o
COMUNICADOR SOCIAL E O NORDESTE
Jeová Franklin de Queiroz (*)INTRODUÇÃO
Há quase três décadas o Nordeste vem sendo objeto sis-temático de planos e programas de desenvolvimento elabora-dos com o objetivo declarado de promover a superação de seu atraso econômico e social. Historicamente tido como região proorerna, o Nordeste se apresenta hoje, depois de tantos pia-nos e programas, marcado pelo agravamento de seus desequi-Iíbrios sociais.
As graves injustiças sociais que marcam a região se apresentam como desafio para cientistas e profissionais preo-cupados com o presente e futuro do País. Desafio, principal-mente para nós, o comunicador social nordestino envolvido no esforço de se promover o desenvolvimento da área de maior extensão da pobreza absoluta do Brasil.
Esse desafio está expresso, por exemplo, na persistência do estado de fome crônica em grandes parcelas da popula-ção e na ampliapopula-ção de áreas recordistas mundiais em índices de mortalidade infantil e que estão a exigir do comunicador social nordestino uma reavaliação de seu papel
e
de sua res-ponsabilidade frenteao
estado de marginalidadea
que estão submetidos milhões de nordestinos.2 - DUAS INDAGAÇÕES
Numa análise, mesmo superficial, da atuação do comu-nicador social junto aos planos e programas de desenvolvi-mento regional, duas questões se impõem:
(*) Mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília. Do Banco do Nordeste do Brasil.
- que papel coube ao comunicador social no es-forço de superação de uma realidade rotulada de 'situação intolerável' por diferentes gove r-nos e regimes, na qual se vê comprometido todo o futuro da região ao se ter como vítima principal a população infantil?
- que responsabilidade teve o comunicador so-cial com agravamento das injustiças sociais que levaram, inclusive, a CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - a denunciar, depois de levantamento efetuado de paróquia em paróquia, a existência de um "genocídio nor -destino"?
Qualquer que seja a resposta, a posição do comunicador nordestino de maneira alguma se mostra confortável, princi-palmente quando se tem em mente a advertência feita pelo comunicador e cientista social Juan Diaz Bordenave (1976) de que os profissionais da comunicação" ... devem demonstrar, mediante sua filosofia, seu comportamento ético e sua com-petência profissional, que a comunicação tem uma grande con-tribuição a fazer para um desenvolvimento que beneficie a to-dos com a participação de todos."
Com a verificação de que, nas últimas décadas, tem-se agravado no Nordeste o problema da concentração do terras e de renda (causas determinantes do empobrecimento da popu-[ação e da evolução dos índices de mortalidade infantil) torna-se emergente outra indagação:
- que contribuição prestou
o
comunlcador so-cial em favor de um desenvolvimento regio-nal que beneficiasse atodos e que fosse con-seguido coma
participação de todos? Em reforço dessa indagação que põe em xeque o nosso posicionamento, como comunicador social, frente a uma reali -dade brutal, abrimos espaço para uma outra citação. Dosta vez, do comunicador e educador brasileiro p.ulo Freira (1973):"Se minha opção
é
a manutenção do status da realidade em que estou, evidentemente não realizo um processo de conscientização.Por
é
m,
so minha opçãoé
a transformação descobri já que, om pri-meiro lugar, o homem histórica e ontologicamente nãoé
um ser para a adaptação mas sim para a trans -28 R. Com. Social, Fortaleza, 16(1-2): jan.Zdcz. 1986formação. Se minha convicção é de que para huma-nlzar tenho que transformar a realidade em que não sou, então o processo de conscientização tem que se encarregar da organização dos homens para trans-formar a realidade desurnanlzante.'
Não será muito fácil encontrar uma resposta favorável, diante dessas indagações e colocações, à atuação do comuni-cador social nordestino. Em sua defesa, porém, deve-se levar em conta que o Nordeste é essencialmente um problema polí-tico e que as decisões de Governo e as políticas de planeja-mento orientadoras da elaboração e execução dos planos e programas de desenvolvimento regional reservaram pouquís-simo espaço para uma efetiva prática de comunicação social, vista por vários cientistas sociais latino-americanos e sinteti-zada pelo comunicador equatoriano Luiz Proaiío como "um processo de interação e mútua informação entre os centros de planejamento e decisões governamentais e a população." 3 - PLANEJAMENTO
VERTICAL
Frutos de políticas de planejamento vertical e centrall-zador, tais planos e programas de desenvolvimento regional, apesar de envolverem obras e ações que afetavam às vezes até drasticamente a vida de populações inteiras, nenhuma im-portância atribuíram ao diálogo e interação mais estreita com as populações envolvidas, assim como pouca ou nenhuma possibilidade abriram para a prática da comunicação social fundamentada na busca contínua de identificação das necessl-dades e exigências de toda a população.
No planejamento e execução dos planos e programas, quan-do se previa o envolvimento do comunicador social, este era convocado para o exercício do papel mágico de construtor de imagem institucional favorável (para a agência de desenvolvi-mento) que servisse de apoio e de legitimação dos objetivos e atividades planejadas.
Desprevinido o comunicador social assumiu o'llapel má-gico, confiante na ilusão de que, através dos meios de difu-são em massa de informações (imprensa e meios eletrônicos: rádio e televisão), fosse ele capaz de formar realidades para-lelas (imagens favoráveis) muitas vezes dissoci.adas do coti-diano vivido pelas populações.
Ao reagir a essa situação, o comunicador social se via tolhido por uma filosofia e prática de planejamento vertical, centralizado e alienado do contexto social, o qual, logicamen-te, não poderia admitir uma prática de comunicação social conflitante com seu posicionamento.
Esse tipo de planejamento, comum a praticamente todos os países da América Latina, parte do princípio, ainda segundo o comunicador Luiz Proafio, de que os meios coleltivos de co-municação são suficientes para motivar a população a aceitar planos, programas e projetos elabobrados pelos planejadores. Afirma o comunicador equatoriano que a comunicação fechada dentro de organismo planificador e desligada da população fa-cilmente se converte em propaganda e manipulação.
A esse respeito adverte também Bordenave:
"De fato, raros são os países em desenvolvi-mento em Que foi adotada uma política de comuni-cação social que estimulasse a consciência crítica, a autonomia de pensamento e a participação ativa dos cidadãos na formulação das políticas dos or-ganismos oficiais. Utiliza-se em geral comunicação social para 'vender' os programas determinados pelos técnicos, isto é, para conseguir a aceitação dos projetos já decididos sem maior diálogo com a população."
Envolvidos pela visão mítica e mitificadora, os órgãos e instituições responsáveis pela promoção do desenvolvimento nordestino se destacam, em sua maioria, pela sofisticação e complexidade das estruturas montadas para a produção e di-fusão em massa de informações.
4 - VANTAGENS APARENTES
Ambos, agência de desenvolvimento e comunicador so-cial, acabam seduzidos por vantagens imediatas consideráveis. Uma das mais sedutoras é o posicionamento diante da reali-dade social. A crença no poder mágico dos meios de difusão em massa de informações coloca-os na cômoda posição de sujeito (nunca de objeto) da dinâmica social, de modo que resta
à
sociedade desempenhar o papel de objeto (nunca de sujeito) do processo de desenvolvimento. Depois de se sub-meter ao papel passivo de objeto a sociedade ainda tem de30
R. Com. Social, Fortaleza, 16 (1-2): jan./dez. 1986R. Com. Social, Fortaleza, 16 (1-2): jan./dez. 1986
31
prestar apoio, recursos, legitimação e oprrnao favorável para o atingimento dos objetivos fixados pelos planejadores.Além da sensação de controle da realidade, o sistema di-fusor de informações traz para a agência de desenvolvimento lima economia considerável de recursos, decorrente de inves-timentos e despesas não realizados na instalação e funciona-mento de canais de informação no sentido comunidade/cen-tros elaboradores e executores dos planos e programas de desenvolvimento.
Traz também maior comodidarle administrativa e oeren-cial, com a posslblllrlade de se apresentarem índices dA rie-semoenho e efíclêncla através dos sempre sedutores qráflcns e quadros estatísticos, com a medição de espaços ocunaríos nos veículos impressos [lornals e revistas) e nos meios ele-trônlcos (rádio e televisão).
Nâo é rara a apresentacão de relatórios mostrando-se a
evolucão
da imanem lns+ituclonalfavorável
através daouan-tiflcacão de centímetros/coluna de noticiários 'conauistados' pela agência de desenvolvimento nos jornais, 'graças aos es-forces do comunicador social'. Tudo, como se as atividarles de interesse público, como são naturalmente as de uma
anên-ela de desenvolvimento, precisassem de favores para ganhar a atencão da imprensa.Beneficiários da privilegiada noslcão de manlnuladores ria realidade, o nlanelador. o comunlcador e a aqência de desen-volvlrnento não vêem necessidade de manter mecanismos rle crítica da realidade. Para que, se esta é vista como passível de ser condicionada pela produção e difusão em massa de in-formações?
Mas, aí é que reside o periqo. Isolada das pressões da população, a agência de desenvolvimento passa a orientar suas ações com base em critérios definidos por pressões internas e por pressões de pequenos grupos detentores de poder polí-tico e econômico. E o comunicador social, consciente ou não, passa a atuar como agente reforçador de privilégios e de inte-resses das classes dominantes em prejuízo do atendimento das necessidades e exigências da realidade nordestina.
Nesse quadro geral de distorções de papéis e funções com relação ao Nordeste, pode-se considerar, num posiclona-mento menos crítico, que o comunicador social desempenha aí
mais um papel de vítima do que de cúmplice da política
vertical e centralizada de planejamento até agora posta em prática nos planos e programas de desenvolvimento regional.
realidade está colocando a agência de desenvolvimento num processo de distanciamento da população. Ou em linguagem mais clara, a uma situação de marginal idade social, geradora de desequilíbrios sociais de maior dimensão.
Num esforço de reavaliação do papel e da responsabibli-dade social do comunicador nordestino, não se deve deixar de ter em mente a advertência de Whiting. Ele diz simplesmente Que a produção e distribuição de informações nos programas de desenvolvimento também estão sujeitas à lei, ainda não re-vogada, da oferta e da procura.
5 - A COMUNICAÇÃO COMO SISTEMA
Para melhor entender a colocacão de WhitinÇl. nodernos situar as atividades de comunicacão social da
aoêncla
ne
desenvolvimento como parte de um processo desempenhado por um pequeno sistema social. Um sistema lnteorante de sis-temas maiores (agência e qoverno] que atuam dentro de um contexto social comum (meio ambiente) Queé
a comunidade norrlestlna. Esta. por sua vez, parte de um macrossistema, a so-ciedade brasileira.Aí, abrimos espaço para um pouco de teoria.
Nos sistemas de comunicação social, a informação assu-me um papel bidimensional. Na primeira dimensão, comum a tonos os sistemas sociais, ela
é
operada como eneraie sim-bólica, nos mesmos moldes em que a enerola físlco-químtcaé
onerada pelos sistemas menos comolexos (mecânicos e hio-lónlcos). Na dimensão de energia simbólir.a. o fluxo dAínfor-rnacões
determina 0S limites e define a estruturaorganizacio-nal do sistema.
A informação, na condição de energia simbólica, permite ao sistema de comunicação social desenvolver o processo adap-tativo interno e cria condições para que a ação externa do sis-tema seja dirigida de forma consciente e intencional.
Na segunda dimensão, a que mais interessa ao comunica-dor, a informação
é
processada como insumo-produto, sem in-fluir diretamente na estrutura e dinâmica interna do sistema de comunicacão social. A informacão comoinsumo-oroduto
é
processada para atender não a necessidades específicas e in-ternas do sistema, como acontece com a energia simbólica, mas para atender às necessidades e exigências do meio am-biente (comunidade) na condição de produto esperado do sis-tema.Os sistemas de difusão de informações são uma defor-mação do sistema de comunicação social. Eles também proces-sam a informação como
insumo-produto,
mas o fazem sem le-var em conta a lei da oferta e da procura, deixando-se de ori-entar pelas necessidades e exigências do contexto social.A busca de conhecimento da realidade nos sistemas de difusão, quando acontece, é uma ação posterior
à
produção e se limita basicamente a medir alguns efeitos (ou repercussão) no meio ambiente.Já no efetivo sistema de comunicação social, o processa-mento da informação como insumo-produto (producão de men-sagens) é orientada pela contínua crítica da realidade, abrin-do-se espaços para que ambos os elementos da interação co-municativa (sistema e contexto social) atuem simultaneamen-te como emissores e receptores de mensagens.
~ através dos mecanismos de crítica da realidade que são estabelecidos canais para o fluxo de informações do meio ambiente para o sistema, a partir do qual, em resposta, é ori-entado o fluxo de informações do sistema para o meio am-biente.
O efetivo sistema de comunicacão social ao mesmo tem-po em que se integra (em vez de se marginalizarl
à
comuni-dade, através da troca contínua de informações (diálogo) e do esforco de atendimento das necessidadese
exigências lden-tificadas, proporciona, por extensão, maior integração também dos sistemas maiores (agência de desenvolvimento e Gover-no) com o contexto social a que eles têm por objetivo decla-rado servir.Esses princípios teóricos estão mais detalhados e debati-dos no trabalho "UM ESTUDO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL NO SERVICO PÚBLICO BRASILEIRO", tese de mestrado defendida em 1977 na Universidade de Brasília, pelo autor.
6 - AÇÃO-RESPOSTA
O respeito
à
"lei da oferta e da procura" na produção de mensagens dá ao comunicador social a possibilidade de subs-tituir objetivos abrangentes e quiméricos por objetivos espe-cíficos e factíveis, definidos a partir do conhecimento e crí-tica da realidade com a qual se pretende atuar. A produção de mensagens funcionará como ação-resposta a necessidades e exigências identificadas.Para o comunicador a interação com a realidade social deve anteceder até mesmo a fixação dos objetivos do sistema e, conseqüentemente, ao desenvolvimento da produção de men-saqens. Ouvir sempre antes de falar.
· -Corn
base na interação mais estreita com apopulação.
os objetivos e metas fixados, em vez de se orientarem por interes-ses particulares e de pequenos grupos (classes dominantes), procurarão atender aos compromissos que os sistemas maiores (Governo e agência de desenvolvimento) declaram ter para com' a sociedade.Outro aspecto a relevar é oue os objetivos e metas fixados com base na crítica da realidade perderão o caráter de objeti-vos fixos e imutáveis. Por estarem orientados nelo acomnanha-mente contínuo da realidade dinâmica, serão também objetivos e metas mutantes em estado e natureza.
: Daí se conclui que se,os sistemas de comunicação social não dispuseram de aparelhos sensórios capazes de acompa-nhar as mutações ambientais, eles se tornarão simples siste-mas de difusão, sujeitos a um crescente distanciamento da realidade social.
, Para o comunicador social a 'lei da oferta e da procura'
Implicará
também na revisão do privilégio tradicionalmente dado aos meios modernos eà
imprensa, partindo-se para a programação de veículos menos dispersivos. como instrumen-tos básicos ou de reforço na interação e diálogo com apopu-lação.
Com isso ganharão nova dimensão os meios n50 moder-nos, como os contatos pessoais, encontros coletivos (palestras, grupos de debate, cursos e seminários). cartazes (artesanais, se for o caso), jornais murais e comunitários.
Se a imprensa e os meios eletrônicos (rádio e televisão)
f
à
cllltarn
o contato com o que está' distante, trazendo fatos diários da Itália e Japão, por exemplo, para dentro de nossas casas, eles agem também no sentido inverso, afastando-nos do que está acontecendo nos limites da paróquia. O comuni-cador não pode esquecer de que é nos limites da paróquia que se localizam- os problemas fundamentais de interação da ágência de desenvolvimento com o público que ela tem porobjetivo servir. '
A esse respeito convém recordar que Everett M. Rogers (1974) lamenta a freqüência com que os planejadores se esque-cem de incluir em seus planos a programação dos meios tra-dicionais, apesar do potencial por eles oferecido como instru-mentos de promoção do progresso econômico e social.
Ele admite, inclusive, que o privilégio dado aos meios modernos de difusão de informações pode estar contribuindo para a ampliação da distância entre as camadas sociais
legiadas e a populaçaão marginalizada pelo processo de cres-cimento econômico .
. Os meios de difusão em massa de informacões aoresen-tam pouca eficiência qualitativa, quando se trata' de interação com faixas específicas de público. As mensagens que se pre-tende veicular perdem-se no meio de uma massa normalmente grande de informações, muitas delas em conflito com os ob-jetivos que se pretende atingir.
Sola Pool (1969) afirma Que os meios modernos são ine-fi cientes como instrumentos de ação dos planejadores e uma das causas está no fato de serem eles meios 'produzidos' e dirigidos por elites que não querem se dirigir às massas "ou estão em conflito quando a elas se dirigem".
Pasouali (1973), professor da Universidade Central da Venezuela, defende uma retomada do conceito de comunica-ção. Ele' propõe que ••... entre os dois pólos da estrutura relacional (transmissor-receptor) funciona uma lei de bivalên-cia: todo transmissor pode ser receptor, todo receptor pode ser transmissor."
Nada
fácil
será a atuacão do cornunlcarlor social dlantedos atuals planos e nrooramas de desenvolvimento reaional.
Esses planos foram elaborados com base na
centrallzacão
de poder. E a lógica do poder é sua manutencão. Como a prática da comunicação é também um exercício de poder e traz em só a proposta de transformacão do exercício desse poder, tor-na-se óbvia a conclusão. Aristóteles já precava Que Quem fala, fala com a intenção de seduzir alguém. Em todo o discurso está o elemento de sedução (dominação). E a prática atual de difusão de informações é, de fato, a prática da dominação.Partindo-se desse princípio, a maioria dos teóricos moder-nos dos países em desenvolvimento, principalmente os inte-grantes da chamada "Escola Latino-Americana" (Antônio Pas-quali, Eliseu Veron, Juan Diaza Bordenave, Luiz Proario,
Horá-cio Carvalho, Gabriel Cohn, Paulo Freire, etc.) está propondo a democratização do poder de fala (comunicação) em lugar do monopólio de fala (difusão).
Eles pretendem, com o efetivo processo da comunicação. a polarização de poder com a abertura de oportunidade para que as classes dominadas (maioria da população) assumam a posição de sujeito do seu próprio processo de desenvolvi-mento.
7 - COMUNICAÇÃO E PODER
A situação ainda vigente, com a opção pelo monopólio da fala, por parte dos planejadores e das agências de desenvol-vimento, de maneira alguma é gratuita. Ela reflete, na realida-de, uma coerência com os valores prevalecentes nos sistemas maiores. A agência de desenvolvimento centralizadora desen-volve uma prática de produção de mensagens em harmonia com os valores nela dominantes.
Será ingenuidade do comunicador achar tranqüilo o fun-cionamento de um sistema de comunicacão social em conflito com os compromissos e objetivos assumidos (quase nunca declarados) pelos planos e programas fechados, isto é, não abertos ao diálogo. Historicamente. no Nordeste, os compro-missos das agências de desenvolvimento parecem mais forta-lecidos com as elites do que com a maioria da sociedade nor-destina.
Não se trata, porém, de um fenômeno restrito ao Nordeste. Nas organizações complexas, principalmente as ligadas ao Serviço Público Brasileiro (*J. identificam-se dois tipos de ob-jetivos: objetivos declarados e objetivos assumidos. Os obje-tivos declarados são ldentlflcados sem dificuldades pela leitu-ra dos documentos que definem normativamente as flln~ões das organizacões. Os objetivos assumidos ficam mais difíceis de ser ldentlflcados por estarem, em geral, ligados a interes-ses e privilégios não confessados.
Para o comunicador essa dicotomia entre os dois tinos de objetivos pode-se constituir numa armadilha. A capacidade de a agência de desenvolvimento manter de um lado objeti-vo declarado mas nem sempre assumido e do outro, objetivo assumido, mas não necessariamente declarado, pode criar a ilusão de que a proposta de um sistema efetivo de comuni-cação social pode ser aceita sem resistência. Não são raros os exemplos de modelos de comunicação social aprovados, elo-giados, expostos, normatizados e jamais postos em prática.
O fato de que a comunicação social possa encontrar difi-culdades de se efetivar não deve desanimar o comunicador. O compromisso dele, declarado e assumido, deve ser o da trans-formação em lugar do da acomodação. É bem verdade que qualquer proposta isolada de transformação social se asseme-lha a tentativa de se remar contra a maré. A maioria delas nem chega a sair do campo das intenções. Mas há algumas que chegam a terra firme e fecundam. E se somada a outras,
t *) Vide Um estudo de Comunicação Social no Serviço Público Brasileiro
(obra já citada).
mesmo em ação desarticulada, ela deixará de estar só. Na di-nâmica social, os efeitos se multiplicam. Além do mais, ne-nhuma situação ou posição é imutável, principalmente na so-ciedade nordestina e brasileira em que a exigência e
necessi-dade maiores parecem ser a mudança.
8 - A REALIDADE DISTANTE
Imaginando superados esses tipos de dificuldades, vamos
nos deter um pouco no exame dos possíveis problemas de
ordem mais prática que o comunicador social vai encontrar no seu dia-a-dia de entrar em diálogo com a população. A título
de ilustração, tomemos o exemplo hipotético de um amplo
programa de crédito voltado para o pequeno agricultor nordes-tino, criado por pressões dessa faixa de população.
Se restrito ao sistema difusor (monopólio da fala), o
co-municador vai se preocupar apenas em distribuir para a
im-prensa e meios eletrônicos as informações sobre o volume de
recursos aprovados e o número de agricultores que se
pre-tende beneficiar. Pode ser até que ele vá mais longe ao fazer projeções sobre o que isso vai representar no aumento da pro-dução regional.
Com o sistema de comunicação social, essa divulgação
também será feita. Antes dela, porém, o comunicador já deverá ter atuado para delinear o perfil de cada público (trabalho facilita-do pelos canais abertos
à
pressão social) a ser envolvido no e pelo programa. Deverá também já ter feito a identificaçãodas necessidades e exigências de informações de cada faixa
de público (interno e externo): técnicos, planejadores, pessoal operativo, agricultores, cooperativas, extensão rural, etc. A partir desse diagnóstico é que o comunicador vai delinear sua
estratégia de ação, estabelecendo que tipo de mensagem
pro-duzir, como propro-duzir, para quem produzir e de que forma cir-cular.
Todo esse trabalho vai exigir dele, naturalmente, a
ela-boração de um projeto específico de comunicação social em
apoio ao programa. Tal exigência, aliás, nada significa de novo.
Na proposta de planejamento da Comunicação Social do
Go-verno, preparada pela AIRP - Assessoria de Imprensa e
Rela-ções Públicas da Presidência da República (1975), ela estava muito bem explícita, reforçada pelo lembrete de que a
"Comu-nicação Social não é promoção, mas seriedade e
austerida-de, ao estabelecer as relações de convivência humana dos
agentes da administração pública com os grupos sociais a que serve". Dizia a recomendação da AIRP (hoje extinta): "todo
plano ou programa deve ser acompanhado de um respaldo es-pecífico de comunicação social."
No projeto específico, o comunicador delineará estraté-gias de interação com cada grupo envolvido, abrangendo tam-bém estratégias para a interação insterinstitucional, ou seja, entre as instituições que atuarão em conjunto com a agência
de desenvolvimento. .
Na execução do projeto, os problemas se ampliam para o comunicador, com a possibilidade muito concreta de as áreas mais necessitadas de informação serem justamente aquelas em que é mais irregular e precário o funcionamento dos canais de comunicação delas com a sociedade envolvente. No caso citado, os problemas serão maiores no estabelecimento da in-teração com o pequeno agricultor. Este, estando à margem da economia de mercado, deverá também viver à margem aa rede estruturada de meios de comunicação coletiva.
É o caso, porém, de o comunicador se lembrar de que a aqência de desenvolvimento responsável pelo programa dls-põe de unidades e pessoal em contato com o pequeno agricul-tor. Se bem orientada, a estrutura operativa da unidade avan-çada poderá desempenhar a função da interação comunicativa com o pequeno agricultor. Para isso, no entanto, deverão ser estabelecidos canais efetivos de troca contínua de informa-ções com as unidades em contato direto com o público bene-ficiário do programa.
Nunca é demais lembrar que o pessoal da unidade mais próxima do agricultor terá maior intimidade com o contexto e linguagem dele, apresentando, assim, maior possibilidade de eficiência qualitativa do que qualquer campanha de difusão em massa de informações.
O fato é que se as dificuldades são grandes e o obstáculo se mostra às vezes insuperáveis para o comunicador social nordestino, ele deve lembrar-se de que problema maior é o de
conviver e de ser conivente com o agravamento dos desequi-líbrios sociais do Nordeste. Se as dificuldades são grandes, maior é o espaço para o trabalho do comunicador, agente de transformação social, que certamente não se sente tranqüilo com distanciamento entre o poder e o povo, exemplificado no fato citado e comentado por Bordenave (1984):
"A falta de diálogo povo-governo manifestou-se
de maneira dramática num caso vivido por este autor. Ao entrevistar 221 agricultores nordestinos para sua tese de doutorado, incluiU no questionário
a seguinte pergunta: 'Como você comunica suas ne-cessidades e problemas às autoridades? '
Entre as muitas respostas indicadoras de total incomunicação, destaca-se por sua amargura a se-guinte, de um trabalhador sem' terra:
- Eu,comunicar com as autoridades? E como? As autoridades não sabem que eu existo. Só vão fi-car sabendo o dia que eu der uma facada em algum delegado ou juiz de paz!"
9 -
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