Enquadrado no âmbito da revitalização desta zona, empreendem-se algumas ações mais recentes de dinamização, como a inauguração do Hub Criativo do
Beato, implantado nas antigas instalações da Manutenção Militar no Beato, que
se encontra em reabilitação.
Como oportunidade ou forma oportuna, também a Vila Dias tem um projeto que visa a reabilitação de 160 habitações a partir das 40 habitações já devolutas, do promotor privado Sociedade Vila Dias11, destinadas a arrendamento:
“O nosso objetivo é juntar as gerações mais antigas, que ainda habitam na Vila, e dinamizar o bairro num convívio saudável com as novas gerações”.
A proposta de requalificação para as Vilas a partir de estratégias flexíveis, considera as condicionantes morfológicas e infraestruturais das unidades de habitação.
11 http://www.diarioimobiliario.pt/Actualidade/Reabilitacao/Reabilitar-a-historica-Vila-Dias-no- Beato-por-cinco-milhoes-de-euros, consultado em [junho. 2018]
Pretendeu-se abordar as problemáticas formais de modo sintético e a partir de ações combinadas de recuperação e implementação de novos sistemas, dotar as habitações de condições essenciais de salubridade num primeiro momento e de condições que promovam diversidade nos momentos subsequentes. Entendeu-se que esta cronologia de intervenção deve ser combinada, mas permissiva a uma evolução de ações que não se fechem num segundo momento, e que antes facilitem novos ciclos de apropriação pelos habitantes associados às alterações do seu agregado.
Implementam-se assim interfaces que promovam flexibilidade, a partir de um suporte pré-existente com áreas exíguas e pouco neutras, que promovam uma reflexão sobre a viabilidade de ativar estas estruturas com novos sistemas de habitar.
Da reflexão sobre a sua viabilidade promove-se também entender como se podem estender estes sistemas para a malha urbana que envolve os conjuntos. Se a diversidade se associa à aplicação de um sistema de flexibilidade inicial que prevê satisfazer as necessidades dos diferentes tipos de habitantes, famílias ou não-famílias, a potencial evolução da habitação associa-se a um tipo de flexibilidade permanente que se procura alcançar. Da reflexão sobre a sua viabilidade promove-se também entender como se podem estender estes sistemas para a malha urbana que envolve os conjuntos.
O estudo apresentado é proposto como ponto de partida para múltiplas variantes, e introduz uma gradação de tons referente a zonamentos que (re) organizam o espaço.
Estes remetem para zona funcional, zona neutra, zona de circulação, compartimento autónomo e elemento de mediação. A combinação de vários mecanismos que se compõem, pretende verificar a potencialidade das unidades em análise, à implementação de sistemas flexíveis, não sendo portanto um exercício fechado.
ORGANIZAÇÃO
EM ZONAS A definição de zonas que hierarquizam o equipamento fixo e o móvel pode ser
essencial à organização do espaço, pela categorização dos elementos que carecem de infraestrutura como as zonas húmidas das instalações sanitárias dos que podem adotar maior liberdade na sua implementação.
Os zonamentos podem compreender-se como uma estratégia de flexibilidade, que define uma matriz conceptual no fogo, adotando-se neste caso três zonas: zona funcional, zona neutra, zona de circulação.
A zona funcional remete para a área onde se localizam as instalações sanitárias e cozinha com respetivo equipamento que pode ser móvel, assim como a exaustão que se implementa na zona original da cozinha existente, e as infraestruturas de rede de águas e esgotos fixas. Esta zona localiza-se na presente análise na área mais periférica do fogo, junto a vãos de ventilação e iluminação natural, num encadeamento contínuo em banda e contíguo à zona neutra. A organização em bloco ou núcleo, tem caraterísticas que quanto à pré- existência das estruturas dos fogos são difíceis de implementar nos casos em análise, sendo no entanto uma estratégia que confere grande liberdade e versatilidade aos espaços servidos por estes espaços servidores (instalação sanitária e cozinha).
A zona neutra compreende espaços de socialização – área de lazer/trabalho e privados – área de descanso, assumindo-se como uma zona mais livre para apropriação de diferentes usos e portanto introduz maior autonomia e diversidade aos habitantes.
A zona de circulação assume-se como um espaço de transição entre os fogos, que pode ser potencialmente ativado como prolongamento dos usos nos fogos ou incorporar espaços comunitários. No entanto, no caso das Vilas em análise não refletem essa possibilidade dentro das unidades, podendo ser verificados nos espaços exteriores que medeiam os conjuntos.
Assim, propõe-se que as zonas sejam planificadas numa banda contínua, longitudinal ou transversalmente ao fogo, que proporcionem relações mais complexas dentro da habitação pelo potencial de apropriações distintas, pelo direito à diversidade.
COMPARTIMENTO AUTÓNOMO E CIRCULAÇÃO ALTERNATIVA
A multiplicidade de ingressos no fogo potencializa sistemas de circulação mais complexos, que conferem diversidade na utilização dos espaços e potencialmente se adaptam às transformações que ocorrem nos agregados familiares ou a diferentes habitantes. A possibilidade de escolha na definição dos fluxos dentro do fogo é altamente potencializador de graus de liberdade e definição de limites flexíveis e mutáveis.
A circulação alternativa como estratégia de flexibilidade enquadra assim possibilidades distintas de apropriação dos espaços, pela reversibilidade que permite e pelos níveis de privacidade que possibilita introduzir. Esta pode ser articulada entre distintas entradas/saída ou atravessamentos entre espaços interligados entre si, por interfaces de mediação ou simples vãos.
A existência de mais de um acesso ao fogo estimula esta intercomunicação entre as diferentes zonas a vários níveis de encadeamento, e da sucessão resulta a maximização das relações entre os espaços e os habitantes.
A introdução do Compartimento autónomo pode ser resultante da possibilidade do ingresso alternativo no fogo, A implementação do ingresso múltiplo é portanto uma estratégia que se empreende flexível, e que se testa no estudo proposto das Vilas, não sendo no entanto aplicável aos três casos pela falta de espaço na circulação exterior ao fogo.
O acesso direto do compartimento autónomo ao sistema de distribuição do edifício potencia ao máximo a sua implementação no fogo, mas esta pode ser apenas privilegiada na ligação com o exterior.
O potencial de autonomização que este compartimento confere ao fogo é definido pela sua localização estratégica no espaço de habitar, que permite a sua integração ou exclusão da vivência familiar. Da possibilidade em delinear distintos limites surgem variabilidades infinitas de apropriação, como a coabitação, a rentabilização económica do compartimento ou a inclusão de espaço de trabalho autónomo ao espaço doméstico.
67. Diagrama Vila Flamiano