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PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014)

Baile Charme: O Lugar Construindo Identidade

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Libny Silva Freire2

Universidade do Estado do Rio de Janeiro Resumo

Compreendendo o baile charme, que ocorre no bairro de Madureira há 24 anos, como uma manifestação cultural carioca, trabalharemos o conceito de cultura e os aspectos ligados à construção da identidade do consumidor deste gênero musical, a partir do conceito de lugar, entendido aqui, não somente como espaço físico, mas como um local de interações sociais, onde memórias são acionadas, e significados são produzidos, suscitando emoções e valores, contribuindo na construção de uma identidade, no nosso caso, a identidade do charmeiro, assim chamado o consumidor do baile charme.

Palavras-chave: Música; Cultura; Memória; Lugar; Identidade.

Descobrimento do povo e sua cultura

O surgimento do interesse pela cultura popular é documentado a partir do fim do século 18 e início do século 19. O povo – folk – surge como tema de interesse para os intelectuais europeus. Peter Burke traça o histórico dos estudos europeus sobre a cultura popular. O autor nos fala sobre a descoberta do povo, isto é, a elite culta europeia descobrindo o povo, considerado inculto, misterioso e, sobretudo, selvagem. A descoberta do povo se inicia a partir do olhar direcionado aos contos, religião, festas e músicas. Segundo Burke, os camponeses assistiram a uma invasão de intelectuais, pedindo a eles que entoassem suas canções, baladas e modinhas

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Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho Comunicação, Consumo e Memória: cenas culturais e midiáticas do 4º Encontro de GTs - Comunicon, realizado nos dias 08, 09 e 10 de outubro de 2014.

2 Doutoranda em Comunicação (PPgCOM/UERJ), jornalista e mestra em Estudos da Mídia

(PPgEM/UFRN). Membro do grupo de pesquisa CAC – Comunicação, Arte e Cultura – (CAC/UERJ-PPgCOM). Pesquisa, cidade, comunidade, representação social, cultura e música. Contato: [email protected].

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A balada popular [...] é resgatada das mãos do vulgo para obter um lugar entre as coleções do homem de gosto. Versos que poucos anos atrás eram considerados dignos somente da atenção das crianças são agora admirados por aquela simplicidade natural que outrora recebeu o nome de grosseria e vulgaridade (BURKE, 2010, p.29).

Os irmãos Grimm3 auxiliaram nesse processo de descoberta e ênfase na cultura do povo, utilizando o conto popular – transmitido por tradição oral – e associando a poesia e o conto ao povo, impulsionando assim, o surgimento de coletâneas de canções populares. Além da canção popular, outras formas de expressão popular também passaram a ser consideradas elegantes, cultas e refinadas. O povo então, passa a ser visto como o que é tradicional, verdadeiro e legítimo

As ilustrações mais marcantes das novas atitudes em relação ao povo talvez provenham dos viajantes, que agora iam em busca não tanto de ruínas antigas, mas de maneiras e costumes, de preferência os mais simples e incultos (BURKE, 2010, p.31).

A razão do interesse pelo povo, esclarece Burke, deve-se a diversos fatores, como por exemplo, a estética, pois o povo sendo visto como manifestação da cultura significava o rompimento com as regras do Classicismo, nesse novo cenário, o artificial é que era o polido, o erudito era considerado pejorativo, enquanto que o natural era elogiado, pelo fato de ser selvagem.

Na Espanha os nobres passaram a querer se identificar com o povo, através das vestimentas e da participação nas festas populares. A partir destes interesses, foram surgindo questionários – pesquisas - sobre poesia (Escócia), sobre festas,

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Nascidos em Hanau, Jacob Grimm em 1785 e Wilhelm Grimm em 1786, os irmãos Grimm se dedicaram à literatura. Reconhecidos no mundo inteiro pela qualidade dos contos que produziram desde o começo do século XIX, os irmãos Grimm afirmavam que estavam apenas escrevendo, durante a noite, as histórias que escutavam de camponeses, amigos e parentes durante o dia. Uma das histórias mais famosas da humanidade, Branca de Neve, foi passada para os irmãos Grimm por 2 amigas de sua família. Escreveram 200 contos aproximadamente e suas histórias sofreram modificações ao longo dos anos. Disponível em http://www.infoescola.com/biografias/irmaos-grimm/. Acesso em 23 de julho de 2013.

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medicina, feitiçarias, etc. (Academia Céltica) e pesquisas aplicadas a funcionários públicos (Itália), que depois vieram a ser publicadas como uma obra sério-jocosa. Os autores utilizavam pseudônimos, pois termos pejorativos eram associados a tais obras, ligando-o ao misticismo e superstições.

A ideia de cultura popular (pequena tradição cultural) era usada para contrastar com a ideia de cultura erudita (grande tradição cultural), onde não era permitido ao povo participar da grande tradição, mas, à elite era permitido participar da pequena tradição, seja através das festas ou danças. A cultura popular era enxergada no campo, através dos camponeses, pastores e mineiros, e na cidade era representada pelos artesãos – tecelão e sapateiro – que, diferente do que se acreditava, também se apropriavam das práticas culturais da grande tradição, como por exemplo, na construção de suas casas que imitavam o estilo da nobreza (BURKE, 2010).

Diante desse breve histórico, construído pelo Burke, a cultura se apresenta como algo difícil de conceituar, impossível de se colocar em blocos, de delimitar - onde começa uma e termina outra prática – de onde vieram suas influências, pois, a esta altura da nossa discussão, já se tornou impossível admitir a ideia de purismo, pois, por mais pura que se pareça uma tradição, se investigada, irá revelar um repertório comum a outra tradição, práticas, usos ou costumes, pois as culturas são “contaminadas” (BURKE, 2010, p.100), não havendo, portanto, razão para admitirmos que uma seja melhor do que a outra, que o erudito seja superior ao popular.

Compreendemos que não há necessidade da utilização do termo “popular” para definir determinada prática cultural, ora, se é cultura é do povo, portanto, popular, já está subentendido na palavra cultura. Michel de Certeau (1995) indaga sobre o direito que tem um grupo de definir, em lugar dos demais, aquilo que deva ser considerado cultura

A relação da cultura com a sociedade modificou-se: a cultura não está mais reservada a um grupo social: ela não mais constitui uma propriedade particular de certas especialidades profissionais (docentes e profissionais liberais) ela não é

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estável e definida por um código aceito por todos. CERTEAU (1995, p.104).

Essas categorizações – erudita e popular – que ameaçam a própria criatividade (CERTEAU, 1995), baseadas no entendimento da cultura tradicional como imutável e ritualística, seja ela, erudita ou popular, revelam-se falhas, pois a cultura é híbrida, e se apresenta como processos socioculturais, que combinados a outras práticas, que existiam de formas separadas, geram “novas estruturas, objetos e práticas” (CANCLINI, 2003, p.19).

... hoje todas as culturas são de fronteira. Todas as artes se desenvolvem em relação com outras artes: o artesanato migra do campo para a cidade, os filmes, os vídeos e canções que narraram acontecimentos de um povo intercambiados com outros. Assim as culturas perdem a relação exclusiva com seu território, mas ganham em comunicação e conhecimento (CANCLINI, 2003 p. 348).

A cultura surge das práticas dos diversos sujeitos, dos seus diferentes modos de vida, de suas emoções e sentimentos, que são ressignificados continuamente, a partir dos seus territórios. “Não existia uma tradição popular imutável pura nos inícios da Europa moderna, e talvez nunca tenha existido” (BURKE, 2010, p.49). A cultura contemporânea é agregadora e intercultural, promovendo trocas e reunindo diversas expressões e práticas culturais diferentes.

Dentre as inúmeras práticas culturais, propomos um olhar sobre a cultura, a partir da música, que se apresenta como uma forma de comunicação, ou melhor, que possui diversos fluxos comunicacionais, capazes de promover interações, acionar memórias afetivas, representar identidades, ao mesmo tempo em que as constroem, e que são capazes de representar lugares a partir do seu consumo por determinado grupo.

Em nosso artigo, utilizaremos para nossas observações e compreensão, o baile charme, em especial, o que ocorre no bairro de Madureira, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

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Memória e música: O conceito de lugar

O charme, como gênero musical surge no Brasil a partir dos anos 80, influenciado pelo rhythm and blues 4˗ R&B ˗ americano. A música, essencialmente, executada por dj’s nos chamados bailes charme, rapidamente se espalha pelo chamado subúrbio carioca e, o baile onde o gênero é consumido, se firma como característico da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. O mais antigo em relação ao número de edições é o que ocorre no bairro de Madureira, Zona Norte carioca. Há 24 anos, a escola de samba Pagodão de Madureira organizava o primeiro baile charme, passando a adquirir o nome de Baile Charme de Madureira. No local, ao som de soul e hip hop, os participantes – em grupo – envolvidos com a dança, ensaiavam passos, coreografia que veio a ser denominada de passinho.

O termo “charme” foi cunhado durante um baile no Clube Mackenzie5, localizado no Méier, também Zona Norte carioca. Marco Aurélio Ferreira, o DJ Corello, observou os passinhos e elogiou a dança realizada com charme pelo público. Corello6, dj há 35 anos, explica que o passinho, característico do baile charme, se iniciava a partir da mudança da música romântica - mais lenta - para a mais dançante, e que para avisar ao público dessa transição, dizia Chegou a hora do charminho/Mexa

seu corpo devagarinho, batizando assim o gênero musical. Os frequentadores

passaram a ser denominados charmeiros, portanto, quem consome o gênero, vai ao

charme, dançar charme e ouvir charme.

Realizado todos os sábados, embaixo do viaduto Negrão de Lima, o baile charme de Madureira é designado como O maior e melhor baile charme e hip hop do

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Nascido no início de 1980 (EUA) refere-se aos estilos musicais influenciados pelo blues, gospel, jazz e soul. No Brasil surge como um gênero da black music, misturado à hip hop, funk e soul. Disponível em http://louderthanmusic.blogspot.com.br/2011/02/rhythm-and-blues.html. Acesso em 02 de abril de 2012.

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Disponível em http://casaldelobos5.zip.net/arch2012-04-08_2012-04-14.html Acesso em 28 de abril de 2012.

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Rio. 7 e, quando o baile passou a ter apoio municipal, recebeu novo nome: Espaço

Cultural Rio Charme. Em decreto recente, publicado no Diário oficial do munícipio

do Rio de Janeiro, o baile charme foi cadastrado como bem cultural da cidade. Um dos trechos afirma que considera o charme uma genuína invenção carioca. A nota oficial também destaca os locais de consumo da música charme: “O baile charme é cultuado, principalmente, na Zona Norte da cidade, seja em clubes, agremiações recreativas e espaços públicos como a área do Viaduto de Madureira”8.

Figura 1: Fachada do baile charme de Madureira.

Fonte: Libny Freire, 2014.

Figura 2: Baile charme de Madureira. Visão do palco onde fica o dj.

7 Disponível em http://viadutodemadureira.com.br/blog/ Acesso em 02 de abril de 2012. 8

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Fonte: Libny Freire, 2013

Entendemos que a música, no nosso caso, o charme, contribui para a criação da ideia de lugar que as pessoas constroem ao se tornarem frequentadoras, assim como reconhecemos que os mais diversos significados são produzidos a partir da ideia de um mesmo lugar por variadas pessoas. “Claramente, os lugares afetam as pessoas, e as pessoas os criam ou os mudam” (CARNEY, 2007, p.124).

A nova geografia cultural busca entender como os lugares são apropriados simbolicamente pelas pessoas, e não tão somente, fisicamente, o objetivo é compreender como as pessoas vivem e experienciam esses lugares, inclusive como esses sentidos são produzidos em grupo a partir de diversas práticas culturais. “O espírito ou personalidade de um lugar surge de experiências habituais ou memoráveis a ele associadas” (CARNEY, 2007, p.146). Essas interações dão sentido ao lugar, exemplificamos isso, através do baile charme, que além de um espaço físico é uma representação de memórias, de interações, de trocas entre sujeitos.

Tomando o conceito de lugar, a partir da nova geografia cultural, consideramos

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clima e o solo que o caracterizam e que são determinados materialmente, fisicamente. Em relação ao lugar construído a partir de memórias e interações de seus participantes, sua função não está definida

A base de recursos, por exemplo, é fisicamente determinada, mas a maneira como os recursos são percebidos e utilizados é uma questão culturalmente condicionada. As pessoas modificam a paisagem natural de um determinado lugar, simplesmente ao ocupá-lo (CARNEY, 2007, p.125).

Esses aspectos naturais dos recursos são utilizados de acordo com a ocupação, com os usos que se faz deles. Essas apropriações que alteram o modo como são utilizados, por exemplo, o viaduto de Madureira, que é um local para o trânsito de veículos e aos sábados é reconfigurado, ressignificado para ser um palco, uma pista de dança, um local de encontro, de paquera, um ambiente festivo – e muitas outras funções que não citamos aqui – funções que se alternam ou se apresentam juntas, variando de sujeito para sujeito. As pessoas ressignificam os lugares, se apropriam e constroem novas funções para os espaços.

...o relacionamento de pessoa e lugar é recíproco - uma simbiose pessoa-lugar. Além disso, a maioria deles [pesquisadores] sustenta que lugar não é apenas onde algo está situado; o próprio lugar incorpora significado, que depende da história pessoal que uma pessoa traz para ele (CARNEY, 2007, p.127-128).

Para exemplificarmos as construções que fazemos de um lugar, a partir de interações e memória (história pessoal), apresento abaixo, um breve relato de minha experiência como pesquisadora e, portanto, frequentadora do baile charme de Madureira:

Em minha primeira visita ao baile, eu tinha acabado de chegar ao Rio de Janeiro, mal sabia me deslocar na cidade. O que eu sabia – e só sabia ou pensava que sabia – era sentir saudade do Nordeste. O que eu sabia é que existia um baile, e naquele momento, era o objeto que emergia como uma pesquisa desafiadora e instigante para mim como pesquisadora e, claro, jornalista. Na ansiedade de me apresentar ao objeto

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e, do objeto ser apresentado a mim, cheguei horas antes do horário em que dizem que o baile bomba. Ver aquela estrutura de aço e cimento, vazia e, aparentemente, fria de concreto, com os carros circulando por cima e aos arredores, se transformar aos poucos numa pista de dança – uma coisa viva, pensei – foi impressionante. Confesso que cheguei a me perguntar Como isso vai tomar forma? O clima será festivo? Vou

sentir a vibração do lugar? Ou melhor, há uma vibração característica daqui?.

Sentimentos de surpresa, de emoções que misturavam saudade de casa – casa de mãe, obviamente – e aquele baile que tomava forma e se desfazia em canhões de luz e cores, ao mesmo tempo em que se construía e se reconstruía diante de mim. Os charmeiros chegavam, em grupos ou sozinhos, e eu me impressionava cada vez mais, com tantas influências no vestuário, de cores, de formas, de penteados. A batida que te leva a vibrar com o corpo, mesmo sem intenção de executar uma coreografia, te faz entender que o melhor é se deixar levar. Dois anos se passaram, fui descobrindo que charme é pra dançar, é pra ouvir, é pra disputar nos passinhos, é pra paquerar com um passo e um olhar, é pra cumprimentar e, sobretudo, celebrar. E até hoje, celebro. Aos sábados, embaixo do viaduto, ou melhor, Dutão para os íntimos. Se pararmos um segundo, veremos os carros que passam em cima, parando, reconhecendo aquele novo lugar, que toma forma a partir da música. Voltar ao baile, me remete àquela primeira vez, de descobrimento, ainda lembro da saudade que sentia e que me apertava a garganta, da descoberta do, até então, desconhecido. A cada visita, o baile me dá novas impressões, novas interações, mas a memória – e as sensações – que tenho da primeira vez, sempre ressurge, e junto a ela vão se somando outras, construindo significados desse lugar.

O lugar é construído a partir de experiências pessoais e em grupo e a música auxilia na construção da ideia de lugar, “ajuda a criar uma ligação emotiva humana a um lugar particular” (CARNEY, 2007, p.147) O baile charme ocorre, primordialmente, em torno da discotecagem eletrônica do gênero, a música ajuda na construção do que seja uma identidade do frequentador, o charmeiro, influenciando na

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sua conduta no baile, no vestuário, na dança, que pode ser executada em grupo ou sozinho, mas, preferencialmente, em grupo, “assim música tanto reflete quanto influencia as imagens que as pessoas possuem de lugares e a forma como essas imagens mudaram significativamente as atitudes das pessoas para com lugares” (CARNEY, 2007, p.145).

O charme é um gênero musical que fortifica a interação entre os sujeitos, e nessa promoção, identidades são construídas a partir do consumo da música e do lugar, denominado baile charme

Lugar se refere a um local, mas especificamente, aos valores que associamos a esse local. Profundos laços psicológicos e emocionais se formam entre as pessoas e os lugares que elas experimentam. Todos reconhecemos que alguns locais são, de algum modo, distintivos para nós ou para outros. Um lugar, então, é um local que tem uma identidade particular (CARNEY, 2007, p.146).

Lugar representa construção de identidade, seja particular ou em grupo. Ao analisarmos o baile charme, buscamos identificar como as representações dessa identidade do charmeiro toma forma no baile.

Charmeiros: A construção de identidade no baile

A sociabilidade é formada a partir do sentimento e satisfação do indivíduo em estar socializado, compartilhando interesses e necessidades específicos de um grupo (SIMMEL, 2006). Nessas interações, identidades são construídas, identidade aqui, entendida tanto como de pessoas como de lugares. Trabalharemos com a identidade do charmeiro (pessoa) construída a partir do consumo do baile (lugar). “Determinadas identidades ou, caso se preferir, facetas de uma identidade, manifestam-se em função das condições espaço-temporais em que o grupo está inserido” (HAESBAERT, 1999, p.175).

O charmeiro adquire experiências a partir desse ambiente e revela-se um sujeito que se projeta no outro e depende do outro para se fazer sujeito: ele se reconhece charmeiro no outro charmeiro. “Identificar, no âmbito humano-social, é

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sempre identificar-se, um processo reflexivo, portanto, e identificar-se é sempre um processo de identificar-se com, ou seja, é sempre um processo relacional, dialógico, inserido numa relação social” (HAESBAERT, 1999, p.174).

Esse sentimento de identificação de um indivíduo com outro que se estabelece através do gosto, do estar junto, do sentimento de pertencimento (MAFFESOLI, 2002), no nosso caso, o pertencimento e a identificação com o lugar, é associado à identidade que representa o charmeiro. “Graças às interações que desenvolvem entre si, os indivíduos se beneficiam de um reconhecimento coletivo e adquirem uma identidade” (CLAVAL, 2001, p.75). Lembramos que ser charmeiro não impede o sujeito de ser funkeiro ou roqueiro, pois a presença de uma identidade não anula as possibilidades de se possuir outras identidades.

Eu me defino em relação ao outro (charmeiro/charmeiro; funkeiro/roqueiro, etc) a identidade é múltipla, pois entendemos a identidade como um processo, algo em movimento, sempre em curso, sendo mutante (HAESBAERT, 1999). A finalidade da relação do homem com espaço/lugar é “construir sua identidade por meio do sentido dado às coletividades às quais estão ligados e aos lugares que habitam” (CLAVAL, 2001, p.40). A construção da identidade se dá através das experiências vividas, em como se reage a elas, como se comportam, como interagem com outras pessoas. Ser charmeiro surge como uma nova forma de uma identidade social, onde música e lugar são essenciais nessa construção.

Conclusão

Os grupos, que se expressam e se comunicam culturalmente através de oralidade, escrita, usos, costumes, danças, entretenimento, consumo, etc., e também se relacionam com outros determinados grupos com práticas similares e/ou diferentes das dele. Certeau (1995) afirma que a pluralidade na cultura é rica, justamente, devido a essas trocas, que permitem o surgimento de novas práticas. O soul não foi desintegrado e sumiu quando chegou ao Brasil: Deu origem ao funk e ao charme na cidade do Rio de Janeiro.

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Segundo Peter Burke, tentar definir cultura é tentar definir o indefinido. O termo cultura inclui a cultura cotidiana, ou seja, os valores, costumes e modos de vida. A essa perspectiva de cultura, somamos a ideia de música e lugar, na construção de uma identidade, no nosso caso, a identidade do charmeiro.

Ao considerarmos a música na construção social da identidade, entendemos que não é somente o gênero musical responsável por essa construção. Compreendemos que tudo significa nas relações sociais: modo de falar, de vestir, de dançar, de cumprimentar, de experienciar o lugar, etc. Essas relações, reveladas como práticas culturais do sujeito e apresentadas sob a forma de sociabilidade do grupo, constroem – e reconstroem – a ideia de lugar.

A identidade do charmeiro, assim como suas práticas sociais, são múltiplas e reveladas a partir da sociabilidade e do lugar como um local de interações, trocas e memórias. Esse conjunto de significados, resultante do consumo da música, do lugar e da identidade, vão sendo ressignificados a cada edição da festam, aumentando assim, os fluxos comunicacionais entre os charmeiros, contribuindo para que novas formas de vida em sociedade se manifestem.

REFERÊNCIAS

BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna: Europa, 1500-1800. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

CARNEY, G. O. Música e lugar. In Literatura, música e espaço. Roberto Lobato Corrêa, Zeny Rosendahl (Orgs.). Rio de Janeiro: Eduerj, 2007.

CLAVAL, P. O papel da nova geografia cultural na compreensão da ação humana. In Matrizes da geografia cultural. Roberto Lobato Corrêa, Zeny Rosendahl (Orgs.). Rio de Janeiro: Eduerj, 2001.

CERTEAU. Michel de. A cultura no plural. Trad. Enid Abreu Dobránsk. Campinas: Papirus, 1995.

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GIDDENS, Anthony. Modernidade e identidade. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

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PÉREZ, Léa Freitas Antropologia das efervescências coletivas. In: A festa na vida significado e imagens. Org. Mauro Passos / org. Mauro Passos. Petrópolis: Vozes, 2002.

SIMMEL, Georg. Questões fundamentais da sociologia: indivíduo e sociedade. Trad. Pedro Caldas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

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