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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

SETOR DE CIÊNCIAS DA TERRA DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA

MARISTELA DENISE MORESCO MEZZOMO

PLANEJAMENTO DA PAISAGEM E CONSERVAÇÃO DA NATUREZA EM RPPNs NA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO MOURÃO, PARANÁ

TESE DE DOUTORADO

CURITIBA 2013

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

SETOR DE CIÊNCIAS DA TERRA DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA

MARISTELA DENISE MORESCO MEZZOMO

PLANEJAMENTO DA PAISAGEM E CONSERVAÇÃO DA NATUREZA EM RPPNs NA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO MOURÃO, PARANÁ

Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Geografia, Curso de Doutorado, Setor de Ciências da Terra, Universidade Federal do Paraná, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Geografia.

Orientador: Prof. Dr. João Carlos Nucci

CURITIBA 2013

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Mezzomo, Maristela Denise Moresco

Planejamento da paisagem e conservação da natureza em RPPNs na bacia hidrográfica do Rio Mourão, Paraná / Maristela Denise Moresco Mezzomo. – Curitiba, 2013.

255 f.: il.

Tese (doutorado) – Universidade Federal do Paraná, Setor de Ciências da Terra, Programa de Pós-Graduação em Geografia.

Orientador: João Carlos Nucci

1. Paisagem - Proteção. 2. Conservação da natureza. 3. Unida- des ambientais. I. Nucci, João Carlos. II. Universidade Federal do

Paraná. III. Título.

CDD: 910.1712

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AGRADECIMENTOS

Os quatro anos que se passaram proporcionaram, além de horas de leitura e pesquisa, crescimento profissional e novas amizades. Por isso meus agradecimentos se estendem a todos que participaram deste período de formação acadêmica e pessoal.

De maneira especial, expresso meus agradecimentos ao professor João Carlos Nucci pela orientação e conhecimento compartilhado. Sua forma de pensar e orientar permitiu com que a tese se tornasse um de muitos resultados.

À Universidade Federal do Paraná (UFPR) pela disponibilidade de infraestrutura de ensino e pesquisa.

Ao Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFPR pelo apoio no decorrer do período doutoral, aos professores pelas disciplinas e sugestões, aos secretários pelos serviços prestados e aos colegas de aula pela companhia.

À Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) por conceder afastamento integral durante o período de 10 meses.

Aos colegas professores do curso de Geografia da UFPR e do curso de Engenharia Ambiental da UTFPR, pela compreensão sobre a mudança institucional e pelo apoio durante a pesquisa. Aos professores, Maria Tereza de Nóbrega (UEM) e José Edézio da Cunha (UNIOESTE) pelo constante incentivo e contribuições acadêmicas.

Aos alunos do curso de Engenharia Ambiental da UTFPR, Kamila, Diego, Bruna, Maísa, Jéssica e João pela participação na pesquisa e nos trabalhos de campo e aos demais alunos pelo apoio e compreensão sobre minha ausência.

Aos profissionais do IAP, EMATER, COPEL, SANEPAR, COAMO, UTFPR, FECILCAM e prefeituras de Luiziana e Campo Mourão pelas informações, dados e entrevistas concedidas.

Ao meu esposo e amigo Frank, pelo apoio incondicional, compreensão e carinho e por ser um companheiro sempre presente.

À meus pais Luiz e Noêmia pelo apoio mesmo diante de um ‘mundo desconhecido’ e à minha irmã Celly pelas palavras de motivação e exemplo de luta.

Às amigas Andréia, Laura, Elaine, Raquel, Sumico, Karla, Juliana, Sandra, Solange, Francieli e Maria Cleide, pelas conversas e manifestações de apoio.

Ao Bertrand (versão felina) pela companhia diária ao lado do computador.

A todos, muito obrigada!

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Se não pudermos salvar a natureza fora das áreas protegidas, muito pouco sobreviverá dentro delas (WESTERN, 1989).

Dedico àqueles que conservam a natureza nos simples atos cotidianos.

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RESUMO

Entre os diferentes instrumentos utilizados oficialmente no Brasil para ações de conservação da natureza, está a criação de unidades de conservação, que abrange, entre outras categorias, as Reservas Particulares do Patrimônio Natural – RPPNs.

Esta categoria se caracteriza como área privada, gravada em perpetuidade, com objetivo de conservar a diversidade biológica. No estado do Paraná, as RPPNs são classificadas como unidades de conservação de proteção integral, se constituindo como a principal possibilidade de áreas privadas contribuírem para a conservação da natureza. No entanto, embora elas sejam reconhecidas como instrumentos para a conservação, nem sempre apresentam eficácia no cumprimento das funções da natureza, o que está diretamente relacionado à forma como ocorre a escolha e delimitação das áreas e ao tipo de gestão. Esta situação ocorre devido aos motivos que levam a criação das áreas, que em muitos casos, envolvem interesses como a possibilidade de sobreposição com Reservas Legais, a isenção de ITR e a geração de ICMS Ecológico. Diante desta problemática envolvendo esta categoria, o objetivo da pesquisa foi analisar a eficácia das RPPNs para a conservação da natureza considerando os pressupostos do Planejamento da Paisagem, o qual incorpora princípios ecológicos na análise da paisagem. Para tanto, foram selecionados três aspectos de análise: aspectos geoecológicos (tamanho, formato e arranjo espacial), influências da matriz (tipo de uso do entorno) e gestão (plano de manejo, programas). Com base nestes aspectos, foram analisadas seis RPPNs localizadas no trecho superior da bacia hidrográfica do rio Mourão, nos municípios de Luiziana e Campo Mourão, mesorregião centro-ocidental do Paraná. Os resultados evidenciaram que em relação aos aspectos geoecológicos, as seis RPPNs apresentam formato não próximo ao circular, sendo que quatro delas não abrangem nascentes e córregos no arranjo espacial. Todas as RPPNs apresentam influências da matriz, principalmente em relação aos riscos de contaminação das águas por agrotóxicos e processos erosivos, sendo predominante estas condições em três RPPNs. Nenhuma RPPN conta com plano de manejo, nem participam de programas com aplicação do ICMS Ecológico e não contam com gestão integrada. Diante destes resultados, a conclusão do trabalho aponta que as seis RPPNs apresentam eficácia comprometida no cumprimento das funções de conservação da natureza do trecho superior da bacia hidrográfica do rio Mourão, uma vez que a criação e gestão das mesmas não levam em consideração critérios ecológicos, como os propostos pelo Planejamento da Paisagem.

Palavras-Chave: Paisagem, Planejamento da Paisagem, Conservação da Natureza, Unidade de Conservação.

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ABSTRACT

The creation of conservation units is between different instruments used officially in Brazil for actions of nature conservation and it include, between other categories, the Private Natural Heritage Reserves – RPPNs. This category is characterized as private area, recorded in perpetuity, with the aim of conserving the biological diversity. In Paraná state, the RPPNs are classified as conservation units of full protection, being the main possibility of private areas contributes for nature conservation. However, although they are recognized as tools for conservation, they do not always present efficiency to perform the nature functions, which is related directly to the way that the choice and delimitation of areas as well as the kind of management are done. This situation happen due the aims of the areas creation, that many times involves interests as the possibility of overlapping in Legal Reserves, the relief of Rural Land Tax (ITR) and the generation of Ecological ICMS. Face of this problem that involve this category, the aim of this research was analyze the efficiency of RPPNs for nature conservation considering the assumptions of the Landscape Planning, which incorporates ecological principles in landscape analysis. For this, three analysis aspects were selected: geo-ecological aspects (size, form and spatial arrangement), matrix influences (kind of surrounding use) and management (plan of management, programs). Based on these aspects, were analyzed six RPPNs located in the upper watershed of the Mourão river, in the municipalities Luiziana and Campo Mourão, west-central region of Paraná. The results evidenced that, related to the geo-ecological aspects, the six RPPNs showed form not close to the circular and four of them do not include springs and streams in the spatial arrangement. All the RPPNs present influence of the matrix, mainly relating to the water contamination risks by agrochemicals and erosive processes, where these conditions are higher in three RPPNs. No one RPPN has management plan, they do not participate of programs with application of Ecological ICMS and do not have integrated management. Considering these results, the conclusion of the work indicate that the six RPPNs present efficiency compromised to comply with the functions of nature conservation in the upper watershed of the Mourão river, once the creation and management of them fail to take in consideration ecological criteria such as those proposed by the Landscape Planning.

Key-words: Landscape, Landscape Planning, Nature Conservation, Conservation Unit.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Localização do trecho superior da bacia hidrográfica do rio Mourão... 20

Figura 2 – Esquema teórico do Geossistema... 59

Figura 3 – Estruturação da paisagem: atributos e articulações... 78

Figura 4 – Modelo fragmentos-corredor-matriz de Forman... 82

Figura 5 – Biomas brasileiros com a distribuição das RPPNs... 107

Figura 6 – Principais variações nos parâmetros de estrutura dos fragmentos e da paisagem que ocorrem durante um processo de fragmentação... 117

Figura 7 – Modelos geométricos para a escolha de reservas, proposto com base na TEBI... 120

Figura 8 – Funções da vegetação em relação à dinâmica da água... 122

Figura 9 – Funções da vegetação em relação aos solos: diminuição de processos erosivos e predomínio dos processos pedogenéticos... 122

Figura 10 – Exemplo de uma RPPN com aplicação dos aspectos geoecológicos no planejamento da escolha e delimitação da área... 131

Figura 11 – Proposta de Prevedello e Vieira (2010) para organização da plantação como forma de facilitar a locomoção da fauna entre os fragmentos de mata... 135

Figura 12 – Esquema representativo da atuação dos agrotóxicos no ambiente com a interação no solo e na água... 139

Figura 13 – Modelos de planos de manejo para RPPNs... 152

Figura 14 – Proposta de gestão ambiental municipal com aplicação dos recursos do ICMS Ecológico... 161

Figura 15 – Legenda dos critérios utilizados para analisar a eficácia das RPPNs para a conservação da natureza do trecho superior da bacia hidrográfica do rio Mourão-PR... 168

Figura 16 – Análise da eficácia da RPPN Henrique Gustavo Salonski para a conservação da natureza... 169

Figura 17 – Análise da eficácia da RPPN Pasta Mecânica Hensa para a conservação da natureza... 171

Figura 18 – Análise da eficácia da RPPN Coamo II para a conservação da natureza... 173

Figura 19 – Análise da eficácia da RPPN Santa Maria I para a conservação da natureza... 175

Figura 20 – Análise da eficácia da RPPN Arthur Cesar Vigilatto – Fazenda Santa Terezinha para a conservação da natureza... 177

Figura 21 – Análise da eficácia da RPPN Arthur Cesar Vigilatto – Fazenda Mangueira para a conservação da natureza... 179

Figura 22 – Localização das nascentes fora dos limites das RPPNs Henrique Gustavo Salonski, Pasta Mecânica Hensa e Coamo II... 185

Figura 23 – Mapa de uso do solo do trecho superior da bacia hidrográfica do rio Mourão... 192

Figura 24 – Mapas temáticos do trecho superior da bacia hidrográfica do rio Mourão.... 198

Figuras 25 e 26 – Zonas de Fragilidade Ambiental 2 e 3... 204

Figura 27 – Localização da área mapeada como prioridade ‘extremamente alta... 217

Figura 28 – Zona de Amortecimento original do PELA... 219

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LISTA DE FOTOS

Foto 1 – Vista parcial da RPPN Henrique Gustavo Salonski e uso do entorno – sistema integrado agricultura e pecuária em período de solo exposto... 170 Fotos 2 e 3 – Uso do solo no entorno da RPPN Henrique Gustavo Salonski por sistema integrado de pecuária (aveia) e agricultura (soja)... 170 Foto 4 – Presença de estrada rural paralela a RPPN Henrique Gustavo Salonski com escoamento superficial direcionado ao reservatório da Usina Mourão I... 170 Foto 5 – Vista parcial da RPPN Pasta Mecânica Hensa, com destaque para a nascente próxima aos limites da área... 172 Fotos 6 e 7 – Solo exposto em área de plantação de feijão com sistema de irrigação no entorno da RPPN Pasta Mecânica Hensa... 172 Fotos 8 e 9 – Vista parcial da RPPN Coamo II com destaque para a presença de ruptura de declive e afloramento rochoso na média alta vertente, com formação de campo litólico 174 Fotos 10, 11 e 12 – Estrada rural perpendicular a RPPN Coamo II e ocorrência de processos erosivos (laminar e linear)... 175 Foto 13 – Vista parcial da RPPN Santa Maria I fazendo conectividade com APP de uma nascente... 176 Foto 14 – Presença de estradas rurais em posição perpendicular a RPPN Santa Maria I.. 176 Foto 15 – Vista parcial da RPPN Arthur Cesar Vigilatto – Fazenda Santa Terezinha fazendo conectividade com outro fragmento florestal... 178 Fotos 16 e 17 – Estrada rural no limite da RPPNs Arthur Cesar Vigilatto – Fazenda Santa Terezinha junto ao rio Mourão com a presença de processos erosivos... 178 Foto 18 – Nascentes próximas ao fragmento 2 da RPPN Arthur Cesar Vigilatto – Fazenda Mangueira... 180 Fotos 19 e 20 – Área de transição entre Basalto e Arenito Caiuá. Pastagem com solo exposto nas proximidades do fragmento 2 da RPPN Arthur Cesar Vigilatto – Fazenda Mangueira... 181 Foto 21 – Assoreamento no reservatório da Usina Mourão I nas proximidades da RPPN Pasta Mecânica Hensa e Coamo II... 202

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LISTA DE TABELAS E QUADROS

Tabela 1 – Categorias de UCs no Brasil, quantidade e total de área... 93

Tabela 2 – Distribuição de áreas protegidas em relação às formações florestais do Paraná... 97

Tabela 3 – Distribuição das RPPNs em relação aos biomas brasileiros... 106

Tabela 4 – Distribuição das RPPNs em relação às regiões do Brasil... 108

Tabela 5 – Ranking de total de área de RPPN por estados brasileiros... 108

Tabela 6 – Tamanho médio e amplitude dos tamanhos de RPPNs conforme os biomas 124 Tabela 7 – Distribuição das RPPNs do Paraná em relação ao tamanho da área ... 124

Tabela 8 – Superfície total das UCs e Áreas Protegidas no Paraná de 1991, 2005 e 2012... 157

Tabela 9 – Classes de uso do solo e total de área do trecho superior da bacia do rio Mourão... 193

Tabela 10 – Área total das propriedades e das RLs em relação as RPPNs... 195

Tabela 11 – Dados sobre a qualidade da água do reservatório da usina Mourão I... 200

Tabela 12 – Valores acumulados do ICMS Ecológico em Campo Mourão e Luiziana... 210

Tabela 13 – Valores acumulados do ICMS Ecológico pelas RPPN... 210

Quadro 1 – Etapas para aplicação do estudo... 21

Quadro 2 – Periodização das ideias e conceitos de natureza para o mundo ocidental... 25

Quadro 3 – Grupos e Categorias de Unidades de Conservação... 87

Quadro 4 – Funções da Natureza... 88

Quadro 5 – Contribuições das RPPNs para Conservação da Natureza... 110

Quadro 6 – Objetivos das RPPNs conforme a legislação... 114

Quadro 7 – Critérios para o estudo sobre a eficácia das RPPNs para a conservação da natureza... 115

Quadro 8 – Principais consequências da fragmentação florestal... 118

Quadro 9 – Lei e Decretos relacionados ao Plano de Manejo em RPPNs... 154

Quadro 10 – Tamanho e Formato das RPPNs... 184

Quadro 11 – Arranjo Espacial das RPPNs... 186

Quadro 12 – Influência da Matriz sobre as RPPNs... 189

Quadro 13 – Suscetibilidade a erosão das RPPNs... 197

Quadro 14 – Gestão das RPPNs... 206

Quadro 15 – UCs presentes nos municípios de Luiziana e Campo Mourão-PR... 209

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LISTA DE FLUXOGRAMAS, HISTOGRAMAS, GRÁFICO E IMAGEM

Fluxograma 1 – Procedimentos para elaboração da tese... 22

Fluxograma 2 – Sequência metodológica da proposta de McHarg... 68

Fluxograma 3 – Proposta de Planejamento de Gómez Orea... 69

Fluxograma 4 – Sequência metodológica da proposta de Bovet Pla e Vilàs... 72

Fluxograma 5 – Etapas do Planejamento da Paisagem segundo Barsch et al... 76

Fluxograma 6 – Sequência da proposta de Mateo Rodriguez et al... 80

Histograma 1 – Comparação do tamanho médio e amplitude das RPPNs estudadas em relação as RPPNs do Paraná e dos biomas brasileiros... 182

Histograma 2 – Tamanho total e médio das RPPNs em estudo em relação ao tamanho médio das RPPNs do Paraná e da Mata Atlântica... 182

Gráfico 1 – Quantidade de RPPNs criadas entre 1994 e 2011... 109

Imagem 1 – Localização das seis RPPNs em relação ao Parque Estadual Lago Azul.... 164

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

APP – Área de Preservação Permanente

CEUC – Cadastro Estadual de Unidades de Conservação CNUC – Cadastro Nacional de Unidades de Conservação COAMO – Agroindustrial Cooperativa

COPEL – Companhia Paranaense de Energia

CREA – Conselho Regional de Engenharia e Agronomia DIBAP – Diretoria de Biodiversidade e Áreas Protegidas DUC – Departamento de Unidades de Conservação

EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária FNMA – Fundo Nacional do Meio Ambiente

HA – Hectare

IAP – Instituto Ambiental do Paraná IAPAR – Instituto Agronômico do Paraná

IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade

ICMS – Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação

IBDF – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal

IPARDES – Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social IPT – Intituto de Pesquisas Tecnológicas

ITCG – Instituto de Terras, Cartografia e Geociências ITR – Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural IUCN – International Union for Conservation of Nature

MINEROPAR – Minerais do Paraná AS, Serviço Geológico do Paraná

MMA – Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal OEMA – Organização Estadual de Meio Ambiente

PCH – Pequena Central Hidrelétrica PELA – Parque Estadual Lago Azul PR – Paraná

RL – Reserva Legal

RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural SANEPAR – Companhia de Saneamento do Paraná SEMA – Secretaria Especial do Meio Ambiente

SEMA – Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos SEUC – Sistema Estadual de Unidades de Conservação

SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza SPD – Sistema de Plantio Direto

TEBI – Teoria do Equilíbrio de Biogeografia Insular UC – Unidade de Conservação

ZA – Zona de Amortecimento

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO... 15

1. A RELAÇÃO HOMEM-NATUREZA: ASPECTOS RELACIONADOS... 23

1.1 A relação homem-natureza: aspectos históricos... 23

1.2 A relação homem-natureza: influências da cultura e da religião... 28

1.3 A relação homem-natureza: o consumo... 40

1.4 A conservação diante da relação homem-natureza: aspectos conceituais.. 46

2. A PAISAGEM COMO CATEGORIA DE INVESTIGAÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DO PLANEJAMENTO DA PAISAGEM PARA A CONSERVAÇÃO DA NATUREZA.... 55

2.1 Paisagem como categoria de investigação: aspectos conceituais... 55

2.2 Métodos de estudo da paisagem... 60

2.2.1 Ecologia da Paisagem... 61

2.2.2 Planejamento da Paisagem... 63

2.3 Autores e propostas de aplicações... 67

2.3.1 Design with nature – Ian L. McHarg... 67

2.3.2 Capacidad de acogida del territorio – Domingo Gómez Orea……… 69

2.3.3 Estrutura e funcionamento da paisagem – Maria de Bolós... 70

2.3.4 Análise, diagnóstico e prognóstico – Olaf Bastian e Uta Steinhardt... 73

2.3.5 O todo complexo e suas partes – Carlos A. de F. Monteiro... 77

2.3.6 Geoecologia da Paisagem – José Manuel Mateo Rodriguez... 79

2.3.7 Estrutura da paisagem: fragmento, corredor e matriz – Richard Forman.... 81

3. AS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO COMO INSTRUMENTOS PARA A CONSERVAÇÃO DA NATUREZA: A REPRESENTATIVIDADE DAS RPPNs... 85

3.1 As funções da natureza atreladas as UCs... 87

3.2 A representatividade das UCs para a conservação da natureza... 90

3.3 A RPPN como instrumento para a conservação da natureza... 101

4. ASPECTOS GEOECOLÓGICOS E INFLUÊNCIA DA MATRIZ NA ANÁLISE DA EFICÁCIA DAS RPPNs PARA A CONSERVAÇÃO DA NATUREZA... 116

4.1 Aspectos Geoecológicos... 116

4.1.1 Tamanho e Formato das RPPNs... 121

4.1.2 Arranjo Espacial: localização e conectividade... 127

4.2 Influências da Matriz... 132

5. A GESTÃO NA ANÁLISE SOBRE A EFICÁCIA DAS RPPNs PARA A CONSERVAÇÃO DA NATUREZA... 144

5.1 Plano de Manejo... 150

5.2 ICMS Ecológico... 155

(15)

6. EFICÁCIA DAS RPPNs PARA A CONSERVAÇÃO DA NATUREZA DO TRECHO SUPERIOR DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO MOURÃO (LUIZIANA E CAMPO MOURÃO-PR)...

163

6.1 Inventário da paisagem... 165

6.2 Diagnóstico da Conservação da Natureza... 167

6.2.1 RPPN Henrique Gustavo Salonski... 169

6.2.2 RPPN Pasta Mecânica Hensa... 171

6.2.3 RPPN Coamo II... 173

6.2.4 RPPN Santa Maria I... 175

6.2.5 RPPN Arthur Cesar Vigilatto – Fazenda Santa Terezinha... 177

6.2.6 RPPN Arthur Cesar Vigilatto – Fazenda Mangueira... 179

6.3 Análise Integrada... 181

6.3.1 Aspectos Geoecológicos... 181

6.3.1.1 Tamanho e Formato... 181

6.3.1.2 Arranjo Espacial... 185

6.3.2 Influências da Matriz... 188

6.3.2.1 Processo de fragmentação e constituição da matriz agrícola... 190

6.3.2.2 As influências da matriz na conservação do solo e da água... 196

6.3.3 Gestão... 205

6.3.3.1 Plano de Manejo... 207

6.3.3.2 ICMS Ecológico... 208

6.3.3.3 Gestão Integrada... 216

CONCLUSÃO... 224

REFERÊNCIAS... 228

ANEXOS... 256

(16)

INTRODUÇÃO

A noção de natureza pode variar dependendo das influências culturais, econômicas e religiosas intrínsecas a sociedade. Estas influências também estão presentes na noção de conservação da natureza, a qual será refletida nas ações ambientais que são desenvolvidas.

No Brasil, uma das principais ações ambientais com foco na conservação da natureza, e que reflete a forma como parte da sociedade pensa sobre o que é a natureza, se refere a criação de Unidades de Conservação (UCs).

As Unidades de Conservação presentes no território brasileiro fazem parte do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), que é composto por dois grupos distintos, as UCs de Proteção Integral e as de Uso Sustentável. Dentro do grupo de Uso Sustentável está a categoria Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) definida, conforme o Art. 21° do SNUC, como área privada, gravada com perpetuidade, cujo objetivo é conservar a diversidade biológica (BRASIL, Lei n°. 9.985/00).

A RPPN pode ser criada em áreas particulares de pessoa física ou jurídica em qualquer bioma existente no país. Pode se sobrepor a áreas de Reserva Legal, sendo a criação um ato de vontade do proprietário que pode vendê-la ou transferir de nome, porém devendo manter o gravame de perpetuidade averbado na inscrição do registro imobiliário. Para compensar a perpetuidade, os proprietários recebem benefícios como o direito de propriedade preservado, a isenção do Imposto Territorial Rural (ITR), apoio do Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), preferência na análise de pedidos de concessão de crédito agrícola para projetos ligados a RPPN e a possibilidade de cooperação com entidades privadas e públicas na proteção, gestão e manejo da unidade (RESERVAS NATURAIS, 2012).

No estado do Paraná, as RPPNs estaduais integram o Sistema Estadual de Unidades de Conservação (SEUC), sendo de incumbência do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) a operacionalização dos trâmites administrativos que visam a efetivação das mesmas, bem como o registro no Cadastro Estadual de Unidades de Conservação (CEUC) e o monitoramento para implantação e qualificação ambiental (DUC/IAP, 2012). Em 2005, o estado aprovou o Decreto n°. 4.890/05 com base no

(17)

parágrafo 5º do Art. 22 da Lei do SNUC (BRASIL, Lei n°. 9.985/00), o qual passou a enquadrar as RPPNs estaduais como UCs de Proteção Integral.

Com este enquadramento, as RPPNs passaram a ter permissão para desenvolver as seguintes atividades: pesquisa científica com fins conservacionistas, turismo sustentável, educação, treinamento e capacitação, recreação, em especial para portadores de necessidades especiais e restauração e recuperação ambiental (PARANÁ, Art. 2º Decreto n°. 1529/07). Estas ativid ades devem estar previstas no plano de manejo, sendo de responsabilidade do proprietário a elaboração e execução do plano, bem como a gestão das áreas. O plano de manejo deve ser criado conforme prazos estabelecidos por lei e seguir recomendações dos órgãos ambientais.

As RPPNs, bem como outras categorias de UCs presentes no estado, promovem a geração do ICMS Ecológico, que se caracteriza como um instrumento de política pública que tem como objetivo o repasse de recursos financeiros aos municípios que abrigam em seus territórios UCs, Áreas Protegidas ou Mananciais.

Alguns autores (MESQUITA, 2004b; PINTO et al., 2004; OJIDOS et al., 2008;

OLIVEIRA, et al., 2010) descrevem que as RPPNs têm se constituído como a principal possibilidade de áreas privadas contribuírem para a conservação da biodiversidade, principalmente devido ao fato de serem a única categoria de UC com posse e domínio exclusivamente particular e por envolverem iniciativa voluntária.

Além disso, elas têm sido consideradas como instrumento complementar no fortalecimento do sistema público de proteção da natureza, se caracterizando como áreas estratégicas para implantação dos corredores ecológicos, especialmente no bioma Mata Atlântica, onde a maior parte da vegetação nativa remanescente está em áreas privadas.

Mas esta representatividade das RPPNs também tem apresentado situações de debate diante da conservação da natureza, as quais estão relacionadas a criação e gestão das áreas. Estas situações envolvem três principais temas: a criação de áreas tendo em vista os benefícios como a isenção do ITR; a possibilidade de criação das RPPNs sobrepondo áreas de Reserva Legal; e a geração de valores do ICMS Ecológico.

Nesta perspectiva, considerando que a categoria RPPN se constitui como um instrumento para a conservação da natureza – uma vez que faz parte do SNUC – mas que apresenta situações conflitantes a serem consideradas, questiona-se: as

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RPPNs contribuem para a conservação da natureza cumprindo com as funções para quais foram criadas tendo em vista os fatores envolvidos na criação e gestão das áreas? Há eficácia1 das RPPNs em relação a conservação da natureza?

Estes questionamentos instigaram a investigação sobre a eficácia das RPPNs para a conservação da natureza, trabalhando com a seguinte hipótese: as RPPNS não apresentam eficácia para a conservação da natureza quando a instituição das áreas não leva em consideração critérios do Planejamento da Paisagem.

O Planejamento da Paisagem está baseado no pensamento holístico presente na Ciência da Paisagem e se caracteriza por ser “um instrumento de proteção e desenvolvimento da natureza com o objetivo de salvaguardar a capacidade dos ecossistemas e o potencial recreativo da paisagem como partes fundamentais para a vida humana” (NUCCI, 2010, p. 20). Envolve diversos aspectos entre os quais se destacam: a proteção e desenvolvimento dos recursos da flora e fauna; a proteção e desenvolvimento de recursos potenciais para oferecer amenidade; e a proteção e desenvolvimento dos recursos água, solo e clima (KIEMSTEDT et al., 1998). A função do Planejamento da Paisagem em relação à conservação da natureza é contribuir na avaliação dos ecossistemas e na formulação de propostas de salvaguarda duradoura dos elementos naturais (solo, água, ar, clima, flora e fauna).

Neste sentido, considerando a hipótese elaborada, a pesquisa teve como principal objetivo demonstrar a importância do planejamento da paisagem diante da conservação da natureza, por meio da análise da eficácia das RPPNs.

A hipótese foi elaborada considerando a compreensão de diferentes autores sobre a relação homem e natureza, entre os quais estão Dorst (1973), Moran (1988), Pelt (1991) e Coimbra (2002), e nos pressupostos da Ecologia da Paisagem e do

1 A eficácia é entendida neste trabalho como à produção de um efeito esperado, como um resultado a ser alcançado. Conforme os dicionários Ferreira (1988) e Larousse (1992), eficaz vem do latim efficax, que é produzir um efeito desejado, alcançando a eficácia. Nesta mesma linha de pensamento, a efetividade das RPPNs também poderia ser analisada na perspectiva da conservação, sendo compreendida no sentido do que é estável, ou seja, que não apresenta variações em relação a sua existência. Conforme Ferreira (1988) e Larousse (1992), efetividade/efetivo vem do latim effectivus, e significa tornar-se efetivo, que produz um efeito real, permanente e fixo, que existe realmente, que é verdadeiro aquilo que permanece e é estável. Trazendo estas definições para o contexto da pesquisa, entende-se que a efetividade das RPPNs está relacionada ao arcabouço legal a que elas estão envolvidas, como o SNUC e os decretos federais e estaduais, os quais possibilitam a criação das áreas desde que cumpridas as exigências contidas nos pressupostos legais. No caso das RPPNs a efetividade também estará relacionada ao fato de serem UCs que apresentam como característica de criação a perpetuidade. Assim, o aspecto legal de perpetuidade de uma RPPN se constituiria de certa forma, como uma garantia de existência da área, o que a torna efetiva.

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Planejamento da Paisagem – com viés para as abordagens atreladas à ciência Geográfica – tendo como principais contribuições os trabalhos de Bertrand (1971), Gómez Orea (1978), Kiemstedt et al. (1998), McHarg (2000), Monteiro (2000), Mateo Rodriguez et al. (2004), Shafer (1990), Forman (1995), Metzger (1999) e Primack e Rodrigues (2001).

Estes e outros autores foram utilizados na construção dos capítulos 1, 2 e 3, sendo que o uso destes referenciais se justifica nas seguintes considerações:

- a noção de conservação da natureza está inicialmente atrelada à forma de pensar da sociedade, sendo refletida nos projetos e ações ambientais, conforme descrevem Moran (1988), Pelt (1991) e Coimbra (2002). Nesta perspectiva, as ações que são direcionadas para a conservação da natureza refletem o pensar dos seus gestores e isso será refletido quando os sistemas ambientais apresentarem problemas, demonstrando que há incoerência na forma de projetar e conduzir estas ações;

- o papel do Planejamento da Paisagem voltado para a conservação da natureza é indicar ações que possam reverter situações impactantes, bem como propor ações que garantam as funções destes espaços que são destinados à conservação da natureza, conforme expõem Kiemstedt et al. (1998);

- a aplicação dos estudos da paisagem pode ocorrer por meio da análise das potencialidades, o que requer o reconhecimento dos seus limites e aptidões, conforme destacado por Gómez Orea (1978) e Mateo Rodriguez et al. (2004). Neste sentido, o estudo sobre as RPPNs envolve o reconhecimento de aptidões e limitações da paisagem em que elas estão envolvidas;

- como as RPPNs fazem parte de um contexto de paisagem, torna-se importante compreender o suporte, a cobertura e a dinâmica da mesma, por meio do reconhecimento dos aspectos físicos, biológicos e antrópicos, conforme expõem Bertrand (1971), McHarg (2000) e Monteiro (2000);

- a eficácia das RPPNs para a conservação da natureza envolve aspectos geoecológicos e a matriz da paisagem, os quais mantêm relações que irão refletir na própria conservação, conforme expõem Formam (1995), Metzger (1999) e Primack e Rodrigues (2001).

Considerando esta base teórica, foram definidos três critérios para discutir a eficácia das RPPNs para a conservação da natureza, conforme descritos nos capítulos 4 e 5, organizados por meio de pesquisa bibliográfica (livros, artigos

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científicos, teses e dissertações) e levantamento de dados e informações (ICMBio, Cadastro Nacional de RPPN, SOS Mata Atlântica, IAP, DUC/IAP):

Aspectos Geoecológicos: tamanho, formato e arranjo espacial (localização e conectividade), tendo como principais referências os seguintes trabalhos: IUCN (1984), Shafer (1990), Metzger (1999) e Primack e Rodrigues (2001);

Influência da Matriz: riscos de erosão dos solos e contaminação das águas por agrotóxicos nas RPPNs, tendo como base, principalmente, os trabalhos de Forman (1995) e Metzger (1999);

Gestão: existência de plano de manejo, aplicação de recursos oriundos do ICMS Ecológico e gestão integrada, baseando-se em Galante et al. (2002); Ferreira et al. (2004), Loureiro (2002) e Dias (2007).

Com a definição destes critérios, o capítulo 6 apresenta o teste da hipótese, com o estudo de seis RPPNs localizadas no trecho superior da bacia hidrográfica do rio Mourão nos municípios de Luiziana e Campo Mourão, mesorregião centro- ocidental do Paraná. O objetivo foi analisar a eficácia das RPPNs para a conservação da natureza (vegetação, solo e água) do trecho superior da bacia, considerando os pressupostos do Planejamento da Paisagem.

O trecho superior da bacia2 hidrográfica do rio Mourão drena 905,76 km2 de área e abrange parte dos municípios de Mamborê, Luiziana, Campo Mourão e Peabiru. A bacia toda drena 1.534 km2 e pertence ao sistema hidrográfico da bacia do rio Ivaí. No trecho superior da bacia estão localizadas as seis RPPNs estudadas, as quais foram criadas entre os anos de 1997 e 1999 no entorno do Parque Estadual Lago Azul (PELA), instituído junto ao reservatório da Usina Hidrelétrica Mourão I entre os municípios de Luiziana e Campo Mourão (Figura 1).

As RPPNs estudadas estão assim denominadas:

- RPPN Henrique Gustavo Salonski (Luiziana);

- RPPN Pasta Mecânica Hensa Ltda (Luiziana);

2 A escolha pela bacia hidrográfica como base territorial ocorreu, pois a mesma se constitui como sistema natural bem delimitado espacialmente e possível de aplicação de projetos de planejamento e gestão.

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- RPPN Coamo II (Luiziana);

- RPPN Santa Maria I (Luiziana);

- RPPN Arthur Cesar Vigilatto – Fazenda Santa Terezinha (Luiziana);

- RPPN Arthur Cesar Vigilatto – Fazenda Mangueira, Fragmentos 1 e 2 (Campo Mourão).

Figura 1 – Localização do trecho superior da bacia hidrográfica do rio Mourão em relação à bacia hidrográfica do rio Ivaí e estado do Paraná, com destaque para limites municipais, localização do PELA e das RPPNs. Organização: Maristela D. M. Mezzomo, 2013.

A aplicação do estudo sobre as seis RPPNs ocorreu em três etapas conforme descrito no quadro 1. Já os procedimentos utilizados na organização da tese podem ser verificados no fluxograma 1, onde constam os principais referenciais teóricos utilizados e a sequência metodológica aplicada.

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Quadro 1 – Etapas para aplicação do estudo

Etapas Descrição/Materiais

Inventário da paisagem

- Reconhecimento do meio físico e meio antrópico por meio de pesquisa bibliográfica, levantamento de dados e informações junto a órgãos públicos (MINEROPAR, EMBRAPA, IAPAR, ITCG, IAP, SANEPAR, COPEL, IBGE);

- Trabalhos de campo para reconhecimento da paisagem;

- Uso de materiais cartográficos:

* Cartas Topográficas: Luiziana Folha SG.22-V-B-I-3 MI-2803/3, escala 1:50.000; Campo Mourão Folha SG.22-V-B-I-1 MI-2803/1, escala 1:50.000 (Ministério do Exército, 1990);

* Atlas Geológico do Paraná, escala 1:3.000.000 (MINEROPAR, 2001);

* Carta Geológica do Paraná SG.22-V-B, escala 1:250.000 (ITCG, 2006);

* Atlas Geomorfológico do Paraná, escala 1:250.000 (OKA-FIORI et al., 2006; SANTOS et al., 2006);

* Mapa de Solos do Paraná, escala 1:250.000 (EMBRAPA, 2007);

* Mapa de Formações Fitogeográficas, escala 1:2.000.000 (ITCG, 2009);

* Mapa de Vulnerabilidade Geoambiental do Paraná, escala 1:650.000 (OKA-FIORI e SANTOS, 2007; SANTOS et al., 2007);

* Imagens de satélite Google Earth 2007;

* Mapas Temáticos do trecho superior da bacia (hidrografia, geologia, geomorfologia, hipsometria, declividade e solos), escala 1:600.000, confeccionados no software de SIG Spring 5.1.6 (DEM Landsat 223/77, 05/05/2006);

* Mapa de Uso do Solo do trecho superior da bacia, escala 1:100.000, confeccionado no software de SIG ArcGIS 9.2 (DEM Landsat 223/77, 03/05/2011).

Diagnóstico da conservação da

natureza

- Pesquisa bibliográfica sobre as áreas de estudo em artigos científicos, dissertações e teses;

- Trabalhos de campo: foram realizados quatro trabalhos de campo (03/09/11, 01/10/11, 04/11/11 e 19/01/13) no entorno das RPPNs para reconhecimento visual do uso do solo, localização das nascentes, situação dos córregos e estradas, registro fotográfico e descrição visual dos elementos da paisagem;

- Entrevistas não estruturadas: foram realizadas três entrevistas junto aos representes do Departamento de Topografia da prefeitura municipal de Luiziana (30/11/11), do Parque Estadual Lago Azul (11/11/11) e da Diretoria Geral da Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente do Município de Campo Mourão (23/01/12). Os nomes dos entrevistados foram suprimidos para preservar a identidade dos mesmos;

- Aplicação dos três critérios: geoecológicos, influência da matriz e gestão;

- Organização do material cartográfico sobre cada RPPN, por meio de imagens de satélite do Google Earth e uso dos softwares Global Mapper 12 e Adobe Photoshop CS 5.1.

Análise Integrada

Análise dos resultados obtidos nas etapas do inventário da paisagem e diagnóstico da conservação.

Organização: Maristela D. M. Mezzomo, 2013.

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Fluxograma 1 – Organização metodológica da tese. Organização: Maristela D. M. Mezzomo, 2013.

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1. A RELAÇÃO HOMEM-NATUREZA: ASPECTOS RELACIONADOS

Estudar a paisagem tendo como foco a conservação da natureza passa, primeiramente, por um entendimento um tanto quanto teórico, que busca atender aos próprios anseios da ciência geográfica no que diz respeito à relação homem- natureza.

Entende-se que a relação homem-natureza é construída por meio de diferentes influências culturais, religiosas e econômicas, sendo fruto de um processo histórico. Cada um destes aspectos tem influências especificas, porém não isoladas, apresentando algum tipo de relação entre si. O resultado de tantas influências envolve uma série de formas de pensar e agir em relação aos elementos naturais, variando desde concepções que consideram a natureza como algo intocável até a visão de que ela está aí para servir ao homem.

A cultura e a religião, envolvidas por influências filosóficas e dogmáticas, estabeleceram formas interpretativas em torno dos elementos naturais, que foram ao longo do tempo, se concretizando em ações. A influência econômica se estabeleceu por meio do modo de produção, como no caso do modo de produção capitalista do mundo ocidental, em que a visão de natureza está focada no uso dos elementos naturais3 como recursos a serem explorados pelo e para o homem.

Considerar estas influências (cultural, religiosa e econômica) diante da temática ambiental, tem como intuito elucidar algumas questões que possivelmente justifiquem as ações da sociedade em relação à conservação da natureza.

1.1 A relação homem-natureza: aspectos históricos

A revolução neolítica foi um marco para a relação homem-natureza, pois até então o ser humano agia de acordo com as condições naturais que o meio lhe proporcionava. O convívio com o meio natural era baseado na exploração para a

3 Os elementos naturais são entendidos como: rocha, solo, relevo, água e vegetação. Quando os elementos naturais são utilizados para atender as atividades humanas, passam então a ser entendidos como recursos naturais.

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sobrevivência, retirando o sustento de maneira não exploratória e não havendo excedentes. Com o passar do tempo, esta relação transformou-se em uma condição de apropriação e transformação dos elementos naturais, de forma a criar situações em que à capacidade natural de recuperação do estado de equilíbrio dos ecossistemas fosse ultrapassada. No período feudal, por exemplo, o excedente começa a ser tratado como um bem de troca e mais valia, e mais tarde se transforma no próprio agente articulador das relações da sociedade, ou seja, se transforma em objeto das relações de produção (HASSLER, 2006).

Durante os séculos XIX e XX, houve um aumento do uso dos elementos naturais que foi motivado, entre outros fatores, pelo avanço tecnológico, que promoveu o desenvolvimento de mecanismos e instrumentos, ampliando as possibilidades de conhecimento sobre os elementos naturais enquanto recursos.

Isso pode ser percebido nas modificações genéticas das plantas, como no caso da soja trangênica, que adentra o século XXI com forte representatividade.

Estas transformações no decorrer dos séculos demonstram que a relação homem-natureza esteve pautada, e ainda está, em aspectos associados, como cultura, religião e modo de produção. Estes aspectos formam um complexo de relações, ideologias e práticas, que refletem no comportamento do homem e na concepção do que seja a natureza. Conforme destaca Silva e Corrêa (2009, p. 115), existe uma ampla variação de significação da palavra natureza, que está

“intimamente ligada ao contexto sócio-histórico, ao desenvolvimento tecnológico e às mudanças nas formas como o homem com ela se relaciona”.

Neste sentido, a compreensão de natureza, atualmente, é uma herança de direrentes momentos históricos, nos quais vários aspectos se distinguem, como os hábitos e o modo de utilizar os elementos naturais. Na visão de Bauab (2002, s/p), a compreensão sobre a natureza, requer um

constante diálogo com o passado, no sentido de se perceber os diversos fatores que condicionaram a emergência de uma atual concepção de natureza, o que nos remete, também, à construção de um sujeito cuja atitude perante os quadros naturais constrói sua consciência sobre ele, ao mesmo tempo em que faz aflorar uma nova produção da natureza. É justamente este contato com o passado que nos permite constatar uma radical mudança de postura do homem frente à interpretação da natureza, o que, simultaneamente, nos conduz a uma mudança de olhar e, conjuntamente, de utilização.

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Este contato com o passado, referido pelo autor, demontra a estreita relação entre as concepções de natureza e de mundo, com os elementos orientadores de períodos históricos diferentes, havendo uma variação do que se entende por natureza conforme o modelo de sociedade, como pode ser verificado no quadro 2, organizado por Hassler (2006). O autor apresenta uma periodização das ideias e conceitos de natureza do mundo ocidental por meio da exposição de diferentes períodos e aspectos da relação homem-natureza.

Quadro 2 – Periodização das ideias e conceitos de natureza para o mundo ocidental

Momento História Período Concepção de Natureza

Representa- ção da Natureza

Cultura

Aspecto dominante da

relação Homem- Natureza Idade Antiga Clássico Mito Literatura Helênica Contemplação A

Natureza e o

Homem Idade Média Teológico Divina Bíblia Teológico Temor Idade Moderna Descobri-

mentos

Fisicoteológica e Mecânica

Pintura Xilogravura

Marítima- comercial

Rural

Dominação O Homem

e a

Natureza Idade Contemporânea

Incorpora-

ção Recurso Fotografia

Litogravura Industrial Incorporação O Homem

e o Território

Idade

Contemporânea Produção Artifício Imagem

Orbital Urbana Produção Fonte: Hassler (2006, p. 12).

Percebe-se que o aspecto de contemplação que ocorreu na Idade Antiga, estava relacionado à ideia de mito, prevalecendo a representação literária da natureza. Com o tempo, a visão divina com o viés teológico da Idade Média ganha proporção e o aspecto de temor passa a prevalecer na relação. O período dos descobrimentos e expansão marítima da Idade Moderna fez com que a natureza passasse a ser vista como algo físico e mecânico, possível de ser dominada. Já na Idade Contemporânea, a mudança de concepção envolve dois momentos, a incorporação da natureza ao mundo do homem em forma de recurso e em forma de artifício, capaz de sustentar uma cultura urbano-industrial, em que a produção se concretiza sobre o território, que passa a ser uma categoria de análise importante.

Estes aspectos envolvem um campo amplo da relação homem-natureza, que intrinsecamente apresenta um detalhe que se refere, conforme Carvalho (1991), a percepção que se tem da natureza, de si prórpio e da finalidade que é dada a ela.

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Embora considerando que a natureza tem a sua própria história, ela é contada pelos homens e para os homens e, portanto, apresenta muitas respostas, pois depende dos diferentes agrupamentos humanos. Dessa forma, na busca por uma concepção de natureza “não se trata de tentar descobrir qual a correta, mas sim a que mais se coaduna com o tipo de mundo que queremos construir ou preservar” (CARVALHO, 1991, p. 116).

Neste sentido, os diferentes tipos de mundo a se construir vão variar conforme os objetivos sociais, políticos, econômicos e também cientificos. Neste último, cada ciência apresenta uma concepção diferente de natureza que vai depender do foco de análise.

No caso da ciência geográfica, a concepçção de natureza acompanhou as mudancas de contextos históricos, apresentando diferentes formatações. Conforme expõe Suertegaray (2001), a ideia de natureza era externalizada ao homem nas primeiras concepções da Geografia, sendo vista como o conjunto de elementos formadores do planeta Terra. A natureza era vista como objeto, enquanto o homem era o sujeito conhecedor e dominador.

Esta visão fragmentada de separação entre homem e natureza faz parte da herança do pensamento mecanicista de Descartes, sendo que muitos estudos foram desenvolvidos sob esta ótica, afirmando que a Geografia se constituiria como a ciência que analisa a natureza-natural, ou seja, somente o que é natural, sem considerar o homem, que se encontra fora do círculo de análise.

Por outro lado, Suertegaray (2001) destaca que os fundadores da Geografia, Ritter, Ratzel e La Blache, propuseram um objeto para a Geografia centrado na relação homem-meio (natureza), o que teria levado a constituição da categoria sociedade como foco de análise geográfica. Para os geógrafos críticos, a Geografia teria tentado no seu início, naturalizar o homem na medida em que o via como mais um constituinte do espaço geográfico.

Com o passar do tempo, ocorre a aproximação da Geografia com a Sociologia, com a Economia e a Ciência Política, fazendo com que os estudos passassem a se preocupar

com o espaço geográfico, entendendo-o como resultado das formas como os homens organizam sua vida e suas formas de produção.

Nesta perspectiva, a Geografia concebe a relação natureza- sociedade sob a ótica da apropriação, concebendo a natureza como

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recurso à produção. Este debate, por vezes embate e combate, ampliou a visão social e econômica da constituição do espaço geográfico, mas limitou a possibilidade analítica da natureza em si, no seu corpo referencial (SUERTEGARAY, 2001, s.p.).

Neste sentido, a ideia de que o homem é, ao mesmo tempo, ser natural e social parece evidenciar-se. Para Silva (1991), é impossível dizer o que não é natureza no planeta terra, já que o homem é ao mesmo tempo síntese do social e indiscutivelmente natural, se apresentando tanto com uma natureza

orgânica porque tem uma via mecânica dentro de si e inorgânica porque contém uma dimensão espiritual e intelectual, num corpo também inorgânico, que o faz transformar continuamente o que está fora e dentro de si. No homem reside a dupla determinação do natural e do social, do indivíduo natureza e da pessoa social (SILVA, 1991, p. 37).

Dessa forma o homem se constitui, ao mesmo tempo, como um ser natural e social4 sendo necessário entender a relação homem-natureza sob um enfoque sistêmico, em que tanto os aspectos sociais quanto os ambientais sofrem interferências importantes e com reflexos diversos.

Para Silva e Corrêa (2009) é importante redefinir as análises geográficas no que concerne a compreensão do conjunto dos fenômenos físicos em ação na superfície terrestre face aos contextos econômico e social. Para os autores, os estudos da natureza na ciência geográfica não podem ficar presos à esfera de explicações dos fenômenos naturais, uma vez que ela está presente

na informática, na cibernética, na robótica, na telemática e, sobretudo, na forma dos organismos geneticamente modificados que se apresentam como uma outra natureza, criada em laboratório.

Sob esse ângulo a abordagem da natureza ultrapassa os comandos naturais, vai além de seu conteúdo sócio-espacial, pois, sua materialidade também resulta do ato político e econômico (SILVA e CORRÊA, 2009, p. 112).

Diante disso, entende-se que as variadas formas de compreensão sobre natureza são frutos de um pensar construído, trabalhado e retrabalhado pelos

4 Para Vesentini (1997, p. 20) a ideia de natureza apresenta um duplo significado: uma concepção de mundo que envolve a realidade, universo e meio circundante do homem, excluindo os artefatos construídos pela sociedade; e as relações práticas da sociedade com o seu habitat, incluindo a produção econômica, a organização do espaço e as relações simbólicas.

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respectivos atores sociais de cada período histórico. Uma única concepção da relação homem-natureza não daria conta de atender todas as variáveis existentes devido aos diferentes contextos sociais, políticos e econômicos construídos ao longo do tempo.

1.2 A relação homem-natureza: influências da cultura e da religião

Aspectos culturais e influências religiosas envolvendo crenças, mitos e tradições são considerados por muitos autores (DORST, 1973; MORAN, 1988;

PELT, 1991; COIMBRA, 2002) como elementos importantes na formulação de conceitos, atos e comportamentos que envolvem a relação homem-natureza.

Conforme Moran (2008, p. 45), a dicotomia existente entre as pessoas e o ambiente físico

está profundamente integrada no pensamento e nas religiões ocidentais, uma dicotomia que, até os dias de hoje, influencia nossas escolhas e ações, e que fornece uma concepção que trata o meio ambiente como externo à nossa existência, sujeito ao nosso controle e domínio. Essa visão contrasta totalmente com a de certas religiões e culturas orientais, que consideram a existência humana algo profundamente integrado à natureza através dos ciclos de encarnação e reencarnação.

Para o autor, esta dicotomia tem apresentado importância central para o pensamento ocidental desde tempos imemoriais, pois teria possibilitado progressos no desenvolvimento das abordagens, tanto materialistas quanto simbólicas das interações entre o homem e a natureza. Por outro lado, teria impedido avanços significativos, mantendo separadas essas duas perspectivas ao invés de buscar uma síntese (MORAN, 2008, p. 26).

Esta imagem fragmentada é, ainda segundo Moran (2008, p. 27), ”uma idéia específica da sociedade ocidental, não necessariamente partilhada por outras culturas. A maior parte dos povos do mundo não exterioriza a natureza dessa maneira. Ao contrario, considera o homem como parte da natureza”.

Esta exteriorização estaria relacionada ao fato de que a dialética entre sociedade e natureza é medida, conforme Oliveira (2002), pela produção, ou seja, a natureza ganha qualidade social com valores de uso. Toda modificação da natureza

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pelo homem se traduz dialeticamente por uma mudança do próprio homem, que alimenta o modelo de vida ‘escolhido’ e o transforma de maneira rápida.

Dessa forma, entende-se que a relação homem-natureza, está inserida em uma complexidade ampla a qual é estruturada, principalmente, pelo modelo de sociedade, que para manter e ampliar seu arquétipo se baseia na exploração como fonte de possibilidades de mudança e ‘melhoria’. Logo, a natureza é tida como fonte e meio de produção e que está aí para atender aos anseios de um ‘mundo’ criado e constantemente modificado.

Segundo Coimbra (2002, p. 212),

Se quisermos chegar ad cor altum, ao profundo sentido das coisas, não poderemos deixar de perguntar-nos sobre o motivo último, a causalidade verdadeira que nos leva a tratar a Natureza desta ou daquela forma. Em nossa civilização ocidental vamos encontrar muitas idéias, identificar muitos sentimentos, comprovar muitas ações que orientaram o comportamento da sociedade em relação ao mundo natural.

Para tanto, o autor propõe que o entendimento da relação homem-natureza seja feito por meio de três aspectos: a importância de uma posição cultural e intelectual, o papel da relação entre homem-natureza, e os fundamentos da relação entre homem-natureza (COIMBRA, 2002).

Importância de uma posição cultural e intelectual: estes posicionamentos são necessários na visão de Coimbra (2002) para que uma pessoa possa ter consciência sobre os seus atos, pensando e avaliando suas ações.

Porém, como os hábitos decorrem da cultura, o que resulta numa relação direta de alimento para esta se reproduzir, o processo de pensar, sentir e agir obedece “a mecanismos complicados, que os manipuladores de opiniões, os

‘marqueteiros’ e os massificadores conhecem e utilizam muito bem” (COIMBRA, 2002, p. 190).

Buscando a compreensão de como o indivíduo se comporta dentro de uma sociedade e esta diante do mundo natural, Coimbra (2002) expõe alguns questionamentos pertinentes como, “que relação existe entre o Meio Ambiente e as correntes de pensamento que constituem as grandes linhas da cultura ocidental?

Ou, até que ponto as concepções filosóficas, as crenças religiosas e as ideologias

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políticas podem influenciar as atitudes do individuo e da sociedade face à Natureza?” (COIMBRA, 2002, p. 205).

Questões bastante interessantes que o autor tenta responder por meio da análise do segundo aspecto citado anteriormente.

O papel da relação entre homem-natureza: as relações apresentam múltiplos sentidos em diferentes ciências. No caso da Ciência da Paisagem, o entendimento das relações entre os elementos bióticos, abióticos e antrópicos, é o grande desafio do conhecimento científico que se busca.

Mas, as relações também existem em situações de menores proporções como nas instâncias cotidianas das pessoas. Em ambas as situações, percebe-se que as relações são necessárias e importantes para compreender que o mundo não é estático, mas dinâmico e no caso da sociedade, são as relações que alimentam o seu funcionamento.

A visão de Coimbra (2002) engloba o aspecto de influência recíproca que um exerce sobre o outro, seja como sujeito ou como objeto. Porém, no caso do homem, a reciprocidade é maior, pois o homem detém muitos mecanismos para se relacionar com a natureza5, como, por exemplo, de ordem econômica, social e tecnológica. Se por um lado, a ação da Natureza sobre o homem ou é “ditada pelas leis do Universo que regem o planeta Terra, ou decorrem da reação (em sentido favorável ou desfavorável) à ação antrópica, de outro, a ação do Homem sobre a Natureza é ditada pelas razões que o próprio homem vem criando ao longo da sua história”

(COIMBRA, 2002, p. 210).

Para Dorst (1973, p. 19), a história da humanidade pode ser encarada como a luta da espécie humana contra o meio em que vive e sua emancipação intensiva sobre a natureza, o que se ampliou constantemente ao longo da história, uma vez que

5 Como a ação da natureza segue as leis do universo, as relações se tornam complexas de serem controladas e, ou até, mesmo, previstas, como no caso dos terremotos, por exemplo. Aí estaria uma das dependências humanas diante da dinâmica do planeta que é ao mesmo tempo complexa, mas natural e necessária para o seu funcionamento. Por outro lado, a relação homem-natureza parece não apresentar esta limitação, uma vez que é ele que cria os mecanismos de investigação, exploração e apropriação do espaço terrestre e, portanto, tem consciência dos limites a serem encontrados e nem por isso desiste de seguir ultrapassando-os. Dizer que, por exemplo, não se tem conhecimento sobre o aumento do efeito estufa com a emissão exacerbada de CO2, é um tanto quanto ingenuidade, pois já há estudos que comprovam esta teoria, a qual, portanto, deveria ser considerada.

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o homem primitivo não dispunha, evidentemente, de uma quantidade de energia mecânica suficientemente grande para que o seu impacto sobre a natureza pudesse ultrapassar certos limites estreitamente circunscritos. Mas existe apenas uma diferença de grau entre o cultivador do neolítico desflorestando para obter uma clareira e cultivar o solo, e o homem do ano 2000 que, através de explosões atômicas, deslocará montanhas e modificará o curso dos rios, obrigando-os a irrigar os desertos (...) O Homem Faber de hoje tem uma fé inquebrantável e absoluta no futuro. Amanhã deslocará montanhas, desviará rios, fará colheitas no deserto, irá a Lua e a outras partes (DORST, 1973, p. 19; 382).

Neste contexto, outros questionamentos de Coimbra são interressantes como,

“por quais razões e interesses intervimos com crescente intensidade no mundo natural? Por que lhe infligimos os nossos impactos?” (COIMBRA, 2002, p. 209).

Para o autor, este seria o ponto crucial da relação homem-natureza, o porquê das ações humanas serem desta forma.

Para responder a isso, o autor discute o terceiro aspecto que busca o entendimento da relação entre homem-natureza.

Fundamentos da relação entre homem-natureza: para Coimbra (2002), influenciados pela formação histórica dos países do ocidente, resultantes da fusão da cultura greco-romana e das tradições judaico-cristãs com as nações bárbaras que se alastraram pela Europa a partir do século IV, existem três grandes grupos que fundamentam a relação homem-natureza: I) filosófico; II) religioso; e III) político.

I) Filosófico: está baseada na análise da interferência do homem sobre a natureza que se deve a moderna civilização industrial e está associada ao processo de desenvolvimento socioeconômico e ao avanço da tecnologia desencadeados nos últimos séculos. Com a queda da filosofia clássica, movida pelas investidas do racionalismo jovem e do rígido método cientifico que se afirma com Descartes, novos pensamentos e posicionamentos filosóficos do homem face à natureza surgem, entre os quais três se destacam: a) dessacralização da natureza; b) quantificação do mundo; c) exploração do meio ambiente (COIMBRA, 2002, p. 213).

a) Dessacralização da natureza diz respeito a um modelo de homem light, em que tudo deve ser e acontecer sem maiores comprometimentos, sem riscos, com segurança garantida. Ao citar a obra ‘O Homem Moderno: a luta contra o vazio’ de Enrique Rojas, Coimbra, discute o atual modelo de homem, em que o vazio faz parte do seu cotidiano e as ações e reações (quando existem) são mera reprodução de situações já vivenciadas. Segundo Rojas (1996, p. 30 apud Coimbra 2002, p. 215),

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“surge o novo homem cool, representado pelo telespectador que, com o controle remoto, passa de um canal a outro procurando não sabe bem o quê, ou pelo sujeito que dedica o fim-de-semana a leitura dos jornais e revistas, quase sem tempo – ou sem capacidade – para outras preocupações mais interessantes”. O homem teria passado, conforme Coimbra (2002), a insistir na secularização do conhecimento como única forma legitima da ciência, não sendo mais o intelecto humano, mas “as máquinas que decidem o que é o homem, o que é inteligência, o que é verdade. O céu é o que vemos; o outro lado do céu – l’autre côté du ciel – não pode jamais ser atingido. O mundo é aquilo que palpamos; o resto não conta ponto” (COIMBRA, 2002, p. 217). A dessacralização, portanto, parece ter se tornado um processo normal e, de certa forma, necessário diante da natureza, pois ocorre de forma nítida e rápida, criando, de certo modo, um antagonismo entre apropriação e transformação e visão divina dos elementos6.

b) Quantificação do mundo na visão de Coimbra (2002, p. 228), está relacionada ao fato de que o foco central dos homens se concentra em ‘ter mais’, o que faz das pessoas seres desatinados. Na opinião do autor “a concepção quantitativa da natureza não pode esconder a sua decepcionante insuficiência, quando a concepção qualitativa não é o motor e guia, mas somente o reboque secundário da nossa caminhada”. Conforme expõe Schuon (1953), o dia-a-dia das pessoas demonstra que elas estão mais preocupadas com o ‘ter’ do que com o ‘ser’, sendo cada vez mais raro (embora que representativo) encontrar situações em que as pessoas estão voltadas para o ‘ser mais’ e realizar aspirações profundas e humanas7.

c) O terceiro aspecto do fundamento filosófico que determina as relações homem-natureza, descritos por Coimbra (2002), diz respeito à exploração do meio ambiente desencadeada pelo homem. A visão pragmática mercantilista sobre a natureza transformou-a em mercadoria de uso e troca. Para o autor, a “expansão descontrolada do consumo desperta novas tecnologias para atenderem à demanda.

E aí se processa uma reação em cadeia (...) cria problemas sociais e políticos,

6 Estas mudanças estariam relacionadas com o pensar mecanicista, que na visão de Schuon (1953), citado por Coimbra (2002), se constitui o mal social e político do Ocidente, o qual engendra os grandes males de que o mundo de hoje estaria padecendo.

7 Segundo Pelt (1991, p. 46), o mal-estar econômico e a desorientação moral da sociedade atual, são conseqüências naturais da concepção exclusivamente quantitativa e material do progresso, a qual se expandiu com a visão produtivista que marcou as duas primeiras etapas da história econômica do pós-segunda Guerra Mundial, a da reconstrução e a da expansão.

Referências

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