Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em História da Arte – Área de especialização em História da Arte da Antiguidade, realizada sob a orientação científica da Professora Doutora Filomena
AGRADECIMENTOS
Gostaria de expressar o meu agradecimento ao Senhor Doutor Manuel Maia, arqueólogo e director do Museu da Lucerna em Castro Verde, por todo o apoio, tempo e explicações que me dedicou durante as minhas visitas ao Museu das lucernas votivas de
Santa Bárbara de Padrões.
O Santuário de Santa Bárbara de Padrões
–
uma Perspectiva Religiosa
e Artística na Lusitânia dos Séculos I a III d. C.
Jaime da Encarnação Calado
Resumo:
O presente trabalho de investigação teve como principal objectivo desvendar os mistérios do santuário de Santa Bárbara de Padrões (séculos I-III d. C.) em termos da(s) divindade(s) aí venerada(s), da origem e significado primeiro da luz votiva que resultou num depósito repleto de lucernas nas proximidades do santuário, da funcionalidade dos tanques presentes no local de culto, e dos aspectos arquitectónicos e decorativos que apresentaria o complexo religioso.
Após uma análise de vários tipos de indícios – arqueológicos, etnográficos, topográficos, toponímicos, geográficos –, incluindo-se o paralelismo entre os
Aranditani de Santa Bárbara de Padrões e os Vocontii do Sudeste da Gália, e das diferentes possibilidades relativamente à natureza da divindade, concluiu-se que o local de culto foi consagrado aos grandes deuses alexandrinos, havendo uma relação segura entre a toponímia do sítio –“Santa Bárbara” – e os antigos locais de culto dedicados a Ísis e Serápis.
Neste contexto egipcizante, a presença de tanques no santuário estaria provavelmente ligada a uma representação artificial da enchente do Nilo, fazendo frente a um templo de estilo romano com pronaos desenvolvido sobre pódio elevado, o conjunto inserido numa área descoberta e porticado. Vários elementos arquitectónicos e decorativos com iconografia nilótica estariam presentes no santuário, para criar um ambiente que rememorava um Egipto miniaturizado.
Além do principal edifício de culto, teríamos igualmente muitas outras possibilidades de construções, como capelas abrigando outras divindades; salas de mistérios, de banquete e de reunião relacionadas com os télétai; cozinhas; residências para os sacerdotes e dormitórios para os devotos; via sagrada e espaços para reunião de procissões ou celebração dos dramas sagrados; entre outros.
O depósito votivo, por sua vez, localizado a 100 m dos tanques para Sul, estaria fora do recinto sagrado, mas provavelmente junto a uma porta de entrada para o
temenos. Aí eram arrecadadas lucernas votivas após sua dedicação e alumiação perante a(s) divindade(s) do Nilo. A origem desta prática remontaria provavelmente até ao antigo Egipto, mais precisamente, a um eventual ritual mágico realizado diante da cella
da divindade nos templos egípcios de época faraónica.
Palavras-chave:
Santa Bárbara de Padrões; Deuses alexandrinos; Serapeu;
Iseu;
San
ta Bárbara of Padrões’
Sanctuary
–
a Religious and Artistic
Perspective in Lusitania of I-III A. D.
Jaime da Encarnação Calado
Abstract:
This dissertation’s main scope is to unveil Santa Bárbara of Padrões sanctuary’s
mysteries (I-III A. D.), in terms of the divinity worshiped there, of the origin and main meaning of the votive light coming from a depository filled with lamps in the proximities of the sanctuary, of the purpose of the tanks present at the place where the cult took place, and of the architectonic and decorative features that the sanctuary would present.
After an analysis of the several indications present at the site – archeological, ethnographic, topographic, toponymic and geographic –, including the parallelism
between the Santa Bárbara of Padrões’ Aranditani and the Southeast of Gália’s Vocontii
and of the different possibilities into what the nature of the divinity is concerned, it was concluded that the place where the cult took place was consecrated to the great alexandrine gods; there exists a clear relation between the toponymic of the site – “Santa Bárbara” – and of the ancient places of cult dedicated to Isis and Serapis. Considering this Egyptian context, the presence of tanks at the sanctuary was probably linked to an artificial representation of the flooding of the Nile, located in front of a roman style temple with a pronaos developed on an elevated podium, all inserted in an open area and with a portico. Several architectonic and decorative elements with a nilotic iconography would be present at the sanctuary, in order to create an environment that reminded a miniaturized Egypt.
In addition to the main building where the cult took place, we would have as well many other possibilities of constructions, including chapels sheltering other divinities; rooms of mysteries, of banquet and of meetings linked to the télétai; kitchens; houses for the clergymen and dormitories for the devotee; sacred passage and meeting places for processions and celebrations of the holy representations; and so one. The votive depository, located at 100 m of the tanks heading south, would be outside the sacred place, but probably close to an entrance door leading to the temenos. Here, votive lamps were kept after their consecration and illumination facing the Nile divinities. The origin of this practice probably goes back to ancient Egypt, more precisely, to a possible magic ritual performed before the cella of the divinity in the Egyptian temples during the pharaoh era.
Keywords:
Santa Bárbara of Padrões; Alexandrine gods;
Sarapis’ temple; Isis’ temple;
ÍNDICE
Introdução ... 9
Capítulo I: A antiga cidade romana de Arandis / Arannis ... 11
I) 1) A localização do santuário ... 11
I) 2) Os Aranditani ... 13
I) 2) a) Origem e evolução ... 13
I) 2) b) Os Aranditani e os Vocontii... 17
I) 3) Os vestígios arqueológicos……… 20
I) 3) a) A cidade……… 20
I) 3) b) O depósito votivo e os tanques……….. 25
Capítulo II: A(s) divindade(s) venerada(s) no santuário de Santa Bárbara de Padrões – os indícios ... 32
II) 1) Táranis / Júpiter ... 32
II) 1) a) Os Celtas do Sudeste da Gália e o santuário de Chastellard de Lardiers……… 32
II) 1) b) O topónimo “Santa Bárbara”……… 35
II) 1) c) O menir……… 36
II) 1) d) Sob a dominação romana………... 38
II) 1) e) Impacto de um raio... 40
II) 2) As influências orientais………... 41
II) 3) O depósito de lucernas votivas………. 44
II) 3) a) A “religião votiva”………... 44
II) 3) b) A iconografia das lucernas votivas………... 47
II) 4) Mitra……….. 54
II) 5) Divindades alexandrinas……….. 57
II) 5) a) As lucernas e os santuários dos deuses egípcios……….. 57
II) 5) b) Os contactos greco-egípcios……….. 59
II) 5) c) O caso dos Vocontii………. 60
II) 5) c) i) A transmissão da luz votiva……… 60
II) 5) c) ii) Os espelhos votivos……….……... 64
II) 5) d) A toponímia de “Santa Bárbara”……… 68
II) 5) e) Os tanques………. 75
II) 5) f) O significado da luz votiva em contexto egípcio……….. 81
Capítulo III: Os santuários e os cultos dos deuses alexandrinos ... 88
III) 1) Instalação dos cultos nilóticos na Hispânia ... 88
III) 2) Serápis. ... 89
III) 3) Os cultos de mistérios ... 92
III) 4) Os santuários romanos e egípcios – aspectos arquitectónicos e decorativos ... 94
III) 4) a) Os santuários romanos………. 94
III) 4) a) i) O templo romano segundo Vitrúvio…………... 94
III) 4) a) ii) Vestígios de templos romanos na antiga Lusitânia……….. 98
III) 4) a) iii) Os santuários greco-romanos – complexo religioso……….100
III) 4) a) iv) O santuário de Chastellard de Lardiers……… 101
III) 4) b) i) Aspectos arquitectónicos e decorativos………. 104
III) 4) b) ii) O Serapeu de Óstia……… 108
III) 4) b) iii) O “Serapeu de Cânopo” da Villa de Adriano (Tivoli)………. 110
III) 4) b) iv) O Iseu de Baelo Claudia (Bolonia, Cádis)………… 115
III) 4) b) v) O Iseu de Italica (Santiponce, Sevilha), o templo dos deuses alexandrinos de Emporiae (Ampúrias, Gerona) e o pé serapeico de Conimbriga (Condeixa-a-Velha)……….. 117
III) 5) Vivência religiosa num santuário egípcio. ... 121
III) 6) As oferendas votivas de Santa Bárbara de Padrões ... 127
Conclusão ... 132
Bibliografia ... 136
Introdução
Em Santa Bárbara de Padrões, freguesia do concelho de Castro Verde, distrito de Beja, foram exumadas no topo de uma colina onde se situa uma igreja e um cemitério, as ruínas de uma basílica paleocristã (séculos IV-VI d. C.), junto a tanques de formigão de época anterior, bem como um depósito de lucernas romanas, datadas entre os séculos I e III d. C.. Esses vestígios arqueológicos foram descobertos aquando das obras de ampliação do cemitério, em 1984 e 1994, mais exactamente, nas proximidades imediatas das paredes Norte e Sul do recinto1.
Os arqueólogos M. G. P. Maia e M. Maia2 acreditam que a dita “vala das lucernas” representa um depósito votivo secundário de um santuário localizado nas suas
proximidades, mais concretamente, no local onde hoje se situa uma igreja de traça gótica. A presença deste edifício de culto cristão, bem como dos achados de parte de uma basílica paleocristã (detrás da igreja) e de um menir encontrado deitado no adro, testemunham a permanência do culto neste determinado local.
Várias centenas ou mesmo milhares de lucernas foram portanto arrecadadas no depósito de Santa Bárbara, depois de retiradas do local de culto onde inicialmente foram colocadas, em acto votivo, e dedicadas a uma divindade ali venerada, cujo nome ainda se desconhece3.
Apesar de não se ter encontrado nenhuma peça epigrafada que nos pudesse revelar a identidade da divindade aí consagrada4, muitos outros indícios podem no entanto elucidar-nos sobre esta problemática: etnia da civitas; topografia do terreno; toponímia do lugar; área geográfica de implantação e influências exteriores; vestígios arqueológicos dos tanques e do depósito votivo com as suas lucernas, não esquecendo o menir; e paralelos com outros santuários apresentando características semelhantes.
Após a devida localização do santuário numa determinada civitas, com a consequente análise da sua etnia e dos paralelos que pode apresentar com outros povos do Império Romano, várias propostas de divindades serão apresentadas ao longo deste
1
Maia, 2006, p. 41 e Maia e Maia, 1997, pp. 11-12, 13, 15.
2
Maia e Maia, 1997, p. 19.
3Maia e Maia, 1997, p. 11 do prefácio de T. J. Gamito.
4
estudo, desde Táranis/Júpiter a Mitra. Do cruzamento dos indícios, e sobretudo pelo conteúdo invulgar da favissa de Santa Bárbara (raros são os santuários com depósitos contendo uma grande quantidade de lucernas votivas) e da localização geográfica de depósitos semelhantes, bem como da informação valiosa da toponímia do sítio, resultará uma hipótese final que tende para a existência no nosso santuário de um culto egípcio. De facto, tudo indica que o local de culto de Santa Bárbara de Padrões foi consagrado aos grandes deuses alexandrinos Ísis e Serápis.
Tendo-se conhecimento da natureza do local de culto, o estudo irá em seguida centrar-se nos aspectos arquitectónicos e decorativos que apresentaria o santuário de Santa Bárbara de Padrões, bem como nos seus aspectos religiosos relativamente à vivência dos sacerdotes e aos cultos aí praticados, tentando ao longo do caminho desvendar o significado da luz votiva em contexto egípcio.
I) A antiga cidade romana de
Arandis/Arannis
I) 1) A localização do santuário
Segundo o arqueólogo M. Maia5, a aldeia de Santa Bárbara de Padrões pode ser identificada com a antiga cidade romana de Arandis ou Arannis6 no Sul da Lusitânia, uma afirmação demonstrada pelo estudo da famosa via XXI do Itinerário de Antonino7. Como uma das provas da sua hipótese, temos um bom troço de calçada romana ainda visível desta via8 na actual povoação de Santa Catarina da Fonte do Bispo9 (freguesia do concelho de Tavira, Faro), na margem da ribeira dos Montes e Lagares, troço que seguiria depois para Norte por Porto Carvalhoso. Este pedaço de estrada seria aquele que ligaria a cidade de Arannis a Ossonoba (via XXI).
De facto, numa observação in situ (ver figs. 1 e 2), podemos encontrar vestígios de summum dorsum10 no dito lugar11 (antes de chegarmos aos vestígios da via romana,
5
Maia, 2006, pp. 39-45.
6
Esta cidade romana é referida no Itinerário de Antonino (426, 3: «Arannis»), pelo anónimo de Ravena (306, 13: «Aranis»), por Ptolemeu (II, 5, 5: «Arandis») e por Plínio-o-Velho (IV, 118: «Aranditani»). Para a explicação das diferentes grafias, J. P. Bernardes propõe a hipótese de uma evolução do fonema,
com a queda do “d”, do Alto para o Baixo-Império (Bernardes, 2006, p. 155). É preciso notar que,
enquanto J. P. Bernardes escreve o nome da cidade sem “s”, resultando Aranni ou Arani, A. Guerra escreve pelo contrário com “s”, resultando Arannis ou Aranis (ver Guerra, 1995, p. 105).
7
Via XXI [Ba]Esuri[s]-Pax Iulia do Itinerário de Antonino (Carneiro, 2009, pp. 83-85), que ligava
Ossonoba a Pax Iulia, passando por Arandis/Arannis, situado, segundo M. Maia, no local de S. Bárbara de Padrões.
8
De [Ba]Esuri[s]a Pax Iulia por Arannis e Salatia não existe somente uma via mas antes um conjunto de pelo menos quatro estradas ou troços de estrada que forma este Iter (Maia, 2006, p. 42).
9
Maia, 2006, pp. 42-44.
10Em termos dos elementos constitutivos de uma calçada romana, temos a descrição de S. Rodrigues:
«Após a delimitação do traçado da estrada no terreno, abria-se uma trincheira ou fossa (sulcus) da largura que a calçada teria, procedendo-se à extracção das terras até à rocha ou solo firme, onde assentaria o lastro ou cama do empedrado. Esse lastro constituía-se por uma camada base de terra argilosa e pedras de vários tamanhos bem compactadas (statumen). A fim de regularizar a superfície, antes de se estabelecer o pavimento, adicionava-se uma camada composta por saibro, pedras de pequenas e médias dimensões e cal, tudo bem compactado. Este nucleus ou camada intermédia designava-se por rudus ou ruderatio. A um nível mais elevado dispunham-se as margines que flanqueavam a calçada, limitando-a e servindo de contrafortes que impediam o seu esboroamento. Finalmente, pavimentava-se o nível superior (summum dorsum ou summa crusta) que era um pouco abaulado ao centro, permitindo o escoamento das águas das chuvas para as bermas, sendo o tamanho das lajes do pavimento variado» (Rodrigues, 2004, p. 19). M.
Maia acrescenta que «as calçadas tinham que ser tapadas com terra a fim de permitirem o trânsito. (…)
Lembremo-nos de que as calçadas eram apenas cobertas com terra que, após um período de chuva intensa, por muito calcada que fosse, teria tendência para ser arrastada pela água deixando as lajes à vista» (Maia, 2006, p. 40).
11
podemos, desde logo, observar algumas lajes da calçada tombadas no fundo da ribeira). O troço prolonga-se por vários metros até chegar a uma pequena ponte em cimento que atravessa a ribeira (cuja base foi feita com lajes romanas reutilizadas para este efeito). Após passar a ponte, à direita da ribeira, só algumas lajes aparecem muito esparsas para, em seguida, reaparecer um pequeno troço desta via antes de desaparecer numa densa vegetação (em que se pode, arrancando o musgo e as ervas, observar a continuação deste troço até ao talude de uma estrada municipal que lhe passa por cima).
A. Carneiro, segundo a sua análise das vias romanas do Alentejo, baseada numa releitura da obra de M. Saa sobre o Itinerário de Antonino Pio, refere-se também à possibilidade de uma identificação de Santa Bárbara de Padrões com Arannis12, nas vias XIII e XXI13.
Para a via XIII – Salacia-Ossonoba (Alcácer do Sal-Faro)14, o trajecto passaria talvez por Peroguarda (outro sítio importante para o nosso estudo sobre o santuário de Santa Bárbara de Padrões) antes de chegar aos arredores da cidade de Pax Iulia. Em seguida, a partir de Beja, tendo por destino final Ossonoba, a via tomava rumo para Sul e, antes de entrar na serra algarvia, passava por Santa Bárbara de Padrões (Arannis).
Em relação à via XXI – [Ba]Esuri[s]-Pax Iulia (Castro Marim-Beja), A. Carneiro nota que Arannis tem oscilado nesta via entre Garvão e Santa Bárbara de Padrões e que Serapia (cidade incluída na via XXI, logo após Arandis15), a ter existido, pode corresponder a Santa Margarida do Sado ou a Peroguarda.
quando se chega a S. Catarina da Fonte do Bispo, vindo de Tavira ou Olhão, toma-se a direcção
de S. Brás de Alportel na primeira rotunda que se apresenta;
em seguida, toma-se a direcção Porto Carvalhoso (a direita) para logo voltar na primeira a esquerda;
atravessa-se depois uma pequena ponte (a segunda, do lado esquerdo) que vai dar a uma oficina para carros;
a cerca de 200 metros desta oficina, na margem esquerda da ribeira, aparece o nosso troço romano (percurso a pé).
12
O autor cita para esta identificação o artigo de J. P. Bernardes (Bernardes, 2006).
13
Carneiro, 2009, pp. 77-85.
14
Possivelmente, segundo este autor, uma mera derivação, ou ramal da via XII (Olisipo-Emerita), a partir de Salacia (Carneiro, 2009, p. 77).
15
Finalmente, J. P. Bernardes demonstra e confirma igualmente a identificação de Santa Bárbara de Padrões com Arannis16, salientando a importância que tinha ainda a via XXI na Idade Média17, o posicionamento geográfico de Santa Bárbara de Padrões18 e os vestígios arqueológicos desta última cidade, como argumentos fortes para aqui se situar o locus de Arandis19.
I) 2) Os
Aranditani
I) 2) a) Origem e evolução
Para o conhecimento da origem dos Aranditani, começamos pelas informações
de certos autores da Antiguidade como Plínio-o-Velho, Ptolemeu ou Estrabão, comunicadas e interpretadas por A. Guerra na sua obra Plínio-o-Velho e a Lusitânia20.
A cidade de Arandis faria parte, segundo Plínio, dos ópidos estipendiários21 da Lusitânia, e os seus habitantes, para Ptolemeu, incluíam-se entre os Célticos22.
A afirmação de Ptolemeu é deveras interessante, sobretudo quando A. Tovar reconhece no topónimo o sufixo -nt- característico das línguas indo-europeias e o aproxima linguisticamente dos nomes que ocorrem nas legendas monetárias celtibéricas
A-r-a-ti-s e A-r-a-ti-co-s. Esta observação de A. Tovar é relacionada por A. Guerra com um passo pliniano que afirma que os Célticos do convento Hispalense da Bética são
16
Bernardes, 2006, pp. 157-161.
17
Os percursos medievais concordam com o traçado viário que se faria pelas imediações de Almodôvar/Santa Bárbara de Padrões, e esta antiga via romana de ligação Norte-Sul constituiria ainda na Idade Média uma das principais ligações ao Algarve para pessoas e mercadorias (Bernardes, 2006, pp. 157-158).
18
Santa Bárbara de Padrões distancia-se de Faro por 60 milhas, e de Beja por 35 milhas (Bernardes, 2006, p. 159).
19
Segundo uma hipótese do autor, o erro do Itinerário de Antonino, relativamente à via XXI, não está na distância (a problemática das 35 milhas entre Arandis e Salacia) mas na localidade que se segue a
Arannis, isto é, em vez de Salacia, teríamos na realidade Pax Iulia (Bernardes, 2006, pp. 158-159).
20
Guerra, 1995, pp. 29, 34-35, 60, 105-106.
21
Estipendiário: imposto a que estavam sujeitas as províncias do senado ou do povo, enquanto que, para as do imperador, o imposto era o tributo.
22 Ptolemeu enumera (na sua
Geografia) as cidades da Lusitânia que pertenciam aos Célticos:
descendentes dos Celtiberos e que, pela religião, pela língua e pelos nomes das cidades
– que na Bética se distinguem pelos cognomes – vieram da Lusitânia.
A presença dos Celtas no Alentejo é confirmada também por Estrabão, referindo que os Célticos, vizinhos dos Lusitanos e dos Turdetanos, dominavam boa parte da região entre o Tejo e o Guadiana23.
Ou seja, além da presença dos Conii e dos Turduli no Alentejo, tínhamos portanto os Celtici24, de que fariam parte os Aranditani, chegando nesta região nos finais do século VI ou nos inícios do V a. C., com uma segunda vaga céltica, talvez no século III a. C. Os Celtas viviam em aglomerados urbanos que, segundo Estrabão, se reuniam em confederações25.
Depois, no período romano, e segundo os estudos de J. Alarcão26, vamos assistir à ocupação do Alentejo pelos Romanos, provavelmente entre 202 a. C. e 139 a. C., a que se seguiu uma reorganização administrativa do território no tempo de Augusto. Esta reorganização incluiu a criação da província da Lusitânia (com a consequente definição e reajustamento de fronteiras), a fundação de novos centros urbanos (provavelmente com alguma imigração de cidadãos para permitir a romanização dos indígenas), a urbanização de oppida preexistentes e, por fim, a delimitação dos territoria das diferentes civitates (cada uma com sua capital).
É preciso relembrar que os Romanos criaram civitates mais ou menos coincidentes com os limites das unidades étnicas anteriores e que uma civitas podia ser criado ex nihilo, quando não havia, numa determinada área, unidade étnica ou política (relevante) aquando da conquista.
Relativamente ao Sul da Lusitânia (actuais Alentejo e Algarve), a existência de cidades de longa tradição, e certamente com dimensões consideráveis, tornava inútil a criação de novos centros (o caso de Pax Iulia é ainda discutível); os existentes foram renovados, por César ou por Augusto, embora mais provavelmente por este último.
Após o principado de Augusto, também houve novas criações de civitates e
23
Segundo Estrabão (ver Guerra, 1995, p. 60), os Celtas tinham como principal cidade Konistorgis e Pax Iulia pertencia-lhes (Ptolomeu diverge aí de Estrabão, integrando Pax Iulia no grupo das cidades turdetanas).
24
A toponímia confirma a existência deste grupo étnico, como no exemplo de Mirobriga ou de Ebora
(Alarcão, 1988, p. 13).
25
Alarcão, 1988, pp. 13-14, 65, 155.
26
considerável renovação de algumas cidades (no tempo de Calígula, Cláudio ou Nero), salientando-se, no entanto, o período dos Flávios. De facto, a atribuição do direito latino às cidades peninsulares (promoção jurídico-administrativa) por Vespasiano terá tido como consequência a municipalização27 daquelas que ainda não o tinham (promoção de muitas das cidades romanas da Lusitânia), com a consequente renovação dos edifícios públicos (como aconteceu com Conimbriga) ou construção de novos monumentos.
Após um período de muita construção ou reconstrução, desde Augusto até aos inícios do século II d. C., o ritmo da edificação urbana monumental decaiu para, nos finais do século III d. C. ou nos inícios do IV, entrarmos numa nova fase na história das cidades romanas da Lusitânia, a do momento da edificação das muralhas (a partir daí, ultrapassamos a cronologia do nosso santuário).
Quanto ao grau de romanização do território actualmente português, a área do Algarve, Alentejo e zona litoral entre Tejo e Vouga apresenta-se como consideravelmente romanizada em relação ao resto do território, composta por gentes de outra origem (ao contrário do predomínio de uma população indo-europeia pré-céltica no interior e a Norte) e tendo sofrido influência, nalguns casos intensa, das colonizações fenícia, grega e cartaginesa.
Segundo J. P. Bernardes28, a região em que está inserida Santa Bárbara de Padrões, isto é, a área dos actuais concelhos de Castro Verde, Ourique e Almodôvar, tem uma ampla tradição de ocupação pré-romana na Idade do Ferro, onde abundavam locais de culto e povoados importantes. Na época romana, ao contrário de Santa Bárbara que assume um lugar central dentro dos santuários da região, as manifestações cultuais dos outros locais de culto tendem a decair. A razão deste fenómeno explica-se pela passagem da via Ossonoba – Pax Iulia por Arandis onde, até ao momento, não se conhecem vestígios da Idade do Ferro. A reorganização político-administrativa romana desta região, com a consequente definição ou reafirmação de centralidades e eixos de circulação, fez com que espaços antigos tenham perdido a sua primazia a favor de núcleos antes secundarizados ou mesmo inexistentes. No caso de Arannis, a passagem de uma via importante, que ligava o Alentejo ao Algarve, teria catalisado as tendências
27
O estatuto de municipium, com assembleia e duúnviros eleitos. Enquanto que nas cidades sem estatuto municipal tínhamos os magistri ou assembleias locais, nos municípios existiam os duúnviros e ordines decurionum (Alarcão, 1988, pp. 56, 168).
28
de culto dos locais próximos, como Montel, posicionado sobre a ribeira de Cobres e sede de culto durante o período do Bronze Final e período Romano Republicano, ou S. Pedro das Cabeças, um santuário de altura, onde foram recolhidos dezenas de ex-votos de barro da II Idade do Ferro. Ou seja, para J. P. Bernardes, Arandis aliou a função de estação viária a uma dimensão de local de culto de acordo com uma tendência algo frequente no mundo romano.
Por sua vez, para M. Maia29, Arannis era uma cidade-santuário, cuja componente religiosa permitia a própria existência da cidade.
Em termos do estatuto da cidade, J. Alarcão propõe a hipótese de Arandis ter sido uma capital de civitas (e não apenas um simplesvicus ou mansio), cujo território se estenderia pelos actuais concelhos de Ourique, Castro Verde e Odemira. Mas, devido à ausência de provas arqueológicas (como a epigrafia30 ou elementos arquitectónicos significativos) que suportem a existência de uma capital de civitas na área daqueles concelhos31, a cidade de Arannis resultaria portanto, segundo o mesmo autor, de uma experiência urbana e administrativa falhada32.
Pelo contrário, para J. P. Bernardes33, Arannis não teria sido um centro de
civitas, considerando mais que plausível que nem todos os territórios étnicos se teriam convertido em civitates com a reforma administrativa de Augusto
Mesmo que se queira admitir que tal tivesse acontecido no plano ou intenção política, parece que, na prática, tal como pensava J. Alarcão, não teria chegado a efectivar-se.
J. P. Bernardes propõe que Arannis nunca teria passado de um aglomerado secundário, afirmando-se principalmente como mansio, isto é, como estação viária importante na ligação de Ossonoba a Pax Iulia (tornando-se um lugar de refresco e dormida para os viajantes),e como lugar de culto, devido ao seu santuário visitado por
29
Opinião dada por M. Maia durante as nossas conversas no Museu da Lucerna em Castro Verde.
30
Em termos da epigrafia que nos podia dar preciosas informações sobre Arandis e o nosso santuário, o arqueólogo M. Maia não encontrou nenhuma epígrafe romana em Santa Bárbara, num raio de mais de 10 km (Maia, 2006, p. 41).
31
Ausência de padrões de magnificência urbana que se impunha aos centros de poder regionais (Bernardes, 2006, p. 156).
32
Bernardes, 2006, p. 156.
33
muitos peregrinos (como o demonstra a grande quantidade de lucernas votivas encontradas) 34. A cidade estaria integrada muito provavelmente nos territoria, ou de
Myrtilis, ou de Pax Iulia, inclinando-se J. P. Bernardes pela primeira civitas, pela simples razão de Arandis se encontrar muito mais próximo de Mértola do que de Beja.
Esta pertença administrativa de Arannis na época romana explicar-se-ia pela perda de importância da região em que esta estava inserida (concelhos de Castro Verde, Ourique e Almodôvar), em favor da emergência de grandes núcleos político-administrativos de forte vocação centralizadora como eram Mértola e Beja. Para além disso, face à estratégia romanizadora, não justificaria transformar Arandis numa capital de civitas com tudo o que isso implicaria em termos de meios e recursos. No máximo,
Arannis poderia desempenhar algumas funções de gestão político-administrativa delegadas pela cidade-capital de que dependia.
I) 2) b) Os
Aranditani
e os
Vocontii
O caso dos Aranditani, cujo santuário se situa a 51 km em linha recta de outro local de culto com depósito de lucernas votivas (tudo indica ter sido mais pequeno do que o de Arannis), no sítio da Horta das Faias em Peroguarda (concelho de Ferreira do Alentejo)35, lembra muito os “Voconces”36 da Gália do Sudeste, que possuíam dois
santuários também com uma favissa contendo milhares de lucernas, desta vez entre outros ex-votos. Encontravam-se respectivamente em Lachau37 (o mais pequeno) na Drôme, frequentado de La Tène III ao século IV d. C. (com um nível de destruição no século III d. C.)38, e em Chastellard de Lardiers39 (o maior e a 1000 m de altitude) nos
34
Essas duas funcionalidades (estação viária e local de culto) encontram-se frequentemente associadas, como no exemplo de certos aglomerados do Sudoeste da Gália (Bernardes, 2006, pp. 160-161).
35
O local de culto da Horta das Faias possui um depósito votivo de lucernas em tudo semelhante ao santuário de Arandis, com estratigrafia absolutamente paralela. Só a situação topográfica diverge, estando o santuário de Peroguarda no leito de inundação de uma ribeira, enquanto que o de Santa Bárbara se situa no alto de uma colina (Viana e Ribeiro, 1957, pp. 17-20; Ribeiro, 1960, pp. 4-5; Maia e Maia, 1997, p. 21). M. G. P. Maia e M. Maia referem-se também a um outro depósito de lucernas (na altura ainda inédito) nas imediações de Ferreira do Alentejo, ou seja, muito perto do de Peroguarda (Maia e Maia, 1997, p. 21).
36
Ver Carré, 1978, pp. 119, 122-123, 125-128 e nota 109, p. 133.
37
Ver Leglay, 1971, p. 430; Leglay, 1973, pp. 534-535; Lancel, 1975, p. 535; Boucher, 1977, p. 476; Boucher, 1980, p. 509.
38
Hautes-Alpes, datando dos inícios do século I até finais do século IV d. C.40, separados pela montanha do Lure e por uma distância de 20 km em linha recta. Como já notaram M. G. P. Maia e M. Maia41, temos igualmente uma coincidência temporal entre as lucernas votivas de Santa Bárbara e as de Lachau42– desde o século I ao III d. C.43.
Além desta prática da luz votiva, os Vocontii (palavra de origem celta,
significando “os vinte clãs”) eram igualmente de etnia celta e dominavam um vasto território na Gália do Sudeste, cobrindo parcialmente os departamentos actuais da Drôme, do Vaucluse, dos Hautes-Alpes e dos Alpes de Haute-Provence.
A religião jogava na vida deste povo um papel muito importante, sobretudo marcada pela presença no território desta comunidade dos dois grandes templos acima referidos. No caso de Lachau, o deus do céu era abundantemente honrado no seu templo, mas nenhuma inscrição o menciona enquanto tal44. As armas votivas, encontradas no depósito, remeteriam por sua vez à noção de defesa do território, mesmo se esta defesa seria mítica45. Os outros ex-votos, como os utensílios agrícolas,46 e a fabricação “no local” das lâmpadas votivas (insistindo portanto no lado técnico), tornavam bem patente as estruturas de trabalho. No caso do santuário de Chastellard de Lardiers, um deus solar está aí claramente atestado.
39
Ver Rolland, 1962, pp. 655-656; Rolland, 1964, pp. 545-550; Salviat, 1967, pp. 387-393; Salviat, 1970, p. 448.
40
Salviat, 1967, p. 389.
41
Maia e Maia, 1997, p. 20.
42
Leglay, 1973, p. 535.
43
De notar no entanto que foi encontrado pedaços de lâmpadas tardias que sugerem uma recrudescência de actividade a partir do início do século IV d. C., após um período de destruição durante a invasão dos Alamanos (Lancel, 1975, p. 535).
44
Entre as interpretações possíveis, poderíamos ter um Júpiter, um deus da roda, ou um deus tópico que
exerceria localmente a função de soberania. É preciso notar que os habitantes do território “voconce” que
se dirigiam a Júpiter Capitolino tinham ligações pouco marcadas com a tradição céltica, ou seja, este deus parece ter poucos vínculos com o meio indígena (Carré, 1978, pp. 125-126 e nota 47, p. 130).
45
É preciso notar que em numerosas localidades nos “Voconces”, as divindades locais preenchiam no primeiro século a função de organização do céu, enquanto que no terceiro, elas são geralmente associadas à função guerreira, com uma nova importância cultual de Marte (assim como a multiplicação dos teónimos indígenas ao lado do nome latino). Este facto explica-se pela grande instabilidade do século III, assinalada por numerosas camadas de incêndio, implorando de novo o deus guerreiro na qualidade de protector do grupo (Carré, 1978, pp. 125 e 127).
46
A religião nos Vocontii aparece, portanto, segundo R. Carré, como um lugar de reprodução da sua sociedade (os utensílios e as armas encontrados nos santuários fazem referência a esta comunidade no seu funcionamento, mesmo se isto é um mito) e tem como finalidade, entre outras, de soldar a comunidade, de tornar bem patente a vida, o passado, o futuro do grupo.
De facto, os grandes santuários encontram-se na localidade de antigos lugares de ocupação, indiciando o apego da comunidade à sua história. Para além disso, os altares votivos e as estátuas divinas são quase todos em pedra do país, sendo o mármore utilizado apenas para as estátuas decorativas e não para fins religiosos. Numerosos objectos votivos são em bronze, material que relembra um período anterior de desenvolvimento.
Por fim, no quadro comunitário dos “Voconces”, certas formas particulares da vida religiosa, bem como a importância dos grandes santuários, podem ser vistas como um fenómeno de resistência a Roma. Mas, ao mesmo tempo, e sobretudo no quadro da comunidade, a religião aparece como um meio eficaz de fazer participar as massas na romanização.
Como já vimos, J. P. Bernardes inclui a cidade de Arannis numa região com forte presença de ocupação na Idade do Ferro, nos concelhos de Castro Verde, Ourique e Almodôvar, e J. Alarcão afirma que o território dos Aranditani se estenderia pelos actuais concelhos de Ourique, Castro Verde e Odemira. Baseando-se no caso dos
Vocontii, podemos acrescentar também a hipótese do concelho de Ferreira do Alentejo, ou parte dele, onde se situa o local de culto da Horta das Faias, estar também incluído no mesmo território que os Aranditani, que talvez formassem uma grande comunidade
tal como os “Voconces”. Muito provavelmente, os dois santuários de Peroguarda e
Arannis estariam ligados por uma mesma via romana, que poderia ser a chamada via XIII (Salacia-Ossonoba), ou a via XXI ([Ba]Esuri[s]-Pax Iulia). A sede administrativa seria, como já notou J. P. Bernardes, o grande núcleo urbano de Pax Iulia ou de
Myrtilis. Neste caso, tendemos mais para Pax Iulia, devido à sua posição geográfica entre essas duas estações (estando muito perto de Peroguarda) e, sobretudo, das divindades que apresenta esta capital de conventus, quando comparadas com as de
que a Pax Iulia pertenceria aos Celtici47.
Claro que a prática da oferta de lucernas votivas não era exclusiva deste grupo étnico no Sul de Portugal, havendo na Horta do Pinto, em Faro48, outro depósito com as mesmas características. Uma situação em tudo semelhante ao Sudeste da Gália onde, além dos “Voconces”, nos seus santuários de Lachau e Lardiers, temos Alba Helvorum,
capital dos “Helviens”, pequeno povo de origem lígure, onde foi encontrado num
santuário, como um dos seus depósitos votivos, uma cova com um lote importante de lucernas (depósito este que se formou durante o terceiro quarto do século I. d. C.)49.
I) 3) Os vestígios arqueológicos
I) 3) a) A cidade
Em 1897, durante uma excursão pelo Baixo Alentejo, J. L. Vasconcelos visitou a aldeia de Santa Bárbara de Padrões (ver figs. 3-5), comunicando-nos suas notas na famosa revista do Arqueólogo Português de 193350.
Pela povoação, o arqueólogo observou, em grande abundância, grandes pedaços de opus Signinum, na rua e dentro de casas, bem como um grande número de fragmentos de tijolo, de tégula (tegulae) e de vasilhame, espalhados nos campos que avizinham a igreja actual de Santa Bárbara, como em cima e à volta dela (salientando os tijolos grossos, avulsos, encontrados por toda a parte).
Além de sepulturas romanas feitas de tijolo (num quintal), ele observou no sítio
dito do “Comarão” (a Sudoeste da povoação) um lanço de muralha romana construída
em opus incertum (com cerca de 2,91 metros de largura, 1,06 metros de altura e estendendo-se por 50 metros). Ao pé dela descobriu-se um cano de chumbo (fistula) de uns 9 metros de comprimento e um palmo de diâmetro.
Perto da igreja encontrou também parte do alicerce de outro muro que, segundo ele, seria a continuação da muralha do “Comarão” (igual a ele, de pedra rebocada), fazendo com que a povoação romana fosse cercada por esta muralha que ia do alto para
47
Ao contrário de Ptolemeu que afirma ser turdetana (Guerra, 1995, p. 60).
48
Maia e Maia, 1997, p. 21.
49
Ayala, 1990, pp. 153, 157, 161-162.
50
a zona baixa.
Na base do monte em que assenta a igreja de Santa Bárbara, do lado da povoação actual, observou ainda alicerces de paredes duras, muitos cacos, e uma coluna antiga que lhe parece romana (tem pregada na base, diz o autor, uma cruz de ferro).
Na povoação, J. L. Vasconcelos não encontrou nenhuma moeda romana (apesar de ter ouvido relatos que afirmavam a sua existência), nem observou nenhum peso de barro (que, diz ele, são tão frequentes nas nossas estações romanas), nem inscrições.
Por fim, da sua “carteira”, acrescenta que na parede do adro havia uma base de
coluna romana, de mármore, igual à da cruz, e que ao pé da igreja se via a parte superior e circular de um poço de opus Signinum, de mais de 1 metro de diâmetro51.
Actualmente, certos vestígios romanos referidos por J. L. Vasconcelos podem ser ainda observados na povoação de Santa Bárbara de Padrões, mas outros desapareceram por completo.
Relativamente aos «grandes pedaços de opus Signinum», achados «em tal
abundância, que o povo já lhes chama “betume”»52, além dos encontrados nos tanques,
M. Maia confirma esta forte presença nos muros das hortas da aldeia, reaproveitados como material de construção53.
Por sua vez, em termos dos fragmentos em barro, J. P. Bernardes54 afirma que, pelas vertentes da colina onde está assente a igreja gótica, sobretudo de nascente para poente, podemos encontrar numerosos fragmentos de cerâmica de construção, muitos dos quais integrados nos muros divisórios de propriedades e de quintais da povoação.
De facto, numa observação in situ (ver figs. 6-9), podemos confirmar esta observação de J. P. Bernardes. Para além disso, na zona que fica a Noroeste da igreja (do topo da colina até à estrada do lado Norte), temos também uma área denominada de
“Telheiro”, apresentando várias dezenas de cacos de cerâmica (infelizmente, uma
grande parte desta zona já foi completamente remexida e recoberta por terra devido às
51
J. L. Vasconcelos precisa no entanto a sua dúvida sobre esta sua última nota, tendo dúvidas de qual igreja se trata, a de Santa Bárbara ou outra (Vasconcellos, 1933, p. 232).
52
Vasconcellos, 1933, p. 231.
53
Maia, 2006, p. 41.
54
obras de uma rotunda). Segundo M. Maia55, esses fragmentos grossos de cerâmica representam pedaços de telhas romanas, sendo também nesta zona (do “Telheiro”) a provável localização de fornos de produção de telhas cerâmica para a cidade de Arandis.
Para a «base de coluna, de mármore, romana, igual à da cruz»56 na parede do adro, tanto M. Maia57 como J. P. Bernardes58 confirmam a existência desta peça romana. Numa observação in situ (ver fig. 10), podemos de facto ver esta peça marmórea assente sobre o muro do adro, face ao portal de entrada da igreja, e servindo actualmente de base a um cruzeiro (a cruz actual que fica por cima não é composta da mesma pedra). Mede 64,5 cm de largura e 93 cm de comprimento (estando quebrada, ou mais precisamente cortada para reutilização, o que não permite conhecer a verdadeira altura da peça), feita com mármore dito “fétido” de cor acinzentada clara e veios cinzentos, da zona de S. Trigaches ou S. Brissos, e com uma molduração ainda existente na parte superior. Tanto pode ser considerada como uma base de um altar, ou a base de um monumento honorífico, como tratar-se na realidade de um elemento arquitectónico, mais precisamente, de uma base de coluna de um imponente edifício.
Além desta peça marmórea, J. P. Bernardes acrescenta ainda que «o empedrado do adro da igreja é constituído por muitas pedras reaproveitadas algumas das quais, apresentando acentuado desgaste, desempenharam diversas funções em vãos de edifícios»59 (ver figs. 11-14) e que o grande monólito do adro (ver figs. 15-18), que M. G. P. Maia e M. Maia interpretaram como sendo um menir60, podia representar na realidade um «elemento de um entablamento ou lintel de qualquer grande edifício, até pelo entalhe que apresenta num dos lados à maneira de encaixe ou de superfície de apoio sobre outro elemento»61 (tendemos nós para a primeira hipótese, o do menir). Por seu lado, M. Maia confirma a inexistência de qualquer espécie de vestígios romanos no
55
Informações dadas por M. Maia durante as nossas conversas no Museu da Lucerna em Castro Verde.
56
Vasconcellos, 1933, pp. 231-232.
57
As informações sobre a localização, morfologia e identificação desta peça marmórea foram-me
igualmente comunicadas por M. Maia no Museu da Lucerna em Castro Verde.
58
Bernardes, 2006, p. 161.
59
Bernardes, 2006, p. 160.
60
Maia e Maia, 1997, p. 19.
61
interior da igreja62. No exterior, estando as paredes do templo cristão inteiramente rebocadas a cal branco, nenhuma análise pode ser feita em relação aos tipos de pedras utilizadas para a construção do edifício religioso.
Em relação «a parte superior e circular de um poço de opus Signinum»63 ao pé da igreja, J. P. Bernardes64 pensa que se trata talvez de um poço antiquíssimo, situado quase na base da vertente (Oeste) da colina da igreja, infelizmente desvirtuado recentemente por restauros que lhe retiraram o bocal de pedra «com sulcos profundos provocados pelo constante passar das cordas dos baldes mergulhados no seu interior» e lhe refizeram a sua plataforma que apresentava anteriormente vestígios de opus Signinum «que rodeavam pias escavadas na rocha para dar de beber aos animais» (ver fig. 19).
Ao observar in situ (ver figs. 20 e 21) as partes do bocal deixadas no chão (só dois pedaços, um pequeno e outro maior, restaram desta estrutura), e virando a pedra (a mais pequena) do outro lado (de maneira a poder ver a parte de baixo), podemos observar a zona em que o bocal foi removido do poço, apresentando uma superfície ainda não desgastada pelo tempo. As características da pedra que se apresentam são em tudo semelhantes às da base do cruzeiro, isto é, do mármore dito “fétido”. Ou seja, pelos vestígios (hoje desaparecidos) de opus Signinum e pelo antigo bocal em mármore da região de S. Brissos ou S. Trigaches, tudo indica que o poço pode ter uma origem
efectivamente romana.
Finalmente, «as sepulturas feitas de tijolo, ao parecer, romanas» que J. L. Vasconcelos65 observou num quintal parecem ter desaparecido. O mesmo destino sofreram os alicerces de paredes duras, bem como a coluna romana (aquela que tem pregada na base uma cruz de ferro), que estavam situados na base do monte da igreja, para o lado da povoação actual. Em termos do troço de grossa muralha do “Comarão”, que M. Maia afirma estar hoje totalmente destruído66, J. P. Bernardes67 pensa que a dita
62
Afirmação dada por M. Maia durante as nossas conversas no Museu da Lucerna em Castro Verde.
63
Vasconcellos, 1933, pp. 231-232.
64
Bernardes, 2006, p. 161.
65
Vasconcellos, 1933, pp. 231-232.
66
Maia, 2006, p. 41.
67
muralha corresponderia na realidade à parede de contenção de uma antiga barragem (referida igualmente por M. G. P. Maia e M. Maia68), mencionada na tradição local, e que actualmente estará oculta sob a estrada municipal que conduz às minas de Neves-Corvo.
Dos vestígios arqueológicos encontrados em Santa Bárbara de Padrões, deduziu-se que no alto da colina, sob a actual igreja gótica, deduziu-se encontraria o santuário69, mais precisamente, o templo principal da divindade. Este último estaria orientado na direcção Este-Oeste (como é comum nos templos romanos)70. No entanto, nos casos de espaços sagrados comportando depósitos secundários de lucernas, M. G. P. Maia e M. Maia71 colocam a hipótese da existência nesses sítios de um simples temenos, provavelmente desprovido de cobertura (santuário ao ar livre), devido à coincidência de não se terem identificado (segundo as informações obtidas na altura) edifícios de culto perto de qualquer dos depósitos conhecidos: os depósitos votivos da Horta das Faias e Horta do Pinto, respectivamente em Peroguarda e Faro; os de Chastellard de Lardiers e Lachau, no Sudeste da Gália; e os de Israel e do monte Ida em Creta72. As componentes estruturais do santuário que sobreviveram às vicissitudes do tempo são representadas principalmente pela favissa, localizada a Sul do cemitério, e pelos três tanques, situados desta vez a Norte do cemitério, ou seja, na vertente oposta à do depósito votivo de lucernas e distando dele cerca de 100 metros73. Encostado aos tanques, existia igualmente um grande e longo edifício74, datado dos séculos IV a VI d. C., interpretado
68
Maia e Maia, 1997, p. 13.
69
Maia e Maia, 1997, pp. 19 e 22 e Bernardes, 2006, p. 160.
70
Opinião dada por M. Maia durante as nossas conversas no Museu da Lucerna em Castro Verde (ver igualmente o Tratado de Arquitectura de Vitrúvio em Maciel, 2009, pp. 152-153).
71
Maia e Maia, 1997, p. 22.
72
Maia e Maia, 1997, pp. 20-21.
73
Maia e Maia, 1997, p. 22.
74
como sendo muito provavelmente uma basílica paleocristã75, orientada no sentido
Norte-Sul.
Relativamente à povoação romana propriamente dita, tanto J. P. Bernardes76 como M. Maia77 acreditam que ela se desenvolveria pelas vertentes da dita colina. Mas, enquanto o primeiro autor afirma um desenvolvimento para poente até à linha de água a partir de onde começam as casas da povoação de Santa Bárbara (sentido Este-Oeste, ficando o santuário no topo da colina)78, o segundo acredita que a povoação se estenderia mais no sentido Nordeste-Sudoeste, ficando o santuário mais ou menos no centro do aglomerado. Transposta a linha de água (para poente) e continuando com a interpretação de J. P. Bernardes, situar-se-ia a necrópole (baseando-se o autor nas observações de J. L. Vasconcelos sobre sepulturas romanas feitas de tijolo num quintal) e, a Sudoeste da povoação, ficaria uma grande barragem construída em alvenaria (opus incertum), permitindo «o armazenamento de grandes quantidades de água necessária à irrigação dos campos, ao abastecimento das populações e termas de que não se conhecem vestígios»79.
I) 3) b) O depósito votivo e os tanques
Baseando-nos no exemplo do santuário de Lardiers, em que a favissa das lucernas se encontrava fora do recinto sagrado, mas junto a uma entrada para o temenos, do lado Sul, e encostada a um muro pré-romano que o separava e o delimitava da zona de passagem para a via sacra80, podemos colocar a hipótese do nosso depósito votivo, igualmente situado do lado Sul do santuário (na zona meridional do cemitério de Santa Bárbara), se encontrar também fora do temenos e eventualmente junto a uma entrada.
75
Maia e Maia, 1997, p. 22.
76
Bernardes, 2006, p. 161.
77
Opinião dada por M. Maia durante as nossas conversas no Museu da Lucerna em Castro Verde.
78
A área arqueológica estende-se sobretudo na direcção nascente-poente pelas vertentes da colina, numa extensão de 6 a 7 hectares (Bernardes, 2006, p. 160).
79
Bernardes, 2006, p. 161.
80
Segundo a descrição de M. G. P. Maia e M. Maia81, a favissa apresenta-se como «um recinto, em parte natural, em parte construído, com 15 m de comprimento e cerca de 2 m de largura, e com o fundo em forma de V muito irregular. O seu eixo maior orienta-se no sentido Norte-Sul, aproximadamente» (ver figs 22-24).
A cobertura romana desta “vala das lucernas” era composta simplesmente por pedras pequenas e fragmentos de cerâmica grosseira, com cal, tornando-se esta superfície muito mais densa quando se distanciava da parede Este da favissa82.
O limite Oeste deste recinto é constituído por uma rocha natural que forma uma falha, mais ou menos abrupta, no xisto friável da região, resultando num acentuado e extenso declive. Por sua vez, os limites Este, Norte e Sul são compostos por muros «de aparelho irregular e de alvenaria grosseira, onde foram utilizadas pedras não trabalhadas e de várias dimensões e formatos, juntamente com telhas e tijolos, tudo aglutinado com barro»83. De notar que a parede do limite Este (medindo cerca de 60 cm de largura) apresentou pequenos canais na base, interpretados como orifícios de escoamento de águas pluviais.
Esta estrutura estreita, em corredor, foi fundada em meados do século I d. C., tendo havido no século III um acrescento de paredes no seu topo Sul, constituindo outro recinto84, com 15-20 cm de profundidade e estratigrafia própria.
Por fim, o depósito em questão apresenta «a variedade habitual das lucernas85 desta época: com ou sem volutas no bico, com ou sem asa ou ansa, com ou sem aletas laterais, com decoração predominantemente figurativa, por vezes com motivos vegetais,
81
Maia e Maia, 1997, pp. 16-19.
82
A estratigrafia da 3ª camada ao longo da parede Este do recinto, não excedendo uma distância, no sentido lateral para Oeste, de 80-100 cm, era «constituída por elementos líticos de pequenas dimensões, bem como por fragmentos de ânforas, dolia, tegulae e lateres. Estes elementos não formavam uma camada compacta, mas estavam suficientemente próximos para constituírem como que uma ténue cobertura. Nódulos de cal dispersos confirmam esta impressão» (Maia e Maia, 1997, p. 16). A 3ª camada que se prolongava mais para Oeste e a 1, 30 m da parede Este, era também semelhante à observada anteriormente, mas era muito mais densa, tomando «o aspecto de uma calçada compacta, formada por pequenas pedras e fragmentos rolados de lateres, ânforas e cerâmica comum» (Maia e Maia, 1997, p. 19).
83
Maia e Maia, 1997, p. 16.
84
Neste acrescento rectangular para Sul da “vala das lucernas”, a parede Este do anterior recinto foi
prolongada por mais 2,80 m e a parede Sul, embora não tivesse sido demolida, deixou de ser utilizada e foi substituída por outra, apenas com 40 cm de comprimento. Devido à cota muito mais elevada da rocha natural, as deposições eram aí muito mais superficiais (Maia e Maia, 1997, p. 19).
85
que se localiza no disco ou tampa do reservatório»86. Os armazenamentos cessaram nos finais do século III d. C.87
Relativamente agora à estratigrafia-tipo88, ao longo da parede Este da favissa
(deposições literalmente coladas à parede), é na 4ª camada, constituída por terra escura, húmida e branda, e datada dos inícios, até finais do século III d. C., que começamos a encontrar uma grande quantidade de lucernas, de reduzidas dimensões, sendo a 3ª camada a cobertura do depósito.
Apesar do achado de bastantes exemplares inteiros nesta 4ª camada89, a particularidade nas deposições do século III (feitas directamente sobre as do século II) reside no facto de quase todas as lucernas desta época terem sido, ao que parece, quebradas propositadamente, talvez fazendo parte de um ritual90.
Na 5ª camada, pelo contrário, constituída por terra negra, com muitos carvões, cinzas e esquírolas ósseas91 (envolvendo as lâmpadas), encontramos desta vez lucernas que foram lá colocadas inteiras e que não foram fragmentadas de antigo92, depositadas continuada e ininterruptamente desde meados do século I, até finais do século II d. C.
As deposições de lucernas nesta camada «assumiam uma forma grosso modo
circular e havia casos em que se justapunham e outros em que guardavam entre si uma distância de 20-30 cm. (…) As lucernas foram colocadas de forma a poupar espaço, disco contra disco e com cada asa (quando existiam) a acompanhar a curvatura do reservatório do par. Estes pares formavam círculos com diâmetros de 80 a 100 cm, aproximadamente e continham um número variável de lucernas, mas que muitas vezes
86
Maia e Maia, 1997, p. 11 do prefácio de T. J. Gamito.
87
Maia e Maia, 1997, p. 22.
88
Maia e Maia, 1997, pp. 16-19.
89
«Geralmente, os exemplares de lucernas encontrados intactos estavam protegidos por semi-círculos irregulares de pedras ou pedras e fragmentos de tijolos, em dois casos, de quadrante» (Maia e Maia, 1997, p. 16).
90
Maia e Maia, 1997, p. 80.
91
M. Maia, nas conversas que tivemos sobre este assunto no Museu da Lucerna, pensa que os fragmentos ósseos de animais podiam pertencer a aves ou ruminantes como carneiros, conotando-se talvez com rituais de sacrifícios.
92
ia além das 200»93. Foram registados 13 conjuntos “circulares” deste tipo.
Também encontramos nesta camada alguns fragmentos de vidro, quase todos de pequenos unguentários, e algumas moedas da dinastia Antonina.
Por fim, a 6ª camada, muito dura, chegando a atingir os 20 cm de espessura, e constituída por pedras e fragmentos rolados de cerâmica romana grosseira, tudo conglomerado com terra negra e húmida, representaria o pavimento (pouco cuidado) sobre o qual se faziam as deposições.
Podemos acrescentar também que, enquanto as deposições dos séculos I e II seguiam ao longo da parede Este do recinto, não excedendo uma distância, no sentido lateral para Oeste de 80-100 cm, as deposições do século III prolongavam-se mais para poente, aproveitando a rocha que tinha aí uma cota muito mais elevada. Aí a 4ª camada, além de estar completamente preenchida por fragmentos de pequenas lucernas, continha também muitos fragmentos de vidro e as únicas agulhas de osso da jazida.
Por sua vez, na área situada a 10 m da parede Sul da zona nova do cemitério, em vez das deposições se adossarem à parede Este do recinto, estendem-se numa área de cerca de 8 m2, aproveitando uma profunda cavidade natural. Esta depressão na rocha foi completamente preenchida, na 5ª camada (sempre caracterizada por terra negra, com muita cinza e carvões, juntamente com fragmentos ósseos de animais), por uma massa ininterrupta de lucernas dos finais do século I e de todo o século II d. C., não tendo havido aqui deposições autónomas. Só raros fragmentos de cerâmica comum e alguns outros de Sigillata hispânica se intercalavam entre candeias que se sucediam, quer no sentido lateral, quer no vertical. Blocos de pedra foram colocados na 6ª camada com o intuito de nivelar um pouco a vala. De notar por fim que na 4ª camada, tegulae em fragmentos grandes, juntamente com imbrices quase inteiros e grandes pedaços de ânforas e dolia serviram de base a deposições do século III.
Por fim, no recinto tardio do século III, «a 3ª camada simplesmente não existia e era substituída por um espaço de deposição de lucernas inteiras, pequenas e iconograficamente pobres, esparsamente colocadas. Por baixo e nos intervalos, havia milhares de fragmentos que cremos resultantes de quebras intencionais. Trata-se do nível do século III que identificamos e descrevemos, na estratigrafia-tipo como 4ª camada»94.
93
Maia e Maia, 1997, p. 18.
94
Em termos das lucernas propriamente ditas e segundo as análises de M. G. P. Maia e M. Maia95, um número significativo apresentou-se com volutas e discus, possuindo muitas delas uma decoração figurativa em baixos-relevos no tampo, em peças com características tecnológicas de outras províncias do Império Romano (ver fig. 25).
Umas eram oriundas do Norte de África ou da Península Itálica e outras, de produção regional, oriundas do Sudoeste peninsular.
Para além dessas candeias de exportação, algumas peças de execução muito pobre podem indiciar também uma fabricação local, indígena96 (ou serem simplesmente de manufactura regional), que atestariam um certo carácter popular da peregrinação97.
Ou seja, segundo os tipos tecnológicos, pastas e marcas de fabrico das candeias de Santa Bárbara, podemos afirmar que não havia uma olaria perto do santuário dedicada à fabricação e venda de lucernas ex-votos, como no caso do santuário do
“Luminaire” em Lachau98. As lucernas regionais ou de outras províncias do Império Romano eram certamente adquiridas em pequenas lojas ou pelas feiras e mercados99, talvez podendo existir uma loja (ou várias) nas proximidades do santuário para a venda especializada de candeias votivas.
Tanto o santuário de Santa Bárbara, como o de Peroguarda e de Faro, foram abastecidos em lucernas pela mesma rota comercial100 – os produtos chegavam do Mediterrâneo por via marítima até Balsa ou Ossonoba, seguindo depois por via
95
Ver Maia e Maia, 1997, pp. 26-30.
96
Ao lado dos tipos de formas constantes, bem definidos e bem acabados, das grandes fábricas, podia-se encontrar também lâmpadas de aspecto pouco cuidado ou de formas incorrectas, com ornatos grosseiros. Trata-se de peças de fabrico popular, indígena, imitando os tipos clássicos ou combinando-os de um modo diferente (Almeida, 1952, nota 111-A p. 80).
97
Na favissa do Chastellard de Lardiers, ao lado das lucernas de qualidade, encontram-se igualmente uma quantidade de outras, rudimentares e pobres, que, para H. Rolland, atestam o carácter popular da peregrinação (Rolland, 1962, p. 655).
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Existiam efectivamente oficinas orientadas para o “mercado” religioso. Tomamos como exemplo
aquelas dedicadas às grinaldas e coroas: as pinturas da Domus Vettiorum mostrando Putti entrançando coroas e grinaldas tendem a provar que existia em Pompeia uma actividade artesanal orientada para este tipo de mercado; Ovídio (Fast. VI, 792) evoca também uma oficina destinada ao entrançamento de grinaldas e coroas perto do santuário dos Lares em Roma (Laforge, 2009, nota 212 p. 125).
99
Almeida, 1952, p. 61.
100
terrestre101.
Para além do depósito votivo, para Norte do cemitério e encostados ao muro Oeste, de aparelho muito irregular, da dita basílica paleocristã (na zona da abside e parte da nave), podemos também observar in situ (ver figs. 26-29) a presença de três tanques, cujas paredes medem aproximadamente de 52,5 a 60 cm de largura, revestidas na sua parte interior por uma camada de opus Signinum. Todos tinham a parede Este como limite comum, apresentando-se a parte Oeste dos tanques, particularmente para dois daqueles mais meridionais, muito danificada e ainda por escavar.
Colados uns aos outros e orientados para Norte, os tanques apresentam dimensões e até plantas diferentes: o tanque mais a Sul é estreito e oblongo, medindo cerca de 2,1 m Sul-Norte, para 6 m Este-Oeste até à parede do cemitério que parece ter interrompido o seu percurso, ou mais provavelmente ter sido construído por cima do seu limite Oeste (ver figs. 30 e 31); o tanque intermédio mede por sua vez cerca de 4,23 m Sul-Norte e muito provavelmente condizia na sua largura com o tanque mais meridional, medindo então cerca de 6 m Este-Oeste (ver fig. 32); por fim, o tanque mais a Norte, medindo cerca de 5,44 m Sul-Norte, apresenta alicerces de um muro a 4,90 m para Oeste (ver fig. 33), fazendo com que a sua largura não condiga com os tanques mais meridionais. Para além disso, podemos observar ainda neste último tanque a existência de uma entrada no seu lado poente, na extremidade Norte do muro Oeste (ver fig. 34), e os alicerces de uma grande base em opus incertum no seu ângulo Sudoeste, medindo cerca de 1,36 m Sul-Norte para 2,30 m Este-Oeste (ver figs. 35 e 36). Podemos-nos perguntar então se este tanque, ou construção parcialmente destinado a receber água, não terá sido construído posteriormente aos dois primeiros tanques mais meridionais que parecem formar um conjunto homogéneo. O tanque intermédio possui igualmente uma base em opus incertum,mas muito mais pequena (0,68 m Sul-Norte; o lado Oeste está muito danificado, não permitindo a sua medição exacta no sentido Este-Oeste), encostada à parede Sul, muito provavelmente pelo meio (ver figs. 37 e 38). Para além da base, este tanque apresenta também, do lado poente, várias secções de cerâmica em cunha semi-enterradas no chão (com espessura medindo cerca de 6 cm), podendo indiciar a presença nas proximidades imediatas de uma estrutura com colunas em opus testaceum, isto é, colunas de tijolos cozidos cujo núcleo cilíndrico é formado pela união
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de peças de cerâmica em quarto de círculo102 (ver figs. 39 e 40). Será que a base do tanque mais a Norte suportava esta dita estrutura? Também alguns fragmentos do que parecem ser telhas de barro planas(tegulae) podem ser encontrados no sítio103 (ver fig. 41).
Relativamente aos vestígios abundantes de opus Signinum, enquanto os dois tanques mais a Norte apresentam este revestimento colocado verticalmente à parede numa camada que podia variar de espessura (de 3,3 até cerca de 10 cm), o tanque mais a Sul, cujo nível do solo é aí mais alto do que os outros tanques, apresenta uma colocação diferente: do lado da parede Norte, podemos observar que a camada de formigão grosso começa do topo do muro para formar depois um declive suave até ao chão, lembrando a extremidade em bico das bacias superiores de fontes monumentais (ver figs. 42-44). Para além disso, este último tanque está ligado no seu lado Este por uma conduta (a abertura deste canal mede aproximativamente de 27 a 28 cm de largura) com sentido Este-Oeste, acabando por ficar, aquando da construção da basílica paleocristã, debaixo das lajes da zona do topo da abside, bem como dos dois compartimentos superiores que ladeiam esta última (ver figs. 45 e 46). Certamente que existiria no conjunto desses tanques outra conduta para a evacuação da água. Tudo leva a crer, por conseguinte, que o tanque mais meridional se destinava a receber a água de uma fonte qualquer, como se fosse um reservatório, para logo em seguida, subindo a água rapidamente ao longo do declive em opus Signinum, verter a água no tanque principal que lhe estava anexo (o tanque intermédio), que por sua vez alimentava o tanque mais a Norte.
Para a problemática do abastecimento de água, M. G. P. Maia e M. Maia propõem a «existência de uma nascente, talvez sulfurosa, perto dali e que, entretanto, tenha secado»104.
Mais tarde, sob o domínio da nova religião cristã, esses tanques, escapando à destruição de que certamente foi vítima o templo pagão, teriam sido provavelmente reutilizados como baptistério da presente basílica que lhe está anexo.
102
Ver Ginouvès e Martin, 1985, pp. 53, 100 e estampa 25 nº 3.
103
Ver Ginouvès, 1992, estampa 82 nº 1, para as formas comuns de tegulae (telha de barro plana com rebordo)e imbrex (telha curva).
104
II) A(s) divindade(s) venerada(s) no santuário de Santa Bárbara
de Padrões
–
os indícios
Em termos da(s) divindade(s) venerada(s) no santuário de Santa Bárbara, M. G. P. Maia e M. Maia105 propõem como hipótese uma qualquer relação com o culto das águas, culto este bem documentado na Península Ibérica. Esta proposta baseia-se na existência dos tanques e possível nascente sulfurosa no temenos de Santa Bárbara, bem como pelo facto do santuário da Horta das Faias, em Peroguarda, se situar a não mais de 35 m de um curso de água.
Também estes autores se referem à importância da luz nos rituais egípcios, quer de Ísis, quer de Serápis, e no culto de Cíbele, notando ainda que o Sul de Portugal deixou vestígios de culto a essas divindades orientais, sobressaindo a cidade de Beja com vestígios de Cíbele, Ísis, Serápis e Mitra106.
Igualmente importante para esta problemática, numa primeira abordagem, é a pertença dos Aranditani ao grupo étnico dos Celtici e as suas semelhanças com os
Vocontii da Narbonense. Ou seja, dois povos de origem celta, instalados na zona de influência da bacia mediterrânica, e possuindo cada um (se aceitamos a hipótese de Peroguarda pertencer efectivamente ao mesmo território ou comunidade que os
Aranditani) dois santuários de relevo onde foram recolhidas numa favissa uma enorme quantidade de lucernas votivas.
II) 1) Táranis/Júpiter
II) 1) a) Os Celtas do Sudeste da Gália e o santuário
de Chastellard de Lardiers
Relativamente aos Celtas, e tomando como exemplo os povos alpinos (em que
estão incluìdos os “Voconces”), é preciso relembrar que a natureza divinizada (numina
das pedras, águas, montanhas, entre outras), as divindades tópicas protectoras e as deusas mães ocupavam um lugar importante nas suas devoções, constituindo as
105
Maia e Maia, 1997, p. 22.
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