JOÃO LEONARDO MARQUES ROSCHILDT
DA CONSTRUÇÃO DOS FUNDAMENTOS DO DIREITO EM JOHN RAWLS
Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Pelotas, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Filosofia.
Orientador: Prof. Dr. Carlos Adriano Ferraz
PELOTAS, 2010.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação:
Bibliotecária Maria Fernanda Monte Borges – CRB-10/1011
R791d Roschildt, João Leonardo Marques
Da construção dos fundamentos do Direito em John Rawls / João Leonardo Marques Roschildt ; orientador : Carlos Adriano Ferraz. – Pelotas, 2010.
209 f.
Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Instituto de Ciências Humanas. Universidade Federal de Pelotas.
1. Filosofia do Direito. 2. Teoria do Direito. 3. Fundamentação do Direito. 4. Teoria da Justiça. I. Ferraz, Carlos Adriano, orient. II. Título.
CDD 100
Banca examinadora:
...
CARLOS ADRIANO FERRAZ (Orientador) ...
LUIZ BERNARDO LEITE ARAÚJO
...
DENIS COITINHO SILVEIRA
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos meus pais, Hugo e Nara Regina, pelo amor recebido ao longo dos anos, pelo incentivo em todos os momentos necessários e pela minha formação moral.
De igual forma agradeço à minha Avó Iara, que com sua fonte de alegria constante, me motivou a dar prosseguimento no esforço empreendido nesta pesquisa.
Um especial agradecimento à minha namorada Priscila, que ao longo desta jornada foi incansável no que tange ao apoio e carinho em todos os instantes.
Além disto, suas ponderações críticas, leituras e avaliações acerca do meu trabalho em muito contribuíram para o resultado final.
Um fraterno agradecimento ao meu orientador, professor Carlos Ferraz, que sempre me auxiliou fazendo apontamentos precisos tanto sobre os aspectos em que eu apresentava falhas quanto em meus acertos, incentivando a minha vida acadêmica em sua completude.
Por fim, um agradecimento aos professores do departamento de filosofia que contribuíram para o meu aprimoramento intelectual, em especial aos professores Denis Silveira, João Hobuss e Manoel Vasconcellos.
Resumo:
O foco do presente trabalho é a construção de um conceito de Direito que seja compatível com a noção de justiça construída por John Rawls. A verificação das estruturas formas e materiais da justiça como eqüidade acabará determinando o tipo de Direito que cabe ao pensamento rawlsiano, qual seja, a doutrina interpretativa.
Nesta medida é adequado destacar que a teoria do Direito em Rawls se contrapõe ao positivismo jurídico, e se mostrando independente como uma concepção política liberal de justiça assim exige.
Palavras-chave: Filosofia do Direito; Teoria do Direito; Fundamentação do Direito;
Teoria da Justiça.
Abstract:
The focus of the present work is the construction of a concept of Right that is compatible with the notion of justice formulated by John Rawls. The verification of the formal and material structures of justice as fairness will finish determining the type of Right that fits to the Rawlsian thought, which is the interpretative doctrine. Thus it is appropriate to emphasize that the theory of the Right in Rawls is opposed to legal positivism, showing itself independent as a liberal political conception of justice so require.
Keywords: Philosophy of Law; Theory of Law; Grounds of Law; Theory of Justice.
Sumário
1 Introdução... 8
1.1 O problema... 8
1.2 Tese proposta... 10
1.3 Estrutura da dissertação... 11
2 A teoria da justiça de Rawls e suas idéias elementares... 13
2.1 A posição original sob o véu da ignorância... 13
2.2 O princípio da igual liberdade e os seus respectivos desdobramentos formais e materiais... 24 2.3 O segundo princípio de justiça: igualdade eqüitativa de oportunidades e o princípio da diferença... 38 3 Aprofundamentos teóricos da justiça como eqüidade... 52
3.1 O mecanismo justificacional do equilíbrio reflexivo... 52
3.2 A idéia dos bens primários como pressuposto material do Direito... 60
3.3 A justificação pública e a legitimidade política... 71
3.4 O consenso sobreposto: um acordo político independente... 78
3.5 Sobre a democracia constitucional... 112
4 A efetivação da justiça como eqüidade e o âmbito do Direito... 124
4.1 Uma idéia central: a aplicação dos princípios de justiça na seqüência dos quatro estágios...
124
4.2 Por uma idéia do Direito em (e a partir de) Rawls... 152
5 Conclusões... 204
Referências... 206
1 Introdução
1.1 O Problema
Desde a publicação de Uma teoria da justiça (1971), do filósofo político John Rawls, natural de Baltimore, o universo da filosofia política foi radicalmente transformado. As mudanças foram sentidas de forma mais acentuada na esfera de fundamentação (justificação) dos preceitos que se utilizam em sociedade, tanto para designar como ela é como para determinar como a mesma deve ser. Nisto surgiram correntes interpretativas que em muito se aproximaram do pensamento rawlsiano, reconhecendo a importância de sua teoria1 e aprofundando os pontos teóricos que julgaram deficitários, ao passo que outros círculos de pensamento (mais numerosos) foram criados, se mostrando críticos para com a justiça como eqüidade2.
O objetivo deste trabalho é averiguar um dos momentos de aplicação dos princípios de justiça de Rawls que se mostram mais obscuros na proposta do filósofo norte-americano: o Direito3. As razões pelas quais o tema do Direito se apresenta de forma indeterminada no liberalismo político rawlsiano podem ser fixadas pelos seguintes pontos: (i) o objetivo do referido filósofo é estabelecer critérios objetivos (abstratos) que possam reger toda a sociedade e tenham a capacidade de determinar o que é justo; (ii) pelo fato do pluralismo razoável e das diversas formas de democracia presentes no ocidente; (iii) pela razão de que o tipo de restrição
1 Como os liberais igualitários, notadamente representados por Ronald Dworkin, que afirma ser a teoria da justiça de Rawls insuficientemente igualitária.
2 Aqui um dos críticos mais contundentes é representado por robert Nozick em Anarchy, State and Utopia, no qual repudia principalmente o princípio da diferença de Rawls (e seu Estado excessivamente ativo na distribuição de renda), declarando este último como um liberal insuficientemente liberal. Outras críticas advém do marxismo analítico (em que se destacam G. A.
Cohen e Jon Elster, por exemplo), do comunitarismo (com os célebres Alasdair MacIntyre, Michael Sandel e Charles Taylor) e do republicanismo (nomes fortes são os de Cass Sunstein e Frank Michelman).
3 Ressalta-se que a órbita analisada diz respeito tão-somente a idéia apresentada para uma sociedade democrática nacional, o que exclui a obra O direito dos povos do presente trabalho. Tal ponto pouco trabalhado na justiça como eqüidade é reafirmado por Höffe: “Rawls desenvolve certamente certos princípios da justiça para a ordem fundamental de uma sociedade; e, contudo, a legitimação ética de uma realização destes princípios com forma jurídica e do Estado e com isto seu mandato para o exercício da coerção não surge no programa nuclear da teoria” (2005, p. 14).
formal exigida em uma etapa de elaboração dos princípios de justiça difere substancialmente daquela apresentada em um momento de determinação de quais direitos os cidadãos possuem.
Todas estas questões estão conectadas, visto que Rawls visa estabelecer princípios gerais para sua teoria da justiça, não tendo o intento de assentar uma metodologia de aplicação dos mesmos de forma estanque: cada sociedade, partindo do padrão da justiça como eqüidade, escolhe o tipo de formatação adequada a execução dos critérios de justiça4. Lembrando-se que o fato do pluralismo razoável, além de ser aplicável às doutrinas morais abrangentes razoáveis, também tem um alvo de aplicação para com as diversas sociedades herdeiras das democracias ocidentais, e que apresentam peculiaridades distintas mas que podem chegar a um mesmo resultado justo de diversas formas. Assim, a forma com que o Direito deve ser exercido, em suas minúcias e procedimentos, não foi o objetivo de Rawls, pois este era conhecedor daquela dificuldade (do acordo entre doutrinas razoáveis).
Mas mesmo diante destas dificuldades, o objeto de análise da presente pesquisa (o Direito) não se mostra inviável, pois existem diversos elementos que conduzem a um tipo de argumento que pode vir a defender uma proposta acerca desta esfera jurídica. Até mesmo porque para que se imagine uma aplicação para o justo, se necessita compulsoriamente de um elemento que seja o meio termo entre a abstração da justiça e a aplicação na realidade, qual seja, o Direito5.
Desta forma os objetivos da presente investigação podem ser resumido em dois grandes centros: (i) um primeiro que reside no aspecto de construção metodológica, e (ii) um segundo que busca verificar que tipo de Direito pode ser extraído da filosofia política rawlsiana e suas implicações sistêmicas. Neste sentido, as preocupações postas podem ser resumidas pelas seguintes questões: (a) o Direito em Rawls se mostra com aspectos morais ou meramente formais? (b) O mesmo tem autonomia frente ao campo da moralidade, é dependente ou é interdependente? (c) O Direito se aproxima de um viés positivista ou está mais inclinado a uma noção que seja mais adequada com o interpretivismo jurídico? (d) como o Direito se refere ao quarto estágio de aplicação dos princípios de justiça,
4 Mesmo que se tenha uma ampla moldura que determine o que é permitido e o que não é.
5 Nenhuma teoria política é elaborada com o mero escopo de ser um simples exercício de abstração racional sem nenhuma intenção prática.
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fase em que não se possui mais o véu da ignorância6, ao se adotar uma corrente como a que possivelmente represente o ideal rawlsiano acerca deste tema, não se estaria incorrendo em um tipo de doutrina abrangente?
1.2 Tese proposta
Com o desenrolar desta pesquisa, vai ser defendida uma concepção de Direito7 presente na justiça como eqüidade em Rawls que demonstre os seguintes aspectos centrais: (i) o Direito, bem como a teoria da justiça, são formais na medida em que guardam viés procedimental muito firme, mas ao mesmo tempo possuem conteúdo (o que descaracteriza a crítica de um formalismo vazio para ambos); (ii) a autonomia do Direito em relação às doutrinas morais abrangentes razoáveis, tal e qual a proposta de justiça; (iii) a interdependência com a justiça como eqüidade que este apresenta no que tangem às limitações impostas nos três estágios (anteriores) de aplicação dos princípios de justiça; (iv) a adequação do Direito rawlsiano com a formulação interpretativa do sistema jurídico, refutando o positivismo; (v) e por fim que o Direito em Rawls não pode ser relacionado como uma doutrina moral (ou política) abrangente qualquer (mesmo sem o véu da ignorância) em virtude deste ser parte da justiça como eqüidade.
Obviamente que quaisquer das afirmações realizadas acima não encontram respaldo claro e evidente no desenvolvimento teórico esboçado por Rawls ao longo de suas obras. Contudo, todas as afirmações realizadas se encontram na base das melhores interpretações concretizadas nos últimos anos sobre o pensamento rawlsiano: a própria interpretação sobre o Direito em Rawls se mostra demasiadamente nova em comparação com as análises disponíveis sobre os mecanismos de justificação da teoria da justiça.
Assim, para o desenvolvimento da presente dissertação haverá de se dar conta de temas de fundamentação da justiça como eqüidade para que depois se
6 Sem restrições formais.
7 Convém assinalar que há uma sólida oposição entre Direito e direito: o primeiro é visto como uma grande moldura no qual o segundo se efetiva nas particularidades dos cidadãos. Em outras palavras, o segundo apresenta um caráter subjetivo, ao passo que o primeiro se presta a carregar uma estrutura formal de aplicação e de execução que visa determinar de quem é o direito. Enquanto o primeiro é objetivado no plano de uma estrutura de justiça (e de instituições sociais), o segundo é materializado no sujeito, conferindo-lhe poderes perante outrem. O alvo da presente pesquisa é o Direito.
possa depreender uma noção de execução destes pressupostos formais essenciais e dos conteúdos extraídos. Como corolário, temas que envolvem a participação das três grandes obras de Rawls8 se fazem necessários para a compreensão do Direito, tanto em sua forma quanto em sua substância.
1.3 Estrutura da dissertação
Para que os objetivos em questão sejam conquistados, a presente pesquisa apresentou os seguintes eixos temáticos: (i) em um primeiro momento optou-se pelas contruções mais fundamentais esboçadas por Rawls acerca da justiça como eqüidade, quais sejam, as idéias fundamentais que apresentaram o filósofo norte- americano para o universo político: o revigoramento da teoria do contrato social aliado aos dois princípios de justiça que dotam de substancialidade a justiça como eqüidade.
Logo, optou-se por uma análise de pressupostos teóricos que surgiram em obras posteriores a Uma teoria da justiça (mesmo que tais idéias já estejam latentes nesta obra), notadamente àqueles voltados para temas de legitimidade política. Uma ênase especial foi dada para a questão do consenso sobreposto, em virtude de que este mecanismo justificacional se mostra como uma peça fundamental para que se compreenda a independência do Direito.
Por fim, partiu-se para um análise acurada acerca do tema da aplicação dos princípios de justiça na realidade, sub-dividida em duas etapas: no primeiro momento buscou-se uma averiguação sobres os métodos utilizados por Rawls para a execução dos princípios abstratos em sociedade, demonstrados os quatro estágios de aplicação destes. Já em um segundo momento, tentou-se problematizar o tema do Direito com o escopo de responder as questões fundamentais que fomentaram a pesquisa, bem como acrescentar uma proposta que pudesse responder às indagações fundamentais que motivaram esta pesquisa.
A estruturação se deu nestes moldes em virtude da própria disposição trazida por Rawls acerca dos quatro estágios de aplicação: parte-se de restrições severas a concepção de pessoa e sociedade para que através dos sucessivos relaxamentos
8 Uma teoria da justiça, O liberalismo político e Justiça como eqüidade:uma reformulação.
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de execução se obtenha uma efetividade dos princípios de justiça em sociedade.
Desta forma, se mostrou bastante lógico tratar de temas afeitos a estruturação da justiça como eqüidade9 para que, somente após uma análise minuciosa destes, se pudesse passar a análise da aplicabilidade dos valores engendrados (os dois princípios de justiça).
9 Selecionados a partir das necessidades mais prementes. Todavia, cabe lembrar que alguns mecanismos de justificação ficaram de fora por escolha do autor em virtude da tese defendida nesta dissertação (por exemplo, a razão pública não mereceu a devida orientação pelo fato de que esta corrente poderia produzir um não-Direito em Rawls a partir da noção de possível omissão do judiciário em casos controversos, privilegiando a razão que emana do legislativo).
2 A teoria da justiça de Rawls e suas idéias elementares
2.1 A posição original sob o véu da ignorância
Principia-se a presente exposição com uma crítica desenvolvida por Ronald Dworkin acerca do tipo contratualista adotado por Rawls em sua teoria da justiça19:
Rawls does not suppose that any group ever entered into a social contract of the sort he describes. He argues only that if a group of rational men did find themselves in the predicament of the original position, they would contract for the two principles. His contract is hypothetical, and hypothetical contracts do not supply an independent argument for the fairness of enforcing their terms.
A hypothetical contract is not simply a pale form of an actual contract; it is no contract at all (DWORKIN, 1975, p. 17-18).
Essa representa uma pequena passagem crítica, contudo, dada a sua profundidade e acidez, merece uma averiguação mais detalhada para que este mecanismo de justificação rawlsiana não sucumba, levando consigo todo seu sistema.
A este tempo, a título de análise metodológica, surge a necessidade de responder aos seguintes questionamentos, frente ao espólio contratualista que Rawls se diz herdeiro: O pacto para a construção principiológica surge como e quando? Com que forma se aderirá à justice as fairness? A resposta se encontrará no entendimento do que venha a ser a “posição original” no pensamento rawlsiano, que dará solidez a urdidura teórica do referido autor, em uma formatação formalista e procedimental, mas que resguarda um firme espaço substancial.
Assim sendo, primeiramente há de se determinar como se dá a posição original, em que condições a mesma é estabelecida, bem como os objetivos da mesma. Assim, a posição original encontra suas raízes no estado de natureza oriundo de filósofos como Locke e Rousseau, contudo não pode ser entendida como algo análogo, haja vista que, caso fosse, receberia as mesmas críticas que aqueles receberam, e não acrescentaria nada para a história da filosofia, significando uma mera repetição de um pensamento desenvolvido séculos atrás. E tal afirmação é substancialmente corroborada por uma célebre passagem de Rawls, na qual afirma que “meu objetivo é apresentar uma concepção de justiça que generalize e eleve a
19 O motivo da adoção de um modelo que vai da crítica para depois efetuar a elucidação do tema do acordo se mostra para verificar o quão sustentável se mostram os pilares de Rawls, mesmo que se parta de uma análise contrária – em partes – ao seu pensamento.
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um nível mais alto de abstração a conhecida teoria do contrato social conforme encontrada em, digamos, Locke, Rousseau e Kant” (RAWLS, 2008, p. 13). Eis que fica claro a fonte e os interlocutores necessários para a compreensão dos intentos rawlsianos em sua teoria da justiça.
Mas há de se entender em que medida ocorre um aprofundamento das teorias contratualistas dos séculos XVII e XVIII, para que se entenda em que partes Rawls se diferencia metodologicamente e substancialmente da herança por ele adotada. Primordialmente, a posição original significa uma situação inicial de igualdade, para um acordo acerca dos princípios a serem distribuídos entre as instituições sociais e os seres vistos em suas individualidades. Estes princípios de justiça são acordados entre as partes sob um véu da ignorância, que garante que as mesmas não sejam egoístas em seus interesses, construindo assim uma plataforma que impulsione a todos, sem privilegiar um determinado segmento social em detrimento de outro, de forma injusta, pois se aduzirão princípios que preservem tanto o interesse individual como coletivo.
Destarte, pode-se dizer que a idéia da posição original, então, se imiscui com a de estado de natureza, bem como com a de contrato social para o estabelecimento da sociedade civil (mas obviamente que tal interpretação rawlsiana não faz uma apropriação indistinta destas concepções de Locke e Rousseau). A título de uma simples diferenciação, pode-se aventar que no estado de natureza lockiano, tem-se a afirmação de que é um estado de perfeita liberdade e igualdade entre os homens, na qual a liberdade garante o pleno uso e gozo da sua propriedade (aqui entendida como sendo equivalente a vida, liberdade e posses de todo o gênero), enquanto a igualdade garante que não haja nenhuma espécie de submissão entre os seres humanos, não havendo poder pelo qual os homens devam se submeter.
É claro que até este ponto, a posição original de Rawls talvez convergisse sem demais correções com o pensamento de Locke, contudo, há neste último filósofo um acréscimo que merece destaque e talvez possa expor uma diferença fundamental: a lei da natureza. Ora, para Locke, o estado de natureza não pode ser um estado de amplas liberdades, de tudo se fazer e querer, mas sim, um estado no qual seja regido por uma lei da natureza – identificada ao longo de sua obra magna sobre filosofia política como sendo a razão – que dite aos homens os limites de sua ação, obrigando-os a não prejudicarem outrem (no mais amplo leque que isto possa
significar). Para Rawls, uma lei da natureza seria inconcebível, face sua herança analítica, que não permite o estabelecimento de uma fundamentação última dos princípios morais a serem adotados em sociedade.
Esta não aceitação de uma fundamentação verdadeira de princípios morais pode ser vista da seguinte forma: na maneira em que liberdade e igualdade são critérios que guardam uma verdade absoluta para Locke – e para Rousseau e Kant, mas por outras justificativas –, na qual todos aqueles que pensarem contrariamente a sua argumentação incorrerão em erro, em Rawls “se deve observar que não se conjetura a aceitação desses princípios como uma lei ou probabilidade psicológica”
(RAWLS, 2008, p. 146), tendo-se que seus princípios de justiça são aqueles que se apresentam no momento do acordo na posição original, como sendo os mais corretos para a sua teoria da justiça – o que mostra certo caráter parcial, mas que não pode ser visto como algo ruim ou errado, na adoção dos mesmos, pois os princípios se voltam para fundamentar a sua teoria da justiça, que para Rawls se apresenta como a mais adequada para atender aos anseios individuais e coletivos do homem pós-iluminismo.
Logo, os princípios de justiça – que serão tratados em partes precedentes – da posição original são ad hoc, tanto com relação à teoria da justiça, garantindo sua coerência, quanto para a função que virão a desempenhar para o estabelecimento (não sendo absoluto nem com força de verdade, mas sim de correção) do que seja o justo em sociedade. E com relação a parcialidade exposta no parágrafo anterior, pode-se aventar a argumentação rawlsiana acerca do tema, corroborando tal assertiva, com o seguinte trecho:
Como já afirmei, há muitas interpretações possíveis da situação inicial. Essa concepção varia, dependendo de como as partes contratantes são concebidas, do que se afirma serem suas crenças e interesses, de quais opções lhe estão disponíveis, e assim por diante. Nesse sentido, há muitas teorias contratualistas possíveis. A justiça como equidade é apenas uma delas. Mas a questão da justificação é resolvida, na medida do possível, demonstrando-se que há uma interpretação da situação inicial que expressa melhor as condições que em geral se considera razoável impor à escolha dos princípios que, ao mesmo tempo, leva a uma concepção que caracteriza nossos juízos ponderados em equilíbrio reflexivo. Essa interpretação preferida, ou padrão, chamarei de posição original (RAWLS, 2008, p. 147).
Eis que com isso tem-se claramente a admissão por parte de Rawls de que os princípios de justiça escolhidos, ao lado da teoria de justiça demonstrada, são expostos e construídos de maneira parcial – objetivando algo que se toma como o
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mais correto, mas não verdadeiro – a partir de uma posição inicial de igualdade imparcial das partes. Faz-se uma ressalva de que são todos os juízos morais existentes em sociedade que podem ser utilizados neste equilíbrio reflexivo que se efetua na posição original, pois se assim o fosse, recairia o sistema rawlsiano em uma espécie de falácia naturalista, pois se adquiriria a fundamentação de seus princípios e de sua teoria, em última análise, nos juízos morais lato sensu contidos em sociedade; sendo assim, se utilizam os juízos morais ponderados por estes possuírem um status diferenciado, que não se confunde com tudo o que é encontrado na realidade natural.
Ainda sobre o trecho citado, poder-se-ia perguntar: como que Rawls assume, no seio de seu mecanismo contratualista e construtivista, a parcialidade do seu sistema – ao dizer que existe uma interpretação preferencial para dar conta dos objetivos de sua teoria da justiça –, mesmo se utilizando largamente do conceito de imparcialidade, que em última análise é garantido pelo véu da ignorância? Ora, pode-se vislumbrar com clareza solar que na passagem exposta de Uma Teoria da Justiça, Rawls fala que há muitas interpretações e concepções sobre uma situação inicial que gere princípios de justiça, dependendo esta variação das partes, suas crenças e suas opções. Neste sentido, o autor norte-americano declara que a sua teoria da justiça é apenas mais uma dentre as diversas teorias contratuais existentes (ou que existiram), mas seria a que mais se adapta com os tipos de partes contratantes (que ocupam uma posição inicial de igualdade, sob um véus da ignorância), seus desejos e possibilidades.
Ao dizer isso, Rawls assevera cabalmente que a sua teoria não é a verdadeira, mas sim a que pode produzir os melhores resultados (uma breve vertente utilitária, mas que não desconsidera a pessoa tomada em sua individualidade), bem como ser a mais correta para o tipo de situação inicial esboçada por ele, aceitando a existência da diversidade de concepções filosóficas acerca da temática (fato do pluralismo razoável). Por fim, respondendo a questão proposta, pode-se ter: o autor de Uma Teoria da Justiça cria um mecanismo de justificação que se utiliza de uma concepção de pessoa de forma imparcial (todas as partes são vistas de forma igual, possuindo uma esfera inviolável de direitos que nenhuma espécie de acordo pode romper), sendo parcial na sua escolha da estrutura que melhor se ajusta a esta idéia de pessoa com todas as circunstâncias sociais e naturais; e ao admitir esta parcialidade em sua escolha, sem dizer que sua
tomada de posição representa a verdade absoluta, admite que existam outras concepções que possam produzir resultados diversos do seu (mesmo que para o tipo de pessoa idealizada por ele, no fim das contas, se verifique que sua concepção de pessoa é a mais adequada).
Mas qual seria a real definição, ou a que mais se pode aproximar da idéia de Rawls, acerca da posição original? Esta pode ser entendida de forma autônoma ou deve se recorrer a complementaridade do véu da ignorância e outros mecanismos que foram desenvolvidos em escritos posteriores? Primordialmente, há de se entender que “na justiça como eqüidade, a situação original de igualdade corresponde ao estado de natureza da teoria tradicional do contrato” (RAWLS, 2008, p. 14). Esta afirmativa inicial pode entrar em choque com algumas premissas delineadas no início desta parte expositiva sobre a posição original, pois algumas diferenciações severas foram feitas no que tange aos aprofundamentos contratuais trabalhados por Rawls em relação aos filósofos contratualistas de séculos anteriores. Contudo, há de se entender que a correspondência entre a posição original e o estado de natureza, que Rawls assume, se dá muito mais como um plano de elucidação exemplificativa da idéia do referido autor, para que o leitor tenha uma noção básica do que seja esta posição original, através de um exemplo retirado da história da filosofia, haja vista que, conforme já foi exposto, ocorre um grande aprofundamento das teorias contratuais dos séculos XVII e XVIII.
Desta maneira, a “posição original” é “a situação hipotética na qual as partes contratantes (representando pessoas racionais e morais, isto é livres e iguais), escolhem, sob um ‟véu da ignorância‟ (veil of ignorance), os princípios de justiça que devem governar a „estrutura básica da sociedade‟ (basic estructure of society)”
(OLIVEIRA, 2003, p.14). E tal estrutura, conforme assinala Scanlon, há de ser entendida de forma a destacar o seu caráter teorético e dedutivo, qual seja:
“principles of justice are justified if they could be derived in the right way, institutions are just if they conform to these principles, and particular distributions are just if they are the products of just institutions” (SCANLON, 2003, p. 139).
Há de se rememorar que na obra rawlsiana, os princípios formadores da justiça como eqüidade são frutos dos juízos morais cotidianos que convergem, encontrando aqui o seu critério de absoluto, no plano, obviamente, do razoável (o absoluto em questão não faz referência alguma a algo como verdadeiro ou falso). E especial cuidado há de se ter quando Rawls identifica a “posição original” como um
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contrato lato sensu em que as partes se inserem para fundar a estrutura da sociedade. Partes não são pessoas nem indivíduos, o que faz-se mister estabelecer uma diferença fundamental que ofertará ainda mais substancialidade a doutrina de Uma Teoria da Justiça: os indivíduos são os sujeitos pertencentes a uma categoria histórico-contingentes, que apresentam como características básicas, eventualidades pessoais como idade, sexo, etc.; as pessoas são as formalizações dos indivíduos, sem distinção alguma; já as partes, são as consciências fazendo um acordo representando as pessoas. Neste último âmbito atinge-se um altíssimo grau de imparcialidade moral, que dará o norte da orientação teórica de Rawls.
Isto posto, outra idéia básica que se deve ter acerca da posição original, é que a mesma “é entendida como situação puramente hipotética, assim caracterizada para levar a determinada concepção de justiça” (RAWLS, 2008, p. 14), em que há uma clara vertente kantiana nesta determinação. Ao declarar que a situação original é meramente uma hipótese filosófica, que por consequência apresentará o contrato como mera hipótese – lembrando-se fundamentalmente aqui, da crítica de Ronald Dworkin no início desta exposição –, Rawls afirma que seu mecanismo de justificação dos princípios de justiça não é real e nem recorre de comprovações históricas de existência fática e natural. E, ao não se engajar em tal corrente de pensamento que declara que algum dia os homens estiveram ou podem vir a se encontrar em um estado de natureza, o filósofo de Uma Teoria da Justiça se diferencia de Locke e Rousseau, pois estes, continuamente asseveram a existência, em tempos remotos, de homens que se encontravam em um estado de natureza (Locke chega a exemplificar povos que em algum tempo estiveram em tal estágio de desenvolvimento social, como espartanos ou tribos indígenas na América).
Por não acatar tal posicionamento naturalista (por assim dizer), Rawls se assemelha ao posicionamento kantiano de concepção contratual, mas sem se aproximar de seu fundacionalismo moral, que estabelece uma verdade única e absoluta do que seja o bem e o justo, não admitindo outra visão que discorde de tais determinações teóricas. Até mesmo porque, frente aos entendimentos da filosofia analítica e com os avanços da lógica, na qual Rawls faz ampla aplicação ao longo de suas obras, em que se tem uma afirmação de que os valores morais nada mais são do que valores determinados pelos sujeitos envolvidos na questão, seria de difícil defesa imaginar uma situação original que houvesse existido na prática para comprovar determinados valores defendidos por um filósofo sobre o que deve ser o
melhor para uma sociedade civil, sem cair em uma enorme falácia naturalista, pois comprovações reais e valores morais pertencem a registros lógicos evidentemente distintos.
Outra razão para Rawls não abraçar a tese de que a posição original e o contrato social tenham existido no mundo real, é o fato de que se estes existiram foram concretizados e realizados por sujeitos reais, o que traz a seguinte crítica:
como efetuar um contrato que preserve os direitos oriundos do estado de natureza, com homens que apresentam vontades distintas, com poderes e instrumentos de barganha diversificados, sem que alguma parcela social não perca excessivamente, ou ceda, os direitos originais do estado de natureza em prol de outro segmento social? Eis que
A descrição costumeira do estado de natureza é injusta porque algumas pessoas têm mais poder de barganha do que outras – mais talentos naturais, recursos naturais ou simples força física – e conseguem resistir mais para obter um negócio melhor, ao passo que os menos fortes e talentosos têm de fazer concessões (KYMLICKA, 2006, p. 78).
Portanto, o que surge é que a posição inicial de filósofos como Locke e Rousseau apresenta-se como sendo problemática pelo motivo de que ela, ao tratar de homens reais que tem propriedades físicas e sabem de seus lugares no mundo – status social, gênero, raça, etc. –, não se mostra totalmente imparcial em seu limiar, haja vista as contingências que cercam os mesmos. E ao se apelar para a racionalidade, é racional que os homens no estado de natureza venham a lutar pela defesa – através do contrato civil – de seus interesses prévios e parciais: ou seja, não se pregaria uma defesa ao bem político e público – preservando espaço para a esfera individual – de forma imparcial, pois é natural que os homens busquem a sua preservação, que é representada pela defesa de seus interesses individuais.
E este seria um resumo crítico do que os filósofos contratualistas que enfatizaram a realidade prévia de um estado de natureza que outorgasse direitos aos sujeitos sofreram por parte dos seus adversários. Assim, fica claro que a viragem filosófica empreendida por Rawls necessita de outro dispositivo que garanta a igualdade moral dos agentes do contrato hipotético, para que os mesmos não obtenham vantagens pessoais que ofusquem a intuição rawlsiana de que a cooperação – levar em conta o interesse próprio e de outros – é algo bom para
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estabilidade social, fundamentando com uma igualdade moral os direitos decorrentes do pacto: a isto se dá o nome de véu da ignorância.
Com isto tem-se que a posição original não pode ser compreendida de forma autônoma, visto que se for por este caminho, acabará por aderir – e em nada acrescer tanto metodologicamente quanto substancialmente – ao caminho contratualista traçado por Locke, Rousseau e Kant (mesmo este último apresentando o mecanismo contratual como hipotético). Necessário faz-se a introdução de um véu da ignorância na posição original, que represente um obstáculo ao egoísmo pleno e simbólico que a simples racionalidade – sem a razoabilidade – possa representar para uma sociedade que almeje se fundar por bases da imparcialidade, sem nenhum tipo de vício (que advém naturalmente quando os sujeitos sabem das contingências que cercam um acordo).
E o que representaria o “véu da ignorância”, bem como qual seu significado?
Como significação, pode-se afirmar que este é um procedimento sob o qual as partes ficam adstritas para que realizem o elenco de princípios formadores da justiça como eqüidade, sem conhecerem as posições e situações que vivenciarão na comunidade real que foi elaborada na posição original. Logo, o “véu da ignorância”
daria uma maior força ao critério da imparcialidade moral igualitária presente neste neo-contratualismo, e que, em contratualistas do séc. XVIII foi duramente criticado por não apresentar justificativas que se esquivassem de que: como (1) o contrato social é feito por homens, (2) estes defenderão seus interesses de forma egoísta, o que traz como consequência a noção (3) de que o contrato não visa a defesa do bem público, sendo (4) uma quimera sujeita a um jogo de interesses entre os contratantes, no qual o mais forte e com maior poder de barganha acabará por deter mais direitos (não se atingindo uma igualdade plena).
Nesta seara, nunca se pode olvidar da argumentação que traz anexada ao mecanismo da posição original sob o véu da ignorância, o efeito aduzido pelo equilíbrio reflexivo, pois este dota de coerência circular (sem um ponto último de fundamentação que estabeleça um critério de verdade) e subjaz a escolha de princípios naquela posição inicial da sociedade. Com isto, tem-se a realização de um fluxo e refluxo entre juízos morais ponderados, princípios morais (chamados de princípios de justiça) e uma teoria moral (a teoria da justiça de Rawls).
Sem mais delongas, ao rememorar a crítica inicial de Dworkin para com a posição original e o contrato social de Rawls, há de se salientar que a posição
original é um “device of representation, or alternatively, a thought experiment for the purpose of public – and self – clarification” (RAWLS, 2001, p. 17). Evidente, portanto, que ao ser designada a posição original como um mecanismo com a finalidade de uma justificação pública acerca dos princípios de justiça a serem adotados em sociedade, é claro que não se tem a presença de uma obrigação para algo. Note-se que Rawls não deseja obrigar moralmente os indivíduos a seguir os acordos do pacto hipotético, pois o mesmo não existe de fato, mas sim criar um instrumento abstrato e representativo que possibilite uma visualização idealizada dos mais corretos princípios de justiça para uma sociedade bem-ordenada: falar em falta de obrigação moral na posição original rawlsiana pelo fato da mesma ser hipotética, se torna descabido.
Poder-se-ia trazer à tona o argumento de que um mecanismo hipotético, como o da posição original, por ser algo sem concretude real, não possuiria um vigor argumentativo suficiente para sustentar uma teoria da justiça que visasse uma estabilidade social. Eis que surge uma lição lapidar:
Moreover, the fact that na agreement or other event is hipothetical surely cannot imply that it hás no probative value. Some of the most fundamental advances in inqury are based on thought experiments regarding the behaviour of individuals or objects in hipotethical situations that are not practicalyy possible (for example, conditions of perfect competition in price theory, motion in vacuum in Newtonian physics, and objects with mass traveling at the speed of light in special relativity). Just as hipothetical situations can be used to state fundamental laws of physics or economics, they should be helpful in philosophy in discovering or justifying basic moral principles (FREEMAN, 2007, p. 144-145).
E isto pode ser dirigido a todos aqueles que argumentam que tal mecanismo de representação não se efetiva na prática por uma diferenciação entre o plano ideal e uma dita real natureza humana (que não seria compatível com tais enunciações rawlsianas).
Frente ao que foi asseverado, fica claro que o instrumento contratualista utilizado pela teoria da justiça de Rawls, representa uma ferramenta poderosa para desenvolver os princípios de justiça sob uma ótica imparcial: a posição original acaba por salvaguardar os valores de liberdade e igualdade. Eis que a original position (caráter substancial, tratando-a ontologicamente) não seria mais do que algo que explicitaria a maneira (caráter formal) com que a conceituação de justiça
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como eqüidade adquire forma, demonstrando suas implicações com relação aos princípios de justiça, que se aplicam aos indivíduos e instituições sociais.
Mesmo assim, como fugir de uma crítica que trata da “posição original” como mera abstração formalista para justificar a construção de princípios e adentrar no plano da substancialidade metodológica? Ao se fixar a igualdade como chave mestra do procedimentalismo rawlsiano da “posição original”, dota-se o entendimento desta abstração hipotética com um caráter substancial que lhe poderia ser aduzido como faltante, ao se entender, por exemplo, como a proposição de que a igualdade é boa. Ainda resta uma indagação sobre que tipo de igualdade estaria Rawls tratando? Tal acepção da palavra pode ser traduzida por igual condição de possibilidade das partes, que nada mais são do que consciências morais representantes de formalizações de indivíduos, capazes de estabelecerem princípios balizadores de uma estrutura social, que dará forma a justiça como eqüidade (e aqui encontra-se um forte caráter abstrato garantidor de uma imparcialidade moral muito rígida).
Frente as proposições expostas, há de se pressupor a posição original como um contrato de uma pluralidade de partes com o escopo de ofertar uma publicidade, através do consenso, para os princípios de justiça. E o ponto de partida utilizado, há de se lembrar, é o de uma moral mínima comum, demonstrado, por exemplo, por um consenso sobre um repúdio à escravidão bem como o de uma tolerância religiosa, no qual vem a ser juízos morais convergentes, que por sua vez serão o substrato para que se derivem princípios (não entendidos como verdadeiros ou falsos, mas sim como razoáveis ou não razoáveis).
O procedimento de representação das pessoas através de partes na “posição original” há de ser entendido como uma abstração filosófica, ou em outras palavras, como um processo de justificação da espécie de teoria a ser fundamentada (no caso em tela, o de Uma Teoria da Justiça, a carga principiológica é a que necessita de bases sólidas), sendo assim, um maquinismo formal. Este formalismo garante com que não haja nenhuma obrigatoriedade de concretização no mundo real (caso exigisse tal comprovação, se aproximaria de um empirismo), logo, hipotético, ao mesmo tempo em que se adapta a qualquer tempo ou época, fruto da representação das partes (consciências morais), o que afiança a sua a-historicidade.
E quanto à crítica realizada contra os contratualistas do séc. XVIII (especialmente), de que suas teorias filosóficas de um pacto inicial para a formação
de uma sociedade seriam abstrações pouco efetivas? Esta crítica se alargaria a Rawls?
Deste modo, afasta-se (tal e qual já foi dito em outra banda) a crítica da doutrina de um estado de natureza, e conseqüentemente da “posição original” de Rawls, do âmbito da historicidade, pois esta não entra no cerne da questão, nem se apresenta como melhor via de interpretação. A presença forte de um viés ligado a idéia de uma igualdade moral individual atrelado ao estabelecimento de novas liberdades políticas parece ser a que melhor se adapta a intenção dos contratualistas e neo-contratualistas aqui representados por Rawls, pois aliaria um formalismo construtivista e justificador (de um governo, de um Estado ou de princípios de justiça, por exemplo) com a substancialidade que uma igualdade inicial pode ofertar para as partes poderem construir estruturas sociais com o critério da imparcialidade moral. Nesta ótica, o contrato social lato sensu (sejam os do séc.
XVIII ou o de Rawls) foge da crítica tênue da existência ou não histórica de seu procedimento e adentra no campo de uma solidez lógica justificadora (dentro de uma razoabilidade) muito robusta para fundamentar sua pretensão de formação da sociedade.
Isto posto, Rawls segue esta padrão contratualista desenvolvido a partir do séc. XVIII, mas com a dinâmica diferenciada em que os princípios de justiça (linha mestra da sociedade) são determinações a partir de uma densa posição de igualdade das consciências morais (nominadas de partes). Eis que
In justice as fairness the original position of equality corresponds to the state of nature in the traditional theory of the social contract. This original position is not, of course thought of as na actual historical state of affairs, muche less as a primitive condition of culture. It is understood as a purely hypothetical situation characterized so as to lead to a certain conception of justice (RAWLS, 1971, p. 12).
Mas esta correspondência entre a posição original e o estado de natureza não se dá em grau, quantidade e valor, e sim somente através de equivalência de parentesco muito tênue, conforme já foi exaustivamente tratado.
E como o mecanismo de revestimento para escapulir da semelhança integral entre o Estado de Natureza e a posição original é representado pelo véu da ignorância, há de se conhecer pelas palavras do próprio autor norte-americano a formatação de significação desta metodologia, em que
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ninguém conhece seu lugar na sociedade, sua classe ou seu status social; e ninguém conhece sua sorte na distribuição dos recursos e das habilidades naturais, sua inteligência, força e coisas do gênero. Presumirei até mesmo que as partes não conhecem suas concepções do bem nem suas propensões psicológicas especiais. Os princípios de justiça são escolhidos por trás de um véu da ignorância. Isso garante que ninguém seja favorecido ou desfavorecido na escolha dos princípios pelo resultado do acaso natural ou pela contingência de circunstâncias sociais. Já que todos estão em situação semelhante e ninguém pode propor princípios que favoreçam sua própria situação, os princípios de justiça são resultantes de um acordo ou pacto justo (RAWLS, 2008, p. 15).
Destarte, a “posição original” visa uma igualdade dentro do campo de pessoas morais em que se extraem princípios de justiça derivados de um não conhecimento de fortunas naturais e demais contingências; e tais princípios são gerados eqüitativamente dentro do plano de uma elaboração metodológica, atingindo o alvo da justice as fairness. Com isso fica evidente o espírito que a posição neo- contratualista de Rawls procura demonstrar, conciliando o contratualismo clássico com a tese de que não existem (ou fica difícil estabelecer) princípios definitivos e absolutos a serem escolhidos na “posição original”, o que (esta última parte) coaduna com a filosofia analítica. Sedimentado está, desta forma, que se os princípios a serem escolhidos não se pautam por um critério no qual esteja destacado um conceito de “bem” ontológico (sujeitos a forte carga da filosofia analítica) e seguem por um critério de imparcialidade moral construtivista, logo estarão sempre sujeitos a verificação através da razoabilidade. E a congregação de teorias filosóficas de séculos distintos, sublinhando a razoabilidade como o critério absoluto na elaboração principiológica da “posição original”, consegue responder que entre os diversos juízos morais divergentes, podem-se extrair juízos morais que convirjam pensados razoavelmente, sob o lume da imparcialidade moral.
2.2 O princípio da igual liberdade e os seus respectivos desdobramentos formais e materiais
Para principiar este sub-capítulo, há de se entender à luz de quais origens o pensamento de Rawls percorre em sua doutrina acerca da igual liberdade, afim de que se descubra a natureza – não no sentido metafísico ou relativamente a uma teoria do conhecimento que inspire em uma verdade absoluta ofertada por um Criador comprovada na prática, haja vista a herança lógica rawlsiana na qual toda e qualquer determinação de valores morais para algo, nada mais são do que meros
valores dados pelo próprio ser humano – da mesma, para assim fixar seus objetivos e seu papel na fundamentação de uma teoria da justiça. Há de se destacar que o liberalismo – corrente do pensamento filosófico, político e econômico, que carrega consigo o conceito de liberdade – apresentou ao longo da história duas espécies de doutrinas distintas, mas que por vezes andaram de mãos dadas, produzindo resultados sociais mais ou menos perversos: pode-se destacar (1) uma vertente econômica e (2) uma vertente político-filosófica do pensamento liberal. A primeira pode ser vista, em linhas gerais, como uma defesa de mercados livres, ou com pouquíssima, regulamentação estatal.
A segunda espécie pode ser analisada sob a ótica na qual todos os homens são vistos como iguais e livres desde o momento de seu nascimento; “that governments have a duty to respect these liberties and tolerate different religious confessions; and that polítical power is to be exercised for the common good”
(FREEMAN, 2007, p. 43). E é exatamente esta última corrente de pensamento liberal que Rawls adota em seu discurso acerca da igual liberdade em seu corpo sistemático sobre a teoria da justiça.
Ressalta-se que o posicionamento assinalado como pertencente a Rawls, é derivado fundamentalmente, por assim dizer, do filósofo John Locke, tratando do aspecto religioso principalmente na sua Carta Acerca da Tolerância, na qual expressa que “nenhum indivíduo deve atacar ou prejudicar de qualquer maneira a outrem nos seus bens civis porque professa outra religião ou forma de culto. Todos os direitos que lhe pertencem como indivíduo ou como cidadão, são invioláveis e devem ser-lhe preservados” (LOCKE, 1978, p. 9). Há de se destacar que a conceituação de bens civis em Locke é bem abrangente e não pode ser confundida com bens móveis e imóveis tão-somente, pois abarca a vida, a liberdade, a proteção física ao sujeito, assim como a posse de bens materiais externos – propriedades lato sensu, no sentido jurídico hodierno (LOCKE, 1978, p. 5).
No tocante às liberdades que dizem respeito a sociedade civil e o respeito que o governo deve ter para com o fato de que todos os homens nascem livres e iguais, ou seja, agindo visando o bem comum, é de se salientar que os homens são
“por natureza, todos livres, iguais e independentes, ninguém pode ser expulso de sua propriedade e submetido ao poder político de outrem se dar consentimento”
(LOCKE, 1978, p. 71). Tem-se, assim, limitações ao exercício do poder político, bem como ao papel da religião – tolerância –, circunscrito por determinações acerca de
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qualidades morais que os homens apresentam por natureza: livres e iguais. E tal raiz é a que Rawls segue no intuito de fundamentar sua teoria da justiça. Obviamente que o pensamento lockiano assumiu, ao longo dos tempos, variegadas correntes de pensamento com consequências distintas, que são muito diferentes do pensamento desenvolvido pelo filósofo norte-americano em tela, como o que pode se vislumbrar em Anarquia, Estado e Utopia de Robert Nozick, no qual também se vislumbra uma matiz lockiana.
Desta forma, de antemão pode-se fixar que a
Rawls‟s conception of social justice, „justice as fairness‟, is a liberal conception in that it protects and gives priority to certain equal basic liberties, which enable individuals to freely exercise their consciences, decide their values, and live their chosen way of life. Liberal governments and societies respect individual‟s choices and tolerate many different lifestyles as well as religious, philosofical, and moral doctrines (FREEMAN, 2007, p. 44).
Mas como seguir o padrão esboçado por Locke, sem cair em uma argumentação que represente uma fundamentação última da moral?
A indagação acima é efetuada pelo motivo de que o pensamento lockiano segue um padrão de investigação empirista, ou seja, ao afirmar que a igualdade e a liberdade são inerentes ao ser humano, o pensador inglês está asseverando a verdade absoluta (no plano da moralidade e da política) de sua afirmação, o que para a filosofia analítica e contemporânea (da qual Rawls é herdeiro) seria um enorme erro. Assim, pode-se esboçar que Rawls assume efetivamente o pensamento de Locke, mas sem considerar a igual liberdade como valor verdadeiro (pois implicaria em ter de provar a falsidade de todo e qualquer argumento contrário, tarefa árdua e quase inviável), mas sim como correto, pois desta forma basta criar um mecanismo metodológico que mostre coerência entre certos juízos morais, princípios morais e uma teoria moral, em que não se atestará a verdade, mas sim a correção do argumento.
Para tratar do princípio da igual liberdade em Rawls, há de se cuidar uma diferenciação básica: “Rawls‟s first principle refers, not to „liberty‟ but to „basic liberties‟” (FREEMAN, 2007, p.45). Esta distinção serve como base de enunciação na qual o filósofo norte-americano não faz uma defesa ampla da liberdade lato sensu, o que traria como implicação a necessidade de uma explanação acerca do que seria tal liberdade em si mesma ou na defesa de qualquer tipo de liberdade
(pois dentro da aposta de que há critérios de correção moral, existem liberdades indefensáveis), ou ainda na exposição que poderia redundar naquilo que se pode chamar como liberdades básicas, caso adotasse o caminho de determinar de que tipo de liberdade se está tratando, sua natureza e objetivos, o que simplesmente tomaria fôlego sem qualquer grande acréscimo a sua teoria da justiça. E, desta maneira, Rawls parte diretamente para uma análise e exposição das liberdades básicas, pois para pressupor a existência destas, há de se admitir, nem que seja implicitamente, que os cidadãos sejam livres.
Destarte, qual é a idéia central do primeiro princípio de justiça exposto por Rawls em sua teoria da justiça? Ao afirmar que todas as pessoas devem possuir um programa de liberdades e direitos iguais para todos, na qual este programa, para sua plena e satisfatória existência, deva ser compatível com os programas de direitos e liberdades de outros indivíduos, Rawls busca dizer que existem certos direitos e liberdades – não no sentido ontológico da mesma – que devem ser privilegiados em detrimento de outros direitos e liberdades em sociedade. Acresce- se que esta dinâmica engloba uma noção moral dos cidadãos, pois os toma como cidadãos livres e iguais para que assim estruturem a legislação na qual hão de conviver, no âmbito público, ao passo que lhes permitem adotar e modelar um plano de vida da forma com que desejarem, sendo isto, intrínseco a tradição liberal de Locke e Kant.
Mas se foi afirmado no parágrafo anterior que os cidadãos possuem plenos direitos de determinarem seus rumos na vida privada, por que ao tratar a teoria da justiça como um aprofundamento da tradição liberal e contratualista demonstradas por Locke, Rousseau e Kant (RAWLS, 2008, p. 13), Rawls não acresceu o pensamento de Hobbes? Ora, uma pequena digressão há de ser feita neste âmbito para entender, em linhas gerais, os motivos de não adotar o modelo contratual hobbesiano. Em um primeiro momento, o tipo de liberdade tratada por Hobbes é muito distinta das liberdades formuladas nos modelos de Locke, Rousseau e Kant:
enquanto Hobbes entende o homem no Estado de Natureza com uma liberdade ilimitada, podendo efetivar tudo o quanto deseja para a defesa de seus interesses, pois ali não há regras, se não a regra da auto-preservação, em Locke, por exemplo, ao tratar do estado de natureza e da liberdade do homem, há a seguinte afirmação:
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embora seja este um estado de liberdade, não o é de licenciosidade; apesar de ter o homem naquele estado liberdade incontrolável de dispor da própria pessoa e posses, não tem a de destruir-se a si mesmo ou a qualquer criatura que esteja em sua posse, senão quando uso mais nobre do que a simples conservação o exija. O estado de natureza tem uma lei de natureza para governá-lo, que a todos obriga; e a razão, que é essa lei, ensina a todos os homens que tão-só a consultem, sendo todos iguais e independentes, que nenhum deles deve prejudicar a outrem na vida, na saúde, na liberdade ou nas posses (LOCKE, 1978, p. 36).
Logo, para Locke, existem regras definidas para o exercício da liberdade. E neste mesmo esquema se assemelha o pensamento de Rousseau, pelo qual o homem submetido a um corpo legislativo de leis, dadas por ele mesmo através do conceito de vontade geral e na participação da comunidade, se encontra mesmo assim livre;
assim como se segue com a doutrina filosófica kantiana e as famosas leis da liberdade, conceito que parece contraditório, mas que em uma análise acurada se mostra plenamente aceitável.
Outra diferença vislumbrada entre Hobbes e os contratualistas posteriores, mais especificamente em Locke, pode ser visto a partir do ponto de vista no qual no primeiro filósofo acaba por ocorrer um pacto de transferência de poder, na qual os sujeitos, pretendendo obter segurança e tranqüilidade social, acabam por outorgar a um terceiro, o poder coercitivo da comunidade, concedendo sua liberdade em benefício estatal. Em Locke, o pacto para a formação do estado civil, ocorre por consentimento e aprovação de todos os cidadãos, objetivando preservar seus direitos originários do estado de natureza, sem concedê-los a um terceiro (pois os direitos são inalienáveis), mas sim a um corpo político unitário que representa todos os cidadãos. Há de se destacar que quando não são atendidas as expectativas sociais do governo constituído pelo consentimento de todos, ou quando o mesmo faz algo que excede aquilo que foi legitimamente pactuado, o poder político retorna para os cidadãos vistos individualmente (ASHCRAFT, 2006, p. 226-230), para que constituam novo estado ou reforme o existente, o que caracterizaria a possibilidade de uma desobediência civil, o que não se vislumbra em Hobbes.
Eis que Rawls não concebe a liberdade nos moldes hobbesianos, tampouco aceita a forma contratual de submissão total ao poder de outrem para a garantia da paz e estabilidade social. A primeira porque traria como consequência o fato de que ao se permitir que um sujeito faça tudo que lhe seja permitido para a defesa de seus interesses, acabe por não considerar outros sujeitos como detentores de um valor
intrínseco de uma igual liberdade, ou, mesmo que considere, adotaria para a resolução de conflitos, fatores contingentes como os dotes naturais ou aspectos econômicos eventuais, o que para Rawls não é justo, conforme será aclarado em outras passagens. Em um segundo momento, Rawls não aceita em hipótese alguma uma transferência de certos direitos, que em sua visão (compartilhada desde Locke), são considerados inalienáveis, contrariando Hobbes.
O presente aspecto da teoria da justiça se presta a uma investigação acerca da esfera da igual liberdade na doutrina da justiça exposta por John Rawls, enfocando esta questão, primordialmente, a partir da análise de seu opus magnum, que é Uma Teoria da Justiça. O ato de perscrutar a liberdade e sua função para a fundamentação do sistema rawlsiano como um todo, terá como objetivo central (1) verificar as bases e justificações adotadas pelo filósofo norte-americano acerca dos motivos pelos quais a liberdade é prioritária frente a igualdade, (2) em que medida a liberdade se sobrepõe em face da igualdade (ou melhor dizendo, em que dimensão e circunstâncias o primeiro princípio de justiça se agiganta frente ao segundo princípio de justiça), e (3) se de certas determinações da liberdade (como os direitos provenientes dela ou mesmo o próprio princípio da igual liberdade), Rawls não cairia em uma espécie de fundamentação última da sua teoria da justiça, levando ao entendimento de que a liberdade seria o motor absoluto de sua estrutura filosófica, o que redundaria em graves problemas de justificação, face aos avanços da lógica e da epistemologia do século passado.
Para tanto, há de se ter claro que o grande corpo crítico do pensamento filosófico de Rawls não se deteve tanto neste primeiro princípio de justiça – conforme é denominado o princípio da igual liberdade –, pois “a suposição de que os direitos civis e políticos devem ter prioridade é amplamente compartilhada em nossa sociedade” (KYMLICKA, 2006, p. 68). Mesmo sem severas críticas a respeito – cotejando com o seu segundo princípio de justiça, obviamente –, a análise da liberdade não pode ser deixada de lado, pois se o seu conceito e sua metodologia de aplicação não forem bem aclarados, todo o corpo sistemático da teoria da justiça rawlsiana pode sucumbir, ou dar margem para interpretações equivocadas (a título exemplificativo, o sentido de uma igual liberdade em Rawls é completamente distinto da concepção de liberdade atribuído por Nozick, conforme já citado).
Outra questão fulcral para a exposição em questão advém das origens e dos objetivos do conceito de liberdade adotado por Rawls: em um primeiro momento
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exsurge como um aprofundamento doutrinário de determinações emanadas por John Locke, Jean-Jacques Rousseau e Immanuel Kant, filósofos apegados a uma dogmática liberal (Rawls se diferencia fundamentalmente, entre tantas distinções, por não julgar a liberdade como um fundamento último da moral e da política); e como objetivo central, a teoria da justiça rawlsiana visa dar uma resposta na seara da filosofia política que (1) não represente uma fundamentação última nos moldes iluministas (já tratados), ao mesmo tempo em que (2) busca se esquivar das consequências ruins do utilitarismo, que traz consigo o princípio do sacrifício (maior bem para a coletividade, mesmo que um sujeito saia prejudicado), o que contraria um sistema de igual liberdade entre os cidadãos, e que era largamente defendido nos países norte-americanos.
Obviamente que ao se tratar dos mecanismos de justificação que consolidam a ordem lexical da liberdade frente a igualdade, inerente será a presença de estruturas e categorias presentes em obras posteriores a Uma Teoria da Justiça, mesmo que o foco seja nesta última. Questões acerca do consenso sobreposto, razão pública e equilíbrio reflexivo poderiam ser levantadas para dotar de maior sustentabilidade a argumentação rawlsiana a respeito deste tema, contudo, pode-se facilmente explicitar esta temática recorrendo-se a posição original, que em última análise engloba os mecanismos citados (salienta-se que os mesmos receberão tratamento adequado em outros capítulos).
Para tratar do segundo aspecto da liberdade, qual a seja, a medida pela qual esta se mostra para o sistema da teoria da justiça do filósofo em questão, é necessário verificar sobre qual arcabouço está assentado a mesma, como por exemplo, quais os direitos que dela decorrem, como os agentes são livres, quais os deveres decorrentes da liberdade, bem como o que os agentes podem fazer com a liberdade. No que tange ao terceiro aspecto a ser demonstrado, há de se ter em conta, a partir de sua intersecção íntima com o ponto que trata a respeito da limitação da liberdade, se a tentativa de prevalência da liberdade frente a igualdade, não leva a formação de um sistema, que em última análise, crie um tipo filosófico de fundamentação última da moral, alicerçada neste princípio e conceito que está sendo debatido.
Dividindo a análise da liberdade em três grupos, não se deseja criar categorias estanques, mas tão-somente dividir de forma didática e clara a conceituação de liberdade, demonstrando qual é a fundamentação exposta por