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Os princípios constitucionais e a aplicação do artigo 139, IV, do Código de Processo Civil no processo de execução por quantia certa

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MARIA APARECIDA DE BRITTOS MOLGARO

OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS E A APLICAÇÃO DO ARTIGO 139, IV, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL NO PROCESSO DE EXECUÇÃO POR QUANTIA

CERTA

Florianópolis 2017

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MARIA APARECIDA DE BRITTOS MOLGARO

OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS E A APLICAÇÃO DO ARTIGO 139, IV, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL NO PROCESSO DE EXECUÇÃO POR QUANTIA

CERTA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Direito, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientador: Prof. Henrique Barros Souto Maior Baião, Esp.

Florianópolis 2017

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Este trabalho é dedicado à Maria Clara, que mesmo não sabendo foi quem mais se doou para que tudo fosse possível. Meu amor infinito.

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AGRADECIMENTOS

“Não há no mundo exagero mais belo que a gratidão.” (Jean de La Bruyère).

Ao longo da caminhada encontramos obstáculos e desvios, pensamos em fugir ou desistir, porém, eu acredito que há um ser superior, a quem chamamos de Deus, que acalma nossos corações e nos pede, ou nos concede, mais uma chance, mais um dia, um passo de cada vez, e a Ele minha maior gratidão.

Sou muito grata ao meu Pai e minha Mãe, que independente da vida humilde na agricultura e muitas vezes difícil, educaram-me com muito amor, fizeram ser quem sou e mostraram a importância de estudar. Tenho muito orgulho de ser sua filha e os admiro todos os dias. Agradeço também aos meus irmãos, cunhadas, sobrinhas, sogro e sogra que sempre me ajudaram como puderam.

À Maria Clara e ao Eduardo, os que mais sentiram minha ausência, cedendo e aprendendo a esperar só mais um semestre, só mais uma prova, só mais um capítulo do TCC. Aos dois, meu amor e gratidão.

Em especial, ao atencioso professor e orientador Henrique B. Souto Maior Baião, que desde a primeira conversa sobre a ideia arrojada de escrever sobre um assunto novo e polêmico se mostrou entusiasmado e disposto a ajudar, prontamente esclarecendo dúvidas, sempre prestativo e dedicado a orientar-me.

Ao meu chefe e amigo, Deputado Manoel Mota, maior entusiasta dos meus estudos, que de maneira singular me possibilitou estar em Florianópolis e realizar este e tantos outros projetos de vida.

Agradeço aos professores, colaboradores e colegas da Unisul, por tantos dias e noites compartilhados e por fazerem parte desta conquista.

Aos meus amigos e colegas de trabalho, que em meio a discussões e brincadeiras sempre se mostraram felizes e orgulhosos com cada nota dez recebida.

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“Talvez não tenha conseguido fazer o melhor, mas lutei para que o melhor fosse feito. Não sou o que deveria ser, mas Graças a Deus, não sou o que era antes”. (Martin Luther King)

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RESUMO

O objetivo deste trabalho de conclusão de curso é verificar a inovação trazida pelo Código de Processo Civil na aplicação de medidas executivas atípicas e o cotejo com princípios constitucionais. Inicialmente, tratará da teoria geral do processo e dos conceitos basilares do processo, com ênfase aos princípios constitucionais aplicados ao processo civil. Após, abordará o processo de execução civil, definindo conceito, partes, pressupostos e princípios específicos, como o da patrimonialidade, da menor onerosidade, do título executivo e da tipicidade. Nesse aspecto, discorrerá sobre as vias executivas, seja o cumprimento de sentença ou o processo de execução, fará a diferenciação dos títulos executivos judiciais e extrajudiciais, discorrendo ainda sobre os meios executivos, em especial, o arresto executivo, a penhora, a avaliação, a expropriação e a satisfação do credor. E por fim, tratará do papel fundamental do magistrado na obtenção da tutela executiva. O dispositivo legal do artigo 139, IV, do Código de Processo Civil de 2015, tema central deste trabalho monográfico, definindo o que são medidas coercitivas, indutivas, mandamentais e sub-rogatórias. Assim como, o posicionamento de doutrinadores sobre essa inovação processual e o exame de julgados que relacionem os direitos fundamentais com a aplicação de medidas executivas atípicas nos processos de execução por quantia certa. Conclui-se que as decisões não Conclui-seguem uma linha de aplicação padrão, evidenciando que o magistrado julga conforme seu próprio entendimento. Que a falta de posicionamento do Superior Tribunal de Justiça contribui para as discussões e dúvidas sobre a aplicação dos meios atípicos em todas as demandas executivas. A metodologia utilizada para este trabalho é de abordagem dedutiva. Quanto ao procedimento, o método aplicado é o monográfico. Utilizando-se da técnica de pesquisa bibliográfica e documental, baseada em leis, doutrinas, publicações jurídicas periódicas, artigos científicos, julgados e jurisprudência.

Palavras-chave: Princípios constitucionais aplicados ao processo civil. Novo Código de Processo Civil. Atipicidade das medidas executivas.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 10

2 TEORIA GERAL DO PROCESSO E PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS APLICADOS AO PROCESSO CIVIL ... 12

2.1 A TEORIA GERAL DO PROCESSO ... 12

2.1.1 Conceito de Processo ... 13

2.2 O PROCESSO CIVIL ... 14

2.2.1 Processo de Conhecimento ... 15

2.2.2 Processo de Execução ... 17

2.3 O DIREITO PROCESSUAL CIVIL E O DIREITO CONSTITUCIONAL ... 17

2.4 OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS ... 18

2.4.1 Princípio do devido processo legal ... 19

2.4.2 Princípio da isonomia ou igualdade processual ... 20

2.4.3 Princípios do contraditório e da ampla defesa ... 21

2.4.4 Princípio da fundamentação ou motivação das decisões judiciais ... 22

2.4.5 Princípio da dignidade da pessoa humana ... 23

3 PROCESSO DE EXECUÇÃO CIVIL ... 26

3.1 DISPOSIÇÕES GERAIS ... 26

3.1.1 Partes ... 26

3.1.2 Pressupostos ... 27

3.1.3 Objetivo ... 28

3.2 PRINCÍPIOS APLICÁVEIS AO PROCESSO DE EXECUÇÃO ... 28

3.2.1 Princípio da lealdade processual - dos atos atentatórios à dignidade da justiça ... 29

3.2.2 Princípio do contraditório no processo de execução ... 30

3.2.3 Princípio do respeito à dignidade da pessoa humana ... 30

3.2.4 Princípio da menor onerosidade ... 31

3.2.5 Princípio da patrimonialidade ... 31

3.2.6 Princípio da tipicidade e adequação dos meios executivos ... 32

3.2.7 Princípio do título executivo ... 32

3.2.7.1 Título executivo judicial ... 33

3.2.7.2 Título executivo extrajudicial ... 34

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3.3.1 Execução de título judicial ... 35

3.3.2 Execução de título extrajudicial ... 37

3.4 MEIOS EXECUTIVOS ... 38

3.4.1 Arresto executivo ... 39

3.4.2 Penhora ... 39

3.4.2.1 Impenhorabilidade de bens... 40

3.4.2.2 Bens penhoráveis, ordem preferencial ... 41

3.4.3 Avaliação ... 41

3.4.4 Expropriação ... 42

3.4.4.1 Adjudicação ... 42

3.4.4.2 Alienação ... 43

3.4.5 Satisfação do crédito ... 44

4 ATIPICIDADE EXECUTIVA NA APLICAÇÃO DO ART. 139, IV, DO CPC... 45

4.1 PAPEL DO MAGISTRADO PARA A OBTENÇÃO DA TUTELA EXECUTIVA ... 45

4.2 DISPOSITIVO LEGAL ... 48

4.2.1 Medidas indutivas ... 49

4.2.2 Medidas coercitivas ... 50

4.2.3 Medidas mandamentais ... 50

4.2.4 Medidas sub-rogatórias ... 51

4.3 POSICIONAMENTO DOS DOUTRINADORES E PROCESSUALISTAS ... 51

4.4 EXAME DE JULGADOS ... 56

5 CONCLUSÃO ... 63

REFERÊNCIAS ... 65

ANEXOS ... 69

ANEXO A - TJ-SC - HABEAS CORPUS (CÍVEL) 4000108-25.2017.8.24.0000 ... 70

ANEXO B - TJ-RS - HABEAS CORPUS 71007213788 ... 80

ANEXO C - TJ-RS - AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 70073762601 ... 83

ANEXO D - TJ-SP - AGRAVO DE INSTRUMENTO 2016197-06.2017.8.26.0000 ... 87

ANEXO E - TJ-SP - AGRAVO DE INSTRUMENTO 2045271-08.2017.8.26.0000 ... 94

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1 INTRODUÇÃO

O tema abordado é uma das inovações do Novo Código de Processo Civil. Segundo o disposto no artigo 139, inciso IV, para assegurar o cumprimento de decisão judicial é permitido ao magistrado aplicar meios executivos atípicos, como quaisquer medidas indutivas, coercitivas e outras que julgar necessárias, inclusive quando se tratar de ação cujo objeto seja o pagamento de quantia certa.

O assunto gera inúmeras discussões e opiniões divergentes, principalmente pelo fato de a redação do dispositivo legal ser considerada uma carta em branco para os juízes, e, o Superior Tribunal de Justiça não ter ainda se manifestado sobre os pressupostos e limites na sua aplicação.

O interesse da acadêmica em discorrer sobre o assunto surgiu em uma aula da disciplina de Execução Civil, na sétima fase do curso de graduação, ministrada pelo professor e orientador deste trabalho monográfico, Henrique B. Souto Maior Baião, que propôs a elaboração de uma atividade sobre uma notícia publicada na revista Carta Capital que tratava da possibilidade de o juiz reter o passaporte de devedor insolvente, que não apresenta bens à penhora e frequentemente viaja ao exterior.

O objetivo deste trabalho é verificar o debate e dúvidas sobre a aplicação desse novo dispositivo, observando quais requisitos e critérios são utilizados para a aplicação de meios atípicos e qual o impacto sobre os direitos pessoais do executado. A partir da seguinte problematização: a garantia ao cumprimento de ordem judicial de natureza patrimonial se sobrepõe ou afeta os direitos fundamentais da pessoa do devedor?

Para o desenvolvimento do estudo, primeiramente é tratado da Teoria Geral do Processo, faz-se a distinção entre processo e procedimento, assim como, entre processo de conhecimento e de execução, com destaque aos princípios constitucionais a eles aplicáveis, como o princípio do devido processo legal, da isonomia, do contraditório e da ampla defesa, da fundamentação das decisões judiciais e, por fim, o princípio da dignidade da pessoa humana.

Em seguida, aborda-se o processo de execução civil, trazendo seu conceito, finalidade, partes e pressupostos. Com a exposição dos princípios específicos da execução, quais sejam, da lealdade processual, com destaque à fraude à execução, do contraditório na execução, do respeito à dignidade da pessoa

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humana, da menor onerosidade, da patrimonialidade, da tipicidade e o princípio do título executivo. Apresenta-se ainda as vias executivas, cumprimento de sentença e execução forçada, e principais meios executivos, como o arresto executivo, a penhora, a avaliação, a expropriação e a satisfação do credor.

Para então, no terceiro e último capítulo de desenvolvimento, tratar da função essencial do magistrado na condução do processo civil, em especial, no processo de execução, e verificar, a partir do exame de decisões judiciais e do entendimento doutrinário, como são resolvidas as questões em que os princípios constitucionais colidem com a aplicação de meios executivos atípicos, com fundamento no artigo 139, IV do Código de Processo Civil, e se os direitos patrimoniais se sobrepõem aos direitos fundamentais constitucionais de natureza pessoal.

Este estudo será realizado através de metodologia de abordagem dedutiva. Em relação ao procedimento, o método aplicado é o monográfico. Utilizando-se a técnica de pesquisa bibliográfica e documental, baseada em leis, doutrinas, publicações jurídicas periódicas, artigos científicos, julgados e jurisprudência.

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2 TEORIA GERAL DO PROCESSO E PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS APLICADOS AO PROCESSO CIVIL

Para que se possa desenvolver a temática deste trabalho, é necessário, inicialmente, compreender a Teoria Geral do Processo, o conceito de processo, e, em especial, no Direito Processual Civil, as noções gerais, o objetivo, sua relação com o Direito Constitucional e a aplicação dos princípios constitucionais no processo civil, o que será feito a seguir.

2.1 A TEORIA GERAL DO PROCESSO

A organização da vida em sociedade necessita de normas e regras, eis que surge o Direito com suas leis gerais e positivas. Mas, ainda assim, é necessário que essas normas sejam obrigatoriamente cumpridas, momento em que o Estado tem o poder/dever de dizer o Direito e de aplicá-lo aos casos concretos. Dessa forma, não se permite fazer justiça com as próprias mãos, deve-se procurar o Estado, em sua função jurisdicional, para resolver conflitos e litígios (THEODORO JÚNIOR, 2013b, p. 1).

O Direito é constituídode normas que regulam as relações entre pessoas naturais e/ou jurídicas, seja no ramo privado ou público. Tais normas são agrupadas e estudadas de acordo com sua classificação e, em regra, são divididas em dois grandes grupos que tratam do direito material e do direito processual (WAMBIER; TALAMINI, 2011, p. 45).

Segundo Luiz Rodrigues Wambier e Eduardo Talamini (2011, p. 45), no primeiro grupo encontram-se “todas as normas que criam, regem e extinguem relações jurídicas, definindo aquilo que é lícito e pode ser feito, aquilo que é ilícito e não deve ser feito” e assim disciplinam as diversas relações jurídicas existentes. Já o segundo grupo traz normas que permitem a instrumentalização do direito material, desse modo, é o segundo grupo que define qual maneira deve-se buscar perante o Estado-Juiz a solução de uma lide.

Assim, a Teoria Geral do Processo, que explica essa função instrumental das normas processuais, determina o conceito de processo e do direito de ação, a definição de jurisdição e competência, além de trazer os pressupostos processuais e princípios constitucionais que norteiam o processo (WAMBIER; TALAMINI, 2011, p.

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46). É oportuno frisar que conhecer cada um destes aspectos torna mais claro o entendimento da lógica das demandas judiciais.

2.1.1 Conceito de Processo

Antes mesmo de abordar o conceito de processo, cabe destacar a ampla discussão acerca da diferenciação dos termos processo e procedimento. Para Wambier e Talamini (2011, p. 188), o primeiro traduz um método para as partes buscarem a resolução de uma lide, de aspecto substancial, e o segundo é de ordem estrutural, trata-se de forma, pois diz respeito à ordem de atos que devem ser praticados para que o próprio processo se desenvolva.

No mesmo sentido, o autor Humberto Theodoro Júnior, quando trata do conceito de processo, faz a diferenciação dos termos destacados, “entre o pedido da parte e o provimento jurisdicional se impõe a prática de uma série de atos que formam o procedimento judicial (isto é, a forma de agir em juízo), cujo conteúdo sistemático é o processo” (THEODORO JÚNIOR, 2013b, p. 62, grifo do autor).

O processo não é uma ferramenta exclusiva do direito processual, seja o civil, o penal ou o trabalhista. Isso quer dizer que não há que se falar em processo apenas no exercício da função jurisdicional, pois ele é uma característica da atuação do Estado de maneira ampla, assim aplicado também às funções legislativa e executiva. Em suma, o Judiciário resolve lides através de sentenças em processos judiciais; o Legislativo faz suas leis através de processos legislativos e o Executivo pratica atos mediante processos administrativos, peculiaridade do modelo de Estado Democrático de Direito (BUENO, 2012a, p. 426).

Para Fredie Didier Júnior (2016, p. 39), “o processo é um método de exercício de jurisdição. A jurisdição caracteriza-se por tutelar situações jurídicas concretamente afirmadas em um processo”. O autor trata de situações jurídicas como o mérito do processo, diz ainda não haver processo “oco”, vazio, e conclui com a afirmação que em todo processo há ao menos uma situação jurídica que necessita da tutela jurisdicional.

Outro assunto relevante é o objeto do processo, nas palavras de Moacyr Amaral Santos:

A finalidade do processo é a composição da lide. Na lide se contém uma pretensão resistida, ou insatisfeita. É a pretensão que dá origem à lide, e,

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por isso mesmo, ao processo. Este se instaura porque o autor formula um pedido, deduzindo uma pretensão. E o seu pedido é o de que o juiz acolha a sua pretensão, sem embargo de resistência que lhe opuser o réu. Objeto do processo, pois, é a pretensão do autor. Conhecendo da ação, o juiz acolherá ou não a pretensão, de qualquer forma compondo a lide. (SANTOS, 2012, p. 307, grifo do autor).

Santos (2012, p. 308) afirma ainda ser a pretensão o objeto material do processo, que tem como objeto formal a via jurisdicional, sendo o processo o instrumento que permite a realização de atividades do Poder Judiciário, o próprio exercício de sua função.

2.2 O PROCESSO CIVIL

Sobre o processo civil, Wambier e Talamini (2011, p. 55) trazem a seguinte premissa “a Constituição Federal é o ponto de partida para a compreensão mais adequada do que é processo civil. É em suas normas que podemos extrair a essência, a finalidade e a forma do processo em um Estado Democrático de Direito”. Esclarecem os doutrinadores que o ordenamento jurídico é regido pela Constituição Federal, porém, nos dias atuais, fazer remissão apenas ao texto constitucional não é suficiente para compreender o processo civil e o direito processual, há que se verificar o próprio Código de Processo Civil e a legislação extravagante, mas ressaltam que a norma processual depende da constitucional para uma interpretação satisfatória (WAMBIER; TALAMINI, 2011, p. 55).

O processo civil tem funções variadas que dependem de qual o resultado pretendido pela parte, a maioria das demandas trata-se, ou, de uma violação de direito, hipoteticamente ocorrida, ou, o não cumprimento de obrigação, ou ainda, preventivamente, como medida urgente, quando a garantia de se obter o dito bem da vida que corre risco de perecimento. A classificação é feita conforme a tutela jurisdicional posta à disposição das partes, seja processo de conhecimento, execução e cautelar (THEODORO JÚNIOR, 2013b, p. 68).

Frisa-se, que com a entrada em vigor do Novo Código de Processo Civil, Lei 13.105/15, o processo cautelar deixa de existir como ação autônoma e passa a compor a demanda dos demais processos, tanto os cognitivos quanto os executivos, descritos nas próximas seções (BRASIL, 2015).

Por outro lado, os processos de conhecimento e execução são independentes entre si, o segundo não depende necessariamente do primeiro para

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existir, assim como a sentença no processo cognitivo pode, por si só, atender à demanda requerida pela parte, no caso de uma sentença declaratória, constitutiva ou mesmo pelo adimplemento voluntário da parte vencida. De igual modo, os processos de execução podem nascer de títulos executivos extrajudiciais e não demandam a necessidade de conhecer o direito à prestação pretendida (THEODORO JÚNIOR, 2013b, p. 69).

Destaca-se da leitura de Wambier e Talamini (2011, p. 191) que “a tendência que é muito forte, no direito brasileiro, no sentido da adoção do modelo sincrético de processo, em que se abrigam, na mesma relação jurídica processual, a ação de conhecimento e a ação de execução”.

Tal afirmação faz referência à alteração do Código de Processo Civil de 1973 pela Lei 11.232/2005, a qual determina que na ação de conhecimento com sentença condenatória, caso não seja adimplida, o cumprimento se dá na mesma relação jurídica processual já estabelecida entre as partes na cognição, sem a necessidade da abertura de nova demanda judicial (BRASIL, 2005).

Nesse sentido, o Novo Código de Processo Civil (BRASIL, 2015) deixa ainda mais evidente essa tendência ao sincretismo processual, seja pela economia processual, celeridade na resolução do conflito e pela possibilidade de entregar à parte vencedora o bem da vida no mesmo processo judicial, não apenas decretar a condenação do devedor.

2.2.1 Processo de Conhecimento

No processo de conhecimento, a parte busca do Poder Judiciário o reconhecimento de um direito inicialmente alegado e o faz através da formulação de pedidos que podem, ao final da demanda, serem resolvidos de modo positivo ou negativo, conforme sentença de procedência ou improcedência (WAMBIER; TALAMINI, 2011, p. 191).

Sendo assim, é no processo de conhecimento onde as partes podem apresentar ou requerer a realização de todos os meios de provas, a fim de asseverar a existência do direito afirmado ou da inexistência de tal direito, enfim, tudo que for contribuir para o convencimento do juiz (WAMBIER; TALAMINI, 2011, p. 191).

Há duas correntes que tratam da divisão das ações de conhecimento. A primeira, clássica, divide-as em três espécies, conforme a sentença proferida seja o

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direito ao cumprimento de uma prestação ou um direito potestativo. Nessa corrente, têm-se as ações condenatórias, que se concretizam no mundo dos fatos, e as ações constitutivas ou meramente declaratórias, que se concretizam no mundo do direito, aquela altera, cria ou extingue uma situação jurídica e, esta certifica a existência ou inexistência da situação jurídica discutida (DIDIER JÚNIOR, 2016, p. 291).

Para a efetivação do direito nesses tipos de ações, Didier Júnior frisa:

Direito a uma prestação é o poder jurídico, conferido a alguém, de exigir de outrem o cumprimento de uma prestação - conduta -, que pode ser um fazer, um não fazer, ou um dar coisa - prestação que se divide em dar dinheiro ou dar coisa distinta de dinheiro. O direito a uma prestação precisa ser concretizado no mundo físico; a sua efetivação é a realização da prestação devida. Quando o sujeito passivo não cumpre a prestação, fala-se em inadimplemento ou lesão.

[...]

Direito potestativo é o poder jurídico conferido a alguém de submeter outrem à alteração, criação ou extinção de situações jurídicas. O sujeito passivo de tais direitos nada deve; não há conduta que precise ser prestada para que o direito potestativo seja efetivado. O direito potestativo efetiva-se no mundo jurídico das normas, não no mundo dos fatos, como ocorre, de modo diverso, com os direitos a uma prestação. (DIDIER JÚNIOR, 2016, p. 291 - 292, grifo do autor).

A segunda corrente, conhecida como classificação quinária das ações, no Brasil desenvolvida por Pontes de Miranda, acrescenta ao rol das ações de conhecimento outras duas espécies, as ações mandamentais e ações executivas em sentido amplo, ambas relacionadas ao direito de uma prestação (DIDIER JÚNIOR, 2016, p. 299).

As ações mandamentais buscam a certificação do direito e efetivação da prestação por meio de medidas coercitivas indiretas, e as ações executivas em sentido amplo, a efetivação por meio de medidas diretas ou sub-rogação. Didier Júnior, desta maneira, conceitua as duas novas espécies:

Ação executiva em sentido amplo é aquela pela qual se afirma um direito a uma prestação e se busca a certificação e efetivação desse mesmo direito, por meio de medidas de coerção direta. Ela está fundada, portanto, na noção de execução direta (ou execução por sub-rogação), assim entendida aquela em que o Poder Judiciário prescinde da colaboração do executado para a efetivação da prestação devida e, pois, promove uma substituição da sua conduta pela conduta do próprio Estado-juiz ou de um terceiro. Em outras palavras, na execução direta, as medidas executivas são levadas a efeito mesmo contra a vontade do executado; sua vontade é irrelevante. [...]

A ação mandamental é aquela pela qual se afirma um direito a uma prestação e se busca a certificação e a efetivação desse mesmo direito, por meio de medidas de coerção indireta. Na decisão mandamental, impõe-se uma prestação ao devedor e prevê-se uma medida coercitiva indireta que atue na vontade do devedor como forma de compeli-lo a cumprir a ordem

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judicial. Nestes casos, o Estado-juiz busca promover a execução com a “colaboração” do executado, forçando a que ele próprio cumpre a prestação devida. (DIDIER JÚNIOR, 2016, p. 300-301, grifo do autor).

Nos processos de conhecimento ainda é permitido às partes propor ação dúplice, no caso, com pedido contraposto do réu ao autor na mesma demanda, na peça de contestação, nestes casos não se fala mais em autor e réu, pois as duas partes assumem as mesmas posições. (DIDIER JÚNIOR, 2016, p. 303). Assim, o bem da vida será determinado para uma das duas partes quando ocorrer a decisão judicial.

2.2.2 Processo de Execução

O Processo de Execução será assunto do próximo capítulo deste trabalho científico, razão pela qual é breve o relato sobre ele nesta seção.

Segundo o autor Humberto Theodoro Júnior (2013b, p. 68), refere-se a processo de execução a demanda em que o credor tem prévia certeza do direito, sendo que a lide ocorre por conta da insatisfação do crédito, tanto que o processo se limita a garantir a realização da prestação ao credor, através da utilização do poder coercitivo do Estado sobre o patrimônio do devedor.

Tal demanda pode ser iniciada por meio de um título executivo judicial, como a exemplo de uma sentença condenatória que não foi adimplida espontaneamente pelo devedor, ou, título executivo extrajudicial constante no rol do Código de Processo Civil.

Desta maneira, determina o artigo 783 da Lei 13.105/2015: “A execução para cobrança de crédito fundar-se-á sempre em título de obrigação certa, líquida e exigível”. (BRASIL, 2015). Porém, se faltar ao título algum destes elementos, ele não é apto a iniciar uma ação de execução.

2.3 O DIREITO PROCESSUAL CIVIL E O DIREITO CONSTITUCIONAL

O Direito Processual Civil, segundo Didier Júnior (2016, p. 36), “é um conjunto de normas que disciplinam o processo jurisdicional civil - visto como ato-jurídico complexo ou feixe de relações jurídicas”. Conforme seu conceito, é o ramo do Direito composto por normas que regulamentam a estruturação do processo, bem como as situações jurídicas decorrentes de fatos jurídicos processuais.

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Para Theodoro Júnior (2013b, p. 3), “o direito processual civil mantém estreitas relações com o direito constitucional, não apenas derivadas da hegemonia que cabe a esse ramo sobre todos os demais”, explica que a relação se dá por ser o processo uma forte característica do Estado Democrático de Direito.

Além disto, a Constituição Federal define os atributos do Estado, que inclui a organização do judiciário, expressa os direitos individuais e fundamentais, que em muitos incisos do seu art. 5º tratam da garantia processual dos indivíduos e da inafastabilidade do Poder Judiciário para resolver qualquer possível ameaça ou lesão de direito (BRASIL, 1988).

O Direito Contemporâneo possui como forte atributo a constitucionalização do Direito Processual Civil, para Didier Júnior (2016, p. 47) por duas razões, inicialmente por uma considerável quantidade de normas constitucionais incorporadas às normas processuais, seguida do entendimento doutrinário que passa a ver as leis infraconstitucionais como materializadoras das disposições constitucionais.

Assim, observa-se na redação do art. 1º do Código de Processo Civil: O processo civil será ordenado, disciplinado e interpretado conforme os valores e as normas fundamentais estabelecidos na Constituição Federal da República Federativa do Brasil, observando-se as disposições deste Código. (BRASIL, 2015).

Nesse contexto, Wambier e Talamini (2011, p. 55) dizem que “o direito processual civil e cada um de seus institutos devem ser compatíveis com os preceitos constitucionais e destinado à realização de seus valores, de forma a maximizá-los por meio do processo”, por este motivo, o processo civil é orientado por normas gerais contidas na Constituição Federal e por seus princípios.

2.4 OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS

A Constituição Federal traz, além da organização do sistema judiciário e as funções essenciais à Justiça, normas gerais aplicáveis ao processo, quais sejam, os princípios constitucionais a este referente. Sobre o tema cabe destacar o seguinte conceito de Wambier e Talamini:

Os princípios constitucionais são o núcleo de todo sistema e orienta toda a lógica mínima do processo. Dentre os principais princípios, tradicionalmente

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classificados pela doutrina como “fundamentais”, encontram-se os princípios do acesso à justiça, do devido processo legal, do contraditório, da paridade de tratamento (isonomia), da ampla defesa, do juiz natural, da publicidade, da motivação das decisões, da vedação das provas ilícitas ou obtidas por meios ilícitos, da assistência jurídica integral e gratuita, da razoável duração e da efetividade do processo. (WAMBIER; TALAMINI, 2011, p. 56).

É imprescindível, por essa razão, identificar os princípios constitucionais que se referem ao Direito Processual Civil para compreender a lógica de sua função e sua importância desde a elaboração das leis processuais até sua interpretação e aplicação aos casos concretos pelo Poder Judiciário. Wambier e Talamini (2011, p. 64) afirmam que, via de regra, esses princípios estão elencados no art. 5º da Constituição Federal, pois trata-se de princípios fundamentais à dignidade da pessoa humana, um dos fundamentos da República Federativa do Brasil.

Dada a relevância dos princípios constitucionais que regem o ordenamento jurídico brasileiro, a legislação processual destaca no artigo 8º:

Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência. (BRASIL, 2015).

Nesse sentido, as normas fundamentais do Direito Processual Civil formam um grupo em que também estão inseridos os princípios constitucionais, por isso, Didier Júnior (2016, p. 64) denomina este conjunto de normas de “Direito Processual Fundamental Constitucional”.

Dessa maneira, por sua reconhecida importância ao processo civil, alguns desses princípios constitucionais fundamentais são trazidos a seguir.

2.4.1 Princípio do devido processo legal

O princípio do devido processo legal, expressamente previsto no inciso LIV do artigo 5º da Constituição Federal, estabelece as condições para o desenvolvimento de um processo. Reitera-se que o que se espera da legislação em um Estado Democrático de Direito é que seja observado um padrão na atuação do Poder Judiciário. Ao passo que não basta o acesso à justiça, busca-se que o Estado-juiz traga uma resposta ao conflito que lhe é pedido para resolver (BUENO, 2012a, p.143).

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ser compreendido em duas dimensões: o devido processo legal formal e o devido processo legal substancial. O formal trata da dimensão mais conhecida do princípio, pertinente à instrumentalidade do processo e à garantia de atos procedimentais. Já, o substancial, desenvolvido nos EUA, está incorporado na doutrina brasileira com fundamento nos deveres da proporcionalidade e razoabilidade.

Ademais, fala-se em processo legal como aquele que deve assegurar uma durabilidade razoável, com a devida atenção do Poder Judiciário, um processo que seja justo. E, para este último termo, Wambier e Talamini (2011, p. 31) acrescentam que na concepção constitucional “é apenas aquele que se propõe a outorgar aos litigantes a plena tutela jurisdicional, segundo os princípios fundamentais da ordem constitucional (liberdade, igualdade e legalidade)”.

No conceito de Nelson Nery Junior (2009, p. 90, grifo do autor), “o devido processo (processo justo) pressupõe a incidência da isonomia; do contraditório; [...] da motivação das decisões administrativas e judiciais”.

No mesmo sentido, Cassio Scarpinella Bueno (2012a, p. 143) afirma que “o princípio do devido processo legal é considerado por boa parte da doutrina como um ‘princípio-síntese’ ou ‘princípio de encerramento’ de todos os valores e concepções do que se entende como um processo justo e adequado”, por ser amplo o suficiente para representar os demais princípios indicados na Constituição Federal.

2.4.2 Princípio da isonomia ou igualdade processual

A Constituição Federal, no caput do art. 5º, destaca a fonte basilar do princípio da isonomia ao declarar que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Da mesma forma, o Novo Código de Processo Civil o faz, no artigo 7º, ao garantir que “é assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades processuais [...]” (BRASIL, 1988, 2015). Ante ao exposto, não resta dúvida que o ordenamento jurídico brasileiro tem o propósito de evidenciar que as partes em uma demanda judicial têm igualdade no tratamento. Essa igualdade pode ser observada a partir de quatro aspectos, de acordo com Didier Júnior (2016, p. 99), i) a imparcialidade do magistrado; ii) a igualdade ao acesso à justiça; iii) a redução das desigualdades financeiras, de comunicação e também geográfica para garantir o acesso à justiça; iv) o acesso a todas as informações necessárias para a garantia do contraditório.

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Sob esses aspectos, ressalta o doutrinador, ainda, que tratar diferente em muitos casos é a maneira mais concreta de igualar as duas partes, isso fica claro quando o ordenamento jurídico cria regras para tratamento diferenciado, como é o caso do curador ou representante legal para o incapaz processual, a intimação do Ministério Público quando a ação versar sobre o interesse de menores de idade, o tratamento prioritário nas demandas que envolvam idosos e pessoas com doenças graves e o direito à justiça gratuita aos que economicamente sejam hipossuficientes (DIDIER JÚNIOR, 2016, p. 100).

Tradicionalmente o princípio da isonomia é encontrado nas doutrinas com o nome de princípio da paridade ou igualdade de armas, o que significa dar às partes as mesmas condições para agir, garantir aos litigantes instrumentos processuais uniformes ou equivalentes (BUENO, 2012a, p. 167).

No entendimento de Santos (2012, p. 335), o princípio da paridade de tratamento é demonstrado no Código de Processo Civil quando este determina prazos idênticos para as partes se manifestarem em relação a atos processuais equivalentes, ou então, prazo diferenciado para a Fazenda Pública e Ministério Público contestar ou recorrer devido ao elevado número de demandas que recebem, a relativização dos prazos nas comarcas de difícil acesso ou diante de calamidades públicas, e, também, na intimação pessoal da Defensoria Pública para garantir às pessoas necessitadas adequada defesa.

O princípio da isonomia tem forte ligação com o princípio do contraditório e o princípio da ampla defesa como pode-se observar na seção a seguir.

2.4.3 Princípios do contraditório e da ampla defesa

Sobre o princípio do contraditório, Theodoro Júnior (2013b, p. 37) assegura que é o principal responsável pelo tratamento igualitário das partes, pois em um processo, no Estado Democrático de Direito, torna-se obrigatório ouvir a pessoa que sofre os efeitos de uma sentença. Seguindo este pensamento, afirma que é um princípio absoluto, uma vez que, embora os demais possam ser relativizados, o contraditório, se não observado, gera nulidade processual.

O princípio do contraditório garante aos litigantes o direito de apresentar sua versão dos fatos para o Estado-juiz, no intuito de influenciar ou colaborar com a formação do convencimento do juiz imparcial, tal garantia é conferida aos

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diretamente envolvidos na lide e àqueles que sentem os efeitos da sentença (BUENO, 2012a, p. 151).

Cabe salientar que o contraditório não cessa com a apresentação da resposta do réu, pois é um princípio que deve ser observado em todos os atos processuais, de maneira que pode a parte se defender e questionar cada um destes atos, caso contrário, há cerceamento de defesa (ROSAS, 1999, p. 46).

Na concepção de Theodoro Júnior, “o contraditório é mais do que a audiência bilateral das partes, é a garantia da participação e influência efetiva das partes sobre a formação do provimento jurisdicional” (THEODORO JÚNIOR, 2013b, p. 37). Feito que não deve apenas ser conhecido pelo julgador, como também, apreciado e levado em consideração na fundamentação da sentença.

Por força do mesmo inciso LV do art. 5º da Constituição Federal, que prevê o contraditório, trata a Carta Magna da garantia ao direito à ampla defesa, com todos os meios e recursos cabíveis. Com base no princípio da ampla defesa, é conferido ao réu (no processo civil) condições efetivas de apresentar resposta a todas as imputações que lhe são feitas pelo autor da ação (BUENO, 2012a, p. 151).

Entende-se não ser por acaso que os dois princípios estão dispostos no mesmo inciso da Constituição Federal, uma vez que há entre eles uma íntima ligação, demonstrada no seguinte conceito: “[…] são figuras conexas, sendo que a ampla defesa qualifica o contraditório. Não há contraditório sem defesa. Igualmente é lícito dizer que não há defesa sem contraditório” (MENDONÇA JÚNIOR, 2001 apud DIDIER JÚNIOR., 2016, p. 88). Devido a essa ligação, os doutrinadores tratam desses dois princípios como um conjunto, pois eles se complementam.

2.4.4 Princípio da fundamentação ou motivação das decisões judiciais

A Constituição Federal, no capítulo que trata da organização do Poder Judiciário, traz um importante princípio para o processo civil, o da motivação das decisões judiciais, disciplinado no art. 93, IX: “todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade[...]” (BRASIL, 1988).

Na opinião de Alexandre Freitas Câmara (2014, p. 64), “a fundamentação das decisões judiciais é exigida pelo ordenamento jurídico brasileiro por dois motivos. Em primeiro lugar, protege-se com tal exigência um interesse das partes e,

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em segundo, um interesse público”.

Nesse contexto, o desembargador afirma que, sem fundamentação, a sentença resulta em nulidade absoluta. Enfatiza que não apenas a ausência de fundamentação, mas também insuficiência desta gera prejuízo ao processo e aos interesses que a motivação da sentença se propõe a assegurar (CÂMARA, 2014, p. 64).

No entendimento de Bueno (2012a, p. 171), a motivação assegura a transparência da atividade do magistrado, uma forma “de prestar contas do exercício de sua função jurisdicional” para os interessados, participantes do processo, os membros do Judiciário e de forma ampla a sociedade.

No entanto, em razão do modelo de Estado adotado no país, o Democrático de Direito, mesmo que o princípio da fundamentação das sentenças judiciais não estivesse expresso na Constituição Federal ou no Código de Processo Civil, implicitamente se poderia extrair do próprio modelo político de Estado, ante a necessidade de todas as decisões serem motivadas, mesmo que sucintamente, mas apreciando todos os itens arguidos (WAMBIER; TALAMINI, 2011, p. 69).

Ante o exposto, explica o autor Nery Junior (2009, p. 293) que a gravidade para a ausência de fundamentação nas decisões judiciais é tal, que não existem, na Constituição Federal, normas sancionadoras, porém para o caso em questão, a própria norma constitucional prevê a pena de nulidade do ato, devido ao legislador constituinte considerar este vício insanável no processo.

2.4.5 Princípio da dignidade da pessoa humana

O último princípio a ser tratado é o da dignidade da pessoa humana, o mais complexo entre os princípios constitucionais, por ser inclusive um dos fundamentos da República Federativa do Brasil:

Art. 1º - A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

[...]

III - a dignidade da pessoa humana; (BRASIL, 1988).

A dignidade da pessoa humana, por si só, é um termo que merece atenção e, ao ser tratada como princípio constitucional fundamental, carece de

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conceituação ampla e clara. Ademais, alguns autores, como Rizzatto Nunes, consideram este o principal direito garantido pela Constituição Federal de 1988 (NUNES, 2002, p. 45).

Em seu livro intitulado Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais, o autor Ingo Wolfgang Sarlet (2009) se propõe a tratar do conceito de dignidade da pessoa humana no contexto jurídico-constitucional. Inicia tratando da evolução da palavra e do seu significado ao longo dos anos, conforme esta importante garantia ganha espaço e influência na vida dos homens.

Em linhas gerais, diz que a norma constitucional brasileira tem a dignidade da pessoa humana, como princípio, regra e valor fundamental a todo ordenamento jurídico, uma espécie de “sobreprincípio” ou “supraprincípio”, do qual todos os demais seriam derivados (SARLET, 2009).

Em consonância com o exposto, a autora Melina Girardi Fachin, ao discorrer sobre as mudanças observadas nas constituições ocidentais, pós Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948, que têm colocado o princípio da dignidade da pessoa humana como fundamento e centro de sua norma, acrescenta:

Portanto, o princípio da dignidade da pessoa humana avulta no ordenamento jurídico constitucional a partir da sua centralidade que privilegia a posição de sujeito concreto e suas necessidades, passando a incidir de forma especial e diversa sobre os demais princípios constitucionais (FACHIN, 2007, p. 88).

Para Didier Júnior (2016, p. 76) “a dignidade da pessoa humana pode ser considerada um direito fundamental de conteúdo complexo, formado pelo conjunto de todos os direitos fundamentais previstos ou não no texto constitucional”. O doutrinador se refere inclusive ao papel do Poder Judiciário, neste caso, representante do Estado Democrático de Direito, para resguardar e promover a dignidade da pessoa humana, como determina o próprio art. 8º, supracitado, da Lei 13.105/2015.

Neste sentido, de resguardar e promover, o autor Luiz Antônio Rizzatto Nunes elucida que o princípio da dignidade humana deve ser visto como dever social do Estado em relação aos indivíduos na adequada concretização das garantias dos artigos 5º, 6º e 225 da CRFB/88, pois a melhor forma de dar dignidade às pessoas é garantindo-lhes o necessário para boa qualidade de vida (NUNES, 2002, p. 46).

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Ainda em relação à influência do princípio da dignidade da pessoa humana sobre o processo civil, destaca-se:

A argumentação jurídica em torno da dignidade da pessoa pode, com o perdão pelo truísmo, ajudar na humanização do processo civil, ou seja, na construção de um processo civil atento a problemas reais que afetem a dignidade do indivíduo. A dignidade da pessoa humana, assim, ilumina o devido processo legal (DIDIER JÚNIOR, 2016, p. 78, grifo do autor).

Complementa o autor, que o devido processo legal, como princípio normativo, é cláusula há séculos conhecida, a dignidade da pessoa humana, por sua vez, é relativamente recente. Porém, destaca que, conforme surjam novas normas que fortalecem a dignidade humana, mais rapidamente o princípio começa a surtir efeitos e ser notado em casos concretos (DIDIER JÚNIOR, 2016, p. 78).

Ao concluir este conteúdo, tem-se um bom entendimento da importância do Direito Processual Civil para a organização da vida em sociedade, com base sólida nos princípios constitucionais que o norteiam. Assim como, a relevante posição da Constituição Federal na disposição das normas processuais e como o modelo político de Estado, o Democrático de Direito, implicitamente, tem influência sobre o ordenamento jurídico brasileiro.

Partindo destes preceitos, o próximo capítulo deste trabalho científico tratará do Processo de Execução Civil e suas especificidades, implicitamente utilizando-se das teses aqui expostas.

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3 PROCESSO DE EXECUÇÃO CIVIL

Este capítulo abordará o processo de execução civil. Trata, inicialmente, das disposições gerais, partes e pressupostos, em seguida, dos títulos executivos judiciais e extrajudiciais, dos procedimentos e meios executivos, além de trazer o entendimento doutrinário sobre os princípios inerentes à execução civil.

3.1 DISPOSIÇÕES GERAIS

Para entender o processo de execução civil é necessário, primeiramente, distinguir suas vias executivas, quais sejam, o cumprimento de sentença, que é fundado em um título executivo judicial, em regra, uma fase processual após a sentença, e, o processo de execução ou a execução forçada, que se inicia com a existência de um título executivo extrajudicial. Cada uma dessas vias busca a satisfação daquele que tem direito a uma prestação inadimplida pela parte contrária, sendo necessário, para alcançar este objetivo, seguir as regras e procedimentos específicos de cada uma delas (THEODORO JÚNIOR, 2013a, p. 115).

O processo de execução civil é considerado um processo autônomo em relação ao processo de conhecimento, e, pode-se afirmar que existe essa autonomia quando se tem uma execução forçada baseada em título executivo extrajudicial. Porém, nas sentenças condenatórias, com o sincretismo processual observado no Código de Processo Civil, a execução passa a ser uma continuação da relação processual já existente, sendo assim uma fase dentro do processo de conhecimento (SANTOS, 2011, p. 274).

Moacyr Amaral Santos (2011, p. 273) diz ainda que o processo de execução civil visa assegurar a eficácia dos títulos executivos, desenvolvendo-se por determinação de atos com medidas coativas, e destaca que no processo de execução também se forma uma relação processual, entre exequente, executado e juiz.

3.1.1 Partes

No processo de execução, as partes que compõem uma relação jurídica passam a formar também uma relação processual, em que o sujeito ativo é o

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detentor do direito de receber a prestação, chamado de exequente ou credor, o sujeito passivo é aquele que tem a obrigação de adimplir com tal prestação, chamado de executado ou devedor, e para compor o tripé processual, o juiz competente que é o representante do Estado na função jurisdicional executiva (THEODORO JÚNIOR, 2013a, p. 157).

É mister conhecer os artigos 778 e 779 do Código de Processo Civil, que indicam outras pessoas que podem suceder o credor ou devedor, em casos determinados:

Art. 778. Pode promover a execução forçada o credor a quem a lei confere título executivo.

§ 1o Podem promover a execução forçada ou nela prosseguir, em sucessão ao exequente originário:

I - o Ministério Público, nos casos previstos em lei;

II - o espólio, os herdeiros ou os sucessores do credor, sempre que, por morte deste, lhes for transmitido o direito resultante do título executivo; III - o cessionário, quando o direito resultante do título executivo lhe for transferido por ato entre vivos;

IV - o sub-rogado, nos casos de sub-rogação legal ou convencional. [...]

Art. 779. A execução pode ser promovida contra: I - o devedor, reconhecido como tal no título executivo; II - o espólio, os herdeiros ou os sucessores do devedor;

III - o novo devedor que assumiu, com o consentimento do credor, a obrigação resultante do título executivo;

IV - o fiador do débito constante em título extrajudicial;

V - o responsável titular do bem vinculado por garantia real ao pagamento do débito;

VI - o responsável tributário, assim definido em lei. (BRASIL, 2015).

Dessa forma, conforme previsão legal (BRASIL, 2015), é válido ressaltar que além da parte que tem legitimidade originária para ser parte no processo de execução, pode-se encontrar outra pessoa, ou mais de uma, com legitimidade extraordinária, derivada ou superveniente, cessionário ou sub-rogado, além de poderem estar no polo passivo o fiador e demais responsáveis.

3.1.2 Pressupostos

Para que o credor possa ter sua pretensão atendida pelo Estado, deve atentar-se aos pressupostos processuais e preencher as condições da ação, devendo a relação processual ser estabelecida de forma válida, serem as partes capazes, regularmente representadas por seus procuradores, no órgão jurisdicional competente e em procedimento legalmente reconhecido para a prestação de direito que se busca alcançar (THEODORO JÚNIOR, 2013a, p. 147).

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O artigo 783 do Código de Processo Civil define os pressupostos próprios da execução, com a seguinte redação: “a execução para cobrança de crédito fundar-se-á sempre em título de obrigação certa, líquida e exigível” (BRASIL, 2015).

Como disposto no artigo supracitado, verificam-se as condições específicas na execução forçada. Theodoro Júnior (2013a, p. 147) define, no quesito formal, a existência de título executivo com direito certo e com liquidez da dívida, e, no quesito prático, que seja este exigível, o que ocorre com o inadimplemento da obrigação por ação ou omissão do devedor, no prazo estipulado.

3.1.3 Objetivo

Portanto, o objetivo da execução nada mais é que buscar a tutela jurisdicional do Estado, para que, usando de medidas cabíveis e necessárias, faça o devedor cumprir com a obrigação líquida, certa e exigível a que tem direito o credor, seja ela consubstanciada em título executivo judicial ou extrajudicial (SANTOS, 2011, p. 270).

Para que seja válida a execução e assim se cumpra o seu objetivo, é necessário respeitar os princípios aplicáveis ao processo executivo, a seguir indicados.

3.2 PRINCÍPIOS APLICÁVEIS AO PROCESSO DE EXECUÇÃO

No processo de execução, aplicam-se os princípios gerais que regem o processo civil, todavia, por conta de sua natureza e por conter características próprias, a doutrina traz também outros princípios inerentes à fase ou ação executiva (WAMBIER; TALAMINI, 2012, p. 171). Tais princípios podem ser divididos em dois grupos para uma melhor compreensão. Assim, têm-se no primeiro grupo os princípios gerais do processo com peculiaridades que envolvem sua aplicação na execução e, no segundo grupo, os princípios setoriais ou específicos da execução.

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3.2.1 Princípio da lealdade processual - dos atos atentatórios à dignidade da justiça

Em relação ao princípio da lealdade processual no âmbito do processo de execução, a doutrina traz uma análise sobre o papel do magistrado. Esclarece que cabe ao juiz advertir o executado, quando por ações ou omissões, constituir ato atentatório à dignidade da justiça, visando um adequado desenvolvimento dos atos jurisdicionais voltados à prestação da tutela executiva (BUENO, 2012b, p. 63).

Nesse contexto, frisam-se os seguintes artigos do Código de Processo Civil:

Art. 772. O juiz pode, em qualquer momento do processo: [...]

II - advertir o executado de que seu procedimento constitui ato atentatório à dignidade da justiça;

[...]

Art. 774. Considera-se atentatória à dignidade da justiça a conduta comissiva ou omissiva do executado que:

I - frauda a execução;

II - se opõe maliciosamente à execução, empregando ardis e meios artificiosos;

III - dificulta ou embaraça a realização da penhora; IV - resiste injustificadamente às ordens judiciais;

V - intimado, não indica ao juiz quais são e onde estão os bens sujeitos à penhora e os respectivos valores, nem exibe prova de sua propriedade e, se for o caso, certidão negativa de ônus.

Parágrafo único. Nos casos previstos neste artigo, o juiz fixará multa em montante não superior a vinte por cento do valor atualizado do débito em execução, a qual será revertida em proveito do exequente, exigível nos próprios autos do processo, sem prejuízo de outras sanções de natureza processual ou material. (BRASIL, 2015).

Dentre os atos atentatórios à dignidade da justiça no processo de execução, o que mais chama atenção é a fraude à execução. Sobre ela explica o doutrinador Cassio Scarpinella Bueno:

A fraude à execução deve ser compreendida como a hipótese em que a alienação ou a oneração de bem que está sujeito à execução nos termos do art. 790 é feita indevidamente e, por isso, é considerada ineficaz em relação ao exequente no processo em que é parte também o executado (§ 1º do art. 792). Sua configuração independe de conluio entre os envolvidos e pode ser reconhecida existente até́ mesmo de ofício pelo magistrado, após o regular contraditório exigido na forma do § 4º do art. 792. (BUENO, 2016)

Cabe destacar ainda a redação do parágrafo único do artigo 774 do Código de Processo Civil (BRASIL, 2015) que, a critério do juiz, poderá o executado ser multado e sofrer demais sanções processuais e materiais por sua conduta atentatória à dignidade da justiça.

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3.2.2 Princípio do contraditório no processo de execução

O princípio do contraditório apresenta peculiaridades no processo de execução civil. No cumprimento de sentença, por exemplo, não é permitido ao executado rediscutir matéria de direito já sentenciada com trânsito em julgado. Isso decorre da proteção dada pelo ordenamento jurídico à coisa julgada (PINHO, 2016).

No mesmo sentido, conforme Humberto Dalla Bernardina de Pinho (2016), há outra peculiaridade do referido princípio no processo de execução fundado em título executivo extrajudicial, segundo a qual existe a possibilidade de contraditar os vícios de consentimento na formação do título e outras questões processuais, visto que não houve fase cognitiva na demanda.

Ainda sobre o tema, salienta Pinho (2016) que caso o magistrado reconheça o alegado no contraditório e não seja concedida a tutela executiva ao credor, ao devedor apenas é entregue tutela declaratória, ou seja, não é permitido a inversão da executividade da ação, pois essa pretensão é exclusiva do credor.

3.2.3 Princípio do respeito à dignidade da pessoa humana

O princípio da dignidade da pessoa humana, amplamente abordado no capítulo anterior, na seção 2.4.5, merece destaque quando aplicado especificamente ao processo de execução.

Assim, pontua o autor Theodoro Júnior (2013a, p. 131) que o princípio da dignidade da pessoa humana é bastante recorrente na doutrina e na jurisprudência de tutelas executivas, no sentido de que a execução não poderá levar o executado à condição não compatível com esse importante direito fundamental. Destaca-se:

Não pode a execução ser utilizada como instrumento para causar a ruína, a fome e o desabrigo do devedor e sua família, gerando situações incompatíveis com a dignidade da pessoa humana. Nesse sentido, institui o Código a impenhorabilidade de certos bens como provisões de alimentos, salários, instrumentos de trabalho, pensões, seguro de vida etc.” (THEODORO JÚNIOR, 2013a, p. 131)

Dessa maneira, pode-se afirmar que muitas das restrições à execução trazidas em diversos artigos Código de Processo Civil devem ser observadas, sob pena de diretamente ferir o princípio da dignidade da pessoa humana.

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3.2.4 Princípio da menor onerosidade

Este princípio é conhecido como da execução menos gravosa ao executado. Previsto no artigo 805 do Código de Processo Civil, o texto legal explica que se puder a execução ser concretizada de diversas maneiras deve o magistrado optar pela que for menos onerosa ao devedor (BRASIL, 2015).

Segundo o autor Humberto de Pinho (2016), “compete ao magistrado equilibrar os interesses em jogo, visando à satisfação do credor por um caminho mais benéfico para o devedor, sem comprometer a efetividade da medida”. Dessa forma, ao aplicar os atos executivos, deve, ao mesmo tempo, observar o interesse do credor, que busca o adimplemento da obrigação, e o interesse do devedor, que não deve ser onerado demasiadamente.

3.2.5 Princípio da patrimonialidade

O princípio da patrimonialidade ou princípio da realidade, elencado entre os princípios específicos da execução, decorre da evolução do direito, pois, em época passada, a execução poderia recair sobre a pessoa do devedor; nos dias atuais, contudo, tal possibilidade não é mais aceita. Portanto, a execução deve recair apenas sobre os bens, ou seja, sobre o patrimônio do devedor. (BUENO, 2012b, p. 56).

O ministro Teori Albino Zavascki pondera que, como resquício da época que se admitia a execução pessoal do devedor, há na legislação atual a possibilidade da prisão civil por falta do pagamento de prestação alimentar, porém destaca que esta é uma medida excepcional em função do direito material por trás dessa prestação (ZAVASCKI, 2004, p. 111).

“O devedor responde com todos os seus bens presentes e futuros para o cumprimento de suas obrigações, salvo as restrições estabelecidas em lei”. É o que diz o artigo 789 do Código de Processo Civil (BRASIL, 2015), que, com tal regra expressa, não restam dúvidas sobre a aplicabilidade do princípio da patrimonialidade e que apenas os bens do devedor devem cumprir com sua obrigação em um processo de execução civil.

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3.2.6 Princípio da tipicidade e adequação dos meios executivos

Da doutrina de Cassio Bueno, extrai-se o seguinte conceito para o princípio da tipicidade:

De acordo com a formulação tradicional, o princípio de tipicidade dos atos executivos significa que os atos executivos a serem praticados pelo Estado-juiz são “típicos” no sentido de que eles são prévia e exaustivamente previstos pelo legislador. O juiz no caso concreto não tem, nesta perspectiva de análise do princípio, nenhuma liberdade para alterar o padrão de atos processuais e, mais amplamente, de técnicas que lhe são reconhecidas como as únicas legítimas na lei por obra do legislador (BUENO, 2012b, p. 60, grifo do autor).

O autor complementa o pensamento afirmando que tal entendimento está voltado para a aplicação do princípio do devido processo legal. Que, dessa forma, o magistrado tem uma diretriz e isso impede que sejam tomadas medidas muito gravosas ao executado e seu patrimônio (BUENO, 2012b, p. 60).

Teori Zavascki (ZAVASCKI, 2004, p. 91), parafraseando Giuseppe Chiovenda e Galeno Lacerda, escreve que “a função de todo o processo é a de dar a quem tem direito tudo aquilo e exatamente aquilo a que tem direito”, por essa razão, para que a execução alcance seu o objetivo com o máximo de eficácia é necessário que as regras e os ritos se adequem aos sujeitos, ao objeto da demanda e ao fim pretendido.

Para concluir, Bueno (2012b, p. 61) explica a possibilidade de faltar previsão legislativa para determinados métodos executivos, e que, nesse caso, a carência da lei não deve inibir a atuação jurisdicional do Estado. O que serve como justificativa para a prática de meios executivos atípicos. Ou ainda, nos casos que a lei prevê uma forma de executar, porém, caso esta se mostre insuficiente, pode o juiz, excepcionalmente, com a devida justificação e motivação, aplicar outros meios que não o previsto.

Os meios executivos atípicos constituem o tema principal deste trabalho acadêmico e, por esta razão, serão abordados no próximo capítulo.

3.2.7 Princípio do título executivo

O título executivo é indispensável para que se proceda à execução em qualquer de suas vias, quais sejam, o cumprimento de sentença ou a execução

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forçada, por esta razão, além de ser considerado pressuposto da ação, é também trazido no direito processual civil como princípio. Araken de Assis afirma que “a pretensão a executar nasce do efeito executivo da condenação ou compõem a força (executiva) originária da ação” (ASSIS, 2016, p. 143).

Dessa forma, é possível afirmar que o que determina qual via executiva se processa a demanda é a espécie de título executivo que o credor possui, o judicial ou extrajudicial.

3.2.7.1 Título executivo judicial

Segundo Wambier e Talamini (2012, p. 69) “os títulos executivos judiciais consistem em provimentos jurisdicionais, ou equivalentes, que contêm uma determinação a uma das partes de prestar algo a outra”. E, para esses casos, quando voluntariamente o devedor não adimplir com a prestação ali imposta, gera para o credor a eficácia executiva do título judicial.

Com relação aos títulos executivos judiciais, o rol é taxativo e elencado no artigo 515 do Código de Processo Civil:

São títulos executivos judiciais, cujo cumprimento dar-se-á de acordo com os artigos previstos neste Título:

I - as decisões proferidas no processo civil que reconheçam a exigibilidade de obrigação de pagar quantia, de fazer, de não fazer ou de entregar coisa; II - a decisão homologatória de autocomposição judicial;

III - a decisão homologatória de autocomposição extrajudicial de qualquer natureza;

IV - o formal e a certidão de partilha, exclusivamente em relação ao inventariante, aos herdeiros e aos sucessores a título singular ou universal; V - o crédito de auxiliar da justiça, quando as custas, emolumentos ou honorários tiverem sido aprovados por decisão judicial;

VI - a sentença penal condenatória transitada em julgado; VII - a sentença arbitral;

VIII - a sentença estrangeira homologada pelo Superior Tribunal de Justiça; IX - a decisão interlocutória estrangeira, após a concessão do exequatur à carta rogatória pelo Superior Tribunal de Justiça;

X - (VETADO). (BRASIL, 2015).

Como é evidenciado no rol dos títulos executivos judiciais constantes no Código de Processo Civil (BRASIL, 2015), exceto o inciso I, os demais títulos são formados fora da esfera cível, porém eles detêm alguma relação com outras vias jurisdicionais ou equivalentes, destacando-se que são executados em cumprimento de sentença.

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3.2.7.2 Título executivo extrajudicial

Sobre os títulos executivos extrajudiciais, o conceito trazido por Wambier e Talamini (2012, p. 77) é que “são atos que abstratamente indicam alta probabilidade de violação de norma ensejadora de sanção, e que, por isso, recebem força executiva”.

Por sua vez, o artigo 784 do Código de Processo Civil traz o rol exemplificativo de títulos executivos extrajudiciais, que são:

São títulos executivos extrajudiciais:

I - a letra de câmbio, a nota promissória, a duplicata, a debênture e o cheque;

II - a escritura pública ou outro documento público assinado pelo devedor; III - o documento particular assinado pelo devedor e por 2 (duas) testemunhas;

IV - o instrumento de transação referendado pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública, pela Advocacia Pública, pelos advogados dos transatores ou por conciliador ou mediador credenciado por tribunal;

V - o contrato garantido por hipoteca, penhor, anticrese ou outro direito real de garantia e aquele garantido por caução;

VI - o contrato de seguro de vida em caso de morte; VII - o crédito decorrente de foro e laudêmio;

VIII - o crédito, documentalmente comprovado, decorrente de aluguel de imóvel, bem como de encargos acessórios, tais como taxas e despesas de condomínio;

IX - a certidão de dívida ativa da Fazenda Pública da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, correspondente aos créditos inscritos na forma da lei;

X - o crédito referente às contribuições ordinárias ou extraordinárias de condomínio edilício, previstas na respectiva convenção ou aprovadas em assembleia geral, desde que documentalmente comprovadas;

XI - a certidão expedida por serventia notarial ou de registro relativa a valores de emolumentos e demais despesas devidas pelos atos por ela praticados, fixados nas tabelas estabelecidas em lei;

XII - todos os demais títulos aos quais, por disposição expressa, a lei atribuir força executiva. (BRASIL, 2015).

Dessa maneira, destaca-se do rol dos títulos executivos extrajudiciais que vários deles são oriundos de negócios jurídicos formais. Ademais, em um processo de execução, não são os títulos discutidos quanto ao mérito ou ao negócio jurídico a ele vinculado, apenas sobre o cumprimento ou não da prestação nele contida.

3.3 VIAS EXECUTIVAS

Como anteriormente mencionado, o Código de Processo Civil prevê duas formas de executar judicialmente uma obrigação certa, líquida e exigível. A primeira delas é realizada através do cumprimento de sentença, fase posterior à sentença

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condenatória não adimplida espontaneamente pelo devedor, ou ainda baseada em algum dos outros títulos executivos judiciais previstos no artigo 515 daquele Código (BRASIL, 2015).

A segunda forma de execução é a execução forçada ou simplesmente ação de execução, que se procede em demanda autônoma, em regra, consubstanciada em um dos títulos executivos extrajudiciais trazidos no artigo 784 do Código de Processo Civil (BRASIL, 2015).

Por essa razão, a legislação e doutrina separam essas duas espécies executivas conforme a natureza do seu título e cada uma delas possui características e procedimentos diferenciados, conforme demonstrado nas seções seguintes.

3.3.1 Execução de título judicial

Os títulos executivos judiciais são processados de acordo com os procedimentos previstos para o cumprimento de sentença, seja a execução de sentença condenatória em processo de conhecimento ou ainda outras decisões ou demais títulos que a lei atribui a mesma força executiva (THEODORO JÚNIOR, 2013a, p. 8).

Theodoro Júnior (2013a, p. 16), quando trata do cumprimento de sentença condenatória, fala sobre a relação jurídica existente entre credor e devedor e que a falta de cooperação deste é o que enseja aquele a provocar o órgão jurisdicional para ver seu direito subjetivo satisfeito.

Porém, para que de fato ocorra a satisfação ao direito reconhecido, não basta a atividade jurisdicional apenas dizê-lo, esta deve também usar de meios e medidas coercitivas para entregar o bem da vida ao credor, por isso a importância do sincretismo processual, justificado pela aplicação do princípio da celeridade processual (THEODORO JÚNIOR, 2013a, p. 9).

Quanto à técnica processual é que se têm as principais diferenças das duas vias executivas, no caso do cumprimento de sentença que reconheça a exigibilidade de pagar quantia certa, o juízo competente inicia a execução por mero requerimento do credor, após isso, o devedor é intimado para pagar o débito no prazo de 15 dias (BRASIL, 2015).

Referências

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