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Psicol. USP vol.15 número3

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Academic year: 2018

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Psicologia USP, 2004, 15(3), 245-247 245

PONTO DE

VISTA

RAP

Anna Veronica Mautner1

Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

ara a camada da sociedade sediada no centro dela, estudar continuamen-te, dos 7 anos a perder de vista, parece natural. É difícil para médicos, juízes, diretores, professores, imaginar que aprender pode ter um fim e a repetição, que leva a um eterno aperfeiçoamento que se apresenta como ma-nutenção de um fazer, possa ser prazerosa. Poucos acreditam que o orgulho de uma bordadeira, que mantém a sua habilidade e nada mais, possa ser bom para ela. Difícil imaginar que um calígrafo, cujo trabalho hoje se restringe a “endereçar”, possa achar encanto em ver que continua apto – e mais –, pro-curado e requisitado, se o calígrafo não assina, não recebe aplausos. Acredi-tem. Conheço um calígrafo, conheço uma cerzideira que se encanta quando consegue fazer seu cerzido ser imperceptível. Ainda existem marceneiros que amam a madeira e não almejam apresentar-se em feiras, concursos e notícias em jornal. Existe ainda – que sorte – muita gente que gosta de fazer para “um ou pouco mais de um outro”.

Se o topo da pirâmide pudesse conter todo mundo, não seria pirâmide, seria paralelepípedo. Não há lugar para todo adolescente nas escolas de nível superior e, para bem da verdade, temos de reconhecer que nem todo mundo quer essas vagas. Se um jovem operário, da periferia, quiser e não puder é realmente triste. Mas é triste, também, a enorme quantidade de jovens que

1 Psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Pau-lo – SBPSP. Endereço eletrônico: [email protected]

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Anna Veronica Mautner

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não quer estar lá, mas tem de estar porque os irmãos, os vizinhos, os colegas de colegial, seguem com pouco questionamento. Às vezes, eu sinto que a universidade se tornou o único espaço digno para um jovem urbano. Fora dali, marginalização, baixa auto-estima, como se a universidade fosse o des-tino da natureza humana. Sabemos que não é. E é imprescindível e urgente que se encontre uma forma de desdizer essa falsa verdade. A oficina, a qua-dra de esportes, a feitura de peças básicas de vestuário, a criação de bijuteri-as, bolsbijuteri-as, carteiras feitas de retalhos, teares manuais, podem dar um ganha-pão tão bom e uma satisfação pessoal idem-idem.

E está acontecendo. Lá, nos bairros mais distantes, hoje em dia, cha-mados de periferia, porque vemos seus habitantes como periféricos, longe do centro, não existem somente jovens drogados, marginais, invejosos, o-lhando sempre para o rastro deixado pelos que procuram o triunfo e a glória global.

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RAP

Referências

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