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RELATÓRIO DO FÓRUM DE ÉTICA EM PESQUISA

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RELATÓRIO DO FÓRUM DE ÉTICA EM PESQUISA

REALIZADO NO

XIV SIMPÓSIO DA ANPEPP – BELO HORIZONTE

JUNHO DE 2012

A proposta central da Comissão de Ética em Pesquisa da Anpepp para este Fórum consistiu na realização de um debate a respeito da exigência, ou não, por parte das revistas científicas de Psicologia, de certificado de aprovação da pesquisa por um Comitê de Ética, como condição para submissão/publicação de artigos. Para fomentar o debate, foram convidados dois editores de revistas com políticas distintas em relação a essa questão. O objetivo do debate era conhecer e refletir sobre os argumentos que embasam as decisões políticas nesse aspecto. O Fórum se constituiu por três partes: 1-apresentação do percurso que fez a Comissão nos últimos dois anos e, no que tange ao tema específico do Fórum, 2-exposições dos professores Ronaldo Pilati e Denise Bandeira (editores convidados) e 3-debate aberto à plateia presente. A seguir são expostos sucintamente destaques de cada desses momentos sendo, em seguida, sumariadas as propostas encaminhadas pelo Fórum.

1. APRESENTAÇÃO DO PERCURSO DA COMISSÃO DE ÉTICA/ANPEPP NA GESTÃO 2010/2012 – (Selma Leitão, UFPE, Coordenadora da Comissão)

1.1 Ponto-chave das discussões até então conduzidas pela Comissão

Necessidade de revisão crítica da Resolução CNS 196/96 de modo que venha a contemplar os diferentes marcos teóricos e metodológicos da área da psicologia e demais áreas das ciências humanas e sociais. Sugestões nessa direção foram encaminhadas ao Ministério da Saúde/CNS/CONEP quando da resposta da Anpepp à Consulta Pública para a revisão da Resolução CNS 196/96 feita pelo Ministério da Saúde entre setembro e novembro de 2011. 1.2 Ações realizadas nesta direção

(a) Busca de articulação com outras áreas

- Contatos realizados notadamente com ABA, ANPOCS, ABRASCO, RENETO e ANPED.

(b) Acompanhamento de Projetos de Lei relativos à regulação da ética em pesquisa envolvendo seres humanos. Situação dos projetos existentes:

- PL 2473/2003, Dep. Colbert Martins – arquivado em vista da não reeleição do proponente. - PL 78/2006, Sen. Cristovam Buarque (estabelece punições para as violações às diretrizes; co-responsabilização da instituição) – em tramitação: (2009) rejeitado pelo relator da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania/CCJ; (2010) aprovado pelo relator da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa/CDH; (2012) Encaminhado à CCT para decisão terminativa. (c) Busca de interlocução com a Conep

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- Articulação (bem sucedida) com associações de pesquisadores de outras áreas e CEPs/Psicologia para indicação do nome Iara Guerreiro como membro da Conep.

- Resposta à Consulta Pública para a revisão da Resolução CNS 196/96 (1.1 acima).

- Aceitação de convite para participação no Seminário Temático ‘Pesquisas em Ciências Sociais e Humanas: Revisão da Res. CNS 196/96’, promovido pela Conep (Brasília, agosto de 2012). (d) Busca de apoios institucionais

Contato intensificado com a SBPC: 1-promoção de mesas-redondas nas reuniões anuais da SBPC para discussão de ética em pesquisa. 2-Encaminhamento, em conjunto com a Abrasco, de moção propondo a criação, pela SBPC, de um GT multidisciplinar sobre ética na pesquisa em ciências sociais e humanas, constituído por representantes de entidades de pesquisas de diferentes campos do conhecimento e com o objetivo de discutir e propor o aprimoramento das normas brasileiras. Essa moção se originou no contexto da mesa-redonda organizada pela Anpepp e Abrasco na reunião anual da SBPC/2010. 3-Esforços continuados da Anpepp junto à presid~encia da SBPC no sentido de assegurar a efetiva constituição do GT.

2. APROVAÇÃO DE PESQUISAS POR COMITÊ DE ÉTICA COMO EXIGÊNCIA PARA SUA PUBLICAÇÃO – APRESENTAÇÃO DOS ARGUMENTOS DE EDITORES

2.1 Ronaldo Pilati (UnB) – editor da Revista Psicologia Teoria e Pesquisa (a) Destaques iniciais

- Distinção importante: Ética na pesquisa em ou com seres humanos.

- Em geral as manifestações da psicologia indicam a não conformidade da resolução 196/96, com ênfase na área biomédica, com as questões da ética de pesquisa em psicologia

(b) Argumentos contrários a que se condicione a submissão e/ou publicação de artigos ao aceite pelo CEP/CONEP:

- A Anpepp tem se manifestado contrária a essa exigência, escrevendo documentos coletivos. - A atual regulamentação (Res. 196/96) não atende às demandas da psicologia, razão pela qual a Anpepp tem sugerido que seja pensada uma regulamentação diferente – baseando-se, por exemplo, em propostas que defendidas pela APA.

- Entende-se que não é função da revista fazer o controle da execução de projetos, visto que as revistas veiculam projetos já executados e essa atividade geraria sobrecarga de funções para os periódicos.

- Os periódicos que condicionam o início de tramitação cometem omissões: se eximem de avaliar o relato do que foi executado, visto que pode haver diferença entre a intenção da ação e o que foi realmente executado.

- Tais periódicos não criam a oportunidade de avaliar a ética da pesquisa sob guias éticos sintonizados com a pesquisa em psicologia.

- Condicionantes como este afastam autores estrangeiros e diminuem a chance de consultores estrangeiros compreenderem nossos processos editoriais.

- Revistas internacionais de alto impacto não fazem necessariamente essa exigência.

- Esse condicionamento leva ao desvio da finalidade precípua das revistas, que é a de veiculação da produção.

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2.2 Denise Bandeira (UFRGS) – Editora da Revista Psicologia: Reflexão e Crítica (a) Destaques iniciais

- Percurso da Revista Psicologia: Reflexão e Crítica: pedido inicialmente de carta de responsabilidade do autor na condução ética da pesquisa; posteriormente o número de parecer; atualmente solicita a cópia do parecer.

(b) Argumentos favoráveis a que se exija parecer/CEPs:

- Em função da Resolução 196/96 toda pesquisa precisa passar por comitê de ética. Se há um parecer, não haveria motivo para não enviá-lo para a revista, retirando dela a responsabilidade ética sobre o que é publicado. Nesse sentido há o reconhecimento de que um comitê de ética deve ter mais conhecimentos dos procedimentos éticos em pesquisa, é independente e externo.

- Em relação ao risco de afastar pesquisadores estrangeiros: a revista deve aceitar as regras dos países de onde vêm os artigos e, nesse sentido, não exigir o parecer dos comitês de ética dos países que não possuem essa regulação.

- Outras questões éticas, para além do parecer, que deveriam ser também consideradas: - o plágio e autoplágio;

- publicações redundantes;

- submissão simultânea a vários periódicos; - resultados fabricados ou falsificados; - imagens manipuladas.

- envolvimento comercial não revelado

- interferência editorial pelos responsáveis pelo periódico

3. Debate: a palavra da plateia

3.1 Alguns destaques

(a) Limites e fronteiras da discussão sobre ética em pesquisa

Não se deve reduzir a discussão ética à exigência de parecer. Necessidade de se estar atento para uma tendência de que um discurso biomédico substitua o cerne da discussão.

O que fazer com registros que não foram produzidos dentro de um projeto de pesquisa, mas que por sua riqueza, se tornaram material interessante e relevante de pesquisa/publicação? E casos de observação clínica, tão caros à nossa área?

Necessidade de garantir a autonomia e a responsabilidade do pesquisador.

Necessidade de resgatar a ideia de que os comitês tenham um caráter consultivo e formativo. (b) Uma Comissão só para a Psicologia ou caminhar com outras áreas?

Deve haver uma resolução específica para a psicologia? Seria mais proveitoso caminhar junto com as áreas das ciências humanas e sociais? Necessidade de enfrentar o dilema entre avançar com a especificidade ou aderir a uma luta mais ampla. Risco de colonização de paradigmas, absorção da psicologia no âmbito das ciências humanas.

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Em contraponto, há o risco de fragmentação excessiva de regulamentações com consideráveis pontos de convergência (entre áreas das ciências sociais e humanas).

(c) sobre a necessidade de regulamentação da pesquisa

- Posição prevalente na área: deve haver uma regulação ética das pesquisas desenvolvidas no Brasil.

- Reconhecimento de que a regulamentação da ética na pesquisa significou um avanço para a população brasileira em relação à proteção das pesquisas feitas pela indústria farmacêutica e por isso deve permanecer. A própria Anpepp solicitou ao CFP que fizesse uma resolução para pautar a ética em pesquisa na psicologia, o que foi feito, tendo posteriormente encaminhado pedido de que fosse revogada, o que foi igualmente feito. Reconhecimento de que a elaboração daquela resolução atendeu a demandas de um momento histórico específico. Necessidade de estar atentos para não se retroceder a um momento pré Conep em que era comum a violação de comunidades e pessoas no contexto da realização de pesquisas.

- Necessidade da distinção entre ética da atuação do psicólogo (em geral referida como ‘ética profissional’) e ética em pesquisa.

- Importante se analisar como a regulamentação da ética na pesquisa tem sido marcada por perspectivas das ciências biomédicas. Necessidade de buscar uma resolução/regulamentação que seja mais apropriada, de caminhar nisso em conjunto com outras áreas.

- Tensões relevantes na área (necessidade de aprofundamento da discussão):

1. Questionamento quanto ao papel do Conselho Nacional de Saúde como o único regulador da pesquisa envolvendo seres humanos. O que justificaria esse papel? Argumento para nossa área: nem todas as pesquisas em psicologia são da área da saúde (o mesmo se aplica às pesquisas nas demais áreas no campo das ciências humanas e sociais).

2. Possibilidade da regulamentação da ética na pesquisa ser vinculada a diferentes instâncias superiores: Ministério de Ciência e Tecnologia e/ou Conselho Nacional de Saúde?

3. Sugestão: na Psicologia, possibilidade de encaminhar projetos para diferentes instâncias de regulamentação da pesquisa, em função do teor/natureza da pesquisa (pesquisa relacionada à saúde X pesquisa não relacionada à saúde), instâncias essas vinculadas, ou não, ao Ministério da Saúde.

Propostas a encaminhar para discussão e deliberação na assembléia/Anpepp de 10 de setembro:

1. Que se reitere a carta de Florianópolis como diretriz da ANPEPP, o que significa recomendar que as revistas de psicologia não exijam comprovação da submissão/aprovação de projetos de pesquisa por comitê de ética como condição para publicação de artigos.

2. Que se estreitem as alianças como associações de pós-graduação e pesquisa de outras áreas para discussão dos princípios éticos da pesquisa científica em diferentes áreas, bem como para encaminhamentos relativos à essa questão.

3. Que se estabeleça uma posição da Anpepp diante da indisposição observada na área em relação à perspectiva de que pesquisas em psicologia, como um todo (ou seja, vinculadas ou não à saúde), continuem atreladas apenas a instâncias de regulamentação vinculadas ao Conselho Nacional de Saúde.

4. Que se ampliem as discussões na comissão de ética de modo a incluir temas relativos à ética na publicação: autoria, co-autoria, plágios.

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Anexo

– Carta de Florianópolis

Outros documentos importantes já enviados em ocasiões anteriores: – Moção Anpepp/ABRASCO

– Carta de sugestões enviada ao Ministério da Saúde/CNS/CONEP por ocasião da Consulta Pública sobre a resolução 196/96, realizada entre setembro/novembro de 2011.

Outro material disponível no site para complementar o debate: - as apresentações de Denise Bandeira e Ronaldo Pilati

- a apresentação da Comissão de Ética no Fórum

Rio de janeiro, agosto de 2012.

Comissão de Ética em Pesquisa: Selma Leitão Anna Uziel Edilene Queiroz

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Carta de Florianópolis

XI SIMPÓSIO DE PESQUISA E INTERCÂMBIO CIENTÍFICO

Ensino e Pesquisa na Pós-Graduação em Psicologia

Florianópolis, 18 de maio de 2006.

Relatório do Fórum sobre Ética em Pesquisa

Coordenadoras: Zeidi Araujo Trindade Heloisa Szymanski

Partindo da demanda da comunidade acadêmica, pensou-se em delimitar as discussões do Fórum a questões relacionadas à Resolução n° 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, aplicada pelo CONEP, e à Resolução n° 016/2000 do Conselho Federal de Psicologia.

Para subsidiar as discussões foi realizada uma consulta à comunidade, cujos resultados podem ser conferidos na homepage da ANPEPP.

Os participantes do Fórum concordaram que deveríamos ter como objetivo a discussão das resoluções e o encaminhamento de proposições à diretoria da ANPEPP.

Após ampla discussão os participantes decidiram que, como ponto inicial de trabalho, se explicitasse firme concordância com os princípios que norteiam a resolução do CNS, deixando clara a posição da comunidade sobre a necessidade de que a Psicologia participe ativamente das discussões nacionais e internacionais sobre ética em pesquisa.

As críticas às resoluções focalizaram os aspectos de operacionalização das normas éticas, com as seguintes ênfases:

a.

a incompatibilidade das normas com a natureza da expressiva maioria das pesquisas

em Psicologia;

b.

a burocratização da atividade de pesquisa - o que vem tomando muito tempo dos

pesquisadores, atrasando os cronogramas e dificultando o cumprimento dos prazos estabelecidos pelas agências de fomento. Além disso, discutiu-se que essa burocratização também fere a ética, uma vez que gera mau uso de recursos públicos;

c.

a subordinação da Psicologia à área médica, legalizada principalmente através da resolução 016/2000 do CFP;

d.

as atribuições legais do CFP relacionadas à normatização das atividades de pesquisa;

e.

a exigência que os periódicos da área vêm fazendo quanto ao encaminhamento de

documentação comprobatória de aprovação da pesquisa por comitê de ética, legitimando uma resolução que a comunidade está questionando.

Isso posto, os participantes decidiram apresentar à diretoria da ANPEPP as seguintes proposições:

1.

Solicitar que a ANPEPP, através de consultoria jurídica, esclareça a comunidade sobre a competência legal do Conselho Federal de Psicologia para legislar sobre a atividade de pesquisa, principalmente no âmbito das universidades.

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2.

Solicitar que a ANPEPP promova, junto ao CFP e ao Fórum de Entidades, uma comissão qualificada para, no tempo mais breve possível, estabelecer normas éticas para a pesquisa em Psicologia, compatíveis com as especificidades da área. Sugere-se que se verifique também a possibilidade de articulação com as Humanidades.

3.

Solicitar que a ANPEPP encaminhe ao CFP pedido de suspensão da resolução n° 016/2000, até que novas normas sejam estabelecidas.

4.

Solicitar que a ANPEPP encaminhe aos editores de periódicos da área o pedido de suspensão da exigência de comprovação da aprovação da pesquisa por Comitês de Ética, uma vez que os artigos são, em todos os aspectos, de responsabilidade dos autores.

Heloisa Szymanski Zeidi Araujo Trindade Coordenadoras

Referências

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