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Andre Abreu da Silva

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ANDRE ABREU DA SILVA

SÃO PAULO, CIDADE PUNK: PRÁTICAS, ESPAÇOS, REPRESENTAÇÕES (1982-1998)

IRATI 2016

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ANDRE ABREU DA SILVA

SÃO PAULO, CIDADE PUNK: PRÁTICAS, ESPAÇOS, REPRESENTAÇÕES (1982-1998)

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Estadual do Centro Oeste do Paraná – UNICENTRO, como parte das exigências para a obtenção do título de Mestre em História.

Orientador: Prof. Dr. Valter Martins

IRATI 2016

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AGRADECIMENTOS

A realização deste trabalho, e também de nossa trajetória percorrida até aqui, não seria viável sem o essencial apoio dos meus pais, Gilberto e Mara, que em mim depositaram todo o amor e confiança. À Gilberto ainda tenho uma dívida extra, pelo valor incalculável de sua companhia durante as minhas longas visitas ao CEDIC/PUC-SP, e pelo auxílio na triagem da documentação desta pesquisa. Meus pais foram e continuam sendo grandes incentivadores. Agradeço especialmente à minha tia Mariângela, com seu encorajamento costumeiro. À Marta, um grande beijo.

Ao meu orientador Valter Martins devo singular gratidão. Não apenas pelo atencioso e perspicaz suporte intelectual, mas, fundamentalmente, pelo seu comprometimento com este trabalho. Formidáveis intervenções no texto de dissertação, valiosos empréstimos de bibliografia, além das cervejas. Uma honra ter a oportunidade deste convívio e parceria. Agradeço também sua mediação junto à Professora Maria Stella Bresciani que, apesar da impossibilidade de comparecer, gentilmente aceitou o convite para a banca de defesa, além de nos enviar textos inéditos de sua autoria.

Agradeço aos Professores Hélio Sochodolak e Beatriz Anselmo Olinto, membros de nossa banca, pelo entusiasmo e inestimáveis sugestões para aperfeiçoar a dissertação. Um notável e profícuo aporte intelectual. Também agradeço aos Professores José Miguel Arias Neto e, em especial, Ancelmo Schorner pela ajuda.

Deixo um agradecimento especial à dedicação e cordialidade de Cibele Zwar. Ao empenho e profissionalismo de Rodrigo Campos do CEDIC/PUC-SP na digitalização da documentação selecionada, minha sincera consideração.

Abraços fraternos aos docentes e discentes do DEHIS, colegas do PPGH da UNICENTRO, e companheiros de caminhada. Em Irati/Guarapuava: Vânia, Eduardo Oliveira, Geyso, Vinícius, Guizão, Flávião, Reinaldo, Mário, Tucho, Klysmann, Ariel, Adriel, Rodrigo Renauer, Rodolfo, Cleide, Robson, Megi, Jorge, Éder, Gerson, Luiz Gustavo, Wallas, Clayton, Rodrigo Santos, Augusto, Joyce, Danieli, Fábio, Grasiela, William Big, Júlio e Márcia Doré. Em São Paulo: Régis, Bruno, Magrão, Ritchie, Carolina, Vlad, JP, Tatu, Brunão, Darlene, Carlão, Clasher, Alonzo, Salyn, Luiz Abondanza, Dr. Mao, Clemente, Mara Oliveira, Eclenir, e Antonio Carlos Oliveira. Deixo ainda lembranças a Claudio Hiro Arasawa e Amilcar Torrão Filho, influências significativas para a nossa escolha das cidades como campo de estudo e interesse.

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Aos punks de ontem, e de hoje.

Ouço o medo a sussurrar, sinto a sombra me envolver E eu nada vou temer, olhos grandes, secos, frios Por trás deles o vazio A fraqueza é uma prisão, é agora, luz, ação! Quantos homens se rastejam, temem sombras da verdade

Homens fortes de joelho, dedos fracos, desespero Caos mental geral, medo preso Caos mental geral, desespero É de noite na estação, sangue fresco, aflição É no beco, é no bar, só a voz sussurrando Crime, instinto, é o furor, sadomaso, céu sem cor Meus amigos vão voltar, só que eu já não vou estar lá Obsesso, possuído, na sarjeta esquecido Álcool, sombras, pedras, gritos Qual de nós parou pra pensar?

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RESUMO

Esta é uma pesquisa e narrativa histórica sobre a cidade de São Paulo, sob a perspectiva da cultura punk. Contemplamos, parcialmente, as práticas, modos de fazer, formas de apropriação e representações do espaço urbano nas produções culturais e experiências dos punks, inseridos na materialidade de São Paulo entre 1982 e 1998. Os punks, reunidos neste contexto como grupo de ação cultural e política da juventude dos subúrbios e periferias, elaboraram um conjunto de imagens dialéticas sobre a cidade. Esta última compreendida, entre outras particularidades, como espaço de produção e consumo de representações. Conduzimos a pesquisa histórica por intermédio das análises de produtos da cultura punk documentados em arquivo: cartazes, panfletos, publicações, fotografias, gravações musicais, vídeos, entre outras. O resgate das representações e formas de consumo do espaço urbano de São Paulo pelos punks nos revelou aspectos, dimensões e camadas temporais ocultas da cidade. Sujeitos que colaboraram não apenas na constituição das tramas cotidianas da urbe, mas, fundamentalmente, na intervenção política crítica, na resistência cultural, e na ousadia de ultrapassar limites e fronteiras, físicas e simbólicas, determinadas pelos poderes estabelecidos.

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ABSTRACT

This is a Historical narrative and inquiry about São Paulo city, underneath the punk culture perspective. We notice, measurably, the uses, the making, the ways of apropriation and the representations of the urban space on the punk cultural stuff and experiences, into the materiality of São Paulo from 1982 to 1998. Punks, congregate in these context as a youth crew of political and culture activism from the suburbs and outskirts, which produced a compilation of dialectical images about the city. This last one known, among other features, as a space of production and assimilation of representations. We work the Historical inquiry by the analysis of the punk culture stuff kept archived: posters, handouts, magazines, pictures, musical recordings, and more. The redemption of the representations and the ways of assimilation of São Paulo‟s urban space by the punks showed us features, dimensions and hidden temporalities of the city. Protagonists that collaborate not only in the everyday paths‟ formation, but, essentially, in the political critical intervention, in the antagonizing culture, and daring overtake symbolical and physical borders and boundaries determinate by the Establishment.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Fanzine Espunk, 1984, p.50. Figura 2 – Fanzine 1999, 1983, p. 54. Figura 3 – Revista Istoé, 1982, p. 54.

Figura 4 – Fanzine Ex, provavelmente 1985, p. 56. Figura 5 - Fanzine SP Punk, 1982, p. 57.

Figura 6 – Fanzine SP Punk, 1982, p. 57. Figura 7 – Fanzine Lixo Reciclado, 1983, p. 58. Figura 8 – Fanzine Lixo Reciclado, 1983, p. 59. Figura 9 – Fanzine Lixo Reciclado, 1983, p. 59. Figura 10 – Fanzine Lixo Cultural, 1984, p. 60. Figura 11 – Fanzine Lixo Cultural, 1984, p. 61. Figura 12 – Fanzine Lixo Reciclado, 1983, p. 62. Figura 13 – Fanzine SP Punk, 1982, p. 63. Figura 14 – Fanzine Vix Punk, 1982, p. 64. Figura 15 – Fanzine 1999, 1982, p. 72. Figura 16 – Fanzine 1999, 1983, p. 72. Figura 17 – Fanzine MD, 1982, p. 73. Figura 18 – Fanzine MD, 1982, p. 74.

Figura 19 – Fanzine Factor Zero, 1982, p. 75.

Figura 20 – Fanzine Factor Zero, publicado em 1982, p. 76. Figura 21 – Fanzine Diário Punkpular, sem data, p. 77. Figura 22 – Panfleto, 1983, p. 78.

Figura 23 – Jornal não identificado, sem data, p. 79. Figura 24 – Fanzine MD, 1982, p. 80.

Figura 25 – Fanzine Vix Punk, 1982, p. 82. Figura 26 – Fanzine 1999, 1984, p. 83.

Figura 27 – Fanzine Lixo Cultural, 1984, p. 84. Figura 28 – Panfleto, 1982, p. 89.

Figura 29 – Revista Pipoca Moderna, 1982, p. 90. Figura 30 – Jornal não identificado, 1982, p. 91. Figura 31 – Revista Kaprikórnio, 1985, p. 92. Figura 32 – Revista não identificada, 1982, p. 93.

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Figura 33 – Fanzine Alerta Punk, 1983, p. 94. Figura 34 – Fanzine 1999, 1983, p. 95. Figura 35 – Cartaz, 1982, p. 97. Figura 36 – Panfleto, 1982, p. 98. Figura 37 – Cartaz, 1982, p. 99. Figura 38 – Panfleto, 1982, p. 100. Figura 39 – Panfleto, 1982, p. 101. Figura 40 – Panfletos, 1982, p. 102.

Figura 41 – Fanzine Inimigo do Estado, sem data, p. 103. Figura 42 – Fanzine desconhecido, 1982, p. 105.

Figura 43 – Panfletos, 1982, p. 106. Figura 44 – Panfleto, 1982, p. 107. Figura 45 – Fanzine MD, 1982, p. 109. Figura 46 – Fanzine MD, 1982, p. 113. Figura 47 – Fanzine SP Punk, 1982, p. 114. Figura 48 – Fanzine SP Punk, 1982, p. 115. Figura 49 – Fanzine SP Punk, 1982, p. 116. Figura 50 – Cartaz, 1982, p. 117.

Figura 51 – Cartaz, 1982, p. 119.

Figura 52 – Fanzine Vix Punk, 1982, p. 120. Figura 53 – Cartaz, 1982, p. 121. Figura 54 – Panfleto, 1982, p. 123. Figura 55 – Fanzine 1999, 1983, p. 125. Figura 56 – Fanzine 1999, 1983, p. 126. Figura 57 – Cartaz, 1983, p. 127. Figura 58 – Fanzine 1999, 1983, p. 128. Figura 59 – Fanzine 1999, 1983, p. 129. Figura 60 – Panfleto, 1983, p. 130.

Figura 61 – Provável jornal do bairro Parque São Rafael, 1983, p. 131. Figura 62 – Panfleto, 1983, p. 131.

Figura 63 – Panfleto, 1983, p. 132. Figura 64 – Panfleto, 1983, p. 133. Figura 65 – Cartaz, 1983, p. 134.

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Figura 67 – Fanzine 1999, 1984, p. 136. Figura 68 – Fanzine Espunk, 1984, p. 137. Figura 69 – Panfletos, 1984 e 1985, p. 138.

Figura 70 – Fanzine União e Conscientização, 1985, p. 139.

Figura 71 – Correspondência para o Núcleo de Consciência Punk, 1985, p. 140. Figura 72 - Correspondência para o Núcleo de Consciência Punk, 1985, p. 141. Figura 73 - Correspondência para o Núcleo de Consciência Punk, 1985, p. 141. Figura 74 – Fanzine Ex, 1985, p. 143.

Figura 75 – Jornal não identificado, 1985, p. 143. Figura 76 – Panfleto, 1985, p. 144.

Figura 77 – Fanzine Ex, 1985, p. 144. Figura 78 – Fanzine Ex, 1985, p. 145. Figura 79 – Fanzine Pânico, 1986, p. 146. Figura 80 – Panfleto, 1986, p. 147.

Figura 81 – Fanzine Overdose, 1986, p. 147. Figura 82 – Fanzine Pânico, 1986, p. 148. Figura 83 – Fanzine Pânico, 1986, p. 149.

Figura 84 – Jornal o Estado de São Paulo, 1986, p. 150. Figura 85 – Panfleto, 1986, p. 150.

Figura 86 – Panfleto, 1986, p. 151.

Figura 87 – Jornal o Estado de São Paulo, 1986, p. 152. Figura 88 – Jornal o Estado de São Paulo, 1986, p. 152. Figura 89 – Jornal Folha da Tarde, 1986, p. 153.

Figura 90 - Jornal Folha da Tarde, 1986, p. 154. Figura 91 – Jornal não identificado, 1986, p. 155. Figura 92 – Fanzine Anarkia, 1987, p. 156. Figura 93 – Anúncio em periódico, 1987, p. 157.

Figura 94 – Bilhete de ingresso para espetáculo, 1996, p. 158. Figura 95 – Fanzine Ex, sem data, p. 158.

Figura 96 – Fanzine Comando Punk, 1987, p. 160. Figura 97 – Jornal Folha de São Paulo, 1988, p. 161. Figura 98 – Fanzine Falange Anarquista, 1987, p. 163. Figura 99 – Jornal do Brasil, 1987, p. 164.

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Figura 101 – Jornal Folha da Tarde, 1988, p. 166. Figura 102 – Fanzine desconhecido, 1988, p. 167. Figura 103 – Jornal Folha de São Paulo, 1988, p. 168. Figura 104 – Panfleto, 1988, p. 169.

Figura 105 – Jornal Folha de São Paulo, 1989, p. 170. Figura 106 – Jornal Folha de São Paulo, 1989, p. 170. Figura 107 – Fanzine Incivilizado, 1990, p. 172. Figura 108 – Fanzine Incivilizado, 1990, p. 173. Figura 109 – Fanzine Phorko, 1990, p. 174.

Figura 110 – Fanzine Acorda Proletário, 1990, p. 175. Figura 111 – Fanzine Acorda Proletário, 1990, p. 176. Figura 112 – Cartaz, 1990, p. 177.

Figura 113 – Fanzine Insatisfação, 1990, p. 178. Figura 114 – Cartaz, 1997, p. 178.

Figura 115 – Panfleto, sem data, p. 179. Figura 116 – Fanzine Motim, 1995, p. 180. Figura 117 – Cartaz, 1997, p. 181.

Figura 118 – Capas de coletâneas musicais, 1996 e 1997, p. 181. Figura 119 – Jornal O Estado de São Paulo, 1994, p. 182.

Figura 120 – Cartaz, 1991, p. 183. Figura 121 – Panfleto, sem data, p. 194. Figura 122 – Fanzine 1999, 1982, p. 196.

Figura 123 – Fanzine Necrose Suburbana, 1989, p. 197. Figura 124 – Fanzine Necrose Suburbana, 1989, p. 197. Figura 125 – Fanzine Necrose Suburbana, 1989, p. 198. Figura 126 – Fanzine Buraco Podre, 1987, p. 199. Figura 127 – Fanzine Falange Anarquista, 1987, p. 200. Figura 128 – Fanzine Lute ou Vegete, 1986, p. 200. Figura 129 – Fanzine Ex, sem data, p. 201.

Figura 130 – Fanzine Ex, sem data, p. 202.

Figura 131 – Fanzine Almanaque, sem data, p. 205. Figura 132 – Fanzine Ex, sem data, p. 206.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 14

CAPÍTULO 1 ... 22

CIDADE, ESPAÇO DO PUNK ... 22

1.1 ANCESTRALIDADE, CONSTITUIÇÃO E IDENTIDADES ... 42

1.2 DIANTE DO ESPELHO: SÃO PAULO E A EMERGÊNCIA PUNK ... 55

CAPÍTULO 2 ... 68

ENTRE AS MARGENS E O CENTRO: COTIDIANO DE CONTRASTES ... 68

2.1 ESPAÇOS DELINEADOS, TERRITÓRIOS DEMARCADOS ... 73

2.2 A CIDADE OCUPADA PELO PUNK ... 88

2.3 O ESPELHO EM QUEDA: DO PROCESSO DE REDEMOCRATIZAÇÃO À RETOMADA DA CIDADE ... 137

CAPÍTULO 3 ... 188

SÃO PAULO, CIDADE ENTREABERTA ... 188

3.1 SONS, PALAVRAS, IMAGENS ... 193

3.2 RACHADURAS NO ESPELHO: UMA CIDADE PUNK ... 205

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 210

JORNAIS, REVISTAS E PERIÓDICOS ... 214

FONTES ICONOGRÁFICAS E SONORAS ... 216

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INTRODUÇÃO

Este estudo tem como tema de investigação os vínculos estabelecidos entre os punks e a cidade de São Paulo entre 1982 e 1998. De forma sintética e introdutória analisamos e evidenciamos, ao menos em parte, as relações históricas deste grupo com a cidade.

Relatos, sensibilidades, impressões sonoras e discursos imagéticos capturados tanto em fragmentos territoriais focalizados microscopicamente, como em descrições e observações mais difusas da cidade, possibilitaram uma reconstrução histórica específica sobre estes espaços retratados nas experiências e produções culturais dos punks.

Fizeram parte da constelação de fontes analisadas os fanzines (publicações gráficas e escritas de baixo custo com tiragens limitadas), os cartazes e panfletos de convocação para eventos e encontros, fotografias, ilustrações, vídeos e gravações musicais das bandas punk.

A proposta de uma escrita da história que enseja compreender a cidade como problema envolve elaboração teórico-metodológica específica sobre o urbano.

Assim, formulamos questões imediatas: como apreender as múltiplas dimensões, lugares e práticas inseridas no colossal espaço paulistano? Como elaborar uma representação dos diversos agrupamentos e agentes históricos que, organizados ou não, em determinado momento constituíram e, em alguns casos ainda constituem, as permanentes e oscilantes tramas cotidianas da urbe?

Ou ainda, quais seriam as possibilidades de uma construção única destas histórias que integre e incorpore os conflitos, contradições e heterogeneidades das multifacetadas temporalidades e espacialidades da metrópole, que se dividem ainda mais conforme mudam os agentes e suas ações inscritas no tempo?

Neste caso, buscamos uma construção narrativa específica, a partir da experiência dos integrantes e grupos distintos do movimento punk, inseridos na lógica material da cidade de São Paulo.

Colocou-se a possibilidade de compreender aspectos da vida, da cultura e de uma parcela do cotidiano popular do período em questão a partir das relações estabelecidas entre os punks e a cidade de São Paulo.

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15 Conforme aponta Maria Stella Bresciani, “as cidades são antes de tudo uma experiência visual”.1 Imagens, metáforas e demais representações de suas

particularidades urbanísticas são formuladas a todo momento pela população, tais como as vias de circulação, edifícios, calçadas, postes de iluminação, praças e, naturalmente, o fluxo incessante de pessoas e seus respectivos códigos comportamentais nestes espaços. “Um lugar saturado de significações acumuladas através do tempo”.2

Signos incorporados através das intervenções urbanísticas, de seus transeuntes, habitantes e demais agentes que constroem, reconstroem, codificam e decodificam de maneira peculiar os aspectos, sensações e marcas destes espaços.

Buscamos então algo aproximado a uma construção histórica fisiognômica da cidade de São Paulo, ou, em termos mais precisos e em síntese, uma escrita da história da cidade através de imagens. Uma operação historiográfica benjaminiana, na qual se reúne fragmentos de materiais desprezados, para a posterior composição de “imagens dialéticas” para produzir a história.3

A partir destes pressupostos guiamos nossa análise através de processos de interação envolvendo os punks e suas experiências com o ambiente urbano.

Para que isso fosse possível, a relação entre ambos (punks e cidade) foi entendida como um processo histórico e comunicacional: os punks em movimento possuem suas formas particulares de interação com o ambiente e coexistem com outros grupos e indivíduos nos mesmos espaços. Neste caso, os punks possuem um duplo papel: tanto são receptores de estímulos visuais, auditivos, táteis destes ambientes quanto são, ao mesmo tempo, após decodificar estes estímulos pelos seus sistemas particulares de valores, transmissores de suas próprias impressões a respeito deste mesmo ambiente para outros receptores que os cercam.

Os punks, aqui considerados como sujeitos históricos, são os elementos humanos que interagem com o meio urbano. Ambiente que, através da história, e continuamente, tem sido o resultado tanto das grandes concepções e transformações

1 BRESCIANI, Maria Stella. História e historiografia das cidades, um percurso. IN: FREITAS, Marcos C.

(org). Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto, 1998, p. 237, 238.

2

Idem.

3 Sobre o conceito de fisiognomia aplicado especificamente à metrópole, e de uma produção

historiográfica através de imagens dialéticas, ver: BOLLE, Willi. Fisiognomia da metrópole moderna. 2° Ed. São Paulo: Edusp, 2000, p. 43.

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16 deliberadas e executadas verticalmente pelos poderes estabelecidos, quanto das formas de uso e consumo destes espaços pelos diferentes agrupamentos sociais, nem sempre ajustados às idealizações urbanísticas oficiais.

A cidade é aqui compreendida como um complexo sistema emissor de estímulos sensoriais, constituída por campos de força que, ao mesmo tempo, incitam e reprimem determinados comportamentos segundo as diretrizes de seus eixos estruturais, suas matrizes ideológicas e as suas práticas culturais oficiais.

Quando consideramos a cidade como espaço de produção de codificações simbólicas, os elementos que se modificam neste caso são os produtores (aqui, especificamente, os punks, em sua diversidade), que decodificam as informações do ambiente e as reinterpretam (ressignificam) de acordo com as suas práticas e experiências cognitivas particulares, ou seja, históricas.

Como expectativa, acreditamos que o resultado dos conhecimentos construídos em todo o processo interpretativo das imagens e símbolos do ambiente urbano pelos punks (sujeitos da história), seja um inédito sistema de representações da cidade. Esclarecemos que nesta operação dialética, os sujeitos concretos, os punks, não foram considerados como oposição categórica (antítese) à cidade. Aqui a função conceitual entre estes elementos, notadamente a cidade e os punks, é compreender os modos como os sujeitos assimilam os sinais/símbolos que a cidade emite, através de suas práticas e de suas produções culturais. É o processo relacional entre os punks e o espaço urbano.

Após esta assimilação dos objetos simbólicos emitidos pela cidade, momento em que estes símbolos são convertidos em novas representações da cidade, os punks assumem agora o papel de transmissores destas imagens sintetizadas, tanto para sua coletividade, quanto na direção de outros grupos que os rodeiam.

E a síntese deste processo, as representações, não deverá ser considerada um produto definitivo e fechado, mas parte de uma operação que poderia se estender continuamente. Estas representações da cidade poderiam ser reinterpretadas em diferentes momentos, hipoteticamente, por sujeitos e grupos distintos através das dinâmicas históricas, materiais e culturais em que estes elementos e suas respectivas memórias se situem.

Neste momento, ao entendermos a cidade como espaço de produção de representações, e seus habitantes como operadores destes esquemas simbólicos, conduziremos a análise do espaço urbano através de sua materialidade, que é

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17 transformada e produzida dinamicamente a cada momento histórico, resultando em novos sistemas de imagens e símbolos. Revela-se, finalmente, uma outra cidade.

A escolha do contorno temporal da investigação entre os anos de 1982 e 1998 ocorreu por circunscrever o período em que as formas de produção da cultura punk reproduziram um padrão mais ou menos coerente: o modo artesanal e tático de se produzir seus elementos. Vestimentas estilizadas, instrumentos musicais e equipamentos improvisados, gravações musicais em sistemas e condições muito pouco acessíveis no período, processos de elaboração e reprodução a baixo custo dos fanzines, cartazes e panfletos, e a maior parte da comunicação e intercâmbios de materiais entre os punks enviados pela via postal. São os produtos da cultura punk utilizados, em sua maior parte, como fontes documentais para este trabalho.

Parte deste material selecionado é procedente de nossa coleção pessoal, de empréstimos inestimáveis de amigos e conhecidos, e a maior parte disponíveis e previamente organizados e arquivados no acervo do movimento punk localizado no Centro de Documentação e Informação Científica, o CEDIC, da PUC de São Paulo.

A partir do final da década de 1990, com o início da era digital, transformações profundas se observaram nas relações de produção e formas de fazer destes produtos, tanto dos punks como de quaisquer outros grupos e coletivos de ação na esfera cultural.

Para o presente trabalho, reconhecemos os limites teóricos e práticos que nos impossibilitam a obtenção de um sistema único de imagens históricas da cidade, e reafirmamos que nosso esforço consiste fundamentalmente na recuperação específica de práticas, usos, relações, representações e demais construções históricas da cultura punk no espaço urbano de São Paulo.

Como ocorreram as apropriações dos espaços na cidade e como ela foi representada nas práticas e produções culturais dos punks? São os questionamentos que buscamos responder a seguir.

No primeiro capítulo Cidade, espaço do punk, situamos o contexto da emergência histórica dos punks em movimento na cidade de São Paulo.

Primeiramente, recuperamos sucintamente os movimentos culturais ancestrais ao punk: do advento dos movimentos da juventude, da contracultura e da efervescência social do pós-guerra, à origem da cultura punk como continuidade deste processo, ocorrido quase simultaneamente, mas com distinções objetivas e concretas, nos Estados Unidos, Inglaterra, Brasil e outros países.

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18 As discussões são conduzidas com ênfase nas conjunturas históricas analisadas a partir das dimensões sociais e culturais, com o objetivo de compreender o punk em movimento e as formas como esta cultura foi apropriada e constituída na cidade de São Paulo, com destaque para as particularidades, semelhanças e distinções com os punks de outras localidades.

No caso específico dos punks de São Paulo, em sua maior parte, os integrantes do movimento eram originários dos subúrbios empobrecidos e periféricos da cidade, fatores que os diferenciam substancialmente dos punks do mesmo recorte histórico, mas provenientes de lugares distintos, como por exemplo, os punks e a cena musical constituída em Brasília.4

Contudo, ainda que existam diferenças essenciais e particularidades concretas, alguns códigos identitários são partilhados entre os diferentes agrupamentos, sejam eles pertencentes ou não de um mesmo local. Estas distinções são basicamente históricas, constituídas durante o fazer-se dos punks e sua cultura. O uso de mecanismos categóricos fixos que busquem explicações mais gerais e padronizações, certamente acarretaria perdas de nuances das ações praticadas: os desvios, ajustes, distanciamentos e aproximações dos pressupostos e códigos intrínsecos enunciados por estes grupos.

Em paralelo, discutiremos circunstâncias históricas da economia, da política e da cultura, tanto no panorama local da cidade de São Paulo quanto no global, nos contornos temporais de surgimento do movimento punk, e seus posteriores desdobramentos.

No capítulo segundo Entre as margens e o centro: cotidiano de contrastes, a narrativa se volta às praticas do movimento punk na cidade de São Paulo. Delineamos uma análise dos usos históricos, relações e o estabelecimento de possíveis influências e transformações concretas dos espaços em decorrência das atividades dos punks.

Também concentramos um estudo mais específico sobre os espaços de resistência e com maior tempo de estabilidade e permanência dos punks em movimento.

4 Diferente de São Paulo, a maior parte das bandas e adeptos da cultura punk na capital federal possuía

suas origens nas classes médias e altas, contando inclusive com a participação de jovens filhos de diplomatas e do alto escalão do funcionalismo público da cidade. Entre outras vantagens, os brasilienses possuíam acesso facilitado aos materiais importados e das últimas novidades dos principais centros difusores do punk mundial do período. Esta questão será discutida mais adiante no Capítulo 1.1, ANCESTRALIDADE, CONSTITUIÇÃO E IDENTIDADES.

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19 Em contrapartida, dedicamos atenção também às localidades de ocupação temporária e clandestinas destes grupos.

Procuramos captar, portanto, as conformações e conflitos, e as dinâmicas de (re) apropriação e (re) territorialização. Ou seja, os punks observados tanto numa perspectiva imigratória no “espaço do outro”, inseridos em lugares de estranhamento imediato, assim como as suas ações nos espaços familiares e próprios.

Além disso, dedicamos atenção aos debates, confrontos, disputas e maneiras de convívio entre as variadas tendências no interior do movimento, e suas respectivas relações com a cidade. Sobre estas discussões, estão presentes temas como as relações políticas, de classe, etnia e gênero. Buscamos um entendimento da forma como estes aspectos se incorporaram nos espaços, suas coerências e contradições observadas nestes processos.

Para concluir, destacamos as nossas tentativas de capturar os locais estabelecidos, as ruínas dos espaços temporariamente ocupados e seus respectivos rastros, além dos estigmas destas experiências inscritas no espaço urbano.

Estes espectros dos punks na cidade são os motes que nos conduzem para o terceiro capítulo, São Paulo, cidade entreaberta.

Neste ponto da narrativa, as relações entre o espaço urbano e os punks em movimento já foram convertidas em um sistema de imagens da cidade.

Como é o espaço urbano lido pelos punks? Buscamos as respostas para este questionamento através da experiência destes sujeitos, reconhecidos como coletividade e indivíduos que, a partir de identidades simbólicas comuns e o seu fazer-se como grupo mais ou menos coeso, produzem, reproduzem e transmitem as suas respectivas produções culturais em redes de sociabilidade estabelecidas e, em tantos momentos, para além delas. Produções culturais que, pela sua essência, possuem a cidade como suporte substancial de suas práticas e reproduções.

Fenômeno procedente das entranhas das grandes cidades, sistematicamente setorizadas e estratificadas social e historicamente, os punks possuíam-nas como origem comum e suporte para suas manifestações, ritualísticas, conflitos diversos com grupos de ideologias divergentes ou gangues rivais, e também as festas. Relações de profunda intensidade estabelecidas com a urbe que, após o processamento de suas texturas constituintes através dos códigos culturais dos punks, resultam em emblemas, sensibilidades e visões singulares sobre a cidade.

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20 Imagens dialéticas representadas nas escritas das páginas dos fanzines, panfletos e manifestos, nos acordes, letras e composições musicais, fotografias, ilustrações dos encartes dos discos e cartazes, que nos revelam descrições que abrangem desde as perspectivas generalistas da cidade, até as micro-dimensões cotidianas que, muitas vezes, se revelam imperceptíveis entre as camadas temporais sobrepostas umas às outras.

A cidade como espaço de produção e consumo de representações se apresenta como uma caótica multiplicidade de reflexos de si. Como um espelho em fragmentos, a cidade não reflete uma imagem única, naturalmente predominante, oficial, que hierarquizaria as outras representações, algumas com maior ou menor espaço de reflexo no espelho fraturado. Esta imagem, ou sistema de imagens, quase sempre uma construção idealizada grandiloquente, uma entidade urbana quase fictícia e demasiado distante das práticas de seus habitantes e que, usualmente se sobrepõe às demais representações, não é fixada autonomamente, como mágica. E, sim, historicamente instituída como única representação possível e exclusiva da cidade.

Esta tentativa configuraria uma imposição absoluta e de domínio de forças no ordenamento destas representações, posicionadas umas sobre as outras, e com o favorecimento de apenas uma, ou algumas poucas representações que refletiriam no espelho tão somente as construções culturais dos grupos dominantes, vencedores da história.

Medida preventiva, como resultado de disputas travadas entre os poderes sociais, da qual os agrupamentos perdedores e coagidos têm expropriado também o seu direito à memória, e tampouco teriam a garantia de algum espaço no reflexo do espelho, até mesmo em algum de seus cacos.

Sob o domínio dos grupos que detém a hegemonia dos espaços de produção das representações, o espelho é, na maior parte das vezes, posicionado estrategicamente para revelar apenas uma imagem, ou um conjunto de imagens que não coloquem em risco a conservação de suas representações usuais.

Possuir o domínio hegemônico das representações da cidade e, consequentemente, dos meios de produzi-las e reproduzi-las é, também, uma maneira de subjugá-la.

A cidade que em determinado período comportou e ainda comporta todo o curso da movimentação dos jovens punks, provavelmente conserva em seus substratos, de forma orgânica, reflexos fragmentários das características essenciais que definem e

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21 qualificam este mesmo movimento. Toda a movimentação de um grupo urbano distinto, não pode ser entendida separada das dinâmicas e das características históricas da cidade que o comporta.

E, inversamente, a cidade não pode ser compreendida em sua universalidade e complexidade, se as vozes dos sujeitos e grupos que a produzem e reproduzem cotidianamente forem desconsideradas e ocultadas de modo sistêmico ou, não menos imperdoável, negligente.

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22

CAPÍTULO 1

CIDADE, ESPAÇO DO PUNK

Violência é o que vejo Em todo ponto da cidade Pessoas que se matam a toa Por qualquer banalidade Elas que às vezes pensam Que estão fazendo grande coisa Brigando por qualquer motivo Aniquilando outro ser vivo Maldito é esse mundo Imbecis são essas pessoas Que lutando pela sobrevivência Acabam gerando mais violência LIXOMANIA, Violência e sobrevivência. São Paulo, 1982. 5 Desde seu surgimento nas cenas dos grandes centros urbanos, o punk tem sido tema de polêmicas e controvérsias inevitáveis. “Desajustados” e “marginais” são os costumeiros e previsíveis adjetivos atribuídos pelo senso comum à desconfortável e sucessiva presença de uma juventude que se rebelou na cidade.

Jovens que, em determinado momento histórico, resolveram se organizar e expor ao mundo uma enorme carga de insatisfação e revolta contra uma condição que se mostrou cada vez mais desfavorável, hostil e ameaçadora às suas próprias existências.

Mas sobre quais condições? Ou, em termos mais precisos, de quais suportes concretos, historicamente, espelhavam-se as práticas, linguagens e manifestações desta juventude e suas respectivas construções culturais?

Sob os signos da urbe, as diversas manifestações culturais praticadas na cidade criam, recriam e condensam as experiências da vida cotidiana, e podem fornecer indícios para entender, ao menos em parte, as vivências urbanas de um determinado contexto histórico.

Arrebatados pelas luzes, ruídos, feições, vozes e odores da cidade, nossos sentidos são capazes de captar e decodificar, através de nossos sistemas particulares de valores, uma ampla associação de símbolos materiais e imateriais. Além disso:

a cidade como potência de imagens destaca-se do destino de sua representação. Ela não desequilibra apenas os hábitos de representação, mas provoca a todo momento,

5 LIXOMANIA. Violência e sobrevivência. In: Violência e sobrevivência. São Paulo: sem gravadora,

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23 em todo lugar, visões que ainda não são representações. Essas visões que se tornam imagens, mesmo que sejam às vezes próximas de estereótipos visuais, têm um ponto em comum: sua emergência, superposição e circulação perturbam a estabilidade de nossas representações usuais.6

Para alcançar representações alternativas da cena urbana, resultado de novas práticas culturais que irrompem no cotidiano, cabe ultrapassar o limite das representações usuais e homogeneizantes da cidade, algo que o filósofo francês Henri– Pierre Jeudy apontou como “totalitarismo da representação”.7

Investigar novas formas de apreensão e usos do espaço urbano, e a afirmação de conexões históricas entre estes esquemas simbólicos distintos sinalizam uma alternativa às representações arbitrárias da cidade. Mas quais símbolos exatamente? Formulados como e por quem? Em qual tempo e lugar?

A cidade tem sido, por excelência, o espaço fundamental das vivências e intervenções dos punks. Sociabilidades, disputas, conflitos, ações e manifestações culturais, operadas na maioria das vezes no espaço social público, os punks em movimento mantiveram constante contato e diálogo, tanto com grupos que compartilham dos mesmos códigos de identidade, quanto com grupos distintos. São as conexões estabelecidas entre os punks e a cidade que revelaram um dos muitos conjuntos de imagens refletidos num espelho multifacetado.

Com suas imersões peculiares e acesso aos interstícios da cidade, muitas vezes invisíveis, alguns até dificilmente acessíveis, os punks desenvolveram organicamente uma relação cada vez mais intensa com estes espaços.

Lugares da cidade em que o movimento punk construiu as suas práticas, onde desenvolveu um sistema de “representações mentais” (imagéticas, musicais, gestuais, etc.) e “objetais” (insígnias, vestuário, etc.) resultadas de todo um processo de construções identitárias.8

Ali determinaram também os limites de suas fronteiras ideológicas e discursivas, após disputas por estes significados entre os grupos, estabelecendo regras de conduta

6 JEUDY, Henri-Pierre. O espelho das cidades. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005, p. 92. 7

Idem, p. 84.

8 Escolhemos os conceitos de representação e identidade formuladas por Bourdieu a partir das discussões

do autor sobre a ideia de região. BOURDIEU, Pierre. A identidade e a representação: elementos para uma reflexão crítica sobre a ideia de região. In: O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand, 2004, p. 107-132.

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24 próprias. Como resultado, os punks delimitaram seus espaços de ação, físicos e ideológicos, em regiões9 simbolicamente reconhecidas e distintas, em toda diversidade e

complexidade destes indivíduos e grupos em movimento.

A partir destas conexões, levantamos representações simbólicas e imagens da cidade através dos olhares dos punks. E ao considerá-los como “operadores práticos das construções sociais de objetos” 10

, interpretamos nas fontes as representações históricas destas regiões sociais, e suas relações de identidade/alteridade estabelecidas pelo grupo com estes espaços.

E qual a natureza destas cidades que, em determinado momento, propiciou as condições para a propagação de padrões históricos das experiências da juventude que aderiu ao punk, e suas respectivas reproduções, intervenções e toda a carga de experiências vivenciadas nestes mesmos locais? Seriam mensuráveis os níveis do impacto histórico das práticas dos punks no espaço urbano?

O movimento punk, contextualizado nas dimensões temporais e materiais da cidade, permitiu apreender no campo das representações uma reconstituição, ou reconstituições, de seus aspectos históricos específicos, compreendida nesta abordagem como local que, de acordo com Michel de Certeau11, comporta múltiplos espaços

praticados, os quais podemos (re) significá-los como cenários e ambientes das construções históricas do movimento punk.

As práticas e os modos de fazer cotidiano dos punks, em sua prevalência de cunho táticas, quando imersos nas circunstâncias e tempos nem sempre favoráveis a eles na cidade, tiveram neste trabalho um olhar mais atento.

Para Certeau, estas táticas são performances operacionais dos que estão abaixo, na maior parte das vezes dependentes de improvisos e artimanhas diversas para esquivar-se dos métodos de controle numa ordem planejada. Imigrantes que vagam nas fendas de um sistema de poder cuja lógica organizativa lhes é estranha.

9 BOURDIEU, Pierre. A identidade e a representação: elementos para uma reflexão crítica sobre a ideia

de região. In: O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand, 2004, p. 107-132.

10

A expressão toda é de Bourdieu. Convergimos aqui às construções conceituais de região, espaço social e habitus realizadas pelo autor, que categorizou diferentes dimensões de conflito na sociedade, e os reconhece como motores da vida social, com destaque da ação individual e da construção simbólica de identidades coletivas. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand, 2004.

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25 Por isso, são também parte de uma resistência, um ruído, uma dissonância, cujas intervenções nem sempre são alcançadas pelos cálculos racionais e estratégicos, quase sempre relacionados organicamente com as autoridades estabelecidas.

É o fraco que, por um raro e mero instante, consegue tomar para si o tempo que pertence ao forte.12

Certeau define com precisão esta dicotomia entre tática versus estratégia, em que “(...) comandada pelos acasos do tempo, a tática é determinada pela ausência de poder assim como a estratégia é organizada pelo postulado de um poder”. 13

O autor insiste ainda que “as estratégias apontam para a resistência que o estabelecimento de um lugar oferece ao gasto do tempo; as táticas apontam para uma hábil utilização do tempo, das ocasiões que apresenta e também dos jogos que introduz nas fundações de um poder”.14

Neste ponto, é necessário o entendimento das distinções entre as ideias de lugar e espaço, também como dicotomia, concebidas por Certeau. O lugar seria um ordenamento estrutural, uma configuração resultada de um planejamento prévio, racionalizado e idealizado para uma localidade, procedimento diretamente relacionado aos organismos de poder e controle social. Seria o postulado físico, a materialização de uma lógica que deseja regular e determinar os fluxos, comportamentos e ações num determinado local.

A ideia de lugar enseja o ajustamento, a consolidação e a combinação de convenções e pressupostos num esforço de conservação e cristalização de práticas que se acomodem às suas diretrizes estratégicas próprias.

Inicialmente, entre espaço e lugar, coloco uma distinção que delimitará um campo. Um lugar é a ordem (seja qual for) segundo a qual se distribuem elementos nas relações de coexistência. Aí se acha, portanto, excluída a possibilidade, para duas coisas, de ocuparem o mesmo lugar. Aí impera a lei do “próprio”: os elementos considerados se acham uns ao lado dos outros, cada um situado num lugar “próprio” e distinto que define. Um lugar é, portanto, uma configuração instantânea de posições. Implica uma indicação de estabilidade.15

12 Idem, p. 172. 13 Idem, p. 101. 14 Idem, p. 102. 15 Idem, p. 201.

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26 Em contrapartida, o espaço seria um campo de forças que recebe as ações concretas dos sujeitos. A prática espacializante que abrange não apenas as conformações e ajustamentos das pessoas ao lugar, mas também inclui as ultrapassagens das delimitações, o rompimento de cercas e fronteiras, as errâncias, as desobediências, as ocupações e as apropriações táticas que, eventualmente, destoam da disciplina incorporada pelo lugar. Esta prática espacial é a experiência histórica dos indivíduos no tempo (e dos sujeitos organizados em coletividades), são as existências reais que comportam as relações de tensão/ajustamento, resistência/conformidade, estranhamento/familiaridade diante dos protocolos, códigos simbólicos e normas do lugar constituído.

No entanto, a relação entre estas duas noções evidencia níveis de mobilidade conceitual, numa possibilidade de inversão destas extremidades que se modificariam em um contexto factível. Desta forma, o espaço quando praticado em padrões rítmicos mais ou menos constantes, delimitando novas regras e distinções próprias, poderia se converter em um novo lugar. Ou ainda, numa possibilidade de movimento reverso, o novo lugar consolidado se torna novamente espaço de outras práticas que o confronte, e assim sucessivamente.

Estas pulsações e ritmos característicos das intervenções, das práticas, das transgressões das disciplinas, das formas de uso e do consumo do espaço urbano pelos punks, eventualmente nos revelam representações características da cidade. Estes sistemas de imagens urbanas construídas através dos fazeres e discursos incorporados nos produtos culturais do movimento punk (composições musicais, poesias, discos, panfletos, cartazes, publicações escritas de baixo orçamento como os fanzines, e outras) produzidos e reproduzidos como prática cultural, nos permitiu redescobrir e retomar uma parcela das dimensões humanas nas suas relações com o ambiente urbano.

Além disso, apreendemos aspectos históricos ocultos, através da experiência vivenciada e, de alguma forma, registrada por estes personagens da cidade.

A respeito deste processo, buscamos um primeiro entendimento sobre a ideia de cidade. O filósofo francês Henri Lefebvre16 nos oferece para esta finalidade uma notável

definição:

(...) a projeção da sociedade sobre um local, (...) percebido e concebido pelo pensamento que determina a cidade e o urbano, e que esta projeção (...) não é apenas

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27 uma ordem distante, uma globalidade social, um modo de produção, um código geral. É também um tempo, ou vários tempos, ritmos. Escuta-se a cidade como se fosse uma música tanto quanto se a lê como se fosse uma escrita discursiva.17

Nesta consideração da cidade como local de dimensões sobrepostas e simultâneas apontadas por Lefebvre, o autor não desprende sua definição da análise crítica das dinâmicas de produção e reprodução capitalista no espaço urbano, do qual:

(...) não pode ser mais concebido como passivo, vazio, ou então, como os “produtos”, não tendo outro sentido senão o de ser trocado, o de ser consumido, o de desaparecer. Enquanto produto, por interação ou retroação, o espaço intervém na própria produção: organização do trabalho produtivo, transportes, fluxos de matérias-primas e de energias, redes de repartição de produtos. À sua maneira, produtivo e produtor, o espaço, mal ou bem organizado, entra nas relações de produção e nas forças produtivas. Seu conceito não pode, portanto, ser isolado e permanecer estático. Ele se torna dialético: produto-produtor, suporte de relações econômicas e sociais.18

A propósito do entendimento prévio da cidade como espaço dialético e em constante movimento, reordenamento e reconstrução, de suporte dinâmico das relações econômicas e sociais, acrescentamos também na formulação de Lefebvre a dimensão cultural nestas mesmas relações.

Local designado, a priori, para a produção, circulação e consumo de mercadorias e capitais, mas não apenas disso e também, fundamentalmente, de pessoas e ideias, as cidades modernas bem ou mal têm se ajustado e assimilado os impactos das transformações econômicas, sociais e políticas através da história.

O pensamento modernista no urbanismo19

não poderia ser desconsiderado, na condição de tentarmos compreender as características substanciais do ambiente urbano em que os punks existiram.

Executado a partir do século XIX nas principais cidades da Europa como principal centro difusor, e hegemônico e mundializado desde o final da Segunda Guerra

17 Idem, p. 62. 18

LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Paris: Anthropos, 2000. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l‟espace. 4° ed. Paris: Éditions Anthropos, 2000, p. 20).

19 CHOAY, Françoise. O urbanismo: utopia e realidades de uma antologia. São Paulo: Perspectiva,

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28 em 1945, o pensamento modernista se encarregou da reconstrução das localidades destroçadas pelos conflitos então recém consumados.

Legitimado através do discurso funcionalista e técnico-cientificista, herdeiro do pensamento intervencionista e de práticas preventivas dos sanitaristas do século XIX, numa síntese entre os saberes médicos com a engenharia20

, os grandes planejadores urbanos obtiveram também o consenso para o remodelamento e readequação de outras grandes cidades pelo mundo.

Transformações topográficas e arquitetônicas das cidades empreendidas de acordo com as dinâmicas econômicas, igualmente mundializantes do capitalismo em novo ciclo de ascensão.

Consenso adquirido por parte dos urbanistas oficiais, confortavelmente ajustados às esferas dos poderes políticos na ordem geopolítica mundial recém estabelecida, através de uma articulada e bem sucedida reivindicação de uma “verdade” urbanística.

Os grandes projetos urbanísticos então idealizados possuíam como matriz um pensamento sobre a cidade e, neste caso específico, fora elaborado a partir da lógica funcionalista, que pressupõe a universalização da técnica e do discurso científico como autoridade inconteste e neutra, para justificar perante a sociedade as escolhas das diretrizes estruturantes das cidades.

Nestes processos de remodelamento das cidades, muitas vezes executados de forma radical e impessoal pelas autoridades, promovendo intermináveis intervenções no espaço urbano, e privilegiando o fluxo de mercadorias e do consumo em larga escala, possibilitou um processo contínuo de investimento e valorização de determinadas regiões, e o abandono e degradação de outras.

O processo de setorização no planejamento urbano das cidades obedeceu a uma lógica sui generis da divisão classista social. Espaços públicos de sociabilidade e também de moradias populares foram e, continuam sendo, sensivelmente afetados.

A respeito das condições de vida nas cidades modernizadas a partir do século XIX, Bresciani chama a atenção para o desenvolvimento de uma nova sensibilidade pelos citadinos, que reeducam seus sentidos para buscar orientar adequadamente a sobrevivência no ambiente urbano:

20 BRESCIANI, Maria Stella. Cidade e história. In: OLIVEIRA, Lúcia Lippi (org.) Cidade: história e

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29 Individualismo – o homem transformado em mônadas (Engels, 1960 [1845]) – e seus complementos, o anonimato das cidades e a busca contínua da sobrevivência ou dos interesses individuais estabeleciam distâncias entre as pessoas que passariam a se reconhecer principalmente pela aparência.21

Inseridos neste contexto, os punks construíram suas imagens e impressões sobre estes processos, organizados como movimento produtor e reprodutor de uma linguagem cultural particular sobre as suas existências, reunidos em torno de uma identidade concebida também através da aparência, principalmente pelas vestimentas e codificações visuais em suas camisetas, jaquetas, botas, cortes de cabelo, gestos, etc.

Podemos considerar estas produções lugar privilegiado de análise de particularidades da cidade, e suas respectivas memórias e dinâmicas históricas. Bresciani conduz a um raciocínio semelhante sobre uma possibilidade de recuperar aspectos da cidade, ao observarmos as particularidades e interstícios da memória dos habitantes e transeuntes em suas múltiplas camadas dimensionais. Deste modo, seria possível decifrar elementos de suas diretrizes estruturais através do resgate histórico22

e análises destas memórias:

Nossas cidades modernas encontram-se inversamente despidas de memórias não representadas pela razão; seus mitos de fundação constituem elaborações históricas. Nelas, se nos dispusermos a voltar a atenção para os traços de memórias gestuais, de comportamentos diversos, ou seja, de uma memória em ação, estaremos talvez aptos a olhar para as memórias como elementos arquiteturais, considerando-as também um dos elementos estruturantes do meio urbano.23

21 BRESCIANI, Maria Stella. Cidade e história. In: OLIVEIRA, Lúcia Lippi org. Cidade: história e

desafios. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getúlio Vargas, 2002, p. 28 e 29.

22 Escolhemos a utilização do termo “resgate” como referência às teses benjaminianas da história. Aqui

especificamente, sobre a ideia da memória como construção e redenção do passado, é a operação em que o historiador retira, ou resgata, o seu objeto de análise do “curso homogêneo da história”. Neste processo, buscam-se as construções de experiências únicas e imagens de um passado muitas vezes esquecido, ignorado, além do rompimento com a reprodução de uma imagem cristalizada e imóvel do passado. Ver: BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito da história. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 241-252.

23 BRESCIANI, Maria Stella. Cidade e história, p. 28, 29. In: OLIVEIRA, Lúcia Lippi org. Cidade:

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30 Especificamente sobre a cidade de São Paulo, numa análise histórica de duração um pouco maior, podemos notar formas distintas de organização do espaço urbano desde o final do século XIX, todas elas concebidas e padronizadas por regras de segregação. De acordo com a antropóloga Teresa Caldeira24

, três padrões diferentes de segregação social do espaço urbano de São Paulo podem ser observados a partir de sua industrialização.

O primeiro padrão, datado no final do século XIX até 1940, apresentava um tipo de segregação notado basicamente por diferenças nas moradias, mas com um compartilhamento comum do espaço público.

Da década de 1940 até os anos oitenta, o segundo padrão de segregação já denotava um caráter evidente de separação de classes no desenvolvimento e crescimento da cidade, num processo urbanístico que privilegiou a região central e direcionou moradores pobres e trabalhadores para as regiões periféricas.

O terceiro padrão de segregação social, que de acordo com a autora vem ocorrendo desde a década de 1980, configura-se em um novo processo de isolamento das classes altas para se separar e diferenciar das classes pobres, muitas vezes próximas geograficamente. Este processo se constitui, principalmente, através da constante fortificação de espaços para moradia, lazer e trabalho, com muros, grades e equipamentos de vigilância.

E numa perspectiva um pouco mais contemporânea, estes aspectos de segregação do espaço tornam-se mais acentuados com processos e políticas oficiais, nem sempre sutis, e algumas vezes até realizadas com o uso da violência policial. Expulsão, exclusão e confinamento dos moradores pobres das regiões centrais, anteriormente “degradadas”, em direção às áreas periféricas da cidade por conta, principalmente, das atividades especulativas do ramo imobiliário, têm se tornado rotina no cotidiano da cidade.

Esta problematização demonstra uma crise de identidade do espaço público e a cidade sendo aos poucos reconfigurada por um crescente sentimento de insegurança e isolamento. Circunstância que, provavelmente, resultaria num desejo de fuga sem a necessidade do deslocamento para fora da própria cidade.

24 CALDEIRA, Teresa. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Ed.

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31 É a imposição de um modelo urbanístico excludente. Disjunções que, numa contradição evidente, colocam em questionamento não apenas a suposta universalidade e democratização no uso destes espaços urbanos idealizados, mas também a facilidade e fragilidade do discurso e da crença pretendidos pelos planejadores das cidades modernas: da possibilidade de eliminação dos já existentes e históricos conflitos sociais tão somente através dos planos urbanísticos e arquitetônicos.

Contudo, a análise da natureza do espaço urbano, notadamente do processo de desenvolvimento da cidade sob a ideologia tecnicista e funcionalista, se tornaria árida no caso de ser dissociada de uma investigação com perspectiva histórica.

Sobre esta questão específica, Kowarick25 oferece um panorama histórico sobre

as condições de vida nas periferias da cidade de São Paulo, em certa medida, resultado destes processos. O autor descreve, alinhado de certo modo às análises de Caldeira26, um

modelo de urbanização historicamente segregador, caótico e predatório. Processo que, na maioria das vezes, resultou na negligência dos direitos básicos dos cidadãos pelas políticas públicas, prevalecendo uma concepção de ordem social benéfica à acumulação capitalista, e socialmente omissa.

Recursos destinados pelos poderes públicos para as construções e equipamentos urbanos são empregados desigualmente, com maior concentração e consequente valorização para as áreas centrais.

Processos estes que resultaram em condições de “subcidadania” dos moradores das periferias. Dependentes apenas de seus recursos, recorreram às construções autônomas e, muitas vezes, improvisadas de suas moradias localizadas nestes locais, nos quais milhares delas são consideradas pelos poderes públicos como irregulares, ilegais ou clandestinas.

As condições precárias dos “subcidadãos” nas periferias, sujeitos a toda sorte de adversidades cotidianas, têm fornecido a base oportuna para a construção de uma noção e imagem de criminalização e marginalização dos moradores destas regiões pelos poderes estabelecidos.

Julgamentos que têm sido difundidos em larga escala por setores da imprensa sensacionalista, que legitima as ações de controle, repressão e violência sobre estas

25 KOVARICK, Lúcio. Escritos urbanos. São Paulo: Ed. 34, 2009.

26 CALDEIRA, Teresa. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Ed.

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32 populações pelos aparatos policiais. Esta é uma das temáticas recorrentes, retratada em boa parte da produção cultural punk.

Neste panorama, os punks em movimento, situados nesta conjuntura histórica e social específica, são contemplados na história como sujeitos, tanto pelas suas respectivas relações culturais de identidade, quanto através do compartilhamento de suas experiências na ordem social, coletiva ou individualmente. E nesta dinâmica, consideramos os punks como parcela contribuinte às construções sociais e culturais das classes operárias.27

De acordo com E. P. Thompson, uma classe apenas pode ser considerada como tal em um processo concreto, como resultado de padrões empiricamente comprováveis e experiências comuns, no seu fazer-se particular. Em suas palavras, “(...) a classe é definida pelos homens enquanto vivem a sua própria história (...)”. 28

Ao investigar a história do ambiente urbano, espaço condensador das ações humanas por excelência, suas interações, intervenções e práticas, nos colocamos diante de uma primeira preocupação epistemológica, dilema exaustivamente discutido por Thompson: a estrutura versus o processo histórico.29

O primeiro conceito, de acordo com o autor, de tendência dominante e totalizante, poderia distorcer a percepção de determinadas nuances da realidade objetiva pelo historiador. Tal aplicação conceitual poderia mostrar-se inadequada à apreensão das dinâmicas históricas e o empreendimento da reflexão, por preliminarmente submeter os dados do real e evidências empíricas coletadas às enunciações e regras pré-estabelecidas de um arcabouço teórico taxativo, que se faz crer pretensamente imune às transformações históricas. Ele esclarece tal posicionamento: “A estrutura, como uma baleia, abre suas mandíbulas e engole o processo: a partir de então, o processo sobrevive

27 O termo “classe” é aqui compreendido no sentido metodológico do materialismo histórico

thompsoniano, como categoria histórica mutável, não estática, validada fundamentalmente pela práxis dos indivíduos em um mesmo contexto histórico. Nesta elaboração, as concepções puramente estruturalistas e economicistas do termo são rejeitadas, pelo fato destas formulações pensarem como fatores essenciais à categorização de uma classe, tão somente a posição econômica e social de seus agentes frente ao modo de produção capitalista. Discussões e referências no decorrer do texto.

28THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. (3°

vol.) p. 12.

29 THOMPSON, E. P.. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de

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33 infeliz na barriga da estrutura. (...) O processo (engolido) está inscrito na estrutura e sobrevive como o desenvolvimento das formas dessa estrutura”.30

Como antítese do estruturalismo que rejeita a mobilidade dos agentes, que congela e naturaliza padrões transitórios e, posteriormente, exclui as operações concretas da história, a ênfase se aplica no processo histórico. Como movimento constante e dinâmico, a história sob uma perspectiva de processo, inclina-se a favor de flexibilizar categorias e readaptar conceitos de acordo com transformações e novos contextos percebidos. Esta formulação se confraterniza com as ações humanas concretas e a própria história.

A concepção de história como processo, como negação de um “continuum histórico‟, um tempo passado homogêneo e vazio, do qual a ideia de „natureza histórica‟ opõe-se à da liberdade de escolha”,31 nos associa imediatamente a outra noção

fundamental postulada por Thompson para uma tentativa de assimilação das dinâmicas reais do mundo concreto: a experiência.32 Em uma primeira e mais apressada definição

do termo, a experiência, de acordo com Thompson, seria o resultado do “diálogo entre o ser social e a consciência social”.33

A categoria experiência reforça a observação sobre as ações humanas que, em determinadas circunstâncias, se agitam, se opõem, se chocam e rasgam o tecido da consciência social regular. Contudo, são sinais que devem ser examinados em padrões mais ou menos frequentes, e empiricamente comprovados através dos vestígios e da

30 THOMPSON, E. P.. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de

Althusser. Rio de Janeiro: Zahar, 1981, p. 105.

31

A ideia acima não é uma citação, mas uma tentativa de síntese alusiva às formulações gramscianas e benjaminianas sobre a história como processo, e que, muito provavelmente, influenciaram as conceituações apresentadas por Thompson. Ver em: GRAMSCI, Antonio. Concepção dialética da história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978; e BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.

32 Thompson, provavelmente, resgata e articula em sua produção as teses 16 e 17 de Walter Benjamin

sobre os conceitos da história e outros escritos correlatos do autor. O termo “experiência”, traduzido da língua alemã, com as variantes Erfahrung, direcionada para as experiências coletivas sedimentadas, e

Erlebnis, designada especificamente para as vivências do indivíduo, são elementos centrais nas

formulações conceituais de Benjamin. GAGNEBIN, Jeanne Marie. Prefácio. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.

33 THOMPSON, E. P.. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de

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34 materialidade das fontes históricas. É, portanto, “uma categoria que, por mais imperfeita que seja, é indispensável ao historiador, já que compreende a resposta mental e emocional, seja de um indivíduo ou de um grupo social, a muitos acontecimentos inter-relacionados ou a muitas repetições do mesmo tipo de acontecimento”.34

A importância da experiência como categoria no interior da história vista como processo, no fazer-se dos agrupamentos sociais e das classes, suas dinâmicas internas, expansões e contrações, coerências e contradições, tornam visíveis problemas e questionamentos novos que se autorizam argumentar sobre a adaptabilidade de leis e postulados teóricos rígidos, e em determinados contextos justificar a possibilidade de reconstrução destes mesmos pressupostos. “Estamos falando de homens e mulheres, em sua vida material, em suas relações determinadas, em sua experiência dessas relações e em sua autoconsciência dessa experiência”.35

E ainda sobre o protagonismo da prática humana histórica, “os homens e mulheres também retornam como sujeitos, dentro deste termo – não como sujeitos autônomos, „indivíduos livres‟, mas como pessoas que experimentam suas situações e relações produtivas determinadas como necessidades e interesses e como antagonismos, e em seguida „tratam‟ essa experiência em sua consciência e sua cultura (...)”.36

Em sua incessante defesa da história, Thompson37 não mede esforços em

considerar a releitura e reconsideração de categorias e conceitos consagrados, considerando-os como instrumentos auxiliares da análise histórica, e não como finalidade em si, da qual a própria história se tornaria submissa. “Se creio que, de fato, um certo dado histórico não está de acordo com as costumeiras categorias de classe, então, em vez de golpear a história para salvar as categorias, devemos instigá-las com novas análises”.38

Do contrário, as referências empíricas reais, se remodeladas aos pressupostos destes conceitos estabelecidos acriticamente, poderia interferir na construção e compreensão satisfatória do processo histórico. Constatamos a contribuição

34 Idem, p. 15. 35 Idem, p. 111. 36

Idem, p. 182.

37 THOMPSON, E. P. Algumas observações sobre classe e “falsa consciência”. In: NEGRO, Antonio

Luigi e SILVA, Sergio (orgs.). A peculiaridade dos ingleses e outros artigos. Campinas: Editora da Unicamp, 2001. Este artigo foi publicado em 1977, um ano antes da publicação de “A miséria da teoria”.

(35)

35 fundamental, nas indagações das categorias imóveis e pretensamente imunes aos movimentos históricos concretos, na obra do contemporâneo e conterrâneo de Thompson, Raymond Williams.39

Em suas designações de “base e superestrutura” que considera a primeira como espaço primordial da reprodução e atuação dos homens reais na história, aproxima-se das teses resgatadas por Thompson em seu entendimento de história como processo, quando afirma que “(...) devemos dizer que quando falamos de „base‟ estamos falando de um processo, e não de um estado. E não podemos atribuir a esse processo algumas propriedades fixas a serem posteriormente traduzidas aos processos variáveis da superestrutura”.40

Ao se reconsiderar as noções sobre a base, e atribuir a este conceito novos valores que podem se modificar, de acordo com as operações em suas disposições internas próprias, também é desejável um reexame ao conceito de superestrutura como objeto estático, reflexo automático e primordialmente submetido a uma base que a determinaria decisivamente. Williams é incisivo:

Temos de reavaliar a “determinação” para a fixação de limites e o exercício de pressões, afastando-a de um conteúdo previsto, prefigurado e controlado. Temos de reavaliar a “superestrutura” em direção a uma gama de práticas culturais relacionadas, afastando-a de um conteúdo refletido, reproduzido ou especificamente dependente. E, fundamentalmente, temos de reavaliar “a base”, afastando-a da noção de uma abstração econômica e tecnológica fixa e aproximando-a das atividades específicas de homens em relações sociais e econômicas reais, atividades que contém contradições e variações fundamentais e, portanto, encontram-se sempre num estado de processo dinâmico.41

Williams conduz também novas discussões sobre a hegemonia gramsciana e as atualiza, na medida em que afasta este conceito dos mecanismos estruturalistas e as relaciona sob a perspectiva da mobilidade histórica. Sob este mote, o autor reconhece nos movimentos da história o surgimento de novas práticas culturais, nem sempre

39 WILLIAMS, Raymond. Base e superestrutura na teoria da cultura marxista. In: Cultura e materialismo. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

40 Idem, p. 47. 41 Idem, p. 47.

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