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UNEMAT 2016 série de análises literárias. AUTO DA COMPADECIDA ARIANO SUASSUNA Prof. Renato tertuliano

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UNEMAT 2016

série de análises

literárias

AUTO DA COMPADECIDA

ARIANO SUASSUNA

(2)

Sobre o autor

Ariano Suassuna é um escritor nascido

em João Pessoa, Paraíba. Defensor da

cultura da sua região, o autor de Auto da

compadecida lançou o

Movimento

Armorial

, que se interessava pelo

conhecimento e desenvolvimento das

formas de expressão populares

(3)

Importância do livro

Auto da compadecida é uma peça teatral em forma

de

auto (gênero da literatura que trabalha com

elementos cômicos e tem intenção moralizadora)

. É um

drama nordestino apresentado em três atos. Contém

elementos da literatura de cordel e está inserido no

gênero da comédia, se aproximando, nos traços, do

barroco católico brasileiro. Trabalha com a linguagem

oral e apresenta também o regionalismo através da

caracterização do nordeste. A peça foi escrita em 1955

e encenada pela primeira vez em 1956.

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Atmosfera circense

A peça, escrita por Ariano Suassuna em 1955, obteve grande destaque ao ser encenada no Rio de Janeiro, em 1957, por ocasião do 1º Festival de Amadores Nacionais. O Brasil descobria ali um novo tipo de teatro, calcado na tradição popular.

O enredo da peça é um trabalho de montagem e moldagem baseado em uma tradição antiquíssima, que remonta aos autos medievais de Gil Vicente e mais diretamente a inúmeros autores populares que se dedicaram ao gênero do cordel. Nesse tipo de literatura, os

criadores contam e recontam as mesmas histórias e acrescentam o seu toque pessoal.

Reconhecer esse “toque pessoal” de cada trabalho artesanal, contudo, exige do observador grande atenção aos detalhes.

A peça tem um pequeno texto introdutório que visa a orientar a encenação e a explicar, em linhas gerais, o espírito da obra: “O Auto da Compadecida foi escrito com base em romances e histórias populares do Nordeste. Sua encenação deve seguir, portanto, a maior linha de

simplicidade, dentro do espírito em que foi concebido e realizado (...)”.

Um pouco adiante, o autor sugere ainda que na primeira cena se utilize o palco como um “picadeiro de circo”. De fato, nessa cena, todos os personagens (com exceção de Manuel, o Jesus, representado por um ator negro, que fica escondido para preservar o efeito de

surpresa) apresentam-se ao público fazendo mesuras e são anunciados em voz alta pelo Palhaço, numa atmosfera circense.

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Atmosfera circense

 A primeira fala da peça cabe ao Palhaço, e a orientação do autor é que seja realizada

em “grande voz”: “Auto da Compadecida! O julgamento de alguns canalhas, entre os quais um sacristão, um padre e um bispo (...)”.

Após um “toque de clarim”, o assunto da peça é anunciado pelo Palhaço: “A

intervenção de Nossa Senhora no momento propício, para triunfo da misericórdia. Auto da Compadecida!”

Todos esses elementos antecipam partes da narrativa: desde a apresentação prévia dos personagens até o anúncio de que será realizado um julgamento e que nele Nossa Senhora intervirá de forma a salvar os condenados.

O espectador pode se perguntar: para que antecipar o que vai acontecer e estragar a surpresa? O fato é que, nesse tipo de tradição, o que importa não é um final

inesperado. O que deve ser apreciado é o “como se fez”, ou seja, a habilidade do autor ao trabalhar o material conhecido de todos.

Fenômeno parecido pode ser observado no romance Dom Quixote, no qual os títulos de cada um dos inúmeros capítulos antecipam os acontecimentos que depois serão

contados detalhadamente. Esse prazer de contar e recontar histórias é típico da

tradição oral e está quase extinto em nossos dias, em virtude de mudanças históricas que fazem com que o homem contemporâneo não tenha tempo nem disposição para ouvir repetidas vezes as mesmas histórias.

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A metáfora como crítica

A peça trata, de maneira leve e com humor, do drama vivido pelo povo

nordestino: acuado pela seca, atormentado pelo medo da fome e em

constante luta contra a miséria. Traça o perfil dos sertanejos nordestinos que

estão submetidos à opressão e subjugados por famílias de poderosos coronéis

donos de terra. Nesse contexto, o personagem de João representa o povo

oprimido que tenta sobreviver no sertão, utilizando a única arma do pobre: a

inteligência.

Fica evidente o cunho de sátira moralizante da peça, através das

características de seus personagens. O padeiro e a mulher são avarentos,

deixando passar necessidade o empregado enquanto cuidam bem do

cachorro. O padre e o bispo, gananciosos, utilizam da autoridade religiosa para

enriquecerem. Todos estes são condenados ao purgatório com a interseção de

Nossa Senhora. Já Severino e o cangaceiro, apesar de todos os crimes

cometidos em vida, são poupados por serem considerados vítimas naquela

situação: a seca, a fome e toda a difícil realidade os obrigaram a levar este

tipo de vida.

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Enquadre de estilo

A peça é uma síntese do modelo medieval com o modelo

regional: trabalha o tema religioso da moral católica - se

aproximando dos temas barrocos no que diz respeito ao conflito

entre a materialidade e a espiritualidade, a virtude e o prazer -,

mas inserido no contexto nordestino, ou seja, regional na

linguagem, cenário e caracterização das personagens. Por ser

um dos objetivos do movimento modernista trabalhar

tendências mundiais de forma regional, adaptando-se a nossa

realidade, a peça pode ser considerada como de tendência

modernista.

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Personagens

Os personagens de Auto da Compadecida são alegóricos, ou seja, não representam

indivíduos, mas tipos que devem ser compreendidos de acordo com a posição estrutural que ocupam. A criação desses personagens possibilita que se enxergue a sociedade de uma cidadezinha do Nordeste. É por isso que a peça pode ser chamada sátira social, pois procura reformar os costumes, moralizar e salvar as instituições de sua vulgarização.

PALHAÇO – é o anunciador da peça e também o grande comentador das situações.

Suas falas apresentam muitas vezes um discurso mais direto, que dá a impressão de vir do autor. Na verdade, o Palhaço exerce função metalinguística no espetáculo, ao refletir sobre o próprio mecanismo mágico de produção da imitação e ao suprimir a distância entre realidade e representação.

JOÃO GRILO – protagonista, personagem pobre e franzino, que usa de sua infinita

astúcia para garantir a sobrevivência. Já foi comparado a Macunaíma, o herói sem caráter. Tal comparação, no entanto, revela-se inadequada, já que João Grilo, ao contrário do personagem criado por Mário de Andrade, trabalha de forma dura, ajuda seu grande amigo Chicó e tem como justificativa de suas traquinagens ser assolado por uma pobreza absoluta. O mais acertado seria compará-lo ao

personagem picaresco, encontrado no romance medieval Lazarilho de Tormes. Mas nem é preciso ir tão longe, pois Pedro Malazarte – cuja origem ibérica está em Pedro Urdemalas – é o personagem popular mais próximo de João Grilo.

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Personagens

CHICÓ – é o contador de causos, o mentiroso ingênuo que cria histórias apenas para

satisfazer um desejo inventivo. Chicó se aproxima do narrador popular, e suas histórias

revelam muito do prazer narrativo desinteressado da cultura popular. Chicó e João

Grilo são como a dupla de palhaços entre os quais a esperteza é mal repartida — um

sempre a tem de mais e o outro, de menos.

PADRE JOÃO – mau sacerdote local, preocupado apenas em angariar fundos para

sua aposentadoria.

SACRISTÃO – outro exemplo de mau religioso.

BISPO – juntamente com o padre João e o sacristão, ajudará a compor o quadro de

representação da Igreja corrompida.

ANTÔNIO MORAES – típico senhor de terras, truculento e poderoso, que se impõe pelo

medo, pelo dinheiro e pela força.

PADEIRO – representante da burguesia interessada apenas em acumular capital,

explora seus empregados e tem acordos com as autoridades da Igreja.

MULHER DO PADEIRO – esposa infiel e devassa, tem amor genuíno apenas por seus

animais de estimação.

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Personagens

SEVERINO DO ARACAJU – cangaceiro violento e ignorante.

CANGACEIRO – ajudante de Severino, seu papel é apenas puxar o gatilho e executar

outros personagens.

DEMÔNIO – ajudante do Diabo, parece disposto a condenar todos os personagens

mortos no final do segundo ato.

O ENCOURADO (O DIABO) – segundo uma crença nordestina, o diabo utiliza roupas

de couro e veste-se como um boiadeiro. Funciona como uma espécie de

antagonista de João Grilo; como ele, também é astuto, mas acaba sendo derrotado

pelo herói.

MANUEL (NOSSO SENHOR JESUS CRISTO) – personagem que simboliza o bem, porém

um bem sem misericórdia. É representado por um ator negro, a fim de que isso

produza um efeito de estranhamento no público.

A COMPADECIDA (NOSSA SENHORA) – heroína da peça, funciona como uma

advogada de João Grilo e de seus conterrâneos, derrotando com seus argumentos

cheios de misericórdia os planos do Encourado de levar todos ao inferno.

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O MOVIMENTO ARMORIAL

O Movimento Armorial surgiu sob a inspiração e direção de Ariano Suassuna, com a colaboração de um grupo de artistas e escritores da região Nordeste do Brasil e o

apoio do Departamento de Extensão Cultural da Pró-Reitoria para Assuntos Comunitários da Universidade Federal de Pernambuco.

Teve início no âmbito universitário, mas ganhou apoio oficial da Prefeitura do Recife e da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco.

Foi lançado oficialmente, no Recife, no dia 18 de outubro de 1970, com a realização de um concerto e uma exposição de artes plásticas realizados no Pátio de São Pedro, no

centro da cidade.

Seu objetivo foi o de valorizar a cultura popular do Nordeste brasileiro, pretendendo realizar uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares da cultura do País.

Segundo Suassuna, sendo "armorial" o conjunto de insígnias, brasões, estandartes e

bandeiras de um povo, a heráldica é uma arte muito mais popular do que qualquer coisa. Desse modo, o nome adotado significou o desejo de ligação com essas heráldicas raízes culturais brasileiras.

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O MOVIMENTO ARMORIAL

O Movimento tem interesse pela pintura, música, literatura, cerâmica, dança, escultura, tapeçaria, arquitetura, teatro, gravura e cinema.

Uma grande importância é dada aos folhetos do romanceiro popular nordestino, a chamada literatura de cordel, por achar que neles se encontram a fonte de uma arte e uma literatura que expressa as aspirações e o espírito do povo brasileiro, além de reunir três formas de arte: as narrativas de sua poesia, a xilogravura, que ilustra suas capas e a música, através do canto dos seus versos, acompanhada por viola ou rabeca.

São também importantes para o Movimento Armorial, os espetáculos populares do Nordeste, encenados ao ar livre, com personagens míticas, cantos, roupagens

principescas feitas a partir de farrapos, músicas, animais misteriosos como o boi e o cavalo-marinho do bumba-meu-boi.

O mamulengo, ou teatro de bonecos nordestino, também é uma fonte de inspiração para o Movimento, que procura além da dramaturgia, um modo brasileiro de

encenação e representação.

Congrega nomes importantes da cultura pernambucana. Além do próprio Ariano Suassuna,Francisco Brennand, Raimundo Carreiro, Gilvan Samico, entre outros, além de grupos como o Balé Armorial do Nordeste, a Orquestra Armorial de Câmara, a

Referências

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