CAPÍTULO 6. CONCLUSÕES E TRABALHO
FUTURO
Sumário
Neste capítulo apresentam-se as principais conclusões e contribuições do trabalho desenvolvido, bem como possíveis trabalhos futuros.
O presente trabalho enquadrou-se na área da micotoxicologia, e teve como principal objectivo contribuir para a avaliação do risco de contaminação das uvas com micotoxinas, em particular a OTA, através da identificação dos perigos colocados para as uvas e vinho pelos fungos filamentosos presentes nos bagos. Em seguida destacam-se as principais contribuições deste trabalho:
• A micoflora normal das uvas foi caracterizada em diferentes regiões vitivinícolas, ao longo dum estudo de 3 anos. Através deste estudo, foi possível identificar as espécies fúngicas responsáveis por perigos micotoxigénicos presentes nas uvas portuguesas: os Aspergillus negros, em particular, A. carbonarius e ocasionalmente o agregado A. niger quanto à produção de OTA; T. roseum quanto à produção de metabolitos da família dos tricotecenos. Dado que a micotoxicologia é uma área que está em constante descoberta, um rastreio exaustivo como o efectuado às uvas possibilita conhecer a distribuição e incidência de fungos que não são considerados correntemente relevantes em termos de produção de micotoxinas, mas que poderão vir a ser relevantes de futuro;
• A informação resultante do rastreio exaustivo de fungos filamentosos das uvas foi armazenada numa base de dados que compreende a identificação das amostras onde foram detectadas mais de onze mil estirpes, bem como a identificação da estirpe. Esta base de dados possibilitou a extracção de conhecimento sobre a origem geográfica dos fungos, casta e estado de maturação das uvas e mostos analisados, bem como informações respeitantes à estirpe, como data, condições de isolamento e método de detecção. Considera-se que esta baConsidera-se de dados é uma mais-valia, visto que possibilita a construção de um sistema de informação geográfica quanto à incidência e distribuição geográfica das espécies nas vinhas do território, tornando ao mesmo tempo mais fácil a documentação do historial das estirpes, vital para uma potencial inclusão das estirpes em colecções de culturas;
• Constituiu-se uma colecção de cerca de mil estirpes isoladas das uvas, principalmente constituída por Aspergillus, que pode ser usada para futuros
estudos taxinómicos e de diversidade genética, metabólica e ecofisiológica, contribuindo para o estudo e conservação da biodiversidade;
• Mostrou-se que a distribuição de fungos filamentosos depende da origem geográfica, independentemente do ano, casta e factores ambientais, duma forma tão consistente que foi possível distinguir a região de origem das uvas com base na sua micoflora (distinção entre as amostras originárias da região dos Vinhos Verdes, Douro e Sul de Portugal, com 82% de sucesso, com base na incidência de estirpes do agregado A. niger e P. thomii);
• Com base nos estudos da micoflora definiram-se as regiões vitícolas de climas marcadamente Mediterrânicos como potenciais áreas de risco de contaminação com OTA, enquanto que regiões mais susceptíveis à podridão por Botrytis são mais susceptíveis a contaminação por tricotecenos produzidos por T. roseum. Confirma-se pois uma dependência da área geográfica com o risco de contaminação de micotoxinas;
• Estudou-se a variação na composição da micoflora ao longo do processo de maturação dos bagos, e definiu-se que os riscos de podridão e contaminação com micotoxinas aumentam com o avanço da maturação, principalmente a partir do pintor;
• Contribuiu-se para uma melhor elucidação da problemática da contaminação de OTA nas uvas e para a avaliação do risco de contaminação da micotoxina nas uvas portuguesas, sumariada nos pontos seguintes:
o Identificaram-se duas espécies capazes de produzirem OTA nas uvas,
A. carbonarius e agregado A. niger, sendo a principal A. carbonarius,
em que 100% das estirpes são capazes de produzir a micotoxina. A produção de OTA pelo agregado A. niger foi verificada em apenas 4% das estirpes, de incidência pouco frequente nas uvas em geral;
o A. carbonarius partilha as preferências geográficas dos Aspergillus negros, que parecem estar relacionadas com o clima. A sua incidência é mais elevada em climas Mediterrânicos, quentes e secos, onde estas
espécies podem ter uma vantagem adaptativa. Em latitudes mais baixas, a frequência de A. carbonarius nas uvas parece ser maior; o A. carbonarius é raro antes do fecho do cacho, mas após o fecho do
cacho, aumenta a sua incidência nas vinhas sendo máximo no momento da vindima. Esta espécie causa podridão essencialmente no interior do cacho;
o Confirmou-se a produção de OTA em campo antes da vindima desde estádios iniciais da maturação;
o A contaminação das uvas com OTA produzida por esta espécie só parece ocorrer em níveis relevantes em uvas com podridão visível de
Aspergillus, visto que em uvas aparentemente saudáveis, se detectaram
níveis baixos da micotoxina;
o A contaminação do vinho com OTA parece ser um fenómeno pré-colheita, centrado nas uvas, na vinha. Após o esmagamento das uvas, apesar de os fungos produtores de OTA estarem viáveis no mosto antes e depois da adição de sulfuroso, os números prodigiosos de leveduras não permitem o crescimento de fungos filamentosos. No início da fermentação, não se detectam propágulos viáveis de fungos filamentosos.
• Com os dados obtidos durante este estudo, recomendam-se as seguintes práticas para redução do risco de contaminação com OTA e outras micotoxinas, como as produzidas por T. roseum:
o Manter a integridade física dos bagos desde estádios iniciais de maturação, mas principalmente quando as uvas estão mais vulneráveis, do pintor para a vindima;
o Favorecer o arejamento das uvas com condições culturais adequadas que minimizem os riscos de podridão;
o Não prolongar desnecessariamente a vindima; quando mais tempo as uvas passarem na vinha após a maturação, mais susceptíveis se tornam ao ataque de fungos, com consequente risco de produção de micotoxinas;
o Minimizar o tempo de transporte da vinha até à adega e manter a integridade dos bagos o mais possível, de forma a minimizar a infecção por fungos neste período;
o Não vinificar uvas com podridão cinzenta ou outras podridões. A podridão por A. carbonarius ou T. roseum pode surgir associada à podridão cinzenta em áreas onde as uvas estão expostas a estes fungos micotoxigénicos. Existe um risco elevado de que esses cachos estejam contaminados com micotoxinas;
o Recomenda-se que os cachos com podridão sejam colhidos e destruídos para que haja redução de inoculo de fungos micotoxigénicos.
• No decorrer desta dissertação, contribuiu-se com pelo menos uma espécie potencialmente nova para a ciência, designada provisoriamente por A.
ibericus, cuja descrição formal se encontra em curso. Desta forma, mostra-se
que rastreios de cariz semelhante a estes, em ambientes agrícolas, podem revelar uma biodiversidade desconhecida, com potenciais metabólicos e terapêuticos por explorar.
Ao longo do desenvolvimento da dissertação, novas frentes foram abertas, que, não tendo sido possível incluir na dissertação, poderiam constituir matéria de trabalho futuro. Destacam-se como exemplos:
• a implicação da presença de OTA nos estadios iniciais do bago no teor final de OTA nas uvas no momento da vindima. Visto que os níveis de OTA detectados no bago ervilha são mais elevados que no bago maduro, seria interessante estudar o destino da OTA nas uvas, bem como a presença de eventuais produtos de degradação in vivo;
• a verificação de outras possíveis fontes de contaminação de OTA para o vinho, através dos materiais naturais com que este produto entra em contacto até ser consumido, nomeadamente, a cortiça;
• a verificação da capacidade das estirpes de T. roseum produzirem tricotecenos em uvas e, em caso afirmativo, avaliar os níveis de contaminação das uvas e vinho com estes compostos, particularmente na região dos Vinhos Verdes;
• a construção dum sistema de informação geográfica para a micoflora das uvas portuguesas, com a possibilidade de estar disponível na WWW;
• a exploração da análise de imagem na classificação de espécies de
Aspergillus negros com base na análise dos esporos;