Não pretendemos neste trabalho nos estender sobre os processos de formação da cultura punk e seus detalhes mais específicos, apesar de sua fundamental importância. Buscaremos nesta etapa uma síntese essencialmente introdutória e histórica sobre as origens do punk, tema discutido de forma satisfatória, mas não definitiva, em artigos, pesquisas e outros estudos acadêmicos.68
O que propomos é a construção de um entendimento preliminar sobre os punks e a sua cultura, indispensável para posterior fundamentação e análise das suas relações e diálogos com a cidade.
O punk, fundamentalmente, não pode ser entendido separadamente dos contextos históricos das cidades, dos fenômenos culturais da juventude, e de uma
66 DEDECCA, Claudio. O trabalho na metrópole. In: SZMRECSÁNYI, Tamás (org.). História
econômica da cidade de São Paulo. Globo, São Paulo, 2004. P. 238-263.
67 FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2000, p. 295.
68 No decorrer do trabalho utilizamos: TEIXEIRA, Aldemir Leonardo. O movimento punk no ABC paulista: Anjos, uma vertente radical. Dissertação de mestrado em antropologia. São Paulo: PUC-SP, 2007; MILANI, Marco Antonio. Os fanzines como meio de disseminação de saberes. Anais do Congresso de Iniciação Científica da UNESP, 2010; OLIVEIRA, Antonio Carlos. Os fanzines contam uma história sobre punks. Rio de Janeiro: Achiamé, 2006; BIVAR, Antonio. O que é punk. São Paulo: Brasiliense, 1982; GALLO, Ivone. Por uma historiografia do punk. Revista Projeto História n° 41. Dezembro de 2010; MORAES, Everton. A escrita como guerra: ética e subjetivação nos fanzines punk. In: MUNIZ, Celina Rodrigues (org.). Fanzines: autoria, subjetividade e invenção de si. Fortaleza: Edições UFC, 2010.
43 emergente indústria cultural que se apropriou e criou representações dessas manifestações, principalmente a partir dos anos 1950.
Os rebeldes urbanos juvenis atuantes neste período, que de certo modo perturbaram e revolucionaram à sua maneira os costumes no cotidiano das cidades ocidentais, podem ser considerados como os antecedentes diretos dos punks.
Muitas vezes organizados em gangues, saíam pelas ruas, estabeleciam códigos de identidade e de distinção através das vestimentas, dos cabelos, gestos e maneiras de se comportar e, fundamentalmente, buscavam locais de encontro e sociabilidade, e ocupavam territórios na cidade. As ruas e os espaços públicos se configuram historicamente como o espaço fundamental da ação rebelde dos jovens urbanos.
As influências dos conjuntos de rockn‟ roll deste período também são patentes na música punk em sua primeira geração de bandas, principalmente norte-americanas e britânicas dos anos de 1976 a 1979.
Em Nova Iorque surgem Ramones, Television, The Voidoids, Dead Boys. Em Londres Sex Pistols, The Clash, Generation X, The Damned, Slaughter and The Dogs,
The Ruts. Bandas que remetem à simplicidade estrutural e sonora dos primeiros
conjuntos de rock, incorporando uma estética visual agressiva e elementos sonoros estrondosos.
Contudo, antes de imergir um pouco mais sobre as manifestações culturais da música punk, recuamos cinquenta anos para o início do século XX, na Inglaterra. Sobre o fenômeno dos bandos e gangues de rua na Europa a partir do final da década de 1950, isso não se configura uma novidade histórica. Este episódio caracteriza uma espécie de retomada, de forma mais branda e tênue, dos bandos suburbanos ativos do final do século XIX ao início do século XX.
Tomamos aqui como exemplo os bandos da cidade de Manchester, mencionados pelo historiador francês Robert Muchembled,69 conhecidos como scuttlers. Eram grupos
hegemonicamente jovens e se organizavam em bandos que combatiam outros grupos ou indivíduos isolados. Se confrontavam nas ruas com pedras, facas, correntes e outras armas improvisadas.
Pertencentes a uma parcela de indivíduos provenientes das classes operárias, atuavam na defesa de sua sobrevivência perante as hostilidades da vida adulta nas
69 MUCHEMBLED, Robert. A história da violência: do fim da idade média aos nossos dias. Rio de
44 cidades, e na exibição de sua virilidade e honra. Mentalidade herdada diretamente da tradição dos jovens rurais e das classes populares medievais.
Predominantemente do sexo masculino, mas com garotas presentes, os scuttlers deveriam saber demonstrar sua brutalidade e a capacidade de se fazer respeitar na cena urbana. Em matéria de violência, sua atuação se apoiava na supremacia masculina e do machismo. As gangues scuttlers ofereciam um espaço de convívio característico, no qual seus membros adquiriam os valores predominantes no grupo, forjando uma identidade tradicional e conservadora de suas classes de origem. Por conta disso, comumente não questionavam a ordem estabelecida, mas lutavam pela crença numa tentativa de autoafirmação perante sua própria condição, em disputa com outros grupos. As gangues scuttlers representavam, contudo, uma minoria dos filhos procedentes das famílias operárias, das quais a maioria dos jovens não se identificava com estes grupos.
Com o incessante declínio dos casos de morte por violência física, que se tornou residual no século XX na Europa após as guerras, uma grande parte dos jovens contemporâneos são capazes de controlar a agressividade e desviá-la para confrontos simbólicos, principalmente através do esporte ou da expressão intelectual e artística. Os indivíduos transgressores desta regra são rotineiramente originários de locais pouco favorecidos, onde o uso da força e a ostentação da virilidade se conservam como valores imprescindíveis.70
Partindo destes pressupostos, a violência física através da história tem ocupado os vácuos de cidadania nem sempre garantida, tanto pelas políticas governamentais quanto pelas democracias mais recentes, e deste modo tem se disseminado com mais frequência entre os elos mais suscetíveis e vulneráveis da hierarquia social.
Neste caso, a violência praticada pelos jovens suburbanos, invariavelmente membros de uma parcela minoritária desta categoria, se configura numa condição de negação de uma ordem histórica da qual os indivíduos muitas vezes não se vêem representados em seus símbolos civilizatórios, tampouco inseridos de forma verdadeiramente participativa em suas estruturas.
O que lhes restaria é o sentimento da necessidade da disputa e da batalha quase selvagem pela sobrevivência, em um cotidiano de violência e com poucas perspectivas e oportunidades de inserção e aceitação na sociedade.
45 Os grupos de jovens que agem no cenário urbano são fenômenos que se repetem continuamente na história do ocidente,71 mas agora incluídos numa lógica de
urbanização hegemônica.
Após a notoriedade dos scuttlers e outros grupos desobedientes da mesma época e de localidade relativamente próxima, como por exemplo, os hooligans de Londres, os anos do pós-guerra a partir do final da década de 1950 foram testemunha do regresso das gangues e bandos adolescentes.
Este retorno agora se desenvolve num ambiente urbano que, apesar da ausência de guerra, continua impondo hostilidades e um crescente ambiente de competitividade individualista para a sobrevivência, subordinado quase que completamente ao cotidiano do trabalho embrutecedor e enfadonho, e a lógica do consumo de bens materiais.72
A pulsação vertiginosa das ruas, a ausência de espaços de sociabilidade e lazer acessíveis, o desajuste perante a escola, e a massificação em larga escala são fatores que devem ser levados em conta nestas análises dos jovens rebeldes das cidades neste contexto.
As gangues ofereciam aos jovens um espaço de reconhecimento e aceitação coletiva, uma noção de pertencimento, acolhimento e segurança nas etapas de desenvolvimento rumo às adversidades do mundo adulto. Um autêntico “refúgio contra a hostilidade, a incompreensão ou a exclusão”.73
Os blousons noirs e posteriormente os loubards nos anos 1970, originários das ditas “classes perigosas” dos subúrbios franceses, os teddyboys ingleses, nozens na Holanda, skinn knuttar na Suécia, stiliagues soviéticos, foram também expressões patentes do ressurgimento da rebeldia jovem nos últimos anos da década de 1950 e início dos anos de 1960.74
A partir deste cenário de protagonismo e rebeldia da juventude, retornamos ao ponto inicial sobre as manifestações relacionadas ao tema na esfera da cultura.
A indústria cultural apropria-se da temática, personificando representações inéditas da juventude para o cinema, a música e a literatura, como objetos de culto e consumo de massa. 71 Idem, p. 283. 72 Idem, p. 284, 285. 73 Idem, p. 287. 74 Idem, p. 284.
46 Foram projetados alguns ícones na tentativa de representação destes jovens pelos ascendentes meios de comunicação de massa, como o ator de cinema James Dean em “Rebelde sem Causa” de 195575, a escalada do rock com o icônico cantor Elvis Presley
em 195476
, o movimento literário Beatnik composto por escritores como Jack Kerouac que lança em 1957 a obra On the Road 77
, entre outros.
A partir desta circularidade, florescem os movimentos de contracultura nos Estados Unidos e na Europa. Neste recorte temporal, destaca-se uma curva ascendente de efervescência política e movimentos de ação revolucionária em diversas localidades.
Sobre estes eventos, podemos destacar os movimentos de descolonização dos países africanos, entre eles a guerra de libertação da Argélia iniciada em 1954, o triunfo dos jovens rebeldes na Revolução Cubana em 1959, o surgimento da internacional situacionista em 1957 78, e um pouco mais adiante os provos holandeses.79
Movimentos distintos da juventude que adquiriram contornos políticos mais radicais. No caso dos situacionistas franceses, aproximadamente uma década mais tarde, exerceriam substancial influência e envolvimento direto nos acontecimentos rebeldes de Maio de 1968 na França. 80
O contexto a partir de 1968 pôs em evidência todo o caldo cultural revolucionário que, de certa maneira, transcendeu a categoria dos jovens e se difundiu praticamente por todos os continentes: do enfrentamento estudantil e dos militantes de esquerda armados contra os regimes ditatoriais na América Latina, da resistência organizada e autônoma dos negros territorializados na cidade de Los Angeles nos
75
Idem.
76
FRIEDLANDER, Paul. Rock and Roll: uma história social. Rio de Janeiro: Record, 2006, p. 70 – 73.
77 ROSÁRIO, André Telles do. Pé nas encruzilhadas: trajetos e traduções de On The Road pela América
Latina. Recife: 2012, p. 10.
78 Sobre a Internacional Situacionista e sua relação específica com o movimento punk, ver a publicação
brasileira de Stewart Home, Assalto à cultura: utopia, subversão, guerrilha na (anti) arte do século XX, lançada em 1999.
79 Para um panorama preciso sobre a trajetória deste movimento, ver - Provos: Amsterdam e o
nascimento da contracultura, de Matteo Guarnaccia, lançado no Brasil em 2001.
80 Dois relatos distintos sobre o Maio de 68 francês podemos encontrar em - Paris: maio de 68, escrito
pelo coletivo inglês Solidarity um mês após os acontecimentos, traduzido e lançado no Brasil em 2003. O outro é a publicação de Angelo Quattrocchi e Tom Nairn, O começo do fim: França, Maio de 68, lançado no Brasil em 1998.
47 Estados Unidos, das rebeliões de estudantes e operários na França e Japão, do levante na Tchecoslováquia, da luta popular vietnamita anti-imperialista, entre outros exemplos.
A energia engendrada pelos movimentos rebeldes ofereceu substanciais empréstimos absorvidos pela indústria cultural e, paralelamente provocou, inclusive, rupturas e novas discussões paradigmáticas nos setores intelectuais e acadêmicos no decorrer dos anos seguintes, principalmente nas ciências sociais.
A juventude erguera-se como categoria de representação ao lado da ascensão de outros grupos anteriormente segregados e com poucas possibilidades de inserção de suas vozes na política, através de organizações e movimentos: negros, estudantes, feministas, ecológicos, pacifistas, anti-nucleares, etc.
A partir de então o rock tornou-se, de certo modo, cada vez mais um dos meios de expressão de uma juventude mobilizada como nunca antes. Mobilização que se operava através da música e de uma atitude contestatória incorporada ao som, num ruído contínuo que clamava pela liberdade, mas que ao mesmo tempo, em boa parte das vezes, negava uma participação mais efetiva na política. Deste modo, o clamor e o desejo pela liberdade, com esporádicas exceções, fora conclamado de uma forma irresolutamente vaga, espontânea, mecânica, e demasiadamente instintiva, como ocorrido no festival Woodstock de 1969.
O espírito lisérgico e libertário interpenetrou o rock como a música de massas daquele momento. Os Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Jimmy Hendrix e uma onda rock progressiva e psicodélica se consolidaram na cena da indústria cultural, e tornaram-se fenômenos de popularidade e vendas.
O rock desbancara o jazz e o blues no gosto popular, tornando-se uma sensação revolucionária de consumo de massa.81
Suas mensagens, algumas vezes rebeldes e veículo de transgressões comportamentais, incorporavam-se no cotidiano do público alcançado pelos meios de comunicação, principalmente jovem.
De acordo com Hobsbawm, associado à juventude, o rock tornou-se uma “linguagem cultural universal” e que “atravessou fronteiras de países, classes e ideologias”.82
Os efeitos e resultados da inserção do rock nos cotidianos populares, e a forma como as pessoas absorveriam estas informações e os seus posteriores usos e
81 HOBSBAWM, Eric. História social do jazz. São Paulo: Paz e Terra, 2012, p. 14. 82 Idem, p. 18,19.
48 reproduções neste processo seriam, em certa medida, absolutamente indetermináveis e incontroláveis.
Para a juventude rebelada mais radical, o rock dos anos 50 e 60 havia alcançado uma exaustão e esgotamento, com seus ídolos sobreviventes mergulhados na fama, e demasiadamente acomodados, ricos e cada vez mais distantes de suas realidades.
Na concepção deles, esta música teria se transformado em algo enfadonho, inofensivo, e que os artistas tão somente vislumbravam o lucro e as vendas e, algumas vezes, revelavam-se personagens caricatos. De certa maneira, uma percepção reflexiva das dinâmicas inerentes da indústria da música, dos processos mercadológicos e da reificação das manifestações musicais, que aumentaria paulatinamente nos anos posteriores.
Porém, na metade dos anos de 1960 na América, ocorre uma reinjeção de ânimo revolucionário numa nova cena de jovens que formavam bandas e tocavam seus instrumentos nos sótãos, ambientes estudantis e universitários, garagens, e pequenos bares das cidades de Lima (Los Saicos), Chicago (The Stooges) e Detroit (MC5 e
Death).
Paralelamente na Europa, principalmente em Londres, novos grupos de jovens tomavam o espaço urbano e se organizavam em grupos, como os mods que podem ser considerados como os sucessores dos teddyboys ativos na década anterior. Neste novo cenário, surgiriam bandas como The Who, Small Faces, The Action e outras.
Estas bandas americanas e européias traziam de volta a energia e simplicidade do rockn‟roll das décadas anteriores, e incorporavam mais velocidade, agressividade e ousadia em suas composições.
Iniciando suas atividades na cidade de Lima em 1964, o rock de garagem dos peruanos Los Saicos, pela sua irreverência, vocais guturais e melodias rústicas, foi considerado um dos pioneiros da enérgica nova musicalidade.83
O volume caótico e a sonoridade vigorosa, aliados a discursos de rebeldia politizada e de subversão revolucionária, no caso da banda MC5 de Detroit, colaboraram a conduzir o rock para uma dimensão paralela e alternativa mais radical.84
83
MENDOZA, Fidel Gutierrez. Wildmen in the City: A Story About Los Saicos. In: Los Saicos: Demolición: The complete recordings. Munster Records, Espanha, 2010 – Encarte, p. 16.
84 A banda MC5 em sua trajetória tornou-se célebre pela aproximação e apoios declarados aos
movimentos radicais de esquerda estado-unidenses, principalmente ao Partido dos Panteras Negras. Liderados principalmente por John Sinclair, ativista cultural e empresário da banda, ao lado de Wayne
49 As performances iconoclastas, perturbadoras e niilistas dos Stooges nos palcos de Chicago, desafiando a tudo e a todos, se conectavam e aproximavam dos anseios de uma parcela da juventude suburbana que se tornou mais questionadora, e cada vez mais inconformada.
Em termos sonoros estéticos, e de uma inédita autonomia e independência na produção de suas músicas, o trio Death, também de Detroit, foi considerado recentemente a “banda que era punk antes do punk existir”.85
Em recentes declarações, os integrantes da banda, com exceção do guitarrista falecido, afirmaram que a transição da música que praticavam para o rock consolidou-se após o guitarrista ter presenciado um concerto da banda britânica The Who em sua cidade, e que após isso, os teria convencido a mudar os rumos da banda.86 Anteriormente, eles desenvolviam uma
linguagem musical mais próxima do funk e do fusion.87
O rock, apesar da disseminação superficial e esvaziada de sua substância original pela indústria cultural em larga escala, continua sendo o ritmo que embala a rebeldia, mas, percebido e ressignificado a cada momento, e em contextos distintos.
Por conta dos primeiros sinais de adversidade social vivenciada por parte desta juventude desde o período pós-guerra, em circunstâncias de uma nova rodada cíclica de crises do capitalismo, os jovens descontentes se insurgem de forma mais contundente contra o sistema e a sociedade que, a partir de agora não apenas os rejeita cultural e socialmente, mas os oprime também economicamente.
O rock produzido e reinterpretado nestas condições adquiriu, cada vez mais, contornos de rebelião, distúrbio e inquietação. Elementos incorporados na sonoridade, nas dinâmicas harmônicas, nas estruturas das canções e, evidentemente, nas mensagens. As sementes do punk começam a germinar.
Kramer, o guitarrista, fundaram simbolicamente os Panteras Brancas, como forma de apoio à luta do movimento negro e dos Panteras Negras pelos direitos civis.
85 Ver documentário A BAND CALLED DEATH. Direção de Mark Christopher Covino; Jeff Howlett.
Estados Unidos: Drafthouse films, 2012. (98 min.), DVD.
86 Idem. 87
Fusion, ou também jazz fusion, é uma forma de musicalidade híbrida entre o rock, o funk e o jazz. Concebido e promovido principalmente pelo músico e compositor estado-unidense Miles Davis (1926- 1991) a partir de seu álbum Bitches Brew de 1969 (HOBSBAWM, 2012, p. 24), curiosamente a partir de seu contato com a música rock lisérgica do final dos anos de 1960. Estilo comumente presente na música pop entre os anos posteriores de 1970 e 1980.
50 O retorno da juventude rebelde nas cenas urbanas a partir dos anos de 1950, inserida neste contexto de questionamento da autoridade e das ordens vigentes, que em casos específicos poderiam inclusive vislumbrar um horizonte de transformação e subversão do status-quo, não possuíam em sua maior parcela desejos revolucionários ou de transformação sistêmica,88
mas acima de tudo garantir, mesmo que através da força, acesso aos símbolos de poder e defender seus espaços de convivência e sociabilidade na cidade.
“Território e sexualidade constituem os principais pontos identitários. Qualquer que seja o tipo de bando, o espaço vivido coletivamente possui uma importância extraordinária”. 89
Os grupos de jovens se territorializam através de códigos de conduta próprios e símbolos de identidade específicos nas vestimentas, fala, gestos, e maneiras particulares de apropriação do espaço urbano. Este muitas vezes segregado ao uso dos populares por estratégias dos poderes civis locais, governamentais e planejamentos urbanísticos excludentes.
Estas condutas de ocupação territorial das gangues como, por exemplo, confrontos com grupos rivais, pichações e demarcações, muitas vezes são transportados pelos seus membros dos subúrbios para localidades diversas, preferencialmente nas áreas centrais da cidade.90 Áreas de domínios regionais de grupos específicos em
constante tensão e disputa, que invariavelmente poderia resultar em conflitos violentos. Regiões estas que, por outro lado, ofereciam algum amparo solidário mútuo para os excluídos rebeldes que, em si, constituíam uma minoria91
dentre a massa de marginalizados invisíveis do cotidiano dos subúrbios e periferias das cidades.
Na contemporaneidade, o ressentimento de parte dos jovens da periferia excluídos dos oásis da sociedade de consumo e seus respectivos símbolos de reconhecimento e enquadramento, invariavelmente poderiam encontrar na prática da violência o meio simples para a obtenção do que lhes é negado social, econômica e culturalmente na maior parte do tempo.
88
MUCHEMBLED, Robert. A história da violência: do fim da idade média aos nossos dias. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012, p. 288
89 Idem, p. 288. 90 Idem, p. 288-289. 91 Idem, p. 290.
51 Situação que tem sido agravada, principalmente, em períodos de perdas de direitos sociais, desemprego e crises causadas por recessões econômicas cíclicas das economias liberais. A cidade mais uma vez lhes foi privada.
Neste cenário de adversidade presente em boa parte das grandes cidades, principalmente no ocidente, o punk, inicialmente uma manifestação artística de caráter essencialmente estético através da música e da moda,92
surgido praticamente de forma sincronizada entre uma rede de contatos de ativistas culturais, jornalistas e bandas dos Estados Unidos e Inglaterra,93 em pouco tempo se estendeu para outras localidades e se
transformou em fenômeno de difusão internacional.94
O punk encontrou solo fértil para se disseminar entre uma pequena parcela de jovens rebeldes dos subúrbios operários e periferias das grandes metrópoles, principalmente dos países ocidentais que, salvo devidas proporções e especificidades locais, vivenciavam períodos de crise econômica, autoritarismo governamental, perda