MARIA CRISTINA C U N H A MARIA CRISTINA PIMENTA
Algumas considerações sobre as relações
entre os monarcas castelhanos e a Ordem
de Avis no
S~CUIO
XIII
INSTITUTO PORTUGUES
DO
P A T R I M ~ N I O
CULTURAL
P O R T O
Separata do
Boletim do Arquivo Distrital do Porto Volume I1
-
1985Algumas c~nsidera~ões
sobre as rela~óes
entre os monarcas castelhanos e a Ordem
de Avis no Século
XIII
*
1. O estudo das ordens militares portuguesas e da sua evo-
luçâo histórica no período medieval constitui tarefa urgente que importa acometer. Com efeito, estas instituições tiveram uma enorme importância no seu tempo, sendo pcssível, através delas, compreender inúmeros aspectos da história medieval lusitana. Neste sentido, desde há algum tempo, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, encontra-se em andamento um pro- jecto de investigaçâo que visa estudar sistematicamente estas ordens militares, embora neste momento tal projecto restrinja a sua aten-
ção ao estudo da O r d ~ m de Avis, o ramo português da Ordem
Cisterciense de Calatrava.
Como escreveu LOMAX (I), a despeito da importância signi-
ficativa que esta ordem teve, tem sido escasso o número de estudos
a ela dedicados (2). Assim, aproveitamos a circunstância de se
*
ComnnicaçXo apresentada no «Congresso Internacional sobre Afonso X, o Sábio)), Espanha, 1984.(1) DEREK W. LOMAX, Lns Oi.denes Militares en 10 Peninsrila Iberica eit Ia Edod Media, Salamanca, 1976, pág. 66.
(2) Veja-se, no entanto, MIGUEL DE OLIVEIRA, A Milicia de Évora e a
Ordem de Calatrava, Lusitânia Sacra, I, págs. 51-64; CARLOS DA SILVA TAROU-
CA, As orizens da Ordein dos Cavaleiros d8 Évora (Avis) segitrzdo as curtos do
arqiiivo do Cabido da Se! de Évora, «A Cidade de Évora)), ano 5, n.OS 13-14, 1947; MAUR COCHERIL, Étildes sitr le nzoriaclrisitie m Espagrre et au Ponrrgol, Paris-
-Lisboa, 1966; RUY PINTO DE AZEVEDO, Prirnórdios da Ordem Militar de
Évora, «Boletim da Junta Distrital de Évorm, n.O 8, 1967, págs. 45-62 e AUREA JAVIERRE MUR, Lu Orden de Calatrava e11 Ponugal, Separata do «Boletim de
comemorar este ano o centenário da morte de Afonso X para
comentar alguns diplomas do século XIII relativos à Ordem de
Avis que possam contribuir para uma melhor compreensão das relações entre Portugal e Castela nesse momento. Neste sentido, a presente comunicação completa-se com uma outra, também aqui apresentada, que sublinha a importância do 3." quartel d o século XIII como momento chave da orientação de fundo da
diplomacia portuguesa medieval (3); assim, veremos o modo como
tal mutação também se manifesta no âmbito particular da Ordem Militar de Avis.
2 . Não entramos na consideração do problema das origens
da Ordem, que é, possivelmente, o aspecto melhor eitudado da
sua história. Teria sido fundada em meados da 2." metade do
século XII(4) no quadro da Reconquista portuguesa em terras a Sul do Tejo; já no inicio do século XIII, em plena expansão, Avis vê reconhecidas as suas vastas possessões em Portugal por
diversas Bulas papais (5), usufruindo simultaneamente de apoio
inequívoco por parte da monarquia portuguesa (6). No entanto,
mantém-se a dependência directa de Calatrava: os diplomas pon-
(3) LUIS ADÃO DA FONSECA e HENRIQUE DAVID, Algitns aspectos
das relações entre Portrigal e Custeia na segffrzrln ~netorle do sécrrlo XIII, Comunica$Zo
apresentada no Congresso Internacional sobre «Alfonso X el Sabio: Vida, Obra, Epocm, Espanba, 1984.
( 4 ) RUY PINTO DE AZEVEDO, Pi.iniórdios do Ordem Militar de Évora,
in ((Boletinl da Junta Distrital de Évorm, n.O 8, 1967, pág. 54.
(5) Referimo-nos às Bulas de 4 de Nov. de 1187 (resumido por F. R. UHA-
GÓN, 61riice de 10s docii»ie»tos de 10 Orderi Militnr de Calatrava existeirtes en e1 Arcliivo Hisforico Naciorinl, «Boletim de Ia Real Academia de Ia Historim, vol. 35,
1899, pág. 68; sun~ariado e publicado parcialmente por A. JAVIERRE MUR, ob.
cit., pág. 8), de 28 de Abril de 1199 (A.H.N.M., 0i.deirs Militares, Docs. Pontifícios,
leg.1, n.O 8; resumido por UHAGÓN, ob. cit., pág. 68 e publicado parcialmente por A. JAVIERRE MUR, ob. eit., págs. 8-9), de 17 de Maiode 1201 (A.N.T.T., Ordeni
de Avis, n.O 2 resumido, entre outros, por VISCONDE D E SANTARÉM, Quadro Ele~?ientai. das Relações Politicas e Diploináticas de Porti~gol cosi as diversas Potências do Mrrndo, Paris, 1842-1866, tomo IX, pág 34) e, por último, a Bula de 20 de Maio de 1214 (A.N.T.T., Oi.dein de Avir, n.OS 3 e 839; sumariado por HUAGÓN, ob. cir., pág. 69 e VISCONDE DE SANTAREM, ob. cit., tomo I X , pág. 61 e publicado parcialmente por A. JAVIERRE MUR, ob. eit., pág. 9)
.
(6) 23 de Set. de 1217 (A.N.T.T., Ordem de Avis, n.' 68); transcrito por RO- MhN, História de Ia Inclita Covaluria de Avis na Coroa de Portitgril, B.N.L., Colec-
tifícios sempre a referem expresbaineiite (7). Por exemplo a Bula
de Honório I11 Dilecti Filo de 16 de Novtmbro de 1220 revela
bem o que acabamos de afirmar: dirigida aos Abade, Priore Chan-
tre d o Mosteiro de Alcobaça, declara que tendo o Mestre de Évora
ajustado uma composição com o Bispo da sua diocesz, acerca das décimas que possuíam na vila de Avis, e tendo depois sido obri- gados pelo dito prelado a ajustarem uma stgunda composição sem o consentimento do Mestre de Calatrava, por súplica deste,
é dada ordem pelo Sumo Pontífice para que se cumpra a primeira
composição (8). Como se vê, a jurisdição de Calatrava sobre Avis
era então um facto
(9,
que naturalmente ultrapassa o âmbitoestrito de uma dependência institucional, já que implica também importantes consequências no domínio político. Como escreve
ROMAN
na sua história sobre a Ordem de Avis, ao referir estadependência, a jurisdição de Calatrava era tal que nos seus capí- tulos eram eleitos dois visitadores, um cavaleiro e outro sacerdote, na hipótese de que não pudesse ser o próprio Mestre a visitá-la
em pessoa (10). Aliás este mesmo autor apresenta alguinas infor-
mações que confirmam amplamente a referida vinculação. Escreve ele que, no ano de 1238, tendo sido elevado ao Mestrado de Avis
D. Martim Fernandes, a Ordem foi objeto de uma visitação de
Calatrava; ao concluírem os visitadores qu; a rtferida eleição não
tinha sido realizada segundo as normas, confirmarain
c
dito Mes-tre conforme o estipulado, reafirmando ao mesmo tempo que não se faria no futuro eleição alguma sem estar presente o Mestre de Calatrava ou um seu representante, e que Avis seria objecto de visitação anual (11). E, tanto quanto é possível ~ a b e i , tal disposição
teria sido regularmente cumprida até finais do século XIV (12).
(7) Bula de 18 de Dez. de 1220 (A.N.T.T., Oude,,! rle Avis, 11.05, sumariado por
V. SANTARÉM, ob. cir., tomo IX, pág. 73, entre outros).
(8) 16 de Nov. de 1220 (A.N.T.T., 0rde111 de Avis, n.O 4, diplonia resumido
por V. SANTARÉM, ob. eit., tomo IX, pág. 73).
(9) Citado por RODRIGUEZ, Regi." da Cnvallai.ia e O~de>n Militar de
S. Be~zio de Avis, Lisboa, 1631, A. M73 v. (10) ROMÁN, 06. cit., cap.
iv.
("1 A. JAVIERRE MUR, ob. cit., páçs. 45-46, publica a acta da visitaçáo
com a data de 22 de Agosto de 1238. D o mesmo modo, RODRIGUEZ, ob. cit.,
A. 9r, refere essa data. Já ROMAN, ob. cit., cap. VII, refere este facto e publica o documento datando-o, erradamente, de 22 de Abril de 1238.
('2) Por exemplo, chegou ao nosso conhecimento o texto coinpleto da acta
da visitação de 1342 (A.N.T.T., Ordem de Avis, n." 383, publicado por A. JAVIERRE MUR, 06. cit., págs. 20-27). Dispomos igualmente da referência documental da visita
3. Que significado teria esta dependência jurisdicional no domínio mais amplo do relacionamento político? Trata-se de um aspecto de importância crucial, que, a nosso ver, não tem mere-
cido a devida atenção. Reconheçamos que é difícil responcier com
pormenor, dado o silêncio documental sobre este ponto. No en- tanto, e porque não podemos ficar passivamente condicionados por aquilo que as fontes explicitamente afirmam, não queremos deixar de levantar o problema. Alias, se as fontes nem sempre nos ajudam de uma forma directa, uma reflexão compreensiva scbre o seu significado e sobre as relações entre elas, mostra-se muitas vezes dotada de enormes virtualidades.
Não conhecemos, no estado actual da investigação, qual teria sido a posição da Ordem de Avis perante a deposição de
Sancho I1 e a curta guerra civil que se lhe seguiu. Com efeito, a
docun~entação conhecida nada informa sobre este ponto. Mas é
interessante recordar que a Ordem de Avis se tinha mostrado desde longa data especialmente sensibilizada para a reconquista num âmbito peninsular, não limitada, portanto, ao reino de Por- tugal. Vejamos alguns exemplos do que se acaba de afirmar. Poucos
anos depois de ter participado activamente ao lado de Sancho
I
de Portugal na conquista de Silves, em 1189-1190 (13), a Ordem
t t m uma forte presença na Batalha de Alarços (1195), onde, aliás,
teria morrido o Mestre D. Gonçalo Viegas (14). Sabemos também
que, logo a seguir, Avis participa na tomada de Sevilha levada a cabo por Fernando 111; assim, em 15 de Janeiro de 1248, o
de 1346 (A.N.T.T., Ordem de Avis, n.O 387). É sabido que a Ordem de Avis se exi- miu da dependência de Calatrava num processo que teve inicio no reinado de D. João I, como referem ROMAN, ob. cit., cap. V, PURIFICAÇÃO, Catalogo dos
Mestres e Adtninisrradores da Illi<stre e Antiqi<issi»ia Ordern Militar de Aviz, ~Colec-
ção de Documentos e Memórias da Academia da Historia Portugueza», Lisboa 1722, vol. 2, catálogo XXIII e BRANDÃO, Cró~tica de D. Afonso III, Livraria Civili-
zaçio Ed., Porto, 1946, págs. 224-225, e que só se resolveu no reinado seguinte. Sobre este assunto veja-se EDUARDO NUNES, A contenda Luso-Castelhana sobre bispados e Mestrados em 1436-1437, em Nótirlas de História do Século XVPortrrgtiês
in « D o Tempo e da História», I, Lisboa, 1965, pigs. 47 a 55.
(13) RUY PINTO DE AZEVEDO, Priliiórdios de Ordern Militar de Évora, pag. 59.
(14) Referem-se a este assunto PURIFICAÇÃO, ob. cit., catálogo 11, BRAN- DÃO, Crónica de D. Saitclto I, Livraria Civilização Ed., Porto, 1945, págs. 58-59; RUY PINTO DE AZEVEDO, ob. cit., pás. 61 e FRANCISCO XAVIER DO REGO, Descripçcio geografica, cbro~tologica, historica e critica da villa e real Ordem
de Avis, B.N.L., COD. 106, fl. 17 v., informa que este Mestre morreu na «batalha de Alarcos no reyno de Toledo em 29 do mês de Julho do anuo de 1 1 9 5 ~ .
monarca castelhano doa à Ordem portuguesa a quantia de 2 000 morabitinos pequenos, caso conquiste a cidade andalusa, com a
promessa de os trocar por herdades e lugares equivalentes à dita
renda (15). Esta promessa de doação foi cumprida, a avaliar por
um diploma de 7 de Janeiro de 1263 no qual se referem umas
casas na dita cidade que teriam pertencido a Avis ($6).
Merece a pena referir expressamente este último ponto por-
que, na sua obra já citada,
ROMAN
declara que a promessa deFernando o Santo não teria sido posta :m prática, acrescentando
que Afonso X teria doado a vila de Albufeira como recompensa,
o que é manifestamente uma interpretação defeituosa (17). Com
efeito, não há relação directa entre as duas doações do rei caste-
lhano, a primeira relativa a Sevilha, e a posterior, da localidade de Albufeira; passa-se algo um pouco diferente.
Na sequência de dependência em que Avis se encontrava em
relação Calatrava, não é de estranhar que a Ordem portuguesa
mantivesse ligações com a monarquia vizinha. No entanto, e tendo em vista que as duas monarquias do Ocidente peninsular viviam então um relacionamento difícil, aumentado precisamente nesses mesmos anos pela ocupação d o Algarve levada a cabo por
Afonso I11 de Portugal, a referida vinculação de Avis a Castela
poderia aparicer aos olhos dos responsáveis portusueses como especialmente gravosa, o que, por outro lado, parece confirmar-se pela posição aparentemente neutra1 assumida pelos Mestres de Avis neste conflito luso-castelhano. Com efeito tem-se a sensação de que estes cultivam voluntariamente esta política indefinida com o propósito de, através dela, usufruir dos benefícios interessados
de ambos os lados. Recorde-se que logo a seguir à conquista do
Algarve, em 1 de Março de 1250, Afonso I11 doa o castelo de Albu-
feira à Ordem com todas as suas rendas (18). Assim a idêntica
(15) A.N.T.T, Ordeder» de Avis, n.O 100; publicado A. JAVIERRE MUR, ob. cil.,
pigs. 49-52; sumariado por JULIO GONZALEZ, Reporliinie~tfo de Sevilla, vol. 2,
pág. 297. Referido, igualmente, por REGO, 06. cit., fl .s 19 v.-20 r. epor RODRIGUEZ
ob. cit., A. 8 v. que se engana na data desta doação. BRANDÃO, Crónica de D. Afonso 111, pás. 131 e ROMAN, 06. cit., cap. VII, referem a dita doação mas afir-
mam ser a quantia de 1000 maravedis.
(19 A.N.T.T., Ordem de Avis, n.O 101; publicado A. JAVIERRE MUR,
ob. cit., págs. 52-53.
(17) ROMAN, ob. eit., cap. VI1
.
(18) A.N.T.T., Ordem de Avis, u.OS 69 e 70, Cltaitc. Afortso III, 1.1, fls. 43 v. e 106 (citado Arcliivo Historicn Portuguez, vol. IV, pág. 112) e Forais Afonso 111, fl. 43. Este diploma tem sido citado variadissimas vezes e foi publicado-numa versão
doação do Rei Sábio, que data de 8 de Maio de 1257 ( 1 9 , cons-
titui uma resposta à medida do soberano lusitano, nada tendo
directamente a ver com a promessa feita a respeito da conquista de Sevilha.
4. Pensamos, no entanto, que o triângulo formado pelas
relações luso-castelhanas, a questão do Algarve e a Ordem Mili-
tar de Avis é susceptível de ser objecto de uma segunda leitura
que considere, não só as motivações que conduzem o Mestre da Ordem a praticar uma política que a torne objecto d o interesse
de ambos os lados da fronteira -aspecto anteriormente comi-
derado
-,
mas também aquilo que induz os reis de Castela e dePortugal a se interessarem tanto, nessas circunstâncias, pela Ordem de Avis. Trata-se de explicar, numa segunda reflexão, a razão de ser da emulação dos dois monarcas, a qual se torna bem visível
na questão d o Algarve, em geral, e na dupla doação de Albufeira
à Ordtm de Avii, em particular: a portuguesa de 1250 e a caste-
lhana de 1257.
Em primeiro lugar pensamos que a referida emulação explica
a doação de Afonso
I11
de 1250 e não, como pensa RUY PINTODE AZEVEDO, uma eventual recordação do esporádico senho- rio de Avis sobre a dita vila quando das operações algarvias de
D. Sancho
I
em finais do século XIJ (20). A doação do soberanoportuguês manifesta com clareza a perspectiva de D. Afonso 111,
isto é, doa-se um lugar integrado numa zona onde o monarca
português exerce efectivamente a soberania; por ela, o Mestre de Avis tem idênticas obrigações às que derivam de anteriores
doações de lugares feitas pelos reis de Portugal à mesma Ordem.
Em segundo lugar, a doação do Rei Sábio, aparentemente apaziguadora, representa, no fundo, uma resposta contundente
à doação do rei português: com e f ~ i t o , revela que Afonso X não (19) A.N.T.T., O~dein de Avis, n.O 111; referido RODRIGUEZ, ob. cit., R. 91; sumariado por JULIO GONZALEZ, Repai.tii,~ieirlo de Sevilla, vol. 2, pás. 331 e publicado por A. JAVIERRE MUR, ob. cit., pigs. 53-58. A respeito do significado do presente diploma, esta autora parece ter incorrido numa ligeira confusão. Aíirma na pAg. 34 do citado estudo que a doaçáo de Afonso X foi feita porque este desejou respeitar a anterior doação feita à Ordem pelo rei de Portugal, que, por sua vez, o fez depois de consultar e obter a aprovação do mesmo monarca lusitano e cita neste sentido, a Clraitcelaria de D. Afonso 111, 1.1 1. 43 v. que contém a já referida doa- çáo do rei de Portugal de 1250 e que, evidentemente, nada aduz directa ou indirecta-
mente em relação a um acordo possível com Afonso X de Castela.
está disposto a abdicar do que pensa serem os seus direitos, a o explicitar que reserva para si e para os seus sucessores os direitos
realengos na cunhagem da moeda, exercício da justiça e recruta-
mento militar. Aliás, a impressionante sucessão de testemunhas (praticamente todos os altos dignatários de Castela) confirma a solenidade dos disposto. D o confronto das duas doações ressalta um aspecto, a nosso ver, extremamente significativo: enquanto a doação portuguesa se situa no quadro de uma soberania efec- tivamente exercida, a doação castelhana contempla o caminho
sinuoso de entregar a vila algarvia i Ordem, não negando por-
tanto o resultado final da doação do monarca português, mas sal-
vando, em última análise, a jurisdição castelhana; ou seja, Afonso
X
não abdica dos seus direitos jurisdicionais sobre a vila e castelo dc Albufeira, mas, em certa medida, reafirma-os. No entanto,
tal reafirmação só não é confiitiva porque se previa já uma fór-
mula de dependência vassálica que atenuaria enormemente a acui- dade das dificuldades.
5. Situada a questão nestts termos e situada também nas
circunstâncias próprias da época, não parece descabido estabelecer uma relação entre a proposta castelhana para resolver o problema da posse de Albufeira pela Ordem de Avis e as nr.gociações contem-
porâneas para rtsolver o problema do Algarve. Dito por outras
palavras, a fórmula proposta por Afonso X visaria objectivos
maiq vastos; aos seus olhos, a resolução da questão de Albufeira aparece cam valor instrunleiital que, a ser acceite, condiciouaria o andameiito das negociações a respeito do problema mais vasto da jurisdição algarvia. Como sabemos, a solução mais tarde encon-
trada foi deste tipo (?I), o que confirma plenamente a verosimi-
lhança da hipótese aduzida.
Nesta ordem de ideias, a disponibilidade de Avis para benr fi- ciar do apoio, já apontado, de ambas as moiiarquias, adquire uma nova dimensão, visto que nela assenta o que se poderia considerar o ponto nevrálgico das relações diplornáticaa entre Portugal e Castela na altura. Tal abertura da Ordem Militar significa assim a disponibilidade desta para servir de balão de ensaio em Portu- gal, demonstrador da viabilidade das soluções propostas pela
monarquia castelhana. Assim, não é de estranhar que o compor-
(21) Foi este aspecto visto por RODRIGUEZ, ob. cit., fl. 9, a nosso ver acer- tadamente.
tamento de Avis não agradasse ao rei de Portugal, a avaliar pela notícia que temos da existência de conflitos entre Afonso 111 e a dita Ordem (22). Não se trataria meramente de u m problema de
limites de lugares, como aventa A. JAVIERRE M U R (23). Com
efeito, a noticia documental não explicita o teor das razões que se encontram por detrás do conflito; sabemos, no entanto, que o Mestre de Santiago, D. Paio Peres Correia, em data próxima a meados de 1258 estaria directamente interessado lia sua resolução. Neste contexto não teria sentido que o Mestre de uma Ordem cas- telhana se intrometesse numa disputa interna do reino de Portugal, mesmo sendo ele português, a não ser que tal disputa tivesse repercussões graves no relacionamento com a monarquia vizi- nha (24). Quer isto dizer que o conflito entre Afonso 111 e a Ordem de Avis estava directamente relacionado com a política castelhaua, o que obviamente confirma as hipóteses anteriormente referidas. Se não sabemos exactamente a evolução da referida contenda, constata-se no entanto que o rei de Portugal continuou a sua polí- tica de captação dos favores da Ordem através da renovação da doação de Albufeira (25). Aliás, o cronista FREI ANTÓNIo BRANDÃO diz expressamente ser esta a politica seguida pelo Mestre de Avis: com efeito, a propósito da discussão da questão do Algarve, aduz que o Mestre de Avis pretendia que a vila de Albufeira lhe pertencia pela doação recebida do rei castelhano (26). Confirma, finalmente, que o senhorio de Albufeira se transformou, por esta via, num ponto n,vrálgico das negociações, como se
comprova por um diploma tnviado por Afonso
X
ao rei de Por-tugal em 1260 (27) e que é, certamente, uma resposta à missiva
anterior de 24 de Abril do mesmo ano do monarca português ao
(22) BRANDÃO, Ci.ónica de D. Afonso 111, pág. 289.
(23 A. JAVIERRE MUR, 05. cit., pás. 3 5 .
(24) JOSÉ AUGUSTO SOTTOMAYOR PIZARRO, Um Episódio das relaç5es entre Portugal e Castela iro tempo de Afonso X : o filfartte D. Ferrtairdo de Serpa,e a siia presença em Casfela, Comunicaçáo apresentada no Congresso Interna- cional sobre ((Alfonso X e1 Sabio: Vida, Obra Epocan, Espanha, 1984.
(25) 11 de Março de 1260, A.N.T.T., Cl~afzc. D. Aforrso III, 1.1, fls. 43 v. e 5
de Novembro de 1271, Ordem de Avis, n.O 71. É significativo que nesta mesma última
data tenha confirmado a Ordem as Igrejas de Borba doadas pela primeira vez em 28 de Abril de 1260 (A.N.T.T., Ordem de Avis, n." 81).
(26) BRANDÃO, Ci.ófrica de D. Aforrso 111, pAg. 147. (27) BRANDÃO, Crórrica de D. Afonso 111, ppág. 146.
de Castela pedindo-lhe que desembargasse o castelo da vila de
Albufeira à. Ordem de Avis (2s).
Para o esclarecimento deste tema não parece ser demasiado importante acompanhar o processo das negociações diplomáticas
tendente a solucionar o difcrendo entre os dois reinos. É suficiente
aduzir que a Ordem de Avis negoceia paralelamente a resolução dos
seus problemas particulares: é o caso, por exemplo, da negociação
dos termos das terras acima do Guadiana acordada em Março de 1259 (29).
6. Podemos, portanto, concluir afirmando o interesse da
metodologia apontada no início desta comunicação: uma compreen- são que contemple paralelamente as relações diplomáticas, por um
lado, e as Ordens Militares, por outro, apresenta-se cheia de vir-
tualidades. Neste caso pôs-se de manifesto o papel nuclear exer- cido por Avis e, em particular pela futura comenda de Albufeira, na resolução das dificuldades diplomáticas então existentes. Não só o problema da doação de Albufeira surgiu como modelo ins- trumental que permitiu a resolução de problemas mais vastos,
como foi possível localizar, já no século XIII, uma sensibilidade
castelhanizante na Ordem de Avis, que, como sabemos, constituirá uma tónica determinante na sua actuação em algumas épocas pos-
teriores, particularmente no século XV (30).
( 2 8 ) A.N.T.T., Livro de Doações de D . Afortso III, 1.1, A. 43; citado por V.
SANTARÉM, 06. eit., t. 1, pá@. 105-106.
(29) A.N.T.T., Gaveta 4, m. 1, n.O 24, resumido V. SANTARÉM, 06. cit., t. I, pág. 1. Possivelmente esta composição foi confirmada em Março de 1261 (A.N. T.T., Gaveta 4, m. 1, n.O 24).
(30) LUIS ADÃO DA FONSECA, O Coridestávei D. Pedro de Portrtgal,
I.N.I.C., Porto, 1982 e Algr!mas cofisiderações a propósito da documentação existente
em Bareeloita respeitarrte à Ordem de Avis sua corari61dçÜo pain izm ;mellzor conbeci- mento dos grupos de pressüo e111 Portrigal eern tneados do século XV,~comunicação apresentada nas dornadas sobre Portugal Medieval», Leiria, Outubro de 1983.