Processo nº.:0002041-50.2014.5.02.0039 Autor: KAREN CRISTINA ARAUJO ALVES Réu:BANCO VOTORANTIM S.A.
Vistos, etc.
RELATÓRIO:
KAREN CRISTINA ARAUJO ALVES (reclamante) ajuizou reclamação
trabalhista em face deBANCO VOTORANTIM S.A. (reclamado), aduzindo que se ativou na função, pelo período, com jornada e sob a remuneração apontados na exordial e, por fim, postula os títulos e valores também destacados na petição inicial. Deu à causa o valor de R$ 150.000,00.
Regularmente notificada, a parte reclamada apresentou peça de bloqueio refutando a tese obreira, negando sua responsabilidade pelo que pleiteia a parte autora. Pugna a improcedência total dos pedidos autorais.
Juntada de documentos pelas partes e produção de prova oral, respeitado o contraditório.
Razões finais remissivas.
Infrutíferas as tentativas de acordo. É o relatório.
FUNDAMENTAÇÃO:
Protestos não renovados nas razões finais.
Não tendo as partes renovados, em razões finais, seus protestos feitos em audiência, tenho que houve resignação quanto ao indeferimento de perguntas, razão pela qual não há nada a se (re)considerar.
Inépcia.
Deixo de acolher a preliminar em apreço, quanto à entrega das guias GFIP, porquanto tenho que a exordial fora formulada com observância aos artigos 840, CLT e 282, CPC, bem como aos princípios da simplicidade e individuação – incidentes no processo laboral.
Horas extras.
Consigno, por primeiro, a existência de três espécies de confiança: a confiança genérica que é conferida a todo e qualquer empregado, como parte no contrato de trabalho; a confiança especial, conferida ao bancário, nos moldes do disposto pelo parágrafo 2º do artigo 224; e, a confiança extraordinária, dos empregados enquadrados na regra do artigo 62, inciso II, da CLT.
Tendo apontado que a reclamante se ativava em cargo de direção/chefia/gerência/fiscalização e por isso estaria sujeita à jornada de 8 horas/dia e 44 horas/semanais (art. 224, §2º, CLT), o reclamado atraiu para si o ônus da prova na forma do art. 818 da CLT e art. 333, II do Código de Processo Civil, encargo do qual não se desvencilhou.
Saliento que a configuração do exercício do cargo de confiança do bancário depende de prova das reais funções exercidas pelo trabalhador, independentemente da nomenclatura do cargo ocupado, na forma estabelecida na Súmula 102, I do C. TST.
Entendo ter restado patente que a reclamante não ocupava qualquer cargo de direção/chefia/gerência/fiscalização dentro do organograma da instituição financeira reclamada. Ora, para tanto, entendo ser necessário que que se configure nos autos os poderes do autor para representar a empresa em suas decisões, tais como o poder de admitir/demitir, punir, supervisionar, dentre outros, o que não ocorreu no caso em tela.
Neste sentido, observe-se que a preposta da ré afirma que a reclamante “não possuía subordinado; que não possuía poderes para marcar
férias de outros funcionários; que hierarquicamente acima da reclamante no departamento que trabalhava estavam, em ordem, gerente, superintendente”
Conclui-se, pois, que não só a reclamante não possuía quaisquer poderes de gestão, como também era subordinada a um gerente de departamentoe a um superintendente. Assim, na estrutura organizacional da ré, a autora seria mera escriturária, subjugada a um superintendente geral, cuja confiança poderia se enquadrar na forma extraordinária, ensejando a aplicação do art. 62, CLT, bem como a um gerente/chefe ocupante de cargo com confiança especial, este sim enquadrado no art. 224, §2º, CLT. Deste modo, pouco importa o nomen iuris do cargo ocupado pela reclamante, restando evidenciada que sua função não se enquadra nos casos de confiança extraordinária ou especial, ante as tarefas desempenhadas, os poderes atribuídos e subordinação complexa existente na estrutura da empresa. Ressalte-se que a inexistência de funcionários subordinados à autora apenas ressalta o entendimento de que a ela não se aplica nada além do que a mera confiança genérica.
mero pagamento não configura o referido enquadramento, o que se verifica com base no princípio da primazia da realidade, conforme acima exposto.
Considero, por outro lado, idôneos os cartões de ponto, ante a ausência de impugnação pela parte obreira e por apresentarem marcações irregulares.
Assim, fixo a jornada da reclamante como sendo das 9h às 18h (de segunda a sexta-feira), usufruindo de 60 minutos para o repouso intervalar.
Da forma fixada acima, tenho que a jornada de trabalho da reclamante não respeitava os ditames do caput do art. 224 da Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-Lei 5452/43), razão pela qual condeno o reclamado no pagamento de horas extras, assim consideradas aquelas que excederem a 6ª hora diária e/ou 30ª semanal.
Ressalte-se que, quanto ao divisor aplicado, embora a ré tenha reproduzido em contestação o conteúdo da cláusula 23ª da CCT aplicável, verifico no acordo coletivo de trabalho (doc. 71 do volume de documentos), conforme cláusula 6ª, parágrafo terceiro, que o repouso semanal remunerado incluía os sábados, domingos e feriados. Nesse sentido, aplico o divisor 150, conforme requerido pela reclamante, nos termos da Súmula 124, TST.Quanto aos reflexos em Participação nos Lucros e Resultados, julgo improcedente, eis que não há prova nos autos de que sua base de cálculo integre as horas extras.
Quando da liquidação, observar: evolução salarial; súmula 264, TST; adicional de 50% e 100% (este para domingos e feriados); dias efetivamente trabalhados; reflexos em DSR, 13º salário, férias acrescidas do terço constitucional e FGTS; divisor 150; aplicação do salário-hora da época correspondente.
Quanto à compensação de eventual pagamento de gratificação de função, ressalvo o posicionamento particular deste magistrado em sentido oposto, mas aplico o entendimento consubstanciado na Súmula 109 do C. TST, no particular.
Justiça Gratuita.
Defiro o pedido de justiça gratuita, porquanto preenchidos os requisitos da Lei 1060/50 e art. 790, §3º da CLT, conforme declaração anexada à inicial.
Honorários Advocatícios.
Indevidos, eis que não preenchidos os requisitos previstos na OJ 305, SDI1, C. TST. Inteligência das Súmulas 219 e 329 da mesma corte.
Ademais, nada obstante o entendimento pessoal deste julgador, curvo-me à dicção da Súmula 18 do TRT da 2ª Região para indeferir o pagacurvo-mento de indenização por despesa com a contratação de advogado, requerido pela parte reclamante com fulcro nos arts. 389 e 404 do Código Civil Brasileiro.
Compensação. Dedução.
Indefiro o pedido de compensação porquanto não restou provado que a parte ré é credora de dívida de natureza trabalhista da reclamante (Súm. 18, TST). Autorizo, todavia, a dedução de valores comprovadamente pagos a idêntico título, a fim de evitar o enriquecimento sem causa do obreiro, sendo que qualquer excesso no pagamento deve ser tido como liberalidade da empresa.
Juros de mora. Correção monetária.
Juros de mora sobre as parcelas já corrigidas (Súm. 200, TST), a razão de 1% a.m., “pro rata die”, desde o ajuizamento da ação (art. 883, CLT). Correção monetária pelo IPCA-E, de acordo com entendimento vinculante do E. STF, a contar do vencimento da obrigação (art. 459, §1º da CLT c/c Súm. 381, TST), observada a peculiaridade do dano moral (Súm. 439, TST).
Contribuições previdenciárias e fiscais.
Ambos a serem efetuados pela parte reclamada, na forma do art. 46 da Lei 8541/92 e do art. 43 da Lei 8212/93, autorizadaa dedução da quota-parte do reclamante (OJ 383, SDI do C. TST).
Contribuições previdenciárias incidentes sobre as parcelas com natureza de salário de contribuição e imposto de renda a cargo da reclamada, sobre os rendimentos recebidos acumuladamente (RRA) correspondentes aos períodos anteriores ao do recebimento, de observância mês a mês (INRFB 1127/2011, art. 3º) – atentando-se ao disposto na OJ 400, SDI1, TST.
Saliento que a culpa patronal pelo inadimplemento das verbas remuneratórias não exime a responsabilidade obreira pelo recolhimento dos encargos em voga (OJ 363, SDI do C. TST), a ser realizado na forma da súmula 368, II do C. TST.
DISPOSITIVO:
Ante o exposto, no curso da reclamação trabalhista movida por KAREN CRISTINA ARAUJO em face de BANCO VOTORANTIM S.A.,
parcialmente procedentes os pedidos autorais, a fim de condenar a reclamada na obrigação de pagar as seguintes parcelas:
a) Horas extras;
b) Reflexos das horas extras em DSR, 13º salário; c) Reflexos das horas extras em férias acrescidas do terço constitucional e FGTS.
Improcedentes os demais pedidos.
Em observância ao comando do art. 832, §3º da CLT, declaro que as parcelas “a” e “b”, elencadas neste dispositivo, possuem natureza salarial.
Juros de mora, correção monetária, contribuições previdenciárias e fiscais na forma disposta na fundamentação, que passa a fazer parte desde dispositivo.
Quando da liquidação, autoriza-se a dedução de valores, na forma da fundamentação.
Custas, pela reclamada, no valor de R$ 400,00, equivalente a 2% do valor da condenação, que ora se arbitra em R$ 20.000,00, a serem recolhidas na forma do art. 789, §1º da CLT.
Intimem-se as partes. Dispensada a intimação da União. São Paulo, 17 de setembro de 2015.
JOSÉ AGUIAR LINHARES LIMA NETO Juiz do Trabalho Substituto