Latusa digital – ano 1 – N° 5 – maio de 2004
Faz um homem para mim?
Fernando Coutinho*
No Seminário 11, Lacan define a psicanálise como uma práxis. Quarenta anos depois a definição permanece pertinente, sobretudo quando nosso atual esforço caminha na direção da aplicação da psicanálise à psicoterapia.
Com o relato do Pequeno Hans, no qual é demonstrado o que essa análise comporta de inventivo quanto à aplicação do método recém inventado a pacientes que, aparentemente, fugiam ao perfil do paciente para o qual a análise se destinava (adulto jovem, sofrendo de males que se exprimiam pelo corpo), Freud nos dá o exemplo de que não se deve jamais vacilar diante dos desafios que se apresentam ao campo de saber por ele aberto.
Como na época de Freud, nosso desafio continua sendo o real.
Como conduzir, nos dias de hoje, a análise de uma criança, orientando-a para o real, é a questão que gostaria de discutir.
“Faz um homem para mim?” Foi assim que Ricardo, aos seis anos, formulou sua demanda de análise.
Acabara de desenhar, com as canetas de cor e as folhas de papel que eu deixara sobre a minha mesa, uma “mulher de bigodes”. O excesso de tintas usadas por ele no seu desenho, marcara a folha que lhe servia de apoio. Ao
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Analista praticante – AP. Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP).
levantar a folha principal, dá-se conta das manchas na de baixo. “Faz um homem para mim, com essas manchas”?
As cartas do jogo tinham sido distribuídas, o dispositivo analítico se instalara, a partida começara, era minha vez de jogar: tomo as canetas e executo o que ele me pedira, isto é, desenho uma cabeça de homem, com barba e bigode. Ricardo se apressa em desenhar um corpo para a cabeça.
– “É um gato”, diz ele. – “E aí?”, pergunto.
– “Vou desenhar o rato”. Desenha.
– “O gato vai morder o rato, vai comê-lo”, comenta excitado.
O cenário da fantasia estava definido: “Bate-se numa criança”, “Come-se um rato”. A entrevista-sessão foi cortada.
A família patriarcal, com seus valores, imperativos e interdições, se dissolve em nossos dias. O Nome-do-Pai, entretanto, continua sendo tão necessário à formação das subjetividades quanto no tempo em que o Outro existia com toda consistência que lhe era oferecida pela cultura e pelos ideais sociais.
Em seu Último Ensino, através da transmissão que dele nos é feita por J.-A Miller, ao “depreciar” o inconsciente freudiano, fruto do recalcamento, da dominância do real pelo simbólico, Lacan inverte a equação, atribuindo a dominância ao real e, conseqüentemente, a função do analista torna-se mais voltada para o saber fazer com – savoir y faire avec – o inconsciente do que para a interpretação do recalcado. Sendo assim, a construção de um significante da análise torna-se mais importante do que a busca da verdade recalcada, empreendida por Freud, pelo menos até a virada de 1920, com a introdução da pulsão de morte. Entretanto, se nos debruçarmos com lentes lacanianas sobre a leitura do texto freudiano, poderemos constatar quão
fazia para interpretar a emergência deste real na experiência de seus pacientes através da triangulação edípica. Em “Bate-se numa criança” e no “Problema econômico do masoquismo”, respectivamente de 1919 e 1924, o inventor da psicanálise recorre ao constitucional, isto é, à prevalência da pulsão de morte para dar conta da perversão, da autopunição, da autodestruição como o elemento do humano que escapa à regência do fálico, do libidinal propriamente dito. Freud chama esse constitucional de elemento feminino, componente da bissexualidade do ser humano. Chama de masoquismo feminino a evidenciação desse componente na sexualidade do homem e atribui sua dominância na composição da sexualidade masculina a uma falha do recalque do feminino, quer isso venha a se manifestar num homem ou numa mulher.
O dispositivo analítico inventado por Freud, a partir do seu desejo de tratar o real dos seus pacientes, o mal-estar do ser falante em suas diversas formas de apresentação, já completou cem anos. Sua aplicação ao tratamento de crianças também está bem perto do centenário. Entretanto, apesar do tempo transcorrido entre as análises de Hans e Ricardo, há algo em comum entre as duas.
O estabelecimento dos fundamentos da psicanálise pelo seu inventor permitiu que ela continuasse a se desenvolver mesmo depois de seu desaparecimento. Sacudida pelas idéias de M. Klein, no que diz respeito à questão do objeto oral, mas sobretudo vivificada, pela entrada de Lacan em seu campo, dando ênfase ao simbólico, no seu primeiro ensino, e ao real, no último, a psicanálise atravessou o século XX deixando suas marcas no sujeito contemporâneo, que enfrenta este início de um novo século.
Isso nos leva a pensar na função do psicanalista hoje, no que ele visa, do ponto de vista de sua ética, quando recebe em seu consultório ou onde quer que se encontre a demanda de um sujeito que sofre sem saber que destino dar ao seu mal-estar.
Apesar das novas formas de organização familiar, tal como o adulto, a criança em análise busca a construção de um saber sobre si mesma, sobre o seu sexo, sobre sua origem, saber esse que possa lhe possibilitar regular seu gozo.
Tentando responder ao apelo que a mim foi dirigido por essa criança que mal sabe balbuciar sua dor de existir, não resisti ao meu desejo de ser seu analista, de acompanhar seu devir subjetivo. Acolhi o apelo da criança, sua sede de vir a ser, seu anseio de subjetivar-se, de deixar o lugar de objeto do Outro materno e assumir uma subjetividade original, aceitei ocupar o lugar de um analista para ela. Acolhi a curiosidade de Ricardo quanto à sua origem, isto é, seu real indizível, sua fantasia moldada na sua relação com o Outro, a precária construção do seu Édipo, através de um Nome-do-Pai que lhe possibilite regular o excesso de gozo, através da produção de sintomas.
O desafio do psicanalista que trabalha com crianças é garantir-lhes uma experiência analítica, com suas particularidades, mesmo durante a infância, conduzindo-as à construção de um saber que responda às suas questões que dizem respeito à sexuação e à subjetivação.
Convém lembrar que a subjetivação nos nossos dias, de poucos ideais culturais, depende em grande parte da exposição maciça ao discurso da ciência, veiculado pela mídia, que fornece cada vez mais, aos seres falantes, significantes fabricados e generalizados. A oferta desses significantes pré-fabricados situa a psicanálise, na medida em que ela os questiona, tenta miná-los, na contra corrente da cultura.
Convém lembrar também que a orientação lacaniana na condução de uma análise de criança é a mesma de uma análise de adulto, isto é, orientação em direção ao real, visando seu tratamento, sua elucubração pelo simbólico, pelo fálico, pela via da sexuação.
Sabendo que o real e o gozo nele implicado chegam à consciência da criança e dos seus pais como aflição, angústia desmesurada, quando as defesas advindas do recalque e das conseqüentes formações do inconsciente falharam, voltemos à história de Ricardo, exemplo dessa falha.
Sou procurado por sua mãe, que queria para seu filho um analista homem, para suprir a suposta falta causada pela ausência de um pai.
“Faz um homem para mim?”, foi também a demanda que Ricardo me fez.
Ricardo é uma criança expansiva, inteligente, sem as inibições e os sintomas comuns na sua idade (as fobias). Perturba a mãe com questões sobre a sua origem, com sua teimosia e dificuldade em obedecer. Perturba-lhe também o sono, com sua insistência em dormir em sua cama e com sua busca aflita por contatos erotizados com o seu corpo. Exausta, angustiada e culpabilizada, não conseguindo dar conta sozinha da situação, ela recorre a um analista.
Como sua mãe, Ricardo também quer uma análise e desenvolve rapidamente uma transferência.
Quanto a mim, reconheço meu desejo de me posicionar como seu analista e me proponho como direção a busca da criação de uma père-versão, uma versão de pai que lhe possibilite a regulação de seu gozo, da sua aflição. Vou em direção à fantasia criada desde a primeira entrevista: “o gato que quer comer o rato, maltratar o rato”. Eu sou o Tom, como ele me nomeia, e ele, o Jerry, através da aceitação da nomeação por mim proposta Jerry provoca Tom, de todas as forma que pode, para tornar-se alvo de sua raiva, suas maldades. O rato oferece-se ao gato como objeto oral, que provoca seu apetite cruel.
Como analista, acolho seu jogo de criança e seus desenhos, procurando não lhes atribuir sentido. Opto pelo corte da sessão, como forma de levá-lo à
perplexidade, da mesma forma que nas análises com adultos, despertando assim sua curiosidade, seu desejo de saber.
No intervalo entre as primeiras sessões, a mãe me procura para contar detalhes da vida de ambos, para pedir-me conselhos e orientação de como lidar com as questões cada vez mais perturbadoras que Ricardo lhe traz. Acolho seu mal-estar sugerindo-lhe apenas que envie Ricardo, com suas questões embaraçosas, ao seu analista.
Voltando à primeira entrevista que Ricardo teve comigo, gostaria de discutir uma questão crucial das análises com crianças: a questão da demanda dos pais e da demanda da criança. Como lidar com essas duas demandas?
Com esta análise, a demanda inicial foi formulada pela mãe: um analista homem para o seu filho, que na verdade encobria a demanda implícita de um pai para seu filho. A minha questão era se se tratava de uma demanda de análise para o seu filho ou para ela. Privilegio meu desejo de ser analista para Ricardo.
Minha intenção era que a demanda inicial de Ricardo, “Faz um homem para mim”, se transformasse numa verdadeira demanda de análise e que do pedido de um homem Ricardo caminhasse para a construção de um Nome-do-Pai, de uma versão do pai (uma père-version).
A demanda inicial de Ricardo rapidamente cede lugar a uma outra: querer saber sobre sua origem, isto é, defrontar-se com a questão crucial de todo sujeito, saber sobre sua origem. Questão que remete ao real do gozo dos pais e de como teria sido concebido, produto desse encontro mítico.
É a partir da elucubração da angústia suscitada por essa questão que se inicia o drama edípico: a dor da rejeição pelos pais reais (tal como na tragédia de
Ricardo espera de mim o que Édipo esperou de Tirésias: o fascínio e o horror pela “verdade”.
Cabe ao analista conduzir seu pequeno analisando à edificação de uma suplência, de uma versão de pai suficiente para cingir o real insuportável de um gozo sem limite.
É necessário elaborar o Édipo para poder atravessá-lo. Antes das desidentificações com as figuras edípicas, faz-se necessário construí-las. Antes de confrontar-se com o real que faz furo no inconsciente, no simbólico, que aponta para a não existência da relação sexual, um sujeito há que se constituir.
Ricardo, antes de atingir a puberdade, vai precisar estar aparelhado com suas identificações imaginárias, para melhor fazer face ao tropeço no real que caracteriza essa fase da vida.
A demanda inicial da análise de Ricardo aponta para um pedido de regulação para o seu gozo desenfreado: “Faz um homem para mim?” A orientação dessa análise poderia ser a da sexuação, da orientação do analisando ao seu devir sexual. A sexuação, sobrepondo-se ao sexo real, vai possibilitar a criação de um semblante imaginário que possa fazer suplência ao impossível da relação sexual.
O ato é fundamental na análise com crianças. Graciela Brodsky, em sua conferência sobre o princípio da redução, reafirma que a presença do analista na sessão é a presença do real, e o seu ato tem por objetivo atingir o real do analisando. Por meio da interpretação que resulta do ato do analista, pode-se pensar na possibilidade de uma conexão do gozo com o inconsciente, uma conexão entre o real e o simbólico.
O desejo do analista é a garantia do seu ato, a possibilidade do tratamento do gozo do analisando. Ricardo, ao se posicionar como objeto do Outro materno (o rato que provoca o gato com o intuito de ser por ele maltratado) solicita a intervenção do seu analista no sentido de separá-lo desse Outro tirânico e de sua ânsia irrefreada de gozo. Demanda ao analista uma regulação fálica, simbólica, que lhe possibilite cingir o seu real e sexuar-se.
Por sermos seres falantes temos nosso instinto sexual perturbado pela interseção com a estrutura defensiva nomeada por Freud de inconsciente. É graças a essa defesa que construímos sintomas, elegemos um semelhante como parceiro sexual e garantimos a reprodução de nossa espécie, através da “invenção” de uma sexualidade reguladora do gozo ilimitado.
O inconsciente pode ser pensado dessa forma como um órgão que parasita o real de nossa natureza, que parasita o instinto sexual, da mesma forma que o Édipo pode ser entendido como uma estrutura que cinge o real, reguladora do gozo, através de suas formações sintomáticas e suas identificações imaginárias.