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EMPRESA PSICOPATA VERSUS EMPRESA CIDADÃ

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(1)RGSA – Revista de Gestão Social e Ambiental Jan. - Abr. 2007, V. 1, Nº. 1, pp. 19-29 www.rgsa.com.br. EMPRESA PSICOPATA VERSUS EMPRESA CIDADÃ. Luis Felipe Nascimento*. Resumo Neste artigo propõe-se uma reflexão sobre os perfis de comportamentos que caracterizariam uma “empresa psicopata” e uma “empresa cidadã”. O artigo teve origem num debate sobre o documentário The corporation. Esse documentário, produzido em 2004 e que já recebeu 24 prêmios internacionais, apresenta 40 depoimentos de altos executivos de multinacionais, professores universitários, cineastas, historiadores, lideranças de organizações não governamentais, de um prêmio Nobel, de um operador de bolsa de valores, de um espião de empresas etc. Uma vez que uma empresa é considerada uma pessoa jurídica, questiona-se que tipo de personalidade terá essa “pessoa”? Ela poderá ter um perfil psicopata ou cidadã. Utilizando-se da proposta de tipologias das perspectivas ambientalistas proposta por Egri e Pinfield, são analisados os depoimentos e a conduta das empresas. Por fim, questiona-se quem terá mais sucesso nos próximos anos: as empresas psicopatas ou as empresas cidadãs? Este artigo propõe uma reflexão sobre os perfis de comportamentos que caracterizariam uma “empresa psicopata” e uma “empresa cidadã”. O artigo teve origem num debate sobre o documentário The corporation, que reúne 40 depoimentos de executivos, cineastas, intelectuais e até de um espião de empresas, entre outros. Uma vez que uma empresa é considerada uma pessoa jurídica, questiona-se que tipo de personalidade terá essa “pessoa”? Psicopata ou cidadã? Utilizando-se da proposta de tipologias das perspectivas ambientalistas proposta por Egri e Pinfield, são analisados os depoimentos e a conduta das empresas. Por fim, questiona-se quem terá mais sucesso nos próximos anos: as empresas psicopatas ou as empresas cidadãs?. *. Escola de Administração - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: <[email protected]>..

(2) Empresa Psicopata versus Empresa Cidadã. Nascimento. Introdução Este artigo teve origem num debate realizado com os alunos de mestrado e doutorado sobre o documentário The corporation. Esse documentário, produzido em 2004 e que já recebeu 24 prêmios internacionais, apresenta 40 depoimentos de altos executivos de multinacionais, professores universitários, cineastas, historiadores, lideranças de organizações não governamentais, de um prêmio Nobel, um operador da bolsa de valores, de um espião de empresas, etc. Uma vez que uma empresa é considerada uma pessoa jurídica, questiona-se que tipo de personalidade terá esta “pessoa”? Ao analisar a personalidade das pessoas jurídicas, os depoentes manifestam sua visão sobre o papel das empresas na sociedade. Em alguns depoimentos as empresas são consideradas nefastas para a sociedade, sendo comparadas com o perfil de uma pessoa psicopata. Teríamos então uma “empresa psicopata”. Em outros, é salientada a responsabilidade social que uma empresa privada deve assumir, sendo comparada com o perfil de um bom cidadão, ou seja, uma “empresa cidadã”. Os depoimentos poderiam ser analisados de diferentes ângulos. Na reflexão realizada neste artigo, optou-se por utilizar a proposta da tipologia das perspectivas ambientalistas de Egri e Pinfield (CLEGG; HARDY; NORD, 1998), pela qual as perspectivas são classificadas em paradigma social dominante, ambientalismo renovado e ambientalismo radical. O processo produtivo e a conduta adotada pela “pessoa” empresa irá impactar o ambiente social e ambiental de alguma forma, contribuindo para a um desenvolvimento mais sustentável ou utilizando-se dos recursos naturais e humanos sem preocupações sociais e ambientais. A sua conduta e o relacionamento com os stakeholders em determinado período contribui para a formação do que é apresentado em The corporation como sua personalidade. Observa-se que muitas empresas que na década de 1990 foram condenadas por violações e ilegalidades cometidas mudaram de conduta; atualmente, publicam relatórios de responsabilidade social e anunciam que desenvolvem projetos sustentáveis. A primeira questão que surge é sobre o entendimento das empresas acerca de sustentabilidade. Estariam as empresas preocupadas com a sustentabilidade do planeta ou com a sua sustentabilidade? Neste artigo, propõe-se uma reflexão sobre esses dois perfis de comportamentos, que caracterizariam uma “empresa psicopata” e uma “empresa cidadã”. Para tanto, foram analisados os depoimentos apresentados no documentário The corporation, as declarações de gestores de empresas brasileiras e realizada uma revisão da literatura afim. A primeira seção apresenta uma síntese da tipologia das perspectivas ambientalistas proposta por Egri e Pinfield (1998), seguida por um relato do surgimento das corporações. Na terceira seção são apresentados os argumentos quanto ao por que considerar uma empresa psicopata, enquanto na quarta seção são apresentados os argumentos quanto ao por que considerar uma empresa cidadã. Na quinta seção, discute-se o papel dos cidadãos numa empresa, finalizando com algumas considerações sobre a reflexão proposta.. As tipologias das perspectivas ambientalistas Segundo Egri e Pinfield (1998), a relação entre homem e natureza pode ser dividida em três perspectivas: o paradigma social dominante, que representa a visão tradicional de mundo da sociedade industrializada; o ambientalismo radical, que representa a visão de mundo daqueles que defendem a mudança tranformacional; e o ambientalismo renovado, que representa aqueles que se colocam numa posição intermediária entre o paradigma social dominante e o ambientalismo radical. A seguir, são apresentadas essas três perspectivas.. RGSA – www.rgsa.com.br. V.1, Nº. 1 – jan. /abr. 2007 20.

(3) Empresa Psicopata versus Empresa Cidadã. Nascimento. A perspectiva do paradigma social dominante O paradigma social dominante (PSD) identifica-se com os princípios e objetivos da sociedade capitalista ocidental, que visa ao crescimento econômico e ao lucro. Nesse paradigma os recursos naturais são vistos como exploráveis infinitamente e os impactos ambientais, como externalidades. A relação do homem com a natureza é hierárquica, de dominação. A economia deve funcionar com o mínimo de intervenção do Estado, pois um mercado livre se auto-regula e corrige eventuais distorções. O crescimento econômico irá gerar maior consumo e os resíduos e demais problemas resultantes desse aumento de consumo serão resolvidos pela tecnologia. Se alguma coisa é problema hoje, amanhã haverá uma tecnologia que irá resolver esse problema. A perspectiva do ambientalismo radical O ambientalismo radical coloca-se em oposição ao paradigma social dominante e defende um redesenho dos sistemas agrícola e industrial de produção e transporte (COMMONER, 1990). Tem como objetivo o equilíbrio holístico com a natureza e prega a justiça ambiental e social. No ambientalismo radical predominam quatro filosofias: a ecologia profunda, a ecologia espiritual, a ecologia social e o ecofeminismo. Estas diferem-se pelos meios utilizados e não pelos fins. A proposta da ecologia profunda é o igualitarismo biosférico, pelo qual os homens não teriam direito de intervir na riqueza e na diversidade de todas as formas de vida, sejam elas humanas ou não-humanas. A ecologia espiritual também defende a necessidade da mudança na consciência humana como pré-requisito para as mudanças nos níveis físicos da existência. Para superar a visão mecanicista da sociedade industrializada, é preciso as ligações sagradas da humanidade com todos os aspectos da criação. A ecologia social propõe o municipalismo libertário, que seria implantado por meio de um planejamento que priorizaria o biorregionalismo, o qual estaria em sintonia com os ecossistemas locais. No ecofeminismo, a dominação da natureza é relacionada com a dominação hierárquica dos homens, baseada no gênero, raça, etnia e classe social. A questão central do ecofeminismo é, por fim, toda forma de opressão (WARREN, 1990). O ambientalismo radical serve como um guarda-chuva filosófico para diversos grupos de interesse, cujos objetivos nem sempre coincidem. A perspectiva do ambientalismo renovado O ambientalismo renovado surgiu no século XIX como uma crítica ao industrialismo, alertando as pessoas sobre os efeitos desse processo na saúde humana e no meio ambiente. Essa perspectiva apresenta uma modificação de valores antropocêntricos, incorporando os valores biocêntricos e propondo a construção de sistemas industriais sustentáveis. Propõe também o conceito de stakeholders e a defesa dos seus direitos. O ambientalismo renovado tem como objetivos o desenvolvimento sustentável do ambiente natural, bem como o desenvolvimento econômico e industrial para reduzir as desigualdades sociais nos níveis local e global. As três perspectivas ambientalistas apresentadas serão utilizadas nos seções seguintes, para identificar o posicionamento ideológico de alguns dos depoentes. A próxima seção faz um histórico do surgimento das corporações e de como elas conquistaram o poder que têm atualmente.. RGSA – www.rgsa.com.br. V.1, Nº. 1 – jan. /abr. 2007 21.

(4) Empresa Psicopata versus Empresa Cidadã. Nascimento. O surgimento das corporações Segundo uma das entrevistadas no documentário The corporation, Mary Zepernick, integrante do Program on Corporation, Law and Democracy, no início da história dos EUA, as sociedades anônimas tinham funções bem definidas. Era estabelecido na carta patente quanto tempo elas poderiam operar, o limite de capital, o que elas fariam etc. Uma corporação não podia comprar outra corporação e os acionistas eram responsáveis por tudo o que acontecia nessa corporação. Howard Zinn, autor do livro A people history of the USA, afirma que Revolução Industrial e a Guerra de Secessão contribuíram para o crescimento das corporações americanas. Nesse período, as ferrovias receberam grandes subsídios em terras e financiamentos bancários. Os advogados das corporações argumentavam que uma corporação tinha poderes limitados e que precisavam de mais liberdade. No final da Guerra de Secessão, foi aprovada a Emenda 14, com o objetivo de dar direitos iguais aos negros recém-libertados da escravidão. Essa emenda dizia: “Nenhum Estado privará alguém da vida, liberdade ou posse, sem a aprovação da lei”. A emenda visava evitar que os governos continuassem retirando a vida, a liberdade ou posses dos negros, como era feito antes. Aproveitando-se da Emenda 14, os advogados das corporações foram aos tribunais alegando que uma corporação é uma “pessoa”, uma pessoa jurídica, e que, portanto, segundo a Emenda 14, as corporações também teriam direito à vida, à liberdade e à posse. O Supremo Tribunal americano aceitou a argumentação. Segundo a pesquisa de Zinn, entre 1890 e 1910 houve 307 casos julgados com base na Emenda 14. Destes, 288 foram apresentados por corporações e 19 por negros. As corporações aumentaram o seu poder, passaram a comprar e vender propriedades, a fazer empréstimos, a processar e serem processadas; enfim, passaram a ser um membro da sociedade. Sendo uma empresa uma “pessoa”, elas poderiam ser comparadas com as demais pessoas; ou não? Analisando o perfil de conduta das empresas, surgiram questionamentos, tais como: Pode se dizer que uma empresa é cidadã? Seria uma empresa psicopata? Adiante, apresentamos depoimentos que analisam essas questões.. A empresa psicopata Robert Hare é um consultor do FBI para análise de casos de pessoas psicopatas. No depoimento dado no documentário The corporation, ele estabelece uma relação entre empresas e pessoas psicopatas. Ele diz que se uma empresa apresenta: • total desinteresse pelo sentimento alheio; • incapacidade de manter relações duradouras; • total desconsideração pela segurança alheia; e • argumentos mentirosos e enganadores para obter mais lucros, devemos considerá-la uma empresa psicopata, pois ela possui o perfil de uma pessoa psicopata. Noam Chomsky, pesquisador do MIT/EUA, diz que, ao analisar uma empresa, é preciso distinguir os “indivíduos” da “organização”, ou seja, da empresa onde trabalham. Uma empresa que tem por objetivos o lucro para seus acionistas em primeiro lugar pode ser comparada com um monstro faminto. Chomsky cita o exemplo das empresas escravocratas, onde os indivíduos que delas participavam podiam ser amigáveis, benevolentes, gentis e até mesmo preocupados com os escravos, mas que em seu papel institucional eram monstros, porque os objetivos dessas empresas eram monstruosos. A posição de Chomsky é reforçada pelo depoimento do corretor da bolsa de valores de Nova York, Carlton Brown, quando relata que o atentado de 11 de setembro foi a coisa mais horrível que ele já tinha visto na vida, acrescentando:. RGSA – www.rgsa.com.br. V.1, Nº. 1 – jan. /abr. 2007 22.

(5) Empresa Psicopata versus Empresa Cidadã. Nascimento. mas, eu e qualquer outro corretor, que não estava naquele prédio, a primeira coisa que nós pensamos foi... “Meu Deus, o ouro vai explodir!” Por sorte, os meus clientes tinham ouro e o capital deles dobrou. Foi uma benção disfarçada!. Referindo-se ao bombardeio americano no Iraque em 1991, Brown confessa também que tudo aquilo foi catastrófico, mas que quando viu o barril de petróleo passar de US$13 para US$40, ele e os colegas torciam para que Saddam Hussein criasse mais problemas, pois assim o preço subiria ainda mais. Ele conclui dizendo que “na devastação, também há oportunidades!” (THE CORPORATION, 2004). Robert Monks, do Corporate Governance Adviser, em seu depoimento ao The corporation, questiona a proposta de cidadãos corporativos e cita Baron Thurlow quando afirmava que “as corporações não têm alma para salvar, nem corpos a aprisionar.” Ao visitar uma fábrica de papel que jogava seus efluentes diretamente no rio, Monks constatou que todos na cidade eram cientes e contrários à poluição do rio, desde os diretores da empresa, o prefeito da cidade até as lideranças da comunidade, mas a empresa continuava lá, poluindo. Refletindo sobre esse fato, ele diz: “...é como se nós, em busca da riqueza e da prosperidade, criássemos uma máquina para nos destruir, e mesmo sabendo que estamos nos destruindo, continuássemos operando até a destruição total”. Milton Friedman, prêmio Nobel de economia, diferencia a corporação das pessoas que nela atuam e questiona: Um prédio pode ter responsabilidade social? Como esperar que uma corporação o tenha? A corporação não passa de uma estrutura legal artificial, mas as pessoas que a compõem, sejam acionistas, executivos ou funcionários, todos têm responsabilidades morais. (THE. CORPORATION, 2004) Michael Moore, cineasta entrevistado em The corporation, afirma: Há corporações que beneficiam suas comunidades e produzem bens e serviços que melhoram nossas vidas, e isso é bom. O problema é a motivação para o lucro, porque, para essa gente, nem o céu é o limite.. Analisando os depoimentos, poderíamos dizer que Carlton Brown é o típico defensor do paradigma social dominante, pois percebe e sensibiliza-se com as tragédias, mas vê nas tragédias uma oportunidade de lucrar mais, chegando a ponto de dizer que torcia para que Saddan Hussein “criasse mais problemas”, para que o preço do petróleo subisse mais. Quando Michael Moore, referindo-se aos gestores das corporações, afirma que “para essa gente, nem o céu é o limite”, está assumindo uma posição identificada com o ambientalismo radical, opondo-se frontalmente aos objetivos e métodos do paradigma social dominante. Robert Monks, ao constatar a poluição de um rio, questiona-se dizendo que “...é como se nós, em busca da riqueza e prosperidade, criássemos uma máquina para nos destruir...” Sua reação poderia parecer a de um ambientalista radical; mas, provavelmente, o que Monks gostaria de ver era aquela fábrica produzindo, gerando empregos e riqueza para aquela cidade, sem poluir o rio, o que o caracterizaria como um ambientalista renovado. Deixar de poluir ou de cometer infrações é um processo que ocorreu com várias empresas na década de 1990, após terem sido condenadas a pagar multas milionárias. A seguir, são relacionadas as empresas que pagaram as cinco maiores multas nos EUA durante a década de 1990.. RGSA – www.rgsa.com.br. V.1, Nº. 1 – jan. /abr. 2007 23.

(6) Empresa Psicopata versus Empresa Cidadã. Nascimento. Tabela 1 Maiores multas pagas por corporações nos EUA na década de 1990 Empresa Exxon Pfizer General Electric IBM Chevron. Motivo derramamento de petróleo do Exxon Valdez violações antitruste fraudar o governo exportações ilegais violações ambientais. Valor da multa (US$) 125 milhões 20 milhões 9,5 milhões 8,5 milhões 6,5 milhões.. Fonte: The corporation (2004).. Na próxima seção é discutido o perfil de uma empresa cidadã e, passado cerca de uma década, as empresas multadas nos anos 1990 apresentam um perfil bem diferente, conforme demonstrado no quadro 1.. A empresa cidadã Qual seria o perfil de uma empresa cidadã? É possível sobreviver num ambiente competitivo e manter um comportamento ético, assumindo as responsabilidades sociais e ambientais? O documentário The corporation mostra Ira Jackson, diretor do Center for Business and Government da Kennedy School/Harvard University, proferindo uma palestra, onde ele diz: Uma corporação é como uma família. Seus integrantes trabalham juntos por um objetivo comum. Assim como uma águia, ela plana, tem visão aguçada, é competitiva e ataca, mas não é um abutre. Ela é nobre, visionária, majestosa. As pessoas podem acreditar e se inspirar nela. Ela cria condições de vôo.. Ele sugere esse texto como princípios de uma empresa que deseje ser responsável. Para surpresa de quem está assistindo ao documentário, no final, Jackson sorri ironicamente, bate palmas e diz: “Bem pessoal, chega de bobagens, vamos ao trabalho!” O depoimento de Jackson reforça a idéia de que as empresas utilizam no seu vocabulário a responsabilidade socioambiental apenas para melhorar sua imagem, para fazer de conta que estão preocupadas com a sociedade e com o meio ambiente, mas que na verdade, tudo isso é bobagem. O que interessa é atingir o objetivo, a geração de lucro para os seus acionistas; ou seja, do tripé no qual se assenta a proposta de desenvolvimento sustentável, só interessa o desempenho econômico. Jackson é o outro legítimo representante do paradigma social dominante, pois ironiza a figura da águia e identifica-se com o abutre. Uma proposta intermediária é a de incorporar as externalidades; ou seja, quantificar os danos sociais e ambientais decorrentes da atuação das empresas e incorporar esses valores aos custos operacionais. Essa posição, embora menos extrema, ainda enquadra-se nos princípios do paradigma social dominante. Segundo Milton Freedman, uma externalidade é o resultado de uma transação entre dois indivíduos para um terceiro que não consentiu ou participou do desenrolar da transação.” (THE CORPORATION, 2004). A proposta de incorporar as externalidades vai além do que já existe hoje nas legislações ambientais, que exigem de quem cause um dano ao meio ambiente uma reparação desse dano e de compensações para a sociedade. Com a incorporação das externalidades ao custo do produto, a empresa estaria acrescentando aos atuais custos, os custos da deteriorização ambiental causada pela produção desse produto, resultando num preço final maior a ser pago pelo consumidor. Com a incorporação das externalidades ao custo do. RGSA – www.rgsa.com.br. V.1, Nº. 1 – jan. /abr. 2007 24.

(7) Empresa Psicopata versus Empresa Cidadã. Nascimento. produto, a empresa estaria acrescentando às suas despesas, os custos da deteriorização ambiental causada pela fabricação desse produto, resultando assim num preço final maior a ser pago pelo consumidor. É interessante observar que as corporações multinacionais que pagaram as maiores multas na década de 1990 nos EUA, publicam em 2006, nos seus websites e relatórios de responsabilidade social corporativa uma nova postura. É interessante observar que as corporações multinacionais que pagaram as maiores multas na década de 1990 nos EUA, em 2006, divulgaram nos seus websites relatórios de responsabilidade social corporativa que revelavam uma nova postura A Exxon, após o derramamento de óleo ocorrido no Alasca, conhecido como Exxon Valdez, publica em seu site informações sobre as medidas tomadas para a redução dos derramamentos de óleo. A Pfizer, após ser condenada por violações antitruste, em 2006 fala em conformidade legal e comportamento ético. A GE, condenada por fraudar o governo americano, em 2006 divulga que possui rigorosa conformidade com todas as exigência legais e financeiras. A Exxon, após o desastre com o petroleiro Exxon Valdez, ocorrido no Alasca em 1989, passou a divulgar em seu site informações sobre as medidas tomadas para evitar novos derramamentos de óleo. A Pfizer, depois de condenada por violações antitruste, em 2006 fala em conformidade legal e comportamento ético. A GE, condenada por fraudar o governo americano, em 2006 divulga que está adotando procedimentos de rigorosa conformidade com todas as exigência legais e financeiras. A IBM, condenada por exportações ilegais, integrou as auditorias interna e externa e divulga os dados em seus relatórios. A Chevron, que pagou US$6,5 milhões de multa por violações ambientais, em 2006 declara como meta “ser reconhecida e admirada em qualquer lugar, por sua excelência ambiental.” Quadro 1 Declarações das empresas nos seus respectivos websites Empresa. Declarações publicadas nos websites das respectivas empresas Em 2004 ocorreram apenas dois derramamentos de óleo em navios operados pela Exxon Mobil, o que significa uma redução de 80% em Exxon relação ao ano de 2000. Isso é resultado de um intenso programa de gestão que inclui treinamento, adoção de novos procedimentos e equipamentos de manutenção etc. Assegurar conformidade legal e comportamento ético – os funcionários da empresa devem obedecer às leis e às regulamentações, bem como Pfizer demonstrar um padrão de comportamento ético. A GE age em rigorosa conformidade com os requisitos legais. Um General Electric desempenho econômico sustentável deve estar em rigorosa conformidade com todas as exigências legais e financeiras. Em 31 de dezembro de 2004, a empresa integrou a auditoria interna com a auditoria externa realizada pela International Business Machines IBM Corporation, consolidando os dados financeiros daquele ano. “... nossa meta é sermos reconhecidos e admirados em qualquer lugar, por Chevron nossa excelência ambiental.” Fonte: websites das empresas.. O leitor mais crítico continuará em dúvida: Será que essas informações divulgadas em sites e relatórios são verdadeiras? Quem fiscaliza e pode atestar que são verdadeiras? Em qual das tipologias ambientalistas essas empresas se enquadrariam? Existem várias organizações que estão estabelecendo normas e indicadores sobre o desempenho socioambiental das empresas. A certificação AS 8000 foi criada pela Council Economic Priorities Accreditation Agency, em 1997, com o objetivo de atestar que na cadeia RGSA – www.rgsa.com.br. V.1, Nº. 1 – jan. /abr. 2007 25.

(8) Empresa Psicopata versus Empresa Cidadã. Nascimento. produtiva de uma organização existem boas práticas sociais. Em 1999, o Institute of Social and Ethical Accountability lançou a AA 1000, que visa monitorar a relação da empresa com a comunidade. No Brasil, o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social foca sete temas: valores e transparência, público interno, meio ambiente, fornecedores, clientes, consumidores, comunidade, governo e sociedade (TACHIZAWA, 2005). Entretanto, para ser uma empresa cidadã não é necessário obter todos esses certificados e atender a todos os indicadores socioambientais. Obviamente, que não basta cumprir a legislação e pagar os seus impostos. Uma empresa cidadã deve buscar ser um referencial de excelência nas áreas social, econômica e ambiental. Ao definir responsabilidade social, Grajew(2001) reforça a idéia da empresa cidadã como um ir além das exigências legais. [...] a questão da responsabilidade social vai, portanto, além da postura legal da empresa, da prática filantrópica ou de apoio à comunidade. Significa mudança de atitude, numa perspectiva de gestão empresarial com foco na qualidade das relações e na geração de valor para todos. (GRAJEW, 2001). Algumas organizações já foram criadas visando a essa excelência socioeconômica e ambiental, como é o caso das cooperativas ecologistas. Mas como transformar uma multinacional numa empresa cidadã? Isso é possível? O caso da empresa Natura Cosméticos S.A. pode ser um exemplo de empresa que atua em diversos países e que vem buscando a excelência socioeconômica e ambiental. Segundo Dinato (2006), os investimentos na linha Ekos realizados pela Natura superaram todas as suas expectativas, tornando-se hoje o seu carro-chefe. A empresa Natura declara que “a base da nossa existência são as nossas relações” e identifica-se com a visão de Grajew. Percebe-se que a empresa busca a excelência em tudo o que faz, que estimula um comportamento autônomo e comprometido de seus colaboradores, como também os incentiva a desenvolverem trabalhos voluntários nas comunidades. O que diferencia a Natura de outras empresas que também estimulam o trabalho voluntário de seus colaboradores, é que na Natura, as pessoas estão indo além do exigido pela empresa. Os colaboradores realizam trabalho voluntário independentemente de conquistar pontos na avaliação realizada pela empresa. O comprometimento com a responsabilidade socioambiental deixou de ser trabalho, para fazer parte das suas responsabilidades como cidadãos engajados. Isso acontece porque os colaboradores incorporaram os valores na sua vida pessoal. Quais são condições necessárias para que isso ocorra em outras empresas? No próxima seção são relatados depoimentos de gestores que explicam como ocorre esse processo de conversão.. Os cidadãos na empresa Em 1994, quando os clientes começaram a perguntar sobre o que a Comercial Carpet Manufacturer fazia pelo meio ambiente, Ray Anderson (CEO − Comercial Carpet Manufacturer), percebeu que precisava fazer alguma coisa. Em seu depoimento diz: [...] nós não tínhamos o que dizer. Isso nos perturbou e, então, decidimos criar uma força-tarefa com funções ecológicas. Mas, foi a leitura do livro a Ecologia do comércio, de Paul Hawken, que mudou a minha vida.. RGSA – www.rgsa.com.br. V.1, Nº. 1 – jan. /abr. 2007 26.

(9) Empresa Psicopata versus Empresa Cidadã. Nascimento. Continuando o seu depoimento, Ray Anderson afirma que alguns produtos simplesmente não deveriam ser produzidos, a não ser que isso possa ser feito de modo sustentável. Ele conclui dizendo: A minha atuação era igual a de um saqueador, saqueando algo que não era meu, mas que pertence a todos os seres vivos da Terra. Aí, eu pensei: “Meu Deus! Um dia isso será ilegal!” O dia em que o saque à natureza for proibido, e esse dia vai chegar, gente como eu vai parar na cadeia. (THE. CORPORATION, 2004) Na pesquisa realizada por Dinato (Dinato, 2006) com executivos e técnicos da empresa Natura Cosméticos S.A. foi constatado que o desenvolvimento da linha de produtos Ekos transformou não só a visão da empresa, como também o comportamento e os valores das pessoas envolvidas no projeto. Uma das pessoas entrevistadas disse que se orgulhava de trabalhar na Natura, e acrescentou: [...] eu estou fazendo a coisa certa! A minha vida mudou desde que me engajei neste projeto. Mudei a forma de decorar a minha casa, mudei os lugares para onde eu vou nas férias, mudei de amigos,... enfim, mudei meus valores! (Técnica da Natura apud DINATO, 2006). Outro técnico entrevistado informa que a Natura gera centenas de idéias e só implementa uma pequena parte, pois um dos critérios na seleção das idéias, é o de que o produto deve fazer bem para a saúde do consumidor. Algumas propostas com grande viabilidade de mercado foram abandonadas por não atenderem ao pré-requisito de ser um produto não agressivo à saúde (DINATO, 2006). Talvez aqui esteja o segredo. Quando os colaboradores percebem que as práticas da empresa onde trabalham são coerentes com os valores anunciados, que existe respeito com os colaboradores, clientes e fornecedores e transparência nas sua atuação no mercado, conseguese mais do que o chamado “vestir a camiseta da empresa”, consegue-se que os colaboradores introjetem os valores e se tornem cidadãos mais comprometidos com as questões sociais e ambientais. Portanto, não é possível ter uma empresa cidadã se não tiver colaboradores, dirigentes e acionistas cidadãos comprometidos.. Considerações finais A empresa típica do século XX era extrativista, esbanjadora e linear, que extraía os recursos naturais do solo desperdiçando a matéria-prima e devolvendo ao solo os resíduos. As práticas da empresa típica do século XX são denominadas no documentário The corporation de “tirania intergeracional”, uma forma de taxação livre, imposta por nós às gerações futuras. As empresas que na década de 1990 foram condenadas, apresentam-se hoje como convertidas. Desejam ser reconhecidas e admiradas, em qualquer lugar, por sua excelência ambiental, conforme consta no website da Chevron. Os gestores e colaboradores, identificados como defensores do paradigma social dominante continuam obtendo sucesso. Mas será que uma reportagem mostrando a vibração dos colaboradores de uma empresa com resultados de uma catástrofe não traria perdas significativas, ou talvez irreversíveis, para essa empresa? Será que no século XXI haverá mercado para as empresas psicopatas? Poderá uma empresa continuar saqueando o que não é seu, como diz Ray Anderson? Considerando que algumas empresas adotam práticas diferenciadas, reconhecidas pela sociedade como empresas cidadãs, não haverá uma maior cobrança pelos consumidores das demais empresas?. RGSA – www.rgsa.com.br. V.1, Nº. 1 – jan. /abr. 2007 27.

(10) Empresa Psicopata versus Empresa Cidadã. Nascimento. Será que ter uma relação de respeito com os colaboradores, boas relações com a comunidade do entorno, alianças com os fornecedores, além de buscar oferecer produtos e serviços sustentáveis aos seus consumidores, não resulta em melhorias na imagem e na competitividade de uma organização? São muitos os “serás”, muitas as dúvidas, mas é de se considerar que os preços dos produtos tendem a tornarem-se muito semelhantes entre os diversos concorrentes. Nesse momento, a imagem de uma empresa cidadã poderá ser o grande diferencial. Esse é o desafio que as organizações terão que enfrentar nos próximos anos, e quem quiser continuar sendo uma “empresa psicopata”, talvez não tenha tempo para tornar-se uma “empresa cidadã”. O futuro poderá chegar antes do que eles esperam.. Referências CLEGG, S.; HARDY, C.; NORD, D. Handbook de Estudos Organizacionais. São Paulo: Atlas, 1998. COMMONOVER, B. Making peace with the planet. New York: Pantheon Books, 1990. DINATO, M. Produção e consumo sustentáveis: a visão da Natura Cosméticos S.A. Tese (Doutorado) − PPGA/EA/UFRGS, Porto Alegre, 2006. EGRI, C.P; PINFIELD, L.T. As organizações e a biosfera: ecologia e meio ambiente. In: CLEGG, S.; HARDY, C.; NORD, D. Handbook de Estudos Organizacionais. São Paulo: Atlas, 1998. GRAJEW, O. Evolução e perspectivas da responsabilidade social. Valor Econômico, São Paulo, 12 jul. 2001. TACHIZAWA, T. Gestão ambiental e responsabilidade social corporativa. São Paulo: Atlas, 2005. THE CORPORATION. Direção: Mark Achbar e Jennifer Abbot. Produção: Mark Achbar e Bart Simpson. Roteiro: Joel Bakan. Baseado no livro “The corporation: the pathological pursuit of profit and power”, de Joel Bakan. Disponível em: <www.thecorporation.com>. Canadá, 2004. WARREN, K. J. The power and the promise of ecological feminism. Environmental Ethics, v.12, n.2, p.125-146, 1990.. Websites CHEVRON: <www.chevron.com/social_responsability/environment/>. Acesso em: 26 abr. 2006. EXXON: <exxonmobil.com/corporate/citizenship/ccr4/2004_ccr_environ_spills.asp>. Acesso em: 26 abr. 2006.. RGSA – www.rgsa.com.br. V.1, Nº. 1 – jan. /abr. 2007 28.

(11) Empresa Psicopata versus Empresa Cidadã GENERAL ELECTRIC: Acesso em: 26 abr. 2006.. Nascimento. <www.ge.com/files/usa/em/citizenship/pdfs/citizrep2005.pdf>.. IBM: <www.ibm.com/annualreport/2004/annual/roia.shtml>. Acesso em: 26 abr. 2006. PFIZER: <www.pfizer.com/pfizer/subsites/corporate_citizenship/report/company_rsp.jsp>. Acesso em: 26 abr. 2006.. RGSA – www.rgsa.com.br. V.1, Nº. 1 – jan. /abr. 2007 29.

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