a p ág in a da e du ca çã 9 7 7 1 6 4 7 3 2 4 0 8 8 I S S N 1 6 4 7 -3 2 4 8 S ér ie II | n º 19 2 | P R IM A V E R A 2 01 2 | w w w .a p ag in a. p t | 4 e S ér ie II | n º 19 2
Manuela Silva
A história dos sindicatos e do sindicalismo encerra uma grande capacidade de
inovação
| Jaime Carvalho e Silva
Os professores de Matemática precisam de estar conscientes
do importantíssimo papel que desempenham na formação dos jovens
| Peniche
memória da resistência
A vida de professor
é apaixonante
em foco
Pobreza infantil
cada vez mais visível
professores do norte
Reflectir para melhorar
uma flor: e os balaios sem reticências de mágoas,
cheios de trissos de aves, de pássaros remotos de
que ignorávamos a voz ou havíamos esquecido o
toque e a fímbria. Contarás de Abril que na nossa terra
já não apodrecem as raízes e que já não adiamos o
coração; que já não nos dói a velhice e que os rios
são todos nossos e íntimos e que já não perdemos a
infância e que nascem crianças insubmissas e claras e
livres. Contarás de Abril a espessura mágica, o punho
reflexo, o dia de água, a lágrima, a vontade de sermos
e de estarmos, o límpido grito, a forma inconsútil, o
vermelhor e a brisa, o livor das coisas, a maravilha
discreta de assear a vida, o caminhar, os restos nesta
dócil pausa e neste imenso perdão. Contarás de Abril
as casas de mil sóis, a imponderável descoberta dos
sussurros, a brancura inadiável da perseverança, o
resplandecente varar dos dias, a feira alvoroçada das
horas. Contarás de Abril as mãos dadas. Contarás de
Abril o renascer da essencial frescura.
DIRECTORA: Isabel Baptista | DIRECTORA ADJUNTA: Ana Brito Jorge | EDITOR: António
Baldaia
CONSELHO EDITORIAL: Américo Nunes
Peres, Ariana Cosme, Fátima Antunes, Fernando Santos, Henrique Borges, Paulo Teixeira de Sousa, José Rafael Tormenta, Rui Trindade
REDACÇÃO: Ricardo Jorge Costa, Teresa Couto
(fotografia)
COLABORAM NESTA EDIÇÃO: Gonçalo Mo
-reira da Silva (capa), Humberto Lopes, João Paulo Coutinho, José Paulo Oliveira, Maria João Leite
SECRETARIADO DA REDACÇÃO: Sílvia Enes CONTACTOS: Telefone (00 351) 22 600 27 90
Fax (00 351) 22 607 05 31 | E-mail: [email protected]
EDIÇÃO IMPRESSA: Trimestral, publica-se no
1.º dia de cada estação do ano | Preço de capa: 4 € | Tiragem desta edição: 19.000
PRODUÇÃO GRÁFICA: Multiponto, S.A.| EMBALAGEM: Notícias Direct | DISTRI BUI ÇÃO: Logista Portugal – Distribuição de Publi
-cações, S.A.
EDIÇÃO DIGITAL: http://www.apagina.pt
Cumprindo o Estatuto Editorial, a PÁGINA res-peita e publica as variantes do Português, Mirandês, Galego e Castelhano. São traduzidos para Português os textos escritos noutras línguas. Registo na ERC n.º 116.075 | Depósito Legal n.º 51.935/91 | ISSN 1647-3248
PROPRIEDADE: Profedições, Lda. | Con tri
-buinte n.º 502 675 837 | Capital Social: 5.000 euros | Registo na Conservatória Comercial do Porto: 49.561
SEDE: Rua D. Manuel II, 51/C – 2.º (sala 25)
4050-345 PORTO (Portugal)
COMPOSIÇÃO DO CAPITAL DA ENTIDADE PROPRIETÁRIA: Sindicato dos Pro fes
-sores do Norte, 90% | Abel Macedo, 5% | João Baldaia, 5%
CONSELHO DE GERÊNCIA: Carlos Midões |
João Baldaia
SECRETARIADO DA ADMINISTRAÇÃO / PUB LI CIDADE / ASSINATURAS: Telefone: 22 600 27 90
|Fax: 22 607 05 31| E-mail: [email protected] |
Livros: [email protected]
a
á
g
ina
daeducação
Associação Portuguesa de Imprensa, API
editorial
Faz sentido uma Primavera mais solidária e insubmissa – é preciso, é urgente
Isabel Baptista . . . . pág.
4
memória e identidade
Alice Pestana, educadora republicana
En más de una ocasión hemos escrito que Alice Pestana es la auténtica embajadora educativa
entre Portugal y España entre los siglos xixy xx.
Pero no desempeña esa tarea desde cualquier posición, sino desde una lectura republicana de la sociedad, la educación, la vida.
José M. Hernández Díaz . . . . pág.
6
Mulher, professora…
Claro que não fui melhor professora por ser mulher. Mas acredito que me tornei uma mulher mais inteira por ter sido professora!...
Ana Brito Jorge . . . . pág.
7
MiguEl sAntOs guErrA
“Uma escola perfeita seria
uma comunidade educativa
que tivesse em conta o lugar
onde está inserida, que
conhecesse bem a sua
reali-dade, porque sem conhecer o
contexto não se pode
enten-der bem o texto. Seria uma escola com
muita participação dos alunos, com um
pro-grama que supusesse uma preparação para
a vida, com dinâmicas inovadoras, não
roti-neiras, integrada por profissionais que
amas-sem a sua profissão, dirigida por um líder ou
por um conjunto de pessoas que ajudassem
os outros a crescer. Uma instituição criativa,
com capacidade para se reinventar, flexível,
com possibilidade de modificar as coisas
que estão a ser feitas, com uma enorme
capacidade de exigência, com capacidade de
auto-crítica. Diria também que deve ser
uma instituição aberta, em dois sentidos:
que saia, que se encontre com o que está à
sua volta, e que o que está à sua volta entre,
que o exterior entre na Escola, que não
esteja isolada”.
. . . . pág.
8
do secundário
Avaliação, prática e experiência vivida
Parece fundamental que em qualquer processo de avaliação se tenha na devida conta a prática e a experiência vivida pelos intervenientes, articu-lando-as, quando necessário, com abordagens mais baseadas no pensamento criterial.
Domingos Fernandes . . . . pág. 1
7
entrelinhas e rabiscos
Avaliação de desempenho docente?! Mas não há nada para avaliar...
O colega entrou com alguns horários na mão – um deles, o dela. Logicamente, perguntou-lhe o que andava ele a fazer com o horário dela; e ele: que era para tentar encontrar um tempo comum para que pudessem reunir todos.
José Rafael Tormenta . . . . pág.
18
pedagogia social
Para uma avaliação dos padrões de desem-penho
O despacho reflecte os pressupostos do nosso sistema educativo e das orientações que o inspi-ram, os quais são, por isso, plasmados no delinea-mento da identidade dos professores olhados como seus agentes e garantes principais.
Adalberto Dias de Carvalho . . . .pág.
20
El paraíso perdido de la educación
Desespera que se ponga énfasis en la globalidad del enfoque para superar la crisis de las escuelas y el desamparo de quienes las abandonan, ape-lando a las políticas sociales, sin que la Educación Social y su Pedagogía se nombren.
José A. Caride Gómez . . . .pág.
22
coisas do tempo
Olhar para um trabalho invisível
Nas escolas públicas, todos sabem que trabalham com um tecido social rasgado, extremamente minado, onde a mínima faísca provoca desastres. Os GAAF facilitam uma abordagem multiface-tada dos problemas.
Pascal Paulus . . . .pág.
24
2
i
3
PriMAvErA 20111
N.º192em foco
Pobreza infantil é cada vez mais visível
Chegou a andar com umas sapatilhas rotas à frente. As roupas nem sempre acompanham o crescimento dele, e por isso as mangas da cami-sola são bastantes mais curtas do que os braços.
Reportagem de Maria João Leite
e Teresa Couto . . . .pág.
26
formação e desempenho
investigar para desocultar
Predominam no terreno de acção do professor evidências e fachadas que escondem o seu con-trário, opiniões dominantes e versões oficiais que nem sempre promovem processos educativos justos e inclusivos.
Carlos Cardoso . . . .pág.
33
impasses e desafios
Pedagogias críticas sem redencionismo
Os resultados concretos da educação escolar, entendidos através da experiência da relação pedagógica entre professores e alunos, não podem ser reduzidos a termos absolutos e uni-versais de falência completa ou sucesso total.
Gustavo E. Fischman e
Sandra Regina Sales . . . .pág.
34
discurso directo
Escola Pública em versão minimalista
Se tivéssemos um Ministério da Educação que entendesse a Escola Pública como uma necessi-dade crucial, e não um Ministério das Finanças que a remete para a coluna das despesas, o rumo das coisas seria possivelmente outro.
Ariana Cosme e Rui Trindade . . . .pág.
36
JAiME CArVAlHO E silVA
“Os tempos que correm não
são fáceis, mas noutras épocas
também já houve problemas
graves e as pessoas
consegui-ram ultrapassá-los. Sozinhos
pouco conseguiremos fazer.
Tra balhando uns com os
outros, nas escolas, nas associações,
poderemos fazer muita coisa. O ensino da Mate
-mática é essencial na sociedade actual, pelo
que os conhecimentos que os jovens possam
adquirir são essenciais a uma vida de cidadão
mais completa e mais proveitosa. Os
profes-sores de Matemática precisam de estar
cons-cientes do importantíssimo papel que
desempenham na formação dos jovens”.
. . . .pág.
38
da ciência e da vida
Como se a magia alquímica tivesse atingido os seus limites
Em apenas dois séculos, a Química colocou à dis-posição da sociedade muitas dezenas de elemen-tos anteriormente desconhecidos, abarcando praticamente toda a tabela periódica.
Rui Namorado Rosa . . . .pág.
44
COngrEssO DO sPn:
rEFlECtir PArA MElHOrA
r
Não têm sido anos fáceis para os
pro-fessores e para a Educação em Portugal.
Foram anos de conquistas, de acordos,
de recuos, de desilusões, de medidas
que levaram milhares de docentes a sair
à rua em algumas das maiores acções
reivindicativas e de descontentamento
já realizadas. Agora é tempo de reflectir,
de expor preocupações, de partilhar e
de encontrar propostas de resolução
para os problemas que os afectam.
Reportagem de Maria João Leite, Gonçalo Moreira da Silva
e João Paulo Coutinho . . . .pág.
46
MAnuElA silVA
“Os professores têm um
papel extremamente
impor-tante na sociedade. E esta
valorização do papel social,
político e económico do
pro-fessor é um dos aspectos
fun-damentais que os sindicatos
devem assumir e valorizar cada vez mais.
Por outro lado, enquanto classe profissional,
temos problemas idênticos a outros
traba-lhadores, mas também problemas
específi-cos inerentes à nossa actividade. É este tipo
de trabalho, que implica envolvermo-nos
em tudo o que diz respeito à educação, e
simultaneamente na luta mais geral contra a
exploração e em prol de uma sociedade
mais justa, que caracteriza desde o início e
continua a ser a matriz da Fenprof e dos
seus sindicatos”.
. . . .pág.
54
a escola que aprende
Construir um conhecimento prudente
Não se deve excluir qualquer epistemologia de investigação. Pelo contrário, o carácter complexo e casuístico que existe na Educação é a melhor
abordagem para processos e pessoas, também elas complexas e singulares.
David Rodrigues . . . .pág.
62
reconfigurações
nós e os outros
Uma escolarização segmentada por identidades dificilmente facilita a integração e muito menos elimina do imaginário social a divisão entre o próprio e o alheio.
Xavier Bonal . . . .pág.
64
A educação superior, o conhecimento e as competências
Os ‘resultados da aprendizagem’ e as ‘competên-cias’ são apontados como elementos essenciais nas reformas. Embora seja ainda cedo para iden-tificar as suas reais consequências, urge o debate sobre os conceitos e aquilo que eles parecem colocar em jogo.
António M. Magalhães . . . .pág.
66
lugares da educação
Business as usualou um ensaio de economia
pura
Assistimos à emergência de um sector financeiro pujante como nunca na história (a economia de
casino, como alguns a têm vindo a designar), que
submerge toda a actividade económica clássica e que está na base da eclosão da crise actual.
Manuel António Silva . . . .pág.
68
[trans]formações
Os caminhos da escola e os trilhos da vida
Através de um trabalho etnográfico com alguns alunos que estiveram pelo menos 10 anos sem estudar, procura-se compreender o como e o porquê do regresso à escola, a sua trajectória social, as motivações, as preocupações e as trans-formações na vida pessoal e profissional.
Sara Mónico Lopes . . . .pág.
70
comunicação e escola
recursos para a educação para os media
"Mais do que condenar ou justificar o inquestio-nável poder dos media, urge aceitar o seu signifi-cativo impacto e a sua difusão através do mundo como factos consumados, valorizando ao mesmo tempo a sua importância enquanto elemento de cultura no mundo hodierno”.
Sara Pereira . . . .pág.
72
fora da escola
A ‘circulação científica’ em educação
A socialização dos conhecimentos científicos é crescente, e esta nova configuração do modo de comunicação tem implicações diretas no campo da Educação.
cultura e pedagogia
Decifrar as pedagogias culturais do presente
Cada vez mais, o alfabetismo cultural implica o domínio de gramáticas complexas que ultrapas-sam amplamente as versões mais simples de lei-tura e escrita que conhecemos.
Marisa Vorraber Costa . . . .pág.
76
saúde escolar
Quando a saúde é esquecida em todas as políticas
Para que se definem metas e objectivos específi-cos, se delineiam estratégicas, políticas e activida-des, se no processo de concretização dos projec-tos se perde a consciência e o foco do objectivo e da política de saúde?
Débora Cláudio . . . .pág.
78
Quem é o intruso?
Por passarem longas horas como utilizadores da internet, muitos jovens defendem possuir um sentido de mestria e de análise das situações que nem sempre é o mais adequado.
Rui Tinoco . . . .pág.
79
divulgação
A Páginacom presença pedagógica no Brasil
A PÁGiNA estabeleceu uma parceria com a revista brasileira «Presença Pedagógica».
. . . .pág.
80
Colectânea de licínio lima na Profedições
A Profedições acaba de editar um conjunto de pequenos textos reunidos por Licínio Lima.
. . . .pág.
81
Allariz recebe Educadores pela Paz
O xxv Encontro Galego-Português de Educadores pela Paz vai decorrer em Allariz (Ourense)
. . . .pág.
82
escritas soltas
sobre a natureza das letras
As letras são generosas, atentas à nossa sede de evasão, disponíveis em todo o espaço da nossa habitação, permanentes, desde a manhã em que nos insinuamos perante o mundo até que dele nos despedimos para esse destino de que elas nos aliviam, como nos aliviam das certezas e do tédio.
Luís Vendeirinho . . . .pág.
83
levedura e leviandade
Entre a levedura e a leviandade vai uma enorme distância. Penso que há muita leviandade em algumas coisas que se dizem por falta de tempo de levedura!
André Escórcio . . . .pág.
84
quotidianos
A questão do neoliberalismo
Só o Estado pode representar consensos entre cidadãos. O mercado não pode nem está interes-sado em servir de mediador. O mercado não é um deus, nem um ser humano, pensante e imparcial.
Carlos Mota . . . .pág.
86
olhares de fora
ser no tempo: distância do presente
É pelo conhecimento que o ser bruto ascende ao plano da existência, estando a nossa consciên-cia pressuposta na da existênconsciên-cia no mundo.
Ivonaldo Leite . . . .pág.
87
educação desportiva
A inteligência competitiva e o espectáculo desportivo
A multidimensionalidade da Sociedade da infor -mação exige, também dos fazedores do espectá-culo desportivo, mais informação e mais cultura.
Manuel Sérgio . . . .pág.
88
observatório
O impossível necessário
Não há revolução social sem revolução intelec-tual, que, entre outras questões, assume a luta por uma sociedade justa e igual como uma luta contra o capitalismo selvagem, na qual a escolari-zação pública deve estar na linha da frente.
João Paraskeva . . . .pág.
90
em português
O exame das palavras
Feito o balanço do exercício que dominou o “inverno do nosso descontentamento”, a situa-ção líquida já apurada remete-nos para a refle-xão de um reputado mestre das Ciências Sociais, como preparação para o complicado “exame” das palavras proferidas pelos protagonistas.
Leonel Cosme . . . .pág.
92
ErA uMA VEZ...
uM COntADOr DE HistÓriAS
Em boa hora, a arte de contar, a beleza
e a criatividade do imaginário do conto
tradicional português ganham lugar de
relevo.
Reportagem de José Paulo Oliveira . . . . .pág.
94
cinema
Potemkin sempre
“O que não sei é se a beleza se justifica por si só – e o mesmo pode dizer-se do conhecimento. Ou, dito de outro modo, prefiro a Arte que se funda num sentido moral”.
Paulo Teixeira de Sousa . . . .pág.
97
viajar
Peniche: memória da resistência
No forte de Peniche, o Museu da resistência evoca a funesta utilização do lugar durante a dita-dura do Estado Novo, quando o forte se trans-formou em presídio político.
Humberto Lopes . . . .pág.
98
afinal onde esta a escola?
Fui ao Chile e não o achei
Santiago é hoje uma cidade que nega seu passado. A política implícita nas ruas parece tão eficiente e pragmática quanto a da gestão dos grandes negó-cios do capital. Que sociedade ensina Santiago hoje?
Cláudio Barría Mancilla . . . .pág.
102
textos bissextos
O multiculturalismo falhou... O senhor que se segue?
O que potencialmente está a florescer é o exer-cício da expressão cívica num contexto de opressão consentida e tolerada pelo chamado mundo livre ocidental.
Paulo Raposo . . . .pág.
104
dizeres
What is your name?
Nessa tarde, o Carlos chegou excitado a casa: vamos ter umas disciplinas novas, mãe. Música, Desenho e inglês...
Angelina Carvalho . . . .pág.
106
república dos leitores
Cidadania patrimonial: emergência e desafio Maximina Girão . . . .pág.
108
A idade de ouro dos medíocres
Paulo F. Gonçalves . . . .pág.
109
A Educação Permanente como fonte para repolitizar o debate sobre a educação e for-mação de adultos
Rosanna Barros . . . .pág.
110
Estatísticas e Português: PisAr na leitura? Hélio J. S. Alves . . . .pág.
111
escaparate
Dicionario galego de Pedagoxia | Da Cadeira ao Banco | revista lusófona de Educação
. . . .pág.
112
breves
PisA vai avaliar literacia financeira: Portugal de fora
. . . . pág. 23 Chanel plagiada nas candidaturas ao Ensino superior britânico
4
i
5
PriMAvErA 20111
N.º192Sim ao dever de insubmissão, sim a Abril, sempre!..
Hoje, como ontem, é preciso, é urgente, erguer cravos de esperança.
Liberdade, democracia, paz. É com estas palavras que, desde há quatro décadas, se
diz Primavera em Portugal. Uma Primavera que este ano se apresenta
particularmente sombria, obscurecida pelo drama da injustiça social, pelo
desem-prego crescente, pelo escândalo da desigualdade e, de um modo geral, pela perda
de direitos de cidadania. Trinta sete anos depois desse sublime 25 de Abril estamos
mais pobres em desejo de futuro, vencidos por frustrações sucessivas e por
esperanças traídas, mas também (importa lembrar) por rotinas de acomodação
preguiçosa e imprudente. De tal modo que até “nos damos ao luxo” de esquecer
os ganhos civilizacionais conquistados por homens e mulheres de extraordinária
coragem e ao longo de anos de luta dolorosa e perseverante. Basta lembrar, por
exemplo, que antes de Abril de 1974, este simples exercício de escrita não era
possível, não havia então lugar para projectos com o carácter editorial da PÁGiNA.
Citando o filósofo Emmanuel Lévinas, “a história é trabalhada pelas rupturas da
história em que se faz juízo sobre ela”. Ora, é esse, justamente, o poder evocativo
da revolução de Abril, enquanto acontecimento emancipador e de ruptura. E por
isso faz sentido – é preciso, é urgente – uma Primavera mais solidária e insubmissa,
começando por Março, mês em que se comemora o centésimo aniversário do Dia
internacional da Mulher. Apesar do muito que já foi conseguido no plano da justiça
de género, o facto é que as mulheres continuam a ser tratadas como “cidadãos
de segunda”, pondo assim em causa a humanidade comum.
Em Abril temos a festa da liberdade e, numa altura em que no nosso país, como
noutros mais distantes, o povo teima em “sair à rua”, por vezes em resposta a
movimentos de apelação cívica inéditos e sobre os quais valerá a pena reflectir. Em
todo o caso, a “rua” contínua a constituir um espaço político de referência onde,
de forma muito especial, se faz causa da “coisa pública”. É essa precisamente a força
de “Maio”, e recorde-se que foi precisamente em 1974 que os trabalhadores
portugueses celebraram pela primeira vez esse seu dia na rua, confirmando desse
modo e com inesquecível eloquência cívica os valores da revolução de Abril.
É este, pois, o espírito do tempo a que a PÁGiNA se associa na sua edição da
Primavera de 2011, onde se fala de pobreza, de exclusão social, de escolas que
fazem questão de o ser, de professores em luta e de experiências pedagógicas de
ed
itorial
Faz sentido uma
Primavera mais solidária
e insubmissa
referência, sobretudo em época de crise. A par do inestimável
contributo das colaborações regulares, esta edição conta com
duas reportagens de fundo, uma sobre o 7º Congresso do
Sindicato dos Professores do Norte (SPN) e outra centrada nas
questões de “pobreza infantil”, ambas apoiadas em depoimentos
de professores, aqui valorizados na plenitude da sua condição de
sujeitos autores-actores.
No que se refere a entrevistas, Manuela Silva, professora e
dirigente sindical, dá testemunho sobre a memória social
docente, recordando o capital de conhecimento gerado no
seio dos Grupos de Estudo, estrutura pioneira no âmbito da
organização associativa dos professores portugueses. Jaime
Carvalho e Silva, professor da Universidade de Coimbra,
fala-nos na necessidade de melhorar o ensino da
Matemática e Fátima veiga, uma das responsáveis da EAPN/Portugal,
confronta-nos com a realidade invisível que afecta a vida de muitas das
nossas crianças. Finalmente, Miguel Santos Guerra, catedrático da
Universidade de Málaga e colaborador permanente da PÁGiNA,
colocanos diante dos desafios inerentes a uma escola organi zacio
-nalmente criativa e democrática, reforçando o quanto a docência pode
ser apaixonante.
De assinalar ainda o início de um intercâmbio com a revista «Presença
Pedagógica», que agrega educadores e investigadores de vários pontos
do Brasil. É também com este tipo de laços que se celebram os ideais de
justiça e solidariedade. Assim, pugnando por mais e melhor educação
para todos, digamos “Abril sempre”. Contra o medo, a repressão
silenciosa, a desigualdade e a alienação de direitos, vivam os cravos do
nosso compromisso e da nossa esperança!
a p ág in a da e du ca çã 9 7 7 1 6 4 7 3 2 4 0 8 8 I S S N 1 6 4 7 -3 2 4 8 S ér ie II | n º 19 2 | P R IM A V E R A 2 01 2 | w w w .a p ag in a. p t | 4 e S ér ie II | n º 19 2