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Este caso foi elaborado pelos Pesquisadores Associados João Teixeira Pires, Luciana Rocha de Mendonça e Monica Bose, sob a supervisão da Professora Rosa Maria Fischer, todos pertencentes ao CEATS - Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor / FIA - Fundação Instituto de Administração / USP- Universidade de São Paulo. Ele é parte da coleção de casos do “Social Enterprise Knowledge Network - SEKN”, tendo sido desenvolvido para fins didáticos e como fundamento para discussões em sala de aula. Não deve ser entendido como apoio, endosso ou aprovação a pessoas ou organizações, nem como ilustração de um ge renciamento eficaz ou ineficaz.
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R O S A M A R I A F I S C H E R
Telemig Celular e a Garantia dos Direitos da
Criança e do Adolescente
“Mede-se o grau de uma sociedade pelo cuidado que se dispensa à criança”.
Nédens Ulisses Freire Vieira - Procurador Geral de Justiça – Estado de Minas Gerais1
Naquela tarde de sexta -feira, em 21 de setembro de 2001, Francisco Azevedo – Diretor Executivo do Instituto Telemig, braço social da empresa Telemig Celular – já se encontrava na sala de reuniões esperando pela chegada dos demais membros da diretoria da empresa. Durante o encontro, seriam discutidas diretrizes para aprimorar a atuação social do Instituto, voltada à criação e fortalecimento dos Conselhos Tutelares – CT – e Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente – CMDCA – no Estado de Minas Gerais.
Francisco concluiu que era uma oportunidade para o Instituto considerar a incorporação da Procuradoria Geral da Justiça2 na parceria que acabava de ser estabelecida entre o Instituto e organizações
de voluntários. Esse órgão público detinha, por força da lei, a responsabilidade de estimular a criação e orientar o desenvolvimento dos Conselhos Municipais. O Instituto havia se associado a voluntários para propiciar a formação dos citados conselhos, mas os resultados ainda não eram satisfatórios.
Contudo, alguns membros da diretoria poderiam demonstrar preocupação com os efeitos potenciais que uma cooperação formal com a Procuradoria Geral poderia gerar sobre a imagem da empresa. A aliança poderia correr alguns riscos, como a falta de agilidade nas decisões; a influência de fatores políticos,
1 Depoimento presente no catálogo “Pró-Conselho-Instituto Telemig Celular Para o Desenvolvimento Social” emitido em 2001.
partidários ou ideológicos; a imposição, pelo setor público, de forma e conteúdo da eventual colaboração; e ainda, as conseqüências advindas das diferentes percepções dos agentes envolvidos.
A Telemig Celular apenas iniciava suas operações no País e sua Diretoria concentrava-se na consolidação da empresa, cuja origem estava no processo de privatização do setor de telefonia e comunicações orquestrado pelo governo. A complexa composição acionária da empresa (Anexo 1) e a agressiva concorrência que caracterizava o setor exigiam que a Diretoria aliasse prudência e ousadia em suas decisões acerca da atuação social realizada através do Instituto Telemig.
Francisco antevia perguntas do tipo: “Devemos buscar uma aliança estratégica com a Procuradoria Geral de Justiça? Em caso positivo, como estabelecer uma estratégia de cooperação que traga efetividade ao Programa Pró-Conselho, benefícios ao Instituto e à empresa Telemig Celular? Como assegurar que esta parceria produza resultados concretos para a população infanto-juvenil do estado?”
O Setor de Telecomunicações e a Telemig Celular
O Setor de Telecomunicações no Brasil
A partir de 1995, com uma abrangente reforma no sistema brasileiro de regulamentação das telecomunicações, deu-se início ao processo de privatização do setor no país (ver maiores detalhes sobre o Brasil nos anexos 2 e 3). Em maio de 1998, o Sistema Telebrás, controlador estatal dos serviços de telecomunicação no país, foi reestruturado, subdividindo-se em 12 novas companhias estatais. Três meses depois, em julho de 1998, estas novas companhias foram vendidas a empresas privadas, as quais iniciaram a operação dos serviços de telefonia fixa, de longa distância e de telefonia celular. A Telemig Celular era uma destas empresas privadas resultantes do processo que erradicou as empresas estatais deste setor.
Os mecanismos de competição e oferta de serviços no setor brasileiro de telefonia eram regulados pela Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL)3, órgão criado pelo governo quando da privatização do Sistema Telebrás. Suas ações e diretrizes tinham impacto direto sobre a evolução do setor e sobre o desempenho das empresas privadas que passaram a constituir esta área de negócios e serviços.
Adicionalmente à influência reguladora da ANATEL, o cenário futuro traçado no ano de 2001 para o setor, em nível nacional, comportava contornos mais desafiadores a serem vencidos, tanto do ponto de vista da expansão prevista do mercado, quanto das restrições impostas pelo contexto interno do país (Anexos 4 e 5).
Havia também dois movimentos concomitantes nesse cenário: o da liberação dos serviços, que se caracterizava pela autorização para as empresas atuarem em outras áreas de concessão4 e o da alteração
societária das empresas, que estava em processo conturbado de consolidação. Vivia-se um momento de incerteza sobre as decisões dos grandes investidores, principalmente os detentores de capital externo, o que não
3 Maiores informações no site: Agência Nacional de Telecomunicações, “Conheça a Anetel”, http://www.anatel.gov.br/conheca_anatel/default.asp, acessado em maio de 2003.
4 A autorização para atuação em outras áreas de concessão se dava com base no Decreto número 2534 de abril de 1998, o qual
permitia afirmar como estaria o controle das empresas no cenário brasileiro em 2 ou 3 anos. No entanto, notava-se o interesnotava-se de grandes operadoras estrangeiras que ainda não atuavam no Brasil, em participar na telefonia celular. O que já se podia observar era a presença de empresas de telefonia em empresas provedoras de serviços de Internet, como por exemplo, Telemar e Brasil Telecom na IG, e Telefonica na Terra, além de investimentos já realizados em atualização tecnológica e parcerias5.
Telemig Celular
A Telemig Celular tinha como estratégia oferecer os melhores serviços de comunicação móvel, através de alianças estratégicas negociais, investindo em tecnologia e no bom relacionamento com seus clientes.
A empresa atuava no estado de Minas Gerais, num mercado de aproximadamente 2,3 milhões de usuários de aparelhos celulares, com market-share de 71% ao final de 2001. Nesse mesmo ano, obteve faturamento de US$ 285 milhões (crescimento de 31% em relação a 2000) e lucro líquido de US$ 30 milhões (crescimento de 131% em relação a 2000), mesmo diante da desvalorização cambial de 20% no ano, a qual exerceu fortes impactos sobre seus custos. No período de 1999 a 2001, a Telemig Celular apresentou uma taxa de crescimento anual de 47% em sua base de clientes e praticou um rigoroso sistema de controle de custos e despesas operacionais. Destacaram-se a política de proteção cambial, que atenuou os impactos da desvalorização cambial verificada em 2001, e o valor da inadimplência, que foi de 3,6% da receita líquida de serviços, considerado baixo para o setor6.
A Telemig Celular teve, em 2001, um crescimento de 21,6% no seu corpo de colaboradores em relação a 2000, passando de 1656 para 2014 funcionários. A participação de mulheres e de portadores de deficiências no total de funcionários da empresa em 2001 era de 56% e 15%, respectivamente. E a participação de funcionários negros aumentou de 27,7% em 2000 para 30,2% em 20017. A empresa vinha passando por constantes mudanças em sua alta administração, decorrentes, em grande parte, do dinamismo do setor8.
No intuito de implementar suas ações sociais, a empresa criou, em 2000, o Instituto Telemig Celular, o qual contava com uma equipe própria e independente. O cenário no país comportava a discussão do papel social do setor de telecomunicações como indutor de inclusão social, na medida em que propiciava à população o acesso à comunicação e, por conseqüência, à integração na sociedade.
5 As informações fornecidas neste parágrafo foram obtidas junto ao site: BNDES - Banco Nac. de Desenv. Econômico e Social, "BNDES: Infra-estrutura", http://www.bndes.gov.br/infraestrutura, acessado em maio de 2003.
6 Dados obtidos no site: Telemig Celular, “Relações com Investidores: Relatórios Anuais",
<http//www.telemigcelular.com.br/Institucional/Relação com Investidores/Relatório Anual 2001/Relatório Anual>, acessado em maio de 2003.
7 Dados obtidos no site: Telemig Celular, Relações com Investidores: Relatórios Anuais", <http//www.telemigcelular.com.br/Institucional/Relação_com_Investidores/Relatório_Anual 2001/Balanço_Social>, acessado em maio de 2003.
8Resultados financeiros e balanços sociais de anos anteriores a 2001 podem ser encontrados no site: Telemig Celular, Relações
Um Novo Direito Para as Crianças e os Adolescentes
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)
O ECA de 1990 foi concebido dentro do espírito da discussão internacional sobre os direitos da população até 18 anos e da Convenção dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes das Nações Unidas, de 1989. O processo de concepção dessa lei federal deu -se ao longo da década de 80 e contou com importantes atores sociais envolvidos com o tema, como, por exemplo, militantes de movimentos sociais das causas da infância e juventude, juristas e integrantes da Igreja Católica. O ECA provocou três importantes transformações no campo dos direitos da infância:
• Mudança de conteúdo: A criança foi concebida como sujeito de direitos exigíveis com base na lei e como pessoa em condição peculiar de desenvolvimento, o que a colocava como detentora de todos os direitos dos adultos e mais os direitos especiais vindos de seu estágio de desenvolvimento.
• Mudança de método: Se toda pessoa teria direito à presunção da inocência, devendo ser defendida antes de ser julgada, às crianças e adolescentes esse direito também foi validado. O ECA introduziu garantias processuais no relacionamento do adolescente com o sistema de administração da justiça juvenil.
• Mudança de Gestão: O ECA introduziu uma nova divisão de responsabilidade entre o Estado, em seus três níveis de governo (federal, estadual e municipal) e a sociedade civil organizada, de modo a garantir os direitos das crianças, mediante ampla participação da população. Essa participação era realizada, genericamente, através dos Conselhos, que detinham atribuições para formular e gerir as políticas para a infância e juventude.
Os Conselhos
De acordo com o ECA, a criação de Conselhos deveria envolver uma ampla gama de atores sociais, uma vez que o espírito dos Conselhos era o da democracia participativa. Para o estabelecimento dos Conselhos, seria necessário elaborar e aprovar a lei municipal da política de atendimento dos direitos da criança e do adolescente. Tal lei permitiria a criação do Conselho municipal, do Fundo da Infância e da Adolescência (Anexo 6) e do Conselho Tutelar. Segundo Antônio Carlos Gomes da Costa, consultor dos direitos da infância, tornava -se necessário que os seguintes aspectos fossem considerados, para que os Conselhos e o Fundo fossem instaurados9:
• Mobilização comunitária: Diversos setores sociais deveriam participar da elaboração do anteprojeto de lei municipal. Fariam parte dessa mobilização os grupos comunitários municipais, formados para tomarem conhecimento do ECA, fazerem o levantamento das necessidades e potencialidades da localidade e estabelecer a definição de prioridades de ação e de atendimento em cada município.
• Adequação dos princípios do ECA à realidade local: Esses grupos comunitários, com representantes do governo e da sociedade civil, discutiriam detalhadamente os assuntos inerentes à criação dos Conselhos.
• Elaboração e aprovação do anteprojeto da Lei Municipal: Uma proposta de lei municipal – que contemplasse os direitos da população infanto-juvenil e os mecanismos para garanti -los – deveria ser elaborada e aprovada pelos grupos. Em seguida, seria encaminhada para apreciação do prefeito, que por sua vez, deveria encaminhá-lo à Câmara dos Vereadores para ser transformado em lei.
Os Conselhos municipais destinados à infância e adolescência eram de dois tipos: CMDCA – Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e CT – Conselho Tutelar (Anexo 7). Os primeiros atuavam na formulação de políticas municipais para a população infanto-juvenil. Para tanto, faziam diagnóstico social, definiam prioridades e destinavam verbas para programas de atendimento. Esses Conselhos contavam com representantes do governo e da sociedade civil, indicados respectivamente pela prefeitura e por organizações locais de atendimento à criança e ao adolescente. Os CTs atuavam diretamente junto à população, atendendo e encaminhando casos de violação de direitos, visitando e fiscalizando entidades de atendimento e orientando os CMDCAs a respeito da destinação dos recursos provenientes do governo e/ou de doações da sociedade civil.
O Cenário da Criação e do Funcionamento dos Conselhos
Havia obstáculos à mobilização comunitária e criação dos Conselhos10. O primeiro deles era a resistência de lideranças político-partidárias locais, incluindo algumas prefeituras. Essas se opunham à implementação dos Conselhos, já que estes órgãos, como instrumentos de representação e participação popular na formulação e execução das políticas públicas municipais, eram temidos como potenciais focos de oposição e de surgimento de novas lideranças. O segundo obstáculo consistia na baixa capacidade de articulação e mobilização das organizações de atendimento infanto-juvenil que atuavam em cada município, o que criava dificuldades para a atuação dos Conselhos.
Adicionalmente a essa necessidade de mobilização popular, havia um órgão do governo – a Procuradoria Geral de Justiça – a quem competia, por lei, exigir a criação de Conselhos e monitorar seu funcionamento. Os prefeitos deveriam ser conscientizados da importância dessas ações, cabendo ao Procurador de Justiça, dar os instrumentos que facilitassem a mobilização comunitária. A Procuradoria poderia utilizar o poder coercitivo quando a prefeitura local não cumprisse com suas obrigações para viabilizar a existência e o funcionamento dos Conselhos.
Os municípios que criavam seus Conselhos deveriam ser orientados também sobre como poderiam ter acesso a recursos financeiros provenientes do orçamento público federal, que deveriam ser empregados em ações que visavam atender crianças e adolescentes em situação de exclusão social. Os Procuradores deveriam também colaborar no processo de mobilização e orientação da comunidade, sensibilizando lideranças políticas e comunitárias e participando da criação de grupos de trabalho em cada município.
Foi especificamente na mudança de gestão da questão pública dos direitos da infância que o programa Pró-Conselho do Instituto Telemig Celular decidiu atuar, estimulando a formação de Pró-Conselhos e orientando sua gestão, assegurando assim a eficiência de seu funcionamento. A aliança entre o Instituto Telemig Celular e os
10 As informações colhidas neste parágrafo estão inseridas na publicação intitulada “Conselhos Municipais e Políticas
Grupos de Apoio de Voluntários foi formada para agir, prioritariamente, na criação e mobilização dos grupos comunitários, articulando o movimento participativo que provocaria a constituição dos Conselhos.
A Aliança entre o Instituto Telemig e o Grupo de Apoio de Voluntários
“O objetivo fundamental do Programa Pró-Conselho é despertar o grande potencial de transformação existente nos Conselhos Tutelares e Conselhos Municipais de Direito da Criança e do Adolescente, instrumentalizando-os para que canalizem toda sua potência e energia na melhoria da qualidade do atendimento às crianças e adolescentes de Minas Gerais”.
Francisco Azevedo – Diretor Executivo do Instituto Telemig Celular11
O Instituto Telemig Celular
A Telemig Celular iniciou sua atuação social voltada para a questão da infância e da adolescência em 1999. Naquele ano, em parceria com o Conselho Estadual de Direitos da Criança e do Adolescente (CEDCA), desenvolveu um manual explicativo sobre os Fundos para a Infância e Adolescência (FIA), para o qual passou a doar 1% de seu Imposto de Renda devido. O contato estabelecido com o CEDCA propiciou à empresa conhecer as principais lideranças comunitárias presentes no estado. Este contato propiciou o surgimento da idéia de se constituir os Grupos de Apoio de Voluntários, como forma de estimular a participação popular e orientá-la no sentido da a criação de Conselhos.
Em setembro de 2000, para fortalecer esta iniciativa, a empresa criou o Instituto Telemig Celular, através de uma iniciativa de Luiz Gonzaga Leal, então presidente da empresa, em conjunto com Francisco Azevedo, que na época era Presidente da Fundação Acesita. A proximidade entre os dois se iniciou quando Francisco, membro brasileiro do Projeto Ação Empresarial e Cidadania12, procurou
Leal, na FIEMG - Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais – onde estava sediado o núcleo mineiro do Projeto Ação Empresarial, para conhecer a atuação social da Telemig Celular. Desse contato resultou um convite para que Francisco constituísse o Instituto Telemig Celular, o qual deveria desenvolver um projeto social que abrangesse toda a extensão geográfica de atendimento da empresa, que consistia em mais de 300 localidades do estado de Minas Gerais.
O Instituto ficou sediado no próprio prédio da empresa, na capital do estado, mantendo-se assim mais próximo da alta administração e dos seus funcionários. Porém, tendo identidade jurídica e administrativa própria, pôde atuar de forma mais próxima à comunidade, tornar as alianças exeqüíveis e captar recursos com maior autonomia e eficácia. Francisco aceitou o convite pelo desafio de desenvolver um projeto com amplitude e complexidade que desafiavam seu espírito empreendedor, ao mesmo tempo em que reforçavam a afinidade de idéias e valores que existia entre ele e Leal.
A participação da alta direção da empresa no Instituto se iniciou através da organização do Conselho Curador, Conselho Fiscal e Diretoria Executiva. O Conselho Curador, constituído por 5 pessoas, das quais 3 eram diretores da Telemig Celular, faria o acompanhamento do Instituto em reuniões trimestrais. O Conselho Fiscal, composto por 3 pessoas. das quais duas eram da empresa, deliberaria destinações orçamentárias para o
11Depoimento presente no catálogo “Pró-Conselho-Instituto Telemig Celular Para o Desenvolvimento Social” emitido em
2001.
Instituto em bases anuais. Por fim, a Diretoria Executiva do Instituto Telemig era composta pelos Diretores de Recursos Humanos, e de Marketing Cultural da empresa e por Francisco Azevedo, dedicado exclusivamente à direção executiva do Instituto. O corpo de funcionários do Instituto era composto pelo diretor, dois gerentes de projetos sociais, um gerente administrativo e uma recepcionista.
No início de 2001 o Instituto Telemig Celular criou o Programa Pró-Conselho, legitimado e reforçado institucionalmente através do apoio do UNICEF13 e do CEDCA, órgãos representativos da luta pela melhoria das condições de vida da população infanto-juvenil brasileira. O Programa Pró-Conselho visava à criação de Pró-Conselhos Municipais e seu fortalecimento, aproveitando a estrutura pública já existente, prevista pelo ECA.
A destinação orçamentária da empresa para o Instituto em 2001 foi de US$ 320.000,00, dos quais US$ 190.000,00 seriam destinados, exclusivamente, aos programas e projetos sociais e US$ 130.000,00 para sua manutenção e funcionamento. Esse valor orçado para o Instituto equivalia a cerca de 0,11% da receita líquida da Telemig Celular no ano de 2001.14
Para viabilizar o Programa Pró-Conselho, o Instituto Telemig Celular constituiu uma aliança com os Grupos de Apoio de Voluntários. O objetivo final do programa era a implantação de CMDCAs e CTs em todos os municípios do Estado de Minas Gerais.
Grupos de Apoio de Voluntários
Os Grupos de Apoio de Voluntários foram formados sob a coordenação do Instituto Telemig Celular em 12 regiões delimitadas de Minas Gerais. Uniram, de um lado, Conselheiros municipais e Tutelares dos municípios que dispunham de Conselhos, e, de outro, voluntários com experiência de trabalho em entidades de atendimento direto a crianças em situação de exclusão ou em instituições focadas no aperfeiçoamento das políticas públicas para a infância e adolescência, como a Pastoral da Criança (Anexo 8). Esses grupos, incentivados e capacitados pelo Instituto Telemig Celular, constituíram-se em instrumento ativo de participação popular no processo de criação de Conselhos nos municípios do Estado de Minas Gerais.
Durante o primeiro quadrimestre de 2001, ocorreu um encontro de capacitação em cada uma das 12 regiões do Estado, reunindo um total de 364 participantes. Estes se comprometeram a apoiar a criação de Conselhos em 415 municípios – os quais representavam 72% dos municípios que não possuíam Conselhos no Estado15.
Em cada um dos grupos criados nas 12 regiões do estado, foi eleito um coordenador voluntário, que atuava na mobilização e coordenação dos grupos junto às prefeituras locais. Em suas atribuições, o coordenador cuidava da logística do trabalho e dos reembolsos de despesas dos voluntários participantes.
Nas palavras de Odete Dan Ribeiro Roldão, membro da Pastoral da Criança e líder de um dos 12 grupos, “a sociedade parece estar desarticulada, crendo que sua capacidade se restringe a demandar.” Entretanto,
13 Fundo das Nações Unidas para a Infância. Site: Fundo das Nações Unidas para a Infância, "UNICEF Home", http://www.unicef.org, acessado em maio de 2003.
14
A título comparativo, a empresa líder do setor bancário investiu 1,38% da receita líquida em 2001. Um grande grupo empresarial atuante no setor de papel e celulose investiu 1,17% da receita líquida em 2001.
“devido ao tamanho e complexidade dos problemas referentes a crianças e adolescentes, a única solução é a articulação entre os setores privado, público e sociedade civil”, ela complementa.
“Os Grupos de Apoio Voluntário fortaleceram a organização e coordenação da sociedade civil, em prol da efetiva participação na criação dos Conselhos Municipais.” A afirmativa é feita por Mery Jane Lamas, outra destacada liderança de um dos Grupos e representante de organizações da sociedade civil: “Os Grupos de Apoio Voluntário se tornaram o meio da sociedade falar de modo mais eficaz e organizado, no que diz respeito à situação da infância e adolescência no estado de Minas Gerais.” Essa forma organizada de participação parece ser mais efetiva na criação dos Conselhos Municipais. Nas palavras de Fernando Silveira Elias, Gerente Social do Instituto Telemig Celular, “os Grupos têm sido importantes instrumentos para um verdadeiro acesso às prefeituras, na busca pela criação dos Conselhos. O poder legal da Procuradoria do Estado isolada não é suficiente para fazer frente a esse desafio.”
No que concerne o ambiente de trabalho dentro dos Grupos, segundo Solange Bottaro, Presidente do Conselho Municipal de Direitos da Criança e Adolescente da cidade de Betim – MG e participante de um dos 12 grupos, esses grupos se tornaram um veículo efetivo para o exercício da democracia participativa:
“Os Grupos de Apoio de Voluntários proporcionam troca de experiências, nos impulsionam e ampliam nossos horizontes de atuação. Quando estamos no dia-a-dia do Conselho Municipal, tendemos a enxergar nosso próprio ‘mundinho’, ao passo que, quando estou no grupo, verifico que não estou sozinha com meus anseios e dificuldades”16.
Evolução da Aliança e seus Desafios
A aliança entre o Instituto Telemig e os Grupos de Apoio de Voluntários viveu 3 fases fundamentais: 1) investimento social para capacitação dos grupos; 2) construção da confiança na relação e 3) atingimento do amadurecimento da aliança.
O Instituto Telemig, ao optar por trabalhar em parceria com um grupo formado por voluntários comprometidos com a causa da infância e da juventude excluídas, investiu prioritariamente na capacitação de seus membros, instrumentalizando-os para desempenharem com eficiência o papel de estimuladores da criação dos Conselhos em cada município. Com essa capacitação, os voluntários desenvolveram uma visão mais ampla da importância dos Conselhos como estrutura essencial para a gestão participativa.
Para construir uma relação de confiança com os Grupos de Apoio de Voluntários, o Instituto Telemig assumiu o papel articulador, procurando conhecer e coordenar os interesses de cada grupo, identificando as necessidades e expectativas dos participantes. A presença constante de gerentes de projetos sociais do Instituto Telemig, promovendo reuniões sistemáticas junto aos Grupos, estabeleceu uma rotina de trabalho conjunto que contribuiu para a construção da confiança ao longo da colaboração intersetorial. Esse processo levou ao amadurecimento da relação, que consistiu na evolução das expectativas dos envolvidos e no questionamento livre e aberto da avaliação dos valores gerados para as organizações aliadas e para o público-alvo da atuação social proposta.
A Geração de Valor na Aliança
A partir da capacitação inicial promovida pelo Instituto Telemig, os grupos foram orientados a sensibilizar as prefeituras locais, para dinamizar o processo de criação dos Conselhos.
Inicialmente, o Instituto Telemig ofereceu competências ligadas à execução de trabalho em equipe. Reuniu os grupos nas 12 regiões do Estado, promovendo a interação dos participantes e provendo cada um deles de uma organização compatível, mediante a eleição de coordenadores e a formalização em atas, das decisões geradas nos encontros.
O Instituto Telemig também agregou competências gerenciais na gestão dos resultados, através de reuniões avaliativas de resultados parciais como, por exemplo, o número de municípios com Conselhos criados e em processo formal de criação, segundo critérios pré-estabelecidos. Um aporte inicial de foco em resultados foi dado no planejamento e execução da Pesquisa “Conhecendo a Realidade”, cujos principais resultados são apresentados a seguir17.
A pesquisa mostra a quantidade de municípios que dispunham de CMDCA e CT, as respectivas populações existentes entre 0 e 17 anos e o Índice de Desenvolvimento Infantil (IDI)18 (Tabela A, a seguir).
Na variação do IDI, entre 0 e 1, o valor 1 era atribuído a um município em que todas as crianças de 0 a 6 anos morassem com os pais, que deveriam ter mais de quatro anos de escolaridade e com pleno acesso a serviços de saúde materno-infantil, creche e pré-escola. Os Municípios do Estado de Minas Gerais que possuíam algum tipo de conselho tinham IDI variando de 0,249 a 0,740, com média de 0,600.
Tabela A – Situaç ão dos Conselhos Tutelares e de Direito no Estado de Minas Gerais em 2001
Município População de 0 a 17 anos
Existência de Conselhos
Quantidade % Quantidade %
IDI
Sim 276 32% 4.653.765 72% 0,595 Não 577 68% 1.849.741 28% 0,466 CMDCA
Total MG 853 100% 6.503.506 100% 0,568 Sim 206 24% 4.347.979 67% 0,604 Não 647 76% 2.155.527 33% 0,465 CT
Total MG 853 100% 6.503.506 100% 0,568
Fonte: Pesquisa Conhecendo a Realidade do Instituto Telemig Celular
Segundo dados do IBGE19, 42% dos municípios do Estado de Minas não possuíam qualquer tipo de
Conselho em atividade. A média nacional era de 25% de municípios desprovidos de qualquer tipo de Conselho para a infância e juventude20. Minas Gerais, que era a terceira força econômica do país, com
Produto Interno Bruto da ordem de US$ 44 bilhões em 2000, equiparava-se aos estados nordestinos
17 A íntegra da Pesquisa Conhecendo a Realidade encontra-se em catálogo emitido pelo Instituto Telemig Celular em
novembro de 2001.
18 Índice criado pelo UNICEF e calculado a partir de indicadores ligados às causas ou problemas que afetavam a
sobrevivência, o crescimento e o desenvolvimento das crianças de 0 a 6 anos: escolaridade dos pais, cobertura de vacinação, existência de atendimento pré-natal e acesso a creches e pré-escolas.
19 Site do IBGE: IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, http://www.ibge.gov.br, acessado em maio de 2003.
20 A título comparativo, os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul possuíam 8% e 28% dos municípios desprovidos de Conselhos,
quanto ao número de Conselhos nos municípios, estados esses reconhecidamente pobres e que ainda não conseguiam garantir à maioria de sua população infanto-juvenil os direitos básicos de alimentação, escolaridade, saúde, conforme prescreve a Constituição brasileira.
Com relação aos Conselhos existentes na ocasião, vale ressaltar que a maioria dos CMDCAs fora criada entre 1990 e 1993, anos seguintes à criação do ECA. No caso dos CTs, o ritmo de criação foi mais homogêneo ao longo da década, apresentando, porém, um pequeno decréscimo em seus últimos quatro anos.
Essa fotografia da realidade permitiu ao Instituto Telemig focalizar as discussões com os Grupos de Apoio de Voluntários, conduzindo a elaboração de uma estratégia participativa para reverter tal situação. Esses grupos, por sua vez, aportaram o conhecimento que detinham sobre as realidades dos municípios, indo além da mera constatação da existência ou não dos Conselhos locais.
Dessa forma, o Instituto Telemig Celular pôde ampliar sua visão sobre a questão, o que lhe conferiu uma maior legitimidade junto à sociedade, além de tornar suas ações mais visíveis nos mais longínquos pontos do Estado, onde também se davam as operações comerciais da empresa Telemig Celular.
A Necessidade de Incorporação da Procuradoria Geral de Justiça
A atuação social do Instituto e a dificuldade encontrada na criação de Conselhos em alguns municípios do estado despertaram nos aliados a idéia de atrair e incorporar na aliança a Procuradoria Geral de Justiça do Estado. Esta detinha responsabilidades legais na criação e fortalecimento dos CMDCAs e CTs. Eventualmente, esse órgão poderia estar executando um plano de ação paralelo ao da aliança com objetivo semelhante. Portanto, havia um potencial de sinergia entre a atuação social da aliança do Instituto Telemig Celular/Grupos de Apoio de Voluntários e a atuação legal da Procuradoria Geral de Justiça, o qual poderia ser intensificado se a parceria fosse redesenhada, agregando as três organizações.
A Procuradoria Geral da Justiça subdividia-se de acordo com suas distintas atuações; dentre elas, a Promotoria da Infância e Juventude, cuja designação era promover o exato cumprimento do ECA. De acordo com o estatuto, o Promotor da Infância e Juventude atuaria como proponente e fiscal da lei, com as atribuições de:
• Fiscalização do cumprimento da lei na garantia dos direitos das crianças e adolescentes
• Fiscalização do processo de escolha dos representantes dos Conselhos Tutelares.
• Contato com os representantes do Poder Executivo, de programas de atendimento e da sociedade civil organizada para o perfeito desempenho de suas funções.
• Cobrança do poder público quanto à implementação e manutenção dos programas ligados às políticas sociais básicas.
• Oferecimento de representação administrativa em qualquer situação de transgressão às normas previstas no ECA, como por exemplo, contra o jornal que publicasse fotografias de adolescentes infratores, contra os pais que estivessem sendo omissos em relação a seus deveres etc.
Como decorrência do modelo de democracia participativa previsto pelo ECA na área dos direitos da criança e do adolescente, estabeleceram-se diretrizes para a transferência da responsabilidade da atuação nesta área para os municípios (art. 88 do ECA – Anexo 9).
aos CTs, a Procuradoria deveria agir para que eles fossem criados, colaborando também para garantir que o processo eletivo ocorresse democraticamente. Também era do interesse dos promotores que os CTs tivessem desempenho eficiente e efetivo, pois eram seus parceiros naturais na defesa de causas judiciais.
A situação da Procuradoria Geral de Justiça em 2001 em Minas Gerais era precária, refletindo a realidade nacional de u ma demanda superior à estrutura pública. Havia 280 promotores responsáveis pelos 853 municípios do estado. Em diversas localidades, o promotor não era responsável apenas pela área da Infância e Adolescência, mas acumulava funções relacionadas a outras áreas, tais como Cível, Familiar e Criminal. Este fato, juntamente com a escassez de CTs, dificultava a priorização dos problemas da criança e do adolescente na rotina de trabalho do promotor.
Uma aliança entre o Instituto Telemig Celular e a Procuradoria Geral de Justiça no âmbito do Programa Pró-Conselho justificava-se porque os promotores, fazendo uso de suas atribuições legítimas, poderiam:
• Garantir que os Conselhos fossem criados.
• Exercer pressão legal junto às prefeituras para a criação dos Conselhos e dos Fundos de Direitos da Criança e do Adolescente.
• Apoiar a mobilização e participação da comunidade na elaboração e desenvolvimento de políticas para a infância e juventude adequadas a cada localidade.
Some-se a isso uma importante característica do trabalho dos promotores – estão distribuídos pelos municípios do Estado, funcionando de modo capilar e descentralizado, o que permite que realizem essas atribuições de forma eficiente em cada localidade e abrangendo todo o território estadual.
Para a Procuradoria Geral de Justiça, a participação na aliança poderia propiciar dividendos positivos de imagem e divulgação, os quais poderiam facilitar a criação dos Conselhos nos municípios.
Contudo, essa composição de aliança enfrentaria evidentes diferenças culturais, cuja administração poderia ser complexa. O setor público – com sua cultura advinda do modelo da burocracia estatal - e o privado - com sua visão focada em resultados, priorizando a objetividade e lucratividade dos acionistas – iriam constituir um quadro para seus gestores. A promessa de resultados positivos, inclusive de profundas transformações sociais era muito atraente, mas a aliança trisetorial era também uma parceria de grande complexidade.
Rumo a uma Possível Transformação da Realidade
Em meio à preparação para a reunião decisiva, Francisco Azevedo perguntava -se se deveria ou não defender com entusiasmo a formação da aliança com a Procuradoria Geral de Justiça. De um lado, concordava com a opinião do Procurador Geral de Justiça – José Ronald Vasconcelos de Albergaria:
“Os Conselhos são instâncias em que o cidadão participa oficialmente da formulação da política de atendimento e do controle de suas ações, o que, aliás, é peculiar ao Estado Democrático de Direito”.
Por outro lado, nada poderia garantir o sucesso dessa possível aliança trisetorial. Francisco não encontrava resposta convincente para o questionamento mais provocativo de um dos diretores: “e se, para o próximo governo, os Conselhos da Infância não forem prioritários? O projeto do Instituto Telemig perderá sua força e visibilidade? E se a Procuradoria fizer exigências que não estão contempladas em nossa linha de atuação social? E se o ritmo de trabalho do setor público for muito lento para gerar os resultados desejados pelo Instituto Telemig? E se a estratégia de aproximação com a Procuradoria fracassar ?”
Anexo 1 Composição acionária da empresa Telemig Celular
(1) Fundações:
PREVI – Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil – 28%
SISTEL – Fundação SISTEL Seguridade Social – 10%
PETROS – Fundação PETROBRAS de Seguridade Social – 5,5%
TELOS – Fundação EMBRATEL de Seguridade Social – 3,5%
Fonte: Telemig Celular, "Composição acionária da empresa Telemig Celular", http://www.telemigholding.com.br/telemig/portugues/interna_telemig.asp?language=portugues&dst=ri_composicao_acionaria .htm , acessado em maio de 2003.
Opportunity S/A
53%
Fundações (1)
47%
Newtel Participações
51%
TIW do Brasil
49%
Telpart Participações
19%
Público
81%
Telemig Celular Participações
83%
Público
17%
Anexo 2 Brasil: Características gerais em 2001
O Brasil abrange uma área de mais de 8,5 milhões de km2. Maior país da América do Sul, faz fronteira com
dez países e possui um litoral extenso. A maior parte da região Norte fica na bacia Amazônica. A colonização do Brasil começou em 1532. É o único país da América do Sul inicialmente estabelecido como colônia portuguesa. A população é de aproximadamente 170 milhões de pessoas.
Região Norte: A região Norte do Brasil é a maior em extensão, com aproximadamente 3,5 milhões de km2.
Corresponde a mais de 42% do território nacional. A principal característica da região é o grande volume de água, que faz do Amazonas a maior bacia hidrográfica do mundo. A região engloba 7 estados e sua população representa em torno de 5% da população total do país.
Região Centro-Oeste: A região Centro-Oeste do Brasil fica no Planalto Central Brasileiro. A região engloba 3 estados e sua população representa em torno de 8% da população total do país.
Região Nordeste: A região Nordeste pode ser considerada a mais heterogênea do país. Divide-se em quatro grandes zonas: o meio-norte (envolve os estados do Maranhão e Piauí), a zona da mata (localiza-se próximo do litoral e se estende desde o Rio Grande do Norte até a Bahia), o agreste (faixa de transição entre a zona da mata e o sertão), e o sertão nordestino (marcado por chuvas esparsas e secas periódicas). A região engloba 9 estados e sua população representa em torno de 30% da população total do país.
Região Sudeste: A região Sudeste do Brasil é a mais importante economicamente, pois reúne os Estados de maior população e produção industrial. A região engloba 4 estados (São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo) e sua população representa em torno de 43% da população total do país.
Região Sul: Nesta região, há predominância de clima subtropical, com culturas regionais influenciadas por imigrantes europeus. A região engloba 3 estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná - e sua população corresponde a cerca de 15% da população total do país.
Anexo 3 Dados comparativos de IDH e indicadores macro-econômicos
Tabela A Comparativo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) (1)
IDH 1990 1995 2000
Brasil 0,713 0,737 0,757 Argentina 0,808 0,83 0,844 México 0,761 0,774 0,796 Chile 0,782 0,811 0,831 Estados Unidos 0,914 0,925 0,939
Fonte: http://www.undp.org.br/IDHM-BR%20Atlas%20Webpage/Textos_IDH/var_idh_2002_ranking_paises.pdf
Tabela B Comparativo - Indicadores Macro-Econômicos
PIB per capita
(2000) (1)
Desemprego (%PEA-IBGE-2001) (2) (3)
Inflação (INPC-IBGE-2001) (2) (3)
Brasil 7.625,00 6,20% 10,40%
Argentina 12.377,00 18,30% -1,54%
México 9.023,00 2,20% 8,90%
Chile 9.417,00 9,20% 4,50%
Estados Unidos 34.142,00 4,80% 2,80%
Fonte: (1) UNDP - PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO, "Indicadores do Desenvolvimento Humano", http://www.undp.org.br/IDHM-BR%20Atlas%20Webpage/Textos_IDH/var_idh_2002_ranking_paises. pdf , acessado em maio de 2003.
(2) GLOBAL INVEST - Orientação Financeira, http://www.globalinvest.com.br/relatórios/EUA%2012-02.pdf, acessado em maio de 2003.
Anexo 4 Análise e Cenários do Setor de Telecomunicações
Na virada do século XXI,a tecnologia presente no setor de telecomunicações estava focada na digitalização
da informação, integrando a Internet, dados veiculados em alta velocidade e a multimídia. Nesse contexto, a Telemig Celular oferecia ao mercado a linha de aparelhos celulares com padrão tecnológico de sistema digital, que permitia a utilização de aparelhos com a voz transmitida de forma digital e codificada, com um maior número de funções e sistemas pré-pagos, dentre outros serviços. A empresa tinha como estratégia rumar para a oferta da chamada terceira geração de celulares, a qual compatibilizaria, em um único aparelho celular, som, imagem e informação. Essa integração levaria a um maior número de alianças negociais entre operadoras, empresas de aplicações de Internet e provedores de conteúdo.
Em meio ao processo de privatização, ocorria o fenômeno da globalização que, também no setor de telecomunicações, gerava a concentração dos serviços em grandes conglomerados mundiais. A partir de 2000, surgiram sinais de que os resultados alcançados pelas telecomunicações não seriam sempre crescentes: a oscilação das
ações das empresas de comércio eletrônico da NASDAQ e evidências concretas de perda dos resultados financeiros de
grandes operadoras de telecomunicações internacionais. As explicações comuns eram: excesso de investimentos, as tecnologias WLL (acesso local via rádio) e WAP (Internet no aparelho celular) não tiveram o sucesso esperado, cabos ópticos proliferaram sem que o acesso de banda larga tivesse alcançado o nível esperado.
Destacam-se os seguintes acontecimentos na seqüência: a série de fraudes contábeis em grandes corporações
internacionais, iniciada com o escândalo da Enron ao final de 2001, a fraude contábil da ordem de US$ 3,8 bilhões na
WorldCom, controladora da EMBRATEL, e a confirmação de que promotores federais americanos investigavam a
contabilidade da Qwest, quarta maior operadora de telefonia local dos Estados Unidos. Estes acontecimentos
configuravam um cenário turbulento e de reavaliação do crescimento do setor de telecomunicações, em que pese a alta demanda por telecomunicações no mundo, refletida nos seguintes dados21:
70% da população mundial vivia em áreas rurais e remotas, sem telecomunicações;
33% das pessoas no mundo nunca haviam feito sequer uma chamada telefônica;
Apenas 10% da população mundial eram atingidas pelas informações que transitavam pela Internet.
O volume de telefones fixos e móveis (em número de telefones/100 habitantes) era o seguinte: nos países desenvolvidos, havia um índice de 121 telefones/100 habitantes; nos países emergentes, o índice era de 19 telefones/100 habitantes e nos países menos desenvolvidos, caía para cerca de 1 telefone/100 habitantes.
Segundo estudo da IDC (International Data Corporation) feito em 2001, denominado Brazil Wireless Market
Sizing, o mercado brasileiro de telefonia celular deveria apresentar um crescimento médio anual de 14%, nos 5
anos seguintes. Em 2006, a base deveria chegar a 54 milhões de usuários, com um índice de penetração de 30%. Em 2001, o país tinha 29 milhões de assinantes.
O Brasil era o país com a mais alta taxa de tributação sobre serviços de telecomunicações no mundo. O modelo de taxação chegava a onerar em 40% o custo dos serviços que eram desembolsados pelo usuário, ao quitar sua conta telefônica. O segundo país com maior nível de taxação sobre telecomunicações era a Holanda, com 24%, seguida da Argentina (21%), China (17%), Itália (9%) e EUA (3%)22.
Como outra característica fundamental, o Brasil, a exemplo dos Estados Unidos, possuía um Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST), que contava, em 2001, com um caixa de US$ 760 milhões, sendo disputado por projetos diversos. A prioridade do Ministério das Comunicações era aplicar o FUST em programas de subsídio à telefonia para classes mais baixas e em programas de disseminação da Internet nas escolas.
21 Dados do artigo “O Modelo sob Pressão” de J.C. Fonseca, disponível no site Associação Brasileira de Telecomunicações, http://www.telebrasil.org.br, consultado em ago /2002.
Anexo 5 Receitas anuais e investimentos das empresas do setor de telecomunicações no mundo
Previsão de receitas
0 200 400 600 800 1000 1200 1400
1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002
US$ bi
TOTAL MÓVEL TELEFONIA FIXA EQUIPAMENTOS OUTRAS
Investimentos
0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200
1988 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004
US$ bilhões
Anexo 6 Fundos para a Infância e Adolescência (FIA)
Como suporte à proteção integral, o ECA previa a manutenção, em estados e municípios do país, de Fundos para a Infância e Adolescência, criados por legislação específica. O objetivo desses fundos era aportar recursos que facilitassem e ampliassem as ações dos Conselhos Municipais de Direitos da Criança e do Adolescente.
O ECA, em seu artigo 260, determinava que os contribuintes do Imposto de Renda – pessoas físicas e jurídicas – poderiam deduzir do imposto devido na declaração anual de ajuste, o total das doações feitas aos fundos de direitos. Estabelecia, assim, uma renúncia fiscal, a qual seria utilizada como mecanismo de financiamento de programas e ações em benefício de crianças e adolescentes. Empresas que declarassem Imposto de Renda pelo lucro real poderiam fazer uso dessa renúncia fiscal, podendo motivar seus funcionários a fazerem o mesmo, criando as condições para que eles também se engajassem nesse exercício de cidadania.
Anexo 7 Atribuições dos Conselhos
Conselhos dos Direitos da Criança e do Adolescente
Os CMDCAs eram órgãos do Poder Executivo Municipal, atuando na esfera decisória com caráter deliberativo. Sugeria-se que o CMDCA tivesse o seu mandato coincidente com o do prefeito (4 anos) ou, no mínimo, mandato de 2 anos, admitindo-se uma única recondução.
O CMDCA tinha as seguintes características e atribuições:
• Ser formado paritariamente por membros do Governo Municipal indicados pelo prefeito e membros da
sociedade civil, indicados por suas organizações representativas;
• Participar ativamente da construção de uma Política Municipal de Proteção Integral para Crianças e
Adolescentes, mantendo um Sistema Municipal de Atendimento que articulasse e integrasse todos os recursos municipais;
• Participar ativamente da elaboração da Lei Orçamentária do município;
• Administrar o Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (destinado a financiar a
criação de um Sistema Municipal de Atendimento), atividades de formação de conselheiros e de comunicação com a sociedade;
• Controlar a execução de políticas de proteção, tomando providências administrativas e acionando o
Ministério Público, caso necessário;
• Estabelecer normas, orientar e proceder ao registro das entidades governamentais e não-governamentais
de atendimento a crianças e adolescentes, comunicando o registro ao Conselho Tutelar e à autoridade judiciária;
• Acompanhar e estudar as demandas municipais de atendimento;
Conselhos Tutelares
Os CTs eram órgãos autônomos e compostos por cinco membros, escolhidos pela comunidade local para mandato de três anos. Era função do Município aparelhar o CT com vistas a possibilitar a solução das demandas a ele direcionadas. Caso necessitasse do auxílio do promotor de Justiça, o CT encaminharia o caso à Procuradoria Geral de Justiça para análise e providências. Os principais objetivos dos CTs eram reduzir os índices de absenteísmo e evasão escolar e minimizar ou impedir, através de diversas ações, os malefícios decorrentes de maus tratos, abuso sexual, exploração de mão-de-obra, negligência ou abandono de criança ou adolescente por parte dos responsáveis legais, do Poder Público ou de terceiros.
As principais atribuições do Conselho Tutelar eram:
• Atender crianças e adolescentes cujos direitos pudessem estar sendo violados, por ação ou omissão da
sociedade, do Estado, dos pais ou responsável ou em razão de sua conduta, aplicando as medidas de proteção integral cabíveis;
• Atender e aconselhar os pais ou responsáveis;
• Encaminhar ao Ministério Público denúncia que constituía infração administrativa ou penal contra os
direitos da criança e do adolescente;
• Tomar providências para que fossem cumpridas as medidas aplicadas pela Justiça a adolescentes
infratores;
• Requisitar certidões de nascimento e de óbito de crianças ou de adolescentes;
• Assessorar o Poder Executivo local na elaboração da Proposta Orçamentária;
Anexo 8 Entidades com representantes participantes dos Grupos de Apoio de Voluntários
ANDI: Agência de Notícias dos Direitos das Crianças. Associação civil de direito privado sem fins lucrativos, cuja missão era contribuir para a construção, nos meios de comunicação, de uma cultura que priorizasse a promoção e defesa dos direitos da criança e do adolescente. Foi fundada em 1992. Endereço eletrônico: http://www.andi.org.br
VISÃO MUNDIAL: Organização Não -Governamental cristã fundada em 1950 pelo jornalista Bob Pierce. Seu objetivo era atender as crianças vítimas da guerra na Coréia. A Visão Mundial estava presente em mais de 90 países. No Brasil, chegou em 1975 trazendo na bagagem o ideal de transformação. Priorizando o trabalho com os mais pobres, a instituição concentrava suas ações no Nordeste brasileiro, em Tocantins, no Norte de Minas Gerais, no Amazonas e em grandes centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Endereço eletrônico: http://www.visaomundial.org.br
PASTORAL DA CRIANÇA: Criada em 1983 pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), era uma organização que tinha como centro a criança, em seu contexto familiar e comunitário. Possuía uma metodologia que formava redes de solidariedade humana para multiplicar conhecimento, saber e fraternidade. Em 2001, foi indicada para o Premio Nobel da Paz. Endereço eletrônico: http://www.pastoraldacriança.org.br
FUNDO CRISTÃO PARA CRIANÇAS: Criado nos Estados Unidos em setembro de 1938 para socorrer as vítimas da guerra sino-japonesa, teve sua atuação expandida mundialmente. Iniciou suas atividades no Brasil em 1966. Em 2001, através dos escritórios regionais de Belo Horizonte e Fortaleza, apoiava técnica e financeiramente entidades que desenvolvessem programas de atendimento a crianças, adolescentes e suas famílias, em associações comunitárias urbanas e rurais, creches, escolas e centros de serviços. Endereço eletrônico: http://www.fcc-brasil.org.br
Anexo 9 Íntegra do artigo 88 do estatuto da criança e do adolescente (ECA)
Art. 88 - São diretrizes da política de atendimento: I - municipalização do atendimento;
II - criação de conselhos municipais, estaduais e nacional dos direitos da criança e do adolescente, órgãos deliberativos e controladores das ações em todos os níveis, assegurada a participação popular paritária por meio de organizações representativas, segundo leis federal, estaduais e municipais;
III - criação e manutenção de programas específicos, observada a descentralização político-administrativa;
IV - manutenção de fundos nacional, estaduais e municipais vinculados aos respectivos conselhos dos direitos da criança e do adolescente;
V - integração operacional de órgãos do Judiciário, Ministério Público, Defensoria, Segurança Pública e Assistência Social, preferencialmente em um mesmo local, para efeito de agilização do atendimento inicial a adolescente a quem se atribua autoria de ato infracional;