GÊNERO E MERCADO
DE TRABALhO
alguns elementos
do debate
Moema de Castro Guedes 1
O presente artigo foi estruturado primeiramente como fala na mesa redonda “A desigualdade de gênero no mercado de trabalho: avanços e desafios”. O objetivo proposto, já que tratava-se de uma fala menos expositiva e mais de debate, foi fazer um balanço geral da literatura sobre gênero e mercado de trabalho a partir de dois eixos. Um primeiro que destaca alguns elementos constituintes dos trabalhos pioneiros no Brasil e a relevância de suas propostas. Um segundo que discute questões desafiadoras à análise do campo: a mensuração da discriminição no mercado de trabalho e a necessidade de estudos que ampliem o foco das dinâmicas femininas para além da racionalidade econômica.
1. ALGUNS MARCOS hISTóRICOS DO DEBATE
O debate sobre as desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho brasileiro é vasto e desponta como importante locus de discussão acadêmica antes mesmo da incorporação da categoria gênero como ferramenta de análise
1 Professora e pesquisadora do Departamento de Ciências Sociais da UFRRJ e Coordenadora do Grupo de Trabalho População e Gênero da Abep.
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da realidade social. Neste tópico pretende-se abordar alguns elementos constituintes destas análises que permanecem como “balizas” deste campo de discussões. Os primeiros estudos tiveram como viés, diante das mudanças em curso a partir da segunda onda do feminismo, a necessidade de visibilizar a participação das mulheres no mundo do trabalho e explicitar as desiguais condições nas quais se produziu essa inserção. Nesse sentido, trabalhos pioneiros como os de Saffioti (1976) e Pena (1981) desempenharam um papel fundamental no debate sobre trabalho feminino no Brasil ao desconstruir a ideia de que a população feminina sempre se encontrou à margem do sistema produtivo.
Os processos de crescimento da população economicamente ativa (ocupadas e aquelas que procuram trabalho) de mulheres e a intensificação da entrada feminina nas universidades, que marcaram os anos 1970, foram fundamentais no sentido de delinear novas identidades femininas, menos articuladas ao mundo doméstico. Os estudos sobre mercado de trabalho buscavam mapear essas mudanças em sua temporalidade e magnitude (BARROSO; MELLO, 1975; PAIVA, 1980). Por outro lado, um importante eixo de análise da literatura feminista foram as evidências empíricas de uma ruptura com a representação historicamente construída de que a maternidade pudesse justificar o alijamento das mulheres da vida pública. O principal indicador utilizado nesse sentido foi a crescente participação laboral de mulheres com mais de 25 anos, casadas e com filhos.
A centralidade das análises sobre o campo do trabalho 2 nos estudos sobre mulheres também pode ser interpretada como reflexo da forte influência dos estudos marxistas que marcaram a produção teórica do período. Mesmo diante do imperativo de se pensar a “identidade trabalhadora”, alguns autores já destacavam as diversas formas através das quais as mulheres se relacionavam com seu trabalho. Prost (1992) destaca esses traços distintivos ao analisar os anos 1970 na França, quando a principal justificativa do trabalho feminino entre os quadros superiores era a igualdade dos sexos e a independência da mulher, enquanto entre os operários e os
2 É interessante perceber que fora do âmbito acadêmico o movimento feminista conferia mais centralidade às questões da violência e do aborto.
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empregados do comércio e dos escritórios ainda predominavam as justificativas econômicas.
De certo modo era consensual a ideia de que a construção de relações mais equânimes entre homens e mulheres necessariamente passava pelo engajamento feminino no trabalho voltado para o mercado, articulado à chamada esfera produtiva da vida social. A ideia por traz desta premissa é óbvia: a contribuição feminina para o sustento dos lares instaura novos deveres e constrangimentos aos membros das famílias. Therborn (2006), sustenta que a família enquanto instituição deva ser analisada em termos de equilíbrio entre o padrão de direitos e obrigações de seus membros e a distribuição de recursos de poder entre eles. Nesta perspectiva, as mudanças institucionais seriam induzidas por eventos ou processos que desarrajam esse balanço entre direitos e obrigações de um lado e poderes e dependências de outro.
O trabalho feminino voltado para o mercado era reconhecido como uma condição necessária mas não suficiente para relações de poder menos hierárquicas entre homens e mulheres. Nesse sentido, uma outra dimensão fundamental abordada desde as primeiras análises sobre o trabalho feminino foi as piores condições dos postos de trabalho ocupados pelas mulheres. Nesse sentido, as categorias família e trabalho
doméstico passam a ser encaradas como chaves para o
entendimento da dinâmica ocupacional feminina. Bruschini e Rosemberg (1982) destacavam no início dos anos 1980 uma questão que se tornaria básica para as análises posteriores: a ideia de que a participação das mulheres em atividades extra-lar está diretamente relacionada não só às oportunidades efetivamente existentes no mercado de trabalho, mas também à posição que elas ocupam na família e pela classe social à qual pertencem.
A introdução das análises de gênero no Brasil a partir do início dos anos 1990 traz uma importante contribuição para os estudos sobre mercado de trabalho: a consciência epistemológica de que os próprios discursos produzidos pela ciência e a construção do conhecimento de modo mais amplo não são neutros, mas refletem diretamente o androcentrismo da sociedade. Em relação às análises sobre o trabalho este tipo de reflexão resulta em contribuições como a de Bruschini (1992),
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que destacava a demanda pelo reconhecimento de que os conceitos tradicionalmente utilizados para medir o trabalho, por estarem baseados nas atividades econômicas desempenhadas pelo homem, mais do que desvendar, sempre ocultaram a participação feminina. Essa leitura mais crítica sobre o conhecimento que se produziu na área de mercado de trabalho implica justamente na desconstrução da ideia de neutralidade que perpassa em particular os procedimentos metodológicos das principais pesquisas estatísticas desenvolvidas em nosso país, de onde se extraem diversos tipos de informação sobre os trabalhadores brasileiros.
Nesse sentido, um adendo importante da teoria sociológica é que as próprias categorias censitárias não existem enquanto realidade em si, mas refletem as relações sociais e de poder que classificam e excluem determinados grupos e/ou organizações da conceituação vigente. O conceito de trabalho cabe como exemplo deste tipo de reflexão pois as mudanças históricas nas formas de captação da questão revelam um campo em disputa, que explicita distintas construções simbó-licas e reflete lutas e processos políticos que se inserem de modo diferenciado em cada momento histórico. Como sustenta Bourdieu (1996), ao nomear e classificar os mais diversos temas os institutos de estatística estatais produziriam, sobretudo, representações. No que tange às próprias relações de poder que se refletem no tipo de classificação com as quais os institutos de pesquisa trabalham, é fundamental na reflexão proposta por Bourdieu a ideia de que sob a aparência de descrição, de fato, a realidade social estaria sendo construída.
A incorporação do IBGE a partir de 1992 de um novo conceito de atividade econômica, bem como o avanço no mapeamento do tempo gasto com trabalho doméstico são reflexos diretos de demandas construídas ao longo do tempo pelas teóricas feministas que se debatiam diante das tradicionais formas de mensuração até então utilizadas no campo do trabalho para análises de gênero.
A mudança metodológica implementada pelo IBGE a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 1992, que amplia o conceito de trabalho 3, tem como 3 Essa medida visou a consonância com recomendações da OIT (Organização Internacional do Trabalho).
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consequência fundamental o aumento substancial na proporção de mulheres categorizadas como trabalhadoras. Como destaca nota metodológica da Fundação Carlos Chagas 4, neste novo conceito de trabalho são caracterizadas as condições de trabalho remunerado, sem remuneração e na produção para o consumo e construção próprios ou para o grupo familiar. O maior refinamento do conceito favorece a mensuração mais adequada das atividades econômicas porque reduz, consideravelmente, o número mínimo de horas trabalhadas (de 15 para apenas 1) e passa a considerar como trabalho atividades assistenciais e para o autoconsumo, entre outras alterações. O resultado dessa mudança repercute diretamente no modo como se constrói a ideia do trabalho feminino pois de uma hora para a outra parece que as mulheres começaram a trabalhar. Politicamente essa mudança foi fundamental no sentido de visibilizar o que anteriormente era ocultado.
Outro avanço fundamental nas Pnads a partir de 2002 foi a incorporação de perguntas relativas aos usos do tempo de trabalho de homens e mulheres gasto com afazeres domésticos. A possibilidade de uma análise conjugada sobre as dinâmicas na vida familiar e o mundo do trabalho representa uma nova abordagem às questões de gênero, que lança luz sobre aspectos fundamentais que anteriormente não podiam ser mensurados nem traduzidos em indicadores.
Nos dois exemplos em questão vê-se a centralidade de uma perspectiva histórica em relação à utilização de indicadores para a análise social. O mercado de trabalho é um campo fecundo no sentido de explicitar mudanças e processos que demandam novas abordagens metodológicas. Além do próprio avanço na incorporação de demandas políticas históricas dos movimentos sociais, trata-se também do reconhecimento de que as questões mais relevantes para os distintos campos de análise mudam ao longo do tempo. Se nos anos 1970 a variável fundamental para as análises em curso era a taxa de participação feminina no mercado de trabalho, 40 anos depois assistimos não apenas a atualização deste dado mais uma imensa ampliação do leque de variáveis que compõem os indicadores de mercado de trabalho. Isso reflete a dinamicidade
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dos processos e a necessária reflexão crítica dos pesquisadores e usuários dos dados produzidos.
2. DESAFIOS AS ANÁLISES ATUAIS
Diversas questões surgem como elementos desafiadores à reflexão no campo dos estudos de mercado de trabalho e gênero e assumem um caráter estrutural na medida em que são temas de diálogo constante e de difícil consenso 5. Talvez essa seja uma marca do debate acadêmico, mas é interessante trazê-los como exemplos da riqueza de um campo consolidado também através de questionamentos permanentes.
Uma primeira questão que perpassa as análises sobre a dinâmica da desigualdade entre homens e mulheres é a discriminação sofrida pela mão de obra feminina no mercado de trabalho. Essa dimensão vem ganhando destaque diante da constatação de que, mesmo tendo revertido o histórico hiato de gênero na escolaridade, as mulheres continuam com salários inferiores aos masculinos. O grande desafio, nesse sentido, seria detectar e mensurar os efeitos das práticas empresariais ou pessoais que favoreceriam os trabalhadores homens tanto na contratação quanto na progressão funcional uma vez empregados 6.
Do ponto de vista dos estudos populacionais mensurar a discriminação não é tarefa simples porque uma ampla gama de variáveis devem ser sistematicamente controladas até que se possa constatá-la 7. Em um plano agregado de análise dificilmente conseguimos comparar grupos de trabalhadores em situações semelhantes, ou seja, comparáveis em relação a um salário que deveria estar equiparado. Isso faz com que, mesmo diante da utilização de modelos estatísticos com ampla cobertura de diversas variáveis relevantes, em última instância sempre haja dificuldade em separar o que de fato é efeito da discriminação
5 Escolhemos arbitrariamente duas temáticas a nosso ver mais relevantes. Evidentemente há um conjunto de questões dessa natureza muito mais extenso que as aqui discutidas.
6 As práticas existentes no passado, de salário inferior das mulheres para empregos idênticos aos masculinos, já configura no imaginário social como distorção a ser combatida. 7 Apenas a título de exemplo: nível educacional, horas semanais trabalhadas, posição na ocupação, idade, tempo de empresa, ramo da ocupação etc.
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e o que pode refletir fatores culturais e de natureza subjetiva que faz com que as próprias mulheres não queiram disputar com os homens os melhores postos de trabalho.
Guimarães (2001) avança nesta empreitada ao compor um amplo panorama das desigualdades de sexo e cor no mercado de trabalho brasileiro através de dados das Pnads de 1989 e 1999. Utilizando o salário dos homens brancos como referência, a autora cria um modelo no qual são decompostos os determinantes das diferenças entre os rendimentos dos grupos de sexo e cor na população ativa. Os possíveis fatores explicativos da desigualdade de rendimentos utilizados pelo autora em seu modelo são: qualificação, inserção formal, inserção regional, inserção ocupacional. Uma vez isoladas cada uma destas componentes, a persistente variação do salário/ho-ra seria analisada como discriminação. No caso da população negra, tanto homens quanto mulheres, a menor qualificação desta mão de obra parece ser o principal fator que os separa dos homens brancos em termos salariais, já que uma vez isolado este fator o diferencial salarial desaparece. O dado mais interessante trazido pela autora é que, entre as mulheres brancas, o peso líquido da discriminação é o maior. Isso porque esse grupo dispõe de todos os demais ativos que propiciariam a igualdade face aos rendimentos dos homens brancos, exibindo além do mais escolaridade significativamente mais elevada que a masculina.
A partir desses achados, a autora constata que a única e significativa desvantagem na competição por rendimentos no grupo de mulheres brancas estaria inscrita no corpo, e não preponderantemente em desigualdades de origem social mais ampla. Sua condição de sexo as desqualificaria na disputa por melhores salários.
Um elemento interessante a ser destacado é que a questão da discriminação, medida fundamentalmente a partir dos diferenciais salariais entre homens e mulheres, é muito mais observável no estrato mais escolarizado de trabalhadores (GUEDES, 2010). Isso porque os trabalhadores da base da pirâmide salarial, por estarem próximos do patamar de subsistência, independentemente do sexo são mal remunerados. Como aponta um estudo de Bruschini (2007), entre os trabalhadores inseridos em tempo integral e com nível universitário, o dobro de homens
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em relação às mulheres ganhavam mais de 5 salários mínimos. Esse dado sugere que mesmo com os intensos avanços femininos no campo educacional, os melhores postos de trabalho ainda estão concentrados em mãos masculinas.
Este quadro configura um importante locus de pesquisa, que reflete o desafio de se pensar as trajetórias internas que vão da base até o topo da pirâmide de um dado setor. Entre os segmentos cujo patamar salarial é próximo da igualdade é interessante indagar, por exemplo, se isso não reflete o fato de tanto mulheres quanto homens ainda estarem em início de carreira e por essa razão não terem tido progressões significativas. De fato, quando a variável idade é isolada, vê-se que entre as gerações mais jovens os diferenciais salariais por sexo são menores (GUIMARãES; BRITO, 2009). Possivelmente o comportamento das mulheres mais jovens não reproduza tão fortemente a tradicional divisão sexual do trabalho quanto as gerações mais velhas 8. O principal reflexo deste tipo de mudança seria a ocupação feminina dos postos de maior poder decisório (questão ainda incipiente no cenário brasileiro).
Uma segunda questão nada consensual quando se fala em dinâmicas de gênero no mercado de trabalho é o papel das variáveis econômicas no processo. A ênfase dada às dimensões financeiras no sentido de maximização dos lucros nem sempre pode ser expandida para a população de mulheres trabalhadoras. Isso porque a estrutura atual do mercado de trabalho foi pensada com um trabalhador (historicamente homem) que contava constantemente com outro indivíduo (historicamente mulher) que desempenhava as tarefas domésticas e todo tipo de trabalho ligado à chamada reprodução social. O tipo de envolvimento do trabalhador com seu emprego poderia ser total (incluindo horas extras, viagens etc.) justamente porque sempre houve a figura feminina que desempenhava todo o conjunto de trabalhos invisibilizados e não remunerados dentro dos lares. Quando as mulheres começam a reproduzir o modelo de investimento anteriormente masculino no mercado de trabalho cria-se uma tensão em relação a como serão as formas de
8 Mesmo entre as mulheres que trabalhavam nas décadas passadas existia o que se pode chamar de uma “divisão sexual do trabalho atenuada”, já que muitas vezes suas rendas eram complementares às masculinas e o tipo de investimento no trabalho voltado para o mercado era menor.
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conciliação entre os dois tipos de trabalho. Essa singularidade na dinâmica de inserção das mulheres faz com que o tipo de racionalidade em jogo nem sempre seja a econômica.
O fato de não contarem com esta “esposa-cuidadora” do passado, tem feito com que muitas trabalhadoras assumam estratégias no mercado de trabalho que nem sempre tem o maior salário como objetivo principal. Os concursos para empregos públicos cada vez mais atraem o contingente feminino em função não de um salário que seja o mais alto do mercado, mas por uma estabilidade que representa a possibilidade concreta de conjugar de forma mais harmônica os projetos familiares e laborais.
O olhar sobre as estratégias femininas no mercado de trabalho deveria, desse modo, envolver outros tipos de enfoques que privilegiassem instituições, padrões culturais, estratégias de discriminação e questões psicossociais. Como apontam Melo e Serrano (1997), trata-se de conter a tentação economicista de imputar valores monetários a dimensões que se concretizam em outra esfera do social.
Conceitos muito utilizados no passado, como o custo de oportunidade, tem caído em desuso justamente pelo reconhecimento de que o que tem feito o contingente de mulheres se engajar na força de trabalho não é apenas a capacidade de arcar com os custos de sua ausência da esfera doméstica (particularmente creches ou escolas e cuidadores para os filhos), mas o imperativo de autonomia financeira e identidade individual.
Nesse sentido, destaca-se uma importante mudança em curso: a construção das mulheres através de uma perspectiva menos englobada pelo coletivo (a família) e cada vez mais individual. A antiga percepção do trabalho feminino como complementar no provimento das famílias não se sustenta diante de tendências contundentes como o aumento do peso relativo da renda das mulheres dentro da renda das famílias na última década. Enquanto em 1992 as mulheres contribuíam com apenas 30,1% da renda familiar, em 2007 essa proporção passa a ser 39,8% (IPEA, 2008).
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CONSIDERAÇõES FINAIS
Por tratar-se de um campo de evidente relevância social e política, a mera atualização dos dados historicamente analisados no mercado de trabalho já é importante para a construção de indicadores sociais que possam subsidiar diversas políticas públicas. Contudo, a articulação entre as temáticas de gênero e mercado de trabalho tem se mostrado um campo dinâmico de análise, com novas chaves de leitura acerca dos fenômenos estudados. Este é o exemplo de recentes estudos sobre a heterogeneização da mão de obra feminina. Os achados de Hirata (2010) sustentam que ao mesmo tempo em que é observado a partir dos anos 1990 a expansão do contingente de trabalhadoras executivas e com nível universitário (postos mais valorizados do mercado), é destacada também a tendência de manutenção de um grande percentual de mulheres assalariadas em setores tradicionalmente femininos como as empregadas domésticas e trabalhadoras da saúde e educação. Segundo a autora a consequência política desta bipolarização seria o aumento das desigualdades sociais e do antagonismo no interior do grupo social das mulheres.
Esse tipo de debate é fundamental, pois politiza uma discussão travada no âmbito do feminismo liberal: a simples presença das mulheres nos postos de comando não muda necessariamente as estruturas de poder mais amplas que separam e hierarquizam como inferior os trabalhos desenvolvidos historicamente pelas mulheres. Apesar de assistirmos aos avanços de um pequeno segmento elitizado, a ampla maioria das trabalhadoras mulheres continua refém de relações sociais que ainda pensam a família como principal instituição de cuidado de crianças, enfermos e idosos. Na prática isso representa um trabalho que também não foi desenvolvido pelo próprio Estado brasileiro através de políticas públicas. Desenvolver este tipo de debate implica no reconhecimento de que uma parcela majoritária de mulheres enfrenta cotidianamente os desígnios de agentes econômicos que não são neutros do ponto de vista do gênero.
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