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A centralidade da família na formação em Serviço Social na década de 1940 em Pernambuco

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS

DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL

MARIA ANGÉLICA PEDROSA DE LIMA SILVA

A CENTRALIDADE DA FAMÍLIA NA FORMAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL NA DÉCADA DE 1940 EM PERNAMBUCO

Recife 2019

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MARIA ANGÉLICA PEDROSA DE LIMA SILVA

A CENTRALIDADE DA FAMÍLIA NA FORMAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL NA DÉCADA DE 1940 EM PERNAMBUCO

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, da Universidade Federal de Pernambuco, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Serviço Social.

Área de concentração: Serviço Social, Movimentos Sociais e Direitos Sociais

Orientadora: Profª. Dra. Ana Cristina de Souza Vieira

Recife 2019

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Catalogação na Fonte

Bibliotecária Ângela de Fátima Correia Simões, CRB4-773

S586c Silva, Maria Angélica Pedrosa de Lima

A centralidade da família na formação em Serviço Social na década de 1940 em Pernambuco / Maria Angélica Pedrosa de Lima Silva. - 2019. 168folhas: il. 30 cm.

Orientadora: Prof.ª Dra. Ana Cristina de Souza Vieira.

Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Universidade Federal de Pernambuco. CCSA, 2019.

Inclui referências.

1. Serviço Social. 2. Problemas sociais. 3. Pernambuco. I. Vieira, Ana

Cristina de Souza (Orientadora). II. Título.

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MARIA ANGÉLICA PEDROSA DE LIMA SILVA

A CENTRALIDADE DA FAMÍLIA NA FORMAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL NA DÉCADA DE 1940 EM PERNAMBUCO

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, da Universidade Federal de Pernambuco, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Serviço Social.

Aprovada em: 30/08/2019

BANCA EXAMINADORA

_____________________________________________________________________ Profª. Dra. Ana Cristina de Souza Vieira (Orientadora e Examinadora Interna)

Universidade Federal de Pernambuco

_____________________________________________________________________ Profª. Dra. Mônica Rodrigues Costa (Examinadora Interna)

Universidade Federal de Pernambuco

_____________________________________________________________________ Prof.ª Dra. Vívian Matias dos Santos (Examinadora Externa)

Universidade Federal de Pernambuco

_____________________________________________________________________ Prof. Dr. Adilson Aquino Silveira Júnior (Examinador Externo)

Universidade Federal de Pernambuco

_____________________________________________________________________ Profª. Dra. Helena Maria Barros Padilha (Examinadora Externa)

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A você mãe, que me ensinou a sonhar, a lutar, a persistir e vencer.

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AGRADECIMENTOS

Há 16 anos eu perdi para os céus o homem mais esplêndido que houvera entre os vivos, o meu Pai de criação. Hoje eu renovo meus votos afirmando que sou eternamente grata por ele ter me dado o privilégio de me tornar a sua filha do coração. Eu não podia ter tido mais nobre educação do que a dada por esse homem. Ele me fez filha, cidadã, e me ensinou a ter os melhores sentimentos para serem postos na sociedade. Ele me fez a criança, a adolescente mais feliz, mais consciente, pé no chão, mais humana, a cada sermão, a cada conversa, a cada abraço. Pai eternizado por uma Memória. Pai perpetuado por uma História. Digo com toda veemência que ele me tornou o ser humano mais capacitado a viver nesse mundo movido pelo o Amor. Somente nos foi proporcionado 15 anos de convivência, mas foram os melhores anos da minha vida. Agradeço a oportunidade dada a mim, que foi me fazer sua Filha. Obrigada, meu Pai, Pedro Lacerda. Eu te amo. E continuo trilhando e caminhando com seus olhos e coração.

Eu sempre digo que fui agraciada por bons espíritos nessa vida. Minha mãe é um deles, o mais nobre e forte que já conheci. A ela devo minha construção como mulher e profissional. Uma grande fortaleza, que apesar dos infortúnios do destino, que retirou o chão debaixo dos nossos pés, ela soube nos puxar de volta e me manter serena, não me deixando sair do meu caminho tão esperado. E assim, continuei trilhando e vencendo. Nerilza Pedrosa, obrigada e obrigada!

Agradeço também às minhas três outras mães, Nerilda, Nereide e Zeinha. Tias que junto à minha mãe puderam me proporcionar estudos, educação, sorrisos, e ombros calorosos para eu me refazer nos momentos difíceis dessa trajetória vivida. Cada uma com sua particularidade me fez a pessoa que sou hoje. Nesse longo caminho, minhas mães representam a real face do que é ser luta e perseverança.

Grata aos meus primos, que são irmãos de alma e de coração. Sueli, Sérgio, Marília, Esther, Victória, vocês são a representação de irmandade. Agradeço a minha família pelo apoio e orações. Ao meu noivo, Raul de Sá, por todo companheirismo, amor, paciência e dedicação.

Agradeço às minhas Historiadoras, amizades feitas na primeira graduação. O sonho era de estarmos juntas nesse trajeto acadêmico (mestrado e doutorado), mas o meu dobrou à esquina de uma rua. No entanto, tudo tem um motivo, né? (Izabelle sabe!!) Continuamos unidas nesse caminhar. Obrigada pelos estímulos, amo vocês!

Um agradecimento em especial a Mariely Mello Felipe, que nem mesmo a distância entre Recife-São Paulo nos abalou. Mari foi uma das pessoas mais importantes na produção desse trabalho. Mestranda em História pela USP, ela me oportunizou documentos necessários para

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realizar o estudo. Digo que Mari se tornou a corretora e a leitora mais assídua dessa dissertação. Foram ouvidos maravilhosos nos meus momentos de angústias e instabilidades. Obrigada, amiga, você foi fundamental nesse processo.

Grata aos amigos feitos nessa trajetória que se denomina mestrado. Eu digo que a turma de 2017.1 foi um encontro de almas amigas. Agradeço a Rafaela, a Íris, a Elisa, a Nathália, a Leonila, a Vitória, a Jussara, ao Henrique, a Josiane e a Josinete. Agradeço ao Jorge, amigo que me acompanha desde a graduação, um ser humano disposto sempre a compartilhar da inteligência que tem com o outro.

No meu percurso acadêmico em Serviço Social, fui agraciada com orientadoras-amigas que se tornaram referências de mulheres e profissionais. Para Vívian Matias dos Santos, Mônica Rodrigues Costa e Ana Cristina de Souza Vieira vão os meus grandes agradecimentos. Agradeço em especial à minha orientadora do mestrado, professora Ana Vieira, por toda sua paciência, confiança e afeto nessa trajetória. Pelas orientações esclarecedoras e impulsionadoras, pelas observações e críticas importantíssimas para a finalização desse trabalho.

Aos professores que compuseram minha banca de qualificação: Profª. Dra. Helena Padilha, Prof. Dr. Adilson Junior e Profª. Dra. Vívian Matias, que contribuíram para elucidar os objetivos e questões centrais do meu projeto.

Aos docentes do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGSS/UFPE), em especial a: Alexandra Mustafá, Rosa Cortês, Mônica Costa, Maria das Graças, Ana Vieira, pelos debates calorosos e reflexões construídas nas disciplinas cursadas.

Grata à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que me deu a oportunidade de realizar meus estudos acadêmicos, graduação e pós-graduação, pois não teria os feito se ela não fosse uma instituição pública, gratuita, laica e inclusiva.

Agradeço ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela da bolsa de mestrado concedida.

São tantas pessoas importantes que fizeram parte dessa trajetória, pois tenho em mim que sozinha não vamos a canto algum. Por fim, agradeço a todos que direta e indiretamente participaram da construção desta dissertação, mesmo quando ela ainda era um sonho.

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RESUMO

Esta dissertação tem como objetivo discutir a centralidade da família na formação profissional em Serviço Social em Pernambuco, na década de 1940. Aborda a primeira instituição de ensino em Serviço Social no Nordeste, a Escola de Serviço Social de Pernambuco (ESS/PE), que teve o propósito de formar profissionais especializadas na intervenção dos problemas sociais prevalecentes da época, atuando, principalmente, com as crianças em situações consideradas de delinquência, mulheres com divergências com as leis, famílias de trabalhadores em situação de extrema pobreza e mulheres mães, com dificuldades na educação e provimento dos filhos. Busca-se apresentar as particularidades da formação do Serviço Social como uma profissão majoritariamente de mulheres e que teve na família da classe proletária, mais especificamente nas figuras da mulher e criança, o público-alvo para a intervenção. Desse modo, são analisados os problemas sociais reportados às famílias da capital pernambucana e as ações propostas para garantir o “ajustamento social” da instituição familiar às necessidades decorrentes do processo de urbanização e industrialização. No que concerne à metodologia, se buscou dedicar à pesquisa documental, sustentada em dados primários, como o acervo da Escola de Serviço Social de Pernambuco, as monografias das estudantes da ESS/PE e os jornais, bem como estudos secundários já produzidos sobre o tema. A pesquisa está fundamentada nas determinações teórico-metodológicas propiciadas pela literatura do Serviço Social vinculada à perspectiva marxista. O estudo aponta que a ESS/PE se tornou uma organização necessária para o estado, apresentando-se como tentativa de resposta à sociedade que necessitava de uma profissional especializada para lidar com os problemas sociais e salientasse o reajustamento das famílias, contingentes esses provenientes do êxodo rural, fluxos migratórios vindos do interior, que se viam forçados a vir para a capital em busca de melhores condições de vida. Nessa ótica, constata-se que as assistentes sociais em formação intervinham na formação moral e educacional das famílias populares, direcionando o ajustamento, principalmente, para a figura da mulher, na tentativa de reiterar a sua função social como mãe harmoniosa e educadora da prole. A discussão acerca da categoria de gênero se torna imprescindível nesse trabalho para se compreender o Serviço Social e sua constituição como um espaço feminino, tal qual o seu público usuário. O presente estudo, além de fornecer elementos da conjuntura pernambucana da década de 1940, contribui para o aprofundamento sobre a história do Serviço Social em Pernambuco e suas particularidades.

Palavras-chaves: Serviço Social. Pernambuco. Formação profissional na década de 1940. Família. Problemas Sociais.

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ABSTRACT

This work sought to discuss family’s centrality in professional qualification in Social Work in Pernambuco, in the 1940s. It broaches the first Social Work educational institution in the Brazilian Northeast, which had the purpose to qualify professionals specialized in intervention and solving the prevalent social issues of that period, acting, mostly, with children and teenagers in situations considered as delinquency, women at odds with the law, workers’ families in extreme poverty situations and mothering women with difficulties at educating and providing for their children. It seeks to present the particularities of the formation of Social Work as a mostly female profession and had in the family of the worker class, more specifically in the figures of women and children, the target audience for the intervention. Thus, the social problems reported in families in the capital of Pernambuco and the proposed actions to ensure the social adjustment of the family institution to the needs arising from the process of urbanization and industrialization are analyzed. Regarding the methodology, we dedicated ourselves to documentary research supported by primary data, such as the collection of the Social Work School of Pernambuco (ESS / PE) and the course completion works produced by the students of this institution, newspapers and theme related secondary studies already produced as well. The research is based on the theoretical-methodological determinations provided by the Social Work literature linked to the Marxist perspective. The study points out that the ESS / PE became a necessary organization in the state, presenting itself as an attempt to respond to society as it needed a specialized professional to deal with social problems, ensuring the readjustment of families, contingents from the rural exodus, migration flows from the interior, which were forced to come to the capital in search of better living conditions. From this point of view, it was found that training social workers intervened mainly in the moral and educational formation of proletarian families, directing the adjustment, mainly, to the female figure, in an attempt to reiterate their social function as harmonious mother and educator of the offspring. The discussion about gender category became essential in this work to understand the Social Work and its constitution as a female space, as well as its target audience. This study, besides providing elements of the Pernambuco conjuncture in the 1940s, contributes to the deepening of Social Work history in Pernambuco and its particularities.

Keywords: Social Work. Pernambuco. Professional qualification in the 1940s. Family. Social problems.

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Imagem 1 – A fundação da primeira Liga Social Contra o Mucambo ... 33

Imagem 2 - Foto que retrata a Primeira Turma de Serviço Social (Margarida Ferreira, Maria Luiza Ferreira, Maria Josefina (Josephina) Rabelo Albano e Irene Tavares de Sá), com o Ministro Gustavo Capanema e o Prof. Alceu Amoroso Lima – 1940 ... 73

Imagem 3 – Fotografia da fachada principal da Escola de Serviço Social de Pernambuco. .... 96

Imagem 4 – Fotografia uma das entradas laterais da ESS/PE ... 97

Imagem 5 – Fotografia de uma sala de aula vazia da ESS/PE ... 97

Imagem 6 – Fotografia de uma de sala de aula em atividade ... 98

imagem 7 – Fotografia da biblioteca da ESS/PE ... 98

Imagem 8 – Alunas em momento de estudos na biblioteca da Escola de Pernambuco ... 99

Imagem 9 – Fotografia da Secretaria da ESS/PE ... 99

Imagem 10 – Fotografias da sala dos professores e da Secretaria ESS/PE, cômodos vinculados ... 100

Imagem 11 – Fotografias de alunas da primeira turma da ESS/PE, que se tornaram diretoras e docentes no decorrer dos anos 1940 e as primeiras assistentes sociais em atuação em Pernambuco. De nomes: 2) Maria de Lourdes Almeida de Moraes e 3) Maria Dolores Cruz Coelho ... 102

Imagem 12 – Fotografia de Maria Hermina de Lyra, aluna da turma de 1943, que se tornou assistente social no ano de 1954 ... 104

Imagem 13 – Fotografia de Maria da Glória Andrade Lima, primeira assistente social de Pernambuco formada pela ESS/PE, em 1946 ... 105

Imagem 14 – Fotografia de Evany Gomes de Matos Mendonça, discente da turma de 1946 da ESS/PE, que se tornou assistente social no ano de 1956. Personalidade atuante no ensino técnico e prático da Escola de Pernambuco. ... 107

Imagem 15 – Fotografia que retrata alunas trabalhando na Agência de Serviço Social Familiar, localizada nas dependências da ESS/PE. ... 115

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LISTA DE SIGLAS

CEAS Centro de Estudos e Ação Social de São Paulo

CPDOC Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil DASP Departamento Administrativo do Serviço Público

DNCr Departamento Nacional da Criança

DRAS Diretoria de Reeducação e Assistência Social

DSA Departamento de Saúde e Assistência de Pernambuco ESS/PE Escola de Serviço Social de Pernambuco

ESS/SP Escola de Serviço Social de São Paulo GAS Grupo de Ação Social

IMIP Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira IS/RJ Instituto Social do Rio de Janeiro

ISS/SP Instituto de Serviço Social de São Paulo LBA Legião Brasileira de Assistência

LSCM Liga Social Contra o Mocambo MES Ministério da Educação e Saúde PSD Partido Social Democrático PIBIC Programa de Iniciação Científica SAM Serviço de Assistência a Menores SSCM Serviço Social contra o Mocambo

TCC Trabalho de Conclusão de Curso

UFPE Universidade Federal de Pernambuco UFRPE Universidade Federal Rural de Pernambuco FUNDAJ Fundação Joaquim Nabuco

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 15

2 A CONFIGURAÇÃO DA CONJUNTURA PERNAMBUCANA NA DÉCADA DE 1940: ASPECTOS POLÍTICOS, ECONÔMICOS E SOCIAIS ... 21

2. 1 O INÍCIO DO SÉCULO XX NA CAPITAL PERNAMBUCANA... 21

2. 2 O ESTADO NOVO E A INTERVENTORIA DE AGAMENON MAGALHÃES ... 25

2. 3 A TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA PÓS ESTADO NOVO EM PERNAMBUCO ... 40

2. 4 ASPECTOS SOCIAIS E A FAMÍLIA NOS ANOS DE 1930 E 1940 ... 43

2. 4. 1 Familismo: a ideia de família e a missão social da mulher ... 43

2. 4. 2 Estado Novo, Igreja e iniciativas de assistência à família ... 46

3 UMA [RE]LEITURA DA HISTÓRIA DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL PELA MARCA DO GÊNERO NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL ... 51

3. 1 O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL COMO PROFISSÃO DE INTERVENÇÃO NAS MANIFESTAÇÕES DA QUESTÃO SOCIAL ... 51

3. 2 A AÇÃO SOCIAL CATÓLICA COMO IMPULSIONADORA DA ORIGEM DO SERVIÇO SOCIAL BRASILEIRO ... 53

3. 3 O SERVIÇO SOCIAL BRASILEIRO E AS PRIMEIRAS ESCOLAS DO PAÍS ... 57

3. 3. 1 A Escola de Serviço Social de São Paulo (ESS/SP): a primeira instituição de ensino no Brasil ... 62

3. 3. 2 O Instituto Social do Rio de Janeiro (IS/RJ): segunda escola de Serviço Social do Brasil ... 70

3. 3. 3 Instituto de Serviço Social (ISS/SP): terceira escola brasileira e a primeira direcionada ao público masculino ... 75

3. 3. 4 A formação do Serviço Social nas décadas de 1930 e 1940 e as influências Franco-Belga e Norte-Americana ... 77

3. 4 A MARCA DO GÊNERO NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL E NO PÚBLICO USUÁRIO DO SERVIÇO SOCIAL BRASILEIRO ... 79

4 A EMERGÊNCIA DO SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO E A CENTRALIDADE DA FAMÍLIA NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DAS ASSISTENTES SOCIAIS DO ESTADO ... 85

4. 1 A TRAJETÓRIA DO SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO E AS PARTICULARIDADES DA PRIMEIRA ESCOLA DO NORDESTE: A ESS/PE ... 85

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4. 1. 1 A Escola de Serviço Social de Pernambuco: a primeira do Nordeste ... 92

4. 1. 2 As primeiras turmas da Escola de Serviço Social de Pernambuco da década de 1940 ... 100

4. 1. 3 Os aspectos históricos do programa curricular da ESS/PE e da prática do Serviço Social nos anos de 1940 ... 109

4. 1. 3. 1 A prática do Serviço Social em Pernambuco nos anos 1940 ... 112

4. 2 OS PROBLEMAS SOCIAIS DAS FAMÍLIAS NA PERSPECTIVA DAS ESTUDANTES DE SERVIÇO SOCIAL DAS TURMAS DE 1940 ... 118

4. 2. 1 Serviço Social no âmbito Judicial: os problemas sociais de famílias, mulheres, crianças e jovens pela prática das assistentes sociais em formação ... 120

4. 2. 2 Serviço Social no âmbito da Assistência Social: os problemas sociais de famílias, mulheres, crianças e jovens pela atuação das assistentes sociais em formação ... 124

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 131

REFERÊNCIAS... 135

ANEXO A – Regulamento da ESS/PE de 1941 ... 144

ANEXO B – Relação das alunas matriculadas na primeira turma de 1940 ... 150

ANEXO C – Histórico Escolar de Maria Glória de Andrade Lima ... 151

ANEXO D – Agência Familiar de Serviço Social da ESS/PE ... 154

ANEXO E – Históricos Escolares das estudantes da década de 1940 que tiveram as monografias selecionadas ... 156

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1 INTRODUÇÃO

As questões que permeiam esta pesquisa se iniciaram na graduação em Serviço Social da UFPE, juntamente com os estudos desenvolvidos na especialização em Gênero e Políticas Públicas, do Programa de Pós-graduação em Antropologia da UFPE, que aguçaram o desejo de aprofundar, na graduação em andamento, pesquisas direcionadas à história do Serviço Social em Pernambuco e sua constituição como uma profissão de mulheres. Foram alcançados os primeiros resultados a partir da construção do trabalho de conclusão de curso, intitulado As

pioneiras do Serviço Social de Pernambuco e a marca do gênero na formação profissional (1940 – 1946), concluído no ano de 2019.

A proposta da temática para o trabalho monográfico e o direcionamento dado para o projeto de pesquisa do mestrado, ambos no departamento de Serviço Social da UFPE, tiveram como ponto de partida os estudos das disciplinas ofertadas no curso de graduação, no qual se obteve o embasamento sobre a institucionalização, a consolidação e a renovação da profissão no Brasil, porém centrados nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Então, a debilidade na história regional nos inquietou a conhecer as particularidades e dimensões do processo formativo do Serviço Social em Pernambuco, um tema, na época, pouco discutido em sala de aula. Logo, a escolha da temática também está amplamente ligada a primeira formação acadêmica, Licenciatura em História pela UFRPE, pois sempre se teve a preocupação de aprofundar a historiografia local como forma de dar visibilidade e de suscitar novos sujeitos e objetos históricos de análise.

Foi possível iniciar os estudos sobre o surgimento do Serviço Social em Pernambuco e sua constituição como uma profissão feminina na experiência discente de bolsista do programa de Iniciação Científica (PIBIC). A partir dos projetos “O “Masculino” marginalizado? O que as

mulheres têm a dizer sobre a inserção/permanência de homens em formação no Serviço Social”

e "Para pensar a inserção de homens no Serviço Social em Pernambuco: o que revelam as

memórias de docentes e pesquisadoras(es) na área"1, orientados pela professora Vívian Matias dos Santos, atentamos para uma pesquisa bibliográfica e documental que nos fez ter os primeiros direcionamentos sobre a história da profissão no estado. Mais uma vez foi percebido que, ao longo da graduação, temos uma lacuna no acúmulo sobre a formação sócio-histórica e política no período do surgimento e institucionalização do Serviço Social em Pernambuco e as

1 Projetos fomentados pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PROPESQ/CNPq). Essas pesquisas foram

desenvolvidas pela aluna e sua orientadora, integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Gênero, Ciências e Culturas (HYPATIA), vinculado ao Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco.

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questões centrais que estavam presentes na criação da formação profissional e suas dimensões. Esses apontamentos suscitaram o interesse em aprofundar estudos sobre as tendências do Serviço Social em Pernambuco na década de seu surgimento no estado.

Netto (2016) reforça a relevância de estudos que particularizam o percurso histórico do Serviço Social, estudos localizados e particulares acerca de fundação de escolas, de área de intervenção profissional, de instituições demandantes de assistentes sociais. Netto também avalia o empenho na recuperação e preservação da memória e história do Serviço Social e o quanto é importante estimular tais estudos, “[...] uma vez que o acervo assim acumulado haverá de ser uma fonte de relevância para a reconstrução analítica de que resultarão histórias da profissão” (2016, p. 53).

Então, esta dissertação se inscreve nesses estudos. Tem como objetivo geral: discutir a centralidade da família2 na formação profissional em Serviço Social em Pernambuco, na década de 1940. E como objetivos específicos: 1) analisar a conjuntura pernambucana nos anos de 1940, considerando as especificidades da formação sócio-histórica e política do estado e como tais circunstâncias atingiram as famílias, mulheres e crianças da classe trabalhadora; 2) apresentar as particularidades da formação do Serviço Social em Pernambuco como uma profissão predominantemente de mulheres e que teve na família da classe proletária, mais especificamente nas figuras da mulher e criança, o público-alvo para a intervenção das assistentes sociais; 3)analisar os problemas sociais reportados às famílias e as ações propostas para garantir o ajustamento social da instituição familiar às necessidades decorrentes do processo de urbanização e industrialização na capital pernambucana.

Sendo assim, o recorte temporal se configura na década de 1940, decênio que traça a emergência e a institucionalização do ensino e da formação profissional em Pernambuco, suscitando o aparecimento das primeiras assistentes sociais do estado e suas atuações na gestão e docência da Escola de Serviço Social de Pernambuco (ESS/PE), como na intervenção sobre os problemas sociais da época vivenciados pelas famílias, mulheres e crianças pernambucanas das classes populares.

Partilhamos da mesma concepção que uma importante referência do Serviço Social brasileiro, Dra. Marilda Villela Iamamoto (2017, p. 21), segundo a qual:

2 O que se diz por “centralidade da família” nesta dissertação não se refere à adoção corrente na Política Nacional

de Assistência Social – PNAS, de 2004, mas sim ao público-alvo das intervenções das assistentes sociais da capital pernambucana na década de 1940, que atuavam, principalmente, com as crianças e adolescentes em situações consideradas de delinquência, mulheres com divergências com as leis, famílias de trabalhadores em situação de extrema pobreza e mulheres mães, com dificuldades na educação e provimento dos filhos, objetivando, assim, o disciplinamento da instituição familiar à sociedade vigente.

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O pressuposto da análise é que a história da sociedade é o terreno privilegiado para apreender as particularidades do Serviço Social: seu modo de atuar e de pensar incorporados ao longo de seu desenvolvimento. Sendo um produto

sócio-histórico, a profissão adquire sentido e inteligibilidade na dinâmica

societária da qual é parte e expressão.

A partir da análise de Iamamoto (2017), podemos entender que a formação profissional em Serviço Social vem com um entendimento dos contornos sócio-históricos nos quais estava inserida. Assim, as discussões históricas tornam-se palco para a visualização das especificidades políticas e de atuação do Serviço Social, profissão que, na década de 1940, está vinculada aos ideais de controle social e ajustamento social das classes trabalhadoras, como particularidades inerentes ao campo profissional, ligados ao projeto societário dominante do período.

Portanto, a presente dissertação está fundamentada nas determinações teórico-metodológicas propiciadas pela literatura do Serviço Social vinculada à perspectiva marxista, principalmente em Carvalho e Iamamoto (2014), Iamamoto (2004, 2014, 2017), Ortiz (2010), Carvalho (1980), Cisne (2015), Martinelli (2010) e Pastorini (2004).

A discussão da categoria de gênero foi necessária para a dissertação, pois nos permitiu compreender que o Serviço Social foi se constituindo como um espaço predominantemente feminino, associado aos papéis conservadores cobrados à mulher, ao mesmo tempo que atuava no ajustamento dos indivíduos e suas famílias. Autores como Cisne (2015), Torres (2002), Souza e Veloso (2015) e Scott (1991) trazem esse debate para ser aprofundado com o surgimento do Serviço Social no Brasil.

O caminho metodológico para a realização da dissertação estruturou-se na pesquisa bibliográfica e documental.

Conforme aponta Fonseca,

A pesquisa bibliográfica é feita a partir do levantamento de referências teóricas já analisadas, e publicadas por meios escritos e eletrônicos, como livros, artigos científicos [...]. Qualquer trabalho científico inicia-se com uma pesquisa bibliográfica, que permite ao pesquisador conhecer o que já se estudou sobre o assunto (2002, p. 32).

Então, a partir da perspectiva bibliográfica, tivemos como referências Vieira (1992), Padilha (2008), Gomes (1987), Bernardes (2006), Lyra (1985; 1990), Moraes (1990; 2002), Mendonça (2002), dissertações, teses, artigos em periódicos e entrevistas que se debruçaram sobre as dimensões e tendências da história do Serviço Social em Pernambuco. Essas obras

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foram importantes no fornecimento de elementos para a presente dissertação e também ratificaram a necessidade de aprofundamento dos estudos sobre a temática ligada aos fundamentos e à história da profissão no estado.

No que concerne ao estudo documental, está sustentado em dados primários, como: 1) O Acervo da Escola de Serviço Social de Pernambuco (ESS/PE), disponível no Memorial Denis Bernardes, na Biblioteca Central da Universidade Federal de Pernambuco. Foram utilizados variados documentos, como Estatutos e Regimentos da Escola de Pernambuco; Relatórios anuais, de 1946 a 1959; Relatório da comissão verificadora, de 1955; Históricos Escolares das estudantes das turmas da década de 1940; Lista da relação das alunas matriculadas na ESS/PE; e documentos aleatórios com informações sobre o funcionamento da Escola, a formação profissional e os espaços ocupacionais da década de 1940 e 1950. Os documentos estão dispostos em 23 caixas enumeradas, mas não catalogadas, o que dificultou o acesso e a pesquisa, tendo sido necessário um trabalho minucioso pela busca do material.

2) Os Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) produzidos pelas estudantes da Escola de Serviço Social de Pernambuco, disponíveis e catalogados pela Biblioteca do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UFPE, como Obras Raras3. As monografias selecionadas para compor o estudo foram elaboradas como trabalhos finais de alunas que iniciaram sua formação profissional nas turmas da década de 1940 e que trazem nos títulos palavras-chaves relacionadas às atuações das estudantes com a reabilitação de casos sociais com a família, mulheres, e a infância, maioria do público usuário do Serviço Social.

3) O uso de jornais, tendo como selecionados o Jornal do Commercio, Folha da Manhã,

Diário da Manhã e Diário de Pernambuco, que se encontram na Fundação Joaquim Nabuco

(FUNDAJ), virtualmente digitalizados no site da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e no Acervo da Escola de Serviço Social de Pernambuco. Foram utilizados como um instrumento que possibilita a complementação, tanto dos estudos sobre a formação sócio-histórica e política do estado de Pernambuco no recorte temporal do trabalho, quanto do entendimento da emergência e institucionalização do Serviço Social em Pernambuco, por se tratar de um meio de comunicação da época.

3 Obras raras são designadas por suas características físicas ou de conteúdo, representando documentos únicos,

escassos, inéditos e preciosos, com significado histórico e/ou intelectual. A obra rara tem um tratamento diferenciado, merecendo um cuidado maior quanto à segurança do acervo onde está depositada. São valiosas por transmitir informações e novas visões de mundo (tanto literárias como científicas), ou seja, um documento verdadeiro do desenvolvimento cultural e social da humanidade (SANT'ANA, Rizio Bruno. Critérios para a definição de obras raras. Rev. Online Bibl. Prof. Joel Martins, Campinas, v. 2, n. 3, p.1 – 18, jun., 2001. Disponível em: < http://www.bibliotecapublica.mg.gov.br/files/Criterios_para_definiao_de_obras_raras.pdf>. Acesso em 03 out. 2016).

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A dissertação está estruturada em três capítulos. O primeiro, de título A

CONFIGURAÇÃO DA CONJUNTURA PERNAMBUCANA NA DÉCADA DE 1940: ASPECTOS POLÍTICOS, ECONÔMICOS E SOCIAIS, aborda a realidade histórica de

Pernambuco no início do século XX, tendo como lócus a cidade do Recife, capital mais desenvolvida no Nordeste. Apresenta-se a industrialização e a modernização urbano-social que perpassam esse espaço, bem como os problemas sociais das classes populares propiciados por essas transformações. Analisa basicamente as novas relações sociais e políticas provenientes do período do Estado Novo e das propostas de governo de Agamenon Magalhães em Pernambuco, ligadas a setores prioritários como a educação, assistência e habitação. Findamos o capítulo apresentando os aspectos da família, como a instituição social mais importante para a atuação das políticas do Estado interventor. São aspectos reveladores que apresentam e estimulam o decorrer dos estudos nos capítulos subsequentes. Este capítulo foi desenvolvido por meio de pesquisa bibliográfica de autores consagrados na temática como Barros (1985), Medeiros (1995), Melo (1978), Pandolfi (1984), Perruci (1974), Rezende (2002), Singer (1977), dentre outros.

O capítulo segundo, intitulado UMA [RE]LEITURA DA HISTÓRIA DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL PELA MARCA DO GÊNERO NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL, volta-se para uma reconstrução histórica do Serviço Social no Brasil por meio de literaturas pouco trabalhadas pela categoria, como Lima (1982) e Yasbek4 (1977), que trazem uma análise da Igreja e da Ação Social Católica como impulsionadoras da origem do Serviço Social brasileiro, forte aliado do Estado intervencionista da época. Nesse contexto, analisa-se a fundação das três primeiras Escolas de Serviço Social do país, tendo os estados de São Paulo e Rio de Janeiro como pioneiros na formação profissional. Além disso, pauta-se o debate acerca da marca do gênero na formação em Serviço Social, por se constituir majoritariamente como um espaço feminino, tanto em sua profissionalização quanto em seu público usuário.

O capítulo terceiro, denominado A EMERGÊNCIA DO SERVIÇO SOCIAL EM

PERNAMBUCO E A CENTRALIDADE DA FAMÍLIA NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DAS ASSISTENTES SOCIAIS DO ESTADO, destaca o processo formativo do Serviço Social em

Pernambuco, com suas particularidades regionais, bem como a fundação da Escola de Serviço Social de Pernambuco (ESS/PE) em 06 de maio de 1940, a primeira instituição do Nordeste. Além de apresentar as alunas das turmas da década inicial da Escola, estuda os aspectos

4 Yasbek (1977) é a dissertação de mestrado de Maria Carmelita Yazbek, que nessa obra seu sobrenome está escrito

com a letra S. Então, é trazida na presente dissertação o nome da autora como se encontra na referência do seu trabalho.

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curriculares da instituição de ensino e a prática do Serviço Social no decênio do seu surgimento. Ao final, analisam-se os problemas sociais reportados às famílias e as ações propostas para garantir o ajustamento social da instituição familiar às necessidades decorrentes do processo de urbanização e industrialização na capital pernambucana. A análise foi realizada com base na perspectiva das assistentes sociais em formação da ESS/PE, que compuseram as turmas dos anos 1940.

Em suma, esperamos que o estudo contribua para os fundamentos e a história da profissão na área do conhecimento do Serviço Social, sendo relevante para o processo de renovação, principalmente por fazer parte de um trabalho desenvolvido para destacar a trajetória da profissão no estado. Além de impulsionar as comemorações dos 80 anos do

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2 A CONFIGURAÇÃO DA CONJUNTURA PERNAMBUCANA NA

DÉCADA DE 1940: ASPECTOS POLÍTICOS, ECONÔMICOS E SOCIAIS

2. 1 O INÍCIO DO SÉCULO XX NA CAPITAL PERNAMBUCANA

Quando delimitamos um recorte temporal em uma pesquisa temos o objetivo de nos organizar materialmente para o lócus, no entanto expomos a importância da abordagem de fatos históricos anteriores para, assim, apresentar os caminhos historiográficos que iremos traçar.

O tempo histórico desse trabalho abarca a sociedade pernambucana da década de 1940, mas abordar o passado não é algo petrificado. Como define Rezende (2002), ao voltarmos ao passado, não podemos fugir da especificidade regional, principalmente para que esse diálogo entre os tempos históricos se aprofunde. Então, será de tamanha importância sintetizar o que foram as três primeiras décadas do século XX, na capital pernambucana, antes de abarcar a conjuntura dos anos de 1940.

As primeiras décadas do século XX foram compostas de experiências de modernização importantes, ligadas às mudanças que vieram com a expansão das práticas capitalistas no Brasil. Recife, capital de maior desenvolvimento do norte-nordeste, não estava ausente de tais mudanças, pois ocorria a retomada do progresso das grandes capitais brasileiras, e neste caso particular, o verdadeiro renascimento econômico e modernização em seu aparato urbano-social.

Segundo Perruci (1978, p. 105)

A primeira República no Nordeste pode ser considerada globalmente como um período de transição caracterizado pela substituição progressiva dos engenhos pelas usinas. Em outros termos, esse período assiste no Nordeste à decadência progressiva da antiga aristocracia da cana-de-açúcar e o nascimento de novos setores ou grupos sociais, baseados no desenvolvimento da capital industrial e financeiro. Isso significa também a retomada do crescimento de grandes cidades como Recife, o que representa nesse caso preciso, um verdadeiro renascimento econômico.

Desde a segunda metade do século XIX, importantes transformações tecnológicas e sociais ocorriam na zona de produção açucareira, no Nordeste. Primeiro, com o espraiamento dos engenhos a vapor e depois com as usinas, que mudaram toda situação da economia açucareira, “base material da vida regional” (PERRUCI, 1974, 577), transformando muitas das relações sociais vigentes no campo, acelerando a proletarização do morador ou expulsando partes deles para as cidades. Paul Singer relacionou o aparecimento das indústrias no Recife

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com o desenvolvimento do moderno parque usineiro (industrialização do açúcar) desde que este contribuiu principalmente para “expulsar do campo levas de trabalhadores que iriam constituir”, na capital, “um verdadeiro exército industrial de reserva” (1977, p. 308). Tais transformações esclarecem o crescimento da população do Recife, que na classificação de Mário Melo (1978), equivale a um crescimento “acelerado ou mesmo explosivo”, no século XX.

Segundo Perruci (1974), é notória a percepção do crescimento demográfico do Recife, do aumento dos seus “equipamentos urbanos” e da instituição de novas relações sociais, políticas e econômicas provenientes da nova conjuntura. Consequentemente, Recife passou a ser o centro da nova burguesia urbana que impulsionou quase todas as mudanças da região.

A capital pernambucana tornou-se a cidade mais importante no norte-nordeste desde a época colonial, que estendeu a sua influência às áreas circunvizinhas, tanto àquelas que constituíram o estado de Pernambuco quanto às de outros estados do Nordeste atual. No século XIX, essa polarização foi favorecida pela implantação das estradas de ferro, muitas delas interligando as áreas produtoras interioranas ao Porto do Recife, em vez de ligá-las às suas respectivas capitais. A hegemonia recifense se consolidava cada dia mais. A cidade, progressivamente, passou a acolher a produção regional para a exportação, ao mesmo tempo em que fixou a sua posição de principal centro importador, redistribuindo, em seguida, os produtos para a vasta área sob sua influência (BERNARDES, 2013, p. 59).

Os primeiros decênios do século XX são destacáveis pelas propostas de modernização urbana, e um dos detalhes mais considerável será a reconstrução do porto do Recife, a partir de 1909. As reformas prioritárias são efetuadas em torno dos bairros comerciais, em destaque para o bairro do Recife, como trabalhos de pavimentação de ruas, saneamento e melhorias nos esgotos. “A transformação e o saneamento da cidade estariam como complemento do plano de reconstrução do porto, para assim torná-lo mais acessível ao comércio nacional e estrangeiro” (PERRUCI, 1978, p. 130).

A Primeira República (1889 – 1930), introduziu no Brasil um modelo de federação, onde os governantes dos estados (as antigas provínciais) passaram a ser eleitos pela população, criando uma descentralização e aproximando o governo da população via eleições de presidentes de estados e prefeitos, salientando que essa aproximação se deu com as elites regionais (CARVALHO, 2002).

Na década de 1910, no governo estadual de Dantas Barreto, aconteceu a destacável modernização da estrutura urbana do Recife, com o plano do engenheiro Saturnino de Brito. Na gestão de Sérgio Loreto, entre os anos de 1922 e 1926, os serviços de higiene e saúde pública

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ganharam uma dinâmica importante. Com a nomeação de Amaury de Medeiros, médico sanitarista, para diretor do Departamento de Saúde e Assistência de Pernambuco (DSA), ocorreu a reformulação do sistema de atendimento médico no Recife e no interior. Além disso, remodelou o Hospital de doenças nervosas e mentais (o Hospital da Tamarineira), e a partir desse momento, segundo Rezende (2002, p. 95), o doente mental passou a ter um tratamento diferenciado. Também foi no período do governo de Sérgio Loreto que o processo de urbanização da praia de Boa Viagem ocorreu. “A cidade expandia-se para outras áreas, buscando novas formas de lazer, seguindo modelos externos” (REZENDE, 2002, p 95).

As obras de reformas do porto do Recife somente foram finalizadas em 1924, na administração de Sérgio Loreto, governador que se destacou no período devido a suas iniciativas modernizadoras para a cidade. Conforme Arraes (2011, p. 118), o poder público atuou como “agente da modernidade”, agindo para “salvar” o Recife do atraso em que se encontrava e enquadrá-lo nos mecanismos e exigências dos novos tempos. E nenhum lugar melhor para começar a modernização que a principal porta de entrada da cidade: o cais do porto.

Para Rezende (2002, p. 95 – 96),

[...] as elites governantes procuravam efetivar esse desejo de modernização, tão presente nas grandes cidades da época, redimensionando os espaços urbanos, multiplicando os lugares possíveis para a expansão do capital. Nem todos aceitavam ou usufruíam das reformas urbanas. Essa dinâmica da formação das cidades, seus projetos de modernização não são, apenas, “civilizatórios” ou “urbanísticos”, mas expressam conflitos que desenvolvem nos seus cotidianos, vinculados também a uma luta dos desfavorecidos por melhores condições de vida e de trabalho. A cidade é o cenário maior dessas lutas.

Ainda no mandato de Loreto, foram construídas novas ruas, avenidas, praças e parques. Esse ímpeto reformista que alcançava o centro e a periferia recifense possuía o duplo objetivo de oferecer passagem aos automóveis particulares e transformar em vias de concreto os antigos mangues e alagadiços, tão prejudiciais à saúde pública, segundo o pensamento higienista da época (ARRAES, 2011, p. 119).

Sumariamente, Perruci (1974, p. 579) elenca algumas das principais reformas relacionadas à modernização urbanística a que a capital pernambucana foi submetida durante o final do século XIX e o início do século XX:

Apresentamos aqui [...] a cronologia da instalação de alguns equipamentos modernos em Recife: 1846 - abastecimento de água canalizada; 1858 - inauguração do trecho Recife-Cabo da estrada de ferro Recife-São Francisco;

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1870 - inauguração da estrada de ferro Recife-Olinda-Beberibe; 1871 - início dos serviços de bondes de tração animal, instalados pela Pernambuco Street

Railway Company; 1873 - serviço telegráfico; 1874 - serviço telegráfico

submarino, em ligação com a Europa; 1881 - serviço telefônico manual; 1885 - inauguração do trecho Recife-Moreno da "Estrada de Ferro Central de Pernambuco"; 1905 - inícios da reforma urbana; 1909 - inícios das obras do porto; 1914 - inauguração do serviço de bondes elétricos; 1915 - nova rede de esgotos; 1924 - inauguração do novo porto; 1925 - inauguração do tráfego aéreo entre Recife-Rio-Buenos Aires; 1927 - serviço telefônico automático.

A construção de uma cidade moderna, não somente estava relacionada à melhoria da infraestrutura urbana, com o fornecimento de água e luz elétrica, mas também aos avanços dos centros acadêmicos, hospitalares e comerciais, nos quais os serviços já atendiam não só a capital como as demais regiões.

Souza Barros (1985) abordou como se configuraram tais avanços no ensino superior, o aparecimento de novas Escolas e Faculdades no Recife, entre os primeiros decênios do século XX. Sinteticamente, o autor registrou que, na capital, em 10 de maio de 1903, foi fundada a Escola de Farmácia; a Escola de Medicina, em 1915. Em 1913, a primeira Escola Superior de Agricultura e Veterinária, no município de Olinda. Em 1920, fundou-se o curso de Química junto à Escola de Engenharia, que já possuía uma tradição no estado. Em 1932, a Escola de Belas Artes do Recife foi inaugurada, e aproximadamente em 1936, transformou-se na Escola de Arquitetura, que “fora antes apenas um dos seus cursos”. “Iniciativa realmente pioneira de Pernambuco é a criação, em fins do ano de 1931, da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais, pois apareceu antes dos cursos de Filosofia de âmbito federal” (BARROS, 1985, p. 199 – 201). Com todas essas mudanças, relacionadas à infraestrutura urbana, serviços nas cidades, formação educacional, o cenário urbano recifense registrava sinais de inquietações. Os bondes, os automóveis, o telefone, modificaram as relações entre o público e o privado. A convivência da modernização com a tradição não era pacífica, causava impactos, admirações, receios (REZENDE, 2002, p. 102). Enfim, aflorava-se todo o tipo de sentimento.

O Recife compreendia uma população de 113 mil habitantes, em 1900; passou para aproximadamente 239 mil, nos anos de 1920, segundo o cômputo censitário. O censo seguinte foi elaborado em 1940, quando o dado se elevou para perto de 350 mil habitantes, o que representou um acréscimo de cerca de 46% da população em vinte anos (MELO, 1978, p. 120; SINGER, 1977, p. 329). A busca por viver em ambientes urbanos crescia, mas no caso do Recife, o crescimento demográfico não está diretamente ligado às atividades econômicas urbanas, e sim, principalmente, ao fator dos fluxos migratórios provenientes da zona da mata,

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devido à decomposição do “complexo rural”5 açucareiro, provocado pela penetração monopolizante da usina no ramo (SINGER, 1977, p. 336).

A implantação das usinas, a seca no sertão, o latifúndio devorador, promoviam o êxodo crescente de trabalhadores para a capital. As indústrias agiam como atrativo. Recife crescia desordenadamente, e não oferecia nem condições estruturais nem geográficas que comportassem essa invasão, questão de ocupação de espaço. Sem emprego fixo, os migrantes eram obrigados a levantar um mocambo num local úmido, perto de algum manguezal que lhes serviria de fonte de alimentos, e ao conseguir um trabalho este não lhe daria uma estabilidade financeira para pagar uma casa de alvenaria em outro espaço (GOMINHO, 1993, p. 38).

2. 2 O ESTADO NOVO E A INTERVENTORIA DE AGAMENON MAGALHÃES

As décadas de 1930 e 1940, foram marcadas por um período de grande agitação mundial, diversos conflitos políticos e crises econômicas ocorreram internacionalmente, como a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) e o surgimento em nações europeias de uma política direcionada a movimentos totalitários6. Toda essa turbulência influenciou diretamente o Brasil, que entrou, nos anos de 1930, numa tendência de políticas econômicas nacionalistas, que vai até os anos de 1945.

Segundo Ianni (1971), nesse período, o Estado passou a intervir de forma cada vez mais decisiva no conjunto da economia. Em grande parte, a reorganização administrativa foi resposta aos problemas imediatos, gerados por crises econômicas e políticas, como foi no caso do governo de Getúlio Vargas, no Governo Provisório (1930 – 1934), no Governo Constitucionalista (1934 – 1937) e no Estado Novo (1937 – 1945) (IANNI, 1971 apud KATO, 1973, p.1).

Conforme Kato,

5 “Complexo rural” é o conjunto de atividades de mercado e de subsistência, que caracteriza nossa agricultura

desde os tempos coloniais. Tem implicações de relações do tipo servil. Em essência, o trabalhador podia dispor de parte da terra para atividades de subsistência desde que produzisse cana para o engenho. Com a vinda das usinas a situação se modificou, pois, a usina é uma fábrica de açúcar, com um investimento complementar na produção (agrícola) da matéria-prima. Muito mais racional é assalariar os trabalhadores e utilizar as áreas, antes ocupadas com culturas de subsistência, para plantar cana. Outro ponto crucial da usina é que o processo de industrialização da cana absorve uma quantidade limitada de mão-de-obra (SINGER, 1977, p.332 – 334).

6 Estão relacionados a regimes de governo de caráter totalitário, denominado de Totalitarismo, o que vem a ser um

sistema político determinado pelo controle absoluto de um indivíduo ou por um partido único que representa o Estado de um país. Regimes totalitários são regidos por um sistema militarista, versada em uma propaganda ideológica de doutrinação, centralização do poder e pela censura.

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Neste momento, o sistema econômico diversificou-se e surgiram novos grupos sociais e políticos que impuseram reformas na estrutura político-administrativa. Concomitantemente à intervenção estatal, esboçaram-se os primeiros traços de uma tecnoestrutura oficial [...]. O planejamento a serviço de uma política econômica, parece ter sido adotado no Brasil [...]. Neste momento, as decisões de caráter econômico-financeiro dependeram, de forma acentuada, da interferência planificada do Estado (1973, p. 1).

É perceptível a predominância do princípio de que o Estado deveria ter qualidades superiores às dos indivíduos e às da sociedade. Foi em meio a essa ideologia que surgiu o Estado Novo no Brasil (1937 – 1945), que conforme Garcia (1982), pode ser compreendido como um momento político no Brasil caracterizado pela expansão do modo capitalista de produção, com suas derivações políticas e ideológicas e uma estratégia para a contenção dos movimentos populares. Segundo Rocha (1989), representou uma saída para a crise de hegemonia instaurada no país desde a Revolução de 30.

De acordo com Santos (2016), é desse modo que o Estado moderno se constitui e é parte essencial para a manutenção do sistema sociometabólico do capital. Com isso, foi instaurado um novo modo de acumulação voltado para o mercado interno e com grande enfoque no setor secundário, tendência essa manifestada desde o movimento de 1930.

Com a Revolução de 19307, Getúlio Vargas tornou-se Chefe do Governo e a partir daí instituiu interventorias nos estados brasileiros. Ele assumiu em 3 de novembro de 1930, em caráter provisório, até 1934, mesmo ano que promulgou a terceira Constituição Brasileira, que incorporou a garantia do voto universal e secreto, também estendido às mulheres; incluiu a justiça trabalhista, pluralidade sindical, dentre outras disposições (COSTA, 2011). Mas, após três anos, Vargas mudou o percurso da política novamente e implantou o Estado Novo.

O golpe de 10 de novembro de 1937, a nível nacional, fez ocorrer uma reordenação das forças que haviam assumido o comando do país em 1930. Esse momento ficou também conhecido como a “Era Vargas”, que tem como características básicas o fortalecimento do Executivo federal e o consequente controle da vida política do país, marcado por um forte autoritarismo. Como afirmou Rocha (1989, p. 36), “[...] um período ditatorial, altamente centralizador e baseado no culto à personalidade de seus líderes como ‘salvador da pátria’, que

7 “Em 3 de outubro de 1930, o presidente da República, Washington Luís, foi deposto por um movimento dirigido

por civis e militares de três estados da federação, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. Terminava assim a Primeira República. (Para maiores informações ver FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930: historiografia e história. 10ªed. São Paulo: Brasiliense, 1986).

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iram promover a ordem e o progresso, no combate ao comunismo como ideologia estrangeira e belicosa”, enfatizando também a união das classes em torno de um plano de interesse nacional. Ao mesmo tempo em que abolia as tradicionais instituições democráticas, buscava uma maior legitimidade junto aos diversos setores da sociedade, procurando incorporar os diversos grupos sociais, inclusive as camadas populares, ao seu projeto. Ele combinou uma estrutura de poder altamente elitista e excludente com base de sustentação policlassista (PANDOLFI, 1984, p. 43 – 44). O nacionalismo, incitado pelo Estado Novo, foi o principal instrumento de promoção de uma solidariedade nacional, acima das lealdades estaduais (CARVALHO, 2002). Nesse regime, o governo federal se manifestou, principalmente, na concentração de poderes no Executivo. “Com o fechamento do Congresso e das Assembleias estaduais, transferiu-se ao presidente o poder de legislar, demitir e afastar funcionários civis e militares. Pelo ‘estado de emergência’ decretado, suspendiam-se direitos políticos e individuais” (GARCIA, 1982, p. 60 – 61).

Segundo Garcia (1982, p. 61), ocorreu um aperfeiçoamento no aparato repressivo, nos órgãos policiais, na censura e também uma reorganização das Forças Armadas, cujo “[...] fortalecimento exigia uma reformulação do sistema de relações entre Estado e sociedade civil que se realizou através da criação de uma estrutura administrativa” hierarquizada, composta por três eixos: a presidência da República, as interventorias controladas pelo DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público) e os órgãos técnicos e burocráticos federais, alguns com poderes normativos e outros desempenhando funções de natureza consultiva.

O Sistema de interventorias, criado após a revolução de 30 e aperfeiçoado com o Estado Novo, era o mecanismo estabelecido para manter o controle dos governos estaduais, para cuja chefia era nomeada pessoas de confiança do Governo Central (os interventores). O DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público), criado em 1938, era um órgão de administração geral. Tinha ramificação em cada estado com função de assessorar os interventores [...]. A articulação entre interventorias e DASP permitia, ao Executivo Federal, exercer o controle absoluto dos estados, que foram transformados em simples divisões administrativas. Com isso, abandonavam-se definitivamente os resquícios do federalismo e dos regionalismos da República Velha (GARCIA, 1982, p. 62 – 63).

Para Garcia (1982, p. 36), o Estado Novo assegurava a unidade da sociedade brasileira garantindo a coesão das classes dominantes, diante de sua abdicação ao exercício do poder em favor de um Estado forte e autoritário, e a submissão das classes subalternas. Permanecendo,

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dessa maneira, a neutralização dos conflitos resultantes das transformações sociais, e permitindo estabelecer as condições necessárias à expansão e diversificação das forças produtivas.

Em Pernambuco, Agamenon Magalhães passou a ser o grande nome de que dispunha Getúlio Vargas para implementar os novos rumos da política brasileira no Estado Novo, assumindo o cargo de interventor do estado em 03 de dezembro de 1937 e Novais Filho como prefeito da capital. Ambos governaram durante o período de 1937 a 1945 (COSTA, 2011).

A política pernambucana foi profundamente marcada pela presença de Agamenon Magalhães, que era considerado um dos autênticos construtores do Estado Novo (PANDOLFI, 1984; 2015). “Interventor de confiança de Vargas, mas estava consciente das reais dificuldades em receber recursos financeiros necessários para enfrentar parte dos problemas econômicos e sociais do estado, então, costumava usar a expressão: ‘Pernambuco cose-se com as próprias linhas’” (PANDOLFI, 2015, p. 42), para impulsionar a população do estado a investir, junto ao governo, nas iniciativas das melhorias regionais.

Pandolfi (2015), em seu ensaio biógrafo, relata que Agamenon Sérgio de Godói Magalhães era

[...] natural do sertão pernambucano, [...] nasce em Serra Talhada, então Vila Bela, em 5 de novembro de 1983. Filho de magistrado interiorano Sérgio Nunes Magalhães e de Antônia Godói Magalhães. [...] Formando-se aos 24 anos de idade pela Faculdade de Direito de Recife (1912 – 1916), inicia sua carreira profissional como promotor público em São Lourenço da Mata, município do interior pernambucano. Fascinado pela política, permanece no cargo de promotor por apenas um ano, sendo eleito em 1918 deputado estadual (2015, p. 25 – 36).

A partir daí, Agamenon iniciou o seu trajeto na vida política. Em 1930, foi membro atuante da Aliança Liberal e revolucionário. No ano de 1933, tornou-se parlamentar da Assembleia Nacional Constituinte, maior destaque da bancada de Pernambuco. Defendeu o intervencionismo estatal voltado a todas as áreas da vida econômica, política e social. E foi ministro a convite de Vargas, em 1934, antes de assumir oficialmente o cargo de interventor em Pernambuco (PANDOLFI, 2015).

Já em posse de suas atribuições como interventor, Agamenon centralizou todas as decisões sobre questões importantes de Pernambuco em suas mãos, assumindo assim não só o comando administrativo do estado, mas, principalmente, o controle político, construindo e

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executando um forte aparelho político-administrativo (ROCHA, 1989). Nesse novo sistema, a composição do pessoal para as secretarias do estado primava por um critério eminentemente político, e as pessoas deveriam ser ligadas ideologicamente ao sistema e, principalmente, ser personalidades locais.

Para Padilha, Agamenon exerceu no estado um aprimoramento do autoritarismo e

[...] buscou doutrinar e estabelecer a hegemonia do poder do Estado sobre a população com um discurso conservador, [...] que buscava o consenso, além de algumas práticas que ele dizia serem voltadas para o bem-estar social do povo. Na realidade, estava comprometido com os interesses da classe dominante daquela época, acreditava na possibilidade de uma cooperação entre capital e trabalho, criando uma máscara que escondia as contradições de interesse entre a classe trabalhadora e a classe dos capitalistas (2008, p. 82).

Pode-se dizer que o governo intervencionista de Agamenon tinha uma política de caráter populista, pela qual buscava ter legitimidade junto à população, se identificando como defensor dos interesses coletivos. Conforme Rocha (1989), o governador tinha um caráter peculiar em sua atuação política: “[...] percebeu como poucos, a necessidade de incorporar as massas populares ao processo político”, e “[...] apresentando o Estado como intérprete do pensamento coletivo das ações a serem empreendidas por toda a sociedade para que fosse alcançado o bem-estar social, através da ordem e do progresso” (1989, p. 15 – 16).

Além de contar na sua administração com a efetiva colaboração do poder central, Agamenon estabeleceu de imediato vínculo forte entre a interventoria e a Igreja Católica, que era uma instituição de destaque pela grande penetração popular, e esse pacto “[...] concretizou-se sob a forma de uma nova ‘ordem simbólica’, cristã, que tinha como objetivo legitimar o novo regime junto às massas” (ALMEIDA, 2001, p. 96), e também por meio da influência da sua doutrina social, por intermédio das encíclicas, que buscava acalentar os conflitos reais entre os trabalhadores e a classe patronal (MÉLO FILHO, 2006).

A mesma preocupação em colocar pessoas comprometidas politicamente com a nova ordem estende-se para todos os órgãos administrativos e entidades classistas importantes, pois, é nesse sentido que o Estado, através das associações, entidades e sindicatos, tentava mobilizar os diversos segmentos da sociedade, mobilização essa controlada e orientada para atender aos interesses específicos da própria interventoria (PANDOLFI, 1984, p. 48 – 54).

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Essa postura de Agamenon Magalhães, “[...] consistia em um instrumento de dominação de classe, pois, buscava impedir que as classes subalternas se tornassem conscientes de sua posição social e de seus reais interesses” (ROCHA, 1989 p. 123).

No projeto ideológico estadonovista, cujo objetivo principal era conseguir uma grande legitimidade através de uma ampla doutrinação política, os meios de comunicação, principalmente a imprensa, tiveram uma função bastante considerável e o esquema de divulgação das propostas de intervenções de Agamenon Magalhães e suas realizações foram constantemente publicizados em periódicos da época (PANDOLFI, 2015; ALMEIDA, 2001). “O tratamento dado à imprensa era um exemplo vivo da centralidade e do autoritarismo do regime político vigente no país” (PANDOLFI, 2015, p. 73). Essas parcerias evidenciavam quase sempre a proteção do Estado e dos seus representantes, objetivando tanto a divulgação dos atos do Estado e a doutrinação, como o controle de parte da população que viesse a levantar-se contra o regime (MOURA, 2010). Segundo Gominho (2011), a imprensa levantar-se submetia à censura do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP)8 e usava seus meios para cooperar com o Estado.

Logo após assumir a interventoria, Agamenon Magalhães apresentou algumas propostas de governo, que o mesmo julgou necessárias para solução dos problemas relacionados aos setores econômico e social. Além da urbanização da capital pernambucana, os setores definidos como prioritários foram: habitação popular, saúde pública e educação9.

Conforme Pandolfi (2015), apenas após 1945, em nível nacional, o problema habitacional para classes médias passou a integrar a agenda do setor público. No entanto, a interventoria pernambucana a definiu como uma das metas prioritárias de seu programa governamental, como foi o caso da campanha contra os mocambos, que instituiu a política de habitação do governo, e era associada à política de saúde.

Para o pensamento elitista da época, as suscetíveis condições habitacionais dos trabalhadores e a concentração promíscua nas cidades eram responsabilizadas pela imoralidade e a desordem então reinantes. Segundo Gominho (1997, p. 85), em 1931, no I Congresso

8 “O DIP também foi responsável pela introdução do programa radiofônico ‘Hora do Brasil’, que era transmitido

por todo o país das 19h às 20h. Nele, mostravam-se as realizações do governo e eram reproduzidos os discursos de Vargas em solenidades. Hoje, ainda é veiculado com o nome de ‘A Voz do Brasil’” (BRASIL. Getúlio Vargas: o político e o mito. Câmara dos Deputados: Brasília, 2014).

9 O critério adotado para seleção das medidas em nosso estudo está em privilegiar as iniciativas relacionadas ao

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Brasileiro de Habitação, em São Paulo, profissionais de todas as regiões do Brasil, como engenheiros, arquitetos e sociólogos, responsabilizaram a moradia popular

[...] pela produção de comportamentos desviantes, como a prostituição e o crime, que revelam a baixa moralidade das populações pobres. Por isso, a questão da habitação popular constitui um entrave ao progresso econômico da nação, que necessita de trabalhadores fortes e sadios (RAGO, 1985, p. 193 apud GOMINHO, 1997, p. 85)

Um dos lemas do ideário político de Agamenon Magalhães era transformar Recife em uma grande metrópole (ALMEIDA, 2001) e a existência dos mocambos seria uma barreira para tal. Essa ideia assumiu forma no seu interesse à continuação da modernização dos espaços da capital pernambucana, objetivando o progresso e com isso se fundamentou na Lei nº 374, de 1936, denominado Regulamento de Construções do Município, que esteve vigente até o Código de Obras de 1961. Tal lei abordava algumas inovações, como o zoneamento de funções, que dividia a cidade em quatro zonas: principal, urbana, suburbana e rural. “Apresentava um caráter segregador, com a proibição de construção de habitações mais pobres nas zonas mais centrais” (OUTTES, 1997 apud COSTA 2011, p. 61).

Para Almeida (2001, p. 128),

[...] destruir o velho e construir o novo transformaram-se em prioridades do governo [...], que, endossado ao ideário político [...] viu-se nas construções populares uma forma de colocar em prática o que, até então, era apenas projeto social. Essas construções apresentam-se em duas vertentes que se completavam: uma que construía habitações populares para a erradicação dos mocambos na cidade; e outra, que construía destruindo a tradição e buscando criar [...] o moderno, sob o artifício do embelezamento. [...] Na medida em que eram construídas as habitações populares, vilas operárias, das lavadeiras, a interventoria estaria limpando e higienizando a cidade, destruindo o mocambo e pardieiros.

Segundo Lima, a política de habitação apresentava um discurso voltado para o acesso à residência da população pobre, mas na prática, se tinha como objetivo uma limpeza citadina, com a extinção dos mocambos, numa visão higienista e de modernização preconceituosa (2012, p. 94 – 95). Nesse sentido, Agamenon desencadeou uma campanha cruel contra os mocambos, mandando destruir, na calada da noite, tais habitações dos moradores vindos do interior (PADILHA, 2008). Segundo Padilha, “[...] a existência dos mocambos já havia preocupado o

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geógrafo Josué de Castro10 que estudara as condições de vida da população que habitava o Recife”, catalogando que aproximadamente uma terça parte da população encontrava-se em condições de absoluta pobreza11 (2008, p.82).

A campanha pela extinção dos mocambos se tornou uma das principais metas político-administrativas do interventor, criando, em 12 de julho de 1939, a Liga Social Contra o Mocambo (LSCM), uma entidade privada de caráter humanitário, que tinha como objetivo principal a construção de casas populares para a população menos favorecidas do estado (PANDOLFI, 1984). “A liga vai ser um dos focos de grande propaganda da interventoria, pois essa ação perpassa a derrubada dos mocambos, ao tempo que condizia com os projetos de urbanização da cidade e reestruturação da família como divulgava o governo” (MOURA, 2010, p. 23).

Agamenon Magalhães, na urgência de implementar o programa de destruição dos mocambos, alegava que por serem construídos em terrenos de mangues, que julgava insalubres, os seus moradores estariam expostos às doenças decorrentes da falta de higiene e nível de insalubridade, provocando problemas sérios de saúde. Apresentava também que o grande número de mocambos e inchação do Recife iriam dificultar a prestação de infraestrutura urbana, pelo governo a toda população (ROCHA, 1989).

10 Josué de Castro foi um médico pernambucano, nascido na cidade do Recife, que diante da sua formação

profissional e vivência levantou inquietações acerca da fome, das condições de vida dos operários e de seus direitos. A partir de 1930, tornou-se docente e lecionou em diversas instituições no Brasil e no exterior. Na década de 1940 dedicou-se à escrita, publicando obras direcionadas às condições de vida dos trabalhadores do Recife e no Brasil. Dois de seus livros “A Geografia da Fome” (1946) e “Geopolítica da Fome” (1951) o lançariam como autor mundialmente conhecido. Tem em sua biografia duas indicações ao prêmio Nobel da Paz, 1963 e 1970 (FERNANDES; GONÇALVES, 2007).

11 Vale lembrar que o fluxo migratório, proveniente de variadas localidades do Nordeste para o Recife, causou um

crescimento populacional que não correspondia a um desenvolvimento socioeconômico da cidade. Ocorreu fruto de um forte desequilíbrio regional, desde o século XIX, que engloba tanto o caso das secas ou guerras, como relacionado à própria estrutura produtiva da região (PANDOLFI, 2015, p. 83).

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Imagem 1 – A fundação da primeira Liga Social Contra o Mucambo

Fonte: Diário de Pernambuco, 12 jul. 1939, p. 12.

Os grandes periódicos pernambucanos da época divulgavam uma intensa mobilização dos setores do governo e da sociedade civil em torno da proposta de assistência social que o governo de Agamenon Magalhães propôs. No jornal Diário de Pernambuco, por exemplo, foi notícia de destaque a criação da primeira Liga Social contra o Mocambo em Pernambuco (LSCM), tendo sua reunião de fundação no palácio do Governo, na qual iria tratar dos “[...] elementos de destaque nos círculos sociais, industriais e comerciais do estado” (DIARIO DE PERNAMBUCO, 1939, p.12), sob a presidência do interventor Agamenon Magalhães e diversos convidados que se encontravam nesses parâmetros.

Os jornais, nesse período, como maiores difusores de informações, incentivaram a concretizar o pensamento da intervenção do Estado na questão dos mocambos e convencer a sociedade a participar desse projeto. Segundo Pandolfi (1984), os meios de comunicação, principalmente a imprensa, tiveram uma função bastante importante. O papel da imprensa estava como um agente mediador na relação de governantes e governados.

A LSCM funcionava com recursos de doação dos empresários, associações de classe, de entidades e de particulares, agregando-se aos recursos do governo, ou seja, os principais financiadores eram os que exprimiam preconceitos sobre os mocambos. Esses aliados estavam

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