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Dissertação Mestrado Ana Filipa Santos

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Academic year: 2019

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Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Desenvolvimento e Perturbações da Linguagem na Criança – Área de Especialização em Terapia da Fala e Perturbações da Linguagem, realizada sob a orientação científica da Professora Doutora Ana Castro e da Professora Doutora Haydée Fiszbein Wertzner.

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(3)

Declaro que esta Dissertação é o resultado da minha investigação pessoal e independente. O seu conteúdo é original e todas as fontes consultadas estão devidamente mencionadas no texto, nas notas e na bibliografia.

A candidata,

____________________

Lisboa, 4 de abril de 2015.

Declaro que esta Dissertação se encontra em condições de ser apreciada pelo júri a designar.

A orientadora,

____________________

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i

AGRADECIMENTOS

Quero agradecer e expressar a minha profunda gratidão a todos os intervenientes deste percurso repleto de desafios, adversidades e glórias sem os quais não seria possível realizar este trabalho.

Em primeiro lugar, quero expressar o meu apreço às minhas orientadoras Professora Doutora Haydée Fiszbein Wertzner e Professora Doutora Ana Castro por terem aceite orientar o presente trabalho de investigação, pelos conhecimentos transmitidos, pelo apoio, incentivos e por sempre acreditarem no meu trabalho.

Agradeço a toda a minha família de São Paulo, por me terem recebido muito bem e fazerem com que a minha aventura dos quatro meses chegasse a bom porto. Agradeço em especial à Professora Doutora Haydée Fiszbein Wertzner e à sua família (marido e filha); à mãe Rute e ao pai João; à Doutora Luciana Pagan-Neves e as meninas do LIFF (Laboratório de Investigação Fonoaudiológica de Fonologia) Danira Tavares e Tatiane Barrozo por terem sido a minha família, as minhas búsulas e as minhas conselheiras em São Paulo. Vocês estão no meu coração.

Agradeço também ao Professor Doutor Hélder Alves, pela contribuição na análise estatística, pela paciência e disponibilidade revelada para a realização da análise dos resultados e pelas horas de reuniões com as minhas dúvidas.

Para a concretização deste trabalho realço a importância da cooperação dos terapeutas da fala para a constituição da amostra dos casos do português europeu e o livre acesso à base de dados do LIFF , o meu muito obrigada pois sem estes dados não teria sido possível a execução deste trabalho.

Aos meus colegas de trabalho (Leroy Merlin de Alfragide) por terem aturado o meu mau feitio durante estes dois anos.

À minha amiga e terapeuta da fala Ana Paula Micaelo pelas palavras de incentivo e por ouvir os meus desabafos dos obstáculos e dos sucessos.

Às colegas de mestrado Andreia Bernardo, Patrícia Teixeira e Mariana Salvador pelas experiências partilhadas e pelos ensinamentos no decorrer destes dois anos.

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ii Agradeço a toda a família Santos, família Oleiro e família Ferreira pelas palavras de incentivo, pela motivação e por sempre acreditarem no meu trabalho e no meu resultado.

Ao Domingos por todos os momentos que passamos juntos durante o nosso caminho, pela paciência de me ouvir, pelo apoio em todas as etapas difíceis da minha vida, pela amizade e acima de tudo pelo amor.

À minha avó Fernanda, onde quer que esteja tenho a certeza de que está muito orgulhosa e muito presente, obrigada avó pelas tuas palavras de motivação ao longo da minha licenciatura, pelo teu orgulho e pelo teu carinho.

Finalmente, os agradecimentos principais vão para os meus pais, Ana Paula e Vasco, pelo apoio e orgulho incondiconal, pelas palavras de incentivo, por ouvirem as minhas frustações, pela motivação de ser mais e melhor, por tudo e tudo e acima de tudo pelo seu fiel amor.

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iii

RESUMO

Medidas Fonológicas em crianças com perturbação dos sons da fala. Estudo comparativo entre o português europeu e o português brasileiro.

ANA FILIPA BARROS DOS SANTOS

Objetivo: O objetivo deste estudo é comparar as características de dois grupos de crianças com diagnóstico de Perturbação dos Sons da Fala (PSF), falantes de português europeu (PE) e falantes de português brasileiro (PB), considerando um conjunto de medidas fonológicas que incluem Percentagem de Consoantes Corretas (PCC), Percentagem de Consoantes Corretas Revista (PCC-R), Process Density Index (PDI), Índices Absolutos (IA) e Índices Relativos (IR) de Substituição, Omissão e Distorção, tipos de Processos Fonológicos e Percentagem de Acerto por Fonema (PAF). Método:

Neste estudo participaram dezoito crianças com diagnóstico de Perturbação dos Sons da Fala (PSF), com idades compreendidas entre os cinco anos e dois meses e os sete anos e 11 meses, sendo doze do sexo masculino e seis do sexo feminino, divididas em dois grupos - falantes de português europeu (GPE) e falantes de português brasileiro (GPB) - emparelhadas por idade, sexo e valor de PCC. A partir da análise das transcrições fonéticas constantes nas folhas de registo de cada subteste de nomeação de cada sujeito - Teste Fonético-Fonológico - Avaliação de Linguagem Pré-Escolar (TFF - ALPE)

(Mendes et al., 2009) para o português europeu, e provas de fonologia do Teste de Linguagem Infantil ABFW (Andrade et al., 2004) para o português brasileiro,- foram calculadas e comparadas as medidas fonológicas referidas, recorrendo a testes estatísticos (paramétricos e não paramétricos). Resultados: O emparelhamento do GPE com o GPB foi bem sucedido. Não existiram diferenças estatísticamente significativas nas medidas fonológicas em estudo entre o GPE e o GPB. No Estudo 1, não existiram diferenças nos tipos de erros à exceção do erro de omissão. No Estudo 2, no GPE verificamos um menor número de erros de distorção e um maior número de erros de omissão. Existem algumas particularidades devido à variante da língua, nomeadamente no processo fonológico de PAL e de DESV. Conclusão: Esta investigação permitiu realizar a comparação do GPE e do GPB com a utilização de dois instrumentos recolha de dados diferentes. Os resultados foram de encontro ao que é descrito por outros estudos nesta área de investigação. As poucas diferenças que se observaram podem ser explicadas pelas diferenças existentes entre os sistemas fonético-fonológicos das duas variedades linguísticas. É extremamente importante a metodologia de recolha de dados para a avaliação das PSF. A mais valia desta pesquisa é o contributo de indicadores clínicos para diagnóstico, prognóstico e intervenção terapêutica nas PSF.

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iv

ABSTRACT

Phonological Measures in children whit Speech Sound Disorder. Comparative study between the European Portuguese and Brazilian Portuguese.

ANA FILIPA BARROS DOS SANTOS

Objetive: The objetive of this study is to compare the characteristics of two groups of children diagnosed with Speech Sound Disorder (SSD), one speaking European Portuguese (EP) and another Brazilian Portuguese (BP), by considering a set of phonologic measures that include the Percentage of Consonants Correct (PCC), Percentage of Consonants Correct-Revised (PCC-R), Process Density Index (PDI), Absolut indexes (IA) and Relative indexes (IR), substituon, omission, distortion, types of phonological processes and Percentage phoneme hit (PAF). Method: Eighteen children, twelve masculine and six feminine, ages comprised between five years and two months and seven years and eleven months, diagnosed with Speech Sound Disorder (SSD) participated in this study. The children were divided in two groups (GPE and GPB), and grouped by age, gender e PCC value. From the analysis of the phonetic transcriptions present in the record sheets of each child in thenomination subtest - Teste Fonético-Fonológico - Avaliação de Linguagem Pré-Escolar (TFF-ALPE) (Mendes et al., 2009)for European Portugueseand phonology tests fromTeste de Linguagem Infantil ABFW (Andrade et al., 2004) for the Brazilian Portuguese – the phonologic measures were determined and compared using statistic tests (parametric and non-parametric).

Results: The combination of the GPE with the GPB was successful. There were no statistic differences in the phonologic measures studied in both groups. In Study 1, there were no differences in the type o errors between groups, except for the error of omission. In Study 2, less errors of distortion and higher error of omission were observed for GPE. There are some particularities due to the language variant, namely the phonological process of PAL and the DESV.Conclusion: This investigation allowed the comparison of the EPG and BPG by recurring to two different instruments of data collection. These results are in agreement with what has been previously described in other studies in this research area. The small differences observed can be explained by the existing differences between the phonetic-phonological systems of the two linguistic varieties.The methodology used to collect the data for SSD evaluation is of high importance. This research highly contributes with clinical indicators of diagnose, prognoses and therapeutic intervention on SSD.

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(11)

v

ÍNDICE DE TABELAS

Tabela 1. Classificação articulatória tradicional das consoantes do PE ………...8

Tabela 2. Classificação articulatória tradicional das consoantes do PB………...8

Tabela 3. Etapas do desenvolvimento fonológico………..11

Tabela 4. Comparação das faixas etárias de aquisição dos fonemas obtidos no TFF-ALPE para o PE e obtidas no ABFW para o PB……….20

Tabela 5. Comparação das faixas etárias de supressão dos processos fonológicos do PE obtidos no TFF-ALPE (2003) e de Castro et al. (1997, 1999) e em PB segundo Wertzner (2000, 2003)……….24

Tabela 6. Características das crianças do grupo de falantes nativos de português europeu (GPE) e do grupo de falantes nativos de português brasileiro (GPB)………...30

Tabela 7. Medidas fonológicas………...31

Tabela 8. Escala da PCC……….32

Tabela 9. Processos fonológicos analisados nos diferentes testes de avaliação e respetiva correspondência………35

Tabela 10. Nomenclatura, definição e exemplos dos processos fonológicos no PE…..36

Tabela 11. Possibilidade de ocorrência de cada fonema, grupos consonânticos e arquifonemas nos instrumentos de recolha de dados utilizados………..37

Tabela 12. Possibilidade de ocorrência de cada fonema, grupo consonântico e arquifonema para as 12 palavras em comum nos dois instrumentos de recolha de dados utilizados………..38

Tabela 13. Lista de palavras utilizadas nos testes………...39

Tabela 14. Ocorrência dos processos fonológicos e o número de consoantes corretas para as 12 palavras………...40

Tabela 15. Número de consoantes corretas para as 12 palavras……….40

Tabela 16. Distribuição de frequência e percentagem por sexo……….44

(12)

vi

Tabela 18. Média, desvios padrão para as variáveis PCC-R, PDI, IAS, IRS, IAD, IRD,

IAO, IRO……….46

Tabela 19. Média, desvios padrão e teste de Friedman para as variáveis IAS, IAO e IAD………..46

Tabela 20. Percentagem da ocorrência dos processos fonológicos por cada criança do GPE………..48

Tabela 21. Percentagem da ocorrência dos processos fonológicos por cada criança do GPB……….48

Tabela 22. PAF de cada criança nas consoantes oclusivas nasais………..50

Tabela 23. PAF de cada criança nas consoantes oclusivas orais………50

Tabela 24. PAF de cada criança nas consoantes fricativas……….51

Tabela 25. PAF de cada criança nas consoantes líquidas laterais e vibrantes…………51

Tabela 26. PAF de cada criança nos grupos consonânticos………...52

Tabela 27. Médias e desvios padrão para as variáveis PCC, PCC-R, PDI, IAS, IRS, IAO, IRO, IAD e IRD para as crianças falantes de PE e para as crianças falantes de PB, teste t e teste de Mann-Whitney………..54

Tabela 28. Média, desvios padrão e teste de Friedman para as variáveis IAS, IAO e IAD………..55

Tabela 29. Média, desvios padrão, resultados do teste de Mann-Whitney e teste ANOVA de Friedman para os processos fonológicos no GPE e no GPB………...55

Tabela 30. Médias dos processos fonológicos no GPE e no GPB (teste ANOVA de Friedman)……….56

Tabela 31. Descrição dos resultados para PAF, média e desvios padrão para as crianças falantes de PE e falantes de PB………...57

(13)

vii

ÍNDICE DE TABELAS – APÊNDICES

1. Apêndice 1

Tabela 1. Palavras e transcrição fonética do TFF-ALPE da prova de nomeação para oPE (Mendes et al., 2009)………...93

Tabela 2. Palavras do ABFW da prova de nomeação (Wertzner et al., 2004) e

transcrição fonética………..…95

2. Apêncide 2

Tabela 1. Médias e desvios padrão para as variáveis PCC, PCC-R, IAS e IRS e média das ordens para as variáveis PDI, IAD, IRD, IAO e IRO………...96

Tabela 2. Média das ordens e teste de Friedman para as variáveis IAS, IAO e IAD….96

3. Apêndice 3

Tabela 1. Média e desvios padrão para as variáveis PCC, PCC-R, IAS e IRS e média das ordens para as variáveis PDI, IAD, IRD, IAO e IRO………...97

Tabela 2. Média das ordens para as variáveis IAS, IAO e IAD no GPE e no GPB…...97

Tabela 3. Média das ordens, valores de U e p para os processos fonológicos entre o

GPE e o GPB………...97

Tabela 4. Média das ordens no teste ANOVA de Friedman para os processos

fonológicos no GPE e no GPB………98

Tabela 5. Descrição dos resultados para PAF, média das ordens e teste de

Mann-Whitney para o GPE e o GPB……….98

Tabela 6. Média das ordens para PAF do GPE e do GPB………..99

Tabela 7. Média das ordens para as variáveis totais de diferentes processos fonológicos, total de ocorrência dos processos fonológicos e número de consoantes corretas no GPE

(14)

viii

LISTA DE ABREVIATURAS

ABFW Teste de Linguagem Infantil nas áreas de Fonologia, Vocabulário, Fluência e Pragmática ANT Anteriorização

C Consoante

DES Despalatalização DESV Desvozeamento

DP Desvio Padrão

EF Ensurdecimento de Fricativa EP Ensurdecimento de Plosiva FP Frontalização de Palatal FV Frontalização de Velar

GPB Grupo de crianças falantes do português brasileiro GPE Grupo de crianças falantes do português europeu HC Harmonia Consonantal

IAD Índice Absoluto de Distorção IAO Índice Absoluto de Omissão IAS Índice Absoluto de Substituição IRD Índice Relativo de Distorção IRO Índice Relativo de Omissão IRS Índice Relativo de Substituição

LIFF Laboratório de Investigação Fonoaudiologa de Fonologia

M Média

OCF Omissão da Consoante Final

OCL Oclusão

OP Outros Processos PA Processos Adicionais

PAF Percentagem de Acerto por Fonema PAL Palatalização

PB Português Brasileiro

PCC Percentagem de Consoantes Corretas

PCC-R Percentagem de Consoantes Corretas-Revista

(15)

ix PE Português Europeu

PF Processos Fonológicos PF Plosivação de Fricativa POS Posteriorização

POSP Posteriorização para Palatal POSV Posteriorização para Velar PSF Perturbação dos Sons da Fala RGC Redução do Grupo Consonântico RS Redução de Sílaba

RSA Redução de Sílaba Átona

SCF Simplificação de Consoante Final SEC Simplificação de Encontro Consonantal SF Sonorização de Fricativa

SL Simplificação de Líquida SP Sonorização de Plosiva

TFF-ALPE Teste Fonético-Fonológico – Avaliação da Linguagem Pré-Escolar

(16)
(17)

x

ÍNDICE

AGRADECIMENTOS ... i

RESUMO ... iii

ABSTRACT ... iv

ÍNDICE DE TABELAS ... v

ÍNDICE DE TABELAS – APÊNDICES ... vii

LISTA DE ABREVIATURAS ... viii

ÍNDICE ... x

INTRODUÇÃO ... 1

CAPÍTULO I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO ... 7

1.1 Os sistemas fonético-fonológicos do Português Europeu (PE) e do Português Brasileiro (PB) ... 7

1.2 Aquisição do Sistema Fonológico do PE e do PB ... 10

1.3 Perturbações dos Sons da Fala ... 13

1.4 Avaliação das Perturbações Fonológicas ... 17

1.5 Medidas Fonológicas... 21

1.5.1. Percentagem de consoantes corretas (PCC), Percentagem de consoantes corretas revista (PCC-R)... 21

1.5.2 PDI ... 22

1.5.3 Índices Absolutos e Relativos ... 22

1.5.4 Processos Fonológicos ... 22

CAPÍTULO II – METODOLOGIA ... 25

2.1 Objetivo do estudo e questões de investigação ... 25

2.2 Tipo de Estudo ... 26

2.3 Participantes ... 26

2.4 Material ... 27

2.5 Procedimento ... 28

2.5.1 Seleção da amostra de fala e emparelhamento dos grupos ... 28

2.5.2 Medidas Fonológicas... 30

2.5.2.1 Estudo 1 ... 31

2.5.2.2. Estudo 2 ... 38

2.6 Análise estatística ... 41

CAPÍTULO III – RESULTADOS ... 43

(18)

xi

3.2 Estudo 1 ... 45

3.2.1 Comparação das medidas fonológicas (PCC-R, PDI, IAD, IRD, IAO, IRO, IAS, IRS) 45 3.2.2 Identificar o tipo de erro (substituição, omissão, distorção) mais frequente. ... 46

3.2.3 Processos fonológicos ... 47

3.2.4 Comparação da PAF... 49

3.3 Estudo 2 ... 53

3.3.1 Comparação das medidas fonológicas (PCC, PCC-R, PDI, IAD, IRD, IAO, IRO, IAS, IRS) ... 53

3.3.2 Identificar o tipo de erro (substituição, omissão, distorção) mais frequente. ... 54

3.3.3 Comparação dos processos fonológicos ... 55

3.3.4 Inventário fonético ... 56

CAPÍTULO IV – DISCUSSÃO ... 59

4.1 Discussão dos Resultados ... 59

4.1.1 Estudo 1 ... 60

4.1.2 Estudo 2 ... 64

4.2 Limitações do Estudo e Propostas para Estudos Futuros ... 67

CONCLUSÃO ... 71

BIBLIOGRAFIA ... 75

ANEXOS ... 83

Anexo 1. Folha de registo do Teste TFF-ALPE ... 83

Anexo 2. Folha de registo do Teste ABFW ... 89

APÊNDICES ... 93

Apêndice 1. Palavras dos instrumentos de avaliação e transcrição fonética ... 93

Apêndice 2. Tabelas - Estudo 1 ... 96

(19)

1

INTRODUÇÃO

Até ao momento, não existem estudos publicados que comparem as características fonológicas de crianças com diagnóstico de Perturbação Fonológica em crianças falantes do português europeu (PE) e crianças falantes do português brasileiro (PB). No entanto, existem estudos que fazem a comparação de outras línguas, nomeadamente o espanhol e o inglês, e que mostram a importância da utilização de determinadas medidas fonológicas para o diagnóstico da Perturbação Fonológica.

Sabe-se que a definição da classificação das Perturbações Fonológicas tem sofrido alterações no decorrer das últimas décadas. Na literatura americana, nos anos 80 e 90, esta perturbação foi denominada de Phonological Disorders e, a partir de 2003 foi introduzida a nomenclatura Speech Sounds Disorders (Shriberg, 2003). No decorrer dos tempos também outros termos surgiram, como perturbação fonológica, perturbação fonética ou perturbação mista. Considerando que existe uma divergência na nomenclatura utilizada pelos terapeutas da fala, para o estabelecimento do diagnóstico das Perturbações Fonológicas é importante clarificar as diferenças entre as definições de PL (perturbação da linguagem), PEDL (“Specific Language Impairment” – perturbação específica do desenvolvimento da linguagem) e de PSF (Perturbação dos Sons da Fala/ Perturbação Fonológica).

Assim, o termo mais utilizado atualmente na prática clínica é Perturbação dos Sons da Fala (PSF), tradução literal da nomenclatura americana e é esta nomenclatura que vai ser utilizada no decorrer do presente estudo.

(20)

2 ao nível da compreensão e/ou da expressão da linguagem oral ou escrita. A perturbação pode envolver a forma (fonologia, morfologia e sintaxe), o conteúdo (semântica), e o uso da linguagem (pragmática). A PL constituí um grupo heterogêneo de crianças e com a finalidade de compreender esta característica inúmeras definições têm sido utilizadas.

A PEDL (“Specific Language Impairment”) é considerada quando as crianças apresentam uma perturbação significativa da linguagem, apesar dos fatores que usualmente acompanham estes problemas (a alteração cognitiva, a deficiência auditiva, a lesão neurológica, a alteração da estrutura e da função oral, e a perturbação da interacção com pessoas e objectos) não estarem presentes (Leonard, 1998). A PEDL é definida como um início tardio e desenvolvimento lento da linguagem que não seja devido a um défice sensorial (auditivo) ou motor, deficiência mental, distúrbio psicopatológicos, privação socioafetiva, lesões ou disfunções cerebrais evidentes (Rapin & Allen, 1983 cit in Castro Rebolledo, R. et al. 2004; Bishop & Leonard, 2001). Uma criança com PEDL apresenta assincronia na aquisição das diferentes componentes da linguagem, podendo apresentar, ao longo do seu desenvolvimento, diferentes desempenhos nas quatro componentes da linguagem (semântica, fonologia, morfossintática e pragmática). A PEDL caracteriza-se por ser um desvio ao desenvolvimento normal da linguagem que não segue as etapas ditas “normais”, onde se verifica também um compromisso das funções executivas vias superiores (atenção, concentração e abstração) por parte da criança (Bishop, 2001).

(21)

3 A produção de fala das crianças com PSF é caracterizada por um valor baixo de Percentagem de Consoantes Corretas (PCC) e pela existência de processos fonológicos (Lousada, 2012). Assim, este estudo pretende verificar se as crianças falantes de PE e de PB diferem em relação a um conjunto de medidas fonológicas usualmente utilizadas na prática clínica do terapeuta da fala. Vão ser analisados e comparados para observar as diferenças entre os dois grupos dos sujeitos, crianças falantes do português europeu e crianças falantes do português brasileiro (GPE e GPB), onze medidas fonológicas: Percentagem de Consoantes Corretas (PCC) (Shriberg e Kwiatkowiski, 1982), Percentagem de Consoantes Corretas-Revisto (PCC-R) (Shriberg, et al., 1997), Process Density Index (PDI) (Edwards, 1992), Índice Relativo de Substituição (IRS), Índice Relativo de Distorção (IRD), Índice Relativo de Omissão (IRO), Índice Absoluto de Substituição (IAS), Índice Absoluto de Distorção (IAD), Índice Absoluto de Omissão (IAO) (Shriberg, et al., 1997), tipos de Processos Fonológicos (PF) (Ingram, 1989) e Percentagem de Acerto por Fonema (PAF) (índice novo proposto nesta investigação). A relevância de comparar o desempenho das crianças falantes de PE com as crianças falantes de PB nas 11 medidas fonológicas em estudo prende-se com os sistemas fonológicos serem próximos nas duas variantes da língua.

Existem instrumentos de avaliação padronizados para auxiliar a identificação de problemas relacionados com as perturbações fonológicas. Estes testes estão standardizados para uma determinada população e fornecem dados normativos para a análise, comparação e constatação de algum problema nesta área.

É importante realçar a pertinência da avaliação do terapeuta da fala nas PSF, já que se esta avaliação for realizada precocemente e através de um diagnóstico diferencial pode ser um bom indicador para o desenvolvimento das habilidades fonológicas de cada criança e para a aprendizagem da leitura e da escrita, uma vez que inúmeros problemas de aprendizagem estão relacionados com perturbações de caráter fonológico.

(22)

4 1) Verificar se o desempenho dos sujeitos com PSF do GPE e do GPB difere na prova de nomeação de imagens, no que se refere a PCC, PCC-R, PDI e IAS, IAO, IAD e IRS, IRO, IRD e ao número de processos fonológicos;

2) Identificar qual o tipo de erro - substituição, omissão ou distorção - mais frequente em ambas as amostras;

3) Verificar se os processos fonológicos com maior ocorrência em crianças com PSF diferem nas crianças falantes nativas de PE e nas crianças falantes nativas de PB;

4) Verificar se o inventário fonético das crianças com PSF difere nos falantes nativos de PE e nos falantes nativos de PB;

5) Identificar quais os fonemas que as crianças com PSF falantes nativos de PE e falantes nativos de PB produzem com menor de Percentagem de Acertos por Fonema (PAF).

Para responder a estas questões foram realizados dois estudos neste trabalho: o primeiro estudo (Estudo 1) corresponde à análise e comparação das medidas fonológicas para a amostra de fala dos sub-testes de nomeação dos instrumentos de avaliação selecionados para esta pesquisa; o segundo estudo (Estudo 2) corresponde à análise e comparação das medidas fonológicas para a amostra de fala das 12 palavras comuns nos dois testes de avaliação.

Pretende-se ainda com esta investigação contribuir para a descrição da importância das medidas fonológicas na avaliação de crianças com PSF falantes de PE e de PB, o que ajudará os terapeutas da fala/fonoaudiólogos a melhorar a avaliação e a estabelecer um diagnóstico diferencial na área das perturbações da linguagem, em particular da fonologia. O presente trabalho irá também contribuir para o conhecimento das medidas fonológicas que podem ser utilizadas na avaliação de casos com PSF bem como dos processos fonológicos que podem ser semelhantes na variante da língua do português (PE vs. PB).

(23)

5 No capítulo I são inicialmente apresentados alguns aspetos que estão relacionadas com a temática desta pesquisa, nomeadamente: as diferenças entre o português europeu e o português brasileiro no que respeita aos seus sitemas fonológicos; as perturbações dos sons da fala; a avaliação das perturbações fonológicas e as medidas fonológicas.

O método é descrito no capítulo II: o tipo de estudo, a caracterização da amostra através da casuística, o material utilizado para a avaliação dos sujeitos, os procedimentos realizados para a seleção da amostra e para o cálculo de todas as medidas fonológicas para o Estudo 1 e 2.

No capítulo III são apresentados os resultados obtidos: os resultados do Estudo 1, onde se procede à descrição da comparação das medidas fonológicas entre o português europeu (PE) e o português brasileiro (PB) e os resultados do Estudo 2 tendo em conta a amostra de fala das 12 palavras em comuns nos dois instrumentos de avaliação utilizados.

No capítulo IV são discutidos os resultados apresentados no Capítulo III com referência aos resultados que estão descritos de estudos anteriores. São apresentadas as limitações da presente pesquisa e são anunciadas as propostas para futuros estudos.

A conclusão remete-nos para um sumário desta pesquisa. Segue-se uma descrição das principais conclusões obtidas nos dois estudos realizados.

(24)
(25)

7

CAPÍTULO I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO

Neste capítulo serão apresentadas algumas características fonológicas do português europeu (PE) e do português brasileiro (PB). É apresentada brevemente a evolução do conhecimento das perturbações fonológicas e dos testes e medidas de avaliação existentes para efetuar este diagnóstico. Mais em detalhe, serão descritas as onze medidas fonológicas (PCC; PCC-R; PDI; IRS; IRO; IRD; IAS; IAO; IAD; tipos de Processos Fonológicos e Percentagem de Acerto por Fonema) que serão usadas neste estudo.

1.1 Os sistemas fonético-fonológicos do Português Europeu (PE) e do Português Brasileiro (PB)

A linguagem é dividida em diferentes módulos, nomeadamente a fonologia (sons e respetivas combinações), a morfologia (formação e estrutura interna das palavras), a sintaxe (organização das palavras em frases), a semântica (significados das palavras e a interpretação das combinações de palavras), e a pragmática (adequação ao contexto de comunicação) (Sim-Sim, 1998; Bochner e Jones, 2003).

A fonologia remete para a organização dos sons numa dada língua. Engloba o estudo do conjunto de segmentos consonânticos e vocálicos que podem ser combinados dentro de certas possibilidades específicas de cada língua, originando as sílabas que quando agrupadas dão por sua vez origem às palavras (Mateus, Falé e Freitas, 2005; Bonilha e Keske-Soares, 2007; Lima, 2009).

Numa cadeia sonora que corresponde a uma palavra podemos identificar unidades que, substituídas por outras, provocam alterações de significado. Estas unidades são denominadas por fonemas. Os fonemas do PE e do PB que constituem o sistema fonológico são consoantes, vogais e semivogais (Mateus et al., 2005).

No presente trabalho vamos apenas dar ênfase às diferenças no sistema fonológico consonantal do PE e do PB, uma vez que são estes sons mais afetados e alterados nas Perturbações dos Sons da Fala (PSF). Consideramos para o PE a variedade da norma padrão Lisboa – Coimbra e para o PB a variedade de São Paulo.

(26)

8 PE para a norma padrão Lisboa-Coimbra (Mateus et al., 2003). Na Tabela 2 consideramos a variedade linguística de São Paulo e apresentamos os fones e variantes fonéticas (como o / ɫ/ e as africadas) para o PB (Silva, 2007).

Modo de

Articulação Oclusivas Fricativas Lateral Vibrante

Nasalidade Oral Nasal Oral

Vozeamento Voz N Voz Voz N Voz Voz N Voz Voz N Voz Voz N Voz

P onto de art icula çã o

Bilabial b p m

Labiodental v f

Dental d t s

Alveolar n l ɾ

Palatal ɲ ʒ ʃ ʎ

Velar g k

Uvular R

Tabela 1. Classificação articulatória tradicional das consoantes de PE. Adaptado de Mateus et al. 2005. Legenda: Voz = som vozeado; N Voz = som não vozeado.

Modo de

Articulação Oclusivas Africadas

Fricativas Nasal Tepe Vibrante Retroflexa Lateral

Vozeamento Voz N

Voz Voz Voz N Voz Voz N Voz

P onto de art icula çã o

Bilabial b p m

Labiodental v f

Dental ou Alveolar

d t z s n ɾ ɾ̃ ɹ l ɫ

Alveopalatal dʒ tʃ ʒ ʃ

Palatal ɲỹ ʎ

Velar g k ɣ χ

Glotal ɦ h

Tabela 2. Classificação articulatória das consoantes de PB. Adaptado de Silva, 2007. Legenda: Voz = som vozeado; N Voz = som não vozeado.

Tanto no PE como no PB podemos dividir as consoantes em quatro categorias: oclusivas, fricativas, nasais, laterais e vibrantes. As consoantes oclusivas são /p, t, k, b, d, g/; as consoantes fricativas são /f, s, ʃ, v, z, ʒ/; as consoantes nasais orais são /m, n, ɲ/; /l, ʎ/ são as consoantes laterais /ɾ, R/ (Mateus et al., 2005).

(27)

9 consoante [ɾ̃] no PB; a consoante [ɾ] no PB tem a nomenclatura de tepe, alveolar, vozeada é uniforme na posição intervocálica e em alguns dialetos na posição final de palavra; a consoante [ɹ] é característica do dialeto caipira do /ɾ/ em final de palavra é denominada de retroflexa, alveolar, vozeada (Silva, 2007).

Apesar de os sistemas fonológicos do PE e do PB serem muito semelhantes, Frota e Vigário (2001) descrevem diferenças entre o ritmo do PE e do PB que são explicadas pela divergência de algumas propriedades fonéticas e fonológicas. Uma das características do PE é a redução de vogais átonas, que são frequentemente apagadas, o que não se verifica no PB. Ao nível fonológico também se verifica que, embora as sílabas sejam semelhantes entre PE e PB, quanto ao tipo e complexidade, no PE é usual a formação de sequências de consoantes em consequência da redução do vocalismo átono, já no PB é comum a epêntese vocálica quebrar a sequência consonântica. Outro aspeto ao nível fonético em que o PB difere do PE diz respeito aos fonemas /t/ e /d/ que são produzidos como africadas [tʃ]e [dʒ], quando seguidos de /i/ tónico e átono e antes de /ɛ/ postónico em alguns dialetos do PB. Existem também diferenças na realização das líquidas em coda: no PB a vibrante /ɾ/ em coda pode ser realizada também como uma vibrante uvular [R], ou como uma fricativa velar [x] e em coda final pode ser suprimida ou realizada como uma aspiração [h]. Do mesmo modo, o fonema /l/ no PB em coda ocorre a vocalização lateral em posiçao final de sílaba e neste caso temos um segmento com características articulatórias de uma vogal [u] que é transcrita fonéticamente como [w], e no PE é velarizado (Mateus & Andrade, 2000). Quanto à fricativa /s/ em coda, no PB realiza-se como [s] e [z] enquanto no PE é produzida como [ʒ],[ʃ] e [z] (Mateus & Andrade, 2000 e Silva, 2007).

Segundo Callou e Leite (1990), citado por Mateus, & Andrade (2002), no PB, a modificação da posição da consoante final tem ido mais longe com a perda do caráter consonantal, a consoante líquida lateral deu lugar à consoante glide velar [w]. Assim, por exemplo, a palavra “mal” é produzida como [máɫ] no PE e [máw] no PB. No PE o final de palavra corresponde às consoantes [R], [X] e [h] do PB ou simplesmente

desaparece como no caso da palavra “amar” no PE em comparação com [amáR]/

[amáX]/ [amáh]/ [amá] no PB.

(28)

10 aplicam as regras da geometria de traços. Quando existe este processo de redução de vogais atónas, no PB verifica-se em menor ocorrência do que no PE (Mateus et al, 2005).

1.2 Aquisição do Sistema Fonológico do PE e do PB

O desenvolvimento fonológico apresenta diferentes estágios (Yavas,1988; Ingram,1989) . O estágio pré-linguístico é o primeiro estágio e decorre de zero anos e um mês a um ano e zero meses de idade. Este caracteriza-se pela realização do balbúcio, em que a criança produz diversos sons sem qualquer significado. O estágio das primeiras cinquenta palavras é o segundo estágio e ocorre nas idades compreendidas entre um ano e zero meses e um anos e seis meses. Caracteriza-se pelo início da relação estável de sons com significado. O terceiro estágio denomina-se por estágio de desenvolvimento fonémico e ocorre em crianças de um ano e seis meses a quatro anos e zero meses de idade. Este estágio corresponde a uma estabilidade entre o som produzido e o padrão da língua alvo. A criança começa a produzir palavras de grande complexidade fonológica (Yavas, 1988; Ingram 1976; Stele-Gammon, 1985, Avila, 2000 e Ghisleni, 2009).

Gordon-Brannan e Weiss (2007) concordam que o desenvolvimento do sistema fonológico ocorre de forma contínua e decorre ao longo dos estágios acima mencionados, acrescentando um quarto estágio, que consiste na estabilização do sistema fonológico da criança de quatro anos e zero meses a oito anos e zero meses de idade. As crianças realizam uma boa produção linguística das palavras simples e de algumas palavras complexas e começam a aprender a ler e a escrever, o que aumenta o seu conhecimento fonológico, de forma explícita.

(29)

11

Faixa etária

[4:0 – 6:11] Compreensão Fonologia Expressão

Mendes et al., (2009)

[4:0 - 4:6] ocorre a aquisição das fricativas; consoantes líquidas /l/ e / ɾ/ dentro do grupo consonântico adquirida entre [5:0

– 5:6] e [4:0 – 4:6] respetivamente.

Antes dos quatro anos desaparece o processo de oclusão.

[4:0 – 4:12] os processos de despalatalização, palatalização e desvozeamento desaparecem.

Entre os [6:0 – 6:11] ocorre o desaparecimento da omissão da consoante final, a redução do grupo consonântico e a redução da sílaba átona.

Castro (1999)

A criança conhece as regras do seu sistema linguístico – sabe como os sons se distribuem e se organizam. Repertório fonológico dominado.

Existem alguns processos fonológicos que permanecem depois dos quatro anos: semivocalização de líquida, redução da sílaba átona, redução do grupo consonântico e oclusão.

Sim Sim

(1998) Conhecem e dominam o sistema de sons da sua língua materna.

[4:0 – 5:0] aparecem os indicadores de consciência fonológica, extinção de todos os processos fonológicos por volta dos 5:0.

Guimarães (1997)

Conhecimento dos sons da língua, descriminação auditiva de pares mínimos.

Persistência de alguns processos fonológicos, tais como omissão do grupo consonântico, anteriorização das consoantes /k/,/g/ e /ɲ/; oclusão de fricativas /f/, /v/, /s/ e /z/; semivocalização do /ɾ/; substituição de /ɾ

por /l/; oscilação entre laterais; epêntese de grupos consonânticos e redução de grupos consonânticos.

Stampe

(1969) --- Durante a idade pré-escolar existe a ocorrência de substituições, omissões e distorções.

Tabela 3. Etapas do desenvolvimento fonológico.

Os dados normativos são essenciais para a avaliação clínica do terapeuta da fala e para o estabelecimento da intervenção terapêutica. Estes dados normativos, representam o desenvolvimento típico das crianças sem patologia em idades cronológicas específicas. Para o PE existem alguns estudos publicados sobre o desenvolvimento fonético- fonológico (Castro, Gomes, Vicente & Neves, 1997; Castro, Neves, Gomes & Vicente, 1999; Guerreiro & Frota, 2010 referido por Mendes et al., 2009).

Freitas (1997) referido por Mendes et al., (2009) refere que na aquisição segmental em primeiro lugar a criança adquire as consoantes oclusivas, depois as fricativas e, por último as líquidas. Um estudo de Marques (2001) em 40 crianças com quatro anos de idade na análise da aquisição de consoantes e de grupos consonânticos mostrou que as crianças dominam todas as consoantes à exceção das fricativas [s, z, ʒ] e do grupo consonântico [kɾ] (Mendes et al., 2009).

(30)

12 Ao consultar o TFF ALPE (Mendes et al., 2009) verificamos que a faixa etária em que 75% das crianças produziram corretamente as consoantes /p, t, k, b, d, g, f, s, ʃ, v, m, n, ɲ, R/ é [3:0 – 3:6[. A maioria das crianças pertencentes à amostra deste instrumento de avaliação produzem corretamente as consoantes /l, ʎ, ʃ/ em final de sílaba na faixa etária [3:6 – 3:12[. Na faixa etária dos [4:0 – 4:6[ as crianças produziram corretamente as consoantes /z, ʒ, ɾ/ e os grupos consonânticos /pl, kl, fl/. O fonema /ɾ/ em final de sílaba é produzido corretamente na faixa etária dos [4:6 – 4;12[ bem como os grupos consonânticos /fr, vr, br, kr/. Os grupos consonânticos /pr, tr, dr, gr/ e [ɫ] em posição final de sílaba são os últimos a serem produzidos corretamente por 75% das crianças que participaram neste estudo na faixa etária dos [5:0 – 5:6[.

Wertzner (1994) e Galea (2008) citados por Fernandes, Mendes e Navas (2010),

defendem que, no PB, os grupos consonânticos [p

ɾ

], [b

ɾ

], [g

ɾ

], [k

ɾ

] e o [gl] em posição

inicial são adquiridos aos quatro anos de idade. Aos quatro anos e seis meses são

adquiridos os grupos [d

ɾ

], [f

ɾ

], [kl] e o [fl] em posição inicial. O grupo [t

ɾ

] é adquirido

aos cinco anos de idade, o [bl] aos cinco anos e seis meses e o [pl] aos seis anos e seis meses, todos em posição inicial.

Muitas abordagens têm sido estudadas, o que contribui para o que hoje se sabe sobre o processo de aquisição fonológica. Uma das abordagens é a Teoria da Fonologia Natural estudada por Stampe (1969). Esta teoria tem por base os processos fonológicos.

Os processos fonológicos são “operações mentais que ocorrem na fala de modo a substituir uma classe de sons ou sequência de sons, que apresentam uma dificuldade comum à capacidade para a fala do indivíduo, por uma classe idêntica mas em que a

propriedade causadora da dificuldade não se encontra presente” (Guerreiro & Frota, 2010, pp. 57 - 58). Esta teoria permitiu identificar os “erros” de fala das crianças e na

definição original os processos fonológicos não são mais do que uma simplificação ou uma alteração estrutural da fala adulta que a crianças realiza no seu discurso durante o processo de desenvolvimento (Guerreiro & Frota, 2010).

(31)

13 5:11[ realiza os processos fonológicos de redução de grupo consonântico, redução de sílaba átona e semivocalização de líquida.

1.3 Perturbações dos Sons da Fala

A definição da classificação das Perturbações Fonológicas tem sofrido alterações no decorrer das últimas décadas. Principalmente na literatura americana, nos anos 80 e 90, esta perturbação foi denominada de phonological disorders e a partir de 2000 foi introduzida a nomenclatura Speech Sounds Disorders (Shriberg, 2003). Como já foi referido na Introdução, neste trabalho será utilizada a nomenclatura de Perturbação dos Sons da Fala (PSF), tradução literal deste termo (Speech Sounds Disorders) para o português europeu.

Segundo Ingram (1976), DSM - IV (2002), Wertzner (2012), a PSF consiste numa alteração no sistema fonológico de uma criança, a principal característica é a incapacidade de a criança produzir adequadamente os sons da fala com o que é esperado para a sua idade e para o seu desenvolvimento fonológico. Esta incapacidade leva à produção incorreta dos sons da fala e pode incluir erros de seleção, na produção e na ordenação dos sons em sílabas ou em palavras. Estes erros caracterizam-se por: omissões, substituições ou distorções dos sons da fala.

A PSF afeta crianças com desenvolvimento inteletual, auditivo, psicomotor e social adequados, que apresentam, no entanto, dificuldades específicas nos aspetos cognitivo-linguísticos perceptivos e/ou de produção de fala, e estas nem sempre são possíveis de serem identificadas (Ingram, 1976; Grunwell, 1981).

(32)

14 seguem o padrão de desenvolvimento esperado para a língua, durante este processo, apresentam esta perturbação (Coutinho, 2012).

Elbert e Gierut (1986) descrevem que a PSF se caracteriza pela dificuldade em produzir os sons da fala, além do uso inadequado das regras do sistema fonológico da língua que incluem fonemas, a sua distribuição e os tipos de estruturas silábicas.

As crianças com PSF têm características de fala similares, tais como: inventário de sons reduzido, uso preferencial de estruturas silábicas simples e uso de um número limitado de processos fonológicos, em geral semelhantes aos das crianças normais, sendo que algumas apresentam ainda processos idiossincráticos (Stoel-Gammon, Dunn, 1985; Grunwell, 1989).

A avaliação feita pelo terapeuta da fala é realizada a partir dos dados da fala da criança (nomeação, repetição e discurso provocado e /ou espontâneo). Assim, é importante distinguir o que afeta a fala e a linguagem nas PSF. A fala distingue-se da linguagem na medida em que a primeira é uma exteriorização da segunda, através da explicitação de ideias ou conteúdos. A fala carece de todas as atividades conjuntas dos sistemas respiratório, fonatório e articulatório e concretizada na produção de elementos sonoros da língua, estruturados para obter sentidos através de um complexo sistema fonoarticulatório. Este conceito deriva em duas direções, paralelas e convergentes: a estrutura anatómo-fisiológica de cada indivíduo e uma convenção coletiva que é utilizada por todos os membros de uma comunidade, a língua (Lima, 2009).

Para realizar a actividade da fala é necessário possuir uma coordenação neuromotora dos músculos interferentes na fonação, respiração e articulação, sendo que estes controlam as áreas especificas do sistema nervoso central e os órgãos da articulação que os músculos enervam. Estas estruturas periféricas ou articuladores deverão apresentar condições físicas e funcionais capazes de produzir um som. Alguma alteração na morfologia externa ou numa relação neurofisiológica da actividade articulatória resulta num quadro de patologia (Lima, 2009). Já para Sim-Sim (1998) a fala é a produção da linguagem na variante fónica, realizada através do processo de articulação de sons.

De acordo com American Speech and Hearing Association (ASHA) (2007),

(33)

15 through the use of arbitrary symbols and rules that govern combinations of these

symbols.”

A linguagem verbal pressupõe regras complexas de uso dos símbolos que permitem a organização dos sons, palavras, frases e respectivo significado, tal como pressupõe um objectivo e uma intencionalidade. Com a aquisição destas regras, o indivíduo vai desenvolvendo competências para perceber a linguagem (linguagem compreensiva) e para formular/produzir linguagem (linguagem expressiva). Ao conhecimento implícito destas regras chama-se competência linguística. A criança que adquira competência linguística, poderá fazer uso da linguagem, uma vez ter competência para lhe dar forma, conteúdo e uso. A primeira concede ao falante a capacidade de usar regras para combinar sons e formar palavras – fonologia -, conhecer a organização e estrutura interna das palavras – morfologia – e, consequentemente as regras que permitem combinar palavras para construir uma variedade infinita de frases –

sintaxe. O conteúdo, relacionado com o significado e regras que governam a semântica, pode ser literal ou não-literal. O falante irá interpretá-lo mediante a informação extraída do contexto, bem como do conhecimento que o próprio tem sobre os conceitos, nomeadamente o conhecimento lexical. Por último, o uso, permite ao falante servir-se das regras que regulam a utilização da linguagem nos diversos contextos sociais. Estas regras, estudadas pela pragmática, regulam os motivos pelos quais os seres humanos comunicam, nomeadamente as intenções ou funções comunicativas (e.g. cumprimentar, perguntar, responder, pedir informações, informar, expressar sentimentos, etc.). Os princípios que regem a conversação como o, iniciar, o manter e finalizar, também dizem respeito à pragmática Bloom e Lahey (1978, citados por Bernstein et al., 2002).

A aquisição da linguagem oral é um “processo de apropriação subconsciente de

um sistema linguístico, via exposição, sem que para tal seja necessário um mecanismo

formal de ensino.” (Sim-Sim, 1995, citado por Sim-Sim, 1998). Sendo este, um processo natural e espontâneo, independente de aprendizagem formal, cumpre o alargamento de aquisições, iniciadas logo após o nascimento e que vai sofrendo reestruturações contínuas correspondentes aos processos de maturação que ocorrem concomitantemente com domínios graduais da estrutura formal da Língua.

(34)

16 para usar sons da fala esperados para o nível etário do sujeito, tais como: dificuldades na produção, uso ou organzação dos sons (por exemplo, substituição de um som por outro), omissão, nomeadamente consoantes finais e distorções; ii) as dificuldades decorrentes desta perturbação interferem no rendimento escolar, no desempenho profissional e na comunicação; iii) caso estejam presentes outros problemas, tais como uma deficiência mental, uma dificuldade motora da fala, um défice sensorial, um contexto familiar e social adverso, as dificuldades de linguagem manifestadas excedem o que seria normalmente esperado para esta perturbação.

Numa revisão de estudos de prevalência Law et al., (2000), estimam que a prevalência das perturbações da fala na população inglesa ocorre entre 2.3% a 24.6%. Feldman (2005) menciona que a prevalência das perturbações da fala ocorre entre 3 a 6% das crianças em idade escolar, em idade pré-escolar a prevalência é de 15%.

No Brasil, Shirmer, Fontoura e Nunes (2004) referem que, as alterações de linguagem atingem 3 a 15% das crianças brasileiras. Andrade (1997) avaliou 2980 crianças e a prevalência das perturbações da fala e da linguagem em crianças de 11 anos foi de 4,19%.

Segundo a literatura brasileira, a PSF é uma perturbação mais frequente nos sujeitos do sexo masculino e é importante na altura da avaliação compreender o meio cultural e linguístico do sujeito. Cerca de 2% das crianças entre os seis e os sete anos de idade apresentam uma PSF, moderada a grave; a partir dos 17 anos, a prevalência diminui para os 0.5%. É importante também considerar para a PSF os antecedentes familiares (Andrade, 2008). Em Portugal existem alguns estudos de prevalência. Pedrosa e Temudo (2004) defendem que, embora a prevalência das perturbações da fala e da linguagem seja desconhecida, cerca de 1% das crianças chegam à idade escolar com uma perturbação grave na linguagem. Este estudo refere também que as perturbações predominam no sexo masculino. Caldeira, Gonçalves e Pereira (2004) defendem que entre 3% a 6% das crianças são afetadas por uma perturbação da linguagem. Silva e Peixoto (2008) realizaram um estudo e concluíram que das 748 crianças avaliadas 48,2% apresentava qualquer alteração ao nível da linguagem e/ou fala, com uma prevalência de 27,3%.

(35)

17 uso de processos sistemáticos, porém não se verificam por aqueles em desenvolvimento típico e por fim aquelas crianças que cometem erros inconsistentes.

Dodd e McComark em 1995 propuseram quatro subgrupos para a classificação da PSF: 1) refere-se à criança com uma dificuldade de articulação de um determinado som; 2) a criança apenas com atraso na aquisição fonológica; 3) uso de processos fonológicos não esperados (inabilidade na organização do sistema fonológico) e 4) a criança faz erros inconsistentes, tendo um melhor desempenho nas provas de imitação.

Para Gierut (1998), a PSF pode ter uma causa de natureza fonética, quando há inabilidade de articular sons da fala envolvendo componentes motores (apraxia) ou de causa fonológica, quando há uma dificuldade cognitivo-linguística, ou seja, a representação fonológica dos sons está alterada.

Em 2010, Shriberg et al., numa revisão dos estudos anteriores proposeram uma nova classificação das PSF (Shriberg, 1999, 2002; Shriberg et al., 2003; Shriberg et al., 2005). Propuseram que esta pode ser classificada de acordo com a tipologia e etiologia. A tipologia foi dividida pelos autores em: atraso de fala, perturbação motor de fala e erros de fala, sendo que as duas primeiras divisões são esperadas para idade entre 3 e 9 anos, e a última entre 6 e 9 anos. Já a etiologia da PSF foi subdividida em cinco subtipos: cognitivo-linguístico, perceptivo auditivo, psicossocial, controle motor da fala e refinamento da fala.

Tendo em conta as definições de PSF apresentadas pelos diferentes autores, é importante referir que para este trabalho não foram considerados os subtipos de PSF que os autores consideram, embora na amostra dos falantes nativos de PE e dos falantes nativos de PB os vários subtipos de PSF possam estar presentes.

1.4 Avaliação das Perturbações Fonológicas

(36)

18 Os testes de fonologia são os mais importantes para a realização do diagnóstico da PSF, e constam de três provas: imitação, nomeação e fala espontânea. Na prova de imitação solicita-se à criança que repita uma palavra ou uma frase. Na nomeação é apresentando um estímulo visual à criança e espera-se que esta verbalize a palavra correta. A fala espontânea pode ser recolhida de forma direta ou indireta. Na fala espontânea direta são colocadas à criança questões, em oposição na indireta a criança é estimulada pela introdução de um tópico ou de uma história para produzir um discurso. (Wertzner et al., 2004).

Existem instrumentos de recolha de dados standartizados para a população portuguesa e brasileira: para o PE, a Prova de Avaliação de Capacidades Articulatórias (P.A.C.A.) (Batista, 2009), o Teste de articulação CPUC (Castro et al., 2001), Prova de avaliação da articulação de sons em contexto de frase para o PE (Vicente et al.,2006), o Teste de Avaliação da Produção Articulatória das Consoantes do PE (TAPAC-PE) (Faria e Falé, 2001), o Teste de Articulação Verbal (Guimarães & Grilo, 1998), e o Teste Fonético-Fonológico (TFF-ALPE) (Mendes et al., 2009), e para o PB, o Teste de Linguagem Infantil ABFW (Andrade et al., 2004) e Avaliação Fonológica da Criança (Yavas et al.,2002), que usa a imagem com desenhos temáticos. Para o PE:

Para o presente estudo os testes utilizados para a recolha de dados dos sujeitos foram: Teste Fonético-Fonológico sub teste de nomeação (TFF-ALPE) (Mendes et al., 2009) para as crianças falantes do português europeu e o Teste de Linguagem Infantil ABFW sub teste de fonologia prova de nomeação (Wertzner, 2004) para o grupo de sujeitos do português brasileiro.

O TFF-ALPE destina-se a avaliar a linguagem em idade pré-escolar na componente da fonologia. É um teste psicométrico com referência à norma que pretende avaliar as àreas da fonética e fonologia em crianças dos 3 anos aos 6 anos e 11 meses e auxilia o terapeuta da fala na elaboração de um diagnóstico diferencial entre perturbação articulatória e perturbação fonológica. No que diz respeito à fonética este teste avalia a capacidade de articulação verbal de consoantes, vogais e grupos consonânticos do português europeu. Ao nível fonológico, o TFF-ALPE avalia o tipo e percentagem de ocorrência de processos fonológicos e a inconsistência na produção repetida da mesma palavra (Mendes et al, 2009).

(37)

19 subteste fonológico (prova de nomeação). O subteste fonológico permite avaliar a ocorrência dos processos fonológicos de omissão da consoante final, redução da sílaba átona pré-tónica, redução do grupo consonântico, semivocalização da líquida [l], oclusão, anteriorização, despalatalização, posteriorização, palatalização e desvozeamento através da nomeação de um conjunto de imagens que representam palavras frequentes no vocabulário das crianças destas idades, selecionadas com base no corpus de frequência do português fundamental. A partir deste subteste é possível calcular a percentagem de ocorrência de cada processo fonológico (Mendes et al, 2009).

O tempo de aplicação total do teste é de 15 a 20 minutos. O processo de validação do TFF-ALPE teve por base uma técnica de amostragem estratificada, sendo a sua amostra considerada representativa da população. Deste processo fizeram parte 723 crianças, provenientes de Portugal Continental e Insular, das quais 48,82% são do género feminino e 51,17% do género masculino. Especificamente no subteste fonológico a amostra é constituída por 716 crianças devido ao facto dos registos com transcrição fonética de 7 crianças se encontrarem ausentes. Foram constituídos 8 grupos para cada género com 6 meses de intervalo (dos 3:00-3:06 aos 6:06-6:12). O TFF-ALPE tem uma boa consistência interna, apresentando um α de Cronbach de 0,96. Não se

conhece a consistência interna específica do subteste fonológico. O referido teste é constituído por um conjunto de 67 imagens, correspondendo cada uma dela a uma palavra alvo. A metodologia de aplicação consiste em apresentar à criança uma imagem correspondente à palavra alvo e solicitar a nomeação através da instrução: “O que é?”

(Mendes et al., 2009).

O teste de Linguagem Infantil ABFW (Andrade et al., 2004) permite avaliar crianças de dois aos 12 anos de idade nas áreas de fonologia, vocabulário, fluência e pragmática e é constituído por quatro partes. O objetivo do ABFW é a obtenção de dados para a precisão do diagnóstico das perturbações da linguagem.

(38)

20 fonológica de causa desconhecida e sem, aparentemente nenhuma lesão central ou periférica (Wertzner, 2004).

Tendo como base o desenvolvimento típico do sistema fonológico das crianças na Tabela 4 observa-se a comparação do domínio de fonemas obtidos no TFF-ALPE (Mendes et al., 2009) para o PE com as obtidas no ABFW (Wertzner, 2000 e 2003) para o PB.

Fonema TFF-ALPE Wertzner (2000; 2003) Faixa etária

p [3:0-3:6] [3:6]

t [3:0-3:6] [3:6]

k [3:0-3:6] [3:6]

b [3:0-3:6] [3:6]

d [3:0-3:6] [3:6]

g [3:0-3:6] [3:6]

f [3:0-3:6] [3:6]

v [3:0-3:6] [3:6]

ʃ [3:0-3:6] [3:6]

z [4:0-4:6] [3:6]

s [3:0-3:6] [3:6]

ʒ [4:0-4:6] [3:6]

m [3:0-3:6] [3:6]

n [3:0-3:6] [3:6]

ɲ [3:0-3:6] [3:6]

l [3:6-4:0] [3:6]

ʎ [3:6-4:0] [4:0]

R [3:0-3:6] [3:6]

ɾ [4:0-4:6] [3:6]

ʃ em posição final de sílaba [3:6-4:0] [4:0] l em grupo consonântico [4:0-4:6] [6:6]

ɾ em posição final de sílaba [4:6-5:0] [5:6]

ɾ em grupo consonântico [5:0-5:6] [5:0]

Tabela 4. Comparação das faixas etárias de aquisição dos fonemas obtidas no TFF-ALPE para o PE e obtidas no ABFW para o PB. Adaptado de Mendes, et.al 2009

(39)

21 et al., (2009) a aquisição destes fonemas pode ocorrer entre a faixa etária [4:6 – 4:12[ e dos grupos consonânticos até ao final dos cinco anos e seis meses, enquanto que para Wertzner et al., (2004) a aquisição dos fonemas /z, ʒ, ɾ/ e do /l, ɾ / em posição final ocorre aos três anos e seis meses e os grupos consonânticos estão adquiridos até aos quatro anos de idade.

1.5 Medidas Fonológicas

A identificação dos marcadores linguísticos de perturbação é estudada por diferentes autores. Existem autores que reportam a forma como a PSF se manifesta do ponto de vista linguístico (Dodd, 1995; Broonfield e Dodd, 2004) e outros autores que procuram estabelecer sub-tipos de PSF tendo em conta as características etiológicas e os diferentes tipos de perturbações fonológicas (Shriberg 2005, 2010). Este estudo centra-se na primeira perspetiva.

Diferentes medidas linguísticas (fonéticas e fonológicas) são referenciadas na prática clínica e na investigação internacional das PSF, sendo as mais utilizadas: Percentagem de Consoantes Corretas (PCC), Percentagem de Consoantes Corretas-Revisto (PCC-R), Process Density Index (PDI), Índice Relativo de Substituição (IRS), Índice Relativo de Distorção (IRD), Índice Relativo de Omissão (IRO), Índice Absoluto de Substituição (IAS), Índice Absoluto de Distorção (IAD), Índice Absoluto de Omissão (IAO) e tipos de Processos Fonológicos. Para o presente estudo foi criada uma medida a: Percentagem de Acerto por Fonema (PAF). Assim, neste estudo vamos

analisar e comparar as diferenças destas onze medidas fonológicas em duas amostras de sujeitos com PSF em duas variedades da língua portuguesa, o PE e o PB.

Seguidamente apresenta-se em detalhe cada uma delas.

1.5.1. Percentagem de consoantes corretas (PCC), Percentagem de consoantes corretas revista (PCC-R)

(40)

22 (entre 50% e 65%) e severo (abaixo de 50%). O PCC considera como erro as omissões, substituições e distorções e é indicado para crianças com perturbação fonológica entre os três e os seis anos de idade.

Mais tarde, para comparar falantes de diversas idades e com características de fala distintas foi proposto o PCC Revisto (PCC-R), que considera como erro apenas as substituições e omissões (Shriberg et al., 1997).

1.5.2 PDI

Em 1992, Edwards estudou outra medida de gravidade para a PSF designada por

Process Density Index (PDI). Esta medida representa a média de processos fonológicos utilizados na palavra da amostra do teste, é calculada através da operação numérica de divisão do número de processos fonológicos utilizados pelo número de palavras de uma determinada amostra de fala.

1.5.3 Índices Absolutos e Relativos

Os índices absolutos (IA) são calculados pela divisão do número de erros específicos de omissão, substituição e distorção pelo número de sons presente na amostra da criança. Os índices relativos (IR) são calculados através da divisão do número de erros específicos pelo número de erros produzidos. Estudos realizados para o PB indicaram que a substituição foi o tipo de erro mais encontrado, em crianças com PSF, tanto no IA como no IR (Shriberg et al., 1997; Wertzner, Santos, Pagan-Neves,2012).

1.5.4 Processos Fonológicos

(41)

23 Quando a criança não consegue organizar os sons da sua língua em combinações compatíveis e surgem alterações de fones ou de fonemas designam-se essas alterações por processos fonológicos. Estes são recursos utilizados pela criança perante as suas limitações (Mateus, Falé e Freitas, 2005; Mendes et al., 2009).

Na literatura, há três tipos mais citados de processos fonológicos: os de estrutura silábica, que alteram a estrutura silábica da palavra seguindo a tendência geral de redução das palavras à estrutura consoante vogal (CV); os de substituição, em que há a mudança de um som por outro de outra classe, às vezes atingindo toda uma classe de sons; e os de assimilação, em que os sons mudam tornando-se similares a um que vem antes ou depois dele (Ingram, 1976; Weiss 1979, cit. por Grunwell 1997).

Grunwell (1985, cit. por Grunwell 1997) e Dean et al., (1996, cit. por Grunwell 1997), separam-nos em apenas dois grupos, processos/simplificações estruturais e sistémicas. Khan e Lewis (2002) fazem outra classificação: processos de redução, de modo e posição e de vozeamento. Ingram (1981) classifica-os em processos de estrutura silábica, substituição e assimilação e atualmente esta é a tipologia mais utilizada (Bankson & Bernthal, 2004; Bowen, 1999; Gordon-Brannan & Weiss, 2007; Hodson, 2004; Mendes et al., 2009; Smit, 2004; Shipley & MacAfee, 2009; Weiner, 1979; Yavas et al.,2002).

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24 Para o PE relativamente à ocorrência dos processos, Castro, Gomes, Vicente e Neves (1997, 1999) citado por Mendes et al., (2009) realizaram um estudo com 183 crianças falantes do PE, com idades entre os três e os cinco anos e com desenvolvimento típico. Os resultados demonstraram uma diminuição da existência de processos fonológicos ao longo do desenvolvimento da criança. Guerreiro e Frota (2010) descreveram o tipo e a frequência da ocorrência dos processos fonológicos utilizados em 43 crianças de cinco anos de idade, observaram que os processos de substituição apresentam uma frequência reduzida e que os processos de simplificação de estruturas silábicas complexas (omissão de consoante final e redução de grupo consonântico) foram os mais significativos (Mendes et al., 2009).

Lousada (2012) realizou um estudo comparativo com 14 crianças com perturbação da linguagem (PL) e 14 crianças com o desenvolvimento típico. Os resultados obtidos mostraram que as crianças com PL apresentaram dificuldades graves ao nível do desenvolvimento fonológico. Estas dificuldades estão relacionadas com a percentagem reduzida de consoantes corretas e pela elevada ocorrência de processos fonológicos típicos nas crianças com PL quando comparadas com as crianças com o desenvolvimento normal. Verificou também, que as crianças com PL apresentam processos fonológicos que não são marcadores línguisticos no desenvolvimento fonológico normal.

Na Tabela 7 está presente a comparação das idades de supressão dos processos fonológicos do PE no TFF-ALPE (Mendes et. al, 2009) e em Castro et al. (1997; 1999) e do PB (Wertzner, 2000, 2003) com crianças com desenvolvimento típico.

Processos Fonológicos TFF-ALPE (2003) Castro et.al (1997; 1999) (2000; 2003) Wertzner

Oclusão [3:0-3:6] >[4:0] [2:6]

Posteriorização [3:0-3:6] --- [3:6]

Anteriorização [3:0-3:6] --- [3:0]

Despalatalização [4:0-4:6] >[4:0] [3:6] Palatalização [4:0-4:6] >[4:0] [4:6]

Desvozeamento [5:0-5:6] >[4:0] ---

Omissão de consoante final [6:6-7:0] >[5:0] [7:0] Redução do grupo consonântico [6:6-7:0] >[5:0] [7:0] Semivocalização de líquida [6:6-7:0] >[4:0] [3:6] Redução de sílaba átona pré-tónica >[6:6-7:0] >[4:0] [2:6] Tabela 5. Comparação das faixas etárias de supressão dos processos fonológicos do PE obtidas no

(43)

25

CAPÍTULO II – METODOLOGIA

O presente capítulo inicia-se com a apresentação do objetivo do estudo e das questões de investigação. De seguida apresenta-se uma descrição do tipo de estudo, das caraterísticas das crianças que participam neste estudo, do método de recolha de dados e dos instrumentos utilizados para a obtenção dos dados.

Seguidamente, são descritos os procedimentos utilizados para a seleção da amostra e emparelhamento dos grupos, as medidas fonológicas utilizadas e as especificidades do Estudo 1 e do Estudo 2.

Apresenta-se finalmente uma breve caraterização da análise estatística efetuada.

2.1Objetivo do estudo e questões de investigação

O objetivo principal deste estudo é comparar o desempenho de crianças falantes nativas de PE e das crianças falantes nativas de PB com idades compreendidas entre os cinco anos e zero meses e os sete anos e os 11 meses, com diagnóstico de PSF analisando um conjunto de 11 medidas fonológicas. Com este objetivo pretendemos responder às seguintes questões de investigação:

1) Verificar se o desempenho dos sujeitos com PSF do GPE e do GPB difere na prova de nomeação de imagens, no que se refere a PCC, PCC-R, PDI e IAS, IAO, IAD e IRS, IRO, IRD e ao número de processos fonológicos;

2) Identificar qual o tipo de erro - substituição, omissão ou distorção - mais frequente em ambas as amostras;

3) Verificar se os processos fonológicos com maior ocorrência em crianças com PSF diferem nas crianças falantes nativas de PE e nas crianças falantes nativas de PB;

4) Verificar se o inventário fonético das crianças com PSF difere nos falantes nativos de PE e nos falantes nativos de PB;

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2.2Tipo de Estudo

A presente investigação é um estudo comparativo (Almada & Freire, 2007) que pretende descrever e comparar as medidas fonológicas entre crianças falantes nativas de português europeu (GPE) e crianças falantes nativas de português brasileiro (GPB).

Esta pesquisa foi desenvolvida em duas etapas. A primeira etapa, corresponde ao Estudo 1. Este estudo pretende analisar e comparar as onze medidas fonológias selecionadas para a presente investigação (PCC, PCC-R, PDI, IAS, IAO, IAD, IRS, IRO, IRD, PAF e tipos de Processos Fonológicos) nos dois grupos de sujeitos (GPE e GPB) tendo em conta a amostra de fala dos sub-testes de nomeação dosteste de avaliação utilizados. A segunda etapa, que consiste no o Estudo 2, as onze medidas fonológicas utilizadas para a comparação entre o GPE e o GPB foram iguais às do Estudo 1, sendo que no Estudo 2, foi considerado apenas o universo de 12 palavras em comum nos dois testes de avaliação.

2.3 Participantes

Nesta investigação (Estudo 1 e Estudo 2) participaram 18 crianças com diagnóstico de Perturbação dos Sons da Fala (PSF) falantes de duas variedades de português (PE e PB), com idades compreendidas entre os cinco anos e dois meses e os sete anos e um mês (M = 70.77, DP = 9.27), sendo 12 crianças do sexo masculino e seis do sexo feminino. Estas 18 crianças estão divididas em dois grupos: nove do grupo de crianças falantes de português europeu (GPE) e nove do grupo de crianças falantes de português brasileiro (GPB). Em ambos os grupos, seis crianças são do sexo masculino e três do sexo feminino.

Todas as crianças participantes deste estudo foram diagnosticadas com Perturbação dos Sons da Fala (PSF). As crianças do GPB foram avaliadas e diagnosticadas no Laboratório de Investigação Fonoaudiológica em Fonologia (LIFF), do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. As crianças do GPE foram indicadas por Terapeutas da Fala em exercício profissional em clínicas e escolas particulares da área metropolitana de Lisboa.

Imagem

Tabela 2. Classificação articulatória das consoantes de PB. Adaptado de Silva, 2007.
Tabela 4. Comparação das faixas etárias de aquisição dos fonemas obtidas no TFF-ALPE para o PE e  obtidas no ABFW para o PB
Tabela 9. Processos fonológicos analisados nos diferentes testes de avaliação e a respetiva  correspondência
Tabela 10. Nomenclatura, definição e exemplo dos processos fonológicos no PE.
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Referências

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