Capítulo III: Os santuários e os cultos dos deuses alexandrinos
III) 4) b) i) Aspectos arquitectónicos e decorativos
Em relação aos santuários de culto egípcio nas províncias de Roma, para além dos tanques nilóticos e de ablução, sabemos que na época imperial se combinavam monumentos de estilo grego ou romano com monumentos de estilo egípcio, com o objectivo de dar aos templos dedicados aos deuses do Nilo um ar mais indígena, relembrando os locais de culto do Egipto. Foi para este propósito que, para além de prováveis razões cultuais534, foi criada uma aleia de esfinges535 (dromo536) no início do século I a. C. em frente ao templo do Iseum de Delos 537 (ver fig. 57).
Para além das esfinges, podemos tomar como outro exemplo os telamones538 que J.-C. Grenier pensa serem bastante frequentes nos santuários egipcizantes da época romana (mais exactamente para santuários de grandes dimensões539), sem dúvida inspirados dos colossos osiríacos da arquitectura egípcia. Temos o caso dos dois Osirantínoo telamones colossais em granito vermelho do “Serapeu de Cânopo” da Villa
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Seja para que as cerimónias que se desenrolavam fossem daí em diante dissimuladas dos olhares, seja para que os oficiantes dispusessem de um espaço especial inacessível à massa dos fiéis. É preciso notar que o dromo estava limitado por dois longos muretes com poucos acessos laterais (Bruneau, 1980, pp. 163, 186).
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Sob o Império Antigo, a esfinge foi representada na entrada dos templos, simbolizando o poder real (a comparação muito antiga do rei com o leão está na origem da esfinge), acabando mais tarde por ser rebaixada à categoria de simples guardiã de templo e de túmulo. No decurso do Império Novo, a esfinge foi associada mais particularmente à divindade Ámon-Ré, rei dos deuses, a cabeça humana sendo então substituída por uma cabeça de carneiro (Lurker, 1994, p. 211).
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Avenida marginada de esfinges que conduzia à entrada dos templos egípcios (Silva e Calado, 2005, p. 131).
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Bruneau, 1980, pp. 184-188.
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Um télamon é uma estátua antropomórfica usada em arquitectura para sustentar entablamento, cornija, etc. (Silva e Calado, 2005, p. 349).
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de Adriano, muito provavelmente colocados nos ângulos interiores dos pavilhões que ladeavam a gruta-fonte540, ou os do Serapeum de Pérgamo541.
Sabemos igualmente que os recintos consagrados a uma divindade egípcia englobavam templos ou capelas de outras divindades542. Em Delos, por exemplo, Ísis estava abrigada num dos Serapeus543. Por sua vez, o Serapeu de Adriano em Tivoli, na qualidade de monumento egípcio, retomou uma das regras fundamentais da arquitectura indígena para uma tríade divina544, estando a capela consagrada ao “deus pai” flanqueada por um lado pela da “deusa mãe”545, do outro pela do “deus filho”546. No
caso do Iseu de Pompeia (exemplo excepcional por sua rápida reconstrução após o terramoto do ano 62 e incluída numa ínsula), o pronaos comportava dois nichos laterais provavelmente dedicados a Harpócrates e Anúbis, cujos altares respectivos se situavam de cada lado da escada de acesso ao aedis, e na parede traseira do templo existia outro nicho ocupado desta vez por Dioniso / Osíris547 (ver fig. 58).
Havia também, no recinto sagrado, hospedarias e casas que Serápis “alugava” especialmente para devotos que queriam viver perto dele (os katochoi)548; locais especiais (oikoi) no templo, com leitos (klinai) dispostos de maneira particular, para as tradicionais refeições (deipna) cerimoniosas549; um pórtico (edifício dito do abaton) para acolher devotos em busca de uma cura (tanto para Ísis como para Serápis, os procedimentos eram os mesmos que para o deus Asclépio: os oráculos eram expedidos
540 Grenier, 1989, pp. 973-974 e nota 87. 541 Mar, 2001, p. 314. 542 Préaux, 1978, p. 653 e Vasconcellos, 1913, p. 350. 543
Préaux, 1978, p. 653. No Serapeu C, junto ao templo de Ísis existiam igualmente um pequeno templo dedicado à tríade alexandrina e uma provável capela consagrada a Anúbis (Mar, 2001, fig. 61 e texto p. 317).
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No santuário egípcio de Karnak dedicado a Ámon, encontra-se no centro a câmara que contem a cella de granito que protegia a imagem divina. Em ambos lados desta câmara acham-se outras edificações que alojavam as estátuas dos deuses parentes, geralmente a esposa (Mut) e o filho (Khonsu), e as dos deuses exteriores acolhidos no templo (López, 1993, pp. 30, 127, 129-130).
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Quando a deusa mãe, nos templos do Egipto, ia dar à luz ao pequeno deus, o parto realizava-se sempre no mamisi (Rachet, 1994, p. 578).
546
Grenier, 1989, pp. 971-972.
547
Mar, 2001, fig. 62 e texto p. 319.
548
Préaux, 1978, p. 654.
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por incubação; aparição da divindade em sonhos, cura no acordar)550; e eventualmente uma biblioteca (exemplo célebre do Serapeu de Alexandria) 551.
Segundo R. Mar e J. Ruiz de Arbulo552, podemos observar, entre os diferentes Serapeus (bem como nos Iseus), uma tradição arquitectónica comum que remontava às origens do próprio culto, conservando traços específicos alexandrinos em função das cerimónias pensadas para a participação de uma ampla comunidade de culto: pronaos sobre pódio elevado, precedido de uma área descoberta, o conjunto integrado num pátio porticado553. A plataforma do pronaos constituía sempre um autêntico palco relativamente a area sacra que precedia o templo. Esta organização do espaço interior do santuário sugeria portanto que o culto tinha como ponto focal o pronaos do aedis – graças a um pódio elevado e frequentemente desenvolvido como uma tribuna, a imagem divina podia ser vista por todos, e os sumo-sacerdotes, situados no pronaos frente à entrada da cella, podiam dirigir-se à comunidade dos devotos reunidos na área descoberta, com os coros, iniciados e outros oficiantes em torno dos altares.
No helenismo tardio, vamos assistir a uma regularização da forma geral dos edifícios serapeicos, conservando os aspectos necessários para o funcionamento do culto (o pódio, a capela, a plataforma com o pronaos e o pátio fechado) e traduzindo-se na forma de naiskoi, ou pequenas capelas, edificadas sobre um amplo pódio, construídas no centro de pátios fechados. Reencontramos efectivamente estas características em dois santuários ocidentais dedicados a Ísis no século I d. C.: Pompeia na Campânia e
Baelo Claudia na Bética.
Por fim, para ornar a casa dos deuses alexandrinos, havia a necessidade do desenvolvimento de toda uma iconografia nilótica que recordava a paisagem original do Egipto e seus símbolos característicos em fauna e flora sacralizadas. No Iseum de Pompeia, por exemplo, o quadripórtico estava pintado com painéis do terceiro estilo
550
Ver Préaux, 1978, p. 652, Burkert, 2003, p. 19 e Rachet, 1994, p. 189.
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Nos templos, não se discutia somente sobre a natureza dos deuses e do homem; estudavam-se as matemáticas, a astronomia, a medicina, a filologia e a história. Os clérigos eram verdadeiros sábios, aproveitando-se das conquistas do pensamento para uma melhor compreensão do destino do homem e do mundo, das relações do céu e da terra (Cumont, 1906, pp. 39-40).
552
Mar, 2001, pp. 314- 320, 323 e figs. 59-63.
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Só o Iseum de Erétria estava inserido num simples períbolo, ao contrário de muitos outros templos, com pátios parcialmente ou completamente fechados por pórticos. Relembramos que o grande Serapeu de Alexandria tinha a forma de uma imensa praça porticada em que se abria o templo propriamente dito, junto aos de Ísis, Harpócrates, Anúbis e os theoi adelphou. Formas semelhantes tinham também o grande Serapeu de Mênfis e o templo de Ísis em Philae (ver Mar, 2001, p. 314 e figs 59-63).
pompeiano, mostrando diferentes quadros e distintos sacerdotes protagonistas da pompa isíaca; as paredes em redor da cisterna subterrânea estavam por sua vez ricamente estucadas com figuras em relevo; o ecclesiasterion ou sala de reunião para os iniciados possuía, além de um mosaico, grandes quadros de paisagens sagradas isíacas e cenas da vida de Io decorando as paredes; por fim, a sala adjacente ao ecclesiasterion continha um larário pintado e a cena do navigium Isidis.
Para o caso da Hispânia e segundo os estudos de J. Alvar554, nenhum dos santuários egípcios conhecidos proporcionou informação sobre uma decoração especialmente egipcizante. Sabemos que os templos eram construídos num estilo nitidamente romano, com excepção do singular caso de Panóias, mas não se sabe se as suas paredes estavam cobertas com cenas rituais e paisagens nilóticas (para simular um Egipto miniaturizado), como ocorre em Herculano. Só podemos notar certos elementos egipcizantes em alguns restos de estatuária.
A maior parte das esculturas vinculadas aos cultos egípcios em Hispânia representam os deuses nilóticos sob sua fisionomia romanizada (versão helenístico- romana). Também é necessário chamar a atenção sobre algumas peças que parecem sustentar que alguns elementos decorativos pretendiam dirigir a imaginação até ao longínquo Egipto.
Esculturas de época faraónica apareceram também em estratos arqueológicos de época romana. É legítimo, segundo o autor, a tentação de as considerar relíquias ancestrais conservadas nos modernos templos romanos aos que, sem dúvida, proporcionariam prestígio e veneração – testemunhas da veracidade dos rituais ali efectuados, garantia da antiguidade e autenticidade do culto.
Por fim, J. Alvar acrescenta que o culto praticado em Hispânia devia desenrolar- se de forma similar ao dos santuários mediterrânicos conhecidos.
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